domingo, 16 de dezembro de 2012

Tucano propõe explorar caso ‘com veemência’

BRASÍLIA - Enquanto o PT sai a campo para montar uma força-tarefa, escalando ministros e parlamentares para defender o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a gestão Dilma Rousseff - e, enfim levantar o moral da própria legenda - a oposição começa a perceber na crise do adversário uma oportunidade para se apre¬sentar ao eleitorado brasileiro como uma alternativa para as eleições de 2014.

O líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR), avalia que esta é uma oportunidade histórica para conseguir interromper a hegemonia do PT, no poder há três mandatos. "Os opositores terão que saber explorar essa crise com mais veemência. Ou o PSDB engrossa ou não sobe a rampa (do Palácio) do Planalto", resume o senador paranaense. Para ele, o discurso mais importante a ser adotado pelos oposicionistas na próxima eleição presidencial é o da "ruptura com essa fábrica de escândalos".

Dias avalia ainda que vai se diferenciar, junto à opinião pública, quem propuser "o fim do sistema vigente que promove o aparelhamento das instituições e faz do governo um balcão de negócios em benefício dos interesses do PT".

Outra estratégia que o sena¬dor tucano considera essencial a ser adotada na próxima disputa eleitoral é a do candidato que conseguir, independentemente da filiação partidária, apresentar-se como gestor eficiente do Poder Executivo porque, apesar da alta popularidade da presidente, a avaliação de serviços básicos como saúde, educação e segurança pública não agradam à população atualmente. Ele também ad¬mite, nesse cenário de 2014, a possibilidade de surgirem mais partidos lançando candidaturas próprias - entre elas o PSB, o PV e o PPS.

Receita. Segundo o líder do PPS na Câmara, deputado Rubens Bueno (PR), a melhor maneira de aproveitar o desgaste do PT é afinando, desde já, o discurso em torno de um postulante independente já no início do ano que vem, trabalhando sobre um projeto de governo criativo e baseado no conceito do "novo".

Em reunião de tucanos na semana passada, o senador e pré-candidato à Presidência Aécio Neves (MG) já lançou mão de um discurso pautado na ética e na moralização do poder público. Aécio foi apoiado em sua oratória pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que atacou a competência da gestão petista, destacando os feitos de sua administração.

Fonte: O Estado de S. Paulo

O petista que incomoda o PT

Criticado por alguns colegas de partido, mas respeitado até pela oposição, o ministro da Justiça não teme comprar briga com ninguém. Nem com Lula

Paulo de Tarso Lyra

José Eduardo Cardozo vai de Bach a Cícero, um dos três porquinhos imortalizados nas histórias infantis, com muita desenvoltura. Visto com ressalvas pelos petistas e aclamado como republicano pelos tucanos, pianista mais teórico que prático, são-paulino convicto e namorador inveterado, o atual ministro da Justiça foi um dos pilares da Operação Porto Seguro, que desbaratou a quadrilha que vendia pareceres jurídicos a empresários e que levou ao indiciamento de Rosemary Noronha, ex-chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo e muito ligada ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais uma rusga para Lula anotar na caderneta pessoal.

A primeira divergência entre os dois aconteceu em 1995, quando o então publicitário Paulo de Tarso Venceslau denunciou um suposto esquema de corrupção na prefeitura de São José dos Campos para arrecadar recursos para campanhas do PT. Segundo ele, Lula — que no ano anterior disputara pela segunda vez a presidência da República — sabia das irregularidades. Cardozo, que integrava com o ex-petista Hélio Bicudo uma comissão de sindicância da Executiva Nacional, insistiu em apurar o grau de conhecimento do fato do então presidente do PT. “Imagina, ele queria chamar o Lula para depor na sindicância. Claro que não caiu bem no partido”, confirmou um petista paulistano.

Ao Correio, Cardozo afirmou que não percebe esse grau de animosidade entre seus correligionários. “Posteriormente à comissão da qual fazia parte, a Comissão de Ética do partido ofereceu oportunidade de defesa aos investigados e chegou a conclusão diferente da que havíamos chegado. Entendo que isso é uma situação absolutamente normal dentro de procedimentos de investigação ética no âmbito de um partido”, declarou.

O status do ministro da Justiça também oscila dentro do partido. Questionado em 1995, ele participou de um momento marcante da legenda no fim da década de 1980. Recém-saído dos bancos universitários, ele foi um dos responsáveis pela redação do texto que justificou o fato de o PT não ter assinado a Constituição do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988. “Era um menino inteligente, redigiu o documento ao lado de Pedro Dallari e Sérgio Renault”, recorda o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), amigo de Lula há 40 anos. “Não sei de restrições pessoais de Lula a ele. Dizem que é porque o Cardozo jamais foi ministro quando Lula foi presidente. E daí? Mercadante (Aloizio Mercadante, ministro da Educação) também não foi”, comparou Devanir.

Cardozo viveu os altos e baixos que marcaram sua trajetória política com mais intensidade nas últimas semanas. Primeiro, afirmou em um seminário que as prisões brasileiras são medievais. Foi bombardeado, acusado de ter se pronunciado sobre o sistema carcerário apenas após seus correligionários terem sido condenados no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal. Depois, veio a Operação Porto Seguro, cuja devassa chegou ao gabinete da Presidência em São Paulo. Lula, mais uma vez, não gostou. “Ele teve uma atitude extremamente republicana e correta nesse episódio”, elogiou o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira (SP), ex-ministro da Justiça. “É um político correto, que sempre tratou a oposição como adversária, sem a arrogância típica de outros ministros e dirigentes petistas”, completa o senador Alvaro Dias (PSDB-PR).

O discurso provoca mais urticária no PT. “Ele sempre foi individualista e exibido. No caso da Máfia dos Fiscais, queria puxar para si todos os holofotes”, atacou um ex-companheiro de mandato na Câmara Municipal de São Paulo. “A investigação teve ampla cobertura da imprensa, com transmissão ao vivo da CPI da qual eu fui presidente. Isso deu notoriedade às pessoas que conduziam a investigação, inclusive porque se obtiveram resultados positivos com vereadores e deputados cassados, processados criminalmente e condenados”, defende-se Cardozo.

Depois de oito anos como deputado, Cardozo desiludiu-se com a política, com as formas de financiamento de campanha e decidiu abandonar as disputas por cargos eletivos. Foi convidado, em 2010, pela então candidata Dilma Rousseff, para compor a trinca de coordenação da campanha presidencial, ao lado de Antonio Palocci e José Eduardo Dutra, então presidente do PT. O trio foi apelidado de “Três Porquinhos”. Brincalhão, Cardozo disse que era o Cícero, deixando para Palocci o papel de Prático — o mais inteligente de todos. Passada a eleição, tornou-se ministro da Justiça. “Não sou candidato a nenhum cargo eletivo, mas apenas candidato a fazer um bom trabalho à frente do Ministério da Justiça”, disse ele ao Correio.

Fonte: Correio Braziliense

Eduardo alerta Dilma sobre 2013

"É preciso que Dilma ganhe 2013"

Entrevista - Eduardo Campos

"Ajudar a presidente Dilma Rousseff (PT) a ganhar o ano de 2013". Essa será a missão do PSB no próximo ano, segundo o presidente nacional da sigla, governador Eduardo Campos. Embora não canse de pregar a condição de aliado, o socialista não economiza nos alertas ao governo Federal sobre a necessidade de vencer a crise econômica. Cotado para disputar a Presidência da República já em 2014 ou em 2018, ele admite que poderá deixar o governo ao final do mandato.

"Eu tenho que fazer, em 2014, um diálogo com meus companheiros para saber qual será o papel que eu vou cumprir", diz. Nesta entrevista aos repórteres Gabriela López, Manoel Guimarães, Sérgio Montenegro Filho e Sheila Borges, Eduardo faz um balanço positivo da sua gestão em 2012, sem perder a oportunidade de alfinetar o governo Dilma. "Vamos (Pernambuco) crescer 4%, enquanto a expectativa do Brasil é de 1%", destacou.

JC - Embora o senhor não assuma, seu nome é cotado como presidenciável para 2014. Como vai se dividir na agenda de governante e de líder político nacional?

EDUARDO CAMPOS - Acho que a gente precisa fazer a leitura correta da conjuntura econômica e política que estamos vivendo. É preciso a gente ter um diálogo, que é um ingrediente fundamental para ganharmos 2013. Fazer um amplo diálogo nacional em torno dos mais elevados interesses da nação. Garantir o que nós construímos nos últimos 20 anos nesse país, o aprofundamento da democracia e o funcionamento das suas instituições, a estabilidade econômica e fundamentos macroeconômicos, a inclusão dos mais pobres à condição da cidadania. Tudo isso foi construção de gerações. É um vasto legado, e não podemos deixar tudo isso de lado, fulanizar o debate e pensar de maneira estreita.Tem que ter muito cuidado com o que é a disputa política que nega a realidade e os interesses do povo. Eu não vou entrar nessa discussão. Vou ajudar a presidente Dilma Rousseff (PT) e vou dialogar com gente do governo e da oposição para que em 2013 a gente tenha um pacto. Deixa a eleição para 2014 e vamos cuidar do país, retomar o crescimento econômico, discutir o pacto federativo, fazer o dever de casa. Não fará bem ao Brasil jogar o país numa luta insana numa conjuntura como essa. Hoje está se fazendo consenso entre as nações no conserto europeu, um diálogo entre republicanos e democratas para salvar os Estados Unidos. Nós acabamos uma eleição ontem e vamos montar quatro ou cinco palanques hipotéticos e começar uma briga sobre assuntos nada relevantes e deixar a quinta nação do Mundo submetida à essa lógica? Não tem nenhuma nação do tamanho do Brasil que esteja neste momento precarizando o debate como muitas lideranças no Brasil querem precarizar. Eu não vou fazer isso.

JC - O senhor disse que o PSB saiu da adolescência para a fase adulta nesta eleição. Seu partido tem estatura para disputar a Presidência da República em 2014?

EDUARDO - Não vamos discutir o Brasil nesses termos. Discutiremos pensando no Brasil, conversando seriamente, encontrando caminhos. A velha política e o velho debate não respondem mais ao Brasil do futuro. Precisamos ajudar a presidente Dilma a ganhar o ano de 2013. Se ela fizer isso, ganha o Brasil, ganha a própria Dilma e todos nós que temos um papel político vamos ganhar. Esse é o caminho.

JC - Esse seu discurso, apesar de justo, não deixa de aparentar ser também um discurso de candidato. O discurso do consenso, do pacto federativo, de ganhar 2013...

EDUARDO - Aí é interpretação de cada um, já não é comigo. Não posso fazer a fala e a interpretação dela (risos). Muita gente pode interpretar. Eu sei porque estou fazendo essa fala.

JC - O senhor passou um ano alertando que a unidade do PT era necessária para unir a Frente Popular no Recife. Isso não ocorreu, o PSB teve candidato e ganhou a eleição. E o senhor tem dado alertas a Dilma, ao PT nacional. São muitas coincidências...

EDUARDO - Mas lancei um candidato faltando três meses da eleição. Não fiquei discutindo eleição o tempo todo. E não se trata de alerta ao governo. O governo federal está alerta, está sabendo do que estou falando, até porque muitas dessas coisas que estou dizendo aqui eu já falei para a própria Dilma. Nós do PSB estamos efetivamente empenhados em ajudar a presidente a ganhar o ano de 2013. Isso é que é ser amigo. Amigo não é só aquele que fica dizendo só o que agrada ou puxando assunto de eleição. Tem gente que se diz amigo e só faz discutir eleição, o que encurta o mandato e atrapalha o debate sobre a pauta real. A pauta real é que leva às vitórias eleitorais. Eu aprendi a não me afastar da pauta real. Por mais que queiram me levar para a pauta artificial do microclima de quem está ali circulando em torno do factoide criado no online, isso pode animar a quem vive disso. Eu vivo da pauta real e com o pé no chão.

JC - O senhor defende o governo de Dilma. Mas, em Pernambuco, o PT tem batido no seu governo, apesar de ter secretários...

EDUARDO - Essa não é a pauta. A pauta é que estamos terminando um ano em que fizemos um maior nível de investimento, a educação levou a tecnologia para a realidade do ensino médio. Temos centenas de jovens fazendo intercâmbio no exterior, mais de 150 alunos em tempo integral, estamos tendo vitórias na segurança, consolidando transformações na economia, crescendo quatro vezes mais que o País. Essa é que é a pauta.

JC - Então existem duas pautas paralelas.

EDUARDO - A pauta que interessa ao povo é a pauta real. Eu nunca alimentei o debate político fora de hora e no ambiente errado. Respeito quem faz, quem acha que é certo fazer dessa forma. Agora, eu não tenho que fazer o debate na hora errada, no lugar errado e que as pessoas que estão equivocadas querem fazer. Tenho o direito de me reservar a fazer o trabalho que a população quer que eu faça.
JC - Tem um prazo para o senhor escolher quem seu candidato à sucessão em 2014?

EDUARDO - Não vamos tratar de 2014 antes de 2014 chegar. Não há a menor possibilidade. Fizemos dessa forma em 2008, 2010 e 2012 e ganhamos as três. Por que vou mudar a fórmula?

JC - Cumprirá o seu mandato até o fim?

EDUARDO - Essa é uma possibilidade real. Eu tenho que fazer, num determinado momento, em 2014, um diálogo com meus companheiros para saber qual será o papel que vou cumprir. Eu posso, em primeiro lugar, ficar, e não tem drama nenhum nisso. E posso sair. Saindo, deverei ter uma missão para justificar essa saída. E vocês acham que é possível decidir essa missão agora? Acaba de ocorrer a eleição de 2012, e absolutamente nada do que se discutiu nos partidos em 2011 aconteceu. Tem palpite para todo lado, só não tem o que foi o resultado da eleição. As coisas ganharam outra lógica.

JC - A deputada Terezinha Nunes (PSDB) foi seu grande calo no sapato no primeiro mandato. Ela retorna agora à Assembleia e promete a mesma oposição combativa. Espera ter muito trabalho com ela? Reza a lenda que o senhor teria vibrado quando ela não se reelegeu, em 2010...

EDUARDO - Não tem nada disso, isso não existiu. Eu já fui oposição e já fui governo. Temos que ter a capacidade de dialogar quando estamos na oposição e quando estamos no governo, e também respeitar as posições políticas das pessoas. Não tem que fulanizar. Sempre tivemos uma relação de respeito com a oposição. Tanto que muitas pessoas que nos fizeram oposição num determinado momento se sentiram completamente à vontade, e nós também, de estarmos juntos em outro.

JC - A vitória de Geraldo Julio no Recife o torna uma vitrine para o PSB?

EDUARDO - Nós tivemos um papel, dentro de uma circunstância política, de encontrar uma saída para a Frente Popular poder preservar os avanços que conseguimos fazer no Recife e fazer outros que estão sendo impostos pela vontade da sociedade. Essa foi nossa tarefa. Consertar uma saída. O conjunto desses partidos encontrou em um companheiro do governo entre os que a gente tinha tirado para oferecer à Frente essa capacidade, que foi Geraldo. E ele fez isso com muita dedicação e capacidade política e de reflexão. A tarefa agora é ajudá-lo a ajudar o Recife, a fazer as coisas que ele se comprometeu a fazer. Teremos um prefeito extremamente dedicado ao trabalho, aberto ao diálogo, focado no que tem que fazer. Todos nós vamos ajudar ele a fazer um trabalho à altura do que o Recife merece.

JC - O sucesso dele será o seu sucesso?

EDUARDO - Claro que para todos nós, moradores do Recife, o sucesso de Geraldo é o sucesso da vida das pessoas que querem melhoria no trânsito, na saúde, nas escolas. É óbvio. Eu vou continuar ao lado de Geraldo, ajudando ele a ser um grande prefeito do Recife. Eu sei o que eu disse à população do Recife durante a campanha, e vou fazer exatamente o que me comprometi. Ele me ajudou a ser governador, e vou ajudá-lo a ser um grande prefeito do Recife.

JC - O senhor sempre cita uma frase de seu avô, Miguel Arraes, que dizia que as pessoas querem as coisas, mas não sabem porque querem ser. Na sua visão, independente do seu caso, o que seria necessário para se ser ou se disputar a Presidência da República?

EDUARDO - Não vou cair em pegadinhas (risos). Vou citar o mesmo Miguel Arraes. Isso é algo de uma sabedoria, de um acúmulo de vida mais presente. E as pessoas que marcam com sua vida um coletivo são exatamente as pessoas que conseguem dizer coisas e dar exemplos que valem a qualquer tempo. A vida muda, as circunstâncias também, mas tem coisas que são fundamentais e valem como lição em qualquer momento. Essa palavra de doutor Arraes é muito presente hoje. Um gestor público que, com todas essas variáveis que temos hoje, imaginar chegar a um cargo público sem ter a estratégia, o pensamento, quando sentar, montar a equipe, olhar o orçamento, ver e responder os papeis que chegam todos os dias, a vida passou. Primeiro, você faz um debate empobrecido no processo eleitoral, porque o debate tende às futricas e você não ganha aliados na sociedade para o ato da governança. Para chegar o governo, é importante ter o apoio do povo, mas para governar também é fundamental o apoio do povo. Você precisa manter a liga, a relação, o apoio que são fundamentais para o êxito de uma gestão. É isso o que eu posso dizer.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

O fator Lula na eleição de 2014

A dois anos das eleições, as suspeitas que rondam o ex-presidente Lula são a esperança da oposição de se fortalecer para retomar o Palácio do Planalto. Mas, mesmo que os adversários consigam enfraquecer o maior líder do PT, precisarão vencer uma batalha adicional pelo caminho: o prestígio da presidente Dilma Rousseff.

Apesar de filiada ao PT e herdeira do legado de Lula, Dilma é apontada por analistas políticos como uma das potenciais beneficiárias em caso de perda de poder do ex-presidente. Menos compromissada com o projeto partidário do que o antecessor, Dilma vem conseguindo se descolar dos atos de corrupção atribuídos ao partido e a legendas aliadas, com a imagem de uma gestora rígida, que não tolera "malfeitos".

Paralelamente, na avaliação do professor Ricardo Caldas, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), as suspeitas abalam as pretensões de Lula de voltar ao Planalto em 2014.

– Até as pedras sabem que ele queria voltar, mas iria passar toda a campanha se defendendo, não teria condições – avalia o professor.

Mas ninguém imagina que Lula ficará fora da cena política: uma das hipóteses estudadas dentro do PT é o lançamento de sua candidatura a governador em São Paulo – num plano para quebrar o maior reduto tucano no país.

Fonte: Zero Hora (RS)


Absolvição sumária - Roberto Romano

Evitar a responsabilização de autoridades faz com que o Brasil se assemelhe a um Estado absolutista

Em artigo jocoso, "Apenasmente" Cajazeiras, o professor Eugênio Bucci analisou recentemente as acusações contra Luis Inácio da Silva. Ele compara o político popular ao personagem da novela O Bem-Amado, Odorico Paraguaçu. Boa dose de injustiça ressalta do texto, mas vários elementos devem nele ser levados em conta, como a crítica dos que eximem a priori o ex-presidente de toda responsabilidade pelos malfeitos cometidos em seu governo. Lula, escreve Bucci, "teria tudo para enfrentar com grandeza as denúncias que dele se aproximam, sobretudo as mais recentes. Em vez disso, prefere se refugiar no mito de si próprio, um mito que, convenhamos, além de precocemente instalado, é oco". Discordo da última frase e me apoio no antropólogo Malinowski: "O mito é um subproduto constante de uma fé viva que precisa de milagres, de um estado sociológico que tem necessidade de precedentes e de um código moral que exige uma sanção". A taumaturgia cortesã se opõe à racionalidade da ordem política e jurídica. Não existe mito oco ou inocente.

Dois pilares, na república democrática, garantem o direito e a liberdade. O primeiro é a transparência dos atos políticos. Tal princípio é reforçado pela norma segundo a qual em todo processo os fatos devem ser descritos à exaustão (quid facti), sem os obstáculos das seitas, partidos, governantes poderosos. Os tribunais e seus integrantes (polícia, ministério público, advogados de defesa) precisam apurar os atos, os documentos, os testemunhos para definir uma narrativa sólida, contrária ou favorável ao acusado, do humilde cidadão ao poderoso. Outro item é a busca de situar os fatos sob a lei que os sanciona positiva ou negativamente (quid juris). Na Constituição brasileira estão previstos os casos em que governantes, atuais ou pretéritos, devem responder perante a nação. Nenhum parágrafo afirma que um líder, por sua popularidade ou grandeza, deve escapar da pesquisa dos fatos e das normas jurídicas. A Constituição, no entanto, não é espelho fiel do que ocorre na política nacional. Falar no Brasil em responsabilização de grandes líderes é anátema que faz surgir de imediato, nos lábios de quem manda na esquerda e direita, a ladainha sobre a intangibilidade do acusado, sua condição de pessoa acima das outras. Semelhante traço oligárquico impede a soberania popular, gera os tutores do País.

Enquanto não existir responsabilização das "autoridades", o Brasil será um anacrônico e virulento Estado absolutista no qual o soberano jamais é o povo e sim o ocupante do trono e seus cortesãos. O gestor e o político não podem ter contra si nenhuma acusação ou dúvida. É o que manda a fórmula restritiva "ilibada reputação" (illibatus, no latim bem conhecido pelos nossos poderosos significa "íntegro", "completo"). Quando um prócer de qualquer partido ou ideologia sofre acusações que chegam à sociedade ele deixa - mesmo que inocente - de ser "ilibado", condição a que retorna se a Justiça assim o decidir. Quem paga impostos ou aceita obedecer às leis sob autoridades espera que os dirigentes sejam ilibados. Para manter um cargo é preciso que o funcionário, mesmo na chefia do governo, seja responsável e responsabilizado. Essa doutrina foi compendiada por John Milton e acolhida nas democracias: "Se o rei ou magistrado provam ser infiéis aos seus compromissos, o povo é liberto de sua palavra". (The Tenure of Kings and Magistrates).

É evidente que a imprensa não pode ser instância julgadora. Ela, não raro, abusa ao veicular acusações. Mas é também evidente que os julgamentos podem deixar de existir se atos que atentem contra o Estado e a sociedade não forem trazidos ao eleitor. Quando um político é acusado de negligência ou crime, para manter a fé pública o correto é investigar as denúncias até que prova cabal ou juízo as dissolvam. O político representa o Estado e deve ser íntegro. Caso contrário, desaparece a base legitimadora do poder que se regula pela democracia e se justifica pelo direito.

No Brasil, o poder público está sempre em crise, o que evidencia o frankenstein jurídico e institucional do nosso Estado. Apesar de sinais que anunciam melhorias na ordem política, como a lei de improbidade administrativa, a lei da ficha limpa, a lei de acesso à informação e outras, a fé pública é frágil entre nós. Combater a descrença da cidadania exige apurações isentas e responsáveis, sem truques afetivos e propaganda enganosa. A cada novo dia é preciso mostrar, por atos e palavras, que existe compromisso ético. Sem tais atitudes públicas e particulares, a governabilidade é impossível. Estado desprovido de fé pública não pode ser um regime livre e responsável.

A governabilidade tem como pressuposto a obediência, pela cidadania soberana, das leis elaboradas no Parlamento e destinadas à execução pelo governo. Se os eleitores não podem confiar na abrangência universal das referidas normas, se existe suspeita de que elas não valem para todos e para cada um dos cidadãos, se existem pessoas acima da lei, some a governabilidade. Bismarck dizia que duas coisas o cidadão ignora porque, caso contrário, jamais aceitaria: o modo pelo qual são produzidas as salsichas e as leis. Ele usa a figura médica antiga que une o poder político ao "regime". As leis alimentam o corpo político e devem ser controladas pelo juízo público. Este último requer ética e decoro dos políticos, estejam eles no poder ou fora dele. Bismarck foi contrário à democracia, inimigo da soberania popular. Se aplicarmos seu exemplo, no entanto, as nossas salsichas e as leis não passariam nunca pelo controle das secretarias de abastecimento. Nossos políticos, que se julgam acima do povo, provam apenas que elas surgem com o prazo vencido, apodreceram porque supõem o absolutismo ou a oligarquia. Não valem para uma república democrática.

Roberto Romano é filósofo, professor de Ética e Filosofia na Unicamp e autor, entre outros livros, de O caldeirão de medeia (Perspectiva)

Fonte: Aliás / O Estado de S. Paulo

O STF deve se lembrar de Adauto Lúcio Cardoso - Elio Gaspari

Se não prevalecerem as almas de bom-senso, o Supremo Tribunal Federal irá para um conflito de poderes com o Congresso por causa dos mensaleiros condenados pela Corte. Por quatro votos contra quatro, está empatada a votação que poderá determinar a cassação dos mandatos de parlamentares delinquentes. O desempate virá do ministro Celso de Mello.

Os juízes do Supremo são os guardiães da Constituição e suas decisões projetam-se sobre o funcionamento das instituições. Se a votação está empatada, é porque a Corte dividiu-se quanto ao nó da questão: o mandato dos mensaleiros é deles ou encarna a vontade de seus eleitores? Se é deles, uma vez condenados pelo Judiciário, é razoável que o percam, como perderia o emprego um motorista. Se o mandato é dos eleitores, paciência, a decisão é do Legislativo. Essa posição foi serenamente exposta pela ministra Rosa Weber.

Uma trapaça da História jogou em cima do ministro Celso de Mello a questão maior. Seu voto decidirá se o Judiciário pode cassar mandatos a partir de condenações criminais. Interpretando a legislação da ditadura, o STF mandou para a cadeia o deputado Francisco Pinto por ter chamado o general Augusto Pinochet de ditador. Apequenou-se. Já o Congresso foi fechado em duas ocasiões porque defendeu a sua prerrogativa de julgar parlamentares. Engrandeceu-se.

Hoje, o Supremo está na gloriosa situação que Luiz de Camões chamou de "outro valor mais alto (que) se alevanta". Fez o que muita gente gostaria que se fizesse e esperava por isso há tempo. Mesmo assim, a poética camoniana pode ser tóxica para as instituições. Os três Poderes da República são independentes. O Judiciário condena, mas quem cassa é o Congresso. Se o Supremo decidir que os mensaleiros devem perder o mandato, cria-se um desequilíbrio entre os Poderes da República que só tem a ver com as delinquências dos mensaleiros num aspecto pontual. Estabelece-se uma norma: 11 magistrados escolhidos monocraticamente pelo presidente da República podem cassar mandatos de parlamentares eleitos pelo povo. Essa responsabilidade é temerária e excessiva. Hoje, se um larápio continua na Câmara ou no Senado, a responsabilidade é do Legislativo. Amanhã, outro Supremo poderá encarcerar outro Chico Pinto.

Ressalvada a diferença entre o regime democrático de hoje e a ditadura envergonhada do governo do marechal Castello Branco, vale relembrar um episódio no qual havia um poder mais alto alevantado. Em 1966, mesmo tendo garantido que não cassaria mandatos de parlamentares, o Executivo passou a faca em seis deputados. O presidente da Câmara, Adauto Lúcio Cardoso, recusou-se a aceitar a decisão. Ele não era maluco, era apenas um liberal valente. Enfrentara a esquerda no governo João Goulart e apanhara da polícia de Carlos Lacerda defendendo-a. O marechal chamou a tropa e Adauto teve o seguinte diálogo com o coronel Meira Mattos, que comandou o sítio:

"Estou admirado de vê-lo aqui, coronel, não para cumprir um decreto, para o cerco ao Congresso".

"E eu, admirado por sua atitude antirrevolucionária", respondeu Meira Mattos.

"Eu sou, antes de mais nada, um servidor do poder civil".

"E eu, deputado, um servidor do poder militar".

Mais tarde, Castello nomeou Adauto para o Supremo Tribunal e lá ele abandonou a Corte quando seus pares legitimaram a censura à imprensa.

O Poder Judiciário de hoje nada tem a ver com o poder revolucionário do coronel. Sua tropa é a da opinião pública. Hoje, como em 1966, o que está em questão é a independência do Congresso, em cuja defesa Adauto foi a um extremo simbólico. Ele sabia que os seis deputados estavam fritos. Se a decisão de cassar os mensaleiros ficar com a Câmara, é quase certo que eles perderão os mandatos. Admita-se, contudo, que isso não aconteça. Dois ministros levantaram essa hipótese. Gilmar Mendes expôs o absurdo que seria a situação de um deputado ter mandato com hora para se apresentar na cadeia. Joaquim Barbosa foi a um paralelo: "Na vida política dos Estados Unidos, essa discussão sequer chega a ocorrer. Um parlamentar envolvido em crimes tão graves como esses renuncia imediatamente, não permanece na Câmara à espera de uma proteção".

Barbosa acertou quanto aos costumes, mas a Constituição americana não dá ao Judiciário o poder de cassar mandatos. É comum que os mensaleiros americanos renunciem para não serem expelidos pelas Casas legislativas. Contudo, indo-se ao cenário extremo do caso brasileiro, nos Estados Unidos ocorre o contrário. Três deputados condenados mantiveram-se nos mandatos. Dois foram reeleitos enquanto estavam na cadeia. O terceiro, Jay Kim, em 1998, foi condenado a um ano de prisão domiciliar por ter embolsado US$ 250 mil pelo caixa dois. Como era deputado, o juiz colocou-lhe uma pulseira eletrônica no tornozelo e ele só podia sair de casa para ir ao Congresso. Foi cassado pelos eleitores, nas prévias de seu partido.

Apagão sindical

A tropa de choque da nação petista sonha com a mobilização de suas bases sindicais em campanhas reivindicatórias. Depois de dez anos, ao longo dos quais o comissariado anestesiou essa mesma base, não buscam melhores salários, querem aporrinhar a doutora Dilma. Ela teria dado pouca solidariedade aos mensaleiros.

A ideia mostra o grau de agressividade da bancada corrupta do PT. Se terá consequências, é outra história, pois, mesmo havendo sindicatos apelegados, os trabalhadores não são bobos.

Quem pode manda

Com a chegada da movimentação das festas, aqui vai um exemplo de que na relação dos passageiros de companhias aéreas há os cavalcantis e os cavalgados.

Um cavalgado comprou uma passagem de ida e volta entre São Paulo e Rio de Janeiro. Chegou com 30 minutos de antecedência e, de acordo com as normas, foi obrigado a pagar R$ 80 de multa. Na volta, pela mesma companhia, o voo atrasou 43 minutos. Ele foi ao juizado de pequenas causas e pediu de volta a taxa que lhe cobraram na ida.

Nada feito. Uma juíza decidiu que "não é razoável a aplicação dos mesmos critérios com relação a atrasos para as partes".

Boa notícia

Quando Paulo Vieira, flor do jardim da companheira Rose, trocou de advogado e sinalizou que deseja conversar com o Ministério Público Federal, o ex-senador Gilberto Miranda ganhou um motivo de preocupação.

Pela primeira vez em quase 30 anos, suas conexões com o Judiciário, bem como as de seus melhores amigos, poderão abandoná-lo. Afinal, correm o risco de ir junto.

Falas de Temporão

Com dinheiro da Viúva, o Ministério da Saúde, o Instituto Nacional do Câncer e a Fiocruz publicaram um livro, com cinco depoimentos, intitulado "O câncer como problema de Saúde Pública". Num deles, fala o doutor José Gomes Temporão, ex-diretor do Inca e ex-ministro da Saúde. Ao longo de 18 páginas, glorifica-se e destaca suas atividades na politicalha da medicina pública brasileira. Até aí, tudo bem, porque Temporão gosta muito de si.

Nessa especialidade, dedicou-se a atacar outros médicos. Um deles, nas suas palavras, "enlouqueceu, virou caso clínico". Outro, Jacob Kligerman, que o antecedeu na direção do Inca, é apresentado como um manobreiro ressentido. Fez a acusação com ênfase: "É bom que fique para a História".

Novamente, tudo bem. Temporão quis atacar Kligerman e achou seu púlpito numa publicação oficial. Há uma semana, o doutor mandou uma carta a Kligerman: "Venho por meio desta pedir desculpas pelas referências a você em minha entrevista. (...) Acabo de lê-la e me sinto envergonhado. Trechos de uma conversa para mim informal (...) acabaram sendo inadvertidamente incluídos no texto". (Portanto, a culpa vai para os entrevistadores que incluíram sua fala "para a História".)

Temporão disse a Kligerman que solicitou a "imediata suspensão da distribuição do volume", até que uma nova edição expurgue suas palavras.

Apreender o livro seria jogar dinheiro no lixo. "Para a História", basta que a carta de Temporão seja anexada aos volumes já impressos, mesmo como folha solta.

Fonte: O Globo

Homens-bombas - Valdo Cruz

Não deve estar sendo nada fácil dormir neste fim de ano para quem tem rabo preso em episódios ligados ao mensalão, à Operação Porto Seguro e a negócios com Carlinhos Cachoeira.

Nos três casos, três homens-bombas estão soltos por aí -por enquanto, pelo menos-, ameaçando botar a boca no trombone. Cada um a seu modo já deu uma ensaiada.

Carlinhos Cachoeira intitulou-se o garganta profunda do PT, referência ao codinome da principal fonte de reportagens que revelaram o escândalo de Watergate, levando à renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, em 1974.

Marcos Valério, operador do mensalão petista condenado a mais de 40 anos de prisão pelo STF, andou falando ao Ministério Público ter pago gastos pessoais de Lula.

Paulo Vieira, ex-diretor da ANA (Agência Nacional de Águas), promete contar tudo o que sabe do esquema de venda de pareceres fraudulentos, no qual foi indiciado.

Estaria atrás de um acordo de delação premiada para aliviar sua barra no episódio, no qual Rosemary Noronha, ex-assessora da confiança pessoal do ex-presidente Lula, também foi indiciada pela PF.

Quanto aos dois primeiros, podem estar mais para jogadores. Cachoeira já passou uma temporada atrás das grades. Valério está prestes a passar. Saber muito, eles sabem, mas não é possível garantir que vão avançar além do que já foram.

Quanto a Paulo Vieira, parece ser o de maior risco. Devido ao julgamento do mensalão, que mandará para a prisão políticos e empresários, o ex-diretor da ANA está amedrontado e teme ter o mesmo fim.

Daí mandou dizer estar disposto a revelar não só como operava a quadrilha, mas também o nome de peixes graúdos envolvidos no caso.

Baseado no que um ministro procurado pelo esquema anda dizendo, o negócio envolvia, sim, gente poderosa. O grau de insônia em Brasília deve estar bem elevado.

Fonte: Folha de S. Paulo

Soro da verdade - Dora Kramer

Só na semana passada foram três os casos de acusados interessados em entregar o ouro aos mocinhos. Parece efeito colateral do julgamento do processo do mensalão, cujo rigor no trato do Supremo Tribunal Federal terá repercussão em outras instâncias do Judiciário e pelo jeito funciona como uma espécie de soro da verdade.

Condenado a 40 anos de prisão, Marcos Valério Fernandes de Souza deu dois depoimentos (um ainda não divulgado) à Procuradoria-Geral da República com novas informações para tentar um alívio na execução da pena já recebida e obter benefícios nos outros processos a que responde.

Condenado a 39 anos de cadeia, Carlos Augusto de Almeida Ramos ameaça atuar como "garganta profunda" – o responsável por revelar ao jornal The Washington Post detalhes sobre o caso Watergate – apontando vínculos de integrantes da CPI do Cachoeira com a construtora Delta, em troca de prêmio pela delação.

Acusado de ser o chefe de uma quadrilha que fraudava pareceres e traficava influência no governo federal, Paulo Rodrigues Vieira trocou de advogado (o antigo era ligado a Márcio Thomaz Bastos) e analisa se não seria vantajoso para ele denunciar "gente mais graúda" implicada no inquérito da Operação Porto Seguro.

Indiciada por formação de quadrilha em decorrência da mesma investigação, Rosemary Noronha arrisca-se a ser processada por este e outros crimes como corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Se condenada, somadas as penas – considerando a dosimetria mínima e sem levar em conta os possíveis agravantes – seriam nove anos e quatro meses de prisão. Em regime fechado, como aprendemos que ocorre quando a condenação é superior a oito anos

Na avaliação de quem entende desse tipo de riscado, Rose está hoje mais ou menos na situação de Marcos Valério em 2005: pode acreditar na eficácia da rede de proteção prometida a ele e na expectativa de que não haja penalidade tão pesada ou pode fazer um acordo com o Ministério Público a fim de se livrar do regime fechado. Para Marcos Valério, pode ser tarde em relação à ação principal, já em fase de conclusão. Mas, para Rose e outros implicados, a hora é essa.

Palanque. Não foi ao acaso que Lula introduziu um "caco" sobre possível candidatura no discurso a empresários, na França. Sinalizou que pode enveredar por esse caminho para mobilizar apoios nos campos político, empresarial e na sociedade. Não necessariamente para se candidatar mesmo, mas para motivar as pessoas em torno de sua figura com um tema que não envolva escândalos. Seria uma tentativa de repetir a volta por cima dada em 2006 depois do escândalo que atingiu o PT no ano anterior. Os tempos, no entanto, são outros. Na época a economia ia de bem a melhor, o mensalão ainda merecia do eleitorado o benefício da dúvida e a eleição estava relativamente próxima. A ideia de Lula sair pelo país em "caravana" seria uma forma de preencher o vazio eleitoral de 2013.

Eco do passado. Em 1994, o então presidente do Senado, Humberto Lucena, foi condenado à perda do mandato, em decisão do Tribunal Superior Eleitoral confirmada pelo Supremo, mas acabou sendo anistiado pelo Congresso. Lucena teve o registro da candidatura na eleição daquele ano cancelado pelo TSE por abuso do poder econômico porque usou a gráfica do Senado para imprimir 130 mil calendários de propaganda eleitoral na Paraíba, para onde enviou o material por meio da franquia postal do Senado. Em outubro, concorreu sub judice e foi declarado inelegível por três anos em novembro de 1994. Em dezembro o Congresso aprovou projeto de anistia. Transformado em lei (8.985), permitiu a Lucena concluir tranquilamente seu mandato.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Cassar para prender - Tereza Cruvinel

Dilma vai chegando ao fim do primeiro biênio de governo com uma contabilidade contraditória: popularidade alta, economia retraída e conflitos federativos

Há uma razão não explicitada na defesa da cassação dos deputados condenados no julgamento do mensalão pelo próprio Supremo, tese que rachou a Corte numa votação quatro a quatro, a ser desempatada pelo ministro Celso de Mello. Diz o artigo 53 da Constituição que nenhum parlamentar será preso no exercício do mandato, “salvo em flagrante de crime inafiançável”. Não é o caso. Logo, as prisões e a exibição de algemas, que o procurador-geral Roberto Gurgel pediu ao STF para determinar logo no fim do julgamento, só aconteceriam, pelo rito constitucional, depois que eles forem cassados pela Câmara, conforme previsto no artigo 55, por conta das condenações. Os processos neste sentido, diz ainda o artigo, devem ser abertos depois que as sentenças transitarem em julgado. Ponha-se meses nisso, visto que só os acórdãos, segundo a ministra Cármem Lúcia, levarão três meses para serem publicados. Depois, virão os recursos. Então, para mandar prendê-los, o STF terá primeiro que cassá-los, ele mesmo, apesar das divergências, inclusive na Corte.

Essa explicação é dada por juristas sob reserva. Não querem trombar com o Supremo. Mas ela informa sobre a falsidade ou equívoco de alguns argumentos apresentados pelos defensores da cassação pelo tribunal. Argumentos que espalham o terror moral, mas falam de situações improváveis, a não ser que rasguemos a Constituição. Por exemplo, o de que seria intolerável a presença, na vida parlamentar, de deputados presidiários, que durante o dia votariam e à noite dormiriam na prisão. A combinação dos dois artigos diz que nunca haverá deputado preso antes de ser cassado, pela própria Câmara, em decorrência da condenação pelo Supremo.

Por 20 anos, Mozart Vianna foi secretário-geral da Mesa, o que lhe deu notório saber sobre estes temas. Ele também entende que as cassações são prerrogativa do Congresso e que a Constituição veda a prisão no exercício do mandato. Talvez, diz ele, exista a desconfiança de que a Câmara não abriria os processos de cassação, protegendo os condenados. “O Congresso é um poder, não a soma de seus membros. Jamais descumpriria a Constituição que votou e promulgou.”

Lula nas ruas. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está na estrada há mais de 30 anos. Nesse tempo, reagiu às tentativas de cerco com tática já conhecida: sair do isolamento, voltar às ruas e estreitar os vínculos com o povo, buscando voto ou apoio. Ou os dois. Na fala de Paris, mais importante que a ameaça de “um dia voltar a ser candidato” — um dia que cairia em 2014 — foi o aviso de que reeditará as Caravanas da Cidadania. Com elas, Lula e o PT chegaram ao Brasil profundo, abrindo caminho para a vitória em 2002. Em 2005, na crise do mensalão, quando a oposição começou a falar em impeachment, ele avisou que não teria o destino de Vargas, nem de Jânio e nem de Jango. Deixou o Planalto e começou a viajar pelo Brasil. Constatando que a proposta de impeachment não teria base popular, a oposição optou pela “sangria prolongada” para evitar sua reeleição. Perdeu em 2006 e em 2010.

Para evitar a reeleição de Dilma, os adversários tentam, primeiro, quebrar as pernas de Lula, embora o provável candidato tucano, Aécio Neves, diga que o alvo deve ser ela. O aviso de Lula foi de que voltará logo às ruas para defender a permanência do PT no poder. Seja com Dilma ou até com seu retorno, se for preciso. 2014 já começou. E promete uma luta política das mais encarniçadas.

Conjuntura Dilma. Dilma vai chegando ao fim do primeiro biênio de governo com uma contabilidade contraditória: popularidade alta, economia retraída e conflitos federativos.
Na sexta-feira, quando fez 65 anos, colheu mais um elevado índice de aprovação ao governo (62%) e à sua atuação pessoal (78%), segundo a pesquisa CNI/Ibope. Não foi arranhada pelo julgamento do mensalão nem pela Operação Porto Seguro. A economia, por outro lado, não respondeu satisfatoriamente, no terceiro trimestre, às medidas tomada pelo governo. Mas também na sexta-feira surgiram sinais de que outubro foi bem melhor que setembro, e de que os dois últimos meses podem garantir um PIB menos decepcionante que o imaginado.

O principal problema da presidente, hoje, é o federativo, que poderia ter sido evitado com mais diálogo. Os estados perderam receitas com a retração econômica e com as desonerações adotadas para enfrentá-la. Candidata, Dilma precisará dos governadores. O Congresso deve derrubar seus vetos à lei de royaties do petróleo, levando à judicialização do assunto. Como diz o senador Francisdo Dornelles, royalties são compensações aos estados produtores pelo desgaste da exploração, não são receitas tributárias a serem repartidas. Mas o angu está feito. E o que deveria ser melhor repartido, os recursos do FPE, não devem ter, já em 2014, uma regra nova. E a MP do setor elétrico deve ter esta semana uma votação conturbadíssima.

Agora Dilma faz um aceno pacificador aos governadores: deve editar MP trocando o IGP-DI pelo IPCA na correção das dívidas estaduais, um pleito antigo.

Sarney no Planalto. A presidência interina do senador José Sarney, entre quinta-feira e hoje, foi muito lembrada pelo cenário econômico negativo, marcado pela hiperinflação deixada pela ditadura. A fidelidade histórica manda lembrar que seu governo assegurou o avanço da transição democrática, deu início ao desmonte do entulho autoritário, convocou a Constituinte e deu posse ao primeiro presidente eleito.

Fonte: Correio Braziliense

O fim da herança bendita? - Edward Amadeo e Arminio Fraga

Nas décadas de 50 a 70, o Brasil deu um salto, com o PIB per capita indo de 12% para 24% do americano. Mas o esforço de crescimento deixou cicatrizes. O endividamento do governo fez sucumbir o modelo, e daí resultou a hiperinflação, planos fracassados, queda do PIB e aumento da desigualdade e pobreza.

O modelo do milagre abusou do fechamento da economia e proteção dos produtores domésticos e da intervenção do governo na economia, via estatais e crédito direcionado e subsidiado. Não houve foco nos motores do crescimento, a educação e a produtividade.

A partir dos anos 90, a agenda de reformas teve dois momentos. O primeiro foi nos governos Collor e, especialmente, FH. Além da estabilização com o Plano Real e a posterior introdução do tripé macro que vigora até hoje, houve avanços em áreas críticas como sustentabilidade da Previdência Social, institucionalidade da política fiscal, privatizações, regulação do sistema financeiro e corporativo, abertura da economia e ampliação da rede de proteção social.

No primeiro governo Lula, houve aprofundamento das reformas no campo financeiro e nos mecanismos diretos de combate à pobreza, além de reforços na disciplina fiscal e monetária, que alavancaram um período de rápido crescimento do crédito e um bom aproveitamento da fase de boom global entre 2003 e o início de 2008.

A partir do segundo mandato do presidente Lula, essa agenda foi interrompida. Em áreas cruciais como institucionalidade da política monetária, regulação do mercado de trabalho, legislação tributária e tarifária, avaliação de políticas públicas, política educacional, eficiência do Judiciário e ambiente regulatório para o investimento em infraestrutura, não houve avanços.

Em lugar da sua continuidade, desde a crise de 2008, tem-se a segunda fase de reformas, com o uso de instrumentos regulatórios, fiscais e tributários com o objetivo de microgerenciar a atividade econômica. Aqui se incluem a lei do pré-sal, as regras de conteúdo nacional para as compras de estatais, o uso dos bancos públicos e empresas estatais para dirigir o investimento e o consumo, a elevação de tarifas de importação, a mudança na base de tributação da Previdência Social, a redução do IPI de bens duráveis, o subsídio ao consumo de petróleo, a imposição de IOF sobre investimentos estrangeiros em portfólio e a mudança do marco regulatório sobre produção e distribuição de energia.

Houve assim uma profunda guinada na agenda de reformas. A proposta da primeira fase, de criar um macroambiente propício ao investimento através de maior eficiência dos serviços e investimentos públicos, da transparência regulatória e do aumento da produtividade dos trabalhadores, foi substituída pela estratégia de criar mecanismos para incentivar a demanda, especialmente o consumo e o emprego.

Uma tem como princípio a criação de um ambiente de igualdade de condições para todos os empresários e trabalhadores. A outra tem como princípio a geração de incentivos que diferenciam os empresários e trabalhadores de acordo com o seu setor de atuação.

A distinção entre as duas abordagens é capturada pelo professor Luigi Zingales quando se refere a políticas pró-mercado e políticas pró-negócios. As primeiras favorecem a concorrência e a igualdade de tratamento entre grandes e pequenas empresas, em diferentes setores, e produtores nacionais e estrangeiros. As segundas buscam responder aos pleitos dos setores empresariais e trabalhistas na forma de tratamentos diferenciados em áreas como impostos, regulação e crédito.

Fazem-se duas críticas ao modelo pró-mercado. A primeira é que o aumento da concorrência produz perdas durante processos de reestruturação como as privatizações e a abertura da economia, e acentua a desigualdade de renda. A segunda é que o mercado não propicia ganhos de escala que alavanquem investimentos e inovações - um argumento caro ao economista austríaco Joseph Schumpeter.

O modelo pró-negócios procura reduzir as desigualdades intervindo no funcionamento dos mercados - por exemplo, através do salário mínimo ou protegendo trabalhadores contra demissões. E oferece tratamento preferencial a empresas em setores estratégicos de modo que se tornem empresas grandes e oligopolistas, com altos lucros para financiar investimentos e inovações.

Só que o tiro pode sair pela culatra. Ao eleger vencedores, a abordagem pró-negócios também elege os perdedores, que são, evidentemente, os empresários e trabalhadores da grande maioria das empresas, que não foram eleitas para serem as campeãs. Perde-se também em eficiência e produtividade, como bem sabemos do período do fim do Milagre Econômico. Finalmente, a taxa agregada de investimento do Brasil continua em patamares bem inferiores a nossos pares.

A resposta da abordagem pró-mercado aos efeitos distributivos não é limitar a concorrência, mas nivelar oportunidades, sendo educação pública a mais importante, e redistribuir renda com políticas de transferências focalizadas.

Enfim, é importante reconhecer que houve uma guinada na agenda de reformas. Até porque existe hoje grande ansiedade quanto aos resultados da nova estratégia. Depois do bom desempenho da economia brasileira até 2010, houve uma clara desaceleração da atividade e queda do investimento, em parte cíclica, em parte ligada à rigidez de oferta de nossa economia.

Nosso receio é que uma certa volta ao modelo dos anos 70 nos leve outra vez à frustração de nossos planos de desenvolvimento. Alguns sinais indicam que o modelo está se esgotando. Será que está acabando a herança bendita de FH?

Com todo o esforço dos últimos 20 anos, ainda estamos em 20% do PIB per capita americano. Temos, portanto, um bom espaço para crescer. Mas sem investir mais e melhor, sem uma educação muito melhor e sem um Estado eficiente, não vamos chegar ao nosso potencial.

Fonte: O Globo

Transes e transição no Brasil - Vinicius Torres Freire

Depois da sova por causa do Pibinho, o governo e os seus simpatizantes reagem aos críticos

Dilma Rousseff e seus economistas apanharam nas duas semanas seguintes à divulgação do Pibinho. Na semana que passou, o governo e seus simpatizantes reagiram. A crítica, diz-se agora, viria da finança e agregados, que perderam o maná dos juros altos, e de quem não entende que o país vive um "período de transição". É tudo verdade. E mentira também.

É verdade que não dá para levar o humor da finança muito a sério. Os rapazes do mercado promovem países a "queridinhos" quando enchem a burra e os rebaixam a "bola da vez" quando se lascam ou veem o peru gordo fugir da gaiola.

Basta lembrar o giro da roda da fortuna e da roda dos expostos da finança nos últimos 25 anos. México, Argentina, tigres asiáticos, tigrinhos vários, Brasil e tantos que entraram e saíram da lista mais de uma vez, por motivo fútil e injustificado.

No caso do Brasil recente, não apenas os rapazes do mercado lá de fora se amuaram. Dilma Rousseff sapateou sobre a banca nacional. Além do mais, muita gente avessa ao petismo estava com o "desenvolvimentismo" entalado na garganta e desabafou quando viu a vaca atolar no brejo do Pibinho por dois anos, com típica Schadenfreude (alegria com a desgraça alheia).

É verdade que há novidades não assimiladas pela economia, o que tem sido chamado de "transição". O país vai se rearranjar com taxas de juros baixas. O dinheiro que não rende nada vai procurar algum destino. Outra mudança, a no câmbio, demora a fazer efeito mesmo.

Se o governo enfim conseguir passar a tarefa de investir em infraestrutura para a iniciativa privada, alguma coisa vai andar.

Isto posto, vamos às mentiras e desconversas.

Primeiro, o governo passou o ano dizendo que "quem apostar no baixo crescimento vai se estrepar". Passou o ano quase inteiro com essa conversa de crescimento de 4%. Era, como se viu, mistura de previsão errada com conversa fiada.

Segundo, mesmo que o país "transite", há empecilhos inegáveis. O desemprego está baixo mesmo com o crescimento baixo. A mão de obra é escassa em quantidade e qualidade. Isso vai dar em problema se o país voltar a andar.

Terceiro, seja qual for o motivo, o país não está investindo. Provavelmente, o desânimo do investimento é uma resultante de uma pilha de motivos.

Porque: 1) Os lucros diminuíram, pois os custos estão altos; 2) Parte do consumo vaza (importamos demais) porque o país está caro; 3) O governo não investe, por inépcia e por causa dos rolos de corrupção que vêm desde 2011 (a tal "faxina"); 4) O governo não sabe conversar com as empresas e coordenar projetos; 5) Está difícil investir em projeto novo e sofisticado por falta de gente qualificada para tocar negócios novos e sofisticados; 6) Os estoques estavam altos devido ao exagero de expectativas otimistas de 2011; 7) A economia mundial é uma draga de ânimos.

Mesmo que a situação melhore, e tende a melhorar em 2013, o Brasil causa exasperação pelo conservadorismo e pela ignorância. Não vamos muito longe com essa burocracia pesada e enorme, com essa falta de educação, com essa aversão a mudanças institucionais, com esse Estado enorme e no lugar errado, com essa falta de ambição, com essa imaginação tacanha.

Fonte: Folha de S. Paulo

Erros gerenciais - Míriam Leitão

O país terminará o ano com um crescimento medíocre, praticamente estagnado, e o responsável é o governo. A situação internacional não está fácil, mas isso explica apenas parte da frustração do crescimento. Grande parte do baixo desempenho é fruto das decisões erradas. A presidente Dilma, em dois anos, terá um crescimento médio de 1,9% com 6% de inflação. ,

A incapacidade gerencial é a principal falha do governo da presidente que fez a campanha apresentada pelo marketing como boa gerente. Até 11 de dezembro, o governo tinha conseguido investir apenas R$ 40 bilhões dos R$ 90 bilhões previstos no Orçamento Geral da União, segundo o site Contas Abertas. No final do ano, a tradicional corrida para as liberações deve melhorar o desempenho, mas dificilmente superará os 60% do orçado. O investimento público no Orçamento já é pequeno. E nem isso o governo consegue fazer.

Há temas que ficam empilhados à espera de uma decisão governamental. Não apenas em investimentos. Até decisões sobre nomeação de diplomatas para postos que nada têm de delicados ou complexos dormem por meses na mesa presidencial.

O governo é errático. Um exemplo disso é o que aconteceu com os aeroportos. Um modelo de privatização foi testado em Guarulhos, Brasília e Vira-copos e mostrou falha ao afastar os melhores competidores. O Brasil precisa da capacidade operacional dos grandes aeroportos do mundo. Isso vale mais do que o ágio a ser pago. O governo, no entanto, queria mostrar que privatizava melhor do que os outros e por isso incentivou a corrida pelo preço. Isso afastou os maiores grupos que conhecem os riscos e a rentabilidade do negocio. Ganharam os grupos mais fracos e que foram garantidos pela presença de 49% da Infraero e dos fundos de pensão de estatais. Como o ágio ficou alto e a In-fraero ficou com metade da dívida, o governo terá que capitalizar a estatal.

Logo após, o governo quis provar que não estava privatizando.

Por isso, com Galeão e Confins apresentou a proposta de a Infraero continuar no controle e atrair um grande operador internacional como sócio minoritário. Mandou uma missão correr mundo atrás dos grandes operadores de aeroportos com a proposta. A missão voltou com as mãos abanando. Ninguém quis. .

Agora, fala de novo em voltar ao modelo usado em Brasília, de vender para a iniciativa privada o controle dos aeroportos. Nisso se perdeu um ano e o aeroporto do Rio ficou ainda mais deteriorado e os eventos internacionais ficaram mais próximos. Em Paris, nos últimos dias, a presidente anunciou nada menos que 800 aeroportos regionais. Não consegue decolar o Galeão, mesmo assim anuncia 800 pequenos. Seria bom se em algum momento o governo tivesse um plano de voo, em aeroportos ou qualquer outra área estratégica.

Na intervenção no setor elétrico, o governo primeiro anunciou o modelo criado pelos burocratas, depois enfrentou a realidade. A Eletrobras perdeu R$ 10 bilhões de valor de mercado em apenas três meses. Reduzir o custo da energia é uma importante batalha no esforço para aumentar a competitividade brasileira, mas na economia o voluntarismo não é o melhor caminho.

Empresas privadas ou públicas deveriam ter sido chamadas a negociar a compensação dos investimentos não amortizados, porque, afinal, é uma alteração do contrato. Vários deles vencem apenas em 2015.0 fim de alguns encargos, como a Reserva Global de Reversão, é mais do que desejável. A taxa foi prorrogada no último dia do governo Lula. Da maneira atabalhoada, como tem sido, a redução do preço da energia descapitaliza as empresas e suspende investimentos.

Fonte: O Globo

Ciência, democracia e mobilidade urbana - Maria Alice Rezende de Carvalho

Tornar-se a sexta-economia do mundo, ostentar certo equilíbrio financeiro em meio à crise global, sediar eventos tidos como prestigiosos pela população planetária tem feito do Brasil uma geografia refratária a problemas. Some-se a isso o fato de, localmente, as UPPs estarem sendo bem avaliadas pela população – até agora convencida de estar diante de uma política de segurança pública –, para que o mesmo efeito se instale no Rio de Janeiro, afastando, subitamente, os temores quanto ao futuro da cidade e região metropolitana.

É verdade que a combinação de crescimento econômico com diminuição da taxa de natalidade – o chamado “bônus demográfico” – costuma disparar o otimismo. Mas, no Rio, não há motivo para tanto, pois, como afirma o economista Mauro Osório, não só o crescimento econômico é pequeno, inferior à média nacional, como se observa um preocupante descompasso entre a retração populacional na última década e a expansão das favelas, sobretudo Mangueira, Rocinha e Maré, que juntas atraíram três vezes mais moradores. Isso significa que, embora o perfil demográfico do Rio aponte um recuo no número de nascidos, para os que nasceram as condições urbanas pioraram, quaisquer que sejam seus endereços. Portanto, nunca foi tão importante discutir alternativas para a cidade e região metropolitana, pois não fazê-lo significa desperdiçar a chance de utilizar os fartos recursos de ocasião para construir um Rio de Janeiro mais próximo das nossas aspirações.

Debater sobre o futuro da cidade e região metropolitana, porém, não é empreendimento simples. Faltam os “indignados”, com a mídia local afogada em ufanismo, e faltam dispositivos institucionais que recolham as diferentes queixas da sociedade, operem sua tradução e as transformem em política. Faltam, nesse caso, agências de mediação, a exemplo das associações de moradores ou da universidade, que ainda engatinha nesse papel. O associativismo, como se sabe, está vivo e vem ganhando musculatura em diferentes pontos da região metropolitana, mas tem sua penetração no mundo popular limitada pelas redes governamentais e não-governamentais de assistência aos mais vulneráveis. Portanto, sua capacidade de organizar autonomamente os segmentos populares é, hoje, pequena e depende de aliados que possam furar o localismo e rejeitar compromissos por vezes espúrios que as associações de base territorial acabam forçadas a assumir.

A universidade, em princípio, seria uma instituição compatível com essa atribuição, pois corta transversalmente diferentes públicos, com o concurso de uma “língua geral”: a ciência. Mas para isso, a universidade precisa satisfazer dois requisitos: terá, em primeiro lugar, que explicitar tal meta e torná-la reconhecida dentre as alternativas que se apresentam ao sistema de ciência e tecnologia. O que significa abraçar, consistentemente, um modelo de universidade no qual interesses de diferentes grupos – do empresariado aos movimentos sociais – disputam por maior ingerência no ambiente acadêmico. Entre nós esse caminho já é trilhado, pois, como se sabe, as políticas públicas vêm sendo crescentemente desenhadas no âmbito dos departamentos universitários de pesquisa. Contudo, muito pouco disso é objeto de reflexão e debate. E o resultado é que a universidade não emite sinais claros para a sociedade quanto ao que pode ou deve esperar dela.

A universidade terá também que satisfazer um segundo requisito: valorizar explicitamente o processo e não apenas os resultados da pesquisa científica, compreendendo ser ele um caminho para a aproximação de diferentes atores e de suas representações acerca do mundo. Financiadores, comitês avaliadores, gestores universitários, editores científicos, destinatários finais da pesquisa e mais a rede de assistentes organizada para aquele empreendimento acompanham, todo o tempo, o pesquisador e interferem no resultado final de seu trabalho, transformando a ciência em linguagem pública, resultado de muita disputa e de acordos contingentes quanto à noção de certo, de bem, de útil etc.

Pode-se dizer, então, que as pesquisas científicas inscrevem efeitos no mundo antes mesmo de seus resultados começarem a circular – mais ainda as pesquisas sociais, cuja elaboração configura um público maior, pois dele participam os indivíduos ou grupos pesquisados. Uma investigação pontual, por exemplo, em chave etnográfica, sobre o regime de uso de uma pracinha pode ajudar a população do entorno a conhecer as hierarquias locais, o contexto em que se observam certas ações arbitrárias, e a se posicionar diante dessas e, eventualmente, outras manifestações de arbítrio. Ou seja, o papel da universidade, enquanto mediadora, é o de generalizar o acesso a informações e principalmente às operações críticas que constituem o fazer científico, alinhando, sob a mesma linguagem, desde os patrocinadores até os seres investigados. Quando esse alinhamento é bem sucedido, é provável que se ponha em andamento a constituição de um problema público.

A noção de problema público circula entre autores contíguos ao pragmatismo filosófico norte-americano – como Joseph Gusfield, autor de The CultureofPublicProblems – e à versão francesa dessa corrente, representada por Luc Boltanski, Isac Joseph e Bruno Latour. Embora consideradas as grandes distâncias que separam tais autores (e assumido o risco da simplificação que a exiguidade desse texto impõe), pode-se afirmar que o que há de comum entre eles é a ideia de que um problema público é sempre construído “em situação”, isto é, a partir da interação de atores que se sentem afetados por ele. Assim, ao descartar atributos e motivações “inerentes” aos atores – seus valores, suas ideologias ou conhecimentos prévios à interação – o pragmatismo valoriza a linguagem que emerge, em meio a muita disputa, na construção do problema.

Tal linguagem não é apenas a melhor argumentação sobre um fato, mas inclui também uma dimensão performática, dramatúrgica e algumas vezes melodramática. Cenas de terríveis acidentes automobilísticos agitaram a opinião pública norte-americana contra o ato de dirigir após o consumo de álcool (drinking-driving), fazendo convergir para o debate pesquisadores, familiares das vítimas, educadores, entidades de assistência e previdência, operadores do sistema de saúde, de justiça, de informação e assim por diante.

Entre nós, a chamada Lei Seca é fruto de dramatização similar, mobilizando agências poderosas e convencidas da necessidade de conter os altos índices de mortes e mutilações, invalidez e desperdícios securitários. Mas não se pode dizer que no Rio de Janeiro os acidentes motivados por consumo de álcool tenham constituído um problema público.

O fato é que nem todos os grandes problemas sociais se tornam públicos. E no Ocidente, dado o grau de institucionalização das agências de produção de significado, é difícil conceber um problema público que não tenha passado por universidades, organizações não governamentais ou mesmo por agências de planejamento do Estado, isto é, por instâncias reflexivas. É que o problema público se define pela capacidade de levar diferentes atores afetados por um mesmo problema a construir uma unidade conceitual, um conceito guarda-chuva que cobre a diversidade de interesses nele contida. Exemplo importante disso é o fato de que, atualmente, com toda a ambiguidade inscrita na sua decisão, parte significativa das lideranças de favelas se recusa a abandonar esse conceito, pois sendo as favelas cariocas um problema público, é por ele que seus interesses têm sido organizados, legitimados no âmbito do debate, e, em alguns casos, se tornado vitoriosos.

Outro exemplo relevante é a incapacidade de a região metropolitana do Rio de Janeiro se tornar um problema público. Embora parcela considerável dessa população de 12 milhões de habitantes esteja advertida para o fato de que suas condições de vida não melhorarão sem uma solução integrada dos problemas que afetam os diferentes municípios, os atores que se aliam na defesa desse conceito não têm sido eficazes na ampliação de seus interlocutores. Nem empresários, nem grupos universitários de pesquisa, para citar alguns deles, têm conseguido romper suas lógicas específicas e trazer outros interesses sociais para o debate. Nesse caso, quando se fala em problemas públicos do Rio de Janeiro, é a cidade que é evocada, malgrado a certeza de que as soluções desses problemas estarão, em grande medida, além da sua estrita jurisdição.

Na trajetória moderna do Rio de Janeiro, apenas duas grandes questões terão sido alçadas à condição de problema público. A mais recente – violência urbana – segue sendo um campo de disputas de significação, para onde convergem permanentemente novos interessados na construção do problema. Ao final dos anos de 1970, se mobilizaram primeiro os empresários e suas entidades representativas, construindo um debate em torno do esvaziamento econômico do Rio, que, segundo eles, era fruto da desordem urbana, sendo a violência um de seus sintomas. Nessa perspectiva, a criminalidade violenta, os pequenos delitos, as infrações de trânsito e mesmo a sujeira nas vias públicas eram aspectos de uma “cultura delituosa”, atribuída aos “outros”: os pobres, os negros, os moradores de favelas, os desempregados, que, por essa unificação conceitual, se viam enleados a criminosos, assaltantes, assassinos etc.

Associaram-se, então, ao debate organizações não-governamentais, grupos universitários de pesquisa, lideranças associativas e religiosas, além de membros isolados de partidos políticos de extração democrática. E o efeito dessa associação foi a emergência quase simultânea do Viva-Rio e do Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro, coletivos para onde convergiram os interessados na construção do problema da violência. Distintos, menos na sua composição do que nas estratégias adotadas, pode-se dizer que o Viva-Rio terá consagrado uma linha de intervenção performática, que associava informação e sensibilização social, enquanto o Plano Estratégico reproduzia, em escala micro, a cartilha pragmatista de constituição de acordos contingentes entre interesses diversos. Em ambos os ambientes, contudo, o tema da violência tentará se constituir em oposição ao campo semântico da desordem, sendo essa a tensão constitutiva dos debates do período.

A chegada da universidade àquela disputa foi decisiva para a significação da violência urbana, do que é prova o fato de seus pesquisadores mais destacados terem sido convocados para o desempenho de funções governamentais ou para a estruturação de agências de mediação sócio-técnica na área da segurança pública. Assim, ao tempo em que promoviam treinamento de policiais, cursos de extensão, desenho e avaliação de políticas públicas, tais pesquisadores puderam também consolidar a institucionalização de programas de pós-graduação e laboratórios de pesquisa nos quais esses temas tinham acolhida. E o acordo entre Senasp e Anpocs para a realização de pesquisas consagrou as ciências sociais como instância de tradução de interesses – inclusive os da própria comunidade acadêmica –, rotinizando dispositivos que têm mantido a violência como problema público há mais de duas décadas. Mais recentemente a emergência do temados direitos e, sobretudo, o dos direitos humanos, tem trazido novos interlocutores ao debate, colocando em perspectiva alterações no significado da violência, bem como nas formas de combatê-la.

Mas, o maior problema público na trajetória moderna do Rio de Janeiro é, sem dúvida, a favela. Existentes há mais de um século e frequentando sistematicamente a opinião desde, pelo menos, os anos de 1910, as favelas condensam camadas de significação pelas quais passaram os diversos interesses presentes no processo de modernização das cidades brasileiras. Já na década de 1970, quando, em plena ditadura, são criados os dois primeiros programas de pós-graduação em ciências sociais no Rio de Janeiro – o do Museu Nacional e o do IUPERJ –, as favelas disputam o lugar de objeto preferencial das pesquisas acadêmicas, passando a ter projeção extramuros da universidade.

A análise minuciosa daquele contexto e dos textos que ele gerou vem sendo feita por muitos autores, principalmente Lícia Valladares, e, de qualquer forma, não caberia fazê-la aqui. Mas talvez seja relevante notar que aqueles foram tempos em que a academia precisou disputar a direção do tema, pois havia uma forte agitação intelectual, de que participavam artistas, jornalistas, músicos etc., que tomava a cidade a partir “de baixo”, e afirmava a riqueza dos valores populares, a especificidade cultural do samba e do carnaval, a estética da favela. Para apontar um só nome daquele movimento, tome-se o do arquiteto e artista Helio Oiticica, autor dos Parangolés e por isso apresentado, certa vez, por Chacrinha, como “costureiro”, segundo o próprio Oiticica, em entrevista concedida a Jorge Guinle Filho, em 1980. Oiticica talvez não tenha sido o ator mais “representativo” daqueles anos e não se tornará, como se sabe, o mais conhecido.

Porém, sua atual importância reside no fato de que não apenas dissolveu a favela na cidade – “a desordem aparente pode ser o resultado de uma ordem que muda rápido demais” –, como inscreveu aquele Rio popular no âmbito de um debate internacional sobre o urbanismo moderno, muito criticado, à época, pelos adeptos da cidade “natural”, não projetada, labiríntica, como queria Oiticica, rizomática, como se diria hoje.

Na verdade, ampliar o espectro de aliados, extrapolando, inclusive, os limites nacionais, é, ainda hoje, uma forma de garantir a liderança no processo de significação de qualquer artefato. Contudo, Oiticica era um livre-atirador, desarticulado em relação aos que, dentro e fora do país, se mostravam interessados numa concepção de cidade orgânica, de um Rio orgânico. Lembrar Oiticica significa, portanto, rememorar um caminho que poderia ter triunfado: o da compreensão do Rio de Janeiro como cidade de múltiplas formas. Não foi o que ocorreu; mas o que ocorreu não era inevitável.

O fato é que, progressivamente, artistas e universitários acabaram encontrando uma via comum de defesa do mundo popular – do que o CPC é um exemplo –, que, no que se referia à favela, consistiu em tomá-la como um dos itens das lutas sociais dos trabalhadores: o direito à moradia. Tal perspectiva se mostrará frágil um pouco mais à frente, quando a política de remoção das favelas passou a acenar exatamente com a idéia de casas substitutivas àqueles barracos mal dispostos na cidade. Contra o chamado remocionismo se uniram, então, parcela considerável da comunidade de cientistas, artistas, políticos, intelectuais, membros de associações de moradores, sindicalistas, jornalistas, editores etc., que, em grande parte, viam nas favelas uma espécie de front da luta contra a ditadura, mais do que um elemento da guerra urbanística que definiria a cidade do Rio de Janeiro pelas próximas décadas. De qualquer modo, a favela se tornara uma “caixa-preta”, nos termos de Bruno Latour, lugar de passagem obrigatório de todos quantos se refiram ao Rio.

A partir daí, tantos agenciamentos foram feitos, que qualquer tentativa de resenhá-los seria inglória. Há, contudo, que reter o fato de que, nos últimos 30 anos, a reprodução da favela como problema público consagrou o paradigma da integração, que, como se sabe, se assenta em dualidades como dentro-fora, morro-asfalto etc. Esse paradigma conheceu o ápice da sua formulação no programa Favela-Bairro, que, como o nome indica, representou uma aposta na conversão da favela em cidade, levando ao limite as possibilidades desse paradigma. Com o Favela-Bairro ficava claro que as soluções engendradas por famílias pobres para os seus problemas de moradia seriam respeitadas; e que, portanto, não se tratava de lhes conceder moradas alternativas em conjuntos habitacionais, mas, antes, como dirá Sérgio Magalhães, então Secretário de Habitação do Município do Rio de Janeiro, lhes conceder cidade – por isso entendido o acesso a direitosespecificamente urbanos, tais como saneamento, iluminação pública, áreas de lazer, fornecimento de água, coleta de lixo, arruamento e assim por diante.

O programa Favela-Bairro, em suma, resumiu os 30 últimos anos de significação da favela: uma forma singular, enquistada na cidade, que pode ser integrada, mas não completamente assimilada à urbe. E, visto de agora, pretendeu reunir, na sua operação, dois princípios contraditórios: o local e o público. Do ponto de vista das obras, era localista: o limite físico da sua execução era cuidadosamente estabelecido, ou melhor, restringido, de modo a que se tivesse certeza de que se urbanizava uma favela específica, com sua história, seus personagens, seus interesses, sua particularidade, enfim. Do ponto de vista de seu planejamento, contudo, as regras do programa previam alguma publicidade: houve concurso público de escritórios de arquitetura, aos quais se agregaram sociólogos ou assemelhados, incumbidos de produzirem algum entendimento entre os moradores, entre estes e os arquitetos e entre os arquitetos e as diversas instâncias do poder público a que estavam subordinados. Engolfando tudo isso, uma mobilização da opinião pública bastante eficiente, que previu, inclusive, a cobertura jornalística do sucesso internacional do programa.

Assim, embora intuitivamente a favela fosse considerada um problema público – intuição manifesta, por exemplo, no esforço de ampliar o leque de aliados, atraindo a universidade, agências de fomento etc. – o próprio escopo do projeto, ao sublinhar o local, inviabilizava tal intenção. Afinal, não havia, em circunscrição tão diminuta e socialmente homogênea, como eram as favelas selecionadas, comerciantes de monta ou empresários, dirigentes de escolas ou de clubes, produtores culturais, enfim, interesses verdadeiramente afetados por aquele empreendimento. Do ponto de vista da sociedade, quem aprovava ou reprovava o Favela-Bairro o fazia por motivos ideológicos ou valorativos, prévios à consecução do projeto e, portanto, ao debate. O que não permitiu a superação do paradigma da integração e a formulação comum de um novo problema público.

O fato é que se observa, hoje, uma reedição da velha polaridade entre favela e conjunto habitacional, reposto tanto pelo mercado, nomeadamente as grandes empreiteiras, quanto pelos diferentes níveis de governo, já que o federal, pilotando os recursos do PAC, tem subsumido os demais. Sem debate, o que se revela é uma intervenção desatenta às dinâmicas preexistentes, cujo único objetivo parece ser a construção acelerada de moradias, o que não tem sido feito sem tratores e alguma truculência. Novamente se propõe a questão do morar descolado das condições urbanas.

É certo que habitar é um dos primeiros direitos da cesta de bens urbanos. E que a autonomia de um cidadão passa pela possibilidade de prover sozinho, sem depender de patrões, patronos, ou chefes locais, um abrigo sustentável para si e sua família. Mas esse direito não pode ser contraposto ao da apropriação do espaço urbano como espaço de experiência, de aprendizado, de liberdade. Em outras palavras, as famílias trabalhadoras não podem ser entocadas nos seus lugares de moradia – lugares esses muitas vezes escolhidos por antepassados, em obediência a lógicas conjunturais, que não servem mais ao presente. Ou seja, não podem ser prisioneiras, mesmo que dos seus próprios bens. Se isso persistir, não haverá sequer como pensar em controlar o tamanho das favelas, pois é certo que não haverá “fiscais” que possam inibir a procura de cidadãos por regiões mais próximas de seu trabalho, das escolas de seus filhos etc. Cidade é movimento – e o fato é que, desse ponto de vista, a cidade do Rio de Janeiro encurtou muito, como disse, em debate recente no IAB, a jornalista Cora Ronai.

Portanto, está mais do que na hora de esticarmos a cidade, fazendo com que ela assuma tamanho compatível com a diversidade de interesses que ela comporta. Para isso é preciso que o problema público da favela seja deslocado, que a cidade seja vincada por outra formulação – e não parece haver nada mais coerente com a idéia de uma cidade diversa, em que seus habitantes se aplicam a explorá-la, do que o tema da mobilidade.

A mudança de um paradigma, porém, não se faz por decreto. A universidade terá nisso um papel a desempenhar, promovendo pesquisas, debates, pondo à disposição dos demais atores as informações julgadas pertinentes. Porém, os grandes interessados terão que ser atraídos ao debate, sobretudo aqueles que não parecem convencidos da sua utilidade – os donos de empresas de transporte público, por exemplo, ou de montadoras de automóveis. Na construção de um problema público, a divergência, mesmo que violenta, não é nefasta, desde que os contendores se mantenham dentro da mesma moldura, que deverá ser a da mobilidade.

Em uma cidade realmente democrática, não importa o seu nível de renda, escolaridade, sua crença ou endereço – você deverá ter livre acesso aos bens e direitos especificamente urbanos. O transporte público de qualidade, contudo, é o pai de todos eles.

Professora do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio e membro da Coordenação do Centro de Estudos Direito e Sociedade (CEDES)

Fonte: Revista Política Democrática, nº 34 – págs. 95-103.

Mônica Salmaso, Banda Mantiqueira e Osesp - Aquarela do Brasil

A casa vazia – Graziela Melo

A casa vazia,
o cão na porta,
a água na cuia,
a farinha no prato,
o cachimbo na boca,
e a boca torta!

O sol na soleira,
o menino na esteira,
a vontade morta.

O solão bebeu a água,
matou a árvore,
lambeu o xique-xique,
torrou a terra,
tangeu os homens,
tangeu as mulheres,
matou as cabras,
soprou as estrelas,
comeu a lua,
secou a noite!!!

Eeeiiita solão danado
na solidão do homem!!!!!!