Donald Trump tem interesse em difundir a percepção de que a esquerda vence eleições mediante fraude. E de que não abandona seus aliados estrangeiros. Mas, por ora, não pretende deteriorar as relações com o presidente Lula. Isso fica claro nas declarações de Trump e na forma como o governo americano ajudou Flávio Bolsonaro a chegar aos EUA. O avião do trecho Puerto Iguazú-Miami foi fretado por Jason Miller, assessor de comunicação de Trump para as eleições ao Congresso de terça-feira.
Miller não é funcionário da Casa Branca, e o envolvimento do Departamento de Estado no acolhimento a Flávio foi burocrático, por meio da emissão de vistos. Não que no departamento não haja o desejo de acuar o governo Lula. Mas seu envolvimento institucionalizaria a aliança entre Trump e os Bolsonaros, prejudicando a relação com o Brasil.
Miller é lobista e prefere atuar na esfera
privada. Participou das três campanhas de Trump, e se juntou à sua equipe em
meados deste ano diante de sua impopularidade, que se reflete nas dificuldades
eleitorais dos republicanos.
Seu momento de maior proximidade com o
secretário de Estado Marco Rubio foi uma viagem para a Índia em maio. Miller
tinha um contrato de US$ 1,8 milhão com o governo indiano para facilitar as
negociações com a equipe de Trump.
Quando veio participar da Conferência de Ação
Política Conservadora, em setembro de 2021, foi interrogado pela Polícia
Federal antes de embarcar de volta aos EUA. Ele era suspeito de espalhar
desinformação contra o sistema eleitoral brasileiro, no inquérito das milícias
digitais, liderado por Alexandre de Moraes.
Miller pediu ajuda a Eduardo Bolsonaro para
conseguir advogado de defesa. Claro que o acolhimento a Flávio recebeu o
endosso de Trump. Mas não a ponto de declará-lo “o verdadeiro presidente” ou
“líder do Brasil”, como pretendia o senador nas duas versões de sua chamada
“carta golpista”. A Casa Branca deu o número do celular de Miller aos
jornalistas que perguntaram sobre a ajuda a Flávio: “perguntem a ele”.
A prioridade de Trump é reduzir a influência
da China na América Latina. Em maio, ele recebeu Lula na Casa Branca uma semana
antes de visitar Xi Jinping, para demonstrar capacidade de tirar o Brasil da
órbita chinesa.
Ao manter o diálogo com Lula, Trump também
procura reforçar sua posição de líder das Américas. Uma relação ruim com o
governo da segunda maior economia do continente enfraqueceria essa posição.
O tarifaço contra produtos brasileiros é
resultado de uma política do governo Trump de pressionar por relações
comerciais mais favoráveis, do alto protecionismo e resistência do Brasil a
reduzir as tarifas que protegem sua indústria.
O mesmo se aplica à designação do PCC e do
Comando Vermelho como organizações terroristas. Não são medidas contra Lula,
mas consistentes com políticas adotadas globalmente.
Essa disposição favorável de Trump em relação
a Lula pode mudar em breve. A provável tomada da Câmara pelos democratas levará
a investigações contundentes de corrupção e abuso de poder no governo Trump.
A principal arma do presidente para
concentrar poder e evitar os freios e contrapesos é a suposta ameaça à
segurança nacional. O Brasil de Lula pode se tornar o principal alvo da coerção
econômica e militar, com o objetivo de reduzir a influência chinesa e combater
o crime organizado.
Para isso, os EUA contarão com as parcerias firmadas com quase todos os vizinhos do Brasil. Ações militares conjuntas poderão ser realizadas rente às nossas fronteiras, elevando as tensões.

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