domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lula e seu "populismo racional":: Elio Gaspari

A política da "metamorfose ambulante" ganhou um novo rótulo. Num trabalho monumental de exaltação da burguesia, a economista americana Deirdre McCloskey faz uma breve referência a Lula, classificando seu governo como "populismo racional" e arriscando o palpite de que, dentre os BRICs, o Brasil tem a melhor base política para sustentar seu desenvolvimento.

McCloskey publicou o segundo volume de uma série de seis, para demonstrar a seguinte tese: a partir do século XVIII o mundo entrou num espetacular e inédito ciclo de progresso porque foi nessa época que os burgueses empreendedores e inovadores começaram a livrar-se das cangas do Estado e dos preconceitos. Comércio internacional e poupança tiveram alguma importância, mas não foram novidades, muito menos decisivos. (A taxa de poupança da Inglaterra em 1800 era baixa.)

Segundo McCloskey, depois do fracasso das revoluções de 1848 os bem pensantes passaram a achar que "burguês" é quase um insulto. (O próprio Lula, ao saber que um menino da favela de Manguinhos jogava tênis, disse-lhe que esse é um "esporte de burguês".)

A professora sobrevoou a História e as correntes do pensamento econômico. Ela é sempre gentil, frequentemente malvada e devastadora nos exemplos. Um deles: as casas da classe média no Brasil e na África do Sul estão sempre limpas, porque nelas há empregadas. "Se explorar a gente pobre de cor fosse uma boa ideia", os brancos brasileiros e sul-africanos de hoje viveriam melhor que os portugueses, alemães e holandeses que estão nos países de onde saíram seus ancestrais.

Ex-professora da Universidade de Chicago, onde foi assistente de Milton Friedman, McCloskey é uma mulher de coragem. Até 1995, ela foi Donald McCloskey, casado e pai de dois filhos. Aos 53 anos, trocou de sexo.

- O e-book de "Bourgeois dignity" ("Dignidade burguesa - Como a economia não pode explicar o mundo moderno") custa US$9,99 no Kindle. Vários textos de McCloskey estão em sua página na internet, de graça.

Lord Lula

Há poucos meses um plutocrata carioca foi procurado por um empresário-companheiro que o convidou a aderir a uma lista de financiadores para a compra do palacete francês dos Paula Machado, em Botafogo.

A conta ficaria em R$10 milhões, e ele seria a sede do Instituto Lula.

O plutocrata perguntou em quanto ficaria a sua parte e respondeu:

"Dou o dobro para vocês não pensarem mais nisso. Esse negócio deixará o presidente muito mal."

Na primeira metade do século passado, quando foi construída, a linda casa simbolizava o fausto da família Guinle, dona do Copacabana Palace e do Porto de Santos. Há pouco os herdeiros tentaram empurrar o negócio para a Viúva, mas o negócio não prosperou.

Uma informação para os comissários petistas:

Quando Bill Clinton deixou a Casa Branca, alugou mil metros quadrados num edifício na Rua 125, em pleno Harlem.

FONTE: O GLOBO

Mais uma lenda ameaçada::Clóvis Rossi

Era uma vez a lenda da queda da desigualdade no Brasil, já desmontada.

Agora, todo mundo sabe que o que caiu foi a desigualdade entre salários, mas não entre a renda do capital e a do trabalho. E esta é a desigualdade de fato obscena.

Muito bem. Agora, surgem dados que põem em dúvida até a queda tão celebrada da desigualdade entre assalariados. São dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), organismo oficial e bastante empenhado, de resto, na propaganda do governo.

O que diz o estudo? Que o desemprego aumentou entre os 10% mais pobres no período 2005-2010. Exatamente o período em que tanta gente se ufanava de que a desigualdade diminuíra.

Vejamos a comparação: em 2005, 23,1% da população mais pobre estava desempregada. No ano passado, esse número saltou para 33,3%. Já entre a parcela da população de maior poder aquisitivo, o desemprego diminuiu 57,1% nesses cinco anos. Caiu de 2,1% para 0,9%.

Mais: o desemprego entre os mais pobres, que era 11 vezes maior em 2005, pulou para 37 vezes mais cinco anos depois.

A notícia colhida nesta Folha acrescenta a palavra de técnicos do Ipea: "A taxa de desemprego, que tende a ser mais elevada entre os trabalhadores de menor rendimento, tornou-se ainda mais um elemento de maior desigualdade no mercado de trabalho".

Se os mais pobres perdem emprego e, portanto, renda, e os mais ricos, ao contrário, obtêm mais empregos e, portanto, mais renda, como é possível que a desigualdade entre assalariados caia?

Deve haver alguma boa explicação, dada a qualidade técnica dos arautos da lenda, mas seria conveniente que eles viessem a público para explicar essa contradição aparentemente insanável, em vez de silenciarem como o fazem quando se aponta a outra lenda.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

O dominó e seus mistérios::Alberto Dines

O desmoronamento da Cortina de Ferro no fim dos anos 80 não foi tão surpreendente quanto este sopro de liberdade que varre o Oriente. Um mês depois do incêndio na Tunísia e uma semana depois da queda de Hosni Mubarak, a revolta escapa do Egito, chega à Líbia – a mais longeva tirania regional – instala-se no Iêmen, no minúsculo Bahrein e retorna revigorada ao Irã, onde talvez tudo tenha começado, há dois anos.

A troca de guarda no Kremlin em 1985 e a entrada em cena de Mikhail Gorbachov explica com relativa facilidade a débâcle soviética e a reunificação alemã. Já o elemento deflagrador desta surpreendente reviravolta no mundo islâmico é mais obscuro, enigmático. Menos linear.

No passado, as teorias conspiratórias logo atribuiriam à CIA a culpa por este tsunami político. Hoje estas teorias não se sustentam: o Egito e o Bahrein são ostensivos aliados dos Estados Unidos. Mais recentemente, ficou na moda identificar o Mossad (serviço secreto israelense) como autor de misteriosas mudanças no cenário oriental. Hipótese inválida neste caso: cada avanço em direção à democracia no mundo islâmico isola mais Israel na sua obsessão suicida de manter a Cisjordânia como território ocupado.

O coronel Kadafi parecia inexpugnável e não apenas pela violência do regime (agora instrumentada por dois de seus filhos), mas pela sua incrível audácia em comprar consciências e alianças. Não lhe foi difícil adquirir um assento no Conselho de Direitos Humanos da ONU, convencer alguns autocratas a indicá-lo como presidente da União Africana e depois candidato a Rei da África ou converter o premiê Silvio Berlusconi em amigo de infância.

Pagou as indenizações às 270 famílias das vítimas do atentado que derrubou o Boeing da Panam em Lockerbie, na Escócia, e conseguiu do governo de Gordon Brown que o único terrorista preso fosse liberado por ser vítima de uma doença terminal. Recebido há mais de seis meses como herói em Tripoli, Abdel Baset al Megrabi está vivinho da silva.

A tese de que o efeito dominó é fruto das novas tecnologias da informação, além de simplista, é exagerada. As redes sociais têm um enorme poder de convocação, mas para que esta convocação produza algum resultado é indispensável a existência de uma massa crítica e um senso de urgência que uma sociedade como a egípcia – muito mais sofisticada do que a da líbia ou a iemenita – incubava há tempos.

Mais plausível é a hipótese de fadiga de material. O desgaste das tiranias, caudilhismos e autocracias é muito maior do que nos sistemas políticos renováveis, plena ou medianamente representativos. Demagogos cansam, seu estoque de truques não consegue produzir mágicas no mesmo ritmo e com a mesma intensidade do mundo real. Hugo Chávez que o diga.

O velho mimetismo, o mesmo que espalhou o vírus do fascismo nos anos 20 e 30 do século passado, este ainda funciona. Seu fruto mais recente é o conservadorismo do movimento Tea Party americano, misto de religião, incultura e ideologia.

Não adianta forçar conclusões e entregar-se às tentações da história instantânea. Este foi o erro dos formuladores da política externa do presidente Lula, que num dos seus arroubos chegou a chamar Muammar Kadafi de “amigo e irmão”.

O dominó mal começou, as combinações das 28 peças pretas com bolinhas brancas ainda não foram completadas, a velocidade de cruzeiro sequer foi alcançada. Importante, por ora, é observar como um grande pedaço do mundo, estático e fechado, finalmente começou a abrir e mover-se.

» Alberto Dines é jornalista.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo

Com Leonardo Santos

Quem ganha, quem perde

Partidos, parlamentares e especialistas fazem seus cálculos sobre o melhor modelo político-eleitoral para o país a partir do diagnóstico do suposto fracasso do atual sistema proporcional para eleição de deputados federais e estaduais, e de vereadores. Seus críticos atribuem a esse modelo os desvios de conduta dos políticos e seus partidos. Porém as propostas apresentadas até agora não convergem para um novo modelo; ganham força projetos casuístas, como a janela para a mudança de partidos.

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Analista político e diretor do conceituado Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Augusto de Queiroz fez uma simulação de como ficariam as bancadas na Câmara com o fim das coligações e a eventual adoção do chamado “distritão”, proposta apresentada pelo vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB). Com o fim das coligações, o PT ampliaria sua bancada em 20 deputados; o PMDB, em 31; e o PSDB, em 12. No caso do “distritão”, o PT teria mais três deputados; o PMDB, mais 10; e o PSDB, mais 12. Entre os partidos médios, PP, PR, PSB e PDT perderiam nos dois cenários; o DEM ganharia com o “distritão” e perderia com o fim das coligações; e o PTB empataria no “distritão”, mas perderia no outro caso.


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Em relação aos pequenos partidos, o PSC, o PPS e o PRB perderiam com o fim das coligações e empatariam com o “distritão”, enquanto o PCdoB perderia nas duas hipóteses e o PV perderia com o “distritão”, mas ganharia com o outro cenário. Já entre os nanicos, ninguém ganharia com o fim das coligações. Perderiam nas duas hipóteses o PTdoB, o PHS, o PRB, o PRB e o PSL. Ganharia com o “distritão” apenas o PSol. O PTC empataria. Ficariam sem representação na Câmara, nas duas situações, o PHS, o PRB e o PSL.

Encontro// A presidente Dilma Rousseff deve se encontrar, nesta semana, com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Miguel Insulza. Ainda não foi definida a pauta para a reunião, mas o assunto mais cabeludo é a situação de Honduras.

Mobilidade

Em conversa com governadores e prefeitos sobre as obras do PAC nos grandes centros urbanos, a presidente Dilma Rousseff os tem advertido de que, no quesito mobilidade, não pretende fazer investimentos em obras de metrô, a não ser naquelas que já estão em andamento. A prioridade é a implantação de veículos leves sobre rodas e melhorias nos trens urbanos já existentes.

Garantia

O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (foto), às voltas com o saneamento financeiro e administrativo do GDF, somente pretende reiniciar as obras de Brasília que tenham segurança jurídica. As que estiverem enroladas nos tribunais não receberão novos investimentos para evitar desperdícios.

Leão

O deputado José Antonio Reguffe, do PDT-DF, apresentou um projeto de lei para que a tabela do Imposto de Renda seja corrigida todos os anos pelo INPC mais 1%. Segundo ele, seria uma forma de reduzir a abusiva carga tributária de forma gradual. Como em 2010 o INPC foi de 6,46%, os trabalhadores teriam uma correção neste ano de 7,46%. Economista, Reguffe argumenta que a correção dos limites de isenção, na tabela nos últimos cinco anos, estaria defasada em 64,1%.

Reforma

Ex-presidente da República, o senador Itamar Franco (PPS-MG) proporá, no projeto de reforma política que será discutido no Senado, a limitação em um mandato para o exercício da Presidência da República, sem direito a reeleição. Itamar quer evitar que o ex-presidente Lula volte a disputar o cargo novamente em 2014.

Esta é boa

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) publicou aviso de pregão eletrônico para a contratação de 141 secretárias com salário entre R$ 2,4 mil e R$ 5,4 mil. Em vez de selecionar as profissionais, contratará uma empresa terceirizada por R$ 3,8 milhões

Recadastramento/ O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) votará, na semana que vem, uma resolução na qual Negritoserão definidos os próximos municípios a realizar cadastramento biométrico de eleitores. Como utiliza o mesmo banco de dados do Registro de Identidade Civil, o cadastramento do TSE poderá ser aproveitado para a emissão do novo documento de identidade nacional pelas secretarias de Segurança Pública dos estados.

Parados/ A Polícia Federal (PF) aguarda parecer da Procuradoria da República para dar continuidade ao inquérito da Operação Caixa de Pandora. Segundo a PF, todos os documentos referentes à investigação foram entregues à Justiça e esperam manifestação da PGR.

Abóbora/ O subprocurador-geral da República, Aurélio Rios, que atua na área de direitos do cidadão, proporá que programas de reality show, como o Big Brother Brasil, tenham a classificação indicativa elevada de 14 para 18 anos. Com a mudança, os programas só poderiam ser exibidos depois da meia-noite

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Da sombra, mensaleiro ensaia volta à ribalta

Reeleito deputado federal, João Paulo Cunha assume a Presidência da CCJ e confirma a estratégia do PT em "absolver" os envolvidos no maior escândalo político do governo Lula

Ivan Iunes

A escolha do ex-presidente da Câmara dos Deputados e réu no processo do mensalão João Paulo Cunha (PT-SP) para presidir a Comissão de Constituição e Justiça é um indicativo de que personagens de escândalos célebres durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva buscarão, nos próximos anos, voltar aos holofotes políticos.

Depois de quatro anos sem assumir postos importantes, João Paulo comandará o principal colegiado da Casa. Além dele, Benjamin Maranhão (PMDB-PB), Heleno Silva (PRB-SE), Jorge Pinheiro (PRB-GO), Josué Bengston (PTB-PA) e Nilton Capixaba (PTB-RO), todos envolvidos no escândalo dos sanguessugas, também conseguiram retornar à Câmara dos Deputados para tentar a reabilitação política.

Escoltado pela maior votação para deputado federal do PT em São Paulo nas últimas eleições, com 255 mil votos, João Paulo Cunha disputava com Ricardo Berzoini (PT-SP) a indicação para a CCJ. Acabou escolhido para comandar o comissão até o fim do ano, quando o posto passará ao colega de partido.

Réu no processo do mensalão por supostamente ter recebido R$ 50 mil do esquema comandado pelo publicitário Marcos Valério, João Paulo conseguiu a reeleição em 2006, mas passou quatro anos atuando apenas nos bastidores, articulando uma volta a cargos de destaque. A mesma estratégia foi utilizada por José Genoino (PT-SP), mas o paulista não conseguiu se reeleger nas últimas eleições e foi obrigado a deixar a Câmara dos Deputados.

Popularidade

Com o alto índice de popularidade do governo Lula verificado no fim do mandato do agora ex-presidente e a atual gestão navegando em relativa calmaria, os petistas decidiram dar início à reabilitação de personagens do partido envolvidos no mensalão, conforme sinalizou o próprio Lula na semana passada. Durante a celebração dos 31 anos de fundação do PT, o ex-governante afirmou que chegou a hora de “encarar” o mensalão, embora tenha desqualificado a existência de uma esquema do Executivo para a compra de apoio parlamentar.

Além de João Paulo, o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o ex-secretário geral da legenda Silvio Pereira devem voltar à vida partidária. Já outro personagem do caso, como o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que é membro do Diretório Nacional do PT, não tentará reaver os direitos políticos, perdidos com a cassação do mandato de deputado em dezembro de 2005.

“É inegável a história do João Paulo como presidente da Câmara e nós entendemos que ele deveria assumir os cargos que o permitissem continuar dando contribuições efetivas ao país. Já era hora de ele emergir novamente. O José Dirceu, entretanto, tem uma batalha judicial pela frente e não deve perder esse foco nos próximos anos”, aponta o líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (PT-SP).

Propina

O mensalão consistiu no principal escândalo que atingiu o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2005, em seu primeiro mandato. A prática consistia em um esquema de pagamento de propina a parlamentares para que votassem a favor de projetos do governo. Entre os 39 réus, estão parlamentares, ex-ministros, dirigentes do Banco Rural e o empresário e publicitário Marcos Valério. A ação, que corre no Supremo Tribunal Federal (STF), deve ser julgada neste ano. Será o maior processo da história da Corte, devido ao número de acusados.

FONTE:CORREIO BRAZILIENSE

''Janela de infidelidade'' deixa oposição mais vulnerável a assédio

Temor de oposicionistas é que mudança na lei de fidelidade facilite adesão, à base aliada, dos que buscam cargos no governo

O debate da reforma política levanta uma desconfiança: no plano nacional, pode se transformar em duro golpe contra os partidos de oposição. A maioria dos deputados e senadores quer aprovar a alteração da regra que estabelece a fidelidade partidária, para criar uma espécie de "janela" para que os parlamentares possam trocar de partido seis meses antes da votação seguinte. Nesse caso, poderiam mudar de legenda apenas uma vez.

Para PSDB, DEM e PPS, partidos de oposição, a proposta é uma ameaça real. Longe do poder federal desde a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, esses partidos se tornarão vulneráveis ao assédio de legendas da base governista, interessadas em engordar seus quadros, caso seja aprovada a brecha na regra da fidelidade partidária.

No novo modelo, o grande mecanismo de atração seria o espaço político que os novos filiados poderiam ocupar na base de apoio da presidente Dilma Rousseff, seja por meio de cargos ou de liberação de recursos federais.

Na prática, a oposição já tinha se tornado alvo preferencial desse processo de atração de novos parlamentares. A hemorragia política da oposição só foi contida por conta da interpretação dada pela Justiça de que o mandato eleitoral pertence ao partido e não ao candidato.

Agora, com a maioria do Congresso apoiando a criação da janela para trocas, passou a ser questão de tempo o início dessa movimentação. Vários políticos apenas aguardam a aprovação da proposta para trocar de legenda. A mudança mais clara envolve o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM). O prefeito quer legenda para concorrer ao governo do Estado, em 2014, e sabe que seu atual partido planeja apoiar a candidatura do governador Geraldo Alckmin (PSDB) à reeleição.

Assim, para poder enfrentá-lo, Kassab já prepara mudança para uma legenda da base governista, como PSB ou PMDB, e planeja levar outros descontentes do DEM para seu grupo.

Dentro do DEM, outro alvo é o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, que já foi sondado pelo presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para se filiar aos socialistas. "É claro que para nós o ideal é que a regra permaneça a mesma", afirma o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). "Mas não adianta manter pessoas que querem sair. Isso só enfraquece o partido."

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Com ‘Lei Tiririca’, começa reforma política ‘possível’

Adoção de sistema majoritário para eleição de deputados, pondo fim aos puxadores de votos, faz parte da restrita pauta em debate

Marcelo de Moraes

BRASÍLIA - A proposta de reforma política que começa a ser debatida no Congresso, a partir de terça-feira, deve aprovar uma mudança radical na eleição de deputados. Há uma grande chance de os partidos condenarem à morte o atual sistema proporcional, baseado em coeficiente eleitoral. No lugar entraria o voto majoritário simples. Traduzindo: quem tem mais votos é eleito.

Hoje, as vagas são distribuídas conforme o número de votos recebidos pela legenda ou coligação. Levando em conta esse resultado, o partido tem direito a um número de eleitos, mesmo que alguns tenham menos votos que outros candidatos.

A mudança tornará inútil a figura do candidato puxador de votos, geralmente representado por algum político importante ou por celebridades. Tanto que a proposta do voto majoritário simples foi, ironicamente, apelidada de "Lei Tiririca" - ela impedirá justamente a repetição do fenômeno provocado pela eleição do palhaço, deputado pelo PR de São Paulo.

Tiririca teve 1,35 milhão de votos e ajudou a eleger candidatos bem menos votados, como Vanderlei Siraque (PT-SP), que somou 93 mil votos, menos que outros dez candidatos não eleitos.

Em eleições passadas, outros puxadores levaram a Brasília uma bancada de candidatos nanicos, como Enéas Carneiro e Clodovil Hernandez, ambos já falecidos e campeões de votos em 2002 e 2006, respectivamente. Há nove anos, Enéas foi escolhido por 1,5 milhão de eleitores e puxou mais quatro deputados, incluindo Vanderlei Assis de Souza, com ínfimos 275 votos.

"É um pouco chocante. Alguém que teve 128 mil votos não pode decidir em nome do povo, e quem teve 275 votos pode", diz o vice-presidente Michel Temer (PMDB), defensor do voto majoritário simples. "Os partidos não vão mais buscar nomes que possam trazer muitos votos, nem vão procurar um grande número de candidatos para fazer 2,3 mil votos ou menos, só para engordar o coeficiente eleitoral."

Se aprovada, a "Lei Tiririca" vai gerar um imediato efeito colateral: tornará inúteis as coligações partidárias nas eleições proporcionais. Hoje, os partidos se aliam para formar chapas para somar forças e produzir um alto coeficiente. Na nova regra, uma aliança partidária não produz qualquer efeito.

Unificação. Outra mudança em debate é a unificação das eleições e a coincidência de mandatos. A proposta é de consenso difícil, mas tem alguma chance de ser aprovada se entrar em vigor para eleições futuras, sem afetar os direitos de quem tem mandato e pode se reeleger.

Se houver consenso, os próximos prefeitos e vereadores serão eleitos em 2012 para mandato de dois ou de seis anos. No primeiro caso, menos provável, as eleições unificadas ocorreriam já em 2014. Se for um mandato de seis anos, a unificação ficaria para 2018.

Apesar da complexidade da proposta e do lado pouco prático - criaria uma supereleição em um único dia -, a ideia da reforma política, desta vez, é que ela não cometa o erro de sempre: uma debate inchado de propostas que, apesar de defendida como prioritária por todos os políticos, sempre acaba patinando. Pior: alterações significativas, como fidelidade partidária, verticalização das alianças e seu fim, acabaram sendo decididas por ordem do Poder Judiciário.

Por isso, veteranos do debate acreditam que a reforma só tem chance de passar se for restrita a poucos pontos. Em 2009, o Senado aprovou um texto que a Câmara ignorou, por não ter sido negociado em comum acordo.

"Se vierem poucos pontos, pode sair. Caso contrário, não", diz o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), principal líder político do partido que, no passado, ajudou a derrubar o projeto que criava a cláusula de barreira para legendas que não somassem 5% do total de votos para a Câmara Federal, o que praticamente inviabilizaria a atividade desses partidos.

Em debate

Michel Temer
Vice-presidente da República e defensor do fim do sistema proporcional

"O partido vai verificar quem tem condições de um desempenho político e eleitoral adequado e vai levá-los à candidatura"

"Você não pode fazer reformas políticas quilométricas, como tem sido proposto. Daí, não avança"

Valdemar Costa Neto
Deputado (PR-SP)e principal articulador do partido

"Se vierem poucos pontos, pode sair. Caso contrário, não"

Aécio quer aproximar PSDB de sindicatos

Maior alvo dos tucanos é a Força Sindical do deputado Paulinho, que divergiu do governo na questão do mínimo

Senador diz que não há social-democracia sem base sindical; serrista diverge de aliado e acha que PT utiliza centrais


Vera Magalhães

SÃO PAULO - O encontro com representantes das centrais sindicais na semana passada foi o ensaio de uma estratégia mais ampla do PSDB para tentar obter uma interlocução com as entidades trabalhistas.

O diagnóstico é que, para voltar ao poder, o partido precisa ampliar sua base social e romper o monopólio do PT junto às centrais sindicais -que, além de reunirem expressivo número de filiados, dispõem de ampla estrutura de propaganda política.

A aproximação com os sindicatos faz parte do projeto do senador Aécio Neves (MG) para tentar se cacifar para a eleição presidencial de 2014.

O principal alvo dos tucanos é a Força Sindical, ligada ao PDT do ministro Carlos Lupi (Trabalho) e de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho.

A aproximação entre Aécio e Paulinho irritou tanto o Palácio do Planalto quanto a ala tucana ligada a José Serra, que defendia R$ 600 para o mínimo. Aécio encampou os valor das centrais: R$ 560.

Em Minas, a Força apoiou a eleição de Aécio e do governador Antonio Anastasia. A Social Democracia Sindical e a CGT (Central Geral dos Trabalhadores) também gravitam na órbita tucana.

BLOCO MONOLÍTICO

Apesar da derrota inconteste que sofreu na votação do mínimo, a oposição avalia que o debate serviu para provocar a primeira cizânia na unidade sindical em torno do governo, inabalável na gestão Luiz Inácio Lula da Silva.

Além da já umbilical ligação entre a CUT e o PT, Lula conseguiu fidelizar também as demais entidades.

Isso se deu graças à divisão de cargos em organismos do governo e, principalmente, ao repasse do imposto sindical para as seis centrais, o que irrigou seus cofres com R$ 146 milhões desde 2008.

Ricardo Antunes, professor de Sociologia do Trabalho da Unicamp, já comparou o movimento feito por Lula à relação entre os sindicatos e Getúlio Vargas, criador do imposto sindical.

Outros estudiosos chamaram o fenômeno de "neopeleguismo", novamente em alusão à era Vargas.

"Não podemos deixar como única alternativa para essas forças se aliar ao PT", disse Aécio à Folha. Ele argumenta que "não existe partido social-democrata no mundo sem uma seção sindical".

Num sinal de que também esse tema não é unânime no PSDB, o senador Aloysio Nunes Ferreira (SP), um dos principais porta-vozes do grupo serrista, acha que o partido não deve buscar com os sindicatos a mesma relação que o PT criou.

"Sempre tivemos ponte com o movimento sindical, mas nunca tivemos a intenção de aparelhá-lo."

Ele criticou o fato de as centrais serem "alimentadas pelo imposto sindical" e atuarem como "correia de transmissão do governo".

Sobre os embates entre sindicatos como a Apeoesp (que reúne os professores paulistas) e o governo tucano em SP, Nunes diz que essas entidades atuam como partidos. "São inimigos dos progressos na educação."

Ele defende que a interlocução do PSDB com o movimento sindical se dê por meio de entidades independentes. "Respeitamos a autonomia sindical."

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dilma enquadra PMDB e supera estilo de Lula

Presidente surpreende aliados e oposicionistas, que viam sua inexperiência parlamentar como risco para a governabilidade

Cristiane Jungblut e Isabel Braga

BRASÍLIA. Criticada por aliados e oposicionistas pela falta de experiência parlamentar e pela pouca paciência com o jogo político quando era ministra da Casa Civil, a presidente Dilma Rousseff conseguiu no primeiro embate com a Câmara o que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou em oito anos: enquadrar o PMDB, que deu 100% de aprovação na votação do salário mínimo. Mas não foi com carinhos e passando a mão na cabeça dos rebeldes. Do Planalto os recados davam conta de que os dissidentes seriam tratados a pão e água.

Agora, Dilma espera a mesma "lealdade" na votação do mínimo pelo Senado. Pelo menos nesse inicio de governo, Dilma aliou dois fatores: a força de uma gestão nova, o que é comum nos primeiros 100 dias, e ameaças de suspensão de nomeações e cortes ainda maiores nas emendas parlamentares. A dúvida entre aliados é até quando essa unidade persistirá e qual será o preço cobrado pelos aliados, em especial o PMDB, que já começou a apresentar a "fatura", ou seja, os nomes para cargos de estatais e escalões menores.

A sorte da presidente Dilma é que ela não apresentou uma agenda forte no Congresso, como Lula em 2003, com as reformas da Previdência e do sistema tributário. Por isso, o novo teste da base pode demorar.

Agradecimentos aos fiéis e castigos aos infiéis

O estilo da presidente se mostrou já no dia da votação. Assim que a Câmara derrubou a emenda do PSDB de R$600 como valor para o mínimo, Dilma telefonou para parabenizar o líder do governo na Casa, Cândido Vaccarezza (PT-SP). Dilma também fez questão de ligar e agradecer ao deputado Vicentinho (PT-SP), que assumiu o desgaste de defender os R$545 contra os R$560 das centrais sindicais.

Já no dia seguinte, ela chamou os líderes do governo na Câmara e no Senado e avisou: os infiéis serão tratados como se fossem da oposição. No caso da liberação de emendas - daquelas que sobreviverem aos cortes -, a sistemática será a seguinte: aqueles que se comportaram como dissidentes terão o mesmo percentual de liberação que os parlamentares da oposição. Isso significa que trocarão uma média de 52% de empenho (garantia de pagamento futuro) pela média de apenas 26, da oposição.

Outra tática que acalmou os aliados foi a seguinte: o governo escolheu o deputado Vicentinho, ex-presidente da CUT para ser o relator do projeto do salário mínimo, isolando a Força Sindical, cujo presidente, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) defendia R$560. A tática deu certo: os sindicalistas da CUT praticamente desapareceram da votação. Além disso, o governo jogou uma bandeira para os sindicalistas: a correção do Imposto de Renda em 4,5%.

- Pelo fato de ser um governo novo, se espera muito de ambas as partes. E, por esperar muito do governo dela, o Congresso presenteia com uma dosagem enorme de confiança. Ela foi, no mínimo, gentil, e o ministro Luiz Sérgio ligou a todos os líderes, agradecendo o nosso trabalho. Um diferencial da valorização do trabalho - disse o novo líder do PR, Lincoln Portela (MG), que foi vice-líder do partido no governo Lula.

FONTE: O GLOBO

Governo agora teme o troco dos insatisfeitos

Vitória na votação do mínimo não tranquiliza aliados

Cristiane Jungblut e Isabel Braga

BRASÍLIA. Essa primeira vitória de Dilma Rousseff, entretanto, não tranquiliza a cúpula do governo. Há entre os articuladores a certeza de que o "troco" prometido pelos insatisfeitos pode vir a qualquer momento. Tendo enfrentado algumas derrotas como líder do governo Lula na Câmara, como na questão dos royalties e do reajuste de 7,7% para aposentados em 2010, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) não escondia a satisfação com a nova sistemática adotada pelo Palácio do Planalto.

- O resultado da votação foi extremamente positivo para o governo. Foi impressionante a votação do governo. O PMDB demonstrou lealdade e força. É uma segunda lua de mel (com o governo) - disse Vaccarezza.

Em 2003, reforma da previdência criou racha no PT

Apesar da lua de mel dos aliados, líderes experientes alertam que o troco, se necessário, será dado em votações futuras. Nesse momento, os parlamentares preferem se curvar à força das urnas e, além disso, tiveram que defender uma bandeira simpática, a fórmula de reajuste para o mínimo até 2015. O PT, por exemplo, teve dissidências, mas nada se compara ao constrangimento dentro do partido como o ocorrido em 2003, quando o presidente Lula enviou proposta de reforma da Previdência que afetava os servidores públicos, berço do partido.

Na votação, o próprio ex-ministro da Previdência, deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), lembrava dos constrangimentos da época da reforma da Previdência, quando ele estava no Executivo e o hoje senador José Pimentel (CE) era o relator da matéria.

No Senado, Jucá precisa de um bom resultado

Agora, a responsabilidade está com o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que tem que apresentar um resultado à altura do da Câmara. Tendo sido líder na maior derrota do governo Lula, em 2007, quando o Senado derrubou a CPMF, Jucá, agora, conta com uma Casa com perfil bem mais governista. Ele também esteve com Dilma semana passada.

- O governo quer aprovar o projeto sem emendas. O governo se empenhou nessa primeira vitória - disse Jucá.

Os aliados avisam que, agora, esperam que o "bom tratamento" continue.

- É importante o bom relacionamento da Presidência com aqueles que são fiéis e estão trabalhando. Devem ter tratamento à altura - alertou Lincoln Portela, líder do PR.

Forças de segurança abrem fogo e matam 15 em funeral na Líbia

Segundo fontes, operação de repressão em resposta aos protestos em Benghazi já matou 84 pessoas

REUTERS

TRIPOLI - Forças de segurança abriram fogo durante um funeral no sábado na cidade de Benghazi, segunda maior da Líbia, informou a rede Al-Jazeera, deixando ao menos 15 pessoas mortas.

Um médico da cidade, centro dos protestos contra o líder Muammar Gaddafi que está há quatro décadas no poder, disse à rede de tevê árabe que 15 corpos chegaram ao hospital onde trabalha, além de feridos.

"Este não é um hospital bem equipado e esses feridos vêm em ondas. Todas as lesões são sérias, na região da cabeça, peito e abdome. São ferimentos de bala de rifles de alta velocidade", afirmou o médico.

A organização Human Rights Watch disse que 84 pessoas foram mortas nos últimos três dias, resultado de uma intensa operação de repressão em resposta aos protestos conta o governo que procuram seguir os passos de revoltas nos vizinhos Egito e Tunísia.

Um morador da cidade disse que as forças de segurança estavam confinadas em um Centro de Comando, de onde atiradores disparavam contra manifestantes na cidade de Benghazi, que fica a mil quilômetros a leste da capital, onde o apoio a Gaddafi é tradicionalmente menor do que no restante do país.

"Eles mataram três manifestantes daquele prédio hoje", declarou a testemunha, que não quis se identificar, à Reuters.

"No momento, a única presença militar em Benghazi está confinada ao Comando Central da cidade. O restante da cidade está liberado", disse.

"Não há escassez de comida, embora nem todas as lojas estejam abertas. Os bancos estão fechados. Todos os escritórios do comitê revolucionário (governo local) e delegacias de polícia da cidade foram queimados", afirmou.

O relato não pode ser confirmado de forma independente. Uma fonte do aparato de segurança ofereceu uma versão diferente, dizendo que a situação na região de Benghazi está "80 por cento sob controle".

Em Londres, o ministro britânico das Relações Exteriores, William Hague, disse que tinha relatos de que armas de fogo pesadas e unidades de atiradores de elite estão sendo usados contra os manifestantes. "Isto é claramente inaceitável e horripilante", disse em um comunicado.

O jornal privado Quryna, sediado em Benghazi e que já foi ligado a um dos filhos de Gaddafi, afirmou que 24 pessoas foram mortas na cidade na sexta-feira, e que forças de segurança abriram fogo para deter manifestantes que atacavam o quartel-general da polícia e uma base militar onde armas estavam guardadas. "Os guardas foram forçados a usar balas de verdade", informou o diário.

O governo não divulgou nenhuma cifra de vítimas nem fez comentários oficiais sobre a violência.

Um grupo de 50 acadêmicos religiosos líbios apelaram pelo fim da violência. Uma cópia do libelo foi fornecida à Reuters.

Longe da região sul, a Líbia parecia calma.

Na Praça Verde, no centro de Trípoli, próximo da antiga cidade murada, centenas de pessoas se reuniram portando fotos de Gaddafi e entoando "Nosso líder revolucionário!" e "Seguimos o seu caminho", relatou um repórter da Reuters.

Um jornal estatal disse que a violência é parte dos "plano sujos e das conspirações concebidas pela América e pelo sionismo e pelos traidores do Ocidente".

Observadores da Líbia dizem que uma revolta no estilo do Egito é improvável, porque Gaddafi tem dinheiro do petróleo para aliviar os problemas sociais, e ainda é respeitado em grande parte do país.

Cúpula. A Liga Árabe disse neste sábado ser importante que aconteça em março a cúpula do organismo em Bagdá, devido ao que descreveu como "graves e fatais acontecimentos" no mundo árabe.

A Líbia, que detém a presidência rotativa da cúpula dos líderes árabes, afirmou nesta semana que a reunião em Bagdá seria adiada por causa da situação na região, onde os protestos estão desafiando líderes do Bahrein à Argélia.

Os presidentes do Egito e da Tunísia foram derrubados por protestos em massa neste ano.

Um comunicado emitido da sede da Liga Árabe, no Cairo, informou que um pedido formal de adiamento do encontro ainda não havia sido recebido pelo secretariado-geral do organismo. A cúpula está marcada para 29 de março.

"O secretariado-geral destaca a importância da realização da próxima cúpula árabe no cronograma", disse o comunicado da liga.

As circunstâncias atuais exigem "um maior grau de coordenação e de discussão para tratar os graves e fatais acontecimentos que estão ocorrendo na região árabe", disse o documento.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Ruas que Sonhei - Paulinho da Viola

O Rio – continuação::João Cabral de Melo Neto

Ou
relação da viagem
que faz o Capibaribe
de sua nascente
à cidade do Recife

Conversa de rios

Só após algum caminho
é que alguns contam seu segredo.
Contam porque possuem
aquela pele tão espessa;
por que todos caminham
com aquele ar descalço de negros;
por que descem tão tristes
arrastando lama e silêncio.
A história é uma só
que os rios sabem dizer:
a história dos engenhos
com seus fogos a morrer.
Nelas existe sempre
uma usina e uma bangüê:
a usina com sua boca,
com suas várzeas o bangüê.

A usina possui sempre
uma moenda de nome inglês;
o engenho, só a terra
conhecida como massapê.
E o que não pode entrar
nas moendas de nomes inglês
a usina vai moendo
com muitos outros meios de moer.
A usina tem urtigas,
a usina tem morcegos,
que ela pode soltar
como amestrados exércitos
para ajudar o tempo
que vai roendo os engenhos,
como toda já roeu
a casa-grande do Poço do Aleixo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Reflexão do dia - Aécio Neves

"Chamou muito a atenção uma declaração, esta semana, do ministro das Relações Institucionais (Luiz Sérgio). Quando perguntado sobre como seria a votação, ele disse: "A ordem é votar." Um governo que assume dando ordens ao Congresso Nacional traz consigo um viés autoritário, e isso não é bom para a democracia.

É violência enorme querer subjugar o Congresso buscando aprovar a partir de agora a majoração do salário mínimo via decreto.Ou vamos cumprir o nosso papel constitucional, que é o de legislar, inclusive sobre esta matéria (salário mínimo), ou vamos permitir já na largada deste novo governo que o Congresso, mais uma vez, se agache perante o Poder Executivo.

Devemos discutir qual a relação que o Congresso pretende ter com o Executivo. Se queremos ser um poder subalterno ou autônomo. Um governo não pode dar ordens a um outro poder, muito menos violentar a Constituição, que em relação ao salário mínimo é muito clara.

Fazer isso por decreto, além de ser um escapismo do governo, mostra até uma certa fragilidade. Fragilidade esta que não precisa ser demonstrada devido à força e à amplitude de sua base. É um escapismo não querer discutir essa questão ao longo de cada ano, como deve acontecer.

Seria uma ajuda, inclusive à presidente, se sua base compreendesse que, para termos um governo estável com condições de comandar um país, é fundamental que se respeitem os poderes. Não é possível que uma maioria eventual seja utilizada para fragilizar o Congresso Nacional. Um Congresso frágil é uma democracia frágil. Sendo assim, perdemos todos nós.
"

NEVES, Aécio. Governo com viés autoritário. O Globo, 19/2/2011
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Manobra petista:: Merval Pereira

A indicação, pelo PT, do deputado João Paulo Cunha como presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, além de ser um menosprezo à opinião pública e uma demonstração de que a Câmara já não tem mais força moral para impedir gestos que a desmoralizem, faz parte de uma ampla manobra petista para constranger o Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão que se avizinha, tratando os acusados como virtualmente absolvidos.

Dessa manobra participa, sobretudo, o ex-presidente Lula, que, depois de ter feito um discurso à nação dizendo-se traído, ainda em 2005, tem se dedicado nos últimos anos a tentar apagar da História do país o maior escândalo de corrupção já registrado, alegando que se tratou de uma tentativa de golpe para tirá-lo do governo.

Ainda na Presidência da República, Lula recebeu no Palácio o ex-ministro José Dirceu, acusado pelo procurador-geral da República de ser o "chefe da quadrilha" do mensalão.

Dirceu saiu alardeando que Lula se dedicaria, quando deixasse a Presidência, a esclarecer "a farsa" do mensalão para provar que ele não passara de um golpe político. Ele, que dissera anteriormente que "mensalão não é corrupção, é financiamento de campanha com caixa 2", agora adota a teoria conspiratória que transforma o episódio em uma luta dos legalistas do PT contra os golpistas.

O próprio Lula adotou o discurso, sendo essa pelo menos a terceira versão que abraçou. Primeiro se disse "traído", sem acusar ninguém - insinuou que quando deixasse a Presidência revelaria -, depois alegou que o caso não passava de uso do caixa 2 em campanha eleitoral, o que seria tradicional no Brasil, e agora vem com essa história de golpe antidemocrático.

"Vocês viram o que aconteceu comigo em 2005?", gritou em recente comício. "Mais uma vez se tentou truncar o mandato de um presidente democraticamente eleito."

Dentro do PT há também diversos movimentos concatenados para tratar os acusados do mensalão como se tivessem sido virtualmente absolvidos dos crimes de que são acusados.

O ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, por exemplo, expulso do partido ainda em 2005, quando o escândalo de que foi protagonista estava quente, agora está querendo que a direção partidária reconsidere sua situação. Ele, que se diz um "petista histórico", quer ser reinserido nos quadros do PT.

Delúbio ficou famoso ao cunhar a expressão "dinheiro não contabilizado" para tentar explicar a fortuna que ele fez circular entre petistas e aliados no episódio do mensalão, dinheiro que, segundo a acusação aceita pelo Supremo Tribunal Federal, foi desviado dos cofres públicos e de empresas privadas para comprar votos no Congresso a favor do governo.

Ele foi responsabilizado pelos empréstimos fraudados com o empresário Marcos Valério, feitos em nome do partido, mas hoje tem apoio da principal corrente, à qual continua ligado - o antigo Campo Majoritário, hoje chamado de Construindo um Novo Brasil -, para retornar oficialmente ao grupo, do qual nunca se separou mesmo depois de expulso.

Delúbio tem uma visão particular do mensalão: disse em entrevista, ao completar 50 anos, que o caso acabaria "virando piada de salão". Da sua parte, está fazendo o possível para tornar a previsão realidade.

Também o ex-secretário-geral do partido Silvio Pereira, que pediu desfiliação na mesma época para evitar a expulsão, pretende pedir a reintegração partidária. Silvinho, como era conhecido nos meios políticos, era quem fazia as seleções dos "companheiros" e aliados para os cargos públicos, e entrou no noticiário do mensalão por meio de uma prova ostensiva de corrupção: ele recebeu um jipe Land Rover de um empresário, na intermediação de uma negociata na Petrobras.

Segundo a denúncia do procurador-geral da República, Pereira "atuava nos bastidores do governo, negociando indicações políticas espúrias que proporcionavam desvio de recursos em prol de parlamentares, partidos e particulares".

Silvinho não está mais entre os acusados pelo mensalão do processo do Supremo: ele fez um acordo com a Procuradoria Geral da República e aceitou fazer 750 horas de serviços comunitários em três anos, numa aceitação de culpa.

O crime de que ele era acusado, o de formação de quadrilha, pode prescrever ainda em agosto deste ano caso a condenação venha a ser de apenas um ano. Outras nove pessoas, entre elas, José Dirceu, estão acusadas nesse crime e podem ser beneficiadas pela prescrição.

Apesar dos esforços do relator, ministro Joaquim Barbosa, para acelerar o processo - e de fato, apesar de já terem corrido três anos, o processo do mensalão está acelerado pelos padrões do Supremo -, o julgamento só deverá ocorrer no fim deste ano ou no início de 2012.

A complexidade do caso e o grande número de envolvidos (38 réus) fizeram com que o procurador-geral da República na época, Antonio Fernando de Souza, só formulasse a denúncia perante o STF em abril de 2006, que viria a aceitá-la em agosto de 2007.

Barbosa tem conseguido, com o apoio de seus pares no Supremo, evitar boa parte dos recursos protelatórios, utilizados especialmente por dois dos réus: o ex-deputado Roberto Jefferson, que detonou o episódio ao denunciar o mensalão em uma entrevista à "Folha", e o empresário Marcos Valério.

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Não consigo ver onde se caracteriza a perda de poder do Congresso com a aprovação do projeto de lei que define a regra para o aumento do salário mínimo até 2015.

A Câmara estabeleceu que o governo deverá aumentar o mínimo com base no crescimento do PIB dos dois últimos anos e mais a inflação do período anterior de 12 meses. Ao governo caberá apenas colocar os números dentro dos parâmetros definidos pelo Congresso.

Entendo, no entanto, que há problema técnico na decisão, que a torna inconstitucional. Como, pela Constituição, é uma lei que deve definir o salário mínimo, um decreto não pode substituí-la. Provavelmente o governo terá que fazer aprovar uma lei delegada no Congresso, que exige um quórum maior.

Embora tenha uma ampla maioria, é possível que essa discussão traga problemas para o governo, se o clima ficar muito emocional com acusação de que o Congresso está abrindo mão de suas prerrogativas.

É possível também que esse dispositivo do projeto do mínimo nem vá a votação no Senado, pois, enquanto está em tramitação, qualquer senador pode pedir ao Supremo que o retire de pauta até que sua constitucionalidade seja decidida.

FONTE: O GLOBO

O poder de Dilma:: Fernando Rodrigues

A votação do salário mínimo comprovou na prática o já conhecido em tese. Dilma Rousseff começa seu mandato com mais poder real sobre os congressistas do que os seus dois antecessores imediatos, Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

O tucano FHC estava no auge ao tomar posse, em 1995. Surfava na onda do Plano Real. No dia 19 de abril daquele ano, a Câmara votou um projeto de lei elevando de R$ 70 para R$ 100 o salário mínimo. Era um ganho inédito de 42,9%. O Planalto venceu na única votação nominal naquela data com o apoio de 339 deputados -o PT e a oposição queriam uma correção diferente no valor das aposentadorias.

Oito anos depois, o petista Lula aumentou o salário mínimo de R$ 200 para R$ 240. Ou seja, uma correção de 20%. Tucanos defendiam R$ 252. Perderam. O Planalto ganhou na Câmara, em 28 de maio de 2003, com 278 votos a favor.

Nesta semana, como se sabe, Dilma Rousseff obteve 361 votos e barrou a proposta da oposição de elevar o salário mínimo a R$ 560. O valor ficou em R$ 545, como desejavam a presidente e sua equipe.

Em percentuais, Dilma começa sua vida de presidente com 30% mais apoio do que Lula e 6% a mais que FHC -na Câmara. Pode-se argumentar que esse apoio é relativo, pois trata-se só do início do mandato. Ou que os partidos aliados vão agora cobrar a fatura na forma de cargos e emendas ao Orçamento. E que tudo depende de como estará a economia nos próximos meses.

É verdade. Mas também é inegável a existência de uma taxa de conforto muito maior para Dilma do que a desfrutada por seus dois antecessores. Resta saber o uso que a presidente fará de todo esse poder.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Oposição que não se explica, complica-se:: Wilson Figueiredo

Errou redondamente quem imaginou Lula com o polegar na cava do colete, estilo que já foi moda de executivos vitoriosos, quando se encerrou a primeira etapa do mensalão: por saber negociar e esperar, o ex-presidente foi o único que saiu inteiro do episódio. E, passados os anos, reconhece com modéstia que eram do seu conhecimento as práticas abomináveis que macularam seu primeiro mandato. Coisas da política. No segundo, enquanto o comitê histórico do PT assumiu as suspeitas, o ex-presidente foi soberano, mas não quis saber mais de sócios e correu sozinho os riscos da candidatura Dilma Rousseff. Um feito memorável, a despeito dos meios de que se valeu e que ainda virão à luz do dia.

Refeitos os cálculos relativos ao primeiro, e confrontados com os do segundo mandato, a oposição não terá dificuldade em chegar à conclusão de que perdeu as oportunidades de conter Lula e confiná-lo como se faz, em caráter experimental, com peru deixado num círculo de giz. O ex-presidente é múltiplo em soluções e único, quando se trata de política. Assim, a história será contada de acordo com as conveniências. O episódio que degradou à história marginal da República, sob o título de mensalão, sobreviverá ainda que seja como prova de que as soluções por fora das urnas se esgotaram.

O mensalão, que não expõe tudo que com ele se praticou, ainda permite ao ex-presidente, por falta de arremate judicial, jogá-lo no colo da oposição e faturar o efeito sobre a parcela da opinião pública que sempre fica para trás. Esta oposição, por inércia ou pelo desconforto de contar três mandatos presidenciais, se candidata a ser uma das mais tíbias de todas as que não deram conta da missão conferida às minorias.

O eleitorado que apostou 64 milhões de votos na sucessão parece à disposição de alguma solução mágica, devidamente eqüidistante entre o golpismo bordado de retórica e uma inimaginável rendição do petismo às graças da social-democracia. Nem um nem outra. Uma oposição que não se explica – como diria o Chacrinha – se complica.

A iniciativa de bater à porta do Judiciário para salvar a face na questão do salário-mínimo, legado do passado, não mostra eficácia imediata. Teria de esperar pelas calendas gregas que, feliz ou infelizmente, não existiram na Grécia nem nod prestam favores. Não percebeu o sonolento oposicionismo que por aqui se pratica a hora de partir para uma solução superior, com uma proposta de pacto moralizador por cima dos costumes republicanos afrontados pelo despudor do enriquecimento pessoal. De alguma forma, os proventos do mensalão poderiam ser relativamente equiparados, com todo o respeito, às cenas dos catadores de lixo como categoria política que, em vez de ser o começo, deve responder pelo fim de uma etapa histórica inferior.

Compete à oposição situar-se em nível decente, onde há espaço disponível, sem ressentimento de perdedor, e provar que a social-democracia – pelo menos em teoria - é um pacto entre o adjetivo e o substantivo como valores duradouros e, até surgir melhor, para semear exemplos já que não colhe vitórias duradouras.

Por enquanto, não é pelo que diz respeito ao ex-presidente Lula que a sucessão presidencial de 2014 pode interessar, mas pelo ânimo cívico dos 64 milhões de eleitores que dividiram os votos com a candidata vencedora. A questão será saber como se situarão no espaço político do novo governo, a ser avaliado e julgado à medida que projetar nos seus atos e nas decisões políticas o que não vier de Lula e, sim, de uma visão própria que só se revelará, na primeira pessoa, à medida que o ex-presidente for, relutantemente, se retirando para o fundo do palco. Não é uma incógnita, mas também não pode ser decifrada pelo lado oculto.

FONTE : JORNAL DO BRASIL

A praça Tahrir já não tem limites:: Clóvis Rossi

A revolta no mundo árabe/muçulmano disseminou-se de tal forma que a revista "The Economist", usualmente sóbria, não hesitou em colocar na roda até mesmo a Arábia Saudita, o bastião da ordem na região que se poderia chamar de Oriente Médio ampliado.

A revista elaborou um "índice de vulnerabilidade" e, de 1 a 10, cravou 7,3 como chances de que o país seja atingido pela onda de rebeliões, mais até do que a Líbia (6,7), que foi alcançada antes que o índice chegasse às bancas.

Não por acaso, o jornal preferido dos intelectuais palestinos, "Al-Ayyam", publica uma análise muito mais abrangente do que qualquer índice. Hassan Khader vai ao ponto de prever o início do fim do que se poderia batizar de "Ordem Saudita", imposta a partir dos choques do petróleo dos anos 70.

Como é essa "ordem"? Responde Khader: "Crentes contra infiéis, sunitas contra xiitas, muçulmanos contra cristãos. Tudo era engolido por uma luta entre absolutos religiosos emparedados no passado, que não deixava lugar para os partidos políticos, para os sindicatos ou outros engajamentos. No lugar deles, havia a figura do kamikaze, que se impunha como a última etapa da política rumo às esferas celestes".

Agora, prossegue o analista, a revolução tunisiana e a egípcia "fizeram a política descer de novo à Terra". Reconvertidos em cidadãos, os vassalos dizem "basta ao soberano, não porque ele seja pouco crente nem porque vendeu a Palestina, mas porque ele não lhes assegurou nem o pão nem a liberdade".

Essa mesma característica de fim de uma época é ressaltada por James Le Sueuer, professor de história da Universidade de Nebraska, em artigo para a "Foreign Affairs".

Mas Le Sueuer prefere ver nos eventos que se desdobram no mundo árabe/muçulmano o fim do que ele chama de "síndrome da desordem da era pós-colonial".

Significa que os autocratas do mundo árabe aderiam a uma filosofia de governo fora de moda, "de acordo com a qual o autoritarismo é a única cura para desafios políticos internos ou externos".

Também o filósofo argelino radicado na França Sami Naïr, em artigo para "El País", trata de uma nova ordem, caracterizada pela entrada em cena da juventude.

"Esta geração não pertence a nenhuma tradição, nacionalista árabe ou religiosa. Sua cultura política não é herdada do passado e, sim, provém mecanicamente da insuportável contradição entre a liberdade negada na vida cotidiana e a liberdade extrema de que os jovens desfrutam na internet, no Facebook, no twitter, nos SMS etc."

O que todos estão querendo dizer, no fundo, é que as categorias analíticas geralmente utilizadas para tratar do Oriente Médio tendem a ficar obsoletas, como sempre ocorre no momento em que uma dada era está morrendo e outra tenta nascer, a fórceps.

Afinal, os gritos por mudança atingem países pró-ocidentais (Egito, Bahrein), países de forte nacionalismo árabe (Líbia), de predomínio religioso e anti-Ocidente (Irã), razoavelmente laicos (Tunísia) -e têm sido, invariavelmente, contra os governantes locais, não contra potências estrangeiras.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Os pontos do G-20:: Míriam Leitão

O G-20 parece mais com o mundo atual, mas suas contradições vão levá-lo sempre a impasses. O mundo dos velhos ricos que se reuniam no G-7 era de uma simplicidade que parece tosca hoje: Estados Unidos, Japão e alguns europeus tomavam decisões que os favoreciam contra os outros. Hoje, os outros entraram, mas mesmo entre os recém-chegados no clube há contradições.

Se o assunto é desequilíbrio cambial, o Brasil não pode se alinhar nem com a China nem com os Estados Unidos. A China, ontem, deu mais um apertinho no compulsório dos seus bancos, mas o yuan se valoriza a passos lentos, controlados pelo governo, e sua política é a parte mais relevante do desequilíbrio. O Japão disse que o G-20 está dividido ao meio sobre o uso de indicadores de taxas de câmbio para medir desequilíbrios macroeconômicos, ou seja, não apenas a China se opõe à interferência externa na fixação da política cambial. Os Estados Unidos despejam dólares através da recompra de títulos americanos e esse fenômeno que os economistas chamam de "relaxamento quantitativo" da política monetária americana derruba mais o dólar.

Mais dinheiro circulando está ajudando a retomada da economia americana, que é o que o governo dos Estados Unidos quer. Isso ajuda o mundo, de certa forma, porque, afinal, a economia americana mesmo combalida ainda tem um PIB que é o triplo da segunda maior economia do mundo.

A retomada americana é magra em criação de empregos e perigosamente forte na recuperação das bolsas. Nada explica uma recuperação tão forte como a que está acontecendo na mercado de ações dos Estados Unidos. O S&P, uma das medidas da Bolsa de Nova York, dobrou de valor em 23 meses. É a duplicação de valor mais rápida da história do índice, que existe desde 1957. Desde o fim da depressão de 1929, nos anos 32 a 35, é a temporada de corrida mais forte para o mercado de ações. Na bolha dos anos 1990, a bolsa levou três anos para fazer o mesmo percurso.
A alta da bolsa americana não é exatamente uma boa notícia. Primeiro, porque a economia do país ainda está afundada em déficit público, o mercado de trabalho fraco denuncia que as empresas, mesmo se recuperando, não acreditam na sustentabilidade desse crescimento, tanto que não empregam. Ou seja, a economia americana não está essa Coca-Cola toda. Parte da alta é fuga de capitais da Europa com medo da crise da dívida europeia. Parte da alta é turbinada pela inundação de dólar da política que nos afeta aqui, derrubando o valor da moeda americana. O que está se formando tem mais a cara de bolha do que a de recuperação (veja o gráfico abaixo do S&P500).

Quando o assunto é preço de commodities, de novo, não pode haver base para qualquer consenso entre as partes que se reúnem no G-20. A França quer controle de preço de matérias-primas, mas a alta é em parte provocada pelo crescimento chinês, e para países exportadores desses produtos, como o Brasil, não é conveniente qualquer tipo de controle desses preços. Os Estados Unidos, que exportam alimentos, também não querem teto de preços. A França diz falar em nome dos pobres, ao advogar controle de preços de commodities agrícolas, mas foi a política de forte subsídios que matou parte da agricultura africana, como o caso relatado pelo embaixador Rubens Ricupero: a produção de tomate do Senegal foi dizimada pelo tomate francês e italiano subsidiados.

O presidente do Banco Central chinês avisou que os países e organizações internacionais deveriam estudar uma forma de controlar os fluxos de capitais especulativos, mas a verdade é que ninguém sabe muito bem como fazer isso. O presidente do Fed, banco central americano, Ben Bernanke, concordou inteiramente e disse que esse fluxo está colocando em risco a estabilidade global e culpou esses fluxos pela crise de 2008. O capital sem pátria e sem controle foge atrás de retornos altos, exacerbando os movimentos de desequilíbrio. Se as commodities estão em alta pela demanda, eles correm para lá e elevam ainda mais a alta; se um país paga juros altos, como o Brasil, eles correm para cá e elevam mais o valor da moeda local; se há incertezas novas no Oriente Médio, como agora, eles forçam novas bolhas em vários mercados. O Brasil já passou três trancas na porta e nada funcionou porque o capital de curto prazo continua entrando.

No G-20, as alianças e conflitos se formam e se desfazem com muita rapidez. Não é mais o mundo dos emergentes contra os ricos velhos. Subgrupos de acordos e divergências se formam dependendo do tema, do enfoque, da solução, da proposta.

Uma coisa parece certa: todos eles juntos, brigando brigas localizadas, não conseguem ver toda a cena do verdadeiro risco: novas bolhas estão se formando na ressaca da crise de 2008, fingindo ser apenas recuperação.

FONTE: O GLOBO

Willie Sutton chorou :: Paul Krugman

Há três coisas que você precisa saber quanto ao atual debate sobre o Orçamento dos Estados Unidos.

Primeiro, ele é essencialmente fraudulento. Segundo, as pessoas que adotam linha dura contra o deficit estão fingindo. Terceiro, embora o presidente Obama não tenha evitado de todo o recurso às fraudes, ele não é tão ruim quanto seus oponentes -e merece muito mais crédito do que está recebendo em termos de responsabilidade fiscal.

Quanto ao debate fraudulento. No mês passado, Howard Gleckman, do Centro de Política Fiscal, descreveu o presidente como o "anti-Willie Sutton", em menção a um famoso assaltante que supostamente declarou que roubava bancos porque era lá que ficava o dinheiro.

De fato, Obama vem tentando obter dinheiro onde ele não está, ressaltando um congelamento dos gastos optativos não relacionados à segurança, que respondem por apenas 12% do Orçamento federal. Mas isso é o que todo mundo faz.

Ao proporem cortes pesados e imediatos nos gastos, os republicanos não só estão procurando dinheiro onde ele não está como procuram dinheiro quando ele não está. Uma redução pesada nos gastos enquanto a economia continua em depressão é receita para um crescimento econômico mais lento, o que significa menor arrecadação tributária.

Portanto, todo o debate orçamentário é uma trapaça. Os republicanos da Câmara, especialmente, estão tirando comida da boca das crianças -a assistência nutricional a mulheres grávidas e a crianças pequenas é um dos itens em seu projeto de cortes- para que possam posar como inimigos do deficit. Que forma tomaria uma abordagem séria quanto aos nossos problemas fiscais? Posso resumi-la em quatro palavras: saúde, saúde, saúde e arrecadação.

Disse "saúde" e não "benefícios". As pessoas em Washington frequentemente falam como se a previdência social e os programas federais de saúde Medicare e Medicaid fossem a mesma coisa e depois se concentram em ideias como elevar a idade mínima para aposentadoria.

Mas isso é mais um modo de tentar obter dinheiro onde ele não está. Projeções sugerem que os gastos com programas de benefício importantes subirão fortemente nas décadas vindouras, mas que o grosso da alta virá dos programas de saúde, não da previdência.

Por isso, qualquer pessoa que queira tratar com seriedade o Orçamento deveria se concentrar acima de tudo na saúde. E por "concentração" não quero dizer simplesmente escrever um número e esperar que alguém mais faça com que ele aconteça -truque conhecido como "asterisco mágico". É necessário propor medidas específicas de contenção de custos.

Sob esse padrão, a Comissão Simpson-Bowles, cujo trabalho vem sendo tratado como se fosse o padrão-ouro da seriedade fiscal, na verdade sofria de profunda falta de seriedade. Seu relatório era "um grande asterisco mágico", disse Bob Greenstein, do Centro de Prioridades Políticas e Orçamentárias, a Ezra Klein, do "Washington Post".

O mesmo se aplica à muito alardeada proposta do deputado Paul Ryan de substituir o Medicare por um programa de reembolso de gastos cujos valores de restituição ficariam sempre abaixo dos custos reais da saúde. O que acontecerá quando os idosos descobrirem que não têm como bancar um plano de saúde?

Que cara teriam medidas reais quanto à saúde? Incluiriam coisas como criar uma comissão independente com o poder de garantir que o Medicare banque apenas o custo de procedimentos com valor médico real; recompensar os provedores de saúde pela qualidade do tratamento que oferecem, em lugar de lhes pagar uma soma fixa por procedimento; e limitar a dedução tributária do custo de planos de saúde.

O que essas coisas todas têm em comum? São todas parte do projeto de reforma da saúde aprovado no ano passado. Por isso digo que Obama não recebe o crédito merecido.

Ainda que consigamos conter os custos da saúde, continuaremos a ter um problema de deficit em longo prazo. Isso me conduz à quarta palavra do meu sumário sobre as verdadeiras questões fiscais: quem leva o deficit a sério deveria estar disposto a considerar a redução dessa disparidade, nem que parcialmente, por meio de impostos mais altos.

O resumo, portanto, é que embora a questão do deficit domine as notícias, não temos um debate real.

É tudo som, fúria e pose, o que nos diz muito sobre a seriedade dos políticos, mas nada significa em termos de redução real do deficit.

Paul Krugman, 57, é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do "New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA).

FONTE FOLHA DE S. PAULO

Estipular, definir e delimitar a ação do Estado :: Marco Maciel

“Por que alguns governos democráticos têm bom desempenho e outros não?”, indaga o cientista político Robert Putman na obra Comunidade e democracia, cujo objetivo é contribuir para a compreensão do modo como as instituições formais influenciam a prática da política e do governo. Disso decorrem outras perguntas: “Mudando-se as instituições, mudam-se também as práticas? O desempenho de uma instituição depende do contexto social, econômico e cultural? Se transplantarmos as instituições democráticas, elas se desenvolverão no novo ambiente, tal como no antigo? Ou seria que a qualidade de uma democracia depende da qualidade de seus cidadãos e, portanto, cada povo tem o governo que merece?”.

O debate político em nosso país há muito carece não só de racionalidade, mas também de análises consistentes, que justifiquem propostas de mudanças capazes de transformar, mais do que a forma, a substância de nossas instituições.

As crises políticas que desde o advento da República têm perturbado os avanços do regime democrático entre nós não foram menos inquietantes que as dificuldades econômicas que atravessamos, de modo particular nas fases de descontrole inflacionário. No decurso dos primeiros 100 anos da República, infelizmente, tivemos poucos períodos em que conseguimos conciliar normalidade política, estabilidade econômica e, como consequência, desenvolvimento social.

O imediatismo das reformas malconcebidas e a ausência de um projeto nacional que transcenda a transitoriedade dos governos para se fixar na permanência de interesses têm restringido o debate político e parlamentar à questão social. É consabido que as reformas políticas de que o Brasil necessita pressupõem tanto o saneamento das práticas e dos processos correntes quanto a mudança da legislação. Mais: avulta evidente que o fundamental é também promovermos reformas institucionais, estas de alcance muito além dos desejados aperfeiçoamentos no território dos sistemas eleitoral e partidário. Impõe-se consolidar instituições que tenham as virtudes de atender às aspirações da sociedade, mais do que de partidos, entidades e grupos que gravitam em torno da política, por legítimos que sejam seus interesses.

Cabe, a propósito, mencionar publicação que centrou seu objetivo especificamente no problema institucional: Sistemas partidários em novas democracias: o caso do Brasil, trabalho de Scott P. Mainwaring, editado no fim do século passado. No capítulo 10, o professor norte-americano analisa o impacto das instituições na reforma de políticas. Para ele, as instituições brasileiras — das quais o sistema partidário é uma das âncoras — têm um efeito contraditório: algumas fomentam e outras põem obstáculos às mudanças. A razão disso é termos sido, segundo ele, um país retardatário na estabilização da economia — obtida, observo, somente na década passada com o Plano Real, coordenado por Fernando Henrique Cardoso — e na reforma do Estado.

Pode-se discordar de alguns argumentos dos livros aqui invocados. Pode-se não concordar com algumas de suas afirmações e, igualmente, desprezar as conclusões de ambos. O que não se deve é deixar de considerar que a questão institucional no Brasil continua em aberto. Reduzir as sucessões presidenciais a promessas e propostas de salvacionismo pode ser um recurso ou um subterfúgio. Este, aliás, mais do que aquele. O resultado é a crise institucional que vivemos nos últimos anos, sem precedentes em nossa evolução política e cujo principal produto foi a deterioração ética.

Enfim, é preceito fundamental de todo regime democrático que o Estado esteja a serviço da sociedade e não a sociedade a serviço do Estado. Os resquícios do Estado onipotente continuam a negar à totalidade dos cidadãos os direitos inalienáveis de desfrutar da liberdade que conquistamos, mas não da igualdade a que aspiramos. Estipular, definir e delimitar a ação do Estado em face da sociedade deve ser a primeira das reformas institucionais necessárias a uma efetiva democratização do Estado brasileiro.

Membro da Academia Brasileira de Letras. Foi senador, vice-presidente da República, ministro da Educação, ministro-chefe da Casa Civil e governador de Pernambuco

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Lá vem o Patto!:: Urbano Patto

O barulho foi grande, a movimentação imensa, as pressões enormes, a mobilização gigantesca, e por fim: a montanha pariu um rato! O novo governo conseguiu barrar o aumento real do salário mínimo.

Quanta capacidade de convencimento e quanta vontade política mobilizada para fazer valer uma pauta negativa. Não teve CUT, nem Força Sindical, nem lideranças outrora combativas a elas ligadas, nem ministro “trabalhista” e muito menos oposição que conseguissem, ao menos, abrir possibilidades de negociação para um aumento maior.

Enquanto isso, na mesma semana lê-se as notícias: aumento de capital para BNDES de R$ 6,4 bilhões, para a Caixa Federal de R$ 2,2 bilhões; cobertura do rombo Banco Panamericano de 4,5 bilhões, leilão de “swap reverso” pelo Banco Central de RS 1,47 milhão - num único dia; Banco Central ameaça a elevação da taxa de juros em, no mínimo, mais 0,5 pontos percentuais.

Quiséramos nós que essa impressionante capacidade de mobilização e essa acachapante maioria fossem dirigidas para reformas que o Brasil necessita com urgência, por exemplo:

A reforma tributária, que aumente a base de arrecadação, diminua as alíquotas individuais, desonere as exportações, acabe com a incidência em cascata dos impostos, aumente a participação no bolo da arrecadação dos municípios, que são no final quem presta a imensa maioria dos serviços públicos essenciais à sociedade.

A reforma trabalhista que faça com que seja interessante ao empresário, ao autônomo, ao clandestino formalizar sua relação de trabalho, reduzindo o custo da contratação da mão de obra e gerando mais postos de trabalho e aumentando a arrecadação da previdência social.

A vista dessas constatações, independentemente da coloração partidária, o que temos visto, de maneira despudorada e pornográfica, é a prevalência total e absoluta da lógica financista da ação dos poderes públicos. Nem a grande crise de 2008 e 2009 parece ter sacudido suficientemente a sociedade e os dirigentes políticos que a representam para que coloquem freios nessa ciranda. O mercado financeiro deve servir ao desenvolvimento econômico e não servir-se dele e da sociedade para se autoalimentar incessantemente.

Essa história de que o aumento reduzido do salário mínimo seria um ato de extrema responsabilidade fiscal, não passa de um conto da carochinha. O que há é uma escolha clara: quando os ventos sopram a favor até que dá para fazer cortesias para com os mais pobres, porém, quando há nuvens cinzentas no horizonte e as eleições já passaram ...

Mas, dinheiro para sustentar títulos públicos e inversões no mercado financeiro e lastrear as mais altas taxas de juros do mundo nunca falta.


Urbano Patto é Arquiteto Urbanista, Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional e membro do Conselho de Ética do Partido Popular Socialista - PPS - do Estado de São Paulo. Críticas e sugestões: urbanopatto@hotmail.com.


FONTE: JORNAL DA CIDADE - PINDAMONHANGABA/SP

A marquise e as enchentes:: Paulo Pinheiro

Rio - Com os olhares do mundo voltados para o Brasil e mais especificamente para o Rio de Janeiro, uma pergunta se faz necessária: será que estamos preparados para transmitir tranquilidade e segurança para nossos cidadãos e nossos turistas?

Se criamos uma boa expectativa ao conquistar o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, esse jogo acaba de se inverter com as tragédias na Região Serrana do Rio e com mais uma previsão de aumento nos custos da reforma do Maracanã.

As últimas informações indicam que as obras no Maracanã devem chegar à exorbitante cifra de um bilhão de reais e sofrer um novo atraso. Segundo o consórcio responsável pela obra, a estrutura da cobertura possui sinais de deterioração alterando o planejamento inicial. Com isso, a utilização do estádio na Copa das Confederações de 2013, torneio que funciona como teste para o mundial, ficou ameaçada.

O mais impressionante é que o ‘outrora maior estádio do mundo’ vem sendo alvo constante de reformas. Foram mais de R$ 100 milhões gastos em 1999 e outros R$ 200 milhões em 2006 e, mesmo assim, uma estrutura perigosa se encontrava sobre a cabeça de todos nós, torcedores.

Já os moradores da Região Serrana não tiveram a mesma ‘sorte’ dos torcedores cariocas e continuam contabilizando seus mortos. Mesmo com os avisos de Angra dos Reis e do Morro do Bumba, em dramáticos episódios ano passado, as autoridades continuaram com uma conivência criminosa em relação às construções em áreas de risco.

O que ambos os casos parecem ensinar são duas importantes atribuições do poder público: a prevenção e a fiscalização. O antigo ditado que diz que ‘é melhor prevenir do que remediar’ é uma grande verdade e deveria ser adotado, sobretudo, pelos poderes Executivos.

Médico e vereador (PPS/Rio)

FONTE: O DIA

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Regimes ampliam repressão à onda de protestos pós-Egito

Embaixador na Líbia vai a cidade de confrontos, onde estão cem brasileiros

Governos de Bahrein, Líbia e Iêmen, três regimes autoritários que se tornaram foco de protestos após a queda do ditador egípcio, intensificaram a repressão a manifestantes nas ruas. No reino do Bahrein, os militares abriram fogo contra a multidão que desafiou o estado de emergência, e há relatos de quatros mortos e mais de 50 feridos. Numa demonstração de força, o ditador líbio Muamar Kadafi desfilou em carro aberto por Trípoli, mas fontes opositoras denunciaram a morte de 50 pessoas em quatro dias de confrontos. O Embaixador do Brasil na Líbia vai a Benghazi para verificar a situação de cem funcionários da construtora Queiroz Galvão. Segundo a a embaixada, todos estão bem, N Egito, centenas de milhares voltaram à Praça Tahrir para comemorar uma semana sem Mubarak.

Itamaraty manda embaixador a Benghazi

Cem brasileiros estão na cidade, foco das tensões

O embaixador do Brasil na Líbia, George Ney de Souza Fernandes, irá a Benghazi, principal foco das manifestações, para se reunir com representantes da comunidade brasileira. Há pelo menos cem brasileiros na cidade, funcionários da Queiroz Galvão que trabalham na construção de casas e prédios.

- Todos os brasileiros estão bem. Entramos em contato com eles e disseram estar longe dos protestos - contou, por telefone, Rosemary Manhus, funcionária da embaixada.

Há cerca de 500 brasileiros na Líbia, a maior parte em Trípoli, a serviço de empresas como Petrobras, Odebrecht e Andrade Gutierrez. Mas nenhum foi afetado pelos protestos, segundo a embaixada.

A Queiroz Galvão contou ter 130 funcionários na Líbia e que "acompanha a evolução dos acontecimentos". A Odebrecht, que tem 5 mil funcionários, sendo 200 brasileiros, disse que "o clima em Trípoli é de tranqüilidade" e que as obras de expansão do Aeroporto Internacional de Trípoli e da construção do terceiro anel viário estão normais. A Andrade Gutierrez - que tem projetos de água, esgoto e pavimentação na capital - "acompanha a situação".

Em nota, o Itamaraty disse que o governo brasileiro acompanha com apreensão a situação na Líbia e repudia os atos de violência que resultaram nas mortes de civis.

Kadafi desfila e recorre à força contra revolta

Segundo opositores, mortes chegam a 50. Mobilização popular antes concentrada no leste chega ao sul da Líbia

TRÍPOLI. Numa demonstração de força, o presidente líbio, Muamar Kadafi, desfilou ontem em carro aberto pelas ruas de Trípoli, sendo cumprimentado pela multidão. Mas os relatos que conseguiram driblar o bloqueio do Estado e chegar ao exterior mostram que a situação não é tão calma para o líder árabe há mais tempo no poder. Fontes opositoras relataram as mortes de 50 pessoas em quatro dias de confrontos com milicianos e policiais. Os funerais transformaram-se em novos e violentos protestos, com prédios do governo e carros incendiados, no que parece ser o mais sério desafio aos 42 anos do regime Kadafi.

Não está claro se o regime pretende fazer concessões, mas um site ligado a um dos filhos de Kadafi anunciou ontem que o Congresso suspendeu as sessões por tempo indeterminado e que adotará "medidas para reformar o governo" quando retornar. O jornal "Quryna" disse ainda que executivos em estatais devem ser substituídos.
- Não queremos outro líder senão Kadafi - gritava uma mulher diante do carro do ditador.

Paramilitares abrem fogo em Benghazi

Os protestos teriam levado a Líbia, que ocupa a presidência rotativa da Liga Árabe, a adiar a reunião marcada para março. As manifestações se concentram no leste do país, mas ontem chegaram ao sul e mesmo à capital, Trípoli, onde jovens protestaram no fim da tarde. O forte controle sobre as comunicações impede a confirmação dos fatos. À tarde, a internet também foi bloqueada. A organização Human Rights Watch conseguiu confirmar 24 mortes nos confrontos de quarta e quinta-feira, enquanto opositores citavam ontem pelo menos mais 23 em al-Bayda.

- Os ataques das forças de segurança a manifestações pacificas mostram a realidade do brutal regime de Muamar Kadafi - disse Sarah Leah Whitson, diretora da Human Rights Watch para o Norte da África.

Soldados foram enviados aos principais focos de protestos - como Benghazi, segunda maior cidade da Líbia - e mercenários de língua francesa foram vistos atacando manifestantes. Na cidade, onde o ditador tem menor apoio, milhares saíram às ruas carregando os corpos dos mortos na véspera, enquanto paramilitares dos Comitês Revolucionários, à paisana, abriram fogo contra a multidão.

Em al-Bayda, testemunhas viram a chegada de unidades especiais de milicianos. Segundo relatos, policiais, que pertencem à mesma tribo da população, se uniram aos manifestantes para impedir o ataque da milícia. Os manifestantes teriam destruído a pista do aeroporto para evitar o envio de soldados.

- Eu vi imigrantes africanos e vi tunisianos entre os milicianos - contou uma testemunha em al-Bayda.

Para evitar os protestos, o governo usou várias estratégias: cortou água e luz, e fez promessas em Zentan: "Podemos dar tudo o que precisarem", diziam funcionários com altofalantes. Apelou ainda para a intimidação: "Quem quer que tente violar as diretrizes estará cometendo o suicídio e brincando com fogo", dizia o jornal "Az-Zahf Al-Akhdar", ou a marcha verde. Verde é a cor que o Coronel Kadafi adotou para o que chama de revolução, sistema criado após tomar o poder em 1969, no qual ele seria um cidadão comum, mas que de fato tem o poder absoluto, com um forte culto à personalidade, controle da mídia e um impressionante aparato de segurança.

Filho de um pastor beduíno, ele chegou ao poder com um golpe militar em 1969. Foi acusado pelo Ocidente de ter ligações com o terrorismo, principalmente após a explosão de uma bomba num voo da Pan Am, em 1988, sobre a Escócia, o que gerou sanções à Líbia. O caminho de volta começou em 2003, após o país abandonar o programa de armas proibidas e assumir a responsabilidade pelo atentado.

No Irã, multidão pede forca para opositores

Milhares saem às ruas para apoiar regime de Ahmadinejad, que aumenta cerco às residências de Karroubi e Moussavi

TEERÃ. Depois de reprimir com violência um novo protesto da oposição no início da semana, o governo do Irã contra-atacou e levou milhares de simpatizantes às ruas de Teerã para declarar seu apoio ao regime dos aiatolás. Atendendo à convocação do Conselho de Coordenação da Propagação do Islã, milhares deixaram as mesquitas após as orações de sexta-feira e marcharam pedindo a execução dos líderes opositores Mir Hossein Moussavi e Mehdi Karroubi - mantidos em prisão domiciliar e, segundo testemunhas, em condições cada vez mais difíceis.

Karroubi: "Derrubaram a república islâmica"

Mas, apesar das crescentes ameaças contra qualquer tentativa de articulação antigoverno, o aiatolá Ahmad Jannati - velho aliado do líder supremo Ali Khamenei e visto como integrante linha-dura do chamado Conselho dos Guardiões - afirmou que os opositores do chamado Movimento Verde tiveram sua reputação abalada.

- Aos que clamam pela execução deles, devo dizer que já foram executados. Perderam todo o prestígio e a credibilidade diante do povo iraniano. Sua comunicação deve ser completamente cortada. Eles não devem poder enviar ou receber mensagens. As linhas de telefone e internet devem ser cortadas. Devem ser prisioneiros em suas casas - afirmou Jannati, em sua prédica no campus da Universidade de Teerã.

Houve ainda manifestações de apoio ao governo de Mahmoud Ahmadinejad nas cidades de Arak e Ardabil, na província de Markazi. Os ativistas entoavam gritos de ordem como "Moussavi e Karroubi devem ser enforcados" e "Moussavi analfabeto, agente do Mossad", numa referência ao serviço secreto de Israel.

Na página de Mir Hossein Moussavi no Facebook, oposicionistas expressaram preocupação com o estado dele e da esposa Zahra - uma vez que as forças de segurança do governo expulsaram os guarda-costas particulares e mantêm a residência isolada. Segundo o site Jaras, desde quarta-feira os oficiais impedem que as três filhas do casal visitem os pais.

Já Mehdi Karroubi disse estar disposto a enfrentar um julgamento e, sem hesitar em desafiar o regime, disparou:

- Este governo não é mais uma república, nem é islâmico. Esses senhores derrubaram a república islâmica há muito tempo.
FONTE: O GLOBO

Brasil, aliado de Teerã

Para Patriota, estratégia visa a reduzir tensões

Carolina Brígido

BRASÍLIA. O ministro das Relações Exteriores Antonio Patriota disse ontem que o Brasil manterá uma relação amistosa com o Irã, país que vem reprimindo manifestações antigoverno. Segundo ele, a relação faz parte da estratégia de "diminuir as tensões" do Irã com o resto do mundo. Em contrapartida, o ministro disse ter preocupação com países onde há pena de morte - e citou, como exemplo, a pena de apedrejamento, em vigor no Irã.

- O Brasil é um país sem inimigos que busca o diálogo com todos os quadrantes do globo. Consideramos que é interessante manter um diálogo com o governo iraniano, até mesmo para diminuir as tensões, porque o isolamento, às vezes, só exacerba o que já é uma situação preocupante e que pode levar a um conflito - avaliou Patriota.

A declaração foi feita na edição de ontem do programa de rádio "Bom Dia, Ministro". Patriota não considera que houve uma aproximação gratuita do Brasil em relação ao Irã durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

- O que eu acho que houve não foi propriamente uma aproximação com o governo do presidente Ahmadinejad, e sim um esforço de contribuir para a criação de confiança entre países como EUA e Irã, e contribuir para que houvesse uma solução diplomática para esta questão, que é uma das mais espinhosas da agenda internacional. Aliás, continua sendo esse o propósito da diplomacia brasileira - afirmou.

Pouco depois, ele disse que o país não apoia sanções aos países da região em crise por conta de manifestações populares.

- As sanções levariam a que resultados? Às vezes, as sanções só servem para exacerbar a situação interna.

FONTE: O GLOBO