domingo, 27 de julho de 2008

DEU EM O GLOBO


O MUNDO REAL
Merval Pereira


NOVA YORK. Esse mundo novo multipolar de que o candidato democrata à da República dos Estados Unidos Barack Obama falou para a multidão européia, onde a solidariedade entre os antigos e novos aliados derrubaria os muros de preconceitos, é que está em jogo nas negociações da Rodada de Doha em Genebra, onde o mundo tenta encontrar meios de avançar na liberação comercial para enfrentar a crise econômica e de alimentos que o afeta. Nesse ponto, o partido de Obama tem mais dificuldades que os republicanos, tradicionalmente mais abertos comercialmente. No discurso de Berlim, por exemplo, Obama defendeu o livre comércio, mas apenas se os acordos forem "livres e justos para todos".

McCain já votou contra os subsídios ao milho para fazer o etanol americano, e teve coragem de dizer isso ainda nas primárias em Iowa, terra dos grandes produtores. E o partido republicano apóia o programa de etanol brasileiro, com um acordo assinado entre os governos Bush e Lula. Obama, ao contrário, votou a favor dos subsídios e coloca o etanol produzido com milho como uma das opções para o programa americano de combustíveis alternativos.

Mesmo que se chegue a um acordo em Genebra, nas negociações da Organização Mundial do Comércio, o Congresso americano dominado pelos democratas pode vetá-lo, pois reduziria os subsídios já aprovados. Até mesmo com relação à Europa existem divergências sérias em termos de subsídios, seja na agricultura seja nas disputas industriais entre grandes consórcios, especialmente na área de aviação.

O fim do mundo unipolar dominado pelos Estados Unidos foi descrito por Richard N. Haas em recente artigo da revista "Foreign Affairs". Presidente do Council on Foreign Relations - que edita a revista -, uma entidade não-partidária com sede em Nova York, considerada uma das mais influentes em matéria de relações internacionais nos Estados Unidos, ele entende que o momento hegemônico dos Estados Unidos está superado e o século XXI será marcado por um poder mais difuso, e a influência dos Estados-nação declinará em função do aumento da influência de atores não-estatais.

Esse novo mundo vai exigir do futuro presidente americano uma capacidade de dividir o cenário internacional com "dezenas de atores possuindo e exercendo poderes de diversas maneiras, inúmeros centros com poderes específicos importantes", entre eles ONGs, organismos internacionais e países emergentes. Por enquanto, no entanto, o governo americano parece não estar disposto a abrir mão desse poder todo, e nem há sinais de que o futuro presidente, seja ele quem for, o faça.

Na recente reunião do G-8 no Japão, Estados Unidos e Itália se uniram para vetar sua ampliação, com a inclusão de países como o Brasil, África do Sul, Coréia do Sul e Índia, proposta pela França.

O candidato republicano John McCain, em recente entrevista ao "Estado de S. Paulo", deu um passo à frente e se disse favorável à entrada do Brasil e outros países no G-8, mas vetou a ampliação do Conselho de Segurança da ONU.

O professor de História da Universidade de Nova York Tony Judt, autor do recém-lançado no Brasil "Pós-Guerra", falando à coluna disse que a Itália sob Berlusconi "não pode ser levada a sério, infelizmente". A explicação para o veto seria que "a Itália vem a ser o "big boy" do G-8, situação que seria desfeita se outros entrassem. E já que a Itália não é player considerável em outros organismos, o país prefere manter o G-8 exclusivo".

Mas ele adverte: "Não tenhamos ilusão com relação a Sarkozy: a França é opositora ferrenha de abrir espaço no Conselho de Segurança da ONU para países como o Brasil e Índia, já que isso reduziria o espaço da Europa como apenas um lugar no Conselho".

Por outro lado, lembra Judt, "a administração Bush já é um "lame duck" ("pato manco"), expressão em inglês que identifica um governante enfraquecido) e reluta em tomar posições difíceis; talvez a exceção seja se Israel bombadear o Irã". Ele acha que também Obama não se oporá a uma expansão do G-8, mas considera que "trazer Índia e Brasil para dentro do Conselho de Segurança da ONU não terá o seu esforço".

Para o historiador Tony Judt, o republicano McCain "é menos sofisticado do que aparenta, e a área econômica é sua maior fraqueza. Duvido que ele tenha pelo menos pensado no G-8. Seus comentários sobre "Guerra de cem anos" no Iraque e a confusão que fez entre sunitas e xiitas sugerem um homem que pode ser mais simpático ao multilateralismo do que Bush, mas não entende realmente isso".

Na avaliação de Judt, "vai levar um longo tempo para que essa idéia de multilateralismo prevaleça, e desde que Rússia e China têm razões próprias para se comportar mal em temas como o Sudão ou Zimbábue, os conservadores na Europa e nos EUA continuarão a argumentar que quanto menos países poderosos tivermos, melhor".

Ele considera que "o Brasil e talvez a Índia são mais bem vistos como potenciais aliados do que as oligarquias autoritárias da Russia ou da China, mas vai levar um longo tempo para os Sarkozys do mundo aceitarem isso. Ele, por exemplo, não consegue ainda nem perceber como é autodestrutivo forçar a Turquia para fora da Europa".

Também Richard Haas, do Council of Foreign Relations, falando à coluna, diz não acreditar na ampliação do Conselho de Segurança da ONU, embora considere que seria uma medida necessária. "Acredito que Brasil e outras nações como Índia, África do Sul, Coréia do Sul, Japão, devem ser mais incluídas nas discussões internacionais. Mas não sou otimista com relação ao Conselho de Segurança da ONU, que considero quase impossível por causa da política". Para ele, "é mais fácil abrir o G-8, ou criar novas instituições. Precisaríamos ser criativos, flexíveis".

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


PESQUISAS DE AGORA
Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi


"Veja-se o caso das eleições deste ano na cidade de São Paulo. Tomando como base a mais recente pesquisa do Ibope, os quatro principais candidatos reúnem 84% das intenções de voto. Isso vai mudar? Até que ponto?"

Todo mundo sabe que pesquisas de intenção de voto, em eleições municipais, só são capazes de antecipar resultados quando feitas perto do pleito. Temos, já, uma boa experiência com esse tipo de eleição, no Brasil de hoje em dia, e poucos se esquecem disso quando vêem resultados como os que agora estão saindo. O que nem todos se lembram é por quê.

Trata-se de uma regra que comporta exceções, que nos ajudam a entendê-la melhor. Ou seja, embora prevaleçam os casos de pesquisas pouco conclusivas, temos aqueles em que elas conseguem prever o que as urnas vão mostrar, meses depois.

É o que acontece em eleições onde os principais candidatos são bem conhecidos. Nessas, há pouca margem de crescimento para qualquer um, pois as imagens que os eleitores fazem a respeito deles estão formadas e consolidadas. Não há, portanto, lugar para “surpresas”, salvo, é claro, se fatos novos de grande impacto ocorrerem.

Veja-se o caso das eleições deste ano na cidade de São Paulo. Tomando como base a mais recente pesquisa do Ibope, os quatro principais candidatos reúnem 84% das intenções de voto. Isso vai mudar?

Até que ponto?

O que, por exemplo, faria com que uma parte grande dos 34% que pensam votar em Marta trocasse de candidato? Quem tem essa intenção não sabe quem ela é? Não ouviu já as críticas de seus adversários e suas respostas? E será que os 66% que preferem outros nomes não sabem que ela é do PT e que Lula a apóia?

Quanto aos que pretendem votar em Alckmin, por acaso ignoram quem sã o seus oponentes? Falta-lhes alguma informação sobre o ex-governador?

Com Kassab não é a mesma coisa? E Maluf, com seus fiéis 9%, que resistem a tudo que contra ele foi dito? Há alguma denúncia “nova” que os possa escandalizar?

Casos como esse são excepcionais, no entanto. O prefeito atual, dois ex-prefeitos e dois ex-governadores, se enfrentando na mesma eleição, só em São Paulo. Na maior parte das vezes, acontece o inverso, disputas que adquirem suas cores definitivas apenas quando se chega perto do dia da votação.

Alguns casos de pesquisas feitas pela Vox Populi em 2004, de Norte a Sul do país, mostram isso com clareza. São apenas exemplos, parecidos com vários outros.

À mesma distância que estamos hoje da eleição, na segunda quinzena de julho, tínhamos o candidato do PT com grande vantagem em Porto Alegre. Nas pesquisas, Raul Pont chegava a 36%, sendo que nenhum dos outros atingia 10%. No primeiro turno, Pont obteve 35%, mas Fogaça recebeu 27% dos votos. No segundo turno, deu Fogaça.

Algo semelhante ocorreu em Manaus, onde Amazonino Mendes tinha 58% e Serafim Correa, 14%, que se transformaram em 41% e 27%, respectivamente, na eleição. Ao invés de vencer no primeiro turno, Amazonino perdeu no segundo.

Em Belo Horizonte, quem liderava em julho era João Leite, com 35 %, contra Fernando Pimentel, com 28% das intenções estimuladas. Na urna, Pimentel foi a 60% e o candidato do PSDB retrocedeu a 20%.

Tudo isso acontece por uma razão primordial: a quantidade e a intensidade de mídia que nossa legislação concede aos candidatos a prefeito, nas cidades onde existe televisão e rádio. Eles, sozinhos, dividem o precioso tempo de inserções, a única mídia que atinge o universo do eleitorado (pois só assiste ao horário eleitoral quem quer). O mesmo tempo que os candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal e estadual têm que compartilhar nas eleições gerais.

Isso muda completamente o quadro de informações do eleitorado, que pode ser apresentado e atraído por nomes novos, que desconhecia poucas semanas antes. Quem tem o que dizer, fala muito e fala rápido. Assim se fazem as “surpresas”.

Podemos ter certeza que, este ano, as teremos de novo. Quem tem juízo, olha com cautela as pesquisas de agora.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


É CEDO PARA APOSTAR
Eliane Cantanhêde


BRASÍLIA - As campanhas estão em fase de aquecimento, e não convém ainda fazer apostas. Em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife e Salvador, tudo pode acontecer. Em Curitiba, o favorito de hoje tem tudo para ganhar mesmo amanhã, mas o segundo lugar ainda vai dar muito trabalho e o que falar.

São Paulo polarizou entre Marta (PT) e Alckmin (PSDB), e qualquer aposta tem que pular o primeiro turno e focar no segundo. Tudo depende da profundidade e das conseqüências do racha tucano. No Rio, Marcelo Crivella (PRB) está em primeiro, mas 24% não dão segurança para ninguém. Jandira Feghali (PC do B) está logo ali, com 16%, e Eduardo Paes, 13%, não é só a novidade em ascensão como tem o governador Sérgio Cabral.

Em Porto Alegre, como previsto, o prefeito José Fogaça (PMDB) lidera, mas Maria do Rosário (PT), 20%, e Manuela D"Ávila (PC do B), 18%, formam uma maioria feminina e de esquerda que pode ser decisiva no segundo turno. O DEM joga suas poucas cartadas em Recife, com Mendonça Filho, e em Salvador, com ACM Neto. Mas Cadoca (PSC) e João da Costa (PT), ambos com 22%, estão na jogada na capital pernambucana. E, na baiana, há um empate técnico com o tucano Antônio Imbassahy. Entre sete capitais, Curitiba é a única com chance real de fechar a eleição em primeiro turno: o prefeito Beto Richa (PSDB) tem 72%. Mas a petista Gleisi Hoffmann, 12%, teve um desempenho meteórico na última eleição e conta com uma aguerrida militância petista.


As duas curiosidades são a dianteira de Jô Moraes em Belo Horizonte e o PC do B entre os três primeiros no Rio, em Porto Alegre e na própria BH. Mulher, paraibana, comunista e de uma sigla pequena, Jô Moraes dá um nó nos poderosos Aécio Neves e Fernando Pimentel.Pelo menos até o início da propaganda na TV e as divisões de Napoleão chegarem à Rússia. É aí que o jogo (bruto) começa para valer.

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


NA REPÚBLICA DOS BACHARÉIS
Alberto Dines


Em francês, rififi. Em vernáculo, há opções mais numerosas e sonoras: angu, auê, baralhada, babilônia, bochinche, fuzué, frege, lambança, sarilho, sururu, zorra. Começamos em sânscrito, na esfera mística da verdade absoluta para acabar em latim vulgar no pantanal dos paradoxos jurídicos, não muito longe do calão da malandragem.

O último lance da Operação Satiagraha foi propiciada por um cidadão carioca, motorista profissional, ex-aluno de direito – quem não é nesta terra? – que quinta passada entrou com uma ação popular para obter uma liminar que determine o retorno do delegado Protógenes Queiroz à chefia do inquérito que colocou Daniel Dantas na cadeia.

Wellington Borges da Silva Lúcio, ao que parece, não pretende apenas alçar o delegado da PF à condição de Elliot Ness (o intocável agente do FBI), quer confrontar a presidência da República que, aparentemente, forçou o afastamento do delegado Protógenes do comando das investigações.

Enquanto as cortes não se manifestam, a jurisprudência vacila e os autores divergem, o delegado Protógenes entregou (conforme prometera) o relatório final ao Ministério Público. Mais "enxuto", com menos 93 páginas, concentra-se mais no crime de gestão fraudulenta, exclui todos os jornalistas do relatório parcial, porém mantém as acusações à repórter da Folha de S. Paulo que antecipou, meses antes, as investigações da PF.

Curiosidades bacharelescas: como é que a imprensa soube dos detalhes a respeito do novo relatório? Inspiração divina, leitura labial ou funcionou novamente o velho e enferrujado cano dos vazamentos?

Não adianta esconder: o vazamento é a questão que deveria comandar o debate penal, não as algemas. Para isso seria indispensável uma dose menor de bacharelismo e mais atenção ao jornalismo, à imprensa (que, aliás, acaba de completar 200 anos sem qualquer comemoração). Como a PF tinha pressa e não dispunha de todos os elementos para incriminar definitivamente os acusados recorreu a uma imprensa que não resiste à tentação de publicar imediatamente, sem qualquer investigação, qualquer coisa que pareça sigilosa.

O primeiro vazamento para os jornais, há duas semanas, era altamente explosivo com nítido teor político e envolvia matéria remotamente ligada a questões financeiras, mas foi considerado estratégico para sobrepor-se ao entra-e-sai de Daniel Dantas do xilindró. Para a PF era imperioso fazer barulho, para a imprensa mostrar sua eficiência, quanto mais barulho, melhor.

Como o ministro Tarso Genro, não pode manter-se calado diante de um imbróglio tão retumbante, nesta mesma quinta-feira em evento da OAB fluminense aconselhou o cidadão brasileiro a acostumar-se com a idéia de que suas conversas telefônicas estão sendo grampeadas. A advertência não se referia à prodigalidade da justiça em autorizar gravações (são 33 mil ao mês, segundo levantamento do Globo), nem ao fato de que cada grampo é uma potencial mina de vazamentos. O ministro apenas compartilhava com a sociedade sua preocupação diante da infinita capacidade da "parafernália eletrônica" para invadir a privacidade de qualquer cidadão. O avalista do Estado de Direito não se incomoda em capitular publicamente ao Estado Big Brother, inquisidor e totalitário. Talvez tenha razão. Em questões de Direito, todos têm razão.

Então entram em campo corporações de magistrados e membros do Ministério Público apelando ao presidente da República para vetar o projeto que torna invioláveis os escritórios de advocacia. Alegam os meritíssimos e excelências que a blindagem legal impedirá decretos de busca e apreensão em escritórios de causídicos que defendem criminosos. Por acaso o veto impediria que estes advogados trabalhem em seus domicílios, garantidos pela inviolabilidade prevista na Constituição?

Com protagonistas devidamente togados, os duelos jurídicos são fascinantes: cada texto legal comporta interpretações diametralmente opostas, cada argumento contém a sua negação. Mas convenhamos: viver esta dialética só aumenta o forrobodó que impera na República.

» Alberto Dines é jornalista.

sábado, 26 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1038&portal=

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


GRANDES E PEQUENOS PARTIDOS
Marco Aurélio Nogueira

Aberto formal e efetivamente o processo eleitoral, algumas antigas e já bastante discutidas questões voltam a intrigar analistas e eleitores. Como explicar a facilidade com que adversários incondicionais e muitas vezes furiosos no plano nacional se coligam em várias cidades do País, numa demonstração de elasticidade que beira a irresponsabilidade? Como entender que aliados históricos, afinadíssimos no combate ao governo federal, não consigam caminhar juntos em alguns municípios e cheguem mesmo, como ocorre em São Paulo com o PSDB e o DEM, a se converter em adversários e facilitar as coisas para candidatos de partidos contra os quais se batem por toda parte?

Partidos amigos no plano nacional se convertem em inimigos no plano municipal e emprestam apoio a chapas que não se coadunam com os propósitos proclamados nos estatutos e documentos partidários. A “esquerda” alia-se sem muito pejo com a “direita”, dando origem a blocos desprovidos de coerência profunda. As disputas regionais são mais fortes que as nacionais e praticamente proíbem que os candidatos se declarem fiéis ou leais ao que quer que seja. Não é por acaso que os políticos não lidam bem com a fidelidade partidária e vivem tentando flexibilizá-la ou burlá-la, quase sempre em nome de uma necessária dose de “liberdade de pensamento e ação” ou da alegação de que o quadro partidário é jovem demais para ser racionalmente estruturado. Muitos dos atritos entre o Poder Judiciário e a política passam por aí. Boa parte das decepções do cidadão, também.

Dado o caráter do federalismo brasileiro e do próprio regime presidencial instalado por aqui, as eleições municipais têm enorme valor estratégico. Desempenham papel determinante tanto na sustentação dos governos estaduais e federal quanto na dinâmica das eleições para governadores e presidente da República. Deste ponto de vista, 2008 é a ante-sala de 2010. E quase tudo o que é feito hoje tem um olho depositado no que será feito daqui a dois anos.

O eleitor tem motivos de sobra para se sentir perdido e ludibriado. Dada a incoerência com que se depara, é como estivesse abandonado pelos políticos e pelos partidos.

E o que dizer, então, da força que ganham as pequenas legendas? Muitas vezes, os grandes partidos, ou os candidatos mais fortes, entregam-se a uma luta insana para obter o apoio dos pequenos. Fazem de tudo para integrá-los a suas coalizões, prometendo-lhes mundos e fundos e os anunciando como fatores decisivos, verdadeiros fiéis da balança. Quase sempre a operação é feita simplesmente para prejudicar os adversários, na linha da máxima “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”, ou seja, com o objetivo mais de atrapalhar que de somar ou agregar. É a sedução usada como mero artifício de campanha, sem muita sinceridade ou rigor.

São, evidentemente, operações legítimas, sancionadas por qualquer bom manual de estratégia política. É impossível criticar os partidos por desejarem mais apoio para suas chapas ou por pretenderem embaçar a vista e embaralhar os passos dos adversários. Apoios, em política, são como o sal da terra. Sempre têm alguma tradução prática e muito valor simbólico.

Coligações eleitorais pesam em termos contábeis. Fornecem aos partidos recursos de campanha, material de divulgação, minutos importantes na propaganda eleitoral, tribunas alternativas em certos setores, áreas ou regiões, além da possibilidade de ampliar os apoios pela via da multiplicação do número de candidatos comprometidos com o vértice da coligação.

Ao serem buscados e concretizados, os apoios funcionam como atestados de flexibilidade, desprendimento e largueza de visão, prova de que os candidatos não querem tudo, estão abertos a compartilhar os frutos da vitória desejada, como se desejassem demonstrar uma generosidade que a disputa pelo poder tende a ofuscar ou impedir. Há alianças que simbolizam um compromisso com o futuro, outras que espelham a nova face de um partido, outras ainda que são um esforço para revalidar identidades ou sugerir caminhos alternativos. Pode ser extraordinário, por exemplo, o efeito simbólico da inclusão no mesmo palanque de pessoas que pensam diferentemente ou de antigos adversários, figuras dotadas de carisma específico, heróis de batalhas passadas, ícones da nacionalidade.

Mas os grandes partidos não costumam ser muito generosos quando se trata de decidir quem ocupará a “cabeça da chapa”. Nestes casos, o desprendimento é bastante relativo, e muitas vezes não passa de dissimulação e jogo de cena.

Partidos são seres de duas almas: a conquista do poder e a organização dos interesses e opiniões. A primeira exige visão tática e estratégica, é fria e obstinada, não mede esforços para se completar. A segunda depende de cultura, ideologia, teoria social, empuxo programático, marcas de identidade. Alianças sem outro critério que não o de viabilizar o acesso ao poder, ainda que legítimas, não ajudam à alma substantiva dos partidos e podem até mesmo feri-la, apequená-la ou descaracterizá-la. Justificam-se no curto e médio prazos, mas podem ser letais no longo prazo se, por exemplo, chamuscarem a identidade e a coerência doutrinária dos partidos.

Não se trata de uma escolha de Sofia. As duas almas são indispensáveis para o partido político. Há momentos em que simplesmente não há como escolher, os fatos empurram as decisões. Mas o ideal seria sempre manter as almas em equilíbrio e integração, até para que uma possa moderar ou chamar às falas a outra.

O problema é que hoje, nestes tempos “líquidos”, consumistas e velozes em que vivemos, a alma programática e ideológica se encontra combalida, menosprezada e sem eixo para se sustentar. Com isso a volúpia pelo poder ganha completa independência e espalha sua lógica pelo sistema político e pelos mais diferentes circuitos sociais.

Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp, é autor dos livros Em Defesa da Política (Senac, 2001) e Um Estado para a Sociedade Civil (Cortez, 2004).

DEU NO JORNAL DO BRASIL


GOVERNO E CAMPANHA SOLTOS
Villas-Bôas Corrêa

NESTA FASE NEBULOSA em que a campanha eleitoral não encorpa e o governo cai na defensiva, com a inflação a arranhar a porta e a engolir nacos do Bolsa Família, o megaescândalo do Opportunity, a derramar o lixo para todos os lados veio mesmo a calhar a jogada um tanto constrangida do presidente Lula de recolher as velas e interromper o oba-oba das visitas às obras do Projeto de Aceleração do Crescimento, o sumido PAC, enquanto torce para que as coisas melhorem ou parem de piorar.

Na já longa militância política, iniciada nos tempos de ascensão do maior líder operário da história deste país e o salto para o degrau de fundador e candidato único do PT à Presidência em três tentativas malogradas até a vitória em dose dupla dos dois mandatos, Lula pagou o preço da inexperiência e da improvisação. Mas aprendeu com caneladas de erros e empurrões dos acertos. E mandou o recado de que não participará da campanha, com exceções de São Paulo e São Bernardo do Campo. E é de se tirar o chapéu o veto sumário e seco à participação da ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff e candidata à sua sucessão nos até agora murchos palanques da mofina campanha municipal para a eleição de prefeitos e vereadores. Para dourar a pílula, estendeu a proibição ao ministro das Relações Internacionais, José Múcio Monteiro, que deve limitar a sua área de atuação a Pernambuco.

Os demais ministros estão liberados para comícios e demais atos de campanha. O caso de Dilma já não tão poderosa, mas ainda a candidata única do governo para a sucessão de Lula em 2010, a conversa é outra. Nas primeiras avaliações cautelosas, exercícios que não vão além de palpites, esta campanha municipal está prometendo ser a mais medíocre desde o fim da ditadura do rodízio dos generais-presidente.

Ainda há tempo para a reviravolta, com a massificação da campanha com o horário de propaganda eleitoral em rede nacional das emissoras de rádio e televisão. Mas será uma grata surpresa a revelação de lideranças ­ poucas, não convém alimentar ilusões para não cair na fossa ­ no deserto em que tantos já perderam o rumo de casa. Em vez de confirmar candidaturas para a cadeira de Lula, muitas ambições apresentam escoriações e lanhos que podem ser fatais.

A sorte pode ser ingrata, mas não se mostrou tendenciosa na primeira fase de caminhada. Basta olhar o panorama com a isenção de quem busca entender o que está acontecendo. E começar cravando evidências: nem o governo e nem a oposição têm o seu candidato natural, apoiado pelos partidos da sopa aguada de siglas que confunde o eleitor. A oposição chamusca os seus candidatos nas fogueiras das intrigas e vaidades regionais, como nos exemplos de Minas e São Paulo. E o presidente Lula foi obrigado a acudir antes que a única candidata que não foi torrada na temporada de escândalos e grossa roubalheira das dezenas de denúncias que se perdem na burocracia judiciária, caia no mundéu do envolvimento nos sangangus do segundo escalão.

A ministra-candidata vai hibernar por algum tempo, até que as coisas melhorem e a poeira assente. E Lula mudou o modelo da agenda de viagens. Ampliou o roteiro para passar ao lago das áreas de turbulência e distraiu-se com o exotismo de civilizações bizarras nos cafundós da Ásia e da África, além da atenção permanente na consolidação do projeto de liderança continental. Escorado na proibição constitucional e com a ministra-candidata em quarentena, evitará as visitas às obras e lançamentos de projetos do PAC, com todas as evidências de campanha eleitoral. Mas não faltaram motivos para aborrecimentos.

Não é apenas o projeto da ministra-candidata que reclama cuidado: o PT é um manancial de amofinação. Ainda agora, o serviço de inteligência federal confirma que o ex-deputado petista, José Greenhalgh é um dos lobistas suspeitos de ligação com o banqueiro Daniel Dantas e que teria exigido US$ 260 milhões para viabilizar a fusão entre a Brasil Telecom e a OI.

Tudo poderia ser varrido para debaixo do tapete se a inflação não tivesse rompido a cerca e voltasse a ameaçar novo surto, com a elevação do preço dos gêneros de primeira necessidade da alimentação dos pobres e remediados e a ronda das maquinetas da remarcação dos preços nos mercados.

DEU EM O GLOBO


VENDENDO UTOPIAS
Merval Pereira


NOVA YORK. O mundo solidário que o candidato democrata Barack Obama profetizou poeticamente no seu já histórico discurso em Berlim não é uma realidade palpável, embora seja difícil se opor a ele. Apesar do sucesso de audiência, e a conseqüente exposição midiática que o showmício de Berlim lhe proporcionou, o candidato democrata está recebendo mais críticas do que seria de se esperar, aqui e no exterior, não apenas pelo conteúdo do pronunciamento, que teria sido histórico simbolicamente, e não em substância, mas, sobretudo, pela imagem de presunção que deixou em seu rastro. A retórica do candidato que melhor encarna uma visão multilateral do mundo pode não ajudar Obama internamente, mas pode também não passar disso, uma retórica que impressiona as multidões, especialmente os jovens, mas que não se traduzirá em mudanças concretas na política externa, mas apenas cosméticas.

O professor de História da Universidade de Nova York, Tony Judt, autor do best-seller "Pós-Guerra", recentemente lançado no Brasil, por exemplo, falando à coluna, diz que Obama pode decepcionar os estrangeiros que esperam mudança radical na política externa dos Estados Unidos:

"Ele é percebido nos Estados Unidos como fraco em política externa e temas militares, e vai querer mostrar-se capaz de firmeza e de olhar para os interesses americanos em primeiro lugar".
Embora considere que Obama "certamente entende o mundo contemporâneo melhor do que McCain", Judt diz que "na presente situação econômica, concessões generosas para fortalecer estados estrangeiros competidores teriam consideráveis resistências dentro de casa".

Passados os momentos de maior emoção, e retirada da cena política a honra patriótica de ver-se o mundo aos pés de um americano, já é possível analisar-se a fala de Obama sob dois aspectos: o da apresentação pessoal e o da representação oficial de um provável futuro presidente dos Estados Unidos.

No pessoal, o que ficou registrado para setores conservadores foi a soberba do candidato, que teria sido demonstrada em pelo menos dois momentos do discurso. Primeiro, ao abrir a apresentação, Obama fez um gracejo, dizendo que sabia que ele era diferente dos políticos americanos que ali estiveram, referindo-se indiretamente a sua cor. Parece claro que estava se referindo ao democrata John Kennedy, ou até mesmo ao republicano Ronald Reagan, ex-presidentes que fizeram discursos históricos em Berlim.

Mas, além disso, houve quem se lembrasse que tanto Colin Powell quanto Condoleezza Rice, dois negros, como secretários de Estado do governo americano, rodaram o mundo com posição política de destaque e, portanto, não era o caso de Obama destacar essa sua "diferença", muito menos ele, que diz não querer fazer da cor um motivo de campanha.

São situações distintas, claro, Obama é o primeiro negro candidato a presidente da República com chances reais de vitória, e poucos, muito menos Powell ou Rice, levariam centenas de milhares de pessoas às ruas de Berlim, a não ser que fosse para protestar contra a guerra do Iraque, como aconteceu em diversas ocasiões. Mas o registro desse pequeno sinal de soberba ficou.

John F. Cullinan, da National Review, uma publicação conservadora, anotou também uma espécie de plágio no discurso de Obama, quando ele diz: "Agora, o mundo vai ver e lembrar o que fazemos aqui, o que nós fazemos deste momento".

A frase é semelhante a outra, dita por Abrahan Lincoln no Cemitério de Gettysburg, em homenagem aos mortos da Guerra Civil: "O mundo vai notar pouco, ou não vai se lembrar por muito tempo, o que nós dissemos aqui, mas não poderá nunca esquecer o que eles, os mortos honoráveis, fizeram aqui".

Mas Cullinan não deixou de destacar o tom auto-elogiativo de Obama, em contraste com a modéstia de Lincoln. Os conservadores destacaram também a exortação de Obama a que um "estado de espírito" da Guerra Fria fosse abandonado, como coisa do passado, com críticas a uma posição que seria ingênua do candidato democrata diante das constantes mensagens ameaçadoras que estariam sendo enviadas pela Rússia, tanto em relação à energia quanto ao rearmamento militar.

Também não passou despercebido o fato de que o apelo de Obama para que os países europeus despendam mais recursos e homens para ajudar a combater o terrorismo, especialmente no Afeganistão, será vão, pois diversos países europeus continuam com forte oposição popular à guerra comandada pelos EUA.

Para o professor Tony Judt, "a Europa não tem posição unificada em política externa nas questões críticas como guerra do Iraque, Oriente Médio, Rússia, Turquia, e essa é sua mais importante, e talvez incapacitante, fraqueza".

O aspecto messiânico da atuação do candidato democrata é o que mais incomoda a parte do público - e da mídia - que não aderiu à Obamamania. Ao mesmo tempo, é difícil acreditar que Obama seja ingênuo a ponto de imaginar um mundo perfeito onde as barreiras de preconceitos serão derrubadas, e todos trabalharão em conjunto.

Ele mesmo deixou claro, em entrevista a uma televisão americana, que sua exortação a que os europeus participem mais ativamente no combate ao terrorismo mundial, enviando tropas para o Afeganistão, teria um resultado colateral positivo para os Estados Unidos, que precisariam enviar menos soldados para a guerra. Com o dinheiro poupado, seria possível investir mais internamente para contornar a crise econômica e aumentar a oferta de empregos.

Essa explicação pode até soar bem aos ouvidos dos eleitores americanos, mas não fará o menor sucesso entre os europeus, mesmo entre os obamamaníacos.


Continua amanhã

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


ILHA DE CUBA, PARA ONDE VAI?
Sergio Fausto

Em 26 de julho de 1953 ocorreu o ataque ao quartel de La Moncada, em Santiago de Cuba, episódio que, na narrativa revolucionária, marca o início do processo que levou ao triunfo de Fidel e seus liderados em janeiro de 1959. Passados 55 anos, Cuba encontra-se em reforma do modelo de organização econômica e social cujos traços fundamentais se definiram já no começo da década de 1960. Naqueles anos, a revolução vitoriosa enveredou definitivamente pelo caminho ou descaminho do socialismo, com a estatização praticamente completa da propriedade e dos meios de produção e o estabelecimento de um sistema de planejamento e controle da economia totalmente centralizado.

Dois conjuntos de perguntas resumem as muitas dúvidas sobre a evolução futura das reformas em andamento em Cuba. O primeiro diz respeito à amplitude e velocidade que poderão assumir as reformas econômicas e se elas desembocarão, mais cedo ou mais tarde, na transição para uma economia de mercado na ilha. O segundo se refere a se e quando serão adotadas reformas políticas e, nessa eventualidade, se haverá uma transição para a democracia em Cuba.

Em meio a tantas incertezas, uma coisa parece certa: as reformas iniciadas - parciais, sem dúvida, mas todas elas apontando inequivocamente na direção de mais liberdade econômica de mercado e menos centralização estatal - não deverão ter o mesmo destino das que, deflagradas em 1991, foram interrompidas ou revertidas cinco anos depois. A razão é que a “nova” liderança cubana, ao que tudo indica, está convencida de que ou muda a organização da economia e da sociedade ou perderá o controle político da ilha em não muito tempo.

Trata-se de um reconhecimento tácito de que o socialismo em Cuba é insustentável sem a ajuda externa que lhe proporcionava o mundo soviético, até o final dos anos 80. De fato, boa parte dos indicadores econômicos e sociais cubanos não se recuperou das perdas sofridas após o colapso da União Soviética, a despeito dos últimos três anos de alto crescimento, puxado pela elevação das cotações internacionais do açúcar e do níquel e facilitado pelas importações especiais de petróleo venezuelano.

A velha doutrina socialista tem apelo cada vez menor entre os mais jovens, que não viveram o período revolucionário e não vêem as suas expectativas atendidas por uma economia débil e um sistema público de serviços sociais em decadência. O próprio governo passou a reconhecer os problemas: cerca de 50% dos professores do ensino fundamental são profissionais improvisados, sem as necessárias qualificações, para substituir os professores que deixaram a carreira, alguns o próprio país, em busca de melhor remuneração. O saldo das reformas truncadas da primeira metade dos anos 90 é relativamente negativo: se, por um lado, desafogou a vida de alguns e melhorou as condições de oferta de alguns bens, por outro, criou novas desigualdades na sociedade e na economia cubanas e ampliou a informalidade, por onde penetram o crime e a delinqüência.

Além das dificuldades de uma marcha à ré, o momento é oportuno para avançar com as reformas econômicas. Existe abundância de capitais no mundo, em que pese a crise recente. Há interesses palpáveis de grupos europeus, sobretudo espanhóis, de investir na ilha, principalmente no setor de turismo. As perspectivas de desenvolvimento do etanol abrem novos horizontes para a estagnada lavoura açucareira e as possibilidades de exploração de novas reservas de petróleo no Golfo do México, em parceria com empresas estrangeiras, parecem promissoras. A eventual eleição de Barack Obama nos EUA poderá representar um alento adicional, com a suspensão prometida das restrições a viagens e remessas de dinheiro de cidadãos americanos e cubano-americanos para Cuba.

A estratégia do governo da ilha é clara: melhorar a situação econômica com reformas graduais visando, principalmente, a atração de investimentos diretos estrangeiros, sem abrir mão do poder político. Isso não elimina a possibilidade de relaxamento das restrições às liberdades civis e políticas hoje existentes, inclusive com a libertação de prisioneiros políticos, na medida em que facilitem concessões econômicas externas, mas não coloca de imediato sobre a mesa a carta da transição democrática e da alternância no poder.

No curto e médio prazos, a estratégia do governo conta com boas chances de sucesso. A prazo mais longo, as pressões por uma real democratização devem prevalecer. O relaxamento do regime político reduzirá o medo. A eventual melhoria da situação econômica diminuirá a energia gasta com a obtenção mesmo das coisas mais comezinhas. A ampliação do número de “produtores autônomos” reforçará os interesses em favor de uma economia de mercado com regras claras. A intensificação dos contatos com o exterior, sem a necessidade de abandonar o país, fortalecerá as expectativas de que “um outro mundo é possível”.

Como toda transição, os setores mais duros do regime vão resistir. Eles se concentram nos aparatos de segurança e nas empresas estatais, hoje não raro chefiadas por militares. A violência do processo dependerá, em parte, da atitude da “comunidade internacional”, a começar pelos EUA.

O Brasil tem um papel a desempenhar nesse processo. Faz bem quando a Petrobrás se apresenta para investimentos em parceria. Faz mal quando se cala diante das violações do regime cubano aos direitos humanos. Pior ainda, quando colabora com elas, como no caso recente dos boxeadores.

Pela significação política que tem, o assunto é maior que o tamanho da ilha. E o Brasil precisa ter uma política à altura, que não sacrifique, como a atual, a defesa internacional dos direitos humanos, princípio da nossa Constituição, em nome de mal disfarçadas simpatias ideológicas e puro e simples pragmatismo econômico.


Sergio Fausto, cientista político, é coordenador de estudos e debates do Instituto Fernando Henrique Cardoso e membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint/USP)

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MAIS TRANSPARÊNCIA PELO VOTO CONSCIENTE
Mozart Valadares Pires

A AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) tornou público por meio de sua página na internet (www.amb.com.br) os nomes dos candidatos que concorrem às eleições municipais e que estão sendo processados por condutas criminais lesivas à administração pública e/ou atos de improbidade administrativa. A denominação "lista suja", largamente utilizada pelos meios de comunicação, jamais foi utilizada pela entidade, que pautou sua iniciativa com o cuidado de não emitir juízo de valor sobre as informações colhidas, deixando exclusivamente para o eleitor esse julgamento.

Duas questões se colocam: como foram obtidas as informações e qual a finalidade da divulgação?

A AMB compilou informações existentes em bancos de dados públicos dos diversos tribunais brasileiros.

A metodologia utilizada foi bastante criteriosa, incluindo na lista as ações penais e/ou de improbidade administrativa propostas pelo Ministério Público. Ficaram de fora ações propostas por particulares, na esfera privada, e os casos que ainda estão na fase de investigação. A divulgação inclui o link para que o interessado consulte diretamente a fonte da informação.

Parece redundante divulgar o conteúdo de bancos de dados públicos e de livre acesso. Entretanto, grande parcela da população desconhece que pode consultar os sistemas dos tribunais para descobrir se alguém está sendo processado. A informação pública resta arquivada, como se fosse reservada para uso exclusivamente técnico dos profissionais do direito e para a instrução de processos, como os de impugnação de candidaturas.

A divulgação dos nomes constitui ação concreta em favor do Estado democrático de Direito e do aperfeiçoamento do sistema de representação política no Brasil.

A AMB defende o efetivo cumprimento do texto do artigo 14, parágrafo 9º da Constituição, com edição de lei complementar que estabeleça outros casos de inelegibilidade para proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerando a vida pregressa do candidato e a normalidade e a legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.

A citada norma foi definida pela emenda constitucional de revisão nº 4, de 1994, e a lei complementar, apesar do tempo decorrido, ainda não foi aprovada pelo Congresso.

A finalidade da divulgação pode ser resumida na palavra transparência.O sistema de representação política, por força da desvalorização dos partidos políticos, afasta o eleitor do processo de indicação dos candidatos.

Nas convenções partidárias, ao contrário do que ocorre em democracias amadurecidas, a participação dos eleitores é mínima. O brasileiro, em regra, não se filia aos partidos políticos e, portanto, não decide quem gostaria de ver representando os princípios e ideais que norteiam sua vida.

O desconhecimento dos mecanismos de registros públicos de informações processuais dificulta a pesquisa dos dados sobre a história de vida de cada um dos candidatos.

A AMB lançou um olhar especial sobre essas questões, em prol do esclarecimento do eleitor e do voto consciente. Em maio de 2007, a AMB apresentou um manifesto contra a corrupção em todos os setores da sociedade, pugnando pela celeridade nos julgamentos dos processos, em especial daqueles que envolvam acusações de crimes contra a administração pública e atos de improbidade administrativa, com a criação de juízos especializados nesses julgamentos, pela edição de leis que facilitem a atividade jurisdicional e a implantação de uma política judiciária nacional de combate à corrupção. Muito precisa ser feito. Os brasileiros interessados no aperfeiçoamento do sistema de representação política e na realização dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, enumerados no artigo 3º da Constituição, podem colaborar.

MOZART VALADARES PIRES, 49, juiz de direito licenciado (Recife), é o presidente da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros).

DEU EM O GLOBO


ESTÁGIO FINAL
Editorial / O Globo


A campanha eleitoral no Rio tem permitido que todos compreendam o sentido real de designações como "estado paralelo" ou "zonas de exclusão". Não se trata tão-somente de conceitos rebuscados, extraídos de textos de cientistas ou analistas políticos sobre desdobramentos da deterioração da segurança pública na região metropolitana carioca - e não só nela.

Não é de hoje a dramática e perigosa realidade da existência de feudos e capitanias em que o Estado não tem mais o monopólio da força, e, por isso mesmo, não consegue impor o cumprimento da lei e garantir o exercício de dispositivos inscritos na Constituição. O agravamento dessa situação, pela inépcia do poder público em fazer valer o estado de direito nessas áreas - outra mazela que não é apenas carioca -, foi retratado numa série de reportagens do GLOBO, há cerca de um ano, sobre como o regime ditatorial continuava - e continua - a vigorar para centenas de milhares de pessoas na região metropolitana. No posto de títere, em vez do militar de ocasião, o traficante e/ou miliciano local. Com o agravante de que, no regime militar, havia leis e tribunais; leis draconianas, mas havia. Já na ditadura do bairro, da favela, a lei é feita e aplicada na hora, pelo títere local, e com as próprias mãos.

Os currais eleitorais controlados por milicianos e quadrilhas do tráfico surgem nesta campanha eleitoral em decorrência do longo processo de degradação na segurança pública e, por conseqüência, nos usos e costumes da vida política. Um dos últimos estágios nessa metástase social que vivemos é quando a criminalidade, de colarinhos de todas as cores, começa a tomar de assalto as instituições, conquistando representatividade política pela força da coerção - de forma sutil, por mecanismos clientelistas, como os chamados centros sociais, ou pelo manejo das armas.

Os assentos na Câmara de Vereadores e na Assembléia Legislativa dos irmãos donos de milícia na Zona Oeste Jerominho (PMDB) e Natalino (DEM), no momento devidamente encarcerados, atestam o estágio avançado dessa degradação.

O caso da Rocinha, em que o traficante local registra em ata a decisão de destinar a um candidato a vereador os votos do seu curral eleitoral - curral estabelecido numa área dividida entre dois bairros onde há uma das mais altas rendas per capita do país, São Conrado e Gávea -, compõe, com Jerominho e Natalino, um cenário de terror. Nele, o estado de direito democrático será solapado por dentro das próprias instituições - o mesmo projeto bolivariano em curso na Venezuela, na Bolívia e no Equador, e talvez, em breve, no Paraguai. Usam-se, na operação de implosão da democracia, instrumentos da própria democracia. Os rebanhos de eleitores são manipulados para permitir a infiltração nas instituições de representação popular.

Por isso, bandeiras do MST - uma organização radical de esquerda já distante da questão da reforma agrária e mais abertamente voltada à tomada do poder - são desfraldadas na Rocinha. Os militantes enxergam na aliança com o tráfico e a criminalidade em geral um atalho para revogar a "ordem burguesa". Se esse projeto viesse a ser executado, na verdade o que existiria no final seria um narcoestado. Estágio a que certamente não chegaremos. Porém, para esse perigo ser mais rapidamente afastado, o poder público, em todos os níveis, deve despertar de vez para os sérios riscos que a sociedade brasileira - não apenas a carioca e a fluminense - corre.

O governador Sérgio Cabral demonstra ter a necessária vontade política para esse combate, que passa pelo saneamento da polícia fluminense. A tarefa, contudo, por sua dimensão, requer um trabalho coordenado do Palácio Guanabara com municípios e Brasília. Daí a importância de a Polícia Federal de fato entrar na investigação e repressão dos currais eleitorais usados para que a criminalidade amplie sua presença na representatividade política municipal.

O drama que transcorre de forma translúcida na região metropolitana do Rio, e de maneira menos visível em outras, deve levar magistrados da Justiça eleitoral e dirigentes partidários à reflexão. Eles podem e devem servir de barreira a que laranjas de traficantes, milicianos ou de que ramo da criminalidade seja conquistem cargos eletivos, alguns deles blindados por imunidades.

Os currais eleitorais da criminalidade reforçam, ainda, a posição defendida pelo Tribunal Regional Eleitoral fluminense (TRE-RJ), favorável a uma avaliação rígida, como deve ser, da folha corrida dos candidatos. Se valesse a interpretação pessoal do próprio ministro Ayres Britto, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Jerominho e Natalino, mesmo sem qualquer condenação final, não teriam sido candidatos. Mas Britto é minoritário no TSE.

O Congresso, por sua vez, precisa apressar a revisão da Lei das Inelegibilidades, para acabar de vez com o conflito de entendimentos entre tribunais regionais e o TSE. Impedir que pessoas condenadas em primeira instância por crimes graves ganhem passaporte para a política já será um grande avanço. Mas, antes que isso seja possível, os magistrados devem julgar atentos ao que acontece na Rocinha e em outras "zonas de exclusão".

É impensável que, restaurada a democracia depois de mais de duas décadas de trevas políticas, ela venha a ser ameaçada por traficantes, milicianos e radicais de esquerda, devido à leniência de representantes do Judiciário, do Executivo e do Legislativo. Será um retumbante suicídio institucional.

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


DOUTRINA CABRAL
Editorial /Jornal do Commercio (PE
)


A despreocupação e o descuido do poder público com a segurança dos cidadãos estão ultrapassando os limites normais. Depois de permitir que os criminosos se organizassem em máfias que se tornaram, diante da omissão da autoridade, um poder paralelo, depois de deixar que as corporações policiais se degradassem e aviltassem no despreparo, na remuneração inadequada, na indisciplina e até no conluio com as quadrilhas, agora é a vez de justificar o mau comportamento de quem deveria proteger a sociedade. Chegamos à fase de a polícia atirar a esmo contra criminosos e também contra qualquer pessoa esteja em locais de confronto. Isso não é apenas tolerado, mas explicitamente aceito, por ao menos um governador, o do Rio, Sérgio Cabral. Ele declarou que a função da polícia é atirar contra os bandidos. Prender para quê? Atingimos assim a plena democracia: todo cidadão é um fora-da-lei até prova em contrário depois de morto ou ferido.

A velha incompetência e a prepotência que caracterizam as autoridades brasileiras de um modo geral assim decidiram. Casos como os de pessoas que estão a pé ou de automóvel ao alcance da polícia, ou até dentro de casa, e são atingidas por tiros, morrem, tornam-se quase diários, principalmente na jurisdição de Sérgio Cabral. Em vez de melhorar a qualidade da polícia fluminense, ele optou pelo confronto indiscriminado nas ruas, executado por agentes geralmente despreparados. Há poucos dias, as conseqüências da Doutrina Cabral chegaram ao Recife. Vítima inocente da polícia não é novidade por aqui e pelo Brasil afora. Mas é especial o caso de Maria Eduarda, 9 anos, baleada e morta na Várzea, em ação de policiais da Companhia Independente de Policiamento com Motos (CIPMotos).

Conforme as pessoas que estavam no carro baleado e várias testemunhas, inclusive um menor assaltante que se refugiou-se no carro das vítimas, a família saía de uma festa quando foi surpreendida por assaltantes e, em seguida, por policiais que já chegaram atirando. Sete pessoas estavam no carro, cinco eram crianças. “Foi uma ação desastrosa. A polícia foi imprudente. Não analisou a situação e não tinha treinamento. Os policiais atiraram numa altura que era para alcançar quem estava dentro do carro. Tanto que Maria Eduarda foi atingida no abdome”, disse o engenheiro Márcio Malveira, motorista do carro atingido. Ele disse ainda que os PMs estavam à porta do local da festa onde parou alguns instante e viram que o carro dele estava cheio de crianças.

Feito o estrago, ceifada uma vida em botão para desespero de pais e familiares da menina, o chefe do Estado Maior da PMPE, coronel Daniel Ferreira, lembrou-se de que o curso de capacitação para os PMs lotados em batalhões responsáveis pelo policiamento do Grande Recife é deficiente. Já o secretário de Defesa Social, Servilho Paiva, garantiu que os PMs da CIPMotos passaram por treinamento de capacitação em técnicas de abordagem este ano.

Depois ele fez uma consideração estranha de que o policial nunca estará totalmente preparado “porque os bandidos estão sempre mudando as formas de abordar as vítimas”. Teriam os PMs de aprender técnicas de abordagem com os bandidos? O secretário não concorda com as críticas feitas pela imprensa à PMPE, apontada como despreparada. Ele acha que trata-se de um “fato isolado”. Mas fatos isolados assim se repetem sempre e fica tudo por isso mesmo, pois as vítimas são geralmente pobres e moram em lugares onde a polícia já chega derrubando portas e atirando a qualquer hora.

Fatos como o que estamos tratando e as circunstâncias e impunidade que os cercam tiram a confiança da sociedade na lei, na democracia, nas autoridades. O pai da criança morta disse que não vai acionar o Estado porque não adianta. Os dois policiais envolvidos no caso foram deslocados para funções burocráticas. Os superiores passam a mão na cabeça de subordinados que assim agem, pois sabem que eles são mal treinados e mal pagos, e sabem também que nada vai mudar e, se punissem e afastassem policiais que assim agem, sobraria muito pouca gente nas corporações.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1037&portal=

DEU EM O GLOBO


CIDADE FEUDALIZADA
PALAVRA DE ESPECIALISTA
Luiz Werneck Vianna – Professor do IUPERJ


A cidade do Rio está dividida em feudos eleitorais, tanto nas áreas urbanas quanto nas comunidades carentes. Mas, nas favelas cariocas, os currais eleitorais exibem sua face mais perversa, impedindo candidatos de fazer campanha e coagindo moradores a votarem nos escolhidos pelo tráfico ou pelas milícias. A opinião é do cientista político Luiz Werneck Vianna, do IUPERJ.

- A cidade está toda feudalizada. Nos setores subalternos, pela milícia, pelo tráfico. No mundo urbano, igualmente está feudalizada. Cada pequeno lugar, cada esquina, onde há possibilidade de uma vida mercantil qualquer, tem alguém ligado a uma subprefeitura, a uma administração regional. A orla marítima é um exemplo. A cidade está toda ela repartida em territórios, e cada território entregue a donatários. A diferença é que, nas favelas, o território não é livre. Na praia e em outras áreas urbanas, os candidatos podem circular.

Para Werneck Vianna, o fenômeno que se reproduz também nos centros sociais de candidatos, tem outra conseqüência preocupante: o fim do voto de opinião no Rio, cidade tradicionalmente conhecida por essa característica. Ele lembra a Câmara de Vereadores, com raras exceções, está ocupada por expressões dessas clientelas, com trabalhos ditos assistenciais dominando o cenário eleitoral.

- Se essa feudalização ocorre até na parte nobre da cidade, onde o Estado pode ser melhor percebido, imagine no mundo popular. Ai, o curral eleitoral atua mais fortemente , com coação física aos moradores e uso da violência. O voto popular no Rio de Janeiro não é livre.

Para o professor, embora os candidatos que disputam o voto de opinião, como Chico Alencar (PSOL), Fernando Gabeira (PV), Jandira Feghali (PCdoB) e Alessandro Molon (PT), critiquem com mais freqüência, é dever de todos os candidatos denunciar os currais. Ele ressalta que, nesta eleição, está se consolidando uma estratégia perigosa por parte dos milicianos: agora não tentam só ter acesso aos políticos, mas trabalham para serem eleitos também.
(Cláudia Lamego)

DEU EM O GLOBO


JUNGMANN: TRÁFICO CONTROLA PEÕES DO PAC


Deputado denuncia ligação de bandidos e líderes de comunidades


BRASÍLIA. O presidente da Comissão de Segurança da Câmara, deputado Raul Jungmann (PPS-PE), denunciou ontem ao diretor interino da Polícia Federal, Romero Menezes, que chefes do tráfico se associaram a líderes políticos da Rocinha e do Complexo do Alemão para controlar a contratação de peões nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nas favelas. Segundo Jungmann, o grupo se associou para pressionar eleitores a votar em candidatos indicados pelos chefes locais.

- É chocante. Meio milhão de pessoas sem poder votar livremente. É a ditadura do narcotráfico em plena democracia - disse.

Segundo o deputado, Menezes prometeu repassar as informações à Diretoria de Inteligência. Menezes sugeriu a Jungmann que apresente as denúncias também ao Ministério Público Eleitoral. A partir daí, seriam abertos procedimentos formais de investigação criminal relacionada às eleições no Rio neste ano.

Jungmann entregou dossiê com detalhes de encontros entre líderes comunitários e chefes do tráfico. O documento aponta supostos vínculos entre o presidente da Associação de Moradores da Rocinha, Luiz Cláudio de Oliveira, o Claudinho da Academia, candidato a vereador pelo PSDC, e Nem, acusado de chefiar o tráfico na favela. O relatório informa que Nem chefia reuniões com mais de cem líderes comunitários todas as noites de quarta-feira. Numa delas, teria pedido a todos que fizessem campanha para Claudinho e não permitissem a entrada de adversários.


Também teriam sido distribuídas fichas para cadastrar eleitores. Com base nas fichas, seria possível saber se os eleitores cumpriram a promessa de votar nos indicados. O clima de coação geral também se repetiria nas áreas do Complexo do Alemão controladas por um traficante conhecido como Jorginho.

DEU EM O GLOBO

ATA DO TRÁFICO DÁ ORDENS A CURRAL
Ediane Merola e Flávio Tabak

Na casa do traficante da Rocinha, polícia apreende texto que ordena coação a eleitores

Um documento com determinações expressas, exigindo "todo empenho para o candidato da Rocinha, não aceito derrota!!!", foi encontrado ontem dentro da casa do chefe do tráfico de drogas na favela, Antônio Bomfim Lopes, o Nem. A ata de duas páginas, que lista nove itens que seriam discutidos numa reunião na favela, foi apreendida em operação policial ontem na Rocinha e apresentada pelo delegado Allan Turnowski, diretor das Delegacias Especializadas, que comandou a operação para prender traficantes da facção criminosa local. Para o delegado, o documento prova que o tráfico transformou a favela num curral eleitoral.

Segundo denúncias, o traficante Nem apoiaria o candidato a vereador Claudinho da Academia (PSDC), presidente da Associação de Moradores da favela, que nega ter o suporte do tráfico. O próprio Claudinho já disse, porém, que toda a Rocinha está com ele, que "cem líderes" da comunidade fecharam o apoio à sua candidatura. Uma vez escolhido o candidato, o acesso de outros postulantes a uma vaga de vereador estaria sendo impedido na favela.

- Vou comunicar à Chefia de Polícia, que deve encaminhar ao Ministério Público Eleitoral - disse Turnowski, que citou Nem como autor da carta.

Ele não soube precisar se a ata diz respeito somente ao apoio a candidatos a vereador ou se é extensiva à eleição para prefeito.

- Não importa para quem é. Não podemos deixar que o tráfico crie currais eleitorais dentro da favela - disse o delegado.

No sexto item do texto - encontrado numa casa luxuosa para os padrões da Rocinha, na localidade conhecida como Sítio dos Macacos, próximo à Mata da Dionéia -, a determinação é clara: "Todo empenho para o candidato da Rocinha, não aceito derrota!!! Ninguém trabalhando para candidato de fora. Não agendar visita. Não convidar para eventos". Na ordem seguinte, ele diz: "Convidar os amigos que trabalham para outro político para a próxima reunião. Quem faltar vai mandar buscar". Também está expresso: "Próxima reunião sexta-feira que vem, cada liderança trazer uma estratégia mais detalhada para a campanha do candidato da Rocinha".

A última recomendação diz que pedido do candidato da Rocinha não pode ser negado em nenhum segmento (vans, mototáxis). Na lista de assuntos a serem tratados na reunião também está o tema das vans, que não foi detalhado. Há ainda nomes de pessoas e o que deverá ser tratado com cada uma delas.

Cobrança entre líderes para obediência política

O nome João Lúcio, no item dois, pode ser referência ao dono de uma empresa de material de construção que atua na Rocinha. O texto da ata indica que ele não iria apoiar Claudinho da Academia. O trecho "falou que só tinha um voto e até o da mulher ia tentar conseguir" mostraria que nem o voto da esposa ele garantiria, na interpretação da polícia.

O William citado no item três seria o ex-presidente da União Pró-Melhoramento dos Moradores da Rocinha William de Oliveira. Ele teria dado declaração na imprensa, há dois meses, sobre um suposto toque de recolher que existiria na comunidade. O texto representaria uma cobrança a William, já que ele não é mais presidente da associação: "Matéria do jornal sobre toque de recolher. Qual o seu objetivo? Liderança institucional não é mais você". O quarto ponto é uma possível referência a Wallace Pereira, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Bairro Barcelos (Amabb).

O trecho que fala do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal seria uma cobrança de Nem sobre o uso de um campo de futebol que serviu de canteiro de obras. O dinheiro da indenização não teria sido distribuído corretamente entre moradores da região. O nome do item cinco indica alusão a Waldemar do gás, dono de um depósito de gás na região. Ex-vice-presidente da Associação de Moradores da Rocinha, ele teria rompido com Claudinho. Poderia perder a autorização para vender gás na região.

Participaram da operação na Rocinha cerca de 200 policiais civis, de cinco delegacias especializadas, que tentavam prender Anderson Mendonça Coelho e Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol, chefes do tráfico no Morro da Mineira, acusados de participar da morte de três jovens no Morro da Providência. Segundo a polícia, eles estavam escondidos na favela de São Conrado sob a proteção de Nem. Todos conseguiram fugir.


DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ELEIÇÕES 2008 / RIO DE JANEIRO

Crivella lidera com 24%; Paes sobe 4 pontos


Pesquisa mostra que peemedebista, com 13%, empata tecnicamente em 2º com Jandira (16%) e tira votos de Solange (DEM)

Crivella, do PRB, atinge o maior índice de rejeição, com 31%; na simulação de 2º turno, Jandira (PC do B) tem 45% e Crivella, 38%

DA SUCURSAL DO RIO

Em 20 dias de campanha eleitoral, pesquisa Datafolha revela que o candidato do PMDB à Prefeitura do Rio, Eduardo Paes, cresceu quatro pontos percentuais, atingiu 13% das intenções de voto e está tecnicamente empatado em segundo lugar na disputa com Jandira Feghali (PC do B), que tem 16% (oscilação negativa de um ponto). Marcelo Crivella (PRB) passou de 26% para 24% dos votos e segue como líder na preferência dos eleitores.

Como a margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, Jandira pode ter entre 19% e 13%, e Paes, entre 10% e 16%, o que configura empate técnico.

Depois aparecem Fernando Gabeira (PV), com 7%, Solange Amaral (DEM), 5%, Chico Alencar (PSOL), 3%, e Alessandro Molon (PT) e Paulo Ramos (PDT), com 2% cada um. Os demais tiveram 1% ou menos das intenções de voto.

A pesquisa mostra que Paes tirou votos da candidata do DEM: Solange perdeu cinco pontos percentuais desde 4 de julho, e o candidato do PMDB obtém sua maior taxa de voto (20%) entre os que avaliam o atual prefeito, Cesar Maia (DEM), como ótimo ou bom.

Paes entrou para a política pelas mãos de Maia, do qual hoje é desafeto. Ao romper com Maia, foi para o PSDB e depois para o PMDB, a convite do governador Sérgio Cabral Filho, do qual se tornou secretário de Turismo, Esportes e Lazer. O DEM entrou com pedido de impugnação da candidatura de Paes, alegando que ele se desincompatibilizou fora do prazo. A questão ainda não foi julgada.

Crivella é o candidato com maior índice de rejeição, segundo o Datafolha, com 31% dos eleitores dizendo que não votariam nele de maneira alguma. Por outro lado, os que dizem que vão votar nele são os mais decididos (66% estão "totalmente decididos"). A taxa de rejeição de Gabeira atinge 21%; a de Solange, 18%; a de Jandira, 14%; e a de Paes, 12%.

Jandira tem melhor resultado entre os simpatizantes do PT (28%) e os mais escolarizados (21%). Gabeira atinge seu maior índice entre os de renda superior a dez mínimos (20%).

O Datafolha fez apenas uma simulação de segundo turno. Quando questionados em quem votariam se a disputa ficasse entre Crivella e Jandira, 45% dos entrevistados disseram optar pela comunista contra 38% dos apoiadores do candidato do PRB, uma diferença de sete pontos percentuais.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ELEIÇÕES 2008 / SÃO PAULO

Marta e Alckmin dividem liderança da disputa em SP

Kassab (11%) tem oscilação negativa e está em 3º, empatado tecnicamente com Maluf (8%)
Vantagem da petista sobre o tucano caiu de sete para quatro pontos percentuais; 3% dos eleitores dizem não saber em quem vão votar

CATIA SEABRADA REPORTAGEM LOCAL

A 25 dias do início da propaganda na TV e no rádio, a candidata do PT, Marta Suplicy, e o tucano Geraldo Alckmin dividem, tecnicamente empatados, a liderança da corrida pela Prefeitura de São Paulo, revela o Datafolha. Segundo pesquisa realizada ontem e anteontem, Marta tem 36% das intenções contra 32% de Alckmin.

Na pesquisa anterior -de 3 e 4 de julho- Marta liderava a disputa com 38% da preferência. Alckmin tinha 31%. De lá para cá, a vantagem de Marta sobre Alckmin caiu de sete para quatro pontos percentuais. Ela sofreu uma oscilação negativa de dois pontos e o tucano teve variação positiva de um ponto.

Antes com 13% das intenções de voto, o prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM), teve uma variação negativa de dois pontos percentuais e -com 11%- está tecnicamente empatado na terceira colocação com o ex-prefeito Paulo Maluf (PP), que se mantém com 8%. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

O Datafolha ouviu 1.099 pessoas ontem e anteontem. A pesquisa foi realizada numa parceria entre a Folha e a TV Globo.

Para o diretor de pesquisa do Datafolha, Alessandro Janoni, "o cenário é de polarização". "Hoje, a grande maioria do eleitorado está dividida entre dois candidatos", disse.

Marta discorda: "Não está ainda polarizando porque quando começa a [campanha na] TV que é que você vê, nas primeiras semanas, para onde vai caminhar", afirmou. Kassab não foi localizado e Alckmin está em viagem na Colômbia.

Ainda segundo Janoni, seria necessária mais uma rodada de pesquisa para conferir se Kassab enfrenta tendência de queda. Essa é apenas a segunda pesquisa Datafolha desde a oficialização das candidaturas.

Comparável às anteriores, a pesquisa espontânea aponta para essa trajetória descendente. Segundo a espontânea -em que o eleitor declara seu voto antes da apresentação da lista de candidatos-, Kassab sofreu queda de seis pontos do dia 15 de maio até julho, passando de 13% para os atuais 7%. Ainda segundo o Datafolha, Marta lidera hoje a espontânea com 22%. Alckmin tem 13%.

Os kassabistas apostam na propaganda gratuita para a reversão dos números. A preocupação é resistir até o dia 19 de agosto sem inaugurações.

Os últimos 20 dias coincidem com o período de afastamento do governador José Serra (PSDB) da cena política. Desde o dia 6, início oficial da campanha, Kassab está proibido de participar de inaugurações, que funcionavam como pretexto para aparições ao lado do governador. Longe de palanques, Serra também pôs um pé na candidatura do PSDB. A pedido de Alckmin, o governador passou a recomendar potenciais doadores. E vereadores tucanos tiveram de se render à candidatura.

A 73 dias do primeiro turno, o Datafolha também consultou eleitores sobre seu grau de convicção. Segundo a pesquisa, 3% dos entrevistados dizem não saber em quem votar. Dos que declararam o voto, 26% admitiram que podem mudar, sendo que 79% dos eleitores de Marta se disseram decididos contra 69% de Alckmin e 66% de Kassab. Alckmin é o que tem mais chances de receber voto dos indecisos: 38%, enquanto 21% disseram que poderiam votar em Marta e 7%, em Kassab.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ELEIÇÕES 2008 / BELO HORIZONTE

Candidata do PC do B lidera em BH; 5 rivais disputam o 2º lugar

Datafolha mostra comunista com 20%; Quintão, Lacerda, Vanessa, Miranda e Valadares estão empatados em 2º lugar

Margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais; 26% dizem estar indecisos e outros 22% afirmam que votarão em branco ou nulo

PAULO PEIXOTODA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO HORIZONTE
Uma candidata comunista que conta com o apoio do presidente interino da República, José Alencar (PRB), lidera a disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte, saindo na frente de Marcio Lacerda (PSB), apoiado pelo governador tucano Aécio Neves e pelo prefeito petista Fernando Pimentel.

A deputada federal Jô Moraes (PC do B) aparece em primeiro na primeira pesquisa Datafolha em Belo Horizonte após a definição dos candidatos, com 20% das intenções de voto.

Ela está 11 pontos percentuais à frente de seu colega de Câmara, Leonardo Quintão (PMDB), que tem 9%.

No segundo lugar, porém, há um quíntuplo empate, já que Vanessa Portugal (PSTU) e Lacerda têm 6% das intenções de voto, o ex-deputado federal Sérgio Miranda (PDT) aparece com 5%, e o candidato do DEM, o deputado estadual Gustavo Valadares, com 4%.

O empate ocorre porque a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

A pesquisa, registrada no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de Minas com o número 47.265-2008, foi realizada anteontem e ontem. Foram entrevistados 829 eleitores.

Os maiores percentuais aferidos pelo Datafolha são para os indecisos, que são 26%. Já 22% dos entrevistados disseram que votariam em branco ou nulo se a eleição fosse hoje.

Jorge Periquito (PRTB) e André (PT do B) têm 1% cada um. Pepê (PCO) não atingiu 1%.Indecisos

Jô Moraes lidera também na situação em que os entrevistados respondem de forma espontânea em qual candidato pretendem votar, mas está empatada tecnicamente com Lacerda -ela obteve 5%, e ele, 2%. Na consulta espontânea, no entanto, os indecisos são 79%.

É jogando com esse percentual de indecisos que os candidatos esperam crescer nas intenções de voto, após o começo da propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

A campanha de Marcio Lacerda aposta nisso, como deixou claro durante a semana o governador ao dizer que a campanha está "muito bem colocada" e que apenas agora o candidato dele "começa a ser conhecido pela população".

Aécio e Pimentel serão estrelas no programa do PSB, mas o governador não poderá falar no rádio e na TV porque o PSDB está coligado informalmente à aliança -devido ao veto imposto pela Direção Nacional do PT.

A candidata comunista tem o PRB de Alencar em sua coligação, possui o apoio da esquerda do PT e atrai petistas contrários à aliança com o PSDB. Ela tem o melhor desempenho entre os eleitores mais escolarizados (28%) e entre os que possuem renda acima de dez salários mínimos (26%).

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ELEIÇÕES 2008 / RECIFE

Ex-governador lidera disputa em Recife após fim de aliança


FÁBIO GUIBUDA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE

O rompimento da aliança estadual de 12 anos entre o PMDB e o DEM beneficiou o ex-governador de Pernambuco José Mendonça Filho (DEM), que lidera a disputa pela Prefeitura de Recife na primeira pesquisa Datafolha feita na cidade após o registro das candidaturas pela Justiça Eleitoral.

Mesmo com a candidatura de Raul Henry (PMDB), que tem o apoio do senador do partido Jarbas Vasconcelos, 46% dos entrevistados que se declararam simpatizantes do PMDB disseram que votarão no ex-governador no primeiro turno.Com 30% das intenções de voto, Mendonça está oito pontos percentuais à frente de Cadoca (PSC) e de João da Costa (PT), que aparecem empatados em segundo lugar, com 22%. Raul Henry (PMDB) vem em seguida, com 7%.

Katia Telles (PSTU), Roberto Numeriano (PCB) e Edilson Silva (PSOL) foram citados por 1% dos entrevistados cada um. Declararam que votarão em branco ou nulo 8% dos eleitores. Outros 8% não souberam dizer seu candidato preferido.Cadoca é o candidato mais rejeitado: 29% dos entrevistados disseram que não votariam nele de jeito nenhum. Em segundo lugar, aparecem tecnicamente empatados Katia Telles (24%), João da Costa (22%), Roberto Numeriano e Mendonça (21%). Raul e Edilson Silva foram citados por 18%.

O Datafolha entrevistou ontem e anteontem 831 eleitores com 16 anos ou mais. A margem de erro máxima do levantamento é de três pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa foi registrada no Tribunal Regional Eleitoral com o número 025/2008.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ELEIÇÕES 2008 / SALVADOR

ACM Neto e Imbassahy empatam em 1º

Em Salvador, segue em terceiro lugar o prefeito João Henrique, que é o candidato com o maior índice de rejeição, 38%

Na avaliação da gestão do atual prefeito, do PMDB, 16% dos eleitores acham a administração boa/ótima; para 35%, é ruim/péssima

LUIZ FRANCISCODA AGÊNCIA FOLHA, EM SALVADOR

O deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM) e o ex-prefeito Antonio Imbassahy (PSDB) lideram a primeira pesquisa Datafolha para a Prefeitura de Salvador após o registro das candidaturas no TRE (Tribunal Regional Eleitoral).ACM Neto aparece com 27% das intenções de voto, seguido de Imbassahy, com 25%. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, o que significa que o candidato do DEM e o tucano estão tecnicamente empatados na liderança.

O atual prefeito, João Henrique Carneiro (PMDB), está em terceiro lugar, com 19%.

O deputado federal Walter Pinheiro (PT) está em quarto, com 7%, seguido do servidor público Hilton Coelho (PSOL), que tem 1%.

Juntos, ACM Neto e Imbassahy, que possuem o mesmo DNA político, têm 52% das intenções de voto. Imbassahy foi prefeito de Salvador durante oito anos, quando era aliado do senador Antonio Carlos Magalhães (morto em julho de 2007). O rompimento político aconteceu em 2005.

O Datafolha ouviu 831 eleitores da capital baiana anteontem e ontem. A pesquisa foi registrada no TRE com o número 211/2008. Segundo a pesquisa, 20% dos eleitores não têm candidato: 13% votariam em branco ou nulo e 7% estão indecisos.

Na intenção de voto espontânea -na qual o eleitor declara seu voto antes da apresentação da lista de candidatos-, há empate técnico entre o democrata (12%), o tucano (9%) e o peemedebista (7%).

Em relação à rejeição dos candidatos, 38% dos eleitores afirmam que não votam no prefeito João Henrique Carneiro. Depois, pela ordem, aparecem Antonio Carlos Magalhães Neto (26%), Hilton Coelho (25%), Walter Pinheiro (20%) e Antonio Imbassahy (19%).

Dos entrevistados que declararam voto em ACM Neto, 66% afirmam que estão totalmente decididos. O índice é de 55% entre os que se dizem eleitores de Imbassahy. Dos que optaram por João Henrique, 64% dizem que não mudarão o voto.

A pesquisa também mensurou o desempenho do atual prefeito. Para 16% dos eleitores, o peemedebista realiza uma administração boa ou ótima, 46% consideram o seu governo regular, e 35% afirmaram que o trabalho desenvolvido é ruim ou péssimo. Entre os ouvidos pelo Datafolha, 2% não souberam avaliar a gestão.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ELEIÇÕES 2008 – CURITIBA


Tucano seria reeleito no 1º turno em Curitiba com 72% dos votos

Beto Richa lidera disputa, seguido pela petista Gleisi Hoffmann, com 12%

DIMITRI DO VALLEDA AGÊNCIA FOLHA, EM CURITIBA

Se a eleição em Curitiba fosse hoje, o prefeito Beto Richa (PSDB) seria reeleito no primeiro turno. É o que aponta a primeira pesquisa Datafolha feita após o registro das candidaturas no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) do Paraná.

O tucano lidera a disputa com 72% das intenções de voto. Em segundo, aparece a petista Gleisi Hoffmann, mulher do ministro Paulo Bernardo (Planejamento), com 12%.

Fábio Camargo (PTB) é o terceiro, com 3%. Estão em empate técnico com o petebista, Bruno Meirinho (PSOL) e Reitor Moreira (PMDB), com 1%.Os demais candidatos apresentados na pesquisa -Maurício Furtado (PV), Lauro Rodrigues (PT do B) e Ricardo Gomyde (PC do B)- não atingiram 1% das intenções de voto.

O Datafolha ouviu 938 eleitores de Curitiba ontem e anteontem. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa foi registrada no TRE com o número 1631/08.
Na consulta espontânea, quando o eleitor é convidado a citar o nome de seu candidato, o tucano aparece de novo em primeiro, ao ser lembrado por 45% dos eleitores. A petista Gleisi Hoffmann fica em segundo, com 4%.

Os outros candidatos mencionados -Fábio Camargo, Reitor Moreira e Bruno Meirinho- não chegam a 1%.

De acordo com o Datafolha, 4% dos entrevistados declararam que vão votar em branco ou nulo ou preferem não escolher nenhum dos candidatos. Os que não sabem somam 6%.

Em comparação à pesquisa anterior do Datafolha, divulgada em novembro, quando os nomes ainda não estavam totalmente definidos, os dois primeiros colocados apresentaram crescimento. Richa, na ocasião, tinha 58%, e Gleisi, 9%.Na pesquisa, o eleitor também avaliou a administração do prefeito. Para 79% dos entrevistados, o desempenho de Richa é ótimo ou bom (em novembro, eram 75%). Outros 16% o qualificam como regular, e 4% acham a administração ruim ou péssima. Apenas 1% do eleitor não soube opinar.

Para 78%, Richa tem nota entre sete a dez. A nota média de sua administração fica em 7,6, superior aos 7,4 de novembro.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ELEIÇÕES 2008 / PORTO ALEGRE

Fogaça lidera; PT e PC do B disputam 2º lugar

Atual prefeito tem 29% das intenções de votos, enquanto Maria do Rosário aparece com 20% e Manuela D'Ávila, com 18%Na espontânea, 61% dos entrevistados disseram que ainda não sabem em quem vão votar; peemedebista tem a maior rejeição, 25%
GRACILIANO ROCHADA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE
O prefeito José Fogaça (PMDB) lidera a disputa pela Prefeitura de Porto Alegre com 29% das intenções de voto, mostra a primeira pesquisa Datafolha feita após a oficialização das candidaturas.

Na disputa pelo segundo lugar, aparecem tecnicamente empatadas as deputadas federais Maria do Rosário (PT), com 20%, e Manuela D'Ávila (PC do B), com 18%.A pesquisa Datafolha, realizada ontem e anteontem com 829 eleitores, tem margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e foi registrada no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) gaúcho com o número 9/2008.A candidata do PSOL, Luciana Genro, alcançou 8%. Onyx Lorenzoni (DEM) teve 5%. Obtiveram 1% Nelson Marchezan (PSDB), Vera Guasso (PSTU) e Paulo Rogowski (PHS).
Eleitores que declararam votar branco ou nulo somam 8%.Na pesquisa espontânea, aquela em que o eleitor escolhe um candidato sem que lhe sejam oferecidas opções, Fogaça também aparece na dianteira, com 12%, seguido por Maria do Rosário (8%) e Manuela (7%).

Luciana Genro e Onyx Lorenzoni foram citados, respectivamente, por 2% e 1% dos entrevistados pelo Datafolha.

A pesquisa revelou um alto número de indecisos. Na espontânea, 61% dos entrevistados afirmaram não saber em quem votarão em outubro.

O levantamento também indica muitos indefinidos mesmo entre os entrevistados que dizem já ter escolhido candidato: 42% deles disseram que seu voto poderia mudar.

Fogaça apresenta melhor desempenho entre os eleitores com renda superior a dez salários mínimos (39%) ou com mais de 60 anos (44%).

Maria do Rosário tem forte apoio da fatia do eleitorado descontente com a administração do peemedebista. Nesse segmento, a petista alcança 27% de preferência.

Mais jovem entre os candidatos, com 26 anos, a deputada Manuela D'Ávila alcança 31% das intenções de voto entre os que têm de 16 a 24 anos.Fogaça também enfrenta a maior rejeição. De cada quatro entrevistados, um diz que não votaria de jeito nenhum no atual prefeito. É seguido por Onyx (19%). As candidatas do PT, do PC do B e do PSOL têm índices respectivos de rejeição de 15%, 14% e 13%.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÓ PARA COMPLICAR
Eliane Catanhêde


BRASÍLIA - Um monte de gente se deu mal, justa ou injustamente, com o inquérito do delegado Protógenes. Mas uma coisa é certa: a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) se deu foi bem.

Na apuração que deveria ser sobre Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta, quantos e quantas acabaram caindo no arrastão de grampos em telefones fixos, celulares, e-mails, MSN, até Skype? A esta altura, a Abin e a banda de Protógenes na PF têm um vasto dossiê, quer dizer, banco de dados, sobre tudo e todos. Pequenino exemplo: até detalhes da estratégia de defesa do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh para o italiano Cesare Battisti, sujeito a deportação.

Fica até engraçada a discussão sobre a inviolabilidade dos escritórios de advocacia. Na prática, eles já são grampeados há bastante tempo.

Qual a diferença de serem ou não investigados formalmente? O interessante é o elo entre chefiado e chefe. O chefiado é Protógenes, da PF. O seu chefe de fato é o da Abin, Paulo Lacerda, ex-PF, talvez o policial mais prestigiado na ativa hoje no país. Protógenes passa por cima do atual diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa (que abandonou o tiroteio para tirar férias), assim como Lacerda passa por cima do general Jorge Armando Félix, ministro do Gabinete de Segurança Institucional. Até por isso, há quem diga que Protógenes e Lacerda só fazem o que querem. E a Abin e a PF estão fora de controle.

O ideal é que as energias se concentrem no inquérito e em Daniel Dantas, mas ocorre o oposto: eles passam, e as outras informações ficam. E ficam, para o bem ou para o mal, nas mãos da Abin e na PF de Lacerda e Protógenes. Muita gente, em especial no governo, está com várias pulgas atrás da orelha. Não custa lembrar o general Golbery do Couto e Silva, muitos anos e muitos sustos depois de criar o SNI (Serviço Nacional de Informações): "Criei um monstro". A Abin é herdeira direta do "monstro".

DEU NO VALOR ECONÔMICO


EM PORTO NACIONAL, A LÓGICA É LOCAL
César Felício



Quem abre a página da cidade de Porto Nacional, em Tocantins, na Internet, se depara com a cena: está lá a foto do prefeito Paulo Mourão, semblante sereno, acima da legenda PT. Ao lado, sorridente em um retrato, está o vice-prefeito Edgar Tavares, identificado como do "PFL", a antiga denominação do DEM. O município de 30 mil eleitores na região Norte é uma síntese do que se passa no processo político longe dos salões do Congresso e do Planalto.

A decifração da lógica das alianças municipais foi o tema analisado pelo cientista político Humberto Dantas de Mizuca, em sua tese de doutorado apresentada na USP em dezembro do ano passado - última orientada pela professora Maria D"Alva Gil Kinzo, falecida mês passado. Sócio da empresa de consultoria política Cepac, Dantas esmiuçou as composições partidárias nas eleições de 2000 e 2004.

Parte-se da constatação que , em eleições de turno único, como é o caso de praticamente todos os municípios do País, exceção a 77, há uma tendência de eleições polarizadas ou com poucos candidatos. O fenômeno ocorreu nas eleições passadas e se repete : segundo dados preliminares do TSE, em 2.774 cidades - ou 49,8% do total nacional - haverá apenas dois candidatos. Em outras 1.616 a disputa terá três nomes. A competição chega a quatro ou mais opções em apenas 21% dos municípios.

O quadro polarizado em um cenário com mais de vinte partidos é a porta aberta para alianças extremamente amplas. Dantas mostra que há três fatores que guiam o comportamento partidário nos pequenos e médios municipais. O menos importante deles - mas de modo algum inexistente - é o ideológico. Na eleição de 2004, a parceria entre o então PFL e o PP aconteceu em 1.653 cidades, embora a primeira sigla estivesse na oposição e a segunda muito próxima do governo Lula. Do ponto de vista político, são ramos da mesma árvore.

O pouco peso do fator ideológico nas alianças é evidenciado, segundo Dantas, quando se leva em conta não as combinações binárias como PP/DEM ou PT/PSB, mas se pensa nas coligações como um todo. Em 2004, as alianças que juntavam centro, direita e esquerda somaram 35% do total nas pequenas e médias cidades. As restritas às esquerdas não passaram de 10%. As que envolviam apenas a direita, 5%. Composições de centro-esquerda ou centro-direita somavam 20%.

O segundo fator é o federal. A necessidade de se ter uma espécie de despachante de interesses locais junto aos ministérios impulsionou o PT nas últimas eleições como havia impulsionado o PSDB nos dois pleitos anteriores. "O PT capilarizou-se, mas nas pequenas cidades ficou muito diferente do que é nas grandes. Bebe na fonte do governisno e tornou-se uma espécie de franquia", comenta o cientista político. Entre 2000 e 2004, o PT passou de 80 para 219 prefeituras conquistadas entre os municípios com menos de dez mil eleitores. Em 2000, havia disputado com a cabeça de chapa ou a vice em 2.722 municípios. Quatro anos depois, houve 4.634 candidatos a prefeito ou vice petistas.

Alianças de PT com PSDB só fazem crescer

Este PT "muito diferente" ignorou normas partidárias nas eleições passadas para se compor com tucanos e pefelistas nos pequenos e médios municípios. O PT e o PSDB haviam estado juntos em 451 cidades há oito anos. Em 2004, com o PT no governo federal e com suas "franquias" abertas nos grotões, o número de alianças dobrou: foram 904. Ainda não há números precisos sobre o que ocorreu este ano, mas dados preliminares apontam a parceria tucano-petista em 1.130 municípios. Um em cada cinco.

É o terceiro fator de influência nas alianças municipais que explica o chamego PT/PSDB parecer proibido apenas em Belo Horizonte: o peso do governo estadual. "A formação das maiorias estaduais é o grande eixo das eleições municipais. No Acre em 2004 a polarização era entre o PT, de um lado, e o eixo PMDB-PP, do outro. O PSDB estava mais próximo dos petistas. As parcerias entre tucanos com pefelistas e com petistas na Bahia foram relativamente comuns. O que não aconteceu foram associações entre PT e PFL , que estavam em pólos opostos ", diz Dantas.

Dantas mostra que em 2004 o PSDB esteve com o PT em mais de um terço dos municípios em que disputou a eleição em cinco Estados: Amapá, Bahia, Sergipe, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Em todos petistas e tucanos estavam fora do comando local.

O partido do governador foi o carro-chefe das alianças na eleição passada. A sigla que comanda a máquina estadual apareceu com candidato próprio em mais da metade dos municípios em 21 dos 26 Estados. Em 23 deles, exceção a Tocantins, Piauí e Amapá, estava presente nas alianças de pelo menos 90% das cidades.

Um exemplo do protagonismo do governador vem do Rio Grande do Norte, onde Wilma de Faria já governava em 2004, pelo esquerdista PSB. Nada menos que PFL, PP, PSDB, PT, PPS, PDT e PL (atual PR) procuraram o PSB como parceiro em no mínimo um terço dos municípios em que disputaram .

"Como o PT entrou nos grandes municípios e o governador ainda é o grande ator político, o resultado é que as alianças tornaram-se menos ideológicas no governo Lula do que eram no governo Fernando Henrique", sustenta Dantas, que explica: no governo do tucano, os petistas eram menos numerosos e excluídos da base de apoio não só do governo federal.

Tornavam-se parceiros pouco interessantes para os governadores e suas bases aliadas. É a dependência do prefeito de um grotão em relação ao governador de seu Estado e a vulnerabilidade dos Estados diante da União que favorecem alianças heterodoxas.

O PT em Tocantins cresceu em importância à medida em que desmoronava a grande frente "União por Tocantins" que mantinha a hegemonia no Estado nas mãos da família Siqueira Campos. Eleito nesta frente, o governador Marcelo Miranda , inicialmente no PFL e hoje no PMDB aproximou-se dos petistas e a aparentemente exótica aliança em Porto Nacional está neste contexto. Os políticos e eleitores tocantinenses não são mais pragmáticos ou menos ideológicos que a média nacional. Só organizam seu mundo pela própria perspectiva.


César Felício é repórter de política e substitui, interinamente, a titular da coluna às sextas-feiras, Maria Cristina Fernandes.