sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Lula precisa cuidar da candidata


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Lula parece que considera uma diversão prazerosa queixar-se da imprensa, fazendo o papel de vítima quando nunca na História, etc um presidente conquistou tanto espaço na mídia, seja nos jornais, revistas, emissoras de rádio e redes de televisão e nas rodas de maledicência de repórteres.

E a verdade é que o presidente merece a atenção da imprensa que não faz nenhum favor em registrar os êxitos nas viagens pelo mundo do recordista de milhagem nas asas do Aerolula e nos raríssimos deslocamentos nos jatos comerciais. Mas, se o tempo de todo presidente é curto para as tarefas da burocracia, Lula desperdiça uma fatia gorda com picuinhas, com a tardia cobrança do destaque do papel de bombom de cupuaçu que jogou no chão depois de deliciar-se com a guloseima e que foi notícia, com foto na imprensa.

Certamente não foi notícia no poderoso esquema de propaganda oficial, de matar de retardatária inveja o finado DIP da ditadura do Estado Novo.

Mas, enquanto inaugura obras do PAC ou da segunda casa de força da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, com a ministra-candidata ao lado, Lula não está prestando a devida atenção à fase delicada que a sua chefe da Casa Civil está atravessando.

A pré-campanha ganha velocidade com as disputas internas pelo sacrifício de salvar a pátria com a ocupação da sua poltrona no Palácio do Planalto. E a aferição da viabilidade dos pretendentes já começou a ser conferida pelas pesquisas dos institutos especializados.

Até agora, por uma delicadeza dos donos das empresas, a ministra-candidata vinha sendo excluída das listas dos candidatos ostensivos, como o governador de São Paulo, José Serra, o nome do dia no PSDB; o governador mineiro, Aécio Neves, também do PSDB e outros que ainda não emplumaram para alçar vôo.

Uma luz de lamparina piscou o alerta com a primeira pesquisa, de iniciativa do governador Eduardo Campos, de Pernambuco, restrita ao eleitorado do Estado e que inclui pela primeira vez o nome da ministra-candidata na lista dos presidenciáveis. E, como já comentamos neste espaço, a candidata do presidente Lula e do PT fechou a raia com apenas 4% de preferência dos votantes.

Há males que vêm para bem, ensina a sabedoria popular. A ministra Dilma Rousseff não é uma simples postulante na fila oficial. Mas, a candidata do presidente Lula e, portanto, do Partido dos Trabalhadores. E não apenas uma candidata assumida, mas em campanha à sombra do presidente puxador de votos e com a bandeira do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC de fartas verbas e obras em todo o país, entregue à sua gerência.

A estréia da ministra numa pesquisa estadual deve ser analisada com toda a cautela. Nem merece o desprezo da arrogância nem o alarme que espalha o pânico. Mas, alguma coisa não está funcionando. Se Lula, na mesma pesquisa pernambucana, tem o seu desempenho qualificado como ótimo e bom por 82% dos consultados, os 4% da ministra Dilma advertem que a sua candidatura ainda não chegou ao Nordeste da gratidão pelo Bolsa-Família e o Bolsa-Escola dos cuidados assistenciais do governo e a sua mais poderosa alavanca política.

Obra só dá voto depois de inaugurada. Antes, é mais uma promessa. A candidatura da ministra Dilma precisa chegar ao distinto público e o mais depressa possível, para descontar o atraso.

Se não ultrapassar a barreira de um dígito nas próximas pesquisas, libera a vaga para a livre disputa entre os pretendentes, silenciados pela liderança de Lula.

E não se troca de candidato como quem muda a camisa suada.

Ressentimentos


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Muito se tem falado sobre as proximidades entre a vitória de Barack Obama nos Estados Unidos e Lula no Brasil, e o próprio presidente brasileiro vê semelhanças na trajetória de vida dos dois. Talvez a única similaridade entre as duas situações seja o fato de que tanto Obama hoje quanto Lula em 2002 simbolizaram um sentimento difuso de mudança que era latente nos dois países, mas catalisado pelos problemas econômicos. Fora isso, eleger um operário no Brasil tem quase o mesmo significado para nós que eleger o primeiro presidente negro nos Estados Unidos. Muito mais que raciais, nossos preconceitos são sociais.

Se Lula fosse um líder operário negro, teria muito mais dificuldades para chegar à Presidência, se é que chegaria um dia. No Brasil, Lula primeiro foi rejeitado por suas idéias radicais, e ele mesmo já admitiu que seria uma imprudência ter sido eleito em 1989. Mas ele mesmo diz que sentia uma tristeza imensa quando via que o povo não considerava votar num igual, por preconceito social.

Com seu imenso carisma e sensibilidade política, Lula foi se amoldando às exigências do eleitorado, aparando a barba e as idéias. A maior prova de que para chegar ao poder teve que mudar de imagem foi a contratação do publicitário Duda Mendonça, que, ao mesmo tempo em que retirava do candidato traços políticos radicais, criando a figura do "Lulinha Paz e Amor", também mudou-lhe o penteado e o terno, tornando-o palatável à maioria do eleitorado.

Se houvesse no Brasil um político negro com a postura elegante de Barack Obama, bom de negociação e de oratória, com título universitário e pós-graduação em Harvard, poderia ser eleito presidente da República sem questionamento sobre a raça. Um bom exemplo desse preconceito com raízes sociais é a candidatura de Celso Pitta a prefeito de São Paulo. Diretor da empresa de Paulo Maluf, apresentado como parte do establishment político, foi eleito sem que sua raça fosse questionada. E seu ostracismo político deve-se a acusações de corrupção que nada têm a ver com a cor da pele.

A desgraça de nossa sociedade é que ela não favorece a que uma criança pobre e negra tenha uma educação de base tão boa que lhe permita freqüentar boas faculdades, coisa que aconteceu com Obama, que cresceu num país que começou a dar oportunidades aos negros há apenas 44 anos, quando ele tinha 3 anos de idade.
Outra diferença entre os dois países: acredito que nos Estados Unidos "Joe, the plumber" ("Zé, o bombeiro"), personagem que o republicano McCain usou no final de sua campanha para exemplificar o americano médio que sofreria com as supostas taxações de um governo "socialista" de Obama, dificilmente poderia ter o sucesso de Lula, o metalúrgico, se se dispusesse a disputar a Presidência da República, pela falta de preparo intelectual, o que no Brasil pesou contra Lula apenas até determinado ponto.

As críticas à sua falta de preparo cultural são superadas pela idéia de que ele tem a sensibilidade popular para os problemas. Além, é claro, da indiscutível habilidade política.

Mas Lula vive se considerando discriminado pela elite brasileira e já revelou um ressentimento que parece não ceder nem mesmo diante de seus inegáveis sucessos. Sua relação com o sucessor e antigo amigo, Fernando Henrique Cardoso, é exemplar desse ressentimento.
Embora a esquerda latino-americana sempre tenha tido uma relação mais próxima do Partido Democrata, e o senador Barack Obama tenha tido um padrão de votos considerado em Washington como o mais liberal - o que nos Estados Unidos pode ser considerado "de esquerda" - de todos os membros do Senado no ano passado, o governo Lula preferia um futuro presidente republicano, porque seria "menos protecionista" e menos "próximo dos tucanos".

Se a relação dos tucanos com o Partido Democrata foi fortalecida pela amizade entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-presidente Bill Clinton, uma relação, se não de amizade, também especial, nasceu entre Lula e Bush, que tem uma convivência mais amistosa com o atual presidente brasileiro do que a que teve com Fernando Henrique, que já declarou que sentiu "asco físico" por Bush.
Provavelmente Bush pressentia em Fernando Henrique uma rejeição intelectual que não acontece com Lula, cujo temperamento cordial é mais parecido com o dele. Seja por isso, ou por puro pragmatismo, Lula torceu pela reeleição de Bush, e agora gostaria de ver um republicano na Casa Branca de novo.

Ou então Obama, em cuja trajetória de vida vê semelhanças com a sua, e que é um democrata não ligado aos "tucanos", como os Clinton. Essa aproximação de Bush com Lula tem certamente as mesmas raízes. Recentemente, Bush sussurrou no ouvido do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em uma reunião sobre a crise internacional, que gostava muito de Lula.

Brahmins, a mais alta classe do sistema de castas indiano, é como os descendentes das famílias wasps (brancos, anglo-saxões e protestantes) são conhecidos. Já contei aqui, mas vale repetir: George W. Bush derrotou John Kerry, um legítimo Brahmin de Yale, a quem Bush atribuía uma atitude arrogante em relação a ele, a mesma que os colegas estudantes tinham na universidade, onde os Brahmins valorizam mais o preparo cultural do que o dinheiro.

Os dois têm raízes na Nova Inglaterra, mas, enquanto Kerry costumava passar férias na casa dos avós, numa cidade do norte da França, Bush nunca havia saído dos Estados Unidos antes de ser presidente.

Na eleição do dia 4, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos foi eleito por 153,1 milhões de eleitores, sendo que os brancos representam nada menos que 74% ou 113,29 milhões. Desses, uma minoria, 43% ou 48,71 milhões, votou em Obama. Dos 13% - ou 19,9 milhões de negros, 95% votaram em Obama; e dos 8%, ou 12,25 milhões de hispânicos, 66% ou 8,09 milhões votaram em Obama.

Os EUA em busca da convergência


Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO

"Ele lutou muito e por muito tempo nessa campanha. Ele lutou ainda mais e por mais tempo ainda por esse país que ama. Ele enfrentou sacrifícios pela América que a maioria de nós nem pode começar a imaginar. Nós estamos melhores graças aos serviços desse líder corajoso e altruísta".

O trecho de seu primeiro discurso em que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, se refere ao seu adversário, tem várias traduções. Uma delas é que a mesma democracia que convive com sistemas arcaicos de votação e um colégio eleitoral que pode se contrapor ao voto popular, não abre mão da reverência à instituição da Presidência da República. É também uma tradução possível para o discurso de John McCain - "Ele era meu oponente, agora é meu presidente".

Esta reverência reflete a confiança, na pátria do capitalismo, de que é o poder político que comandará as saídas da crise. E são saídas que apontam para a não conformidade do Estado americano com uma revisão da organização financeira mundial que ponha em questão, por exemplo, a centralidade do dólar.

O tema, que vai dominar a transição Bush-Obama, já começou, com a atuação do Tesouro americano, o FED e o FMI, de garantir liquidez dos bancos centrais mundo afora, como demonstrou José Luís Fiori, em artigo neste Valor (05/11/2008). É uma iniciativa de tanto significado para o futuro das relações do governo americano com a ordem financeira internacional quanto o foi o histórico discurso do então candidato em Berlim para a Obamania mundial.

Outra tradução do discurso é o pragmatismo que deve nortear o seu governo. Se os desastrosos anos Bush, a crise econômica sem precedentes e as mudanças demográficas de um país mais jovem e miscigenado, foram determinantes para sua eleição, é da busca de convergências com os Republicanos rumo à conquista do centro político do Congresso que depende seu governo.

Esse centro foi mais radicalmente abandonado pelo único presidente eleito sem a maioria popular dos últimos 132 anos da história americana. Na era republicana dos anos Bush no Congresso, o governo foi capaz de reduzir a carga fiscal do Estado, aliviando a taxação sobre grandes empresas, aumentando os gastos militares e diminuindo as despesas com saúde pública e previdência, que afetaram a vida da maioria da população.

"Desde o pós-guerra, o Congresso americano funcionou à base de coalizões interpartidárias, que possibilitaram os avanços ora da agenda republicana, ora da democrata. Isso acabou com a era Reagan. O governo Clinton foi muito difícil do ponto de vista congressual e, com o Bush Jr., as divisões interpartidárias ficaram mais radicalizadas", diz o professor Fabiano Santos, que ministra o curso de Política Contemporânea nos EUA na pós-graduação do Iuperj.

Filho dessa convergência política que, a partir dos anos 60, possibilitou a ampliação da agenda dos direitos civis nos Estados Unidos, é a ela que Barack Obama terá que recorrer para governar.

Ainda que sem a composição final do Congresso americano, dado o atraso na apuração, não havia ontem apostas de que os democratas teriam a maioria de 60 cadeiras no Senado, capaz de derrubar obstruções republicanas na Casa.

Fabiano Santos não vê como Obama possa colocar em ação seus planos de soerguimento da economia americana sem reverter as isenções fiscais concedidas a grandes conglomerados. E acredita que o presidente eleito tem habilidade política suficiente para fazer uso da legitimidade popular conquistada nas urnas e dobrar a resistência republicana no Congresso.

"Nem ele nem a bancada democrata são totalmente identificados com teses liberais, mas deverá haver momentos de maior radicalismo para que a polarização que hoje domina o Congresso retorne ao status quo do centro", diz Santos.

O professor do Iuperj acredita que as iniciativas parlamentares do presidente eleito podem vir a ser facilitadas pelo enfraquecimento, decorrente da crise econômica, dos grupos de pressão neoconservadores que oxigenaram ao longo desses últimos anos os extremismos da bancada republicana.

Sempre haverá o risco de esses grupos de extrema direita, desalojados do jogo institucional no Congresso, recorrerem à sociedade civil organizada - muitas vezes rude e violenta - para dar sobrevivência à agenda neoconservadora.

Um poderoso antídoto para isso está no comparecimento inédito do eleitor americano nesta que foi a verdadeira superterça. A tradicional apatia eleitoral, no país do faça-você-mesmo, foi sacolejada quando o Estado apontou os mísseis para seu próprio território ao empreender uma guerra que se dizia santa.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

Uma semana, passado remoto


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Era uma vez um tempo em que a gente discutia a conjuntura econômica, toda sexta-feira, nesta Folha. Tempos de conjuntura econômica tumultuada, ao contrário dos pacatos cinco ou seis anos que, no Brasil, terminaram agora.

Eu ouvia os economistas-editorialistas da casa (nenhum deles continua, o time mudou todo) dizerem, numa semana, que tudo ia no melhor dos mundos, para, na semana seguinte, traçarem um cenário um pouco pior que o inferno.

Um dia, perguntei como era possível haver tamanha mudança em meros sete dias. Um dos professores-doutores, com aquela paciência que os sábios às vezes exibem com os ignorantes, respondeu: "Ah, meu filho, economia é uma coisa muito dinâmica". Pensei, mas calei: "Vai ser dinâmica assim na..., bom deixa pra lá".

Não é que hoje, com uns 15 ou 20 anos de atraso, esse professor-doutor poderia dar a mesma resposta e, desta vez, acertaria em cheio? O mundo, não apenas a economia, ganhou uma aceleração nos tempos que é quase impraticável para o cérebro humano acompanhar.

Dado mais recente: a evolução da produção e vendas da indústria automobilística. Em setembro, o número de licenciamentos havia sido 9,7% superior ao de agosto. Em outubro, foi 15% inferior ao de setembro. Uma brutal inversão em apenas um mês, acompanhada, de resto, por férias coletivas em inúmeras montadoras, o que é a antecipação do que vem por aí.

O grave é que a aceleração dos tempos torna arcaicas decisões ou avaliações muito recentes. É o caso da ata do Banco Central sobre a reunião da semana passada, em que o medo da inflação parece ser praticamente igual ao da desaceleração, equilíbrio que os dados do setor de autos desmentem de maneira contundente.

Resumo: hoje é arriscado até prever o passado -ou o presente.

Suficientemente inteligentes


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - De Lula, dando aula ao presidente eleito dos EUA: "Espero que Obama não vá gastar um ano sem resolver imediatamente a crise. Agora, a crise pode ser debitada ao atual governo, mas, um ano após tomar posse, é dele também".

Lula não tem dúvida de que Obama é "suficientemente inteligente" para entender o recado/lição.Foi quase um ato falho, pois Lula tem quase a mesma pressa e a enorme necessidade de Obama em resolver logo a crise que os EUA produziram e exportaram para todo o mundo. Por causa da economia, mas também pela política, até porque elas andam juntas.

Hoje, Lula é um presidente com 80% de popularidade, num país com reservas de US$ 200 bi, produção industrial crescendo, desemprego caindo e um poderoso setor agrícola. Pronto para fazer o sucessor. Amanhã, ninguém sabe. Tudo pode estar nas mãos de Obama.

A recessão dos EUA puxa a da Europa, da Ásia e dos compradores de commodities em geral, ampliando a reversão de expectativa quanto ao crescimento do Brasil em 2009. Seria de 5%, baixou para 4%, ministros já admitem 3,7% e técnicos vazam que pode ser inferior a 3%. Se for assim, 2010 terá uma combinação explosiva de queda de arrecadação com o efeito retardado, por exemplo, do inchaço da máquina pública e dos aumentos salariais para o funcionalismo.

Para conter essa espiral negativa, é preciso "começar pelo começo": com medidas duríssimas nos EUA.

E lá, como aqui, presidentes tomam medidas duras no início dos mandatos, embalados pela vitória e pela popularidade.

Assim como Obama é "suficientemente inteligente" para saber disso, Lula é suficientemente inteligente para saber que, neste momento, tudo o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, e tudo o que for ruim para Obama será péssimo para sua pretensão de fazer o sucessor em 2010.

Obama e Lula, tudo a ver.

A economia com Barack Obama


Luiz Carlos Mendonça De Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Os mercados mudarão de idéia sobre o novo presidente americano quando suas ações ficarem mais claras


WALL STREET recebeu com muita frieza a vitória de Barack Obama nas eleições norte-americanas de terça-feira. Essa reação era esperada, pois os mercados tendem a não gostar de um presidente democrata na Casa Branca, muito menos quando acompanhado por uma segura maioria no Congresso. Mas os tempos são outros, e os mercados deveriam mostrar alívio desta vez, apesar de seus valores ideológicos ou políticos.

Certamente mudarão de idéia -talvez até a virada do ano- quando as ações do novo presidente ficarem mais claras. Explico a seguir por que espero essa reação.

Em primeiro lugar, porque há indicações de que o pacote de estímulo fiscal democrata será adequado para enfrentar a crise econômica atual.

Os democratas vão concentrar seus esforços no alívio financeiro da classe média, grupo mais importante para dar força ao consumo ao longo de 2009. Essa é uma visão oposta às crenças republicanas, de que o esforço fiscal deve ser dirigido aos americanos de renda alta e às empresas privadas com o objetivo de estimular novos investimentos.

Não é preciso mais de cinco minutos de reflexão para chegar à conclusão de que a forte recessão de agora está sendo alimentada por uma grande queda no consumo da classe média.

Isso vem criando uma significativa capacidade ociosa no tecido produtivo dos Estados Unidos, principalmente em setores industriais como o automobilístico. Falar em estímulo aos investimentos nestes tempos bicudos de recessão e crise bancária é nonsense.

Sem essa amarra programática, os democratas estarão mais livres para desenhar e para aprovar rapidamente um pacote de estímulos que realmente ataque a falta de demanda na economia. O primeiro objetivo será estancar o processo de retomada de casas financiadas por hipotecas, os chamados "foreclosures".

Sem isso, os preços dos imóveis não vão parar de cair, impedindo o consumidor de ter uma referência sólida sobre o valor real desse item fundamental de sua riqueza. Além disso, a estabilização nos preços dos imóveis permitirá uma precificação mais clara dos títulos de crédito lastreados em hipotecas, com reflexos positivos no mercado financeiro, já que tais títulos constituem a maior parte do ativo do sistema bancário.

Existem várias formas simples e eficientes de conseguir esse objetivo. A maioria democrata no Congresso vem tentando aprovar algo nessa direção, mas o presidente George W. Bush sempre ameaçou vetá-las. Com Obama, o programa poderá ser implantado rapidamente. Alguns bancos mais sensíveis aos ventos políticos já anunciaram o congelamento temporário dos "foreclosures".

Outra iniciativa será a redução de impostos com foco na classe média, visando potencializar os efeitos positivos da recente queda dos preços da gasolina e de outros produtos na renda disponível dos americanos.

Finalmente, um segundo pacote voltado para investimentos em infra-estrutura poderá dar mais um impulso para a economia a partir da segunda metade de 2009.

Quem conhece os Estados Unidos sabe que pontes, ferrovias e a rede de distribuição de energia são antiquadas e constituem um bom alvo para tal programa. Haverá ainda um esforço para reduzir a dependência de energia importada, o que demandará bilhões de dólares em investimento. Certamente a economia norte-americana continuará crescendo de forma medíocre até 2010, mas pelo menos estaremos livres do fantasma de uma depressão econômica no mundo.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

20 anos depois, Lula defende Constituição que PT rejeitou


DEU EM O GLOBO


Discurso de Garibaldi constrange presidente e Gilmar, com críticas ao excesso de MPs e à atuação do Judiciário


BRASÍLIA. Na sessão solene para comemorar os 20 anos da Constituição de 1988, ontem no Congresso, o presidente Lula considerou que o texto, rejeitado pela bancada petista à época, é, mesmo com todos seus defeitos, a garantia da democracia no país. Afirmando que hoje tem uma compreensão melhor do que foi votado e aprovado pelos constituintes, Lula lembrou que o PT votou contra o texto final, mas que ele foi um dos petistas que defenderam a assinatura do texto.


- A Constituição não é perfeita, porque o ser humano não é perfeito, porque os políticos não são perfeitos, e ela retrata exatamente o grau de consciência política daqueles que fizeram a Constituição. Nós, no PT, naquela época, votamos contra o texto.


Depois, houve uma discussão se iríamos assinar ou não. Uma parte da bancada, radicalizada, achava que não deveria assinar, e eu disse: "Não tem sentido, a gente participou dois anos aqui, ganhamos salário, ganhamos assistentes para nos ajudar, como é que pode um filho nascer e a gente não registrar? Vamos assinar" - relembrou Lula, ontem, em discurso no plenário da Câmara: - Hoje, eu sou um homem que compreendeu melhor do que antes que, com todos os defeitos que essa Constituição possa ter, para todos que estão governando, ela é uma garantia da democracia do nosso país.

Lula não se referiu a uma das mais polêmicas criações da Constituinte: as medidas provisórias.


Os donos da Casa, porém, voltaram a reclamar do instrumento que dá poder ao Executivo e sufoca o Legislativo.


Na sessão solene de ontem, na Câmara, o presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), constrangeu, em discurso, o presidente Lula e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, ao reclamar da interferência de Executivo e Judiciário nas funções do Legislativo. Gilmar chegou a rir.


Lula ficou sério. Ao citar comentário de Lula, de que na Constituinte passava-se uma semana sem votar, Garibaldi disse que as MPs levam o Congresso a ficar um mês com a pauta trancada.

- O presidente é culpado disso? O presidente Lula não é culpado. O uso do cachimbo faz a boca torta.


Na verdade, ele encontrou um instrumento capaz de fazer com que as coisas andem no Executivo, mas ao arrepio do processo parlamentar - disse Garibaldi, mirando agora no Judiciário: - A Constituinte de 1988 nos levou a uma situação de balanceamento não muito equilibrado entre os três poderes, de modo que a culpa também não é do presidente Gilmar Mendes.


Aqui e acolá, o Poder Judiciário esquece que é Judiciário e pensa que é Legislativo.


Ele até tentou consertar:

- O que o presidente vai pensar de um anfitrião que o recebe para uma festa que, de repente, se transforma numa cobrança? Também peço desculpas ao presidente do Supremo.

O novo mundo de Obama


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O comparecimento de 70% dos eleitores registrados, um marco histórico em cem anos, mostra bem o anseio da sociedade americana por mudança e, sobretudo, por superar a barreira racial, que foi o grande fato político desta eleição, destacado por nove entre dez jornais.


Imaginar que o fator racial estava fora dessa disputa é não compreender o enorme fardo que pesava sobre a nova sociedade civil americana, que se apresentou ontem nas urnas, enfrentando filas enormes, para ajudar a ultrapassar esse obstáculo. Aqui em Nova York, parecia fim de campeonato, com a vitória dos Yankees ou do Knicks, todos na rua gritando e cantando, principalmente jovens e negros, buzinaço pelas ruas, festa no Harlem, em Times Square, na Rockfeller Plaza.


Um rapaz branco entrou no metrô em que eu estava desejando "Happy Barack Obama"s day" ("Feliz Dia de Barack Obama"). E quando um japonês desavisado não entendeu a comemoração, o rapaz fez um gesto indicando que ele estava "fora do mundo".

Acho que esse foi o sentimento que fez com que os jovens e as minorias comparecessem em massa às urnas, apesar de não ser obrigatório votar aqui nos Estados Unidos: o de estar contribuindo para mudar o país e o mundo, como Obama ressaltou em um de seus recentes discursos.

Não vai haver nenhuma mudança fundamental nas posições do governo americano, o que vai haver é uma mudança fundamental de visão de mundo. O diálogo no lugar da força, a visão multipolar no lugar da hegemonia.

O entendimento de que no mundo moderno não é mais possível ser a primeira potência sem dar espaços para outras potências emergentes que têm papel importante em temas ou setores políticos e econômicos.

Nesse novo mundo diversificado e multipolar, será preciso dividir o poder e pensar políticas públicas que sejam boas para todos, e não apenas para um país.

A preocupação de Obama com a ecologia e com a utilização de combustíveis renováveis menos poluentes, obedece a essa postura universalista, que é o contrário do egoísmo que prevalece nos Estados Unidos, que levou o presidente Bush a não assinar o Tratado de Kioto, no pressuposto de que seria prejudicial aos interesses das empresas americanas.

Obama parece já ter entendido que os interesses americanos só serão atendidos se o interesse da comunidade internacional for também respeitado. Enquanto o presidente Bush alega querer disseminar a democracia pelo mundo e utiliza guerras para impor o regime, Obama quer mostrar as vantagens da democracia através do exemplo e do respeito ao outro.

Não é possível arvorar-se em defensor da democracia e permitir a existência de uma prisão como Guantánamo, por exemplo.

Uma abertura maior para o mundo, transformar os Estados Unidos em um país amado, e não temido, pelo resto do mundo, será uma conseqüência natural do governo "pós-racial" e até mesmo suprapartidário anunciado por Obama em seu discurso da vitória em Chicago.

Obama entendeu que a sociedade americana havia mudado, e fez a campanha toda baseada no pressuposto dessa mudança, ao contrário de John McCain, que abriu mão de sua história de republicano independente para aderir à tendência mais obscura e radical do Partido Republicano.

Jogando na suposição de que os preconceitos e os temores da América profunda prevaleceriam, que o receio do novo e do desconhecido faria com que os antigos fantasmas, inclusive raciais, lhe trouxessem a vitória, McCain, se não estimulou, não quis ou não pôde controlar a campanha negativa que tentou colocar Obama como um risco para o país, não pela experiência, mas pelo suposto radicalismo político.

O eleitorado americano superou dois traumas nessa votação avassaladora por Obama: o político, explicitado na campanha radicalizada dos republicanos, e o racial, uma ameaça latente escondida pelas pesquisas.

O exemplo maior da superação desse trauma aconteceu com a vitória de Obama em Virgínia, berço da Guerra Civil americana em 1861, um estado que desde 1964 não votava nos democratas em eleições presidenciais. Da mesma forma que os outros estados do sul, a Virgínia abandonou os democratas após a Presidência de Lyndon Johnson, demonstrando toda a insatisfação com as reformas dos direitos civis.

Virgínia, que nas últimas décadas passou de uma sociedade rural e conservadora para um estado mais urbanizado e com pluralismo político, ontem marcou sua presença nessa mudança do mapa eleitoral americano "pós-racial".

Obama fez justamente o contrário de McCain, se conectou com a nova sociedade americana e usou a revolução tecnológica para interagir com seus eleitores, não apenas para inovar no recolhimento de fundos para a campanha, mas para informar de seus passos e comungar pontos de vista.

Nesse novo mundo tecnológico, no qual a sociedade global tem agora os meios para exprimir seus anseios e suas convicções independentemente das instituições políticas e do sistema de comunicação de massa, Obama impôs-se primeiro ao eleitorado americano, e também ao mundo, que desejava sua vitória.

Essa nova maneira de encarar o mundo em que vivemos, preenchendo o vazio de representação com a interação com a sociedade civil, foi o que legitimou a ação política de Obama, ancorado nas mobilizações espontâneas usando sistemas autônomos de comunicação.

Internet e comunicação sem fio, como os telefones celulares, fazendo a ligação horizontal de comunicação, provêem um espaço público como instrumento de organização e meio de debate, diálogo e decisões coletivas, ressalta o sociólogo Manuel Castells, um dos principais teóricos dessa sociedade em rede utilizada com maestria pela campanha de Barack Obama.

Artimanhas da esperança


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Diante de tão farta e variada oferta de interpretações sobre os simbolismos da eleição de Barack Obama, mais fácil é saber o que não terá significado algum no decorrer do mandato do presidente eleito dos Estados Unidos.

A explicação ele mesmo forneceu quando teve desde o início da jornada o tirocínio de dar à cor da pele o molde de uma quase irrelevância. Na saudação pós-vitória, seguiu indiferente enquanto o mundo insistia em lhe pregar ao peito a divisa de "primeiro presidente negro dos Estados Unidos".

É dele, evidente, o título: o senador democrata é negro, foi eleito presidente e, antes dele, apenas americanos de pele branca tinham chegado à Casa Branca.

Ponto, parágrafo e encerra-se aí a questão, cuja importância objetiva é parecida com a influência concreta que a profissão de torneiro mecânico exerce sobre as atividades de Luiz Inácio da Silva como presidente da República do Brasil.

Sim, há toda a carga histórica do segregacionismo nos Estados Unidos, situação só por ligeireza absoluta comparável à ascensão de um operário que ao se eleger presidente havia militado por 30 anos no sindicalismo e na política. Lula foi uma novidade, não uma surpresa.

Entretanto, há quem - começando pelo presidente brasileiro - os iguale no terreno da representação simbólica da luta do bem contra o mal, exemplos de que o triunfo dos oprimidos sobre os opressores é possível, como se a evolução dos costumes, as mudanças do mundo não fossem parte de um processo natural da civilização.

Mas se a humanidade necessita de emoldurar como fenômeno os episódios marcantes dessas etapas, se carece de dar um valor específico à mobilização de suas expectativas, muito bem. Com esperança não se brinca.

Daí a dizer que o mundo vira do avesso e assume sua melhor face por causa da genética de um presidente já é querer fazer pouco da realidade.

Esta, em seu bom senso e modernidade, Barack Obama descreveu numa frase do discurso de Chicago ao listar os desafios à sua frente: "Duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira do século".

Citou o "caminho longo", a "subida íngreme", os "atrasos e falsos inícios" que esperam a todos, aos quais acrescentou as discordâncias às "decisões políticas" que tomará como presidente, a fim de estabelecer um contraponto futuro com o clima de comemoração daquela noite de frisson universal.

Nem a cor da pele de Obama nem o manejo do torno do metalúrgico Lula são capazes de administrar, muito menos de atender, expectativas. A diferença é que aqui o presidente cede ao vezo do personalismo e alimenta a mística para confundi-la com o ato de governar, e lá o eleito desidrata o mito.

Quando ganhou a primeira vez, Lula discursou na Avenida Paulista manifestando a certeza de que a vitória mostrava que, para o brasileiro, "só nós poderemos fazer pelo Brasil o que o Brasil precisa que seja feito".

Barack Obama falou sobre os valores compartilhados por toda a sociedade à qual pediu permissão para exigir "um novo espírito de serviço, um novo espírito de sacrifício" para que a esperança se materialize como obra coletiva, "bloco por bloco, tijolo por tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos". Sem anular o passado do país nem atribuir a um grupo político partidário o poder de fazer acontecer.

Dever cumprido

O destaque da eleição americana foram as filas monumentais de gente esperando a hora de votar; sem obrigatoriedade, sem feriado, sem revoltas à deriva contra a falta de agilidade do Estado - no caso, de cada Estado individualmente - para organizar a votação.

A "competência" eleitoral, ausente de forma geral na mente do eleitor dos EUA, é uma preocupação muito mais do brasileiro ávido por padrões comparativos que o permitam ressaltar os defeitos de uma nação que pode não contar votos com perfeição, mas funciona perfeitamente nas regras da democracia.

Nas filas dobrando quarteirões, pessoas motivadas para exercer por livre iniciativa um direito com noção de dever cívico e vontade de acertar.

Pode-se não apreciar, mas jamais depreciar atos e escolhas desse (ou de qualquer outro) povo por uma hipotética natureza eivada de arrogância, ignorância, auto-referência, racismo, atraso, moralismo, intolerância.

Americanos são assim, mas não são só assim, bem como brasileiros, noruegueses, portugueses, italianos, moçambicanos, irlandeses, suecos, australianos, islandeses e todos os demais.

A respeito deles raros se arriscam a fazer avaliações pejorativas de caráter tão genérico. Como se imprecações dirigidas a cidadãos de um país todo-poderoso não traduzissem arrogância, ignorância, auto-referência, racismo, atraso, moralismo, em duas palavras: insidiosa intolerância.

Salvador do mundo?


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Planalto e Itamaraty estavam tão eufóricos com a vitória espetacular de Barack Obama que nem se preocuparam com uma praxe: elogiar o presidente que sai.Ninguém tocou no nome de Bush.

O que houve foi uma enxurrada de adjetivos para enaltecer a chegada de um negro à Presidência da maior potência do mundo, com uma bela biografia, um bom currículo escolar e cheio de boas intenções. A principal delas não é modesta: criar uma nova ordem internacional, com menos arrogância e mais parcerias. Isso interessa ao Brasil, emergente que se auto-intitula líder da América Latina.

Obama é eleito lá e já apresentamos cá uma extensa pauta para ele: reatamento com Cuba, solução para o Oriente Médio, maior presença na África, fortalecimento da ONU, maior relação com a América Latina, retomada da agenda do clima, reativação da Rodada Doha de comércio... Ops! Antes de salvador da humanidade, Obama precisa ser salvador da pátria.

Ao assumir, em janeiro, vai dar de cara com uma crise gigantesca e com os indicadores norte-americanos destrambelhados na área fiscal e início de recessão. Vai ter muito trabalho para arrumar a própria casa antes de pensar no mundo.

Para isso, conta com fatores objetivos e subjetivos. Obama assume em 20 de janeiro com uma votação extraordinária (contrariando a tradição de eleições apertadas, vide Bush), com ampla maioria democrata no Senado e na Câmara (contrariando o pêndulo Democrata-Republicano na Casa Branca e no Congresso) e com enorme boa vontade internacional. Isso ajuda principalmente na hora de pedir "sacrifício", como já pediu.

As condições objetivas, portanto, são favoráveis. E há o fator subjetivo: a sorte. A própria crise, aguda na campanha, tende a amenizar até a posse. Só falta agora o mito da campanha estar à altura de ser presidente da maior potência -e com a economia de pernas para o ar.

Obama e Guantánamo


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Peço perdão antecipadamente aos que ainda se entusiasmam com política/políticos, mas sou obrigado a olhar a eleição de Barack Obama com os olhos de um velho brasileiro cético, cansado de ver surgirem promessas de "Nova República", "Reconstrução Nacional" e outras refundações da pátria, apenas para, na vida real, acabar tudo em mais do mesmo.

Claro que Obama pode ser diferente, mas, repito, a cor da pele e o extraordinário que é eleger um negro nos Estados Unidos não significam que a mudança virá de fato.O próprio Obama, no discurso da vitória, já cuidou prudente e sabiamente de jogá-la para um futuro talvez remoto. "O caminho à frente será longo. Nossa subida será íngreme. Nós podemos não chegar lá em um ano ou mesmo em um período [presidencial]. Mas eu nunca estive mais esperançoso como esta noite de que chegaremos lá. Eu prometo a vocês -nós-, como povo: chegaremos lá".

OK, Obama, tomara. Mas antes é preciso que você defina o que é "lá", o que é a "mudança". Antes ainda é preciso entender se foi Obama (e portanto a mudança) que ganhou ou se foi Bush (e tudo o que ele significa, inclusive John McCain) que perdeu.

Essa resposta não está disponível, mas há sinais desalentadores: em quatro votações estaduais sobre legislação a respeito de energia/ meio ambiente, a limpeza ambiental perdeu em três.
Significa que o tal de povo não parece lá muito disposto à mudança, ao menos nesse quesito.
Se o presidente eleito está de fato empenhado em uma mudança profunda, não precisa esperar um ano, não precisa esperar todo os quatro anos do mandato. Basta, no dia de sua posse, em 20 de janeiro, anunciar o fechamento da prisão de Guantánamo e a entrega de seus prisioneiros ao sistema judicial.

Devolveria os EUA ao "rule of law", primeiro e vital passo.

O fim da reeleição e um projeto de poder


César Felício
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Se algo não falta entre certas correntes de tucanos e integrantes do DEM é visão a longo prazo. A reeleição do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, apoiado numa aliança tríplice entre o ex-PFL, o PMDB quercista e o PSDB serrista deixou de ser vista como circunstancial. É encarada agora como um bom augúrio, um sinal providencial de que o Brasil entrará em breve em um longo ciclo de dominação política. O exemplo citado é o do PRI mexicano, o partido que controlou aquele país entre 1930 e 2000, em período apelidado pelo escritor Mario Vargas Llosa como "a ditadura perfeita".

Por este modelo idealizado, a idéia do fim da possibilidade de reeleição, lançada inicialmente pela oposição mas vista com simpatia em setores governistas, seria o primeiro passo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva em tese seria um beneficiário da mudança, já que poderia adiantar a sua tentativa por um segundo período na presidência. Mas para determinado círculo de oposicionistas o fim da reeleição prescindiria de um acordo com Lula. Passaria apenas por um acerto entre as cúpulas dos dois partidos de oposição e do PMDB nacional. A reeleição se extinguiria após a disputa de 2010. Ainda sobreviveria para os prefeitos eleitos no último domingo, pela tese do direito adquirido.

Reeleição terminada, entra-se no segundo passo, que seria o aumento dos mandatos do presidente, dos governadores e do Legislativo para cinco anos, de maneira às eleições subsequentes a de 2010 coincidirem em 2015. Não está claro como ficaria o desenho institucional dos mandatos municipais. Haveria um mandato tampão de três anos para os eleitos de 2012, de modo a se promover a coincidência de todas as eleições no pleito seguinte? Deixaria-se da forma como está, já que pelo calendário haveria uma junção de todas as eleições em 2020?

O terceiro passo é o da aliança para a chapa presidencial, em que o governador de São Paulo, José Serra, encabeçaria a aliança, escoltado pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves, na posição de vice-presidente, com o compromisso de o PMDB ter o direito de indicar o candidato presidencial em 2015. Paralelamente, o instituto da fidelidade partidária seria revisto, de modo a permitir aos pemedebistas captar no mercado de legendas o nome ideal para a disputa.

Os defensores desta arquitetura imaginam que já para 2010 disporiam de uma fórmula muito difícil de ser batida pela força do governo federal e o carisma do presidente Lula: somariam o primeiro e o segundo maior colégio eleitoral do País e três partidos que, juntos, hoje, controlam 14 dos 27 governos estaduais, 210 dos 513 deputados e 46 dos 81 senadores.

Os aliados de Serra na oposição já traçaram até a rota de quais seriam os pemedebistas a serem procurados para a conversa: a lista começa pelo ministro da Integração Nacional, o baiano Geddel Vieira Lima. Passa pelos governadores do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli; do Paraná, Roberto Requião; e de Santa Catarina, Luís Henrique. São dirigentes que possuem em comum uma relação conflituosa com o PT em seus Estados. O ex-governador paulista Orestes Quércia e o senador Jarbas Vasconcelos (PE) já são vistos como aliados.

Também existe a noção de quais pemedebistas estão solidamente vinculados a Lula e devem ser, a princípio isolados: o rol se inicia pelo ex-presidente e senador José Sarney (AP) e sua filha, a senadora Roseana Sarney (MA), passando em seguida pelo prefeito de Goiânia, Iris Rezende, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, e o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho. Todos ou são aliados, ou estão muito próximos do PT em seus respectivos Estados.

Para que tudo isso abandone o terreno do onírico, ainda há um longo caminho. A idéia não entusiasma pemedebistas que já se declararam favoráveis à candidatura presidencial de Serra, como Orestes Quércia. "É um acordo que deixa todas as intenções muito evidentes. Assim fica díficil", comenta. Também é recebida com frieza por dirigentes tucanos que não estão alinhados ao serrismo. Um parlamentar da sigla, não-alinhado a Serra lembra que há tucanos defensores do princípio da reeleição por questões doutrinárias. "Não é preciso mudar a Constituição do país para fazer a aproximação entre o governador paulista e o mineiro e entre ambos e o PMDB", ironizou.


César Felício é repórter de Política. A titular da coluna, às quintas-feiras, Maria Inês Nassif, está em férias

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O PPS E A SUCESSÃO


Givaldo Siqueira

Infelizmente não pude expor mais cedo, para todos, minhas opiniões sobre essa questão da sucessão. Aproveito, então, a opotunidade para expor os meus argumentos.

Mas, logo, de saída, é importante reiterar que não é da natureza do nosso partido, já que nos pretendemos vanguarda, contemplar, esperar, pois, ao contrário do que diz o provérbio, quem espera nunca alcança, para alcançar é necessário ir buscar.

Ao contrário do que proclamam os contemplativos, "quem sabe faz a hora", já o disse bastante bem o Vandré, . A atividade é nosso motor e não a passividade. Somos (ou deveríamos ser) um partido de ação política!

O processo sucessório está em pleno curso e, em política, quem foge do processo político real e em curso, fica na "boca de espera" ou tenta inventar um outro, apenas se aliena, na melhor das hipóteses. Essa história de esperar que os outros decidam para só então nos definirmos é de pasmar. Não se trata de uma decisão da economia interna deste ou daquele partido, mas da escolha de um candidato de um campo, no qual estamos, e que precisa, por outro lado, envolver a sociedade, pois estamos falando de um candidato à Presidência da República.

Como então não nos envolvermos, desde logo, deixarmos correr?

De fato, isso nada tem a ver com a nossa tradição, nem com cuidados necessários e outras "cositas más" (não devemos, por outro lado, dar atenção aos que pretendem substitutir a política pela forra e pelo rancor, pela mesquinharia, derivados de expectativas contrariadas). E se fala, para embasar essa barbaridade, em "nossas tradições"... Parece que não conhecem nossas tradições!

Falemos então de nossas verdadeiras tradições. E, para não irmos muito longe, recordemos como nos comportamos nas sucessões anteriores, sob a vigência da nova Constituição.

Por acaso, em algum momento, ficamos esperando, concentrados na elaboração de propostas e programas, deixando andar para ver como ficaria? Não, nada disso. Independentemente do acerto ou não das escolhas, nunca ficamos na expectativa.

Para a sucessão de 1989, logo de cara, lançamos Roberto Freire; para a de 1994, muito "tempranamente", costuramos a aliança com Lula e Arraes; para a de 1998, do mesmo modo, abrimos o processo com a candidatura de Ciro, o que repetimos para a de 2002; e novamente o fizemos para a de 2006, com a candidatura de Roberto Freire.

Essa é a nossa tradição. Foi a nossa incapacidade de sustentar a candidatura de Freire (por causa de muitos "ismos") que nos levou para o apoio a Alkimin, com o jogo já feito, e com as consequências conhecidas, como alguns parecem querer repetir agora.

Mas, no passado, antes da ditadura militar, também o fizemos. Para a sucessão de 1954, tentamos lançar Oswaldo Aranha, que não quiz, sucessivamente tentamos o mesmo com Estilac Leal e Jango, que também declinaram. Então, a partir desse esforço e por ele revigorados apoiamos JK.

Para a sucessão de 1960, até para atalhar manobras dos aliados, e porque o considerávamos o mais consequente, lançamos Lott, já em 1959, e que terminou por se impor à frente de então.

Durante a ditadura também não ficamos esperando. Quando ainda não se tinham suprimido as eleições diretas para a Presidência, participamos da estruturação da Frente Ampla, reunindo JK, Jango e Lacerda, e em torno à candidatura de JK.

Mesmo com eleições indiretas, aproveitamos a brecha, saimos na frente, e assim participamos do lançamento da candidatrua do general Euler Bentes, para aguçar contradições na ditadura, e, depois, das anticandidaturas de Ulisses-Barbosa Lima.

De novo, essa é a nossa tradição!

Mas temos também outras experiências, as de tentarmos, por exemplo, ignorar o processo político real e, no caso, por puro sectarismo, subjetivismo e preconceito, tentar substituí-lo por outro. Em 1964, já estava em curso o processo sucessório e nós, ao invés de o impulsionarmos, inclusive com o lançamento de uma candidatura ou apoiando a de JK, recusamo-nos e enveredamos pelos caminhos golpistas, com os resultados conhecidos.

Hoje, as cartas estão mais ou menos distribuídas e o jogo se fazendo. Como participar do mesmo? Ficar de fora, peruando? Ora, peru de fora não se manifesta.

E temos diversas tarefas a resolver, que dependem de definições bem precisas, como montar nossas candidaturas proporcionais e majoritárias e nossas alianças estaduais para 2010.

Não devemos permitir que se fatie o processo sucessório, submetendo-o à lógica dos particularismos estaduais, ou alguém duvida que nessas alturas já está em andamento, em alguns Estados, a construção dessa ou daquela aliança? Alguém pensa seriamente que montaremos chapas competitivas propocionais e/ou majoritárias, para 2.010, com as palavras de ordem "espera" ou "ainda não sei", "quem sabe"? "Venha participar da elaboração e discussão de nosso programa".

Por favor!

Esse caminho é absurdo.

Quais são então as alternativas?

1) Rever nossa posição e retornar ao campo governamental, através dessa ou daquela variante, como alguns pretendem, com todo o direito. Mas devem proclamá-lo, com toda a transparência. De qualquer maneira, teríamos também de escolher uma candidatura (do PT, do PMDB ou do PSB) ou deixar aos caprichos de Lula, como parece ocorrer (mas só parece) no PT?

2) Reafirmarmos o campo oposicionista como o nosso, o que, aliás, já fizemos.


Mas isso não basta.

No campo oposicionista, erguem-se duas pré-candidaturas, a de Aécio e a de Serra.

Podemos, é claro, pretender uma terceira, pensar em candidatura própria. Mas não creio que seja o caso, como não será fazer de nosso apoio moeda de troca: "nós te apoiaremos à presidência se você nos apoiar em tal ou qual lugar, me der isso ou aquilo" ,etc.

Há todo um esforço, ainda que bem diferenciado, de Lula, do PMDB e do PSB sobre Aécio.

O de Lula pretendendo atraí-lo para o seu campo, com promessas de varias piscinas, o que parece muito improvável dar certo. Como o pato, Aécio não é de acreditar nisso e nem vai nessa de piscina.

Mas há outro plano, o de se convencer Aécio a se candidatar pelo PMDB, o que dividiria as oposições, ampliando a área de manobra e as chances do PT e de Lula. Essa chapa seria, por outro lado, muito forte, sobretudo se contasse com o PSB (Ciro, na vice), mas não seria de oposição.E teria a fraqueza de ser carimbada como de trânsfugas e carreiristas, políticos que mudam de partido apenas para realizar suas ambições pessoais. Não acredito que Aécio se deixe encantar, ele ainda tem bem presente o que ocorreu com Tancredo quando, apesar de toda a sua expewriência, caiu na armadilha do Partido Popular, já que o seu partido nã poderia ser o mesmo de Arraes... Agora, o partido de Aécio não poderia ser o mesmo de Serra!

E, por fim, desenvolvem-se as manobras do "pós-lulismo" e do PSB e de Ciro, tendo como um de seus impulsionadores Márcio Lacerda, em favor de uma chapa PSDB-PSB. Ela seria composta por Aécio e Ciro (e teria a simpatia e o esforço explícitos de Tasso Jereissati) ou por Aécio e Eduardo Campos. Tentam apresentá=la como de centro-esquerda, em oposição à outra que seria de centro-direita, isto é, do PSDB-DEM, em torno a Serra. É verdade, seria uma chapa forte e que não se pode ser descartar, assim sem mais nem menos, mas ela dependeria da vitória de Aécio dentro do PSDB. De outro lado, mesmo se proclamando "pós-lulista", não seria de oposição, responderia pela tradicional política de conciliação de nossas classes dominantes, sobretudoi mineiras, coisas do "velho pessedismo".

Nós podemos optar (porque não? pela candidatura de Aécio, desde que seja pelo PSDB e pela oposição, no seu conjunto, i.e., como uma clara alternativa democrática e reformista ao quadro atual. E é claro que apoiaríamos quaisquer esforços para mantê-la aberta a apoios mais amplos, contudo opondo-nos à conciliação. Não há, em relação a Aécio, nada que nos impeça de apoiá-lo, como aliás o fazemos em Minas. Todavia em qualquer hipótese também deveríamos fazê-lo imediatamente ou vamos ficar assistindo inertes o desenvolvimento de todas as manobras e pressões? Vamos ficar na retaguarda sem meter nossa colher? Que elementos de nossa política e de nossas proposições comporiam, então, a plataforma e a aliança? Que peso teriam?

A outra alternativa é o apoio imediato a Serra já claramente colocado como candidato oposicionista e sem tergiversações. Trata-se de uma candidatura bastante forte e com ampla possibilidade de vitória. Serra é nosso aliado desde 1961 e nunca pretendeu nossa subordinação. Bem diversamente do que apregoam alguns, sempre, entre as forças democráticas e reformistas, situou-se à esquerda (seria bastante analisar seus atos e trajetória e nomear os principais quadros com os quais sempre fez e faz política). Opôs-se aos elementos monetaristas presentes na política econômico-financeira de FHC e que permanecem no governo Lula. Tem bastante experiência, talento e criatividade, o que é fundamental numa situação de crise. Sua plataforma é claramente reformista e desenvolvimentista, democrática. Seu projeto para o Brasil não é diverso do nosso, mas convergente. É uma candidatura com ampla possibilidade de aglutinação e de mudança.

Eis, na minha opinião, o que devemos fazer, e imediatamente, como vanguarda, atuando ativamente para fortalecer essa candidatura no PSDB (Serra e Aécio, por exemplo, formariam uma chapa muito poderosa e que golpearia todos os manobreiros que pretendem dividir a oposição), nas formações políticas e na sociedade, esforçando-nos para ampliar seus apoios, e lutando no interior da aliança para influir com nossas posições e propostas e para ocupar posições. Isso não ocorrerá por espritismo!.

Ninguém vai avançar parado.

Torturas. Tema incômodo para Lula

Jarbas de Holanda

Em declarações feitas anteontem em São Paulo – em seminário promovido pelo Instituto de Advogados, pela Fundação Getúlio Vargas e pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso – o presidente do STF, Gilmar Mendes, pediu cautela na discussão sobre a prescrição de crimes de tortura praticados durante os governos militares pós-64, equiparando-os a ações de terrorismo e condenando “o unilateralismo” e “a ideologização” no tratamento de questões ligadas a direitos humanos. Sobre o argumento de que tais crimes são imprescritíveis – sustentado pelo secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, com apoio dos ministros Tarso Genro e Dilma Rousseff - Gilmar Mendes afirmou que “a imprescritibilidade é uma discussão de dupla face”, acrescentando que “o texto constitucional em vigor diz que crime de terrorismo também é imprescritível”. E concluiu: “É evidente que esse tema se presta a ideologizações e politizações, e tenho uma posição muito clara em relação a isso. Eu repudio qualquer manipulação ou tentativa de tratar unilateralmente os casos de direitos humanos”.

Tais declarações reforçaram a posição do ministro da Justiça, Nelson Jobim, e de parecer do chefe da AGU – Advocacia Geral da União, José Antonio Toffoli, ao acolhimento de processos contra supostos responsáveis por torturas praticadas entre 1964 e 1985, com base na justificativa de que eles foram perdoados pela Lei de Anistia. É que caberá ao STF decidir sobre a legalidade de pedidos do gênero. Ouvido pela imprensa após a manifestação de Gilmar Mendes, o ministro da Defesa afirmou: “O que vai ser decidido pelo Supremo não é se alguém é a favor ou contra torturados ou torturadores. O que o STF vai analisar é se será revisto ou não o grande acordo nacional feito na década de 70, que levou à aprovação da Anistia”.

Mais do que uma atitude pessoal, Nelson Jobim procura representar a postura dos comandos das três Forças Armadas de forte rechaço à abertura de processos sobre torturas. Rechaço que preocupa o presidente Lula e condiciona seu posicionamento a respeito da questão: de distanciamento e de aguardo da decisão do STF, bem distintos da retórica ideologizada que gostaria de utilizar mas que avalia como arriscada e inoportuna. Especialmente agora que não pode somar um problema sério com os militares aos efeitos da crise financeira internacional.

Bancos. Prioridade é liderança do BB

Uma resposta aos efeitos da crise financeira que o governo Lula não esperava: a fusão do Itaú com o Unibanco, anunciada anteontem, que coloca a holding resultante no topo do sistema bancário brasileiro, obstruindo os passos do Palácio do Planalto, dados em nome do enfrentamento da crise de crédito, para reforçar a liderança do Banco do Brasil e o papel da Caixa Econômica Federal. Objeto de entendimentos iniciados há mais de um ano (sob influência da negociação para a compra do Real pelo ABN holandês) mas aprofundados e rapidamente concretizados agora, essa fusão – que igualmente surpreendeu os bancos privados concorrentes – situará a Itaú Unibanco Holding S.A. como maior instituição financeira da América Latina. Em condições de combinar peso relevante no cenário doméstico com funções significativas no mercado financeiro internacional. Um banco sob controle de brasileiros capaz de competir com os de controle externo que atuam aqui, como o ABN, o Santander, o HSBC, e com outros, norte-americanos, europeus, japoneses.

Já os jornais de ontem mostravam e avaliavam as reações do governo à iniciativa das famílias Setubal e Moreira Salles. Do Globo (Panorama Político) “reações do governo à megafusão de bancos privados. Do Globo (Panorama Político): “Mantega no ataque – O ministro da Fazenda acredita que a compra do Unibanco pelo Itaú enfraquece os argumentos dos críticos da MP 443. Sua avaliação é a de que não se pode negar ao Banco do Brasil e a CEF instrumentos de fortalecimento, quando os bancos privados se unem para enfrentar a crise. Alega que, como Itaú e Unibanco negociaram por 15 meses, não há razão para estabelecer um prazo de vigência para a MP”. Do Estado de S. Paulo:: “A estratégia do governo agora é garantir a aprovação o mais rápido possível e sem grandes modificações da MP 443. O relator da matéria na Câmara, João Paulo Cunha (PF-SP) foi chamado ontem para reuniões no ministério da Fazenda”. “Com o anúncio da fusão, cresceram rumores de negociações em curso do BB para comprar outros bancos. O mais forte deles era o de que estaria comprando o Banco Votorantim”. Por sua vez, reportagem do Valor informa que: “A operação envolvendo o Unibanco e o Itaú reavivou dentro do Banco do Brasil sua aspiração de incorporar a Caixa Econômica Federal, como forma de recuperar a liderança no mercado bancário nacional”.

Concluindo, cabe assinalar que o fortalecimento do Banco do Brasil, não através de medidas estatizantes do mercado financeiro mas de forte atuação competitiva com os concorrentes privados e com a retomada e o avanço de processos de modernização (inibidos nos últimos nos pelo excesso de partidarização na escolha de seus dirigentes) é algo importante para a economia brasileira, para seus diversos setores produtivos, sobretudo a agricultura, e para a população que usa os serviços bancários.

Mudanças profundas


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Foram muitas mudanças ao mesmo tempo nesta eleição histórica, além do fato de que um negro estar a ponto de se tornar presidente dos Estados Unidos apenas 44 anos depois que a legislação dos direitos civis iguais permitiu aos negros votar. O presidente Lindon Johnson assinou em 1964 a lei dos direitos civis iguais na votação, na educação, nas acomodações públicas, na associação a sindicatos e no acesso a programas federais de assistência social, que tem repercussões até hoje nos estados do Sul do país, com apoio maciço aos republicanos, uma rejeição aos democratas que começou a mudar nesta eleição.

A começar pelo comparecimento maciço do eleitorado, passando pela previsão de que haveria a manutenção da maioria democrata no Congresso, fato que daria ao candidato Barack Obama uma extraordinária vantagem neste momento de crise econômica.

Mesmo que o candidato republicano John McCain tenha se esforçado em denunciar os supostos perigos de dar o poder total ao mesmo partido - que elegeria o presidente e teria a maioria ampla da Câmara e do Senado -, tudo indica que esse será o quadro final.

O comparecimento, num país em que a votação não é obrigatória, dá a medida do interesse despertado pela presença de Barack Obama na disputa, que entusiasmou jovens e minorias, que historicamente comparecem pouco para votar.

A previsão é de que haverá um comparecimento de 64% do eleitorado, o que equivaleria a um total de 136 milhões de eleitores, 13 milhões a mais do que a eleição de 2004, que reelegeu George W. Bush. Só uma eleição teve maior comparecimento: a de 1908, que elegeu o republicano William Taft, quando o comparecimento foi de 65,7%.

Outra eleição muito concorrida foi a de 1960, em que John Kennedy derrotou Richard Nixon, quando 63,8% dos eleitores registrados exerceram o direito ao voto. Segundo o International Institute for Democracy and Electoral Assistance, nas oito eleições presidenciais dos Estados Unidos, entre 1972 e 2000, o comparecimento médio ficou entre 50% e 55%.

Os institutos de pesquisa de opinião este ano utilizaram uma média de comparecimento de 60%, no pressuposto de que haveria maior interesse, mas nenhum considerou a possibilidade de um comparecimento próximo de 65%.

O movimento para alistamento de eleitores, que mobilizou milhares de voluntários da campanha de Obama durante quase um ano, fez também com que alguns estados mudassem de tendência política, juntamente com uma evolução natural do desenvolvimento de algumas regiões.Virgínia, por exemplo, deixou de ser um estado rural para se urbanizar.

Quanto à política de pesos e contrapesos, uma característica dos Estados Unidos, a crise econômica parece ter dado aos democratas um vigor a mais, além da tendência natural que já se manifestara desde as eleições de 2006.

Desde então os democratas tomaram conta da maioria do Congresso com uma política eleitoral populista que privilegiou a classe média. Com o país claramente dividido, o atual presidente George W. Bush foi eleito pela primeira vez em 2000 com um resultado polêmico na Flórida, e o Congresso ficou também dividido, com uma pequena margem a favor dos republicanos na Câmara: 220 a 211.

Com os ataques terroristas de 2001, o governo Bush conseguiu uma maioria confortável na eleição parlamentar de 2002 e na reeleição de 2004, mas dois anos depois, com a deterioração não apenas da economia, mas também com o desgaste político da guerra do Iraque, os republicanos perderam a maioria do Congresso que mantinham há 12 anos, desde 1994 no governo Clinton.

Foi a pior eleição para a Câmara dos republicanos desde 1982: os democratas ficaram com uma bancada de 235 deputados contra 199 republicanos. No Senado, a diferença foi menor: 51 senadores democratas contra 49 republicanos, sendo que dois dos democratas tornaram-se independentes, mas dão freqüentemente a maioria aos democratas.

Com a renovação de um terço do Senado e a totalidade da Câmara na eleição de ontem, a perspectiva era de que os democratas ampliassem sua vantagem a ponto de atingir no Senado o número mágico de 60 cadeiras, o que possibilita ao partido impedir as obstruções da oposição.

A importância de deter a maioria, com o controle das comissões, ficou clara quando a crise financeira estourou, em meados de setembro, e o presidente Bush precisou aprovar medidas que dependiam do Congresso. O secretário do Tesouro, Henry Paulson, e Ben Bernanke, o presidente do Fed, tiveram que negociar especialmente com os democratas, e foi devido ao apoio deles que o projeto da Casa Branca, depois de muito modificado, foi aprovado.

Heróis americanos


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Os americanos estão inseguros e querem mudanças. Obama conseguiu encarnar esse sentimento, por mais que McCain, no desespero, adotasse a estratégia negativa do medo para contê-lo

Escrevo no lusco-fusco entre a votação e a apuração das eleições norte-americanas. Depois de uma semana eletrizante, em que o candidato conservador John McCain (Partido Republicano) conseguiu criar um clima de virada numa eleição considerada perdida, tudo indica que o renovador Barak Obama (Partido Democrata) levou a melhor. Se hoje amanhecemos sem saber o resultado, a culpa é do sistema eleitoral norte-americano. O vencedor das eleições para a Presidência dos Estados Unidos pode ter menos votos nas urnas, como aconteceu na eleição de George Bush contra Al Gore, por causa da composição do colégio eleitoral que o escolhe. Os delegados estaduais são eleitos por um sistema no qual cada estado elege delegados em número igual à soma de seus deputados e senadores. O partido que vence as eleições num estado indica a totalidade dos seus delegados, não importa a votação de quem perdeu. Porém, é assim que a democracia americana funciona. E é nela que o mundo inteiro, neste momento, deposita as esperanças de um futuro melhor.

Heróis


A disputa entre Obama e McCain foi um embate entre dois mitos políticos. McCain era o herói americano da guerra do Vietnã, que por oito anos ficou confinado e se recusou a fazer concessões aos comunistas. Voltou para casa com seqüelas que até hoje dificultam seus movimentos e muitas críticas ao governo de seu país. Assim, construiu uma carreira de franco-atirador entre os republicanos. Foi candidato contra a opinião do establishment. Sua imagem de reformador, porém, foi “desconstruída” durante a campanha pela gradativa aproximação ao presidente Bush e pela escolha da vice Sarah Pallin, a governadora “linha-dura” do Alaska.

Obama é o jovem político mulato. Estudou nas melhores universidades e fez uma carreira parlamentar meteórica a partir de Chicago. Filho de mãe norte-americana e pai queniano, não tem antepassados ex-escravos na América e chutou o pau da barraca da segregação com um discurso pós-racial. Tornou-se um mito durante a campanha, superando todos os obstáculos, com o discurso de resgate do “sonho americano”. Como um herói noir, Obama é o homem comum capaz de coisas incomuns.

Ambos, de uma maneira ou outra, são protagonistas da democracia americana. Provaram do isolamento, destruidor das capacidades políticas, e do desenraizamento, destruidor da capacidade de relacionamento social. McCain viveu a experiência do isolamento na guerra; Obama, o desenraizamento durante a infância no Havaí e na Indonésia em companhia da mãe. Isolamento e desenraizamento são formas de opressão. Hannah Arendt, filósofa judia-alemã, aponta-os como a origem do totalitarismo. Ela parte do princípio de que o homem se distingue no reino animal não apenas pela vida biológica e o trabalho, mas pela sua ação com os demais. O agir e o pensar politicamente é que dão aos homens a plena condição humana.

Mudanças

A idéia de que uma vida melhor é possível está no eixo do discurso de Obama. É parte de sua experiência pessoal. Por isso, seu exemplo fascina o mundo. Sua candidatura resgata o melhor do “americanismo”, a convicção de que os Estados Unidos são um nação onde qualquer cidadão, com sacrifício, trabalho e talento pode se tornar o homem mais importante e poderoso do mundo. Essa é a liga mais forte da democracia com o capitalismo.

A força de Obama resultou da mobilização de milhões de pessoas, jovens e idosos, negros, hispânicos, brancos, árabes e judeus. Gente que alargou os horizontes da democracia americana, promoveu uma mobilização eleitoral inédita. Há uma crise econômica com epicentro em Wall Street que se alastra pelo mundo. Os americanos estão inseguros e querem mudanças. Obama conseguiu encarnar esse sentimento, por mais que McCain, no desespero, adotasse a estratégia negativa do medo para contê-lo.

Para nós, aqui no Brasil, as conseqüências da eleição de Obama poderão ser mais pressão pela preservação da Amazônia, por causa do ativismo ambiental dos democratas; e menos abertura para os produtos brasileiros, incluindo o etanol, devido ao protecionismo dos sindicatos norte-americanos. Em contrapartida, haverá mais diálogo dos EUA com seus desafetos pelo mundo. Obama deverá adotar também uma postura mais flexível em relação aos imigrantes, e apostar num novo modelo energético para os EUA, menos dependente do petróleo, o que pode resultar num novo ciclo de inovações tecnológicas e expansão econômica em todo o mundo.

Instrumento democrático, ou não


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO

O sistema de prévias eleitorais para compatibilizar demandas partidárias tem sido, no Brasil, uma experiência ainda à procura da eficiência. Propõe a prévia quem está em desvantagem. Sendo um instrumento democrático de escolha, o candidato que está na frente se constrange e concorda com seu desafiador. Vencida a prévia, porém, é certo que a campanha terá apenas a metade do partido. A outra parte, perdedora, cruza os braços.

O PT, partido que por aqui tem a maior experiência com as prévias, e já incluiu o instrumento como dispositivo obrigatório nas normas estatutárias, ainda não provou o acerto da medida. Ao contrário, a cada eleição constata que reside neste sistema muito da responsabilidade pela transformação de vitórias certas em derrotas inesperadas.

Na última eleição municipal, o incidente que mais chocou o partido, e por isto ainda está atravessado nas emoções dos dirigentes, surgiu do embate em uma prévia. Foi a disputa em Santo André, em São Paulo.

Vanderlei Siraque disputou uma acirrada prévia petista com Ivete Garcia. Ivete é a vice prefeita da cidade e o prefeito que deixa o cargo, o também petista João Avamileno (metalúrgico, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, que era vice de Celso Daniel e assumiu quando ele foi assassinado, depois conseguiu ser reeleito para um segundo mandato), ficou com Siraque.

O PT se dividiu ao meio. Como o prefeito, no cargo, lutou por Siraque, parte do secretariado pediu demissão para trabalhar contra; Miriam Belchior, mulher de Celso Daniel, assessora do presidente Lula, que trabalha na Presidência da República, em Brasília, apoiou Ivete. O chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, também apoiou Ivete, e todas as reportagens do período da disputa expuseram a fissura no partido provocada pelas prévias vencidas, por margem apertadíssima, por Siraque.

Foi uma briga, segundo avaliações feitas hoje, considerada histórica. Todos se envolveram, quem tinha e quem não tinha ligações com a política de Santo André. De tão violento, o embate não permitiu juntar os lados imediatamente para enfrentar a campanha.

O prefeito (Avamileno) ganhou a prévia com Siraque e derrotou sua vice Ivete Garcia e a turma do Palácio do Planalto. O grupo derrotado foi aderindo muito lentamente ao candidato que, por pouco, não venceu no primeiro turno. Dos candidatos petistas que foram ao segundo turno, Vanderlei Siraque esteve mais perto de vencer no primeiro turno, teve 48,5% dos votos. No segundo, juntaram-se contra ele todos os que disputaram o primeiro - Newton Brandão, do PSDB, Raimundo Salles, do DEM - e o vencedor, Aidan Ravin, do PTB, um azarão, além da falta de empenho daqueles que estavam com Ivete na prévia. O PT perdeu a eleição e a prefeitura de uma cidade estratégica.

Não há um integrante da cúpula do PT que já tenha se conformado com o que ocorreu em Santo André, e o caso é exemplo de problema originado nas prévias.

Em Porto Alegre, também este ano, o sistema de prévias mostrou, segundo as avaliações internas, que pode mesmo estraçalhar o partido. O grupo de Miguel Rossetto cruzou os braços na campanha de Maria do Rosário, com quem disputou as prévias. Ela acabou tendo um embate voto a voto com a candidata do PCdoB, Manuela D"Ávila, no primeiro turno, e no segundo turno perdeu feio para o atual prefeito, José Fogaça, do PMDB. Exceção à regra, a ministra Dilma Rousseff, que nas prévias trabalhou por Rossetto, na campanha apoiou desde logo Maria do Rosário e foi quatro vezes a Porto Alegre para participar da campanha.

Ainda no Rio Grande do Sul, o atual ministro da Justiça, Tarso Genro, já havia sido protagonista, em 2002, do grande problema que a prévia tem sido para o PT. Deixou a prefeitura e venceu Olívio Dutra por 300 votos na disputa para ser o candidato ao governo do Estado. Olívio, disciplinado, apoiou Genro, mas muitos cruzaram os braços e ele perdeu a eleição.

Até o presidente Lula já foi desafiado a participar de prévia pelo senador Eduardo Suplicy. Lula lhe disse: "Para que prévias? Vamos ficar um falando mal do outro?" Suplicy respondeu: "Não, vou falar bem de você". Mas Lula, mesmo irritado com a iniciativa, ficou quieto, não fez campanha e ganhou a prévia para ser o candidato a presidente.

Antes, os embates mais fortes ocorriam nas convenções partidárias e, reconhecem políticos do partido, havia mais debate político e ideológico, além de negociação. Além de tocar duas campanhas, o vencedor das prévias tem, como primeira tarefa, convencer seu adversário interno a trabalhar por ele. Não há ainda uma conclusão sobre o que prevalece, se seu caráter democrático e de mobilização e exposição que as prévias permitem, ou se seu poder destrutivo da união partidária necessária para vencer a disputa.

Aprendiz de feiticeiro, o PSDB, principal adversário do PT na sucessão presidencial, pelos cenários que se colocam agora, começa a falar em seguir o mesmo modelo. A idéia foi, desta vez, primeiro mencionada pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves, durante a campanha das eleições municipais. Aécio quer disputar com o governador de São Paulo, José Serra, a candidatura do partido à Presidência da República, em 2010. Mesmo que o adversário concorde, e parece que sim - já teria, inclusive, dado sinais disso à direção partidária -, o governador de Minas dificilmente conseguirá fazer prévias antes de outubro de 2009, e isto será um outro grande problema.

Nesta data, exatamente um ano antes do pleito, esgota-se o prazo de mudança de partido. Espada que políticos ligados ao governador ameaçam deixar cair sobre o PSDB caso ele não consiga a legenda para ser o candidato.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Fora do tempo


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


A polêmica entre autoridades sobre a punição dos torturadores do regime militar não se resolverá pela força do bate-boca. Ou, por outra, uma das partes poderá até conseguir fazer prevalecer sua posição. Mas por esse caminho criam-se atritos e dificilmente se chega a uma solução satisfatória.

Inclusive porque há razão dos dois lados. A Lei de Anistia em vigor desde 1979 beneficiou a todos sem exceção, mas é a fotografia de uma época, a tradução do acerto possível no último governo da era autoritária.

Há 30 anos, insistir na punição dos torturadores equivaleria a manter os castigos impostos aos adversários da ditadura e a pôr em risco o avanço do processo de redemocratização do Brasil. Não havia condições objetivas de fazer as coisas de outra forma. Era isso ou o retrocesso. Hoje, num cenário complemente diferente, não faz o menor sentido retomar o tema como se não tivessem se passado três décadas e mudanças radicais não tivessem ocorrido no País.

Nesse período, alteraram-se a correlação de forças, os militares submeteram-se ao poder civil, quase nada do que era aceitável naquela época, jurídica, social e politicamente falando, sobreviveu a esses 30 anos.

O público ouvinte é outro. Formado por uma maioria de jovens, tem - na melhor das hipóteses - apenas uma ligeira idéia a respeito do assunto que tanto mobiliza o governo, contrapõe ministros e agora também inclui os presidentes do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

Algo dessa envergadura não adquire legitimidade na democracia se a sociedade não for partícipe.

No caso, ela continuará à margem enquanto o governo não disser exatamente qual a sua posição sobre o embate suscitado por uma ação do Ministério Público de São Paulo pedindo a punição de dois torturadores da ditadura, os militares Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos.

A Advocacia-Geral da União atesta que, pela Lei de Anistia, ambos estão perdoados, opinião compartilhada pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, pelo senador Garibaldi Alves e sugerida também pelo presidente do STF, Gilmar Mendes.

Os ministros Tarso Genro, da Justiça, Dilma Rousseff, da Casa Civil, e Paulo Vannuchi, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, discordam. Para eles, tortura é crime comum, hediondo e, portanto, imprescritível.

O presidente Luiz Inácio da Silva gostaria, segundo versão de sua assessoria, de ver extinto o conflito em público. Mas aceita que a troca de opiniões prospere e não diz qual é a sua visão do problema.

É remexer na Lei de Anistia? Se for, que diga o quanto antes. Se não for, que encerre de verdade a querela e deixe a Justiça resolver. Mesmo ela enfrentará um campo espinhoso.

A tortura obviamente não é um ato político, muito menos perdoável. Mas a luta armada tampouco será aceita pelos familiares de suas vítimas como uma opção de defesa à violência do Estado - a única saída, de acordo com determinada visão de mundo, para tentar romper a opressão do regime.

O debate é difícil, delicado, requer desarmamento de espíritos adaptado aos novos tempos, implica necessariamente a inclusão de todas as partes e, por mais complicada que seja toda essa abordagem, só há uma saída.

Ou se encara a questão com clareza e assertividade ou se calam todos. Senão para sempre, pelo menos até que apareçam lideranças capazes de repor o tema das reparações na agenda nacional sob a ótica da democracia consolidada, desprovida de sentimentos ainda referidos no calor de uma luta, esta sim, superada.

Sem a construção de consenso real - para mudar a Lei de Anistia ou para manter as regras do acordo de transição de 30 anos atrás - o debate não sairá do campo da fabulação ideológica passadista. Boa para enaltecer biografias necessitadas de reparos, mas inútil no tocante à definição objetiva sobre a prescrição dos crimes cometidos em nome da intolerância.

Exemplar

O presidente Lula ontem reclamou mais uma vez da imprensa; não errou de todo, mas o equívoco foi tamanho que acabou anulando o acerto.

O presidente reclamou que, quando ele inaugurou a usina de Tucuruí, a imprensa deu destaque ao papel de bala e ignorou a obra em si.

Lula está certo sobre a opção preferencial pela notícia pitoresca em detrimento de fatos substantivos. Isso ocorre porque uma é auto-explicativa e os outros dão tratos ao raciocínio. Mas o presidente escorregou na infelicidade do exemplo.

O gesto do papel de bala jogado disfarçadamente ao chão não é menor. Simboliza aquelas pequenas transgressões que, juntas, sustentam a cultura da impunidade como valor com o qual se deve conviver e não ao qual seja necessário combater.

Segundo Lula, em “nenhum país do mundo” isso seria destaque. De fato. Porque em país civilizado dificilmente presidente da República joga lixo na rua e ainda acha que está coberto de razão.

Novos eleitores

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

Quem imagina que as eleições de 2010 serão determinadas por quais partidos tiveram mais ou menos votos este ano, quais pré-candidatos saíram mais fortalecidos, não está entendendo nada

Quando se fazem balanços sobre as eleições, a atenção costuma se voltar para dentro do sistema político. Interessa saber quem se fortaleceu e quem diminuiu de tamanho, quem larga melhor para as eleições seguintes e quem tem problemas para resolver.

É o que estamos vendo, nos últimos dias, na cobertura da imprensa a respeito da eleição municipal recém realizada. De modo geral, ela tem procurado identificar quem saiu delas maior para as eleições presidenciais de 2010, que partidos cresceram e que candidatos mais se beneficiaram.

Quase sempre, no entanto, são avaliações que dizem pouco. Que sentido tem, por exemplo, contabilizar resultados eleitorais tendo por base os partidos políticos? Quando o candidato de um determinado partido vence, às vezes dentro de uma coligação que tem outros 10, todos os votos devem ser atribuídos apenas a um?

Vejamos um caso concreto. Eduardo Paes, do PMDB, teve, no primeiro turno, 32% do voto válido no Rio de Janeiro, em uma candidatura à prefeitura da cidade apoiada por 4 partidos, dos quais três médios ou grandes. Todos os seus votos no dia 5 de outubro devem ser contabilizados como “do PMDB”? E os que obteve no dia 26, quando recebeu o apoio do PT, do PCdoB, de Crivella, Jandira e Lula, devem continuar a contar apenas na coluna dos ganhos de seu partido?

Seria uma contabilidade estranha, que implicaria dizer que tudo que ocorreu no segundo turno foi irrelevante e que o PMDB foi o exclusivo vencedor. Mas Paes não precisou ter mais apoios que aqueles que tinha no primeiro turno? Como ultrapassou seus 32% e chegou aos 51% que lhe deram a vitória? Sendo mais que apenas “o candidato do PMDB”, quando ficou cara a cara com Gabeira. E se isso é verdade, como dizer que todos os seus votos “pertencem” ao PMDB?

No fundo, aritméticas como essa não significam nada. Passam-se os dias e elas somem. Daqui a alguns meses, quando voltarmos a discutir as eleições presidenciais na hora certa, ninguém nem vai se lembrar de algumas teses que andaram circulando nestas semanas.

Muito mais interessante é o que acontece fora do sistema político. Se há coisas relevantes nas eleições, em geral, e nestas, em particular, são as que se passam longe dos sofisticados cálculos políticos que tanto atraem as atenções agora.

Este ano, a grande novidade foi o surpreendente crescimento da internet no processo eleitoral, em diversas cidades. Todos esperávamos que acontecesse, mas passou muito do que se imaginava.

Foi um fenômeno geral, mas houve duas cidades em que seu papel chegou a ser decisivo. No Rio de Janeiro, na conformação da eleição; em Belo Horizonte, em seu desfecho.

Pelo modo como Gabeira posicionou sua candidatura desde o início, ela não poderia existir, e muito menos florescer, sem a internet. Recusando-se a repetir o modelão das campanhas de sempre, ele foi um candidato a cargo majoritário, em uma grande cidade, que tinha como pressuposto uma sociedade interligada. Sem a rede, é difícil imaginar que chegasse aonde chegou.

Em Belo Horizonte, a internet foi fundamental em dois momentos. No primeiro turno, como veículo de propaganda negativa, organizada partidariamente, dirigida para enfraquecer a candidatura de Márcio Lacerda, que liderava as pesquisas. Embora não fosse mais que uma panfletagem convencional, feita eletronicamente, teve impacto e foi uma das razões da eleição não ter se resolvido no dia 5.

No segundo turno, a internet começou a ser o que será no futuro. Os eleitores que se opunham a Quintão passaram a usar a rede para expressar seus pontos de vista e conquistar votos. De repente, às antigas formas de participação política (“ir a um comício”, “ usar uma camiseta”, “colar um adesivo”), uma nova foi incluída: brigar por seu candidato na internet. Tudo valeu, de charges a piadas, fotomontagens, gozações e vídeos, junto com muita coisa séria.

Quem imagina que as eleições de 2010 serão determinadas por quais partidos tiveram mais ou menos votos este ano, quais pré-candidatos saíram mais fortalecidos, não está entendendo nada.
A sociedade muda muito mais rápido que se imagina.


A candidata no ar


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Calma, devagar com o andor que a imagem é de louça e pode espatifar-se com o tombo.

Primeiro, aos fatos. Só na excelente coluna de Ricardo Noblat encontrei o registro da primeira pesquisa de opinião pública que incluiu o ilustre nome da ministra Dilma Rousseff entre os candidatos presidenciais na sucessão de Lula, no não tão distante 2010. Antes, as restrições: a pesquisa foi encomendada pelo governador Eduardo Campos e restrita aos eleitores de Pernambuco.

E, como que por força do hábito, começa por acariciar a vaidade presidencial com 82% dos eleitores avaliando como ótimo e bom o seu desempenho.

Logo, o tropicão de arrancar a unha do dedão do pé, nos índices de escolha do futuro presidente. O governador paulista José Serra (PSDB), embalado pela vitória de Gilberto Kassab, reeleito prefeito da capital por mais quatro anos, lidera a preferência dos pernambucanos com 41%, seguido de Ciro Gomes com 18%, Heloisa Helena com 12% e a ministra-candidata Dilma Rousseff com apenas 4%.

Com todos os descontos de uma longa lista, soou o alarme. Não se pode alegar que a ministra não é candidata carimbada pelo PT. Desculpa tão esfarrapada como lençol de pobre. Pois, em mais de um pronunciamento, o presidente avançou o sinal e reafirmou que a ministra Dilma, chefe do gabinete civil do Palácio do Planalto é não apenas a sua candidata, como tem pronto o seu programa, já em execução, obviamente o PAC da aceleração do crescimento.

A candidatura da ministra foi lançada em manobra esperta e de risco de Lula. Ela bloqueia no nascedouro a caudal de pretendentes, não apenas do PT, mas de aliados com cacife para bancar a parada. Entre os mais afoitos aspirantes a carregar o fardo de espuma da candidatura e que assobiam para mudar de assunto podem ser identificadas as verônicas do ministro Nelson Jobim, da Defesa, do senador Aloísio Mercadante (PT/SP), de Marta Suplicy (PT) – murcha com a derrota na eleição para prefeita de São Paulo – além do bloco dos aliados do PSDB, como o vitorioso governador Aécio Neves, de Minas ou, dependendo do peso do PMDB, o seu futuro presidente, deputado Michel Temer, em plena ascensão com os sucessos eleitorais da legenda.

Qualquer mexida no esquema lulista denunciará uma crise, com as suas implicações. Desde a confissão implícita de um erro de planejamento ao de imprevistos embaraços. Pois Lula sorri, com a ligeireza com que diz e desdiz, na moldura que enquadra a crise financeira mundial: em saltos acrobáticos inchou da previsão de que "se chegar aqui, passará quase desapercebida", para a marola que rola na areia úmida sem molhar o calção e se agiganta na onda em mar de tempestade, que explode nas pedras.

É proibido especular nas rodas palacianas com o pior cenário, exigindo cortes na gastança oficial, seja na criação de milhares de empregos públicos para acomodar os que ainda estão ao sol e ao sereno ou no emagrecimento do monstrengo do maior ministério de todos os tempos.

Cortes para valer no Programa de Aceleração do Crescimento serão tão dramáticos quanto as suas conseqüências, ao arrastar a candidatura da sua executora para a abertura das especulações. Com a inevitável rotina da recaída no terceiro mandato.

Nada detém água de morro abaixo nem fogaréu de morro acima. A ministra Dilma Rousseff pode comemorar a sua inscrição automática em todas as listas de presidenciáveis. E que ganharão velocidade no próximo ano para disparar em 2010. Nenhuma lista será levada a sério sem o nome da candidata do presidente Lula, dono do PT, feitor dos aliados e o grande puxador de votos.

Quem viver, verá.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1138&portal=