segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Trabalho de luto

Ricardo Antunes
DEU NA FOLHA DE S. PAULO / +MAIS!

Relatório da OIT sobre a América Latina e anúncios de demissões nos EUA, na Europa e no Japão apontam para o derretimento dos níveis de emprego em escala global

Começam a ficar mais claros os contornos e as primeiras consequências da crise que vem liquefazendo o sistema do capital em escala global. O Fórum de Davos (Suíça) "começa com executivos em pânico" (Dinheiro, 28/1).

Lá, onde estão reunidos representantes das "classes verdadeiramente perigosas", os executivos globais contabilizam o que já é incontável e mergulham numa crise de proporções alarmantes.

Enquanto isso, no outro canto do mundo, em Belém, o Fórum Social Mundial ganha uma impulsão extra.

Isso porque ele vem, desde 2001, denunciando a lógica destrutiva dominante. Se ainda não foi capaz de oferecer um projeto societal alternativo e global para o mundo, contrário aos imperativos do capital, muitos de seus partícipes sabem que o capitalismo é o responsável pela (des)sociabilidade vigente e suas mazelas. Esse sistema poderá até ser ainda mais longevo, mas será sempre empurrado no tranco.

Ora definhando o Estado ao mínimo (no que tange à sua dimensão pública), ora tendo surtos intervencionistas, como este que se abateu no governo de George W. Bush e de seus epígonos.

Mas a crise vive um ciclo prolongado, datado do início dos anos 1970.Começou destroçando os países do Terceiro Mundo. Um a um, Brasil, Argentina, México, Uruguai, Colômbia, para ficarmos somente em alguns exemplos da América Latina, foram mergulhados no estancamento e na recessão, o que fez desmoronar o pouco que esses países construíram no capítulo dos direitos sociais do trabalho.

Mas isso foi só o começo: depois foi a vez, no fim dos anos 1980, de levar à bancarrota o chamado "socialismo real" (União Soviética e o restante do Leste Europeu). Menos do que expressão do "fim do socialismo", esse fato antecipava uma nova etapa da crise do próprio capital.

No olho do furacão

No presente, depois do seu epicentro ter passado pelos principais países capitalistas (Japão, Alemanha, Inglaterra e França), chegou ao coração do sistema: os EUA estão agora no olho do furacão.

E, com isso, uma vez mais se acentua o caráter pendular do trabalho.Nos países que vivenciaram traços do Estado de Bem-Estar Social, especialmente na Europa social-democrática, o dilema se colocou (ainda que sem tocar na raiz do problema) entre trabalhar menos e viver as benesses do ócio, curtindo o "tempo livre" (vale a indagação: será mesmo tempo livre, sem aspas?).

Trabalhar menos, para todos viverem uma vida melhor, tornou-se consigna forte.Mas na América Latina (e o mesmo vale para a Ásia e a África) a dilemática tem uma profundidade ainda maior.

Neste verdadeiro continente do labor, o pêndulo é ainda mais ingrato em seus dois polos opostos: ele oscila entre trabalhar ou não trabalhar; entre encontrar labor ou soçobrar no desemprego.

Mais precisamente, entre sobreviver ou experimentar a barbárie, pois o Estado de Bem-Estar Social sempre andou muito longe daqui.

Migalhas

No meio do caminho, uma massa monumental de assalariados vivenciando uma precarização estrutural do trabalho em escala continental. Crianças, negros, índios, homens e mulheres trabalhando no fio da navalha.

Conforme recordou Mike Davis, em seu "Planeta Favela" [ed. Boitempo], "não é raro encontrar [na América Central] empregadas domésticas de sete ou oito anos com jornadas semanais de 90 horas e um dia de folga por mês" ("Child Domestics", Domésticas Infantis, relatório da Human Rights Watch de 10/6/2004).

Com a crise, o quadro se agrava: no recentíssimo "Panorama Laboral para América Latina e Caribe - 2008" (Organização Internacional do Trabalho, 27/1), o cenário social apresentado é de tal gravidade que beira a devastação.

Se o desemprego diminuiu nos últimos cinco anos, o relatório da OIT antecipa que, "devido à crise, até 2,4 milhões de pessoas poderão entrar nas filas do desemprego regional em 2009", somando-se aos quase 16 milhões já desempregados (sem falar no "desemprego oculto", nem sempre captado pelas estatísticas oficiais).

Ou seja, o que se conquistou em migalhas, a crise derreteu no último trimestre de 2008.

Se, no centro do sistema, têm-se as maiores taxas de desemprego das últimas décadas, no continente latino-americano esse quadro se agudiza.

Na maioria dos países houve retração salarial; as mulheres trabalhadoras têm sido mais afetadas, com taxa de desemprego 1,6 vez maior que os homens, e o desemprego juvenil, em 2008, em nove países, foi 2,2 vezes maior do que a taxa de desemprego total. A informalidade, que era exceção no passado, torna-se a regra.

Flexibilidade

No Brasil, a "marolinha" já desempregou milhares de trabalhadores na indústria, nos serviços e na agroindústria (atingindo até o etanol do trabalho semiescravo).

O país, que o governo Lula afirmou ter uma economia estável e refratária à crise, está vendo a cada dia a corrosão dos níveis de emprego. O empresariado pressiona mais uma vez para aumentar a "flexibilidade" da legislação trabalhista, com a falácia de que assim se preservam empregos.

Nos EUA, na Inglaterra, na Espanha e na Argentina, entre tantos outros exemplos, flexibilizou-se muito. Fica a indagação: por que então o desemprego vem se ampliando tanto nesses países?

Para concluir, vale adicionar mais uma contradição vital em que o mundo mergulhou, quando o olhar vai além do cenário televisivo oferecido pelo contagiante "big brother" global: quando se reduzem as taxas de emprego, aumentam os níveis de degradação e barbárie em amplitude global.

Se, em contrapartida, o mundo produtivo retomar os níveis altos de crescimento, esquentando a produção e seu modo de vida fundado na superfluidade e no desperdício, aquecerá ainda mais o universo, o que é mais um passo certo para uma outra tragédia já bastante anunciada.

Ricardo Antunes é professor titular de sociologia na Universidade Estadual de Campinas e autor de "Adeus ao Trabalho?" (Cortez).

Crise terá de ser paga pelos ricos, não pelos pobres, diz Fórum Social

Soraya Aggege e Maiá Menezes
DEU EM O GLOBO

Participantes fazem agenda de protestos em cúpulas de Otan, G-8 e G-20

BELÉM. A fatura da crise econômica terá de ser paga pelos ricos. Os pobres vão resistir e protestar. Esses foram os principais consensos do Fórum Social Mundial (FSM), que encerrou ontem a sua nona edição. As articulações, que incluíram 5.808 entidades de 142 países - a maioria (4.193) latinas -, resultaram em um longo cronograma de protestos mundiais a serem feitos no futuro. O conjunto de mobilizações une os dois temas que prevaleceram durante o encontro: crise econômica e preservação da Amazônia.

O calendário foi lido por representantes de 22 grupos setoriais e fechado por consenso entre os participantes.

Uma das ações globais será a semana contra a guerra e o capitalismo, de 28 de março a 2 de abril. O objetivo é fazer protestos em todos encontros de cúpula que envolvam a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o G-8 (grupo dos sete países mais industrializados do mundo mais a Rússia) e o G-20 (grupo que abrange também economias emergentes).

Também foram lançadas datas globais de ações contra a destruição da Amazônia, no dia 12 de outubro, e em defesa da Palestina, em 30 de março.

Apesar das convergências, a multiplicidade de discussões impediu a formulação de um documento único:

- Este não é um Fórum para decidir nada homogeneamente. Não queremos fazer a velha política. Queremos uma nova cultura política. Não é para ninguém ser dirigente de ninguém - avalia Cândido Grzybowski, um dos fundadores do FSM, que vê como desafio para o Fórum a "revolução de mentalidades".

Para Oded Grajew, também fundador do FSM, o papel do que os organizadores chamam de "processo do Fórum Social" é disseminar as mensagens extraídas na última assembleia do encontro, ontem à tarde:

- Temos que reforçar articulações e continuar ousando.

Fórum temático discutirá questões de povos indígenas

A ativista italiana Rafaela Bolini, do conselho internacional do FSM, viu maturidade na nona edição do encontro:

- Tivemos um período em que o debate era se iríamos dialogar com a política ou seríamos autônomos. Quem é autônomo não tem condição de dialogar com ninguém. O Fórum demonstrou que cresceu: é mais forte e pode dialogar - afirmou Rafaela.

Os índios presentes no Fórum decidiram pela organização de um fórum social temático sobre povos indígenas.

- Somos atores políticos vivos. Não parte do folclore - disse Miguel Palacin, da coordenação andina dos povos indígenas.

O FSM se organizou em 22 reuniões setoriais ontem de manhã e, no fim da tarde, fechou suas propostas em assembleia geral. O enfoque que ganhou a adesão de todos partiu dos principais braços de mobilização do FSM, os movimentos sociais e sindicais: "Não vamos pagar pela crise.

Que paguem os ricos", anunciaram na chamada "assembleia das assembleias" do FSM.

As discussões sobre a realização do próximo FSM continuam até quarta-feira. Há várias propostas, mas vem ganhando força a ideia de que a próxima edição centralizada acontecerá apenas em 2011, na África. Há ainda a possibilidade de o FSM se basear nos Estados Unidos ou no Oriente Médio. Para 2010, o debate é se o Fórum será um dia de ação global ou se terá "filhotes temáticos" em alguns continentes.

Davos faz chamado à cooperação contra crise

Fernando Dantas, DAVOS
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Teste de novo modelo vai ser em abril, na próxima reunião do G-20

O Fórum Econômico Mundial de 2009, que se encerrou ontem, em Davos, começou em tons de quase desespero com a virulência da crise financeira e econômica, e terminou com um chamado à cooperação internacional como forma de encarar os tempos dificílimos à frente. Se na área de comércio internacional permanece o impasse em relação à Rodada Doha, agravado agora pela tentação de cada país de restringir importações para tentar proteger os produtores domésticos, a reunião de Davos mostrou que há, no mínimo, uma clara consciência da parte das lideranças econômicas e políticas de que é preciso agir de forma rápida, ambiciosa e ampla para tentar conter a crise.

O primeiro grande teste dessa renovada aposta na cooperação multilateral será a reunião de chefes de governo do G-20, em 2 de abril em Londres. Ao contrário da primeira cúpula do G-20, realizada em novembro em Washington, e esvaziada por ter como anfitrião um presidente George W. Bush em melancólico final de mandato, a reunião de Londres será vitaminada pela presença do carismático novo presidente americano, Barack Obama, no esplendor da força política do início de mandato. O G-20, que inclui o Brasil, reúne as principais economias desenvolvidas e emergentes, responsáveis por cerca de 90% do PIB global.

Ainda em abril, na esteira do G-20, o Fórum Econômico Mundial realiza uma reunião regional no Rio de Janeiro, que será beneficiada pela alta voltagem do momento econômico e político global. O Fórum do Rio pode ser uma ótima oportunidade para o Brasil reforçar a sua posição de importante economia emergente que atravessa a crise até agora de maneira relativamente menos catastrófica do que a da média dos países.

Um tema que deve ter itens razoavelmente bem preparados para a tomada de decisão na reunião do G-20 é o da regulação financeira. Segundo o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que participou do Fórum em Davos, uma proposta que deve chegar à mesa dos chefes de governo é a de se criar um colegiado mundial de reguladores, uma instituição de base mais permanente, "onde as informações possam ser trocadas a cada dia, e não a cada mês".

Na área fiscal, a orientação de se promover o maior número possível de pacotes de estímulo deve ser mantida na reunião do G-20. Até o momento, os planos de impulso fiscal do G-20 já somam algo como 1,5% a 2% do PIB dos países do grupo. Uma questão que certamente será abordada é a contaminação dos países pobres e emergentes pela crise iniciada nos países ricos, e o que fazer para contê-la. Há um consenso de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) deve ser maciçamente fortalecido em sua capacidade de empréstimo.

Os movimentos naquele sentido até agora, porém, são tímidos. John Lipsky, vice-diretor-gerente do FMI disse que gostaria que o Fundo pelo menos dobrasse a sua capacidade atual de empréstimo, de US$ 250 bilhões. Ele lembrou que o Japão já se propôs a emprestar US$ 100 bilhões ao FMI, e que assim faltaria equacionar os restantes US$ 150 bilhões. Numa espécie de painel conclusivo sobre o futuro da economia global realizado no sábado, Montek Ahluwalia, vice-chairman da Comissão de Planejamento da Índia, deixou claro que os US$ 250 bilhões para o FMI propostos por Lipsky são muito modestos: "As reservas da Índia são mais do que isso", alfinetou Montek.

O economista Martin Wolf, colunista do Financial Times, lembrou no mesmo debate que, exatamente por não confiarem nem no cacife nem na disposição do FMI de ser um emprestador em momentos de trava no crédito global, é que os emergentes em conjunto acumularam trilhões de dólares de reservas. Wolf vê essa questão como causa dos atuais desequilíbrios da economia global, já que o excesso de poupança dos emergentes, para acumular reservas, é canalizado para os ricos, onde comprime e juros e gera bolhas especulativas.

Davos 2009 teve um tom mais sóbrio que o habitual, com menos celebridades ligadas ao showbiz. Não houve a presença nem mesmo de Bono, da banda irlandesa U2, que compareceu por vários anos seguidos.

Estados terroristas

José Arthur Giannotti
DEU NA FOLHA DE S. PAULO /+MAIS!

Combates na faixa de Gaza sugerem que negociações de paz só serão possíveis após forte pressão internacional

Não me sinto à vontade escrevendo sobre a horrenda situação do Oriente Médio; não acompanho os acontecimentos nos pormenores nem conheço os meandros da luta que ali se desenvolve.

Mas me sinto moralmente obrigado a deixar público meu claro repúdio aos horrores que ali têm ocorrido e meu temor de que seus agentes estão se chafurdando num pântano que poderá engolir o que nos resta de humanidade e de confiança na democracia.

Não posso continuar calado, mergulhado em minhas obsessões, como se fundamentalistas palestinos e israelenses não estivessem se matando e emporcalhando a dignidade de dois povos. Nessas condições o silêncio é conivente.

Há 60 anos, graças a uma resolução da ONU, foi criado o Estado de Israel. Uma forte reação árabe e palestina era esperada, e só poderia haver perspectiva de paz e progresso na região se os dois maiores contendores tirassem vantagens da nova situação, separando a luta pelo Estado nacional da questão religiosa e cultural.

Aconteceu, porém, o contrário. Desde o início Israel se firma como Estado judeu. Enfrentando resistências, os sionistas de esquerda lutaram por um Estado leigo, e o confronto somente amaina quando se chega a uma situação de compromisso. Israel não conta com uma Constituição escrita, isto é, um acordo articulado em que vários grupos cedem para configurar um fundamento legal a partir do qual possam resolver suas contendas. É regido por um sistema de leis parecido com a Common Law, obviamente sem a tradição inglesa, que flexibiliza a norma jurídica para que um grupo politicamente dominante possa mais facilmente impor a legitimidade de seu ponto de vista. Nos últimos anos o Estado israelense de Direito está cada vez mais sendo sufocado pela intolerância dos fundamentalistas.Nesse contexto, a extensão do território nacional se torna uma questão religiosa. Sabe-se que o Estado nacional exerce o monopólio da violência num determinado território, que, na sua essência é público, a propriedade privada sendo conformada por ele. Quando o Estado é religioso, a terra é dádiva divina, cabe ao Estado conservá-la tal como o povo eleito a recebeu de Deus.

No lugar da "res publica" impera a "res divina". Não são mais o Estado e os cidadãos que possuem a terra, esta é que os passa a possuir como manifestação de sua divindade. Há mais de 40 anos a esquerda israelense propõe trocar terra pela paz, mas, até agora, o território palestino continua a ser comido pelas bordas, a fim de que o Grande Israel renasça de suas cinzas, como se outros povos nunca tivessem tido direito sobre esse território.

O Estado judeu não pode conceder plena cidadania a seus membros. Os palestinos israelenses foram proibidos de votar nas próximas eleições porque podem estar colaborando com o inimigo. E, como a taxa de natalidade deles é superior à dos israelenses judeus, é de esperar que seus direitos democráticos sejam cada vez mais restringidos.

Jerusalém é uma cidade multirracial e multicultural. Sagrada para três religiões.

Mas desde 30 de julho de 1980 foi decretada capital indivisa do Estado de Israel, indiferente às demandas da população árabe que ali habita e dos acordos internacionais que asseguraram a fundação desse Estado.Infelizmente o lado palestino seguiu na mesma direção.

Não se pode colocar no mesmo saco movimentos nacionalistas do Oriente Médio e a renovação fundamentalista do islã, a despeito de estarem cada vez mais trançados.

Essa confusão é uma triste herança da era Bush e da revolução iraniana, que cobriu o verdadeiro conflito político com o véu ético-religioso da oposição entre o bem e o mal.

Mas a luta pela instalação de um Estado palestino é antiga.

Em 1917 os ingleses conquistaram a Palestina do Império Otomano. E assim começou o jogo entre aqueles que desejavam independência do novo território ou sua transformação num novo Estado judeu, proposto pelos sionistas. Desde o início a guerrilha se instalou dos dois lados, sendo hoje inútil procurar quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha.

Atrocidades foram cometidas pelos dois lados. Não deixo de me indignar, de tomar partido segundo as circunstâncias, mas agora me importa salientar a farsa jurídica que Israel e as organizações palestinas estão praticando para encobrir o massacre dos povos que representam.

Na guerra contemporânea não existe mais clara distinção entre o soldado e o civil. O primeiro não sobrevive sem um fantástico esforço produtivo do segundo. Não é à toa que, já na Segunda Guerra, cidades foram arrasadas para enfraquecer o esforço produtivo do inimigo.

Essa indistinção se avoluma quando a guerrilha se transforma em cruzada, ou intifada, que converte o martírio no caminho de salvação.

Acuados por todos os lados, pela violência israelense e pelo jogo desleal dos Estados árabes, cada vez mais os palestinos desacreditam nas soluções políticas e se empenham numa reconquista religiosa das terras perdidas.

Para eles a existência de um Estado palestino implica aniquilação do Estado de Israel, o qual por sua vez responde tentando aniquilar o Hamas.

Mas, de um lado e do outro, a política continua sendo praticada, mesmo quando, como nos mostram os últimos episódios, a guerra se faz como a negação dela. Creio que aqui está um dos pontos nevrálgicos da questão.

Os movimentos nacionalistas palestino e israelense são empurrados para o terror. O inimigo é tanto o soldado como o civil que o apoia mesmo sem querer. O voto favorável à guerra ou a indiferença são forças mais destrutivas do que as armas de combate.

Trava-se uma guerra entre um Estado constituído e um Estado em via de constituição.

Israel se orgulha de possuir um excelente código de ética para suas Forças Armadas, mas, como declarou o major Jacob Dalla (Folha, suplemento "New York Times", 26/1), "as pessoas perdem de vista o contexto de uma guerra numa área densamente povoada, onde, a cada vez que uma porta é aberta, um soldado se pergunta quem pode estar atrás dela".

Mesmo usando a cabeça, creio eu, é natural atirar no outro indiferenciado. O irracional é entrar numa guerra desse tipo. E, quando alguém denuncia o absurdo, posto que os dois lados vestem o manto da religião, a denúncia é tachada de antissemitismo ou anti-islamismo.

Mas a luta é sobretudo política, embora às vezes se assemelhe a um extermínio tribal. O direito está servindo sobretudo para encobrir o uso de métodos terroristas. O que define a prática jurídico-moral não é o código, mas sua prática. Israel se nega como Estado ao massacrar civis indefesos.

O Hamas ou o Hizbollah se negam como movimentos nacionalistas insistindo na guerra do terror e se recusando a participar de negociações políticas. Não vale negar-lhes o caráter de interlocutores porque têm inscrito no programa a destruição do Estado de Israel.

O fato de se sentarem numa mesa de negociação implica o reconhecimento do outro como interlocutor político.

Não sejamos porém ingênuos. Tal como a guerra está se desenvolvendo, uma negociação política somente será possível mediante forte pressão internacional.

A ONU pouco poderá fazer sem o apoio decidido dos Estados Unidos. E para que isso se torne possível, é preciso que se compreenda que essa guerra é mais do que um conflito de civilizações, porquanto, além de pôr em choque diferentes formas de vida, faz com que o Estado de Direito finja existir para encobrir práticas de aniquilação do outro simplesmente porque é outro.

José Arthur Giannotti é professor emérito da USP e coordenador da área de filosofia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção "Autores", do Mais!.

Evento termina sem texto final

Roldão Arruda, BELÉM
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Participantes também não deram sugestões para enfrentar crise, muito debatida em Belém

O Fórum Social Mundial foi encerrado ontem em Belém, no Pará, sem nenhum documento final com as conclusões do encontro ou qualquer sugestão a respeito da crise econômica mundial - exaustivamente debatida durante os sete dias do evento. Na assembleia geral, realizada ontem ao ar livre, no fim da tarde, foram lidos documentos sobre um conjunto de 22 questões pontuais, variando da preservação da Amazônia aos problemas enfrentados por migrantes ao redor do mundo, a demarcação de terras indígenas, a questão palestina e outros.

Apesar da ausência de um documento global, os comentários dos organizadores e participantes ao final do evento tinham quase sempre dois pontos comuns. O primeiro é a ideia de que o fórum aponta na direção certa com seu lema "um outro mundo é possível". Ideia que a crise econômica mundial serviu para fortalecer. O segundo ponto é que o fórum precisa ampliar seu raio de ação, atraindo mais entidades da Ásia, Leste Europeu, África e de outras regiões do mundo. Neste ano, das 5.808 entidades participantes, 4.193 eram da América do Sul.

"Davos acabou. Nós somos o futuro", comentou Candido Grzybowski, do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial e diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), referindo-se à cidade suíça que abriga anualmente um fórum com a elite do pensamento capitalista.

"A crise global é a demonstração científica de que o sistema em vigor, o sistema de Davos, não é sustentável", ecoou a italiana Rafaella Bolini, outra integrante do conselho internacional e dirigente de uma ONG que atua na área de cultura.

Por toda parte ouviam-se expressões desse tipo. A francesa Jeanne Singer, pesquisadora da área da saúde e militante marxista, de 82 anos, disse: "Ou mudamos o rumo do mundo, ou vamos direto para barbárie".

Não é fácil entender o encontro, que neste ano reuniu 115 mil pessoas, a maioria delas jovem.

Nos debates sobre a crise econômica, a maior parte dos especialistas convidados, de diferentes áreas do conhecimento, apresentaram o pior dos cenários - algo parecido a um apocalipse, que estaria no seu início. Mas, por outro lado, não se consegue extrair do fórum nenhum documento que aponte um caminho a seguir contra a crise.

Segundo os seus idealizadores, essa é a tradição do evento: estimular o debate e o encontro, sem definir caminhos.

Não se deve pensar, porém, que ele seja inócuo em termos de ação. Oded Grajew, diretor do Instituto Ethos e um dos criadores do fórum, observou que ele tem permitido articulações cada vez maiores e mais eficientes de associações da sociedade civil e movimentos sociais aos redor do mundo. Elas podem definir ações e documentos globais, à parte do evento.

No próximo ano o fórum será descentralizado, com vários encontros ao redor do mundo. Em 2011, porém, ele volta a concentrar todas as entidades e regiões num só local - que poderá ser definido amanhã, durante o encontro do conselho internacional, em Belém. A África do Sul está interessada em ser a sede do evento. Mas alguns conselheiros defendem a transferência para a Ásia. Existe a possibilidade de realizá-lo no México, em alguma área da fronteira com os Estados Unidos.

Os organizadores não sabem ao certo qual foi o custo do fórum, nem qual foi a participação das entidades - que pagam pelas inscrições. Sabe-se que cerca de R$ 850 milhões vieram de quatro estatais (Caixa Econômica, Banco do Brasil e Eletronorte). Os governos federal e estadual, por sua vez, fizeram investimentos de R$ 338 milhões - nas áreas de saúde, segurança e infraestrutura, para que a capital paraense pudesse abrigar o evento.

Os esqueletos do governo Lula

Carlos Alberto Sardenberg
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Lendo o relatório do Tesouro sobre as contas do governo federal em 2008, divulgado na semana passada, fica-se com a impressão de que a administração acelerou de maneira notável os investimentos. Diz lá que as despesas de custeio tiveram aumento de 7,2% sobre 2007, enquanto o dispêndio com capital subiu nada menos que 27,9%. Bom, não é mesmo?

Mas olhe para outros números: as despesas totais com custeio, em 2008, alcançaram R$ 136 bilhões, isso incluindo alguns programas sociais, como o pagamento de seguro-desemprego e de auxílio aos idosos. Sem isso, o custeio - funcionamento da máquina - ficou em R$ 92,7 bilhões.

E os investimentos? Apenas R$ 28,2 bilhões. Isso foi o equivalente a 1% do produto interno bruto (PIB). Comparando com 2007, o grande esforço do governo em turbinar os investimentos, com PAC e tudo, resultou num aumento de 0,2% do PIB. Já as despesas de custeio equivaleram a 4,68% do PIB - o que mostra um quadro bem diferente.

E para completar: em 2008, o governo federal gastou com Previdência o total de R$ 199,5 bilhões (6,9% do PIB) e com pessoal, R$ 130,8 bilhões (4,5%).

Eis por que o governo não pode fazer neste momento a chamada política contracíclica, ou seja, disparar investimentos em obras, para aumentar a demanda e assim combater a desaceleração da economia. Não pode porque fez a política pró-cíclica durante a bonança: aumentou as despesas quando a arrecadação subiu espetacularmente em consequência do aquecimento econômico. E, como mostram os números, os gastos continuam concentrados em tudo o que não é investimento.

Acrescente-se que o governo pretendia gastar em investimentos o dobro do que efetivamente aplicou. Como em anos anteriores, não conseguiu.

Não é fácil tocar uma obra. Projeto, licenciamentos, licitações, instalação de canteiros, tudo isso requer competência, sobretudo com a kafkiana legislação brasileira.

Quer ver um resultado? Na sexta-feira, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, prometia apertar as empreiteiras envolvidas nas obras da transposição do Rio São Francisco.

Disse que não toleraria mais atrasos e tal. Reagia à desistência de algumas construtoras. E olha que essa obra era "a realização" do governo Lula.

Além disso, não basta investir. É preciso ter bons projetos que movimentem a economia enquanto são implementados e, quando prontos, representem ganhos de produtividade. Por exemplo, uma ferrovia que diminua o tempo e os custos de levar soja ao porto.

Na década de 1990, o governo japonês gastou rios de dinheiro em obras, também no esforço para tirar o país da recessão. Deu em nada. Com a influência dos políticos na escolha dos projetos, tudo resultou em pontes que iam do nada para nenhum lugar.

Nos EUA, a equipe econômica de Barack Obama, que se prepara para gastar uns 5% do PIB em obras, comentava outro dia que o maior problema estava sendo encontrar bons projetos.

E os bancos públicos? - O governo Lula está empenhado também em outra frente para estimular a economia. Pressionou os bancos públicos para que reduzam os juros e emprestem mais a pessoas e empresas, de modo a combater a crise do crédito.

A propósito, convém lembrar desta história: em meados de 1999, o governo Bill Clinton pressionou as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac para que flexibilizassem as regras de concessão de empréstimos e reduzissem juros. O objetivo: estender os financiamentos da casa própria às famílias de baixa renda, então classificadas no grupo subprime.

Eis como começou a crise do setor imobiliário, que só iria aparecer em 2007, de sua vez dando
origem à derrocada de todo o sistema financeiro.

As famílias mais pobres, majoritariamente formadas por negros e hispânicos, só conseguiam financiamento se pagassem taxas de juros de 3 a 4 pontos porcentuais acima das cobradas em negócios convencionais. Negócio muito arriscado, era evitado por todas as partes. Assim, essas famílias ficavam de fora do boom imobiliário dos anos 90.

Por isso o governo Clinton apertou as duas grandes agências hipotecárias, para ampliar a oferta de financiamentos aos mais pobres.

Podia fazer isso? Podia, as agências eram semiestatais - privadas, mas com seus títulos tendo garantia do governo.

As agências cumpriram o programa, cujo objetivo era fazer com que metade de seu portfolio fosse formado pelos financiamentos a famílias de média e baixa rendas. Funcionou. Milhões de casas de até US$ 250 mil foram financiadas. O programa foi considerado um êxito notável. Até que, a partir de 2007, as duas agências simplesmente quebraram, com uma carteira lotada de hipotecas podres. Eis o caso: o enorme desastre de um sistema financeiro desregulado - que empacotou, securitizou, financiou e refinanciou as hipotecas subprime - teve origem remota numa decisão política do governo. Bem-intencionada, claro, mas obviamente mal implementada.

Atenção, portanto, ao governo Lula, que está preparando um amplo programa para financiar 1 milhão de casas para famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos.

Os especialistas mostram que as famílias de baixa renda não têm condições de pagar, de modo que precisam de subsídios. Se o governo der o subsídio diretamente ao mutuário, pode ser. Mas se resolver, por exemplo, mandar a Caixa Econômica Federal (CEF) e o Banco do Brasil (BB) concederem empréstimos com critérios mais frouxos, já sabemos aonde vai dar.

O governo já está pressionando os seus bancos para que concedam mais empréstimos, o que pode levá-los a tomar risco elevado, futuros esqueletos. Já aconteceu. No governo FHC, BB e CEF receberam bilhões de reais para não quebrarem.

Políticos adoram fazer isso. Concedem o empréstimos hoje e o banco quebra lá na frente, no outro governo.

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Crise, inércia e cutucadas

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO

A aprovação inicial na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos do plano de estímulo econômico de Barack Obama foi nitidamente partidária, apesar de alguns votos contrários de Democratas. Seja o que for que venha a ocorrer no Senado, a avaliação dos méritos do plano está longe de ser consensual. Matérias de Eamon Javers e Jim Vandehei no site "Político", por exemplo ("The Case for Doing Nothing" e "Go Big or Go Home"), ressaltam o forte contraste entre os que se opõem pura e simplesmente a que haja intervenção governamental na crise e os que acham, bem ao contrário, que serão necessários muito mais recursos dos contribuintes para superá-la. Não obstante as acusações de Paul Krugman sobre uma "economia de má-fé", a turma dos "Fazer Nada", como a denominam Javers e Vandehei, invoca tanto razões "técnicas" (riscos supostamente altos de que o estímulo seja mal sucedido, como nos US$ 168 bilhões injetados na economia por Bush já em fevereiro do ano passado) quanto razões culturais e morais, incluindo a ideia de que uma recessão penosa seria bem-vinda para afastar o país da cultura corrente de irresponsabilidade e endividamento. Sem falar, a propósito de perspectivas divergentes sobre a crise em geral e questões correlatas, da ilustração trazida pelas reuniões simultâneas do Fórum Social Mundial em Belém do Pará e do Fórum Econômico Mundial de Davos, o primeiro algo triunfante e o segundo marcado pelo tom pessimista e penitente.

Naturalmente, a crise e a resposta a lhe ser dada recolocam acima de tudo a questão das relações entre mercado e Estado. Apesar dos muitos equívocos, a defesa que cabe fazer do mercado em termos valorativos tem fundamentos claros: se a autonomia dos cidadãos é um valor democrático incontestável, não haverá como garanti-la se começarmos por negá-la na decisiva esfera econômica. Isso não anula, do ponto de vista dos valores, o reconhecimento da necessidade de que o Estado venha a ser capaz de exercer um paternalismo benévolo. O Estado democrático não pode ser mero instrumento dos agentes ou interesses suficientemente poderosos para pressioná-lo em qualquer momento dado. Ele tem antes de compensar ou mitigar, em sua ação, os desequilíbrios de poder, em particular de poder econômico privado - o que resulta, de certa forma, em reafirmar o próprio princípio do mercado, contra oligopólios e monopólios.

Há várias complicações. Em primeiro lugar, a atuação dispersa dos agentes do mercado produz, no nível agregado, mecanismos objetivos de causação social que frequentemente se chocam com os desígnios dos agentes e comprometem, portanto, sua autonomia - mesmo na suposição de que cada agente seja individualmente "racional" na busca do interesse próprio (a "mão invisível" nem sempre é benigna). Além disso, porém, não cabe supor que os agentes de fato ajam racionalmente. As muitas constatações nesse sentido da psicologia social e da chamada economia comportamental são o objeto de revisão recente por Richard Thaler e Cass Sunstein (no volume "Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness", 2008), cuja mensagem geral é a da frequência espantosa, na ótica dos postulados da ciência econômica convencional, com que gente real se deixa levar por fragilidades e limitações que se revelam sobretudo justamente como fruto da interação com os outros, quer se trate do contato pessoal com gente próxima, quer da interação impessoal com os atores dispersos do mercado: a tendência a aderir, mesmo contra a evidência dos sentidos, à opinião supostamente dominante; a tendência ao comportamento de manada, a fazer o que "todo mundo" faz; a tendência à inércia, ou o viés em favor do status quo... E, vistas as coisas em termos de consumidores versus produtores, o fato importante de que, se os consumidores têm crenças pouco racionais, as empresas com frequência têm maiores incentivos para valer-se de tais crenças do que para tratar de erradicá-las.

O objetivo de Thaler e Sunstein é o de extrair dos fatos destacados a recomendação em favor de um "paternalismo libertário", em que as lideranças ou autoridades cuja posição lhes permita condicionar as escolhas (livres) dos demais se valham de estímulos ("nudges", algo como cutucadas) atentos àquelas limitações ou "irracionalidades". Do ponto de vista da crise atual, porém, o problema consiste em que a a indução suave que a perspectiva sugere pouco tem a ver com o supercutucão a que os governos em geral vêm tendo de recorrer. E fica, além disso, a questão de até que ponto as irracionalidades em questão não se mesclam com dificuldades no terreno propriamente moral que, por outro lado, podem redundar em comprometer a eficácia do cutucão: entregar dinheiro dos contribuintes a banqueiros para vê-los repartirem fartos bônus entre si?

Visão realista da dinâmica do capitalismo não tem como evitar, dada uma crise da natureza da atual, a ação governamental que socializa os prejuízos. Isso corresponde, afinal, à caracterização do Estado feita pelo próprio realismo marxista, em que aquele aparece como "capitalista ideal", a proteger o capitalismo dos capitalistas. A nuance crucial, porém, é que esse realismo não pode redundar em que se compre o pacote inteiro do discurso liberal há pouco dominante e se aceite a ideia do Estado como "o problema, não a solução". Ao invés disso, é preciso reconhecer que, além da proteção das pessoas em geral contra as asperezas e assimetrias do capitalismo, a proteção do próprio capitalismo como tal exige ação do Estado, exercida seletivamente, contra os capitalistas. Vale dizer, exige regulação, fiscalização e responsabilização por decisões erradas ou imprudentes. Como, aliás, Míriam Leitão andou lembrando por esses dias ter ocorrido no caso do nosso Proer, diferentemente do que, por enquanto, vemos agora nos EUA, à exceção de fraudes escandalosas ao estilo de Bernard Madoff.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

O pequeno herói

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Estou hoje convencido de que há um pequeno e admirável herói na política mundial: o presidente Evo Morales

EXCEÇÃO feita das histórias juvenis, os heróis são raros. Em um mundo materialista no qual o neoliberalismo ensina que a única motivação humana é o autointeresse, ninguém está disposto a reconhecer os heróis -os homens e as mulheres que têm a coragem de agir de acordo com seus ideais humanos e cívicos arriscando sua vida para enfrentar a violência das forças naturais e principalmente a ganância dos poderosos. Quando os reconhecemos, isso decorre de uma ação isolada -de alguém que, em certo momento, salva uma criança da morte ou, como o piloto americano, amerissa com sucesso no rio Hudson e salva 150 passageiros.

Neste mundo desencantado em que vivemos, porém, a última coisa que nos dispomos a reconhecer é um político herói. Podemos até admitir que determinado político seja um estadista, mas um herói... Nosso modelo de herói é o de Davi enfrentando Golias, e é difícil pensar em um político -alguém dotado de poder- como um Davi.

Não obstante, eu estou hoje convencido de que há um pequeno e admirável herói na política mundial: o presidente da Bolívia, Evo Morales. Não estou seguro de que ele terá êxito em sua missão -a de criar uma democracia social na Bolívia- porque é muito difícil governar democraticamente países pobres e, ainda por cima, divididos em termos étnicos -e aquele país sofre dos dois males. Em países pré-industriais, como a Bolívia, a apropriação do excedente econômico não se realiza principalmente no mercado, mas por meio do controle direto do Estado, de forma que as oligarquias locais estão sempre dispostas a derrubar governantes que não se amoldem a elas. Para eles, a solução mais simples é aderir aos poderosos locais -aos proprietários de terras "brancos" de Santa Cruz e Beni- e aos países poderosos ao seu redor: o Brasil e os Estados Unidos. Com algumas exceções, foi isso o que os presidentes bolivianos fizeram no passado, esquecendo-se dos índios e dos pobres, que são a grande maioria. Assim, não promoveram nem o desenvolvimento econômico nem a diminuição da desigualdade, e vários nem sequer conseguiram evitar que fossem derrubados.

Morales não se deixa atemorizar.

É o primeiro presidente índio eleito na Bolívia e tem mostrado coragem para ser fiel ao seu mandato. Em seguida à sua eleição chegou a ser ameaçado pelas elites dos Departamentos mais ricos e menos povoados por índios, porque desejava definir uma nova Constituição para seu país. Em certo momento, avançou o sinal e tentou aprová-la com maioria simples -o que deu argumentos à oposição conservadora.

Para resolver o impasse, buscou negociar e aceitou arriscar a revogação de seu mandato presidencial em um referendo. Ganhou-o com 67% dos votos -o que não impediu que os governadores dos Departamentos mais ricos continuassem seu movimento separatista. Agora, a nova Constituição foi referendada por quase 60% dos eleitores, mas as elites locais já exigem sua revisão.

Morales teve também a coragem de nacionalizar a exploração e o refino de petróleo -o que causou a ira de nossas elites, que, de repente, tornaram-se nacionalistas. Felizmente, o presidente Lula as ignorou. Mas o nosso pequeno Galahad enfrentará ainda muitos obstáculos. O graal não existe a não ser para os heróis.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Alguma coisa está errada

Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


O Brasil não discutiu o terrorismo com a intensidade da Itália. Nossa Lei de Anistia, fruto de uma transição negociada entre líderes políticos e generais, é um manto de silêncio sobre esse assunto

O ministro da Justiça, Tarso Genro, não convence ao defender a concessão de refúgio político ao italiano Cesare Battisti, ex-militante do PAC, Proletariados Armados para o Comunismo, uma antiga organização terrorista, condenado à prisão perpétua pela Justiça italiana por autoria de quatro homicídios. O ministro argumenta que Battisti não teve direito de defesa e sofre perseguição política na Itália. A decisão provocou forte reação dos meios de comunicação e dos partidos políticos, do Congresso e do governo Berlusconi. O presidente da Itália, o ex-comunista Giorgio Napolitano, escreveu uma carta para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual pediu a reconsideração do ato. O presidente Lula, porém, manteve a decisão. Agora, cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF) revê-la ou não. Uma pergunta fica no ar: vale a pena o comprar essa briga por Battisti?

O crime

Oriundis como a juíza Denise Frossard e o jornalista Mino Carta, com dupla nacionalidade, baixam o sarrafo na decisão. Battisti foi um jovem delinquente convertido à esquerda radical no decorrer dos anos 70, marcados na Itália pelo surgimento das Brigadas Vermelhas e outras organizações terroristas. Magistrados, políticos, sindicalistas e jornalistas foram assassinados, inclusive o presidente da Democracia Cristã, Aldo Moro. Em plena Guerra Fria, Moro negociava um governo de coalizão com o então secretário-geral do PCI, Enrico Berlinguer, o chamado “compromisso histórico”. O crime provocou comoção na Itália.

Battisti foi condenado à prisão perpétua porque teria matado um carcereiro, um joalheiro, um açougueiro e um agente policial. Preso, foi espetacularmente resgatado por seus companheiros. Exilou-se na França, de onde fugiu para o Brasil, quando as autoridades francesas resolveram extraditá-lo. Hoje, escreve histórias policiais e diz que nunca foi terrorista e não matou ninguém, considera-se um perseguido político. É difícil acreditar mais em Battisti do que nas autoridades italianas. Por que a decisão monocrática de nosso ministro da Justiça seria mais justa do que o processo penal nos tribunais da Itália? Quanto mais o presidente Lula tenta justificar a concessão de asilo político como um ato de soberania, mais as autoridades italianas se sentem afrontadas.

O castigo

A Itália é um país democrático. Battisti foi condenado durante o governo do socialista Sandro Pertini, veterano da resistência italiana ao fascismo. Um episódio ocorrido em 1943 por si só lhe garantiria um lugar na História: Benito Mussolini tenta voltar ao poder pelo norte da Itália e acaba encurralado. Começa a negociar a própria fuga numa reunião no Arcebispado de Milão, na qual propõe um acordo. No meio da conversa, sem ser convidado, entra um homem pequeno e valente: “Nada disso! Vai ter que prestar contas ao povo!”. Era Pertini. Mussolini fugiu, mas acabou apanhado e fuzilado pelos “partiggianis”.

O Brasil não discutiu o terrorismo com a intensidade da Itália. Nossa Lei de Anistia, fruto de uma transição negociada entre líderes políticos e generais, é um manto de silêncio sobre esse assunto. Durante a ditadura, além da brutal repressão de Estado, houve ações terroristas da esquerda militarista e dos militares linha-dura. Na Itália, porém, o terrorismo ocorreu em pleno regime democrático e provocou intenso debate político, no qual se destacou o jurista Norberto Bobbio, que escreveu vários artigos no jornal La Stampa. Alguns deles estão publicados no livro As ideologias e o poder em crise (Editora UnB, 1988). Vale conferir os argumentos de mestre, que trata da relação entre os fins e os meios, a moral e a política naquele momento dramático que ensanguentava a Itália.

A democracia derrotou o terrorismo. Milhares de brigadistas depuseram as armas e fizeram autocrítica. Muitos foram presos e condenados. Cumpriram pena para voltar à vida normal. “A política não pode absolver o crime”, bradou Bobbio, em 1979, ao se opor à anistia para os presos políticos. “O terrorismo italiano é ignominioso porque mantém uma ação sanguinária diante de um regime democrático, fraco e instável, com defeitos, que consente e exige manifestações de luta política não-cruenta”. Segundo ele, a “insânia terrorista” estava no fato de que a escalada da violência só teria sucesso como “regime de terror geral, que seria o fim da liberdade de todos”. Este o busílis: a concessão de refúgio político a Battisti funciona como uma espécie de anistia à brasileira, a mesma “anistia recíproca” que justifica o asilo concedido ao ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner e ao guerrilheiro colombiano Oliverio Medina. Porém, a situação na Itália era muito diferente do que aconteceu no Brasil, no Paraguai e na Colômbia.

Jogo de profissional

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

No Planalto e na planície, o PMDB monitora a evolução dos apoios, dúvidas, desistências, ameaças de traições e vigia a firmeza dos votos dados como certos para Michel Temer, na eleição de amanhã para a presidência da Câmara.

A central de checagem - digamos assim - funciona na sede da Fundação Ulysses Guimarães, no prédio do Congresso, com uma equipe de cinco pessoas, sob o comando do deputado Eliseu Padilha, que é responsável pela produção de cinco planilhas atualizadas duas vezes por dia a partir de informações coletadas nos partidos, entre deputados, lideranças e nos Estados, inclusive junto a adversários dos parlamentares/eleitores.

"Lá, na base, as posições se manifestam com mais confiabilidade do que em Brasília, onde o deputado pode fazer o jogo da simulação, da média com todos os candidatos, diz Padilha, do alto da experiência adquirida durante o governo Fernando Henrique, quando a "central" foi criada como uma espécie de órgão auxiliar do Palácio do Planalto no acompanhamento das votações no Legislativo.

No governo Lula assumiu uma feição diferente. Até por ser comandada pelo grupo que aderiu só no segundo mandato, trabalha voltada muito mais aos interesses do partido.

O principal, no momento, é a eleição do presidente do PMDB para presidente da Câmara. Padilha carrega os números numa pastinha de plástico transparente, separados em grupos de informações Estado a Estado, partido a partido, deputado a deputado, liderança a liderança.

Há também uma planilha dos dados colhidos com o governador de cada Estado, o assessor político do governo local e os partidos adversários e/ou aliados. Feita a coleta do dia, tudo é posto num programa de computador que cruza as informações e imprime tudo em quatro cores.

Os votos duvidosos são agrupados em outra listagem - a das "dúvidas" - e ao lado de cada nome é indicado, em código, o político encarregado de convencer o vacilante. "G" aparece várias vezes. É o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima.

Padilha abre a pastinha para "provar" que o método é científico. Mas não avança na "comprovação" ao ponto de exibir a principal informação: com quantos votos Michel Temer conta.

Aí, é preciso acreditar na palavra dele. Na sexta-feira de manhã, assegurava: "Nosso teto é de 422 votos e o piso de 340". Já foi de 308, há 13 dias. Nesse período, 70 deputados se definiram, nem todos em favor de Temer, mas, segundo Padilha, a maioria.

Mesmo depois da entrada de José Sarney em cena?

"Ficam dizendo que a situação piorou, mas é o oposto." De acordo com ele, porque, ao contrário do que se diz, os aliados de Sarney na Câmara trabalham em prol de Michel Temer.

A filha do senador, a também senadora Roseana Sarney, telefonou garantindo o apoio e, depois, a equipe da "central", correu atrás. "Checamos um por um e a informação conferiu."

De sexta-feira até a eleição, amanhã, haverá três novas atualizações das planilhas que podem ser científicas na forma, mas, como o conteúdo é baseado num fator chamado natureza humana, o resultado dirá se o empenho da palavra ainda é um traço do exercício da profissão ou se o vale-tudo vigente transformou a política em coisa de arrivista amador.

Retrato

Há quem considere perda de tempo a crônica política conferir atenção à eleição das presidências da Câmara e do Senado. Há quem considere isso fruto da autorreferência dos frequentadores da "ilha da fantasia", como se convencionou denominar Brasília.

Não é. Nesses momentos, a maneira como se movimentam suas excelências, os interesses em torno do qual fazem seus jogos individuais e partidários, os fatores postos à mesa traçam um perfil da conduta dos representantes que aos representados interessados nos meios e modos de funcionamento do País seria aconselhável examinar.

Gostamos muito de nos mostrar cosmopolitas, exibir conhecimento profundo a respeito do que se passa no mundo, na eleição americana, na guerra do Iraque, no conflito árabe-israelense, mas tendemos a qualificar as coisas da política brasileira como assunto de segunda linha, sem interesse para o dito "cidadão comum".

A compreensão do mundo é importantíssima. Mas quem não compreende o país onde vive dificilmente conseguirá compreender direito os outros.

Via das dúvidas

Para todos os efeitos, o PMDB da Câmara acredita nas declarações de dirigentes do PT de que não há hipótese de haver traição a Michel Temer, seja qual for o resultado na eleição do Senado.

Mas, por precaução, os deputados pemedebistas resolveram se antecipar e dar quórum à sessão da Câmara antes da hora marcada. A eleição no Senado terá início às 10h e a da Câmara ao meio-dia. Os deputados do PMDB vão antecipar o início da votação a fim de que as duas eleições ocorram simultaneamente.

Perdidos na crise

Fernando Henrique Cardoso
DEU EM O GLOBO

Os governos precisam atuar, mas com um olhar para o futuro

A crise financeira estourou nos Estados Unidos em agosto de 2007. Subitamente, o mundo tomou conhecimento de que havia um problema: hipotecas sobre a compra de imóveis dadas com garantias precárias. De início, os bancos americanos diziam não ter nada com o assunto. Logo depois, foram obrigados a reconhecer que os "veículos especiais" que eles criaram eram, sim, de sua responsabilidade. Reconheceram para o Banco Central americano, o FED, poder dar-lhes dinheiro para cobrir os buracos, posto que os financiadores de hipotecas, não sendo bancos, não teriam acesso ao socorro federal. O susto não serviu de lição. De degrau abaixo a degrau abaixo, desfez-se o castelo de cartas. Hoje todo mundo reconhece que o sistema financeiro estava muito "alavancado", quer dizer, emprestava com uma base de capital próprio muito pequena, com o dinheiro dos outros. Os depositantes, quando descobriram a ligação dos bancos com as hipotecas, correram para retirar depósitos de bancos com poucos fundos próprios. De novo veio o socorro do FED, dessa vez trilionário. O mundo que ainda não se acostumara ao "bilhão de dólares" teve que ver "trilhão" no horizonte, mas de dívidas...

Daí em diante, houve mil "soluções criativas" para sair da crise. A "laborista", de Gordon Brown, saudada por todos, foi a de dar dinheiro aos bancos, comprando ações, em vez de, como fez o Fed, absorver títulos podres e conceder empréstimos a juros baixos e com prazo de devolução infinito. Tesouro e bancos ingleses ficaram associados, e não se sabe até que ponto estes foram "nacionalizados". O governo americano continuou "inovando": deu créditos com dinheiro do contribuinte, não só aos bancos, mas às empresas, e considera a possibilidade de dar recursos diretamente aos cidadãos pendurados em hipotecas impagáveis. O próprio Fed concedeu empréstimos a outros bancos centrais e, mais espantoso ainda, absorveu títulos "tóxicos" de empresas não financeiras. Os demais países europeus garantiram depósitos, enquanto os do mundo em desenvolvimento puseram-se às pressas a distribuir dinheiro público aos magotes para resolver problemas financeiros ou para ajudar empresas que se enrolaram na crise especulando com o valor das moedas.

Enfim, a velha e boa "socialização das perdas". Essa foi a breve história financeira do ano 2008.

O pior é que, com catadupas de dinheiro público, a crise não cede. Ela deixou de ser "financeira" para ser "econômica": as empresas não investem, os bancos não emprestam, e, quando o fazem, é com muito cuidado. Os empresários olham em volta e têm medo de expandir seus negócios: mais do que crédito, faltam compradores solventes. Os mercados estão encolhendo e encolherão ainda mais porque, com ou sem socialização das perdas, houve perda substancial de riqueza ou, como Marx diria, está havendo queima de mais valia. A riqueza financeira virou pó, porque ela é pó quando falta a confiança. Pulvis est et in pulvis revertere, como acontece com o corpo quando a alma some dele. Nestas situações "o mercado", isto é os empresários e investidores, só acreditam no governo. Mais grave ainda, os governos acreditam que podem resolver a crise. Como? Dando dinheiro ao mercado e investindo. Só que para fazê-lo se endividam e não resolvem de imediato as aflições de todos porque o medo pauta o consumo, e a economia contemporânea fez o casamento entre mercados voláteis e consumidores ávidos, movidos a propaganda. Sem consumidores, não há salvação, e o principal consumidor para a saída da crise não são as pessoas, mas as empresas. Isto é, o investimento.

Como convém dispor de uma autoridade intelectual insuspeita justificando abrir o cofre, o pobre lord Keynes é usado como se fosse o pai da socialização das perdas e da gastança pública indiscriminada. E como também é sempre bom ter um culpado, a "globalização" é indigitada como responsável pelo que é inerente ao capitalismo, a especulação, e pela falta de controle em uma economia, a principal, a americana, por cujos desmandos, aí sim, pagaremos todos. Como o diagnóstico é precário, as barreiras protecionistas somadas à gastança pública seriam o antídoto aos malefícios da "globalização". E com isso, em vez de resolver-se a crise (a solução virá com dor e lágrimas, sobretudo dos desempregados, vítimas inocentes dos desmandos, pela continuada queima de mais valia até que, atingido o fundo do poço, a "alma" dos capitalistas tenha novo sopro de vida), espicha-se o sofrimento e se sonha com um mundo não globalizado, como se isso fosse possível com o desenvolvimento tecnológico e a inter-relação comunicativa existente.

Isso não quer dizer que não haja nada a fazer, que basta esperar que o próprio mercado purgue seus pecados. Os governos precisam, sim, atuar. Mas olhando para o futuro, ajudando o investimento produtivo, seja ele público ou privado. E não endividando o povo (que pouco sabe que pagará as custas...) para salvar quem é insalvável. Sem esquecer que a poupança pública (em nosso caso ela é negativa) é insuficiente para dinamizar um sistema que é capitalista e que a ajuda às custas de endividamento futuro resultará em mais aperto ou em inflação. Em qualquer caso haverá redução das chances de uma retomada saudável do crescimento econômico.

Por fim é bom dizer que a redução da riqueza global oferece a todos, inclusive e principalmente aos governos, a chance de repensar o futuro. Ou se aumentam as regulações financeiras globalmente (sem sufocar a capacidade de inovação, mãe do desenvolvimento) e se repensa o modelo cultural de consumismo desenfreado e de dilapidação da natureza, ou a retomada de amanhã pode ser ainda mais danosa do que foi a etapa que se está esgotando.

Múltiplas personalidades

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

PARIS - Há dois Lulas, ou muitos Lulas. O deste momento, de crise nos países ricos e de fórum de países pobres, é o Lula de esquerda, que se vira de costas para Davos e de frente para Belém.

Se fosse hora de crescimento mundial, Lula certamente estaria em Davos com os líderes dos países desenvolvidos, enaltecendo a estabilidade e o ajuste fiscal. Como não é, ficou no Brasil mesmo para se encontrar com Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e Fernando Lugo.

Ironizou "o deus mercado" e os ricos, mandando o FMI ensinar a Obama como gerir os EUA. E aproveitou para, apesar dos cortes no Orçamento, prometer mais um milhão de habitações e ampliação do Bolsa Família para os jovens. Ou seja: um olho na crise, outro na sua popularidade hoje e na campanha de Dilma Rousseff amanhã.

Esses dois Lulas, que se alternam entre o Fórum Econômico e o Fórum Social, dividem opiniões. Como ficou claro num encontro de jornalistas sobre América Latina na Espanha, semana passada.

Em almoços e jantares, brasileiros criticavam o "oportunismo" e o lado marqueteiro de Lula, sempre tirando vantagem de tudo -inclusive dos êxitos alheios. Nas reuniões plenárias e mesas redondas, espanhóis, argentinos, venezuelanos, equatorianos... elogiavam a liderança política e o sucesso administrativo do Brasil e de Lula.

De onde, afinal, vem a boa fama de Lula no mundo? De onde os jornalistas internacionais tiram tanta simpatia por ele? Principalmente da imprensa brasileira, que, por exemplo, como tinha de ser, registrou todo o seu falatório e toda a sua desenvoltura no Fórum de Belém.

Isso mostra como as notícias sobre Lula e seu governo têm imenso espaço e repercussão, soterrando as críticas. Tudo o que ele diz, faz, promete e anuncia tem destaque. O resto fica confinado aos espaços de análise e de opinião.

Está explicada, portanto, a azia de Lula com a imprensa: ele chora de barriga cheia, muito cheia.

Nem Davos nem Belém

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


Na melhor das hipóteses, a Montanha mágica, de Thomas Mann, e A selva, de Ferreira de Castro. Só a literatura salva – desde que se cultive o comezinho hábito de ler. Para os que preferem eventos e fóruns há um rol de brincadeiras para todos os gostos. Em Davos o jogo mais praticado foi o de prever o passado. Em Belém, o futuro virou camiseta.

Um outro mundo é possível, um outro mundo é urgente, urgentíssimo. Antes disso, porém, precisamos de uma humanidade mais humanizada. Menos simplista, menos icônica, menos dogmática e demagógica. O cabresto das palavras de ordem servia nos anos 30 e 40 do século passado quando se descobriu o poder da propaganda. Mais de meio século depois, nesta era da internet, com multidões teoricamente esclarecidas, deveria valer a força do debate, o confronto livre de ideias, a busca do entendimento. Colocar utopias em palanques, deteriora quimeras e aproxima o palanque do paredon.

A catástrofe financeira internacional não transbordou para a esfera política como seria desejável. O desastre produzido pela ganância desenfreada e institucionalizada não está produzindo os esperados movimentos para a reforma dos Estados a fim de torná-los mais competentes, justos e rigorosos. Os índices e cotações saem das bolsas diretamente para as ruas e praças. Recessão prevista, ainda não instalada, mas a orquestração já começou: Barack Obama tomou posse há onze dias e já é o responsável por impasses que o mundo acompanha desatento há anos.

Uma das figuras que apareceu em Belém, aparentemente só em efígie, foi a do militante Cesare Battisti, acusado pelo governo e a maioria dos italianos, de terrorismo e quatro homicídios políticos. O caso apaixona juristas, preocupa diplomatas, dá calafrios a empresários e mexe com a alma dos milhões de ítalo-brasileiros fiéis ao clamor de justiça que chega da terra dos antepassados.

O pedido de extradição de Battisti pelo governo italiano está agora no STF e será julgado em plenário. Uma coisa é certa: não será uma decisão política, nem "aparelhada" como foi a do ministro da Justiça, Tarso Genro ou daqueles que o estimularam a cometer a insânia.

O documento oriundo do Comitê Nacional de Refugiados (Conare), divulgado nessa sexta-feira última pela Folha de S.Paulo é perturbador. Desvenda os bastidores de um processo decisório voluntarista, viciado, irresponsável.

Em primeiro lugar porque o documento deveria ter sido liberado imediatamente após a decisão ministerial. O seu caráter sigiloso esgota-se no momento em que o parecer foi anunciado. Se o órgão técnico votou contra a concessão do status de refugiado e o ministro ignorou a sua argumentação – fato público e notório – é indispensável que à opinião pública sejam oferecidos todos os dados da equação.

O STF vai decidir se os crimes cometidos por Cesare Battisti são políticos mas a sociedade brasileira deve ao menos avaliar se o comportamento do ministro Tarso Genro foi compatível com os princípios republicanos que tanto defende. Não fosse a imprensa, o conflito entre o Conare e o ministro das Justiça ficaria sepultado nos arquivos. O simples anúncio de que seria divulgado levou o STF a requerer imediatamente uma cópia para ser juntada ao processo.

É imperioso informar o cidadão brasileiro que os três conselheiros que negaram a concessão de status de refugiado a Cesare Battisti não são representantes de lóbis neoliberais. São os técnicos do governo mais habilitados a pronunciar-se: os representantes do Itamaraty, da Polícia Federal (subordinada ao Ministério da Justiça) e do próprio Ministério da Justiça na pessoa do seu secretário-executivo. Antes de extraditar ou abrigar Cesare Battisti conviria saber o que fará o governo com um ministério visivelmente rachado e desacreditado.

Isto não interessa aos descuidados participantes dos almoços em Davos, muito menos aos entusiasmados sonhadores de Belém, no Pará.

» Alberto Dines é jornalista

Cara metade

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


O Fórum Social foi este ano para a Amazônia, para protestar contra o desmatamento. No meio ambiente do Fórum, o MST brilha, como sempre, com poderes até de vetar a presença do presidente Lula na sua mesa de presidentes bolivarianos. O detalhe esquecido pelos animados militantes do "outro-mundo-é-possível" é que 30% do desmatamento da Amazônia ocorrem nos assentamentos.

Nisso, os dois fóruns são iguais. Quando falam da preocupação com a questão ambiental e climática é conversa fiada. No ano passado, quando o Fórum de Davos ainda acreditava nas lendas urbanas do pouso suave das economias ricas e do descolamento das emergentes, eles concluíram que a principal ameaça que pesava sobre o planeta era o aquecimento global. Este ano, o assunto esfriou bruscamente. Hoje, o que esquenta os debates é o medo da destruição do meio ambiente econômico, no qual eles embolsaram seus extraordinários ganhos de capital.

Mudança climática é só pretexto para os discursos no eixo Davos-Belém. O presidente Lula, na véspera de embarcar para Belém, para fazer campanha pela sua candidata a presidente, a ministra Dilma Rousseff, passou a motosserra no orçamento do Ministério do Meio Ambiente. O dinheiro cortado pagaria, por exemplo, o custeio das poucas embarcações que navegam pelos rios do interior da floresta ou das equipes que reprimem o crime ambiental numa área que perde, nos bons anos, "apenas" 11 mil quilômetros quadrados de cobertura florestal.

A candidata, que em Belém foi embalada ao som do jingle reciclado das campanhas de Lula, é a mesma que atropelou reivindicações ambientais, engavetou criação de unidades de conservação, aprovou o plano de energia que construirá 67 termelétricas nos próximos dez anos, para poluir a matriz energética, tem em sua mesa planos ameaçadores para a floresta. Mesmo assim, ambos foram celebrados como combatentes do "outro mundo".

No convescote dos ricos, na Montanha Mágica, os ilusionistas de sempre dão recados fortes imersos em contradições. O presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao engrossaram a voz contra os erros cometidos pelos países ricos que colocaram o mundo em risco. Os dois têm algo em comum: seus países foram extremamente beneficiados pelo fluxo exuberante e irracional de capital que fluiu dos países ricos para os emergentes.

As empresas russas se capitalizaram e se alavancaram pelo preço estratosférico do petróleo e pela valorização das ações nas bolsas. Os novos milionários russos são a força na qual se assenta o poder granítico do novo czar russo. A China foi o país que mais recebeu investimento estrangeiro, virou a queridinha do mercado que abonou todos os crimes cometidos pelo regime contra qualquer voz discordante, porque, afinal, ele era o financiador da gastança bélica do ex-presidente George Bush. Putin e Jiabao são beneficiários da irresponsabilidade do mercado financeiro que, agora, eles condenam.

Os grandes gurus financeiros e os notórios economistas de Davos estão se esmerando, este ano, na arte de prever o passado. Se dois anos atrás ridicularizaram quem falava de recessão global, hoje concluem, com ar de sábia descoberta, que o mundo está em recessão global. O que todos querem é que os governos salvem o sistema financeiro do derretimento final com novas e mais polpudas injeções de dinheiro dos contribuintes.

Em Belém, o presidente Lula posa no grupo dos presidentes palanqueiros com discurso contra a irresponsabilidade dos ricos, apesar de seu governo ter sido outro a se beneficiar do espetáculo do crescimento dos preços das commodities, do valor das ações e da moeda nos últimos quatro anos. Sobre mudança climática, que supostamente era o tema desse encontro, nada a dizer, porque, a esta altura, já se esqueceram todos que o pretexto para o proselitismo deste ano é a proteção à floresta que, no governo Lula, desaparece a um ritmo de mais de uma cidade do Rio de Janeiro por mês. Ao todo, 110 mil quilômetros quadrados em seis anos. Nada disso foi cobrado de Lula. Muito menos ter um ministro da Agricultura que luta contra o código que tenta proteger a floresta ou delegar a Amazônia a outro ministro que não o do Meio Ambiente.

Os organizadores são tão familiarizados com o tema do aquecimento global, suas causas e consequências, que gastam munição com o incorpóreo neoliberalismo e saúdam a figura onipresente do presidente dos combustíveis fósseis, Hugo Chávez. Lula enverga o mesmo discurso contra inexatos inimigos externos, cercados de presidentes que acham que o Brasil é o adversário contra o qual lutar. Evo Morales é aquele que invadiu com tropas instalações da Petrobras. Rafael Correa é aquele que expulsou uma empresa brasileira e entrou na Justiça internacional para não pagar um empréstimo do BNDES. E Fernando Lugo é aquele que acha que o Paraguai está sendo explorado pelo Brasil em Itaipu e lá mesmo fez um discurso aos militantes do "outro mundo" para mudar o acordo em vigor. Na prática, a mudança do acordo significa aumentar a conta de luz paga pelos brasileiros.

A dicotomia entre os dois fóruns nunca foi tão patética quanto neste ano. Eles não são diferentes, são igualmente equivocados. Usam a questão climática para enfeitar seu discurso quando lhes convém. Não levam a sério os riscos reais que o planeta corre, imersos nos seus objetivos imediatos, financeiros ou políticos. São cada um a cara metade do outro.

Mudança de modelo

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


DAVOS. O que está fundamentalmente em discussão aqui nesta edição do Fórum Econômico Mundial é o modelo de capitalismo incentivado pelos Estados Unidos nos últimos anos, e não o capitalismo em si. Um modelo definido como "insustentável", por exemplo, por duas vozes de peso entre os chineses. O primeiro-ministro Wen Jiabao criticou o modelo baseado em "baixa poupança e alto consumo", e o vice-presidente do Banco da China, Zhu Min, disse que, apesar de continuar acreditando na globalização, "o modelo americano foi muito longe" e o mundo vai ser obrigado agora a conviver com "uma América frugal".

Essa mudança de padrão de vida nos Estados Unidos, que deverá prevalecer pelos próximos 10 ou 20 anos, pelo menos, é uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma ameaça, pois o padrão de consumo americano deve se retrair em, no mínimo, 10%, com uma perda de cerca de US$1 trilhão que não tem como ser reposta.

Em uma das mesas que discutiram o futuro da economia mundial sem o padrão de consumo americano, Ken Rosen, professor emérito da Universidade da Califórnia, em Berkeley, resumiu a situação em uma frase: "Nós gastamos um dinheiro que não tínhamos em coisas das quais não precisamos".

E disse que estava na hora de mudar o paradigma: "O modelo dos Estados Unidos está errado. Se o mundo todo utilizasse o mesmo modelo, nós não existiríamos mais".

O consenso de que o modelo baseado no consumo dos Estados Unidos terá que ser alterado foi registrado em diversos debates, e há também um consenso sobre a necessidade de haver um grande gasto governamental em obras de infraestrutura, para substituir esses gastos.

Ganhou abrangência durante os dias da reunião do Fórum Econômico Mundial a ideia de que será preciso um esforço coordenado entre os governos para que os países emergentes - que estão sendo atingidos por essa crise internacional de maneira indireta, mas muito fortemente, pelo aumento da rejeição ao risco e consequente falta de financiamento internacional - possam ser ajudados.

Depois do megainvestidor George Soros ter sugerido um "fundo dos fundos" formado pelos fundos soberanos de alguns países e coordenado pelo FMI, foi a vez do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, falar sobre a necessidade de os países desenvolvidos ajudarem a dar liquidez aos emergentes.

Ao mesmo tempo em que um painel de especialistas não conseguiu encontrar uma moeda que nas próximas décadas substitua o dólar como referência internacional, em vários momentos aqui em Davos, inclusive nesse debate sobre o dólar, surgiu a possibilidade de o mercado asiático se unir mais a partir dessa crise, abrindo a possibilidade do surgimento de uma moeda forte naquela região: o yen japonês ou o renminbi chinês.

A presente crise abre perspectivas de negócios intra-asiáticos, à medida que companhias regionais possam usar suas vantagens competitivas para atuar nos países vizinhos. O Japão, por exemplo, com uma base bem desenvolvida de tecnologia e vasto capital, poderia ser um parceiro importante nos projetos de obras de infraestrutura que estão sendo desenvolvidos na Índia e na China.

Yasuo Hayashi, presidente da Organização de Comércio Exterior do Japão, considera que, embora seja uma integração que demanda tempo, já há avanços importantes em negociações de acordos econômicos de China, Índia e Japão, os "três grandes" da Ásia, com a Associação das Nações do Sudeste Asiático.

Todos esses movimentos sugerem uma necessidade de haver uma solidariedade internacional, sem a qual será difícil sair da crise. Stephen Roach, presidente do Morgan Stanley para a Ásia, lembrando que foi uma surpresa para o mundo financeiro a maneira com que a crise atingiu tão fortemente das três grandes economias da região, advertiu:

"Com o aumento do fluxo de capitais, informação e trabalho, o mundo é muito mais interligado do que antes, e nenhuma região está mais ligada na rede internacional de comércio do que a Ásia, dependente de exportação".

Essa interligação entre as economias internacionais foi o que fez o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton ressaltar que seu país depende da China para superar a crise, mas que a China também precisa de uma economia forte nos Estados Unidos para poder exportar seus produtos.

Por isso, a decisão de incluir uma cláusula protecionista no programa de recuperação econômica da nova administração Barack Obama caiu como uma bomba entre os participantes do Fórum.

O perigo de que uma onda protecionista tome conta do mundo já fora levantado no pronunciamento do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, que defendeu o estabelecimento de uma nova ordem econômica "mais justa, igualitária, saudável e estável". E também por um assessor do governo russo, que disse que o fato de os Estados Unidos estarem aumentando seu déficit na certeza de que outros países, como o Japão e a China, comprarão seu bônus do Tesouro, representaria, em última instância, "uma espécie de protecionismo".

Contra o protecionismo, os países emergentes, encabeçados por Brasil e Índia, estão defendendo a retomada da rodada de Doha, para a ampliação do comércio internacional como maneira de superar a crise econômica.

A Índia e a China, que foram os grandes causadores do insucesso da última negociação, estão dispostos, dentro do bloco asiático, a negociar concessões e aberturas na área agrícola e de serviços. O que impediu a negociação foi a proteção à agricultura familiar na Índia e na China, contra o agronegócio, que, naquela ocasião, unira o Brasil aos Estados Unidos e à União Europeia.

Não é tsunami, há culpados

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


DAVOS - Tudo bem que usar a palavra "tsunami" para descrever a crise econômica pode ser uma maneira eventualmente útil de reforçar o verbo nestes tempos de tanta cacofonia que é preciso gritar para ser ouvido.

Mas carrega o risco de dar a entender que a crise, como o tsunami, é um fenômeno natural pelo qual ninguém é culpado, a não ser a natureza ou Deus, de acordo com a crença de cada qual.

Não é assim. A crise tem culpados que deveriam estar sendo ansiosamente procurados, o que não ocorre. Como tampouco ocorre o mais leve sinal de mea culpa de parte dos responsáveis.

É possível que, nesta altura do jogo, seja mais importante retirar a bala do peito da vítima do que procurar quem disparou. Ok. Mas deixar de fazê-lo cria dois riscos: o de que o atirador continue disparando enquanto a vítima sangra e/ou o de que volte a fazê-lo tão logo seja domada a crise.

Do meu ponto de vista, a crise é produto da deificação do mercado, como onipotente, onisciente e, portanto, infalível. Como disse na posse o presidente Barack Obama, que não pode ser acusado de antimercado, o livre mercado é ótimo para criar riquezas, mas precisa de um "olho vigilante" para evitar seus abusos.

Nas condições atuais de temperatura e pressão, esse olho vigilante tem necessariamente que ser global, o que não é uma fenomenal descoberta minha, mas uma pregação reiterada de parte de líderes como Gordon Brown e Angela Merkel, que tampouco podem ser acusados de comunistas.

Trata-se na essência de uma questão política, não econômica. E a pergunta seguinte inevitável é esta: dispõe o mundo de líderes suficientemente corajosos para pôr um olho vigilante no até agora onipotente mercado e suficientemente competentes para que o olho não seja vesgo ou míope?

A fictícia "idade de ouro" financista

Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Crescimento do PIB americano nos anos 2000 é o pior desde a década de 30; sucesso recente ocorreu na "heterodoxa" Ásia

O COLAPSO da ordem financeira mundial detonou duas ondas de propaganda. Publicistas vulgares da ordem reagiam aos críticos do desastre dizendo que "a globalização e o capitalismo haviam produzido os anos de maior prosperidade da história", tolice bem típica, aliás, dos bajuladores brasileiros do dinheiro grosso. Minoritário e sem poder, mas nem por isso menos tolo, o partido "crítico" apregoava que o "neoliberalismo" morrera.

Antes de mais nada, observe-se que os "anos de maior prosperidade da história" são uma ficção.

A contar de 1930, o crescimento médio dos EUA nos anos 2000 foi superior apenas ao dos anos da Grande Depressão (o per capita inclusive). O crescimento per capita europeu vem caindo a cada década desde os anos 60. O Japão teve seu grande período até 1970. Oriente Médio e América Latina viram dias melhores na década de 70 ou antes, embora o crescimento "desenvolvimentista" nos anos 50 e 60 seja bem exagerado: o PIB per capita não cresceu tanto.

A qualidade dos dados africanos é suspeita, mas parece ter havido períodos melhores também por lá. Nem se mencione o problema da distribuição dessa riqueza.

Os grandes casos de sucesso econômico recente são os da China, de parte do sul da Ásia e dos Tigres (Coreia, Taiwan, Cingapura e Hong Kong, que porém não crescem tão pouco desde a década de 50). Excetuando a China, os grandes anos do PIB mundial ainda são os 50 e os 60.

Mas mesmo essa série de PIBs diz pouco. Primeiro, por ser uma maçaroca de dados que dificilmente pode ser agregada sem mais nem menos. Segundo, boa parte do crescimento rápido do pós-Guerra ocorreu sobre terra arrasada. Terceiro, após períodos de enriquecimento rápido e de construção da economia nacional, os países tendem a crescer mais devagar. O que se quer dizer, enfim e apenas, é que associar o período de farra financeira a uma "idade de ouro" é propaganda vulgarésima.

Aquilo ao que se dá o nome hoje genericamente inútil de "capitalismo" são sociedades com economias de mercado tão diferentes como as de EUA, França, Suécia, Japão, Coreia, Rússia, China ou Brasil. "Neoliberalismo", por sua vez, é um fantasma ou vodu que dá forma ao ressentimento e à miséria intelectual da maior parte do que sobrou da esquerda. Mas as duas vulgaridades são próximas, pois propagandeiam generalidades fantasmagóricas.

Com boa vontade dir-se-ia que esses dois "partidos" na verdade se referem a um sistema mundial, ou algo assim, ancorado no poder e no modelo americanos. Mas a China, por exemplo, emergiu da demência maoísta apenas devido a esse "sistema mundial"(ou à adoção do "modelo")? Virando a pergunta ao avesso: a China poderia ter adotado a sua "via própria" sem em alguma medida se integrar ao mundo e sem adotar alguns princípios do "modelo"?

A ideia da "idade de ouro" é apenas ideologia barata: o mercadismo. Tem por objetivo atropelar ameaças de pensamento dissidente. Quer abafar a ideia de que as várias economias de sucesso trilharam caminhos muito diferentes; não fizeram a "lição de casa", esse clichê imbecil, ou seguiram a "experiência internacional", em geral médias estatísticas sem qualquer sentido prático.

O sentido das mudanças

Rubens Ricupero
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Obama devolveu ao centro de equilíbrio das opiniões o pêndulo do espectro ideológico que estava na extrema direita

MUDAR NÃO é tão difícil. Sobretudo quando se sucede um governo que radicalizou as posições de direita a ponto de ser repudiado pela opinião doméstica e internacional. O desafio de Obama é o oposto de Lula, que, ao tomar posse, precisava garantir a continuidade como condição da governabilidade.

No caso americano, o país emerge de fase aguda de extremismo desdobrado em três aberrações: na economia, o fundamentalismo de mercado; nas relações internacionais, a militarização da diplomacia e o unilateralismo agressivo e anti-islâmico; nos grandes temas atuais, o negativismo em relação ao aquecimento global, o uso da tortura no combate ao terrorismo, a entrega da agenda social e ética a uma direita evangélica estreita e intolerante.

A tarefa de mudar viu-se facilitada pelo colapso financeiro e pela ruína moral das outras políticas, acumulando escombros que qualquer governo novo seria obrigado a remover. Nem por isso é menor o mérito de Obama ao não perder tempo em ditar a agenda pública. Quase não se passa um dia sem a revogação de algumas das suas mais notórias aberrações.

É notável a precisão certeira com que vêm sendo dosadas as decisões, começando, como é justo, pelas de mais forte simbolismo e conteúdo de valores morais: o fechamento de Guantánamo, a suspensão dos tribunais militares, o repúdio à tortura, os critérios de bioética, o endosso a tetos de emissão para veículos, o telefonema ao presidente palestino, a primeira entrevista exclusiva concedida a um canal árabe.

A dez dias da posse, nada disso vai além do retorno a uma saudável normalidade, a um sólido equilíbrio e bom senso, após os desvarios recentes. Até as escolhas dos emissários diplomáticos -o ex-senador George Mitchell para o Oriente Médio, o veterano Richard Holbrooke para o Paquistão-Afeganistão- indicam preferência pela experiência e pelas realizações passadas.

O que Obama fez até agora foi devolver ao centro de equilíbrio das opiniões o pêndulo do espectro ideológico que havia sido deslocado para a extrema direita. Trata-se do realismo lúcido de quem se defronta com as dilacerantes incertezas de catástrofe econômica que não permite antever se, quando e como se voltará a tempos de crescimento e prosperidade.

É razão a mais para fazer o que se impõe mesmo em condições normais: exercer liderança consensual e compartilhada, saber escutar, entender que o poder deve ser assumido, como diz o discurso da posse, com humildade e automoderação. O discurso, aliás, evitou o triunfalismo fácil das frases grandiloquentes.

Preferiu a sobriedade de uma prosa que se esforçou em não deixar sem um aceno nenhuma categoria humana, dentro e fora dos EUA. Passou quase em silêncio o que os comentaristas mais destacaram -o inédito da eleição de um afro-americano- compreendendo, como diria o barão do Rio Branco, "que há vitórias que não se devem comemorar".

O centrismo modernizador, o progressismo social moderado de Obama constituem o máximo de radicalismo que se pode permitir um presidente cuja própria cor da pele é vista por alguns como um desafio radical.

É esta a chave das mudanças: transcender as minorias e divisões, unir a majoritária e modesta classe média americana na luta contra perigos que ameaçam a todos: depressão, desemprego, falta de seguro de saúde, hostilidade externa.

Rubens Ricupero, 71, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

Teatro ‘Gaza Grande’

Stepan Nercessian
Ator, Vereador (PPS) e Vice-Presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro


Max e Moisés formam uma dupla. Espetacular dupla. São dois elementos suspeitos que insistem em manter um negócio de alta periculosidade no Brasil. São donos de teatro.

Andando sempre na contramão do business, resolveram abrir as portas do seu estabelecimento para encontros quase clandestinos durante a ditadura, para que jornalistas, políticos, intelectuais e artistas clamassem por liberdade, justiça, direitos humanos e paz. Por lá transitavam comunistas, socialistas, democratas e até agentes da ditadura incendiando cenários, ameaçando trabalhadores e o público.

A luta insana da dupla deu resultados. Diretas já, eleições, caras pintadas e chegamos ao hoje que todos nós conhecemos. O que instiga é que, desde que os inimigos foram derrotados (será que foram?), o Casa Grande jamais obteve paz para funcionar. Muda governo, "fecha o Casa Grande". Sai Governo, "fecha o Casa Grande". Não tem governo, "fecha o Casa Grande". E assim tem sido. Pelo menos uma vez ao ano há um movimento mobilizando a classe para sair em defesa do Casa Grande. O que preocupa é que os históricos da democracia estão morrendo e a nova geração não sabe bem do que se trata o Casa Grande. O Casa Grande é a senzala da resistência cultural e política de nosso Brasil, em particular, do Rio de Janeiro. Nem a CUT, nem a CGT ou o MST abrigaram tantas assembléias sindicais como o Casa Grande. Creio que nenhuma casa teve tantos espetáculos proibidos pela censura quanto Casa Grande. Nem tanto sucesso de público como o Casa Grande. O Casa Grande, aliás, é vizinho do Scala, que já foi Bingo Scala, qualquer coisa Scala e que, ao contrário do Casa Grande, sofreu menos ameaças de fechamento do que o vizinho intelectual.

Façam seu jogo senhores. Agora, quando tudo parecia estar nos conformes, vem mais um ataque ao agora Centro Cultural Casa Grande. Querem comercializar os andares superiores do teatro para que ali não funcione nada ligado à cultura. Só que essa má idéia não vem de uma imobiliária ou de um síndico intolerante. Ela é do estado. Estado de direito. Presidentes, governadores, prefeitos e asseclas sabem muito bem o que significa o Teatro Casa Grande. Até porque, a maioria deles passou por ali nas campanhas eleitorais, participando de debates promovidos sabem por quem? Pelo Teatro Casa Grande.

Esta peça está com um enredo chato, repetitivo. Alguém aí, do poder, deveria ter logo a coragem de assumir o papel da Calabar. Calabar, o elogio da traição foi um dos proibidores do Casa Grande. Diga logo que essa dupla Max e Moisés perturba muito, que o Rio está com excesso de espaços culturais, que arte e cultura é o cacete e mande às favas nossa história. Pôxa vida. Toda hora tenho que assinar um manifesto contra a destruição daquilo ali. Toda hora tenho que ir ao Palácio Guanabara, da Justiça, centro espírita, sinagoga, igreja, sempre pra pedir que não destruam o Teatro Casa Grande. Isso cansa. E olha, essa turma que vai junto com o Max e o Moisés só não desiste de lutar até o fim porque a maioria foi criada ali, naquele espaço em que aprendíamos a aceitar quase tudo, menos desistir dos nossos ideais.

O contínuo choque de ordem

Alberto Carlos Almeida
Professor universitário e escritor
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Na primeira semana de janeiro, estava eu indo à praia em Ipanema quando vi uma fila de guinchos se dirigindo para a Avenida Vieira Souto. Naquele dia, esqueci dos guinchos. Quando abri os jornais do dia seguinte soube que eles faziam parte de medidas para colocar ordem na cidade. O famoso "choque de ordem" que acontece de tempos em tempos não somente no Rio de Janeiro, mas em várias cidades do Brasil.

É extremamente louvável que nossas prefeituras e prefeitos lancem mão de ações para colocar ordem na casa. Em São Paulo, de forma permanente e contínua, o prefeito Gilberto Kassab instituiu o Cidade Limpa, um programa de ação que tem ido muito além de livrar a capital paulistana da poluição visual dos outdors, incorporando medidas de ordenamento urbano cuja finalidade central é possibilitar que o espaço público seja tratado como algo realmente público.

Perguntinha: qual a política pública mais efetiva quando a finalidade é colocar ordem nas cidades, choques de ordem que ocorrem de tempos em tempos ou um processo contínuo de ordenamento urbano? Este processo contínuo não precisa ser nem concentrado, nem intenso, mas tem que ser notado diariamente pela maioria dos cidadãos.

O poder público está em constante interação com a sociedade. Qualquer tentativa de disciplinar a população encontrará resistências. Tais resistências podem ser mais ou menos intensas. Quanto mais intensas forem, maiores serão os custos e as dificuldades para o governo agir. Simplesmente, será mais caro para o governo (e menos efetivo) reprimir e controlar a população. A resistência à ação disciplinadora é maior se for mais longo o histórico de indisciplina. A quebra da regra e o jeitinho tornam-se hábito, e hábito é difícil mudar.

O que está em questão, portanto, é a efetividade de ações que encontram muita resistência da sociedade.

Neste caso, o trânsito é um exemplo excelente. As campanhas esporádicas de disciplina no trânsito dão menos resultados do que um longo, contínuo e insistente processo de punição para aqueles que desrespeitam as normas. Veja-se o exemplo da adoção do nosso Código Nacional de Trânsito. Há pouco mais de 10 anos, na época de sua aprovação, houve um surto nacional policial de repressão aos motoristas.

Os acidentes e mortes despencaram imediatamente. Passado este surto, os acidentes e a mortalidade voltaram a subir de forma constante, até hoje. O que faltou? Certamente não faltou o surto repressivo, ele estava lá presente como esteve agora na aprovação da Lei Seca. O que faltou foi a instituição de um lento e contínuo processo de repressão e multa, menos intenso do que o referido surto, porém, mais longo e insistente.

O processo civilizatório é lento e os seus resultados não são perceptíveis a olho nu no curto prazo.

É preciso anos, às vezes décadas, de repressão ao estacionamento irregular para que a população internalize a regra e passe a se comportar de maneira diferente. O elemento-chave do processo civilizatório é a "internalização da regra e da norma", é a aceitação – em foro íntimo – do limite e da regra. Isso só é obtido quando a repressão, seja ela policial, do aparato jurídico ou mesmo social for longa e contínua.

Um choque, por definição, não pode ser contínuo, senão mata a vítima do choque. Por outro lado, algo que é contínuo não pode ser chocante, justamente por ser contínuo. Como já disse, o choque de ordem é desejável e louvável, mas o que vem depois dele?

A grande vantagem das ações contínuas, além da referida internalização da regra, é que elas, por que são duradouras, geram novos interesses. De volta ao exemplo do estacionamento, temos o caso concreto de Búzios. Reprimiu-se continuamente o estacionamento irregular, depois de algum tempo foram abertos estacionamentos pagos. Aplicou-se a regra e a sociedade se reorganizou. Sempre há ganhadores e perdedores. Perderam os flanelinhas, ganharam os donos e os funcionários dos estacionamentos. Acima de tudo, ganharam aqueles que acham que o espaço público é realmente público.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil