quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Areia movediça no Congresso

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Poucos assuntos interessam menos ao conjunto dos brasileiros do que a sucessão para a presidência da Câmara e a do Senado. No universo paralelo da micropolítica, a história é bem outra.

Ontem, enquanto Barack Obama tomava posse em Washington, caciques partidários maquinavam freneticamente apoios e traições para a disputa do dia 2 de fevereiro.

Em política não se deve fazer previsões. "O problema do vaticínio é que depende do futuro" é o lema em Brasília. Não há, portanto, como saber o desfecho das eleições no Congresso. Mas há indicações de que o PMDB sairá um pouco mais rachado, mesmo essa sendo quase uma impossibilidade física para uma sigla já tão fragmentada.

De um lado, o grupo de senadores do PMDB comandados por Renan Calheiros e José Sarney. Do outro, os deputados peemedebistas sob a liderança de Michel Temer e de Geddel Vieira Lima. Em teoria, Sarney e Temer são os favoritos para ganhar as presidências do Senado e da Câmara, respectivamente. A vitória de ambos restabeleceria uma tradição no Congresso, com o partido dono das maiores bancadas ficando com o comando. Na prática, o quadro se torna muito mais complexo.

A entrada de Sarney na disputa parece ter acomodado as forças no Senado. Mas atrapalhou a empreitada de Michel Temer. Na Câmara prevalece uma certa aversão a respeito de dar o comando inteiro do Congresso para o PMDB.

Não que deputados nutram um sentimento elevado pela divisão de poder ou pela democracia. O problema é uma eventual vitória conjunta do PMDB na Câmara e no Senado reduzir a um só o guichê da fisiologia. Essa é a gênese do ambiente pantanoso na disputa atual.

Tudo somado, dada a esperteza geral, é real a chance de alguém ser engolido pela areia movediça do processo. Sarney ou Temer.

Era Obama

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO

O momento era de tocar a História, tão próxima ela estava. A poeta convocou "os mortos que nos trouxeram até aqui". Eles estavam lá: na Bíblia de Lincoln; nas escadarias de onde Martin Luther King anteviu o dia da união entre brancos e negros, no qual eles poderiam se dizer "livres, afinal"; nas lágrimas dos velhos militantes dos direitos civis; nas evocações históricas do presidente Barack Obama.

A divisão racial que fraturou os Estados Unidos esteve presente nos comentários dos jornalistas, nas declarações dos cidadãos de todas as idades e cores entrevistados no gigantesco National Mall, nos textos e nas análises das versões online dos jornais. "Milhões testemunham um momento profundo da história racial", ressaltou, logo após a posse, a versão online do "New York Times". Na CNN, as perguntas constantes dos repórteres e âncoras aos entrevistados eram sobre o significado de ter o primeiro presidente negro do país. John Lewis, lendário participante do movimento de Martin Luther King, democrata pelo estado da Geórgia, admitiu sua incredulidade quando viu Obama fazer seu juramento:

- Isso não é verdade, não está acontecendo, não estou vendo um jovem negro assumir a Presidência!

Esse mesmo espanto, de chegar ao dia pelo qual tantas gerações esperaram, foi a frase mais comum de ontem, independentemente da idade. A lembrança da herança de velhos guerreiros da igualdade consolida os mesmos valores nos jovens. O discurso de Luther King foi lembrança insistente. Estava na fala da senadora Dianne Feinstein, que presidiu a cerimônia, quando disse que os sonhos de 44 anos atrás, naquela escadaria, tinham chegado à Casa Branca. A menção às divisões raciais estava também na bênção final do reverendo Joseph Lowery.

Os americanos não negam seus defeitos. Têm essa qualidade. Tiveram uma história terrível de divisão racial, mas lutaram contra ela de forma memorável. Mereciam o dia de ontem, da colorida união de dois milhões de pessoas no local da posse; do acontecimento que, se calcula, teve a maior audiência de televisão do mundo; do mágico pacto sobre todas as diferenças. Há países que negam a divisão que deveras têm. Nestes, a luta é mais difícil, porque o inimigo é escorregadio e o silêncio sobre ele, compacto e asfixiante.

- Esse é o sentido da nossa liberdade e da nossa crença, porque homens, mulheres, crianças de toda raça e toda fé podem se juntar em comemoração ao longo dessa magnífica praça; e porque o homem, cujo pai, menos de 60 anos atrás, não poderia ser servido num restaurante local, pode agora, diante de vocês, fazer o mais sagrado juramento - disse Barack Obama.

Ele toca a questão racial com a elegância de quem veio para governar para todos e consolidar o arco que une os que estiveram separados. A luta racial americana nunca foi só dos negros. Brancos, como os Kennedy, e milhões de outros, estiveram, desde sempre, do lado certo dessa longa história. Ted, o último dos irmãos, foi um dos primeiros a apoiar Barack Obama, lembrando que era hora de "passar a tocha" à nova geração. Obama se emocionou ao homenageá-lo no discurso no Congresso, logo após o desmaio do velho senador.

No discurso de posse, Obama chamou a herança do país de "colcha de retalhos" formada por cristãos e muçulmanos, judeus, hindus e pessoas sem religião. "Essa diversidade é a força, e não a fraqueza dos Estados Unidos", disse ele. Lembrou que, por ter superado a guerra civil e a segregação, saindo desses sombrios momentos sempre mais forte e mais unido, o país pode acreditar que os "velhos ódios" podem passar um dia. Como para mostrar sua fé no fim dos velhos ódios, o presidente Barack Obama enlouqueceu os seguranças quando saiu da sua superblindada e sombria limusine para caminhar livremente no meio da Avenida Pensilvânia, de mãos dadas com Michelle. Incrível cena.

Obama é uma passagem. Quebrou o monopólio de 200 anos dos brancos no cargo maior do país e começa a mudar o tom do que vigorou em Washington nos últimos oito anos. O discurso da posse do ex-presidente George W. Bush parecia saído direto de um manual da guerra fria, exalando ameaças e ódios. O presidente Barack Obama também avisou aos inimigos que eles serão derrotados, mas falou de tolerância, de estender a mão, em interesse e respeito mútuos com o mundo muçulmano. Alertou que o poder dos Estados Unidos cresce se for usado de forma prudente.

O dia em que a História parecia mais real que outros dias tocou quem viu, de perto ou de longe, os fatos. O diretor do Banco Mundial, Vinod Thomas, contou-me, logo após chegar da posse, que ele constatou, feliz, que nas ruas de Washington havia gente de todos os países do mundo. - Vi muitos brasileiros. Não os conhecia, mas reconheci que eram brasileiros - disse Vinod, que morou no Brasil por alguns anos.

Essa alegria do novo fica maior diante do tributo pago aos que iluminaram o passado. Como na poesia de Elizabeth Alexander: "Falem claramente que muitos morreram para que esse dia chegasse. Cantem os nomes dos mortos que nos trouxeram até aqui, que dispuseram os trilhos do trem, levantaram as pontes, colheram o algodão e as alfaces, construíram, tijolo por tijolo, os edifícios brilhantes que eles manteriam limpos e nos quais trabalhariam."

A força dos ideais

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

WASHINGTON. Muito além da emoção que tomou conta da capital nos últimos dias e do sentimento de estar participando da História que cada uma das pessoas parece estar vivenciando, a chegada de um político como Barack Obama à Casa Branca significa uma mudança fundamental na maior potência do mundo, certamente por ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, mas, sobretudo, por representar um novo tipo de político, se acreditarmos, como acredito, que ele não é apenas um produto forjado por marqueteiros, ou um político bom de retórica, embora em certos momentos sua busca do consenso justifique concessões que podem significar mais fraqueza do que grandeza política. Mas isso veremos no decorrer do mandato.

É nesse contexto que seu discurso de posse, embora não tenha nenhuma frase de impacto, tem uma visão grandiosa de sua tarefa e do mundo que, por si só, já justifica o sentimento de esperança que se renovou durante o dia de ontem.

Quando ele identifica a necessidade de a sociedade americana retomar os valores básicos - "trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo" -, coisas antigas, mas verdadeiras, está iniciando uma cruzada transformadora da sociedade americana, a volta aos conceitos básicos que fizeram o país ser a potência que é, embora em declínio.

Quando chama a atenção de todos para a necessidade de "uma nova era de responsabilidade", e faz mea-culpa em nome da sociedade, criticando "os fracos de coração", aqueles que preferem "o lazer ao trabalho, ou apenas a busca de prazeres e riquezas e fama", Obama está chamando os mais de 80% que hoje o apoiam a refazerem a História do país, admitindo que a crise em que se meteram - e meteram o mundo - é conseqüência da "ganância e da irresponsabilidade da parte de alguns, mas também um fracasso coletivo nosso em fazer escolhas difíceis e em preparar o país para uma nova era".

Talvez esteja aí o ponto central da transformação que significa a chegada ao poder de um político jovem e fora da tradição da pequena política de Washington: "o fim das discordâncias mesquinhas e das falsas promessas, das recriminações e dos dogmas gastos", mas, sobretudo, uma nova visão multilateral do mundo e da importância da tecnologia para forjar o futuro. "Vamos restaurar a ciência a seu lugar de direito e utilizar as maravilhas da tecnologia para elevar a qualidade dos serviços de saúde e reduzir seu custo. Vamos manipular a energia solar e dos ventos e da terra para abastecer nossos carros e dirigir nossas fábricas. E vamos transformar nossas escolas e faculdades e universidades para atender às demandas de uma nova era".

Mesmo sem negar o "poder de gerar riqueza e expandir a liberdade sem iguais" do mercado financeiro, Obama salientou que a crise mostrou que, "sem um olhar vigilante, o mercado pode sair de controle - e que um país não pode prosperar quando favorece apenas os prósperos".

Mesmo quando abordou o tema delicado da segurança nacional contra o terrorismo, que tanta margem deu para que abusos oficiais fossem cometidos a partir dos atentados do 11 de Setembro, Obama não tergiversou: "Para nossa defesa comum, rejeitamos a falsa escolha entre nossa segurança ou nossos ideais".

Consciente de que os olhos do mundo estavam voltados para seu pronunciamento, Obama mandou um recado firme, de que está preparado para "liderar novamente": os Estados Unidos são "amigos de todas as nações e de cada homem, mulher e criança que busque um futuro de paz e dignidade".

Ao defender a expansão das alianças "com velhos amigos e antigos inimigos", lembrou que gerações anteriores derrotaram "o fascismo e o comunismo, não apenas com tanques e mísseis, mas com alianças vigorosas e convicções duradouras".

E, como a salientar que o poder hegemônico dos Estados Unidos nunca deveria ter sido imposto, relembrou que os antepassados entenderam que, como hoje, "nosso poder sozinho não pode nos proteger, nem nos dá direito a fazer o que quisermos. Ao contrário, eles sabiam que nosso poder cresce com seu uso prudente; nossa segurança emana da justeza de nossa causa, da força de nosso exemplo".

Obama foi também firme quando reafirmou a retirada das tropas do Iraque, entregando o país "de forma responsável" ao seu povo, e prometeu "forjar uma paz muito duramente conquistada no Afeganistão".

Mas mandou um aviso àqueles que "buscam fazer avançar suas metas pela indução ao terror e massacrando inocentes": "Nossa determinação é mais forte e não pode ser quebrada; vocês não podem nos esgotar, e vamos derrotar vocês".

Mesmo que tenha se anunciado um candidato "pós-racial", Obama não fugiu do tema em seu discurso de posse. Ao contrário, homenageou os que sentiram "o estalar do chicote", disse que "a colcha de retalhos de nossa herança é uma força, não uma fraqueza" e "porque experimentamos o gosto amargo da guerra civil e da segregação, e emergimos daquele capítulo obscuro mais fortes e mais unidos, não podemos evitar acreditar que os velhos ódios um dia vão passar".

Mandou um recado para o mundo muçulmano, "um caminho baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo". E encerrou com uma visão dos direitos humanos do mundo, a la Jimmy Carter, chamando a atenção daqueles que "se agarram ao poder através da corrupção e da mentira e silenciando dissidentes, saibam que vocês estão do lado errado da história; mas que estenderemos a mão a vocês se estiverem dispostos a abrirem os punhos".

Um discurso à altura da expectativa do novo papel dos Estados Unidos no mundo, de quem se recusa a abrir mão da liderança mundial, mas a quer como reconhecimento da importância do país, uma imposição dos valores e dos ideais, e não da força.

Refazer a América

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Vinte minutos e nenhuma mistificação. Barack Hussein Obama foi ao ponto e disse apenas o necessário num discurso de posse sem enfeites.

Realista no traço do perfil da crise, duro com as ameaças à segurança de seu país, generoso na referência aos mais pobres, conciliador na proposta de estender a mão a quem se propuser a “abrir o pulso”, entusiasmado e otimista ante a tarefa de conduzir a nação ao reencontro dos valores que fizeram dos Estados Unidos a maior, mais perene e poderosa democracia do mundo.

Obama não falou de si, não exaltou suas qualidades, não vestiu o figurino de salvador, não vendeu facilidades nem se mostrou intimidado ante a imensidão das dificuldades.

Falou de tolerância, de honestidade, de patriotismo, de coragem, de lealdade, de trabalho. Exibiu-se ao planeta como o homem certo na hora exata.

Se será um excelente ou um medíocre presidente é uma dúvida a ser tirada ao longo dos próximos quatro anos. Agora, Obama cumpre o papel concernente ao momento de poço fundo.

Tem a medida necessária ao tamanho do rombo.

Para um problema imenso, só uma solução radical como a eleição de um presidente negro por fora, multirracial por dentro, algo alternativo nas maneiras, neófito na política para o tamanho das trajetórias habitualmente cumpridas antes da chegada ao topo, jovem e ao mesmo tempo tradicionalista.

Cioso da missão de representar o início de uma era de recuperação da economia, da credibilidade interna e externa, da capacidade de indignação perdida diante de tantos e tão escabrosos desastres ocorridos sob a administração George W. Bush.

Frank Rich, colunista do New York Times, fala a respeito num artigo em que compara a comoção provocada pela divulgação dos papéis do Pentágono sobre a guerra do Vietnã, em 1971, e a apatia dos americanos frente aos descalabros em série do governo Bush: as mentiras sobre as armas de destruição do Iraque, as torturas nas prisões de Guantánamo e Abu Ghraib, os bilhões gastos nas guerras e na reconstrução do Iraque, a crise econômica, a corrupção, o clientelismo, a incompetência.

“Após oito anos sendo surrada pelo governo Bush, a nação ficou semicatatônica”, escreve Rich a propósito da absorção de tais acontecimentos ao cotidiano de um país que já não se espantava com mais nada.

Um país que obrigou um presidente da República recém-reeleito a renunciar porque se descobriu que a campanha dele, com a ciência de Richard Nixon, o presidente em questão, espionara a sede do Partido Democrata.

Na avaliação do analista, Barack Obama terá mais chance de defender uma “política nova e incisiva” quanto mais se empenhar em revelar aos americanos tudo sobre “as malfeitorias de Bush”. Frank Rich, no entanto, na véspera da posse duvidava dessa possibilidade por causa de declarações de Obama defendendo a necessidade de “olharmos para a frente, e não para trás”.

Obama nada disse que faça supor a abertura de investigações, mas tampouco deixou de levar em conta o que se passou e proclamar a mudança genuína, “o fim dos sentimentos mesquinhos e das falsas promessas, das recriminações e dos dogmas desgastados que por tanto tempo estrangularam a nossa política”.

Tipo exportação

Bob Woodward, célebre repórter do caso Watergate, escritor, editor do Washington Post, lista “dez lições para o presidente Barack Obama aprender com o governo Bush”, que merecem ser lidas e absorvidas por governantes em geral.

1. É o presidente que dá o tom. Não seja passivo ou tolere divisões virulentas.

Quer dizer, o papel de árbitro é essencial e indivisível.

2. O presidente precisa fazer com que todos se coloquem, mesmo - ou especialmente - quando há divergências.

As posições e opiniões dos auxiliares precisam ser de conhecimento do chefe.

3. Um presidente precisa fazer o dever de casa para elaborar e respaldar suas políticas.

Não pode, nem deve, atuar “de ouvido”.

4. Presidentes precisam ser francos e se certificar de que más notícias cheguem ao Salão Oval (o gabinete presidencial).

O isolamento é nefasto e contraproducente.

5. Presidentes precisam fomentar a cultura do ceticismo e da dúvida.

Certezas inabaláveis são um atalho para o equívoco.

6. Presidentes recebem dados contraditórios, e precisam classificá-los de forma rigorosa.

Não abrir mão, portanto, do discernimento pessoal.

7. Presidentes devem dizer a mais dura verdade ao povo, mesmo que isso signifique dar notícias muito ruins.

Otimismo tem hora.

8. Motivos nobres não são garantia de uma política eficiente.

Os fins não necessariamente justificam os meios.

9. Presidentes devem insistir num pensamento estratégico.

Visão de longo prazo é indispensável.

10. O presidente deve adotar a transparência. Alguma versão do que aconteceu na Casa Branca (ou no Palácio do Planalto) sempre vai se tornar pública.

A sorte de Obama

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Obama não anunciou fórmulas novas, nem planos mirabolantes. Jogou suas fichas nos valores da democracia americana. Foram eles que possibilitaram a construção do “sonho americano”

Desejo muito boa sorte ao novo presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama, cuja posse é um divisor de águas na história daquele país e da política mundial. Como ele mesmo disse, as crianças negras passarão a olhar as crianças brancas de outra maneira e as crianças brancas também olharão para as crianças negras de forma diferente. Um colega aqui da redação, tão veterano quanto eu, considera essa visão muito antropológica. Julga que eu deveria dar mais peso às contradições econômicas e sociais com as quais o mundo se depara. Digamos, ter um olhar “mais sociológico”. Não importa, vejo a posse de Obama na presidência dos Estados Unidos como um avanço civilizatório. O mundo mudou, os Estados Unidos também estão mudando, como o novo presidente dos EUA assinalou.

O declínio

Nossa civilização tem os seus fundamentos na Grécia Antiga e no Império Romano, cujos monumentos em ruínas e obras de arte são reverenciados por sua beleza estética e nos remetem a valores de Justiça e Democracia. Entretanto, a riqueza e o esplendor dessas civilizações não permitem maniqueísmo: foram fundados na guerra, na dominação de outros povos e no trabalho escravo. Também é bom lembrar que a decadência de Roma pôs fim à escravidão na Europa, mas também teceu uma cortina de obscurantismo e misticismo no Ocidente, que somente veio a ser rasgada por Cervantes com as aventuras de Dom Quixote.

Para os pessimistas, diante da realidade nua e crua da crise do capitalismo global e dos conflitos e guerras legados pelo unilateralismo de Bush, Obama é uma espécie de novo cavalheiro andante. Discordo, Obama não é um descuidado dos perigos que o cercam, embora seu discurso renovador dos Estados Unidos me lembre a fracassada pretensão de Mikhail Gorbatchov de democratizar o socialismo da antiga União Soviética e demais países do leste europeu. Será possível resgatar o legado moral da Independência e o chamado “sonho americano”? Ou o declínio dos Estados Unidos é irreversível? Prefiro acreditar na primeira hipótese, pois a contrapartida dessa crise de hegemonia não foi a desejada “governança mundial” sustentada no multilateralismo. É armadilha invisível do ódio fundamentalista e o choque de civilizações nas muralhas religiosas do Ocidente e do Oriente.

A esperança

Disse-nos Obama: “Nossa nação está bastante enfraquecida, uma consequência da ganância e da irresponsabilidade de alguns, mas também da nossa incapacidade coletiva de tomar decisões difíceis e preparar a nação para uma nova era. Lares foram perdidos; empregos foram cortados; empresas destruídas. Nossa saúde é cara demais; nossas escolas deixam muitos para trás; e cada dia traz novas evidências de que a forma como usamos a energia fortalece nossos adversários e ameaça nosso planeta”. Estou entre aqueles que consideram a eleição do novo presidente dos Estados Unidos uma resposta do povo norte-americano a tudo isso que diagnosticou e ao status quo mundial, cujo maior símbolo é a crise de Wall Street.

No coração do capitalismo globalizado, o que se afirma é o compromisso com a liberdade política e uma nova relação de poder entre o Estado defensor do interesse comum e o mercado. Nada será como antes. Nem a desregulamentação dos mercados, nem a vertigem especulativa, nem a ganância dos lucros de curto prazo, nem a desarticulação entre os fluxos financeiros e as necessidades reais. “Aos povos das nações pobres: comprometemo-nos a trabalhar ao lado de vocês para que suas fazendas floresçam e águas limpas possam fluir; para alimentar corpos esfomeados e mentes famintas. E àquelas nações como a nossa, que gozam de relativa abundância, dizemos que não podemos mais aceitar a indiferença ao sofrimento fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem pensar nos efeitos disso. Pois o mundo mudou, e precisamos mudar junto com ele”, promete Obama.

A sorte de Obama está lançada. Ele aposta na força do povo que o elegeu para mudar a política e a economia de seu país e do mundo. É esse significado do que diz ao afirmar: “É a gentileza de socorrer um estranho quando um dique é destruído, a generosidade dos trabalhadores que aceitam reduzir sua jornada de trabalho para que um amigo não perca seu emprego, que nos fazem superar os piores momentos. É a coragem do bombeiro que atravessa uma escadaria cheia de fumaça, mas também a disposição de um pai para criar um filho, que decidem afinal a nossa sorte”. Obama não anunciou fórmulas novas, nem planos mirabolantes. Jogou suas fichas nos valores da democracia americana, no trabalho e nas relações de solidariedade. Foram esses valores que possibilitaram a construção do “sonho americano” e a hegemonia do “americanismo” no mundo, muito mais do que o poderio econômico e militar, embora muitos dentro e fora dos EUA ainda pensem o contrário.

Discurso de Obama

VERSÃO ESTADO.COM.BR

"Meus caros cidadãos:

Eu me coloco aqui hoje humildemente diante da tarefa à nossa frente, grato pela confiança com que vocês me honraram, ciente dos sacrifícios realizados pelos nossos ancestrais. Eu agradeço ao presidente Bush pelo seu serviço à nossa nação, bem como pela generosidade e cooperação que ele mostrou ao longo da transição.

Quarenta e quatro americanos agora já fizeram o juramento presidencial. As palavras foram ditas durante crescentes marés de prosperidade e as águas calmas da paz. Mas, de tempos em tempos, o juramento é realizado entre nuvens que se formam e tempestades violentas. Nesses momentos, a América seguiu à frente não somente pela habilidade ou visão dos que estavam no alto escalão, mas porque Nós o Povo permanecemos confiantes nos ideais dos nossos ancestrais e fiéis aos nossos documentos fundadores.

Assim tem sido. Assim deve ser com essa geração de americanos.

Que nós estamos em meio a uma crise é agora bem sabido. Nossa nação está em guerra, contra uma rede de longo alcance de violência e ódio. Nossa economia está bastante enfraquecida, em consequência da ganância e irresponsabilidade por parte de alguns, mas também por nosso fracasso coletivo em fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas; empregos cortados; negócios fechados. Nosso sistema de saúde está muito dispendioso; nossas escolas fracassam com muitos; e cada dia traz novas evidências de que as formas como usamos a energia fortalecem nossos adversários e ameaçam nosso planeta.

Esses são os indicadores da crise, assunto de dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profundo, é o enfraquecimento da confiança ao longo de nossa terra - um medo repetido de que o declínio da América é inevitável, e que a próxima geração deve diminuir suas perspectivas.

Hoje eu digo a vocês que os desafios que nós enfrentamos são reais. Eles são sérios e são muitos. Eles não serão vencidos facilmente ou em um período curto de tempo. Mas saiba disso.

América: eles serão vencidos.

Nesse dia, nos reunimos porque nós escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia.

Nesse dia, nós viemos para proclamar o fim às queixas mesquinhas e falsas promessas, às recriminações e aos dogmas desgastados, que por muito tempo já têm enfraquecido nossa política.

Nós continuamos uma nação jovem, mas de acordo com as palavras da Escritura, chegou a hora de se deixar de lado as infantilidades. Chegou a hora para reafirmar nosso espírito tolerante; para escolher nossa melhor história; para prosseguir com esse precioso dom, essa nobre ideia, passada de geração a geração: a promessa dada por Deus de que todos somos iguais, todos somos livres e todos merecem uma chance de buscar sua completa medida de felicidade.

Ao reafirmar a grandiosidade de nossa nação, nós entendemos que a grandeza nunca é dada. Ela deve ser conquistada. Nossa jornada nunca foi de atalhos ou de aceitar menos. Não foi a trilha dos inseguros - daqueles que preferem o descanso ao trabalho, buscam apenas os prazeres das riquezas e da fama. Em vez disso, (nossa jornada) tem sido uma de tomadores de risco, atuantes, fazedores das coisas - alguns celebrados, mas muitos outros homens e mulheres obscuros em seu trabalho - que nos levaram pela longa e espinhosa rota rumo à prosperidade e à liberdade.

Para nós, eles empacotaram suas poucas posses e viajaram pelos oceanos em busca de uma nova vida.

Para nós, eles trabalharam duro em fábricas exploradoras e seguiram rumo a Oeste; suportaram o açoite do chicote e lavraram a terra dura.

Para nós, eles lutaram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg; Normandy e Khe Sahn.

Ao longo do tempo, esses homens e mulheres lutaram e se sacrificaram e trabalharam até suas mãos ficarem em carne viva, para que pudéssemos ter uma vida melhor. Eles viram a América maior do que a soma de suas ambições individuais; maior que todas as diferenças de nascimento ou riqueza ou facção.

Essa é a jornada que nós continuamos hoje. Nós permanecemos a mais próspera e poderosa nação da Terra. Nossos trabalhadores não são menos produtivos do que quando essa crise começou. Nossas mentes não têm menos imaginação, nossas mercadorias e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada, no mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade permanece a mesma. Mas nossa hora de proteger interesses estreitos e adiar decisões desagradáveis - esse tempo certamente passou. Começando hoje, nós precisamos nos levantar e começar de novo o trabalho de reconstruir a América.

Para todos os lugares que olhemos, existe trabalho a ser feito. A situação da nossa economia pede ação, ágil e rápida, e nós agiremos - não apenas para criar novos empregos, mas para lançar a fundação para o crescimento. Nós construiremos as estradas e pontes, as instalações elétricas e linhas digitais que alimentam nosso comércio e nos mantém juntos. Nós levaremos a ciência a seu lugar de merecimento e controlaremos as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade do sistema de saúde e reduzir seu custo.

Nós usaremos o Sol e os ventos e o solo para abastecer nossos carros e movimentar nossas fábricas. Nós transformaremos nossas escolas, faculdades e universidades para suprir as demandas de uma nova era. Tudo isso nós podemos fazer. E tudo isso nós faremos.

Agora, existem alguns que questionam a escala das nossas ambições - que sugerem que nosso sistema não pode aguentar planos tão grandiosos. Eles têm memória curta. Porque eles se esqueceram de tudo o que nosso país fez; o que homens e mulheres livres podem conseguir quando a imaginação se junta para objetivos comuns e a necessidade para a coragem.

O que os cínicos não entendem é que o chão que eles pisam não é mais o mesmo - que as disputas políticas que nos envolveram por muito tempo não existem mais. A questão que perguntamos hoje não é se nosso governo é muito grande ou muito pequeno, mas se ele funciona - se ele ajuda as famílias a encontrarem empregos que pagam um salário decente, que tipo de seguridade eles dão, uma aposentadoria que seja digna. Onde a resposta é sim, nós queremos ir em frente. Onde a resposta é não, os programas acabarão. E aqueles de nós que manejam os dólares públicos terão que prestar contas - para gastar de maneira sábia, reformar maus hábitos, e fazer nossos negócios à luz do dia - porque apenas assim nós podemos restaurar a confiança vital entre o povo e o governo.

Também não á a questão que se apresenta a nós se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. Seu poder de gerar riquezas e expandir a liberdade é ilimitado, mas esta crise nos fez lembrar que sem vigilância, o mercado pode sair do controle - e uma nação não pode prosperar por muito tempo quando favorece apenas os mais ricos. O sucesso da nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho do nosso Produto Interno Bruto (PIB), mas do poder da nossa prosperidade; na nossa habilidade de estendê-la a cada um, não por caridade, mas porque esse é o caminho mais seguro para o bem comum.

Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos a falsa escolha entre nossa segurança e nossos ideais. Os fundadores do país, que enfrentaram perigos que sequer imaginamos, redigiram uma carta para assegurar o primado da lei e dos direitos do homem, uma carta expandida pelo sangue de gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e nós não vamos abandoná-los por conveniência. E, então, para todos os povos e governos que estão assistindo hoje, das grandes capitais ao pequeno vilarejo onde meu pai nasceu: Saibam que a América é amiga de cada nação e de cada homem, mulher ou criança que procure um futuro de paz e dignidade, e que nós estamos prontos para liderar uma vez mais.

Lembrem-se que gerações anteriores enfrentaram o fascismo e o comunismo não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças robustas e convicções duradouras. Eles entenderam que nosso poder sozinho não pode nos proteger, nem nos dá o direito de fazer o que quisermos. Em vez disso, eles entenderam que nosso poder cresce com seu uso prudente; nossa segurança emana da Justiça de nossa causa, da força de nosso exemplo, da têmpera das qualidades de humildade e moderação.

Nós somos os guardiães desse legado. Guiados por esses princípios uma vez mais, podemos enfrentar novas ameaças que exigem um esforço maior - maior cooperação e compreensão entre as nações. Começaremos por sair do Iraque com responsabilidade e por criar um esforço de paz no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos adversários vamos trabalhar incansavelmente para diminuir a ameaça nuclear, e reduzir o espectro do aquecimento global. Não vamos pedir desculpas por nosso modo de vida, nem vamos vacilar em sua defesa, e, para aqueles que procurarem avançar em seus objetivos produzindo terror e matando inocentes, diremos a eles que nosso espírito é mais forte e não pode ser quebrado; eles não poderão prevalecer e nós os derrotaremos.

Sabemos que nossa herança multicultural é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus - e ateus. Somos moldados por cada língua e cultura, de cada parte desta Terra; e por causa disso provamos o sabor mais amargo da guerra civil e da segregação e emergimos desse capítulo mais fortes e mais unidos; não podemos senão acreditar que os velhos ódios passarão um dia; que as linhas das tribos vão se dissolver rapidamente; que o mundo ficará menor, nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América vai desempenhar o seu papel em uma nova era de paz.

Para o mundo muçulmano, buscamos um novo caminho a seguir, baseado em interesse e respeito mútuo. Para aqueles líderes pelo mundo que buscam semear o conflito, ou culpam o Ocidente pelos males de suas sociedades: Saibam que seus povos irão julgá-los a partir do que vocês podem construir, e não destruir. Para aqueles que se agarram ao poder por meio da fraude e da corrupção, saibam que estão no lado errado da História; mas nós estenderemos a mão se vocês estiverem dispostos a cooperar.

Às pessoas das nações pobres, nós queremos trabalhar a seu lado para fazer suas fazendas florescerem e deixar os cursos de água limpa fluírem; para nutrir corpos famintos e alimentar mentes ávidas. E para aquelas nações como a nossa, que vivem em relativa riqueza, queremos dizer que não podemos mais suportar a indiferença quanto ao sofrimento daqueles que sofrem fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem nos importar com as consequências. Nós devemos acompanhar as mudanças do mundo.

À medida que entendemos o caminho que se desdobra diante de nós, recordamos com humilde gratidão aqueles bravos americanos que, a esta mesma hora, patrulham longínquos desertos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos dizer hoje, como aqueles heróis caídos que jazem em Arlington murmuram através dos tempos. Nós os honramos não apenas porque eles não os guardiães de nossa liberdade, mas porque eles representam o espírito de servir ao país; a disposição de encontrar um significado maior que si mesmos. E ainda, neste momento - um momento que vai definir uma geração - é precisamente esse espírito que todos nós devemos viver.

Porque, por mais que o governo possa fazer e precise fazer, em última instância é da fé e da determinação do povo americano que esta nação depende. É a bondade de receber um estranho quando os diques se rompem, é o desprendimento de trabalhadores que preferem reduzir suas horas a ver um companheiro perder o emprego o que nos auxilia em nossas horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro de subir uma escada cheia de fumaça, mas também a disposição de pais de criar uma criança o que, no fim das contas, decide o nosso destino.

Nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com os quais nós os enfrentamos podem ser novos. Mas aqueles valores dos quais nosso sucesso depende - trabalho duro e honestidade, coragem e justiça, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo - essas coisas são antigas. Essas coisas são verdadeiras. Elas têm sido a força quieta do progresso ao longo de nossa história. O que se exige, então, é uma volta a essas verdades. O que se exige de nós agora é uma nova era de responsabilidade - um reconhecimento, por parte de todo americano, de que nós temos deveres para conosco, nossa nação e o mundo; deveres que nós não aceitamos a contragosto, mas com alegria, firmes no conhecimento de que não há nada tão satisfatório para o espírito, tão definidor de nosso caráter, do que dar tudo o que podemos numa tarefa difícil.

Este é o preço e a promessa da cidadania.

Esta é a fonte de nossa confiança - o conhecimento de que Deus nos convoca a dar forma a um destino incerto.

Este é o significado de nossa liberdade e de nosso credo - por que homens e mulheres e crianças de toda raça e de toda fé podem se unir numa celebração neste magnífico Mall, e por que um homem cujo pai, menos de 60 anos atrás, poderia não ser servido num restaurante local, agora pode estar diante de vocês para fazer um juramento sagrado.

Por isso, vamos marcar esse dia com a lembrança de quem somos e quão longe viajamos. No ano do nascimento da América, no mais frio dos meses, um pequeno grupo de patriotas se encolhia em torno de fogueiras que se apagavam, às margens de um rio gelado. A capital estava abandonada. O inimigo estava avançando. A neve estava manchada de sangue. Num momento em que nossa revolução estava em dúvida, o pai de nossa nação ordenou que essas palavras fossem lidas para o povo:

"Que seja dito ao mundo futuro que, na profundidade do inverno, quando nada além da esperança e da virtude poderia sobreviver, a cidade e o país, alarmados diante de um perigo comum, saiu para enfrentá-lo."

América. Em face de nossos perigos comuns, neste inverno de nossas dificuldades, vamos lembrar essas palavras eternas. Com esperança e virtude, vamos enfrentar uma vez mais as correntes geladas e resistir quaisquer tempestades que possam vir. Que seja dito pelos filhos de nossos filhos que, quando fomos testados, nós nos recusamos a deixar esta jornada terminar, que nós não viramos as costas, que nós não vacilamos; e, com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, levamos adiante o grande dom da liberdade e o entregamos com segurança paras as gerações futuras."

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dura caminhada

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


WASHINGTON. Há na política americana uma definição clássica: o poder de um novo presidente é tão grande quanto efêmero, e compete ao novo ocupante da Casa Branca tentar fazer com que o fim do encanto e o início das cobranças comecem o mais tarde possível. O caso de Barack Obama, que assume hoje a Presidência dos Estados Unidos num raro momento de esperança tão profunda quanto a crise econômica que assola o país, mesmo sendo a eleição mais importante simbolicamente desde a de John Kennedy, um católico na terra de protestantes, é diferente apenas na intensidade. Embora não queira, ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos é um fato simbolicamente relevante, e politicamente tão forte que pode adiar o fim da lua-de-mel, mas nunca impedi-lo.

A própria comemoração do dia de Martin Luther King na véspera da posse, e o megashow no Memorial de Lincoln no domingo, trouxeram a Washington as lembranças da luta pelos direitos civis, que está sendo coroada com a posse de Obama hoje.

Mas, embora ajude, o simbolismo não é uma solução. Sabendo disso, Obama busca na união nacional o ponto de apoio para essa travessia, que ele já anuncia longa e dolorosa.

O extraordinário apoio popular que continua apresentando nas pesquisas de opinião, beirando os 80%, ajuda a dar a partida de um mandato que terá muitas dificuldades pela frente, mas prenuncia uma provável reversão de expectativas na primeira metade de seu mandato, quando possivelmente a situação econômica não estará resolvida.

As eleições de 2010 definirão se a maioria continuará a favor dos democratas, ou se a frustração fará com que os republicanos recuperem um lugar de destaque na política americana, poder político erodido pela herança da era Bush.

Por isso seu discurso de posse tem como tema central a busca de uma nova era de solidariedade nacional, com o governo e a sociedade assumindo suas responsabilidades na tarefa de reerguer o país.

Tarefa que se apresenta tão árdua que Obama não pretende perder tempo com picuinhas partidárias. Ao participar ontem de um jantar que o seu adversário eleitoral John McCain ofereceu aqui em Washington, pode ter deixado irritados seus parceiros mais radicais, mas paga o tributo à busca de apoio suprapartidário para superar os primeiros dois anos críticos de governo.

Um de seus ídolos, invocado a todo instante nesse momento em que o simbolismo voltou a ganhar mais força política do que as medidas concretas, que só surtirão efeito a longo prazo, Roosevelt, uma vez, referindo-se ao republicanos, disse que "saudava os que o odiavam", pois ele estava ao lado do povo, enquanto seus adversários defendiam os interesses que haviam levado o país à bancarrota.

Obama, ao contrário, quer ser amado por todos, e já mandou diversos recados de que não promoverá uma caça às bruxas, muito menos aceitará as pressões dos liberais para fazer um julgamento dos eventuais crimes contra a humanidade praticados pelo governo Bush no combate ao terrorismo.

Embora não perca a oportunidade para reafirmar que a prática de tortura nos interrogatórios não será permitida em seu governo, mesmo a pretexto de combater o terrorismo, Obama, em vez de perseguir, quer o apoio dos republicanos para sua política econômica e social, convencido de que somente uma grande união nacional tirará o país da atual situação.

Obama conta com a compreensão de seus militantes para as concessões que está fazendo à direita política, mesmo às que parecem desnecessárias e extravagantes como o convite para que o reacionário pastor evangélico Rick Warren faça a prece oficial da posse.

Warren é um ativista antigay, que compara o homossexualismo ao incesto e à pedofilia e foi uma das forças que reverteu em novembro, na Califórnia, a aprovação para casamentos gays.

Mas, para se contrapor às pressões conservadoras, uma série de movimentos da sociedade civil liberal, englobadas sob a denominação genérica de Alliance for Justice, já se prepara para pressionar a Casa Branca, na convicção de que a futura administração Obama não avançará sem o apoio da sociedade.

A maior das organizações, a Move On, que reúne cerca de 5 milhões de ativistas e começou como um movimento contra a guerra do Iraque, já tem um amplo e diversificado pacote de reivindicações: universalização do serviço de saúde, criação de empregos, economia verde, medidas para controlar a mudança climática e o fim da guerra do Iraque.

Pelo momento, o clima em Washington é de festa - nunca houve tantos bailes pela cidade em vésperas de posse presidencial - e não há um espírito de revanche no ar. O máximo que se pode ver é, em frente à sede do Partido Republicano, eleitores democratas cavalgarem alegremente o elefante, símbolo do partido, para uma foto histórica da vitória sobre os tradicionais adversários.

O policiamento é enorme, como não poderia deixar de ser, mas não há tensão aparente. Os próprios policiais e soldados do Exército, engajados na missão, tratam de se fotografar entre si para depois poder mostrar que também participaram desse momento histórico.

Tudo está preparado para coroar com festa e esperança renovada a campanha épica do primeiro presidente negro em direção à Casa Branca. Só Obama, consciente das dificuldades que terá pela frente, trata de alertar para a dura caminhada que começa hoje.

Crise e vitória

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


O momento é de festa, mas a crise não dá uma trégua. O presidente Barack Obama, que assume hoje, representa, ao mesmo tempo, a saga de um povo e uma trajetória inesperada. Estados Unidos e Europa vivem uma nova etapa da crise bancária e, no Brasil, a crise mostrou a feia cara do desemprego. O mundo oscila entre a alegria de um novo governo americano e a aflição da velha crise.

Os sentimentos são polares. A viagem consagradora de trem, o show no Lincoln Memorial, a festa de três dias no reino, tudo transborda a alegria por um presidente que chega com a maior aprovação inicial da moderna história americana. Mas a crise sacudiu ontem, de novo, os mercados mundiais. As bolsas caíram aqui e na Europa. Ações de bancos despencaram, mostrando que continua havendo uma enorme desconfiança sobre a solidez do sistema bancário nos países mais ricos do planeta. Nos Estados Unidos, era feriado de Martin Luther King, as bolsas não abriram.

A crise promete ser longa, mas este é um tempo de festa. Nesta dualidade se vive. O jornal "Washington Post" fez uma lista dos ineditismos que o novo presidente representa só em sua história pessoal, sem contar a cor: Obama é o primeiro presidente que tem pai estrangeiro, o primeiro que é filho de pai e mãe com doutorado. Ele é o primeiro que cresceu no 50º estado, o Havaí. O único que aprendeu a se comunicar na língua da Indonésia. O único que tem irmãos na África, e uma irmã na Ásia. "A biografia da sua família, a sociologia da cor da sua pele e a geografia da sua ascensão política, esses três painéis da sua história se combinaram para fazer o final de tudo mais vívido e implausível", disse o jornal.

A próxima parada do trem que o levou a Washington - numa citação explícita de outro herói da unificação americana, Abraham Lincoln - é a Casa Branca. Parece impossível que a caminhada, iniciada em 1º de dezembro de 1955, em Montgomery, Alabama, tenha chegado tão longe. A história todos sabem, mas lembrá-la faz bem à alma. Naquele dia, Rosa Parks reagiu à ordem de ceder o lugar no ônibus a um branco e foi presa por isso. Os negros boicotaram os ônibus e andaram a pé por um ano inteiro. Contra todas as pressões e ameaças, apesar da prisão dos líderes, o movimento negro insistiu na sua forma pacífica de luta até a vitória na Suprema Corte, em 21 de dezembro de 1956. Sob chuva, sob sol, os negros andaram, liderados pelo jovem pastor, Martin Luther King.

O discurso de Barack Obama, domingo, no Lincoln Memorial, no mesmo lugar de onde o líder negro falou de seu sonho de união nacional por sobre as diferenças raciais, era uma citação explícita. Impossível não lembrar da marcha de Washington, que conquistou a lei dos direitos civis. Há muita história por trás desse momento; história pessoal e coletiva. De heroísmo e dor, e conquista. Por isso, nunca houve uma posse como essa.

No extremo oposto, a crise se aprofundou entre eleição e posse, como ocorreu em 1933, com Franklin Delano Roosevelt. Mas naquela época, a crise, que havia começado em 1929, já tinha feito todo o estrago possível, permitindo que logo começasse a dinâmica da recuperação. Agora, ainda se vive o olho do furacão. Bastou chegar a temporada dos balanços bancários, que as ações dos bancos despencaram, a onda de insegurança recomeçou, e os governos foram convocados, em Washington e Londres, a socorrer, com o dinheiro do contribuinte, as cambaleantes instituições financeiras. Ainda se vive o começo da crise.

E no mundo globalizado, a crise faz vítimas em todo lugar. No Brasil, ontem foi o dia de lembrar isso da forma dolorosa. O Ministério do Trabalho anunciou que desapareceram, apenas em dezembro, 655 mil empregos formais. Uma devastação. Os juros vão cair esta semana, na reunião do Copom que começa hoje. Vão cair não por pressão política, não por choro dos empresários, nem mesmo por pedido de banqueiros. Vão cair porque há razões técnicas que permitem isso. A queda não afastará o fantasma do desemprego da economia brasileira. O curioso é que esta semana sairá a taxa de desemprego medida pelo IBGE. A PME não deve mostrar sinais de aumento de desemprego. São estatísticas diferentes, mas o melhor é ficar com o alerta de que empregos estão sumindo num mercado de trabalho que já era insuficiente.

Assim é o dia 20 de janeiro de 2009. De euforia e luto; de vitória e comemoração. Os bancos tremem, a crise se aprofunda e se espalha, o desemprego cresce. E pela primeira vez uma família negra, num país que escravizou e segregou, vai ocupar a Casa Branca. Obama chega lá no estuário de um memorável movimento de luta por direitos dos negros americanos, e com uma biografia espantosamente diferente. Até seu nome o torna a pessoa improvável para o destino que se cumpre hoje: é, ao mesmo tempo, Hussein e Obama. Se algum ficcionista criasse um romance assim, a história seria desprezada por implausível.

A crise é real e de viés. Barack Obama terá de enfrentá-la desde o primeiro momento, com a garra de quem fez o impossível.

Obama, trégua e desconfiança

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Um dos traços marcantes dos judeus, mundo afora, é o brilhantismo em campos variados, de arte a economia, de joalheria a agricultura. Isso se traduziu num "produto de exportação" de Israel: as áreas militar e de inteligência.

Até aqui, na Colômbia, o Exército e os serviços de informação, que surpreenderam o mundo com a libertação de Ingrid Betancourt "sem uma gota de sangue", tiveram treinamento israelense, assim como norte-americano.

Pois bem. Dia sim, dia não, Israel atingiu escolas da ONU, caminhão da ONU, depósito de doações da ONU e civis sob proteção da ONU na atual guerra, todos identificados.Das duas, uma: ou a competência virou pó (de fósforo?!), ou foi ordem superior para dizimar não apenas o inimigo Hamas, mas os palestinos da faixa de Gaza.

O Hamas ameaça da boca para fora "varrer Israel do mapa". E o governo de Israel, que deveria acolher o apoio internacional enquanto vítima, parecia agir para efetivamente tirar toda aquela área e toda aquela gente do mapa. Coisa para tribunais internacionais.

A guerra não acabou, e o cessar-fogo mais parece uma trégua para a posse de hoje de Barack Obama. O Brasil soma esforços e se integra a um movimento tácito mundial para reduzir a importância devastadora e a influência dos EUA sobre todo o resto, na economia, na política e no Oriente Médio. Mas, queiram ou não, quem tem poder e quase US$ 14 trilhões de PIB são os EUA.

Que Obama use esse poder com bom senso e parcimônia. Pelas preces brasileiras, inclusive de Lula, para deixar de contaminar o mundo com a crise e irradiar recuperação; impor o fim do bloqueio a Cuba para se aproximar da América Latina e ser agente, não de guerras, mas de um acordo de paz que permita dois Estados: o de Israel, seguro, e o Palestino, viável. Obama, porém, é um símbolo atolado em interrogações.

Tem muito a enfrentar, antes de convencer.

Um homem cordial

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Reside nos detalhes - nem sempre sutis, é verdade - a dimensão do empenho do governador de São Paulo no projeto Presidência da República. José Serra nunca esteve tão disposto a remover obstáculos, a não deixar ponto sem nó, a aparar arestas presentes, passadas e futuras.

Cozinha em banho-maria a proposta de realização de prévias no PSDB, como diz querer o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, articula-se com o PT pelo fim da reeleição e agora acaba de matar um mal pela raiz ao deslocar um de seus principais operadores políticos da Secretaria de Desenvolvimento para dar lugar a Geraldo Alckmin. E companhia, obviamente.

José Serra trabalha em silêncio e não é de hoje. Paulista da Mooca, reza pela cartilha da mítica mineira.

Na eleição municipal "amarrou" o apoio do PMDB de São Paulo à sua candidatura, antes disso havia feito do DEM um devedor eterno ao garantir ao minguante ex-PFL o comando da prefeitura mais importante do País e depois disso teve o cuidado de não celebrar as vitórias.

Frequentador das listas de "ganhadores" daquele certame fez o modesto. No curso do monumental charivari que tomou conta do PSDB paulista - com rebatimento em terras mineiras - fez o frio. O mundo tucano se desfazia em ferro e fogo, mas, no gabinete do governador, a temperatura era de inverso europeu.

Do lado de fora, os administradores políticos da confusão - Aloísio Nunes Ferreira e Alberto Goldman - transitavam com os cabelos em pé e os colarinhos amarfanhados. Dentro, o governador - composto e indiferente - tratava o assunto Geraldo Alckmin com naturalidade acadêmica, estudada até a medula.

Nem parecia que o ex-governador, desafeto assumido nas internas e adversário contido para efeito externo, estava criando embaraços graves ao plano de deixar o caminho livre para a candidatura Gilberto Kassab ao encasquetar em disputar a prefeitura pelo PSDB.

Da boca do governador nenhuma crítica produzida na presença de estranhos, jornalistas incluídos. Impassível ante a qualquer provocação, Serra manteve a fleuma do começo ao fim. Oficialmente falando, claro.

Calabrês, disputou, e ganhou, no quesito impassibilidade, celebrado como a marca do anestesista, um homem pouco dado a entusiasmos e duro na queda. Ainda que profunda.

Longe de ser um tolo, muito menos um vocacionado para o conformismo, Alckmin não esquentou cadeira na derrota. Mal digerido o resultado da eliminação no primeiro turno, começou a se movimentar.

Primeiro, a bordo da versão de que deixaria o PSDB, talvez até para se candidatar a presidente. Depois, espalhou que estava pensando em se candidatar a governador em 2010 e disputar a legenda tucana com o indicado por Serra que poderia ser qualquer um, menos ele.

Desta vez, com a imagem do Palácio do Planalto no horizonte, o governador José Serra não deixou ao tempo a solução dos problemas. Até porque a experiência lhe mostrou duas vezes que a omissão não é a melhor conselheira.

Em 2006, Serra queria ser candidato, Alckmin também. Mas, agora se vê, não queria tanto assim. Ou imaginou que com a preferência nas pesquisas não precisasse fazer por onde.

Deixou as coisas correrem seu curso livremente e, na última hora, resolveu disputar o governo do Estado, argumentando que não poderia insistir na candidatura a presidente com Alckmin no comando da resistência em São Paulo.

Em 2008, não fez como muitos achavam que deveria ter feito. Não apelou a Alckmin pela desistência da disputa da prefeitura e apostou que ele tropeçaria nas próprias pernas como, de fato, tropeçou.

Mas saiu daquela eleição com mais de 20% dos votos, o que, em termos de São Paulo, quer dizer mais de um milhão e meio de votos. Em matéria de PSDB, uma nova ofensiva de Alckmin no trabalho de construção de barreiras poderia significar bem mais.

Ele capitaliza, como ocorreu nas ocasiões anteriores, a ação dos adversários de Serra dentro do partido e País afora. Qualquer um que converse com Alckmin dá margem à interpretação de que sobre a formação de um núcleo anti-Serra. É sempre um fator de perturbação.

Durante a campanha municipal, Aécio Neves participou de atos públicos com Alckmin e a leitura que se fez foi de investida de Aécio contra Serra.

A lógica apontava para uma leitura menos drástica do ponto de vista eleitoral, pois não seria crível que algum paulista mudasse o voto por conta da presença do governador mineiro.

Só que sob a ótica das aparências partidárias, ações semelhantes nesse período até o início da campanha presidencial, dão ideia de divisão e tudo o que Serra precisa é de construir a união.

Daí a opção por cooptar o grupo de Alckmin, não depreciar a força de nenhum adversário, remover montanhas, dirimir conflitos, comer o mingau pelas beiradas, agregar, como convém a quem cuida de cada lance com o cuidado de um jogo esperado a vida inteira.

Serra põe Alckmin no governo e se fortalece para corrida de 2010

Silvia Amorim
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ex-governador assume Secretaria de Desenvolvimento e diz que antigo rival no PSDB é "importante candidato"

Dois anos e nove meses depois de deixar o Palácio dos Bandeirantes, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) voltou ontem ao governo do Estado, desta vez para integrar o secretariado de seu sucessor, José Serra (PSDB). Alckmin comandará a Secretaria de Desenvolvimento, que estava sendo pilotada pelo vice-governador Alberto Goldman.

A nomeação foi anunciada por Serra à tarde. Acompanhado de Goldman, ele anunciou o novo colaborador com uma lista de adjetivos. “É uma opção excelente para a área e uma grande honra para nós tê-lo no governo. Ele trará uma contribuição preciosa”, afirmou. “Tenho certeza de que ele vai tocar muito bem isso num nível de excelência”, emendou, ao citar os projetos estratégicos sob responsabilidade da secretaria.

Alckmin, que vinha enfrentando situação delicada no PSDB - até com rumores de sua saída do partido, principalmente depois da sua derrota na eleição à prefeitura paulistana no ano passado -, assumiu o posto pregando unidade. “Venho para somar, unir e trabalhar”, disse. Goldman fez coro ao substituto. “Estamos absolutamente unidos como sempre estivemos.”

Em seu pronunciamento, o ex-governador também deixou claro quem vai apoiar para candidato do PSDB à Presidência em 2010. “O governador José Serra desponta como importante candidato do nosso partido”, defendeu. Desde 2006, Alckmin vinha demonstrando ter ligações mais estreitas com o governador de Minas, Aécio Neves, do que com Serra. O gesto agora do governador muda esse cenário.

Depois de ter ocupado por seis anos o posto de maior autoridade do Estado, Alckmin negou que assumir a secretaria seja um retrocesso em sua carreira política. “O que me motiva é servir. Política é serviço. Já servi como vice-governador, governador, deputado estadual e federal, prefeito e agora vou servir à população de São Paulo dando o melhor de mim.”

Serra tem agora em seu governo os dois principais nomes cotados para concorrer à sua sucessão em 2010 pelo PSDB - Alckmin e o secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira - , já que seu plano é lançar-se à disputa presidencial em vez de tentar a reeleição. Apesar de faltar mais de um ano para a eleição, a briga de forças entre defensores da candidatura de Alckmin e de Aloysio já corre solta nos bastidores. Serra, em seu discurso, fez questão de frisar que a escolha do ex-governador tinha a concordância de “todos no governo”.

Serra, Alckmin e Goldman negaram qualquer vinculação político-eleitoral na movimentação.

“Não tem sucessão estadual metida no meio. Estou no meio do meu mandato”, argumentou o governador. Segundo ele, a troca se fez necessária porque o governo estava “sobrecarregado”. Goldman, na palavras do governador, deixa a secretaria para se dedicar integralmente às funções de vice. “Do meu lado, ele vai ter um papel importante na coordenação e articulação das ações de governo, vai se envolver muito mais com as ações globais”, explicou Serra. Para Alckmin, a “eleição está longe”. “Tudo tem seu tempo. Agora não é hora de discussão de questões de natureza eleitoral”, disse.

Acordo deixa Aécio sem apoio dentro de São Paulo

Carlos Marchi
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Já Alckmin, se obtiver êxito na luta contra a crise econômica, pavimentará retorno ao governo paulista

Ao atrair o ex-governador Geraldo Alckmin para sua gestão, o governador José Serra unifica São Paulo em torno de seu projeto presidencial em 2010 e tira do governador de Minas, Aécio Neves, o único apoio que tinha nos arraiais tucanos paulistas. Se Serra pacificou o Estado em seu apoio, Alckmin, por seu lado, assume uma secretaria de visibilidade e comandará, em São Paulo, a luta contra a crise econômica. Se tiver êxito, terá percorrido boa parte do caminho para viabilizar sua volta ao governo estadual em 2010.

A Secretaria de Desenvolvimento tem sido a encarnação do discurso serrista para enfrentar a crise. Seu plano de trabalho tem o título de Os novos rumos da locomotiva. Nos últimos dois anos, o ex-secretário Alberto Goldman costurou ambiciosos projetos para catapultar o desenvolvimento paulista, uma área que representa para Serra - mais do que a busca do êxito administrativo - o teste para suas teses desenvolvimentistas e a alavanca de seu futuro discurso de candidato presidencial. Alckmin, ex-governador e ex-candidato à Presidência, dá densidade a esse discurso, dizem os aliados de Serra.

A primeira conversa foi no dia 23 de dezembro, quando Serra disse a Alckmin que precisava dele para ocupar a Secretaria do Desenvolvimento e dar vigor à luta contra a crise. Atendia, então, a conselhos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, arquiteto de um entendimento em São Paulo. Do lado de Serra, apenas os secretários Aloysio Nunes Ferreira e Goldman foram notificados do convite. Do lado de Alckmin, ninguém soube, a não ser na semana passada, quando tudo já estava sacramentado.

Parceiros dos dois lados contaram que o acerto entre os dois não teve condicionantes. Serra não cobrou o apoio antecipado de Alckmin a sua candidatura presidencial nem Alckmin disse que almeja voltar ao governo estadual. Mas os dois lados admitem que esses serão desdobramentos "naturais" da aproximação.

Ontem, aliados de Alckmin eram só elogios para Serra, a quem rotularam de "político de porte", capaz de "um gesto grandioso de aproximação". Para um deles, agora São Paulo tem "um discurso único". O ingresso de Alckmin no governo, disse um antigo aliado, "sela o PSDB em São Paulo", um eufemismo para expressar que agora Alckmin fechou as portas aos acenos de Aécio, maior incentivador de sua candidatura à Prefeitura de São Paulo no ano passado.

Não é para menos. A Secretaria de Desenvolvimento é dona de atraente fatia do governo. Comanda a Agência de Fomento do Estado, espécie de BNDES estadual criado para financiar pequenos e médios empresários que acaba de receber um capital de R$ 1 bilhão, propiciado pela venda da Nossa Caixa. Outra fatia importante é o Centro Paula Souza, que dirige as 45 Faculdades de Tecnologia (Fatecs) e 151 Escolas Técnicas (Etecs), presentes em 127 cidades paulistas. Fatecs e Etecs também herdaram recursos da venda da Nossa Caixa.

A secretaria também comanda a Investe São Paulo, agência destinada a atrair investimentos para o Estado, e dirige o projeto dos parques tecnológicos, que cria ambientes de pesquisa para atrair empresas de alta tecnologia. Também está vinculado à secretaria o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), importante centro de pesquisas localizado dentro da Universidade de São Paulo (USP), que dá apoio tecnológico ao setor produtivo.

FHC elogia e diz que indicação mostra ''maturidade'' e ''grandeza'' dos colegas

Julia Duailibi
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Principal cardeal tucano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem que a indicação do novo secretário paulista de Desenvolvimento mostra "maturidade" e "grandeza" tanto por parte do governador de São Paulo, José Serra, como de Geraldo Alckmin.

O ex-presidente disse ainda, por meio de sua assessoria de imprensa, que o fato "certamente será bem aceito, não apenas pelo PSDB, mas pelos paulistas em geral".

O governador de Minas Gerais, o tucano Aécio Neves, também comentou a indicação feita por Serra. Assim como o governador paulista, o mineiro também tem interesse em disputar o Palácio do Planalto em 2010.

"Geraldo incorpora valores fundamentais a um homem público: seriedade, competência e absoluta transparência em todas as suas ações", disse Aécio, em nota divulgada por sua assessoria.

Sem mencionar Serra, o mineiro completou: "Ganham o governo e o Estado de São Paulo, que passarão a ter um colaborador de altíssimo nível".

Tucanos paulistas apontavam que o desgaste da relação entre Alckmin e Serra poderia contribuir para o projeto político de Aécio. Ressentido em razão do apoio de Serra à reeleição de Gilberto Kassab (DEM) na capital paulista em 2008, Alckmin, que ficou fora do segundo turno, poderia mergulhar na campanha de Aécio.

O ex-governador é visto como um aliado estratégico. Apesar de derrotado na eleição municipal, ainda dispõe de força eleitoral, principalmente no interior, além de razoável articulação na máquina tucana.

Para o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), independentemente de quem for o candidato tucano em 2010, o projeto do partido já sai fortalecido. "A indicação de Alckmin mostra que o mais importante agora é a unidade. Mostra que temos consciência para nos unir e vencer as eleições", declarou Guerra. "Tudo o que a gente não precisava agora era de divisão", completou.

Aliados de Alckmin comemoraram o seu embarque no governo paulista. Na avaliação deles, além de ganhar visibilidade política, o ex-governador passa a ser um candidato de dentro do governo para 2010 e não mais um concorrente à margem. É unânime a opinião de que Serra sai fortalecido desse processo para a disputa presidencial e se coloca ainda como o condutor do processo eleitoral no Estado.

PT tira Busatto de cargo em Canoas

DEU NO ZERO HORA (RS)

Depois de quatro dias de intensas críticas do partido, prefeito anunciou saída de ex-deputado

A pressão do PT contra a nomeação de Cézar Busatto (PPS) para ocupar uma vaga no governo de Canoas derrubou o discurso do prefeito Jairo Jorge (PT) de que não admitiria intromissão do partido em nomeações.

O recuo foi confirmado ontem pela manhã, quando Busatto, ao lado do prefeito, leu uma carta explicando os motivos para recusar – depois de já ter aceito – o convite para compor o secretariado.

A desistência foi anunciada como resultado de consenso entre os dois e ganhou tom de “preservação da governabilidade e de Busatto”, que previa sofrer perseguição e boicotes no trabalho como secretário Especial de Inovação e Projetos Estratégicos. Jairo negou estar se “rendendo” à opinião do PT e fez duras críticas ao comportamento do partido:

– Não me subordino nem concordo. O PT sai com uma imagem que não é boa. Meu gesto as pessoas de bom senso vão entender. O PT que eu desejo não é o PT do isolamento, é o PT que tenha capacidade, sim, de construir um novo bloco político humilde, sem arrogâncias com seus parceiros. A política gaúcha se movimenta nos últimos 15 anos sobre a lógica do paradigma do conflito, do ódio, do nós e eles.

Desde quinta-feira, quando anunciou Busatto como comandante de uma secretaria ligada a seu gabinete, Jairo bancou a decisão, afirmando que não cederia a pressões. Ouviu críticas públicas de líderes como o ex-governador Olívio Dutra e o deputado Raul Pont. Na sexta-feira, recebeu reprimenda do ministro Tarso Genro.

O final de semana começou sob a expectativa de mais pressão por parte da executiva estadual, que convocou reunião para ontem para tratar da nomeação do ex-chefe da Casa Civil do governo Yeda Crusius.

Saída foi negociada domingo à noite

Por volta das 19h de domingo, o prefeito chegou à casa de Busatto, na Capital. Estava acompanhado da mulher, Thais Pena, e do secretário de Relações Institucionais, Mário Cardoso.

O encontro se encerrou por volta da meia-noite, depois de firmado o pacto de que Busatto desistiria da secretaria. Antes de sentar para redigir a nota lida ontem, o ex-deputado serviu ao grupo massa com tomates e vinho cabernet.

– Escrevi até por volta das 4h. Queria fazer antes da reunião da executiva para não parecer uma resposta – explicou Busatto após se emocionar lendo o material e de trocar dois fortes e longos abraços com o prefeito.

Depois de repetir por várias vezes que o convite a Busatto segue valendo, o prefeito disse que ainda está pensando em um nome à altura do dele para assumir a secretaria especial e aproveitou para dar um recado:

– O governo de Canoas nasceu sob o signo da amplitude, nós temos uma política de alianças amplas, estamos governando hoje com nove partidos. Para quem não concorda com a amplitude, a porta é serventia da casa.

Prática é mudar regra em ano eleitoral

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Está pronto o texto da reforma política do governo Lula. O ministro Tarso Genro (Justiça) pensava em enviar o projeto ao Congresso depois de amanhã ou na próxima semana. O presidente recomendou esperar a eleição para as Mesas do Senado e da Câmara. A proposta modifica três dezenas de artigos da lei eleitoral, acata sugestões para "retirar criminosos do processo político", mexe nas regras para a eleição de 2010, mas passa ao largo da questão da duração do mandato do presidente, assunto que monopolizou os primeiros debates da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

À primeira vista, o projeto do governo e aquele que começou a tramitar na Câmara no fim do ano passado nada têm a ver um com o outro. O projeto dos deputados é que trata do mandato presidencial e do fim da reeleição, assuntos sobre o qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva volta e meia surpreende. Agora, por exemplo, o presidente afirma ser contrário ao fim da reeleição, depois de passar uma vida pregando o contrário (cabe dizer que seria difícil Lula se opor a uma instrução da qual se beneficiou). Ele insiste que é contra o terceiro mandato, mas na Venezuela defende o direito de Hugo Chávez de concorrer indefinidamente.

Os dois projetos devem se (con)fundir no Congresso. E o jogo do PT parece nebuloso.

No primeiro lance, tentou deixar aberta uma brecha para que o assunto ficasse sem regulamentação. PSDB e DEM reagiram por suspeitar que se tratava de uma manobra para criar um vácuo legal e permitir ao partido, se a relação de forças permitir, reivindicar o terceiro mandato para Lula. A reação nervosa do PT levou demistas e tucanos a concluir que suas suspeitas eram acertadas. Além disso, é mais ou menos consensual na Câmara que o fim da reeleição com a fixação de um - e apenas um - mandato de cinco anos não passa porque não interessa aos prefeitos e governadores que têm direito a disputar mais um período de governo.

O projeto governista é dividido em três "eixos". O primeiro leva o título de "Fortalecimento dos Partidos Políticos e Equilíbrio Eleitoral" e trata da lista fechada de votação e do financiamento público de campanha. O capítulo seguinte chama-se "Diminuição da Fragmentação Partidária". Cuida das coligações, da cláusula de desempenho e da fidelidade partidária. Por fim, o eixo "Redução da Criminalidade no processo Eleitoral" aborda os casos de inelegibilidades e cria um novo tipo de crime eleitoral, a "Captação Violenta de Sufrágio", e estabelece "novos parâmetros para o combate a condutas que comprometem o soberano direito ao voto".

O projeto, redigido após audiência pública, acolhe a interpretação de fidelidade partidária da Justiça Eleitoral, mas estabelece exceções para que os políticos possam mudar de partido sem perder o mandato. Uma é a filiação "visando à criação de novo partido político". Outra é a criação da "janela" pela qual os parlamentares podem saltar de um partido para o outro nos 30 dias anteriores ao término do prazo para a realização das convenções partidárias - ou seja, o mês de maio, de vez que o período das convenções para a escolha dos candidatos é de 1º a 30 de junho do ano da eleição.

O projeto também "estabelece que o prazo para filiação partidária para quem estiver no exercício do mandato se encerrará na data limite para a realização das convenções partidárias que escolherão os candidatos (30 de junho)". Na prática isso significa que um governador de Estado como Aécio Neves, de Minas Gerais, querendo ser candidato a presidente poderá trocar de legenda até 30 dias antes da eleição; mas um ministro como Henrique Meirelles ou Tarso Genro, que estão sem mandato eletivo, teriam de se filiar um ano antes.

"A proposta busca pôr fim ao "troca-troca" entre partidos que se dá, na maioria dos casos, por questões meramente fisiológicas", diz o texto preparado pelo Ministério da Justiça.

O capítulo sobre as coligações modifica regras previstas para as eleições de 2010. Uma delas diz respeito ao tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão destinado às coligações partidárias. O texto determina "que a coligação disporá, unicamente, do tempo de rádio e televisão destinado ao partido com o maior número de representantes na Câmara dos Deputados". Na prática, isso significa que se o PT capturar o PMDB para sua chapa, em 2010, o PSDB ficará em larga desvantagem no tempo de rádio e televisão - as duas siglas detêm as maiores bancadas e o maior tempo no horário eleitoral.

A maior parte das propostas do governo já está em discussão no Congresso. Algumas, com a mudança do sistema de votação para listas fechadas (o eleitor deixa de escolher um candidato para votar numa lista preparada pelos partidos) estiveram próximas de ser aprovadas na Câmara, mas foram barradas pela desconfiança de que beneficiariam o PT. Os partidos pequenos também resistem à cláusula de barreira, embora as condições exigidas para que essas siglas se viabilizem tenham sido reduzidas: um por cento dos votos válidos em eleição Câmara dos Deputados, distribuídos em, pelo menos, um terço dos Estados com o mínimo de meio por cento do votos em cada (a antiga lei previa 5%).

Temas polêmicos é o que trata da inelegibilidade. O texto prevê que ficarão inelegíveis "os que tenham contra sua pessoa representação julgada procedente pela Justiça Eleitoral, em decisão colegiada ou em decisão de primeira instância transitada em julgado por falta de recurso do réu, em processo de apuração de abuso do poder econômico ou político, para a eleição na qual concorrem ou tenham sido diplomados, bem como para as que se realizarem 3 (três) anos seguintes". O projeto afirma que isso "retira criminosos do processo político".

Com o projeto, Lula quer cumprir uma promessa de campanha, quando considerou prioritária a reforma política. Mas acha que o Congresso não se entenderá sobre o assunto. Pode ser. A prática em ano eleitoral, no entanto, tem sido mudar a regra do jogo.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

A encrenca de 2010

José Eli da Veiga
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Não é muito arriscado prever que no segundo turno da eleição presidencial de 2010 a candidatura ungida por Lula será enfrentada por aquela que for articulada pela aliança tucano-demo. Tal cenário poderia ser enfraquecido por uma eventual resposta positiva do TSE à consulta do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) sobre a possibilidade de que deputados federais fundadores de nova legenda carregassem consigo porções de horário gratuito de rádio e TV, assim como de parte dos fundos partidários. Todavia, como é muito improvável que isso ocorra, o que se impõe neste momento é uma reflexão sobre as circunstâncias em que se desenrolaria esse novo episódio da inevitável polarização PT-PSDB.

A campanha da candidatura situacionista certamente se concentrará na glorificação do PAC e da rede de proteção social em que se destaca o programa Bolsa Família, combinada com aguerrido ataque a uma aliança cuja inclinação privatizadora seria ameaça a tais façanhas. Impedida de rejeitar a parte mais substantiva do argumento, a oposição terá que fazer de tudo para convencer os eleitores de que mesmo essa simples plataforma teria gerado muito mais resultados se as organizações estatais tivessem sido administradas com mais compostura, longe da sanha das oligarquias sindicais e do clientelismo. E como os dois mais prováveis candidatos abominam juros altos, terão que se segurar para não fazer dueto contra uma das mais sagazes decisões anti-petistas de Lula: conceder razoável independência ao Banco Central.

Essa imensa proximidade programática das candidaturas que provavelmente disputarão o segundo turno de modo algum significa que os partidos que liderarão os dois lados sejam farinhas no mesmo saco. Ao contrário, só se aprofunda o contraste social entre PT e PSDB como principais representantes do povão e das camadas médias. Ambos tangidos a tecer alianças com agremiações e caciques vinculados às mais altas esferas. Todavia, em 2010, como hoje, não haverá diferenças substanciais entre os projetos que poderão ser apresentados por cada uma dessas duas farinhas. Procurarão adotar as retóricas mais amigáveis a suas respectivas bases sociais, mas para dizer essencialmente a mesma coisa: que são os campeões do quarteto desenvolvimentista: rápido crescimento, redução do desemprego, menos pobreza e menor concentração de renda.

Ficará inteiramente de fora desse debate o que é mais importante para aquele longo prazo que costuma ser chamado de estratégico: a qualidade do crescimento. Os dois lados já deixaram bem claro que para eles só interessa que o PIB aumente, sejam quais forem as razões. E talvez não possa ser exibida prova mais eloqüente do que esse Plano Decenal que acaba de ser proposto pelo Ministério de Minas e Energia. Que jamais teria sido divulgado sem o acordo da gerência do PAC, e que também não sofreu a mais leve crítica da oposição tucano-demo. Simplesmente porque a construção até 2017 de 68 termelétricas movidas a combustíveis fósseis certamente contribuiria para turbinar o PIB, com efeitos positivos sobre emprego e pobreza, e sem grande risco de mais concentração de renda.

Todavia, esse é um plano que está na mais flagrante contramão da história, pois só acrescentará dificuldades à necessária transição para uma economia de baixo carbono. Para fazer com que neste século o Brasil se torne um dos principais protagonistas semi-periféricos do desenvolvimento sustentável, seria necessário um planejamento energético que fosse exatamente o inverso desse Plano Decenal. Mais do que isso, seria necessário um programa de governo que em vez de acelerar o crescimento a qualquer preço - razão de ser do PAC - desencadeasse um processo no qual o estilo desse crescimento passasse a ser virado do avesso.

As duas candidaturas com potencial de segundo turno nem de longe podem admitir o que mais interessa: que a capacidade de conservação ecossistêmica em breve se mostrará muito mais decisiva para o bem-estar da sociedade do que meteóricos aumentos de um resultado contábil tão enganador quanto o PIB. E ambas rejeitam a perspectiva de um crescimento mais lento que possa encontrar nessa capacidade de conservação as mais decisivas alavancas do desenvolvimento: ampliação do acesso à saúde, ao conhecimento científico-tecnológico e a empregos decentes.

No fundo, o que mais há de comum entre as candidaturas que disputarão o segundo turno são três fortíssimos pressupostos compartilhados pela maior parte dos economistas e, por decorrência, por praticamente todos os políticos. O primeiro é tomar o PIB como a melhor medida de desempenho econômico. O segundo é supor que seja linear a relação entre aumentos do PIB per capita e o desenvolvimento, mesmo que um indicador tão grosseiro quanto o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) já evidencie as disparidades que podem ocorrer entre nações, e em períodos diversos em um mesmo país. E o terceiro é acreditar que o crescimento seja sempre econômico, como se não existissem custos de oportunidade que, ignorados ou desprezados, o tornam anti-econômico.

Nem sequer dúvidas sobre esses três dogmas afetarão as potenciais candidaturas para o segundo turno de 2010. Impossível, portanto, que assumam o desafio de ruptura mediante programa concentrado em estratégias simultâneas de descarbonização e de conservação ecossistêmica necessárias para tornar sustentável o desenvolvimento. Ao contrário, os dois lados enfatizarão a necessidade primordial de reduzir juros para que se acelerem os aumentos do PIB, e para que parcela crescente da arrecadação possa ser usada na expansão da rede de proteção social.

Em suma, tudo indica que - malgrado as excelentes qualidades individuais dos favoritos - no segundo turno de 2010 ocorrerá uma daquelas esquisitas encrencas históricas em que a escolha do eleitorado se fará entre a peste e o cólera, para usar a feliz tirada do saudoso padeiro francês Jacques Duclos (1896-1975), um dos mais admiráveis heróis da resistência antinazista.

José Eli da Veiga é professor titular do departamento de economia da FEA-USP e co-autor do livro para jovens "Desenvolvimento sustentável: que bicho é esse?" (Autores Associados, 2008)

Emprego em troca de alívio fiscal

Chico de Gois, Luiza Damé e Ronaldo D"Ercole
DEU EM O GLOBO

Lula promete a sindicalistas que novas desonerações terão vagas como contrapartida

Numa reunião de cerca de três horas com dirigentes das seis maiores centrais sindicais do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu ontem que as novas desonerações de tributos em estudo pelo governo terão como contrapartida a manutenção dos empregos. Ou seja, as empresas só poderão se beneficiar da redução de impostos e contribuições - a principal das medidas solicitadas pelas entidades ao governo - se garantirem que não demitirão pessoal. O assunto será discutido nos conselhos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), formados por trabalhadores e empresários.

Participaram do encontro Força Sindical, CUT, CGTB, CTB, Nova Central Sindical e UGT, além de cinco ministros de Estado: Dilma Rousseff (Casa Civil), Carlos Lupi (Trabalho), Paulo Bernardo (Planejamento), José Pimentel (Previdência) e Luiz Dulci (da Secretaria-Geral da Presidência). O Palácio do Planalto não se manifestou sobre as declarações dos sindicalistas.

- O presidente vai se dedicar, no resto do mês, a discutir a crise. Ele disse que haverá mais desoneração, mas com contrapartida de emprego. O governo vai estudar os setores, o ministro Lupi está vendo onde há necessidade (das medidas de desoneração) - disse o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho.

Para o presidente da CUT, Artur Henrique, é preciso que o governo jogue mais duro para garantir crédito e, com isso, emprego:

- Este tal de mercado livre é que enfiou a gente nisso - declarou.

Na próxima semana, afirmaram os representantes das centrais, serão apresentadas novidades a respeito do seguro-desemprego. As entidades defendem a extensão do benefício para dez meses, contra os cinco meses atuais. Um participante da reunião revelou que o ministro do Trabalho sugeriu que a expansão das parcelas seja vinculada a cursos de qualificação pagos pelo FAT.

No encontro, o presidente também declarou, ainda de acordo com os sindicalistas, que o principal problema do governo para enfrentar a crise econômica é a falta de crédito e os juros altos. Lula adiantou que amanhã irá se reunir com representantes de bancos públicos e privados para tratar do assunto e ver como reduzir o spread (diferença entre o custo do dinheiro para instituições financeiras e o quanto elas cobram para emprestar para consumidores e empresas), com a intenção de facilitar o crédito, que continua escasso.

CUT inicia atos contra demissões

Segundo os sindicalistas, Lula disse que vai chamar os 50 maiores investidores para saber por que suspenderam investimentos programados. Os representantes das centrais disseram que o governo manterá a proposta de reajuste de 12%, ou 5,7% de aumento real do salário mínimo, elevando-o para R$465 a partir de fevereiro. Lula disse ainda que convocará governadores e prefeitos das capitais para discutir ação conjunta.

Sindicatos ligados à CUT começam hoje uma série de manifestações em defesa do emprego e contra a redução de salários. Serão realizadas assembleias e manifestações em frente a fábricas de cidades com grande concentração de trabalhadores, como São Bernardo do Campo, no ABC, Sorocaba e Taubaté, no interior paulista.

A central defende a redução temporária da alíquota do INSS patronal, de 20% para 14%, nos setores mais atingidos pela crise. A CUT vai pedir audiências com governadores para discutir desoneração do ICMS.

País teve maior perda de vagas em 16 anos

Geralda Doca e Camila Nobrega
DEU EM O GLOBO


Só em dezembro, foram 654 mil postos eliminados, o dobro em relação a 2007

BRASÍLIA e RIO. O Ministério do Trabalho confirmou ontem o fechamento de 654.946 vagas em dezembro, mostrando que a crise financeira internacional atingiu em cheio o emprego formal no país. O saldo - diferença entre contratações e demissões - foi o pior para meses de dezembro desde o início da série histórica, em 1992, e mais do que dobrou em relação ao mesmo período de 2007, conforme noticiou O GLOBO, em primeira mão, na semana passada. O efeito da turbulência foi generalizado entre os setores da economia, com impacto maior na indústria da transformação, que eliminou 273.240 postos no mês passado, no pior desempenho para o período no atual governo.

Foi o segundo mês seguido de dispensas pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, já que em novembro o saldo líquido ficara negativo em 40.821. Apesar disso, em 2008, o Brasil gerou 1,452 milhão de empregos, numa desaceleração em relação ao 1,617 milhão de vagas registradas em 2007.

Um dos motores do emprego ao longo de 2008, a construção civil teve fechamento líquido de 82.432 vagas em dezembro, mais do que o triplo do verificado em igual mês de 2007. O segmento de serviços foi responsável pela extinção de 117.128 empregos, quase três vezes mais do que os 40.795 apurados em dezembro de 2007.

Tradicionalmente empregador em dezembro, devido às compras de Natal, o comércio registrou no mês passado saldo negativo de 15.092, contra um desempenho positivo de 30.129 em dezembro de 2007. Na agricultura, as demissões superaram as contratações em 134.487.

A assistente administrativa Flávia Carvalho, de 50 anos, foi demitida em dezembro, após nove anos em uma loja do Norte Shopping:

- Fiquei surpresa. A empresa precisava reduzir gastos. O gerente me disse que a empresa precisava reduzir os gastos por causa da crise e que, como meu salário era alto para a função, precisaria me demitir. Outras pessoas já haviam sido mandadas embora antes de mim.

Lupi responde a desafio do presidente da Fiesp
O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, defendeu medidas para enfrentar o desemprego na indústria, como a redução do IPI do setor. Ele disse que só o ramo de alimentação foi responsável por um saldo negativo de 109.696 contratações no mês passado. Não por menos, os três estados que mais demitiram em dezembro têm grandes parques industriais: São Paulo (285.532); Minas Gerais (88.062) e Paraná (49.822). No Rio, foram eliminados 19.342 postos. Outros subsetores, como calçados, borracha, fumo, couros e mobiliário fecharam o ano com saldo negativo. Essas áreas também seriam beneficiadas.

- O grande foco é a indústria. Precisamos trabalhar para definir políticas públicas para essa área - disse Lupi, para quem janeiro e fevereiro serão meses fracos do ponto de vista de geração de emprego, mas que não impedirão a criação de 1,5 milhão de postos em 2009.

Lupi respondeu ainda ao presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, que o desafiou na semana passada a mostrar empresas que tomaram recursos públicos mas estariam demitindo. Ele apresentou uma lista com setores beneficiados com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) em São Paulo entre janeiro de 2006 e março de 2008: foram R$2,977 bilhões, sendo que a indústria de transformação, a que mais demitiu em dezembro, ficou com R$1,157 bilhão.

- Ele não pediu uma lista pública? Então, estou mostrando - disse Lupi.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1214&portal=

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

História requentada

Wilson Figueiredo
Jornalista
DEU NO JORNAL DO BRASIL


A falta de modéstia presidencial valeu como sinal para que as rãs do brejo em que se transformou a coalizão de partidos ao redor de Lula começassem a coaxar e inaugurassem o coro em favor do terceiro mandato. Para se apresentar de peito aberto, como o melhor presidente que a República conheceu por via eleitoral, era preciso apenas estar convencido. Lula sempre esteve e não esconde o bom juízo que faz a seu próprio respeito. Não havia tempo a perder numa questão que requer atenção e cuidado nos quatro anos do mandato, e se decide mesmo nas urnas.

As rãs não cessavam de insistir, dentro e fora do Congresso, em mais um mandato para Lula, e tanto azucrinaram a paciência alheia que levaram o presidente a recolher o assunto ao depósito das falsas soluções para calar a suspeita generalizada que o comprometia perante a História (do Brasil). Já começava a tresandar aquela conversa de reforma constitucional fora de hora, quando o presidente desautorizou a campanha e deu como garantia (sem pedir troco) a palavra de que não era e não seria candidato em hipótese alguma. A postura tão taxativa foi contraproducente, pois sempre há mais de uma hipótese para se mudar o curso da Constituição e contornar as urnas. Se era assim antes, ficou muito mais depois que Lula declarou a crise internacional uma tempestade nacional em copo d"água, da qual (a tempestade, claro) vive a oposição para não morrer de sede.

O terceiro mandato passou a ser para a imagem de Lula, enfunada pelas pesquisas, o mesmo que a renúncia foi para Jânio Quadros desde a prefeitura de São Paulo. Lado a lado o tempo todo. Lula e o terceiro mandato tornaram-se também inseparáveis em qualquer raciocínio político em torno de 2010. Da própria extroversão o presidente se ocupa diariamente. Mas, assim como não era possível considerar Jânio sem incluir o risco de renúncia em algum ponto do percurso, ninguém entendeu o alto investimento de Lula apenas para passar o tempo, considerando-se a versatilidade de que ele é capaz e a natureza do nosso arraigado presidencialismo.

Lula teve discernimento para fazer uma curva, sair pela tangente e ver a candidatura Dilma Rousseff com olhos de eleitor. Por aí fica esperando a hora de trocar de roupa e de papel. Fez da ministra a candidata do peito e do PAC, com tratamento preferencial, enquanto as rãs queremistas faziam a zorra para o assunto não esfriar. Adiantou-se ao PT, que ficou chupando pirulito no recreio, e às manobras do PMDB, que é bom garfo, tem olho gordo e peso parlamentar respeitável. Quer conferir se a sua preferência pela ministra-chefe da Casa Civil pegará de muda e garantirá votos suficientes. O enxoval da candidata foi o pré-sal, que faz a parte que lhe compete. Mas, de modo geral, todos se preparam mesmo é para o imprevisível.

De fora para dentro, o Brasil se posta como ilha incólume aos maus ventos e aberto aos bons pressentimentos. De dentro para dentro, Lula fatura o otimismo do fim de ano sem baixar os juros e a guarda. De dentro para fora, o Brasil não é o roto entre esfarrapados, mas um país com capital político da classe média que se expande e chega ao consumo. Já se foi o tempo em que crises políticos eram patrocinadas pela oposição. Governos sempre têm a faca e o queijo à mão. E nada mais indicado do que a via pré-eleitoral para se apresentar uma crise daquelas cuja razão fundamental fica nos escombros da Constituição soterrada. Lembremo-nos de 1937, mas sem esquecer 1930, a única revolução com saldo. A História não é repetente, mas os políticos são reincidentes. Depois de cem anos sem reeleição, tudo indica que esse equívoco veio, a pretexto de ajudar a democracia, para ficar. Cada presidente que se reelege ressalva que, em princípio, é contra o segundo mandato. Aceita pelo bem de todos e a felicidade geral que, esta sim, também quer ficar. Lula ressalva que não aceita em hipótese alguma o terceiro mandato.

Um passo adiante. O terceiro mandato começou a zumbir antes que a candidatura Dilma Rousseff levantasse vôo, e tem, este ano, 12 meses para fazer ruído, enquanto ­ como diria o Pacheco (do Eça) ­ Lula faz História.