quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Temer receia espionagem do governo e é atacado por Renan

Por Raymundo Costa - Valor Econômico

BRASÍLIA - O vice-presidente da República, Michel Temer, suspeita que está sob vigilância. Seus aliados mais próximos desconfiam da Abin, serviço de inteligência que na última reforma ministerial deixou o guarda-chuva do Gabinete de Segurança Institucional e foi se alojar na Secretaria de Governo, comandada por Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT e suposto chefe do "bando de aloprados" que na eleição de 2006 fabricou um dossiê contra o tucano José Serra, então candidato ao governo de São Paulo.

Os assessores de Temer dizem que o vice tem sido fotografado por pessoas que não são da imprensa, assim como os visitantes que recebe no Palácio do Planalto ou na residência oficial, o Palácio do Jaburu. O momento é de tensão em Brasília, diante da perspectiva da abertura de um processo para impedir a presidente Dilma Rousseff. O vice Michel Temer é o primeiro na linha de sucessão. Se tem alguém de olho nele, o vice também está com um olho no Palácio do Planalto e outro no PMDB.

Os aliados de Temer esperam por alguma tentativa de envolvimento de seu nome com a Operação Lava-Jato. Na realidade, entre seus adversários do PMDB e fontes do Ministério Público Federal, de vez em quando vaza que o vice não resistiria a uma delação premiada do ex-diretor internacional da Petrobras, Jorge Zelada. O senador Delcídio Amaral (PT-MS), ex-líder do governo, preso por tentar obstruir as investigações da Lava-Jato, diz em uma gravação que Temer e Zelada tinham "relações próximas". O vice disse que repudiava "veementemente" a insinuação.

Com um olho no Planalto e outro no PMDB, Temer deu ontem uma prova de força ao levar a Executiva Nacional do partido a aprovar, por 15 votos a 2, uma resolução pela qual fechou parcialmente a porta do partido a novas filiações de deputado federal. A decisão tem por objetivo barrar as manobras do Palácio do Planalto para restituir a função de líder na Câmara ao deputado Leonardo Picciani (RJ). Promovido à categoria de principal aliado da presidente Dilma na bancada, Picciani fez indicações para o ministério, mas acabou substituído na liderança pelo deputado Leonardo Quintão (MG). O governo tenta filiar deputados de outros partidos da base aliada para ajudar Picciani a voltar ao cargo.

A decisão da Executiva foi o pretexto para o ataque de Renan Calheiros, presidente do Senado, a Temer, logo após a reunião. Renan classificou a resolução como sendo "um horror". Renan foi parar no PMDB depois de liderar o PRN do ex-presidente Fernando Collor de Melo, o primeiro a sofrer um processo de impeachment no país. "O PMDB é um grande partido porque ele não tem dono", disse. "Como pode a Executiva dizer agora quem pode entrar ou quem não pode"?

Renan também criticou Temer por só ter tratado de cargos quando esteve com a coordenação política do governo, sem qualificar a participação do PMDB, responsabilizou o vice pela crise política e por fim classificou a decisão da Executiva de "um retrocesso que deve estar fazendo o doutor Ulysses tremer na cova". O deputado Ulysses Guimarães (1916-1992) foi o maior líder do PMDB. Ele dá nome à fundação do partido, onde um busto seu é avistado logo na entrada.

No Jaburu, Temer em princípio resolveu que não responderia Renan. Alguns de seus principais conselheiros prefeririam que ele prestigiasse novas lideranças do partido no Senado, como Ricardo Ferraço (ES) ou Simone Tebet (MS). O deputado Lúcio Vieira Lima (BA), ironizou: "Foi um desabafo". Quando Temer escreveu uma carta a Dilma queixando-se de ser um vice decorativo, Renan disse que o vice fizera apenas "um desabafo pessoal".

Amigos de Temer avaliaram que o discurso de Renan era resultado do "desespero" - na véspera, o presidente do Senado fora alvejado com a primeira investida do Ministério Público Federal sobre o "núcleo político" da Lava-Jato. Ontem, os primeiros sinais eram de que o Supremo manteria o rito do impeachment adotado no processo de Fernando Collor, o que reduziria drasticamente a margem de manobra de Renan quando o processo chegar ao Senado, se chegar. Por fim, ele já sabia que fora alvejado duramente na delação premiada de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras.

Mais tarde, Temer resolveu responder a Renan, porque fora citado diretamente. "O PMDB não tem dono", concordou o vice, em nota divulgada à tarde, antes de enfiar a faca: "Nem coronéis". Os Calheiros são vistos como uma encarnação dos tradicionais coronéis do Nordeste. "Neste momento, os disputantes da liderança na Câmara dos Deputados buscavam filiar deputados transitórios apenas para assinarem lista de apoio - isto fragilizaria o PMDB", disse Temer, em nota.

Segundo o vice, o resultado apurado na reunião de 15 votos a favor da resolução e dois contrários era um " resultado revelador de ampla maioria. Decisão, portanto, democrática e legítima". Os dois votos contrários foram um de Picciani e outro de um adversário em Minas do deputado Leonardo Quintão, atual líder da bancada no lugar Picciani.

Na articulação para se viabilizar como alternativa a Dilma, o vice-presidente tenta primeiro organizar uma maioria dentro do PMDB, o que é indispensável para atrair a oposição para o impeachment. O Senado, uma Casa mais conservadora, é uma barreira que Temer precisa ultrapassar. Na terça-feira, por exemplo, um dos principais articuladores de Temer, o ex-governador e ex-ministro Moreira Franco, fez uma viagem secreta a São Luis (MA) para conversar com a ex-governadora Roseana Sarney, filha do ex-senador José Sarney, aliado dos governos do PT - mais de Lula que de Dilma. Sarney está com Dilma, mas apreensivo com o protagonismo nacional dado pelo Planalto a seu adversário local, o governador Flávio Dino (PCdoB).

A máquina do Palácio do Jaburu também está em movimento. (Colaboraram Thiago Resende, Fernando Taquari e Vandson Lima)

PF mira três assessores do presidente do Senado

• Inquérito, que tramita em sigilo, foi aberto a partir de acusações de empreiteiro

Vinicius Sassine - O Globo

-BRASÍLIA- Num dos inquéritos que levaram à Operação Catilinárias, deflagrada anteontem, a Polícia Federal pediu a investigação da atuação de três assessores do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e também a busca por provas da relação entre o senador e o dono da construtora UTC, Ricardo Pessoa, como consta em documento obtido pelo GLOBO. O inquérito tramita de forma oculta no Supremo Tribunal Federal (STF) e foi instaurado a partir das acusações feitas por Pessoa em sua delação premiada.

Na Catilinárias, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão, com reunião de provas para sete inquéritos da Operação Lava-Jato no STF, incluindo esse procedimento oculto. A Procuradoria Geral da República (PGR) chegou a pedir buscas na residência oficial de Renan em Brasília, negado pelo ministro relator da Lava-Jato no STF, Teori Zavascki. Os pedidos da PGR e as decisões de Teori sobre as buscas e apreensões também são mantidos sob sigilo.

Doações oficiais a Renan
Antes dessas buscas da Catilinárias, a PF já ampliara as investigações sobre a suposta participação de Renan na Lava-Jato. Em 30 de setembro deste ano, o delegado Felipe Alcântara Leal pediu ao núcleo de análises da PF a identificação de “Marcos e Everaldo e Bruno Mendes, citados como assessores de Renan Calheiros”. O delegado pediu uma pesquisa “nos bancos de dados disponíveis, compilando os registros pessoais, societários e/ou criminais, além de pesquisas em fontes abertas”.

Na delação premiada, Pessoa afirmou ter feito doações oficiais a Renan e que se encontrava com o senador em São Paulo com regularidade. Ele considerava “útil um bom relacionamento com o parlamentar”. O empreiteiro citou os restaurantes em que Renan costumava jantar, dos hotéis Unique e Emiliano, e que “normalmente pagava a conta dos jantares”. Os jantares eram marcados por Everaldo e por Marcos, conforme a delação.

Num dos jantares, Renan teria pedido doação ao filho, Renan Filho, eleito governador de Alagoas. O pedido foi feito após Renan questionar se a UTC já havia ganho contratos para as obras da usina nuclear Angra 3, em Angra dos Reis, segundo Pessoa. Ficou definida uma doação de R$ 1,5 milhão. “O declarante entendeu que poderia descontar as contribuições de Renan Filho da propina de Angra 3”, cita um dos termos de colaboração. Procurada, a assessoria de Renan não retornou.

Executiva Nacional intervém e tira Romário da presidência do PSB do Rio

• Decisão é motivada por revelação de que assessor do senador é réu por homicídio

Marco Grillo - O Globo

O senador Romário (PSB-RJ) foi destituído ontem da presidência do partido no Rio. A Executiva Nacional decidiu intervir no diretório estadual após a revelação, feita pelo GLOBO, de que o assessor parlamentar Wilson Musauer Júnior, lotado no gabinete de Romário e secretário de Finanças do PSB no estado, é acusado de cometer quatro homicídios.

O presidente do PSB, Carlos Siqueira, enviou uma carta ao senador e ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) formalizando a decisão. Além de Romário, saem do diretório também Musauer, Sérgio Barcelos, Rafael Takashi e João Carlos de Oliveira, todos indicados pelo senador. O segundo vice-presidente, Pedro Delarue, também foi retirado do cargo.

A relação entre Romário e a direção nacional do partido já andava tensa há meses, e a revelação do processo em que Musauer é réu foi a gota d´água para a decisão. Segundo Siqueira, havia uma “grande insatisfação” com a gestão do senador.

— A forma como o Romário vinha conduzindo o partido já estava insatisfatória. Falavase de acordos (para as eleições) com os quais a direção nacional não estava de acordo, aí veio essa história (do processo) e apressou (a decisão). Não queremos prejulgar, mas achei demasiadamente grave um presidente ter colocado na direção do partido alguém (Musauer) com essas acusações (de homicídio) — afirmou Siqueira.

Brecha para deixar sigla
Na noite de anteontem, Siqueira e Romário conversaram pessoalmente. Segundo o presidente do PSB, o senador sugeriu que apenas Musauer fosse afastado do comando do partido. Siqueira, no entanto, reforçou a necessidade de uma mudança ampla. Na conversa, Romário manifestou que poderia deixar a legenda caso fosse afastado da presidência no Rio.

— Respeito muito o Romário, não é nada pessoal. Mas não podíamos deixar a situação como estava — reiterou o presidente do PSB.

O novo presidente do partido no Rio é o prefeito de Petrópolis, Rubens Bomtempo, que ocupava a vice-presidência e foi o único integrante mantido na Executiva estadual. A intervenção provocou a formação de uma comissão provisória na direção do partido. Ainda não há data para uma nova eleição da Executiva.

— A Executiva Nacional fez esse pedido, para que eu pudesse assumir o partido neste momento importante e para que o partido possa ter um porta-voz com mais afinidade com o conteúdo programático. Respeito muito o Romário, sua história e seu mandato. Mas a Executiva Nacional acha melhor ele se afastar para esclarecer as acusações feitas a ele (sobre uma suposta conta na Suíça) e a seu assessor — afirmou Bomtempo.

Procurado, Romário não se manifestou sobre o assunto.

Relação conturbada
Sem ter uma definição de Romário quanto a uma possível candidatura à prefeitura em 2016, o PSB se prepara para outros cenários. Siqueira já conversou com o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) sobre uma possível filiação à sigla com o objetivo de concorrer à prefeitura no ano que vem.

— Não confirmo conversa com ninguém, mas não é só essa (com Crivella), são várias. Mudanças vão acontecer no partido — disse Siqueira, sem se alongar.

A relação de Romário com o PSB sempre foi conturbada. Em 2013, então deputado federal, chegou a se desfiliar da sigla alegando divergências com o então presidente nacional, Eduardo Campos, morto no ano passado, e com o então presidente estadual, Alexandre Cardoso, prefeito de Duque de Caxias. Um mês depois, voltou ao partido e assumiu o comando do diretório estadual, após uma intervenção da Executiva Nacional que culminou com o afastamento de Cardoso da presidência.

Romário assumiu novamente a presidência do partido em março deste ano, em um novo momento de crise. O deputado federal Glauber Braga deixou a presidência após perder apoio interno, e Romário teve a chancela da Executiva Nacional para assumir o cargo. Em setembro, Braga saiu do PSB e se filiou ao PSOL, por divergências com o senador.

Roberto Freire: Não vai ter golpe, vai ter impeachment!

- Diário do Poder

Para desespero daqueles que insistem em ludibriar a opinião pública em nome da manutenção de um projeto de poder, o Supremo Tribunal Federal começou a escrever uma página importante neste momento decisivo pelo qual passa o país. A partir do voto lapidar do ministro Luiz Edson Fachin, relator da ação que trata do rito do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a mais alta Corte do Judiciário brasileiro se encaminha para uma decisão histórica que sepulta, definitivamente, a falaciosa tese de que estaria em curso um “golpe” contra a petista.

A decisão de Fachin, que manteve o rito adotado pela Câmara dos Deputados a partir do acolhimento da peça acusatória formulada por Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal, sinaliza claramente que a Suprema Corte não irá se imiscuir nas atribuições do Poder Legislativo, ao qual cabe julgar a presidente da República pelo cometimento de crimes de responsabilidade. O ministro também foi enfático ao determinar que o Senado não tem a prerrogativa de recusar a instauração de um processo de impeachment aberto pela Câmara, como afirmavam os áulicos do lulopetismo. Ademais, a votação que definiu os membros da comissão especial que analisará a denúncia contra Dilma foi considerada válida pelo relator, contrariando o que desejavam o PT e suas linhas auxiliares no Parlamento.

Em sua manifestação, o ministro Fachin derrubou, uma a uma, todas as teses apresentadas pelos governistas e não deixou margem para dúvidas em relação à lisura do processo de impedimento em tramitação no Congresso Nacional. Para além das filigranas jurídicas, o voto do relator coloca um ponto final no discurso delirante e desonesto de que a simples defesa do impeachment seria “golpismo”. Se essa era a preocupação dos lulopetistas, ela não tem mais razão de existir. Afinal, foi a Suprema Corte, e não os opositores de Dilma, que afirmou em alto e bom som: não vai ter golpe!

Muitos dos que hoje ecoam a falsa acusação de golpe, é sempre bom lembrar, cerraram fileiras conosco em 1992, na grande mobilização nacional pelo impeachment de Fernando Collor. Naquela ocasião, não houve uma objeção sequer quanto à legitimidade do processo aberto no Congresso ou ao caráter democrático e constitucional do impedimento, baseado na Lei 1.079, de 1950, a mesma que fundamenta a denúncia atual.

Assim como Collor e seus defensores, Dilma e o PT tentam fazer crer que a vitória nas urnas é uma espécie de salvo conduto para que a presidente eleita viole as leis do país e cometa crimes de responsabilidade – como Dilma, evidentemente, cometeu, conforme detalha a denúncia acolhida pelo presidente da Câmara. Trata-se de uma visão, aí sim, golpista e profundamente antidemocrática, pois sinaliza à sociedade que a autoridade máxima da República estaria acima da lei e a ela tudo seria permitido.

O entendimento inequívoco de Luiz Edson Fachin deve nortear os demais ministros do Supremo, que certamente optarão pelo respeito à independência entre os Poderes e resguardarão a Constituição brasileira. Caberá, portanto, ao Legislativo – e apenas a ele, primeiro à Câmara e depois ao Senado – julgar a presidente da República e votar o impeachment que pode destituí-la do cargo. Em consonância com o desejo majoritário dos brasileiros, contando com a chancela do Judiciário e respeitando a Carta Magna e a democracia, o Parlamento selará o destino do governo mais corrupto e incompetente de nossa história. Não vai ter golpe. Vai ter impeachment.

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Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Alberto Aggio: Para além do impeachment

- O Estado de S. Paulo

O ano vai terminando com a confirmação do que se previa: turbulência e crises. Desde a posse de Dilma Rousseff no segundo mandato não era outra coisa que se anunciava e foi o que se viu. Foi até pior, porque o ajuste fiscal, proposto por um governo cuja legitimidade se assenta num assumido “estelionato eleitoral”, careceu de apoio até do partido da presidente. Com isso a crise econômica se alastrou e com ela a recessão atingiu, em poucos meses, o mercado de trabalho e trouxe de volta a inflação.

Por incompetência, temor ou ausência de convicção, Dilma mais prometeu do que agiu para conter a crise. O governo não conseguiu enfrentar nenhum dos problemas que ele mesmo criou e o País seguiu ladeira abaixo até se consumar a depressão econômica.

A crise política, que era latente, instalou-se e o governo perdeu sustentação no Congresso Nacional, forçando-se a promover diversos arranjos na base do “toma lá, dá cá”, o que acabou acentuando mais ainda o desprestígio dos políticos perante a população. O ano termina com o governo em frangalhos, travado pela degradação política. Termina com Estados e municípios à míngua, sem condições financeiras de responder a seus compromissos mais básicos e com as instituições públicas do nosso “Estado ampliado” destruídas, depois de anos de aparelhamento e descaso.

Signos de um país extenuado, no qual a grande exceção continuam sendo as intransigentes ações republicanas da Operação Lava Jato, secundadas pelo Ministério Público e pela Política Federal.

Em algum ponto da conjuntura, o governo deu sinais de rearticulação para garantir sobrevida, mesmo sem ter conseguido reconquistar a credibilidade perdida na sociedade. A prisão do senador Delcídio Amaral (PT-MS), líder do governo no Senado, e de empresários implicados em desvios de recursos públicos para os cofres das campanhas eleitorais do PT, feriu de morte a tênue tentativa de rearticulação.

Em seguida veio a admissibilidade do pedido de impeachment na Câmara dos Deputados, fato que deve demarcar dramaticamente a vida política do País.

O pedido de impeachment chega ao Parlamento quando o movimento de rua, que havia mobilizado multidões no correr do ano, se encontra desmobilizado e a oposição, dividida. Mas a demanda do impeachment é inquestionavelmente constitucional, legítima e está legalmente amparada. O pedido não é da lavra do presidente da Câmara e não pode ser reduzido a uma vingança deste em relação à presidente da República. Por todas essas razões, é falsa, sob qualquer argumento, a acusação de “golpe” esgrimida pelos governistas.

Mas trata-se de engano imaginar que tudo estará resolvido com o impeachment. Com o afastamento da presidente ou sem ele, o País precisará ser politicamente reconstruído. Os governos do PT puseram a democracia em xeque ao sustentarem seu projeto de poder na corrupção. Destruíram a legitimidade de uma “esquerda de governo” e a autonomia dos movimentos sociais, “comprando-os”, assim como fizeram com parte do Parlamento, numa visão tosca e autoritária do que deveria ser um “governo de coalizão”. A oposição e a opinião pública não fizeram outra coisa senão reagir a essa política de máfia.

O PT legou ao País um cenário de ruínas e a sensação de esgotamento de mais um ciclo na política brasileira, embora não haja consenso quanto à natureza do ciclo que se encerra e menos ainda em relação ao que está por vir. Fala-se do fim do ciclo petista ou do “pacto lulista”, com seu personalismo, populismo ou transformismo. Ampliando o quadro, sugere-se ainda o esgotamento de um ciclo social-democrático, pós-Constituição de 1988, que abarcaria os governos do PSDB e do PT.

Seja como for, é certo que a superação da “razão agonística”, imposta pelo PT, seria um grande benefício para a vida democrática brasileira. Isso porque ela se traduz na cristalização de um discurso desqualificador dos outros atores, cujo objetivo foi sempre o de transformar intencionalmente seus adversários políticos em inimigos, visando a assegurar sua legitimidade e garantir para si a imagem de “polo exclusivo”, portador da “verdade”.

A profundidade do mal-estar atual aconselha, contudo, a pensar que esta crise vem de longe e seu equacionamento demandará algo novo. Ela nasce na dissensão entre os principais atores políticos do processo de democratização. Os nexos fundamentais daquela política de resistência ao autoritarismo e de democratização da sociedade parecem não encontrar mais amparo entre as forças políticas. Seus nexos se romperam, seus atores se desconectaram e, com eles, os consensos que garantiram resultados positivos para o País, da transição até a estabilização da economia, com o Plano Real, passando pela elaboração da Constituição de 1988. Daí em diante o cenário político assumiu feições de polarização, consolidando-se dessa maneira nos 12 últimos anos. Daquela “grande política” restaram esparsas referências e, no entanto, ela parece ser hoje mais necessária do que nunca. Não à toa se fala novamente em “unir o País”!

Em meio à crise, a perspectiva de renovação democrática ainda respira e pede uma “nova política”. Sua força poderá ser maior se contar a seu favor com o apoio de uma população que hoje se expressa claramente tanto contra um clima político de beligerância e de divisão do País, acionado originalmente pelo PT, quanto se opõe a uma política de cúpulas acima das pessoas e sem elas.

Ainda que rarefeita, há uma esperança no ar: da crise podem nascer novas alianças políticas que deem sustentação a uma política de reformas, tanto de caráter imediato como estruturais, visando a recolocar o País no curso do crescimento. Em novo contexto, teremos de refazer caminhos e reconectar nexos perdidos para reconstruirmos a Nação pela via da democracia e da República.
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* Alberto aggio é historiador, professor titular da Unesp

Merval Ppereira: Caminho livre

- O Globo

O dia de ontem adicionou dois dados fundamentais ao caminho do impeachment da presidente Dilma: o relatório do ministro Luiz Edson Fachin, que deve ser aprovado quase que por unanimidade hoje, e o rebaixamento da avaliação do Brasil pela agência de risco Fitch. O STF está dando a chancela democrática e legal ao instituto do impeachment, o que transforma em reles artifício do debate político a acusação de que se trata de um golpe.

O ano de 2015 chega assim ao fim no calendário oficial, mas suas angústias se prolongarão por 2016, com seus efeitos se fazendo sentir na política e na economia. A notícia de que, ontem, ao final do expediente do Supremo, o procurador-geral da República Rodrigo Janot encaminhou um pedido de afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, fecha a série de notícias ruins para a presidente da República, Dilma Rousseff.

Isso porque a saída de Cunha do comando político da Câmara abre espaço para o processo de impeachment sem a contaminação da sua imagem pública, que serve de biombo para reduzir o processo a uma vingança pessoal. O voto do ministro Luiz Fachin, por seu turno, também se encarregou de reduzir a carga da imparcialidade de Cunha nesse processo, ao admitir que sua parcialidade está dentro do que se espera de um processo político, sem invalidar o ato.

O ministro Teori Zavascki já decidiu que não usará o poder que lhe dá a relatoria para decidir monocraticamente sobre a questão, e é improvável, quase impossível, que o plenário do Supremo decida sobre o afastamento do presidente da Câmara antes do recesso do Judiciário, que começa na sexta-feira depois da última reunião plenária.

Hoje eles se dedicarão a finalizar o julgamento sobre o rito do impeachment, que pode se estender até a sessão de amanhã, e há outros assuntos na pauta. Durante o recesso, que vai até o dia 6 de janeiro, responde pelas decisões do STF o presidente Ricardo Lewandowski, que também não deve decidir sozinho causa tão delicada politicamente.

A definição do recesso do Congresso deve sair nos próximos dias, e o mais provável é que ele se estenda até o final de janeiro. Como o Carnaval é na primeira semana de fevereiro, somente a partir da segunda semana o processo de impeachment será retomado, dessa vez com seu rito devidamente aprovado pelo Supremo, o que significa que não haverá mais espaço para judicializações que posterguem sua tramitação.

A essa altura, a Câmara já terá um novo presidente, cuja escolha indicará a tendência da maioria, provavelmente favorável ao impeachment. O senador Renan Calheiros, à parte de ter sido atingido por balas perdidas nessa última etapa da Operação Lava-Jato, perdeu o poder de barganha que teria no processo do impeachment, pois o relatório do ministro Fachin não dá ao Senado o poder de rejeitar liminarmente o impeachment aceito pela Câmara.

Calheiros também deve estar ciente de que as investigações sobre ele estão evoluindo, e, bem informado que é, não deve dar muita atenção aos boatos que sugerem que o ministro Teori Zavascki não autorizou a busca e apreensão em sua residência oficial para protegê-lo, a pedido do Palácio do Planalto.

Quem tomou conhecimento do documento do ministro-relator do Lava-Jato sabe que a não permissão deveu-se às questões meramente técnicas, tanto que o diretório do PMDB de Alagoas foi revistado, e pessoas próximas a Calheiros, como Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, foram alvos da ação da Polícia Federal. Entre as muitas coisas boas que essa operação Lava-Jato está revelando estão as atuações independentes do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário envolvido nas decisões.

Mas, a partir do voto de ontem do ministro Luiz Fachin, é preciso ressaltar a independência com que os ministros do Supremo Tribunal Federal estão atuando, reafirmando a primazia da lei sobre as disputas políticas que marcam as decisões tomadas nessa quadra política atormentada que vivemos.

O ministro Fachin, cuja nomeação provocou muita polêmica e críticas — inclusive minhas — por sua atividade política pública a favor da eleição da presidente Dilma, e sua ligação com movimentos sociais esquerdistas, demonstrou que, como prometeu ao ser sabatinado no Senado, tem condições de atuar com independência no Supremo Tribunal Federal.

Dora Kramer: Direito autoral

- O Estado de S. Paulo

O descrédito assola o governo por todos os lados e solapa os alicerces de sustentação da presidente da República. Obra cujos direitos autorais ficam reservados a Dilma Rousseff. A perda do selo de bom pagador pela segunda agência de classificação do grau de risco que o País representa para investidores é mais um passo em direção ao fundo do poço que se mostra cada vez mais profundo.

Os técnicos do ministério da Fazenda alertaram para os efeitos nefastos (e previsíveis) da “nova matriz econômica”, o atual chefe da pasta, Joaquim Levy, avisou do risco iminente do rebaixamento e de suas consequências. Ele foi solenemente ignorado e, várias vezes, desautorizado. Decisões da presidente.

Na política, o impeachment bate à porta e, mesmo que não venha a se concretizar, o governo sairá dessa em frangalhos. Sem uma base parlamentar minimamente confiável, com seu partido em frangalhos e o PMDB explodindo as pontes da parceria. Uma situação caótica, em boa medida decorrente das atitudes equivocadas da presidente no tocante às relações entre os poderes Executivo e Legislativo por absoluta falta de intimidade com o ofício da política e total aptidão para o exercício do autoritarismo. Na companhia da soberba, da antipatia e da rispidez.

Na sociedade, as pesquisas de opinião indicam que nunca antes na história do Brasil um presidente se manteve por tanto tempo com tal grau de impopularidade.

Menos de 10% dos brasileiros estão satisfeitos com o desempenho da governante reeleita pela maioria há pouco mais de um ano. Mudança de humor provocada pela evidência de que a presidente, quando candidata, mentiu e, com isso, buscou manipular a escolha do eleitorado. Ato cometido na posse de plena consciência por parte de Dilma Vana Rousseff.

Na Justiça, a presidente não vem tendo sucesso. Não conseguiu, mediante recursos, barrar no Tribunal Superior Eleitoral as investigações sobre possível contaminação das contas de campanha de Dilma com dinheiro oriundo do esquema de corrupção e nesta quarta-feira, 16, o ministro Edson Fachin rejeitou a maior parte dos pedidos que interessariam ao governo na ação sobre o rito do impeachment no Congresso.
Contrariando temores residentes dentro e fora da Corte, Fachin não invadiu prerrogativa do Legislativo, limitando-se a interpretar leis em vigor. O Planalto frustrou-se. Tinha a esperança de que o ministro favorecesse o governo por ter sido declaradamente eleitor de Dilma.

Como se vê, os fatos não produzem boas notícias para a presidente. Não em decorrência do acaso, mas como resultado de uma obra erguida pela própria presidente. Da maneira que ela gosta, do jeito dela. Ninguém mandou.

Luiz Carlos Azedo: Pediu pra sair, Levy?

• O líder do governo faz uma emenda ao Orçamento da União, a presidente da República acolhe a proposta e o ministro da Fazenda se desmoraliza de vez

- Correio Braziliense

Neófito na política, ainda mais numa conjuntura mórbida como a que o país atravessa, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chega a ser patético ao comentar o anúncio do rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência de classificação de risco Fitch: “Nós temos que partir em defesa do Brasil”, disse, ao sair de um encontro com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

A retórica nacionalista é um velho expediente de governos enfraquecidos, alguns costumam até arranjar um clima de guerra com os vizinhos, como a Venezuela, por exemplo. Mas não se encaixa no figurino do atual ministro da Fazenda, que está sendo derrubado do cargo pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, o grande ideólogo da nova “matriz econômica”, que não perde uma chance de fazer um contraponto ao colega que deveria liderar a equipe econômica.

Deveria é a expressão mais correta, porque Levy não lidera mais nada. Foi desautorizado pelo líder do governo na Comissão Mista do Orçamento, Paulo Pimenta (PT-RS), que apresentou uma emenda reduzindo a meta de superavit fiscal de 2016 de 0,7% para 0,5% do Orçamento da União. A rigor, isso também não quer dizer muita coisa, uma vez que o Palácio do Planalto está mais preocupado em gastar do que em economizar recursos.

Em tempos idos, o então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, na implantação do Plano Real, mirando o superavit fiscal, se opôs ao aumento real do salário mínimo, posição defendida publicamente pelo líder do governo na Câmara, Roberto Freire, com apoio do presidente da República. O ministro da Fazenda bateu o pé, Itamar recuou e não restou a Freire a não ser alternativa de pedir demissão da liderança. O deputado Luís Carlos Santos (PMDB-SP) assumiu o seu lugar.

No governo Dilma Rousseff, o líder do governo faz uma emenda sob encomenda do Planejamento, a presidente da República acolhe a proposta e o ministro da Fazenda se desmoraliza de vez. Deveria pegar o boné e ir pra casa na hora, pois o mercado já não acredita no que fala. Ainda mais depois de um ano que começou com uma meta ambiciosa de R$ 56 bilhões de superavit fiscal e terminou com um rombo de R$ 120 bilhões.

A presidente da República propôs aos parlamentares a redução da meta de superavit primário das contas públicas para R$ 30,58 bilhões — o equivalente a 0,5% do PIB — com uma regra de abatimento até o montante desse mesmo valor, que funcionará como uma banda de flutuação de 0% a 0,5% do PIB. Levy defendia a todo custo a manutenção da meta em 0,7% do PIB (R$ 43,8 bilhões), compromisso feito a ele pela própria presidente Dilma depois que o Brasil perdeu o grau de investimento pela Standard & Poor’s.

Guinada à esquerda
O ministro da Fazenda havia ameaçado deixar o governo caso sua proposta não fosse aceita, mas até agora não saiu. Faz o mesmo papel ridículo do ex-ministro Guido Mantega, que permaneceu no cargo esperando o sucessor durante meses a fio. Na verdade, Dilma sinaliza uma guinada à esquerda na política econômica, em razão dos acordos que fez com os movimentos sociais para que a defendam contra o impeachment.

O mecanismo aprovado indica que o governo vai gastar mais do que arrecada, já que o superavit poderá ser zerado para pagamento de restos a pagar processados de investimentos (despesas contratadas em um ano e pagas no seguinte), ações de vigilância sanitária, combate a endemias e reforço do SUS, ações de combate à seca, segurança hídrica e mitigação dos efeitos e recuperação de áreas afetadas por desastres.

Ou seja, as obras do PAC, o combate à epidemia de Zika, o Bolsa Família e a ajuda aos atingidos pelo desastre ambiental de Mariana servirão de pretexto para quebrar o país. Se o orçamento já larga sem compromisso com o superavit, o resultado previsível ao final do próximo ano é mais deficit fiscal e aumento da dívida pública. Tanto que ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, já canta de galo: “É preciso dispor de espaço para acomodar oscilações não previstas de despesas e, sobretudo, de receitas”, explicou.

Segundo ele, o exemplo mais eloquente da necessidade de flexibilizar metas é a queda de arrecadação. “O gasto previsto está sendo cumprido, mas as receitas ficaram muito aquém das estimativas”, diz ele. Por que será? O governo já pôs a culpa na recessão, na inflação e do desemprego na crise mundial; agora, responsabiliza a Operação Lava-Jato e a proposta de impeachment de Dilma defendida pela oposição. É muita cara de pau essa inversão entre causa e efeito, mas faz parte do jogo.

Como se sabe, uma sucessão de intervenções desastradas de Dilma na economia, desde que assumiu o cargo, provocou a crise que o país atravessa, num cenário internacional que já não era o de expansão do mercado de commodities agrícolas e minerais. Além disso, certas mudanças demográficas que ajudaram o governo a combater a miséria, agora atuam no sentido contrário, por seu impacto na Previdência Social.

Erros desestruturadores da economia, em países continentais, costumam ter consequências catastróficas. Se o governo insistir em voltar à chamada “nova matriz econômica”, como parece ser a intenção de Dilma Rousseff, o país correrá o risco de entrar num longo período de depressão com inflação ascendente, que já é o cenário de 2016.

Bernardo Mello Franco: Juntos à beira do abismo

- Folha de S. Paulo

Ao fim de um ano de duelo em praça pública, Dilma Rousseff e Eduardo Cunha chegaram juntos a seu momento mais dramático. No mesmo dia, os dois sofreram ontem duras derrotas na luta pela sobrevivência política.

A Procuradoria-Geral da República pediu que o deputado seja afastado da presidência da Câmara. Ele já preparava outra manobra para anular a sessão do Conselho de Ética que instaurou, finalmente, o processo que pode cassar o seu mandato por quebra de decoro.

O Ministério Público sustenta, com razão, que a permanência de Cunha ameaça as investigações da Lava Jato e ataca a "dignidade do Parlamento brasileiro". Como a Câmara já demonstrou que não terá a dignidade de despachá-lo por conta própria, tornou-se necessário apelar ao Supremo Tribunal Federal.

A Procuradoria também apresentou duas novas delações contra o peemedebista. Ele agora é acusado de cobrar propina de R$ 52 milhões para liberar repasses às obras do Porto Maravilha, no Rio. O dinheiro saía do FI-FGTS, ou seja, da poupança do trabalhador assalariado.

Na mesma quarta-feira, o Supremo indicou que deve dar sinal verde ao processo de impeachment que o correntista suíço instaurou contra Dilma. O voto do relator Luiz Fachin frustrou o governo, que contava com a corte para livrar o pescoço presidencial da guilhotina.

Fachin validou o roteiro traçado por Cunha, incluindo a votação secreta que elegeu a comissão que discutirá o impeachment na Câmara. Se os demais ministros apoiarem seu voto, o colegiado será dominado pela oposição e produzirá um relatório pela cassação da presidente.

Dilma e Cunha querem se ver pelas costas, mas agora parecem caminhar lado a lado na direção do abismo. Enquanto os brasileiros se esforçam para driblar a crise e comprar presentes, a presidente e o deputado têm chances cada vez menores de comemorar um feliz Natal.

Jarbas de Holanda: Pré e pós crise do impeachment. Ruptura do PMDB. Amplitude da Lava-Jato

A judicialização tentada pelo Palácio do Planalto não conseguirá evitar que o processo de impeachment da presidente Dilma confirme-se, e reforçe-se, como tema central da agenda do país – incluindo o embate entre a continuidade do mandato dela e a alternativa de novo governo – neste final de ano e ao longo dos primeiros meses de 2016. 

Num contexto em que as crises política e de precaríssima governabilidade serão alimentadas pela piora dos indicadores econômicos e da gestão fiscal. De par com a explosão de seus efeitos sociais e os do esperado rebaixamento da nota de crédito do Brasil para o grau especulativo por mais uma, ou duas, das três agências internacionais de classificação de risco. Bem como pelos da divulgação em março dos dados do IBGE sobre um PIB de 2015 entre -3,5% e -4%. Simultaneamente à caminhada para mais um déficit primário, após a batalha pelo reequilíbrio das contas públicas perdida nestes dias, com a derrota para o núcleo petista do governo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, antes de seu afastamento do cargo.

Tudo isso – junto com os desdobramentos da ruptura da Executiva do PMDB com a presidente Dilma, cujo empenho pela divisão do partido pode levá-lo a uma convenção extraordinária em janeiro – acontecendo sob os impactos de uma condicionante política de crescente peso: o avanço das investigações do petrolão e paralelas, envolvendo o Ministério Público, a partir do juiz Sérgio Moro, a Polícia e a Receita Federal e o STF (para os investigados com direito a foro privilegiado). Avanço este do qual cabe destacar os passos, recentes e próximos, que se seguem. 

A confissão por José Carlos Bumlai de que o empréstimo de R$ 12 milhões que obteve em 2005 do Banco Schahin foi conseguido graças a intervenções do então chefe da Casa Civil, José Dirceu, e dos tesoureiros do PT, Delúbio Soares e João Vaccari Neto, e repassado em seguida ao partido. Confirmando delação premiada dos diretores do Banco, que vincularam a concessão do “empréstimo” a contrato, formalizado posteriormente, de R$ 1,6 bilhão de um navio-sonda da Petrobras. E reforçando dados do Ministério Público sobre o uso de tal repasse para que fossem abafadas investigações a respeito da morte do ex-prefeito Celso Daniel, de Santo André, e para cobertura de gastos da campanha presidencial de Lula em 2006. Outro passo a ser concretizado amanhã: o interrogatório pela Polícia Federal do próprio Lula sobre fortes indícios de negociata em torno de MPs – no governo dele e no de Dilma Rousseff – favoráveis a empresas da indústria automotiva, envolvendo também a aprovação do pagamento de R$ 2,5 milhões a um de seus filhos por uma das empresas na fase de viabilização das referidas MPs.

 E mais um passo, ontem da Lava-Jato, com a fase Catilinárias, desencadeada através do procurador Rodrigo Janot e do ministro Teori Zavascki: buscas de provas incriminatórias, do envolvimento em atos de corrupção, em casas e escritórios do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de ministros e ex-ministros do governo Dilma e de parlamentares ligados a caciques do PMDB – da ala até agora governista do presidente do Senado Renan Calheiros, mas também, alguns, próximos do presidente Michel Temer e com potencial de complicar a “virada” da legenda para afirmar-se como protagonista de alternativa de um novo governo.

Nos cenários, contrapostos, de pós-crise do impeachment, a continuidade da presidente Dilma aponta para um governo mais à esquerda do que em 2015 sob as restrições do ajuste fiscal. Isso em função de três fatores: a defesa do mandato assumida basicamente pelo PT e seus aliados esquerdistas; a ruptura da Executiva e das correntes centristas do PMDB; e a prevalência das prioridades do tutor Lula de apoiar-se numa “frente popular” para tentar reverter o esvaziamento do PT e a erosão de sua própria imagem, por meio de uma retomada de programas assistencialistas. 

Enquanto o cenário da troca de governo, associado ao vice Michel Temer, foi configurando-se com base na forte rejeição social da presidente (reiterada e até ampliada em pesquisa do Ibope divulgada ontem à noite). Adensou-se com o crescente entendimento das camadas médias, e sobretudo do empresariado, da incapacidade e mesmo da impossibilidade de um governo petista dar respostas – conjunturais e menos ainda estruturais – para enfrentamento e ultrapassagem das crises econômica e fiscal, política e ética que sufocam o país, desdobrado em amplo apoio às propostas pró-mercado contidas na “ponte para o futuro”. E ganhou consistência política com o respaldo (à alternativa Temer) recebido da Executiva e das principais lideranças do PSDB, bem como dos demais partidos de oposição. 

Cabe, porém, assinalar que a consolidação dela – ademais dos obstáculos de todo tipo que serão contrapostos pelo Palácio do Planalto e pelo lulopetismo – dependerá em grande medida da capacidade do comando do PMDB, especialmente do presidente, de distinguir-se da imagem do partido de principal parceiro dos governos petistas, do pós-mensalão até agora. Imagem que os desdobramentos da Lava-Jato estão evidenciando.

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Jarbas de Holanda. jornalista

José Roberto de Toledo: Ele por ela, tanto faz

- O Estado de S. Paulo

Se alcançarem o objetivo de tomar o lugar de Dilma Rousseff, Michel Temer e seu PMDB não terão vida fácil com a opinião pública. Pesquisa inédita do Ibope – e divulgada aqui com exclusividade – mostra que 40% dos brasileiros acreditam que o vice faria um governo ruim ou péssimo (17% + 23%). Pior para ambos, só 13% acham que seria ótimo ou bom (3% + 10%). Outros 31% apostam em um governo regular, e 16% não souberam dizer.

A pedido da coluna, o Ibope também perguntou aos brasileiros se eles acham que um eventual governo Temer será melhor, pior ou igual ao governo Dilma. O resultado é ainda mais desconcertante para o PMDB. A maior parte acredita ser uma troca de seis por meia dúzia: 43% disseram que seriam governos iguais; 24%, que Temer seria pior do que Dilma; e 23%, que o vice melhoraria em comparação à titular. Os outros 10% não souberam responder.

Como só 9% da população avalia o governo Dilma como bom ou ótimo (segundo outra pesquisa do Ibope, divulgada pela CNI), significa que a maioria dos brasileiros acha a perspectiva de um governo do PMDB liderado por Temer, no mínimo, tão ruim e, no limite, até pior do que o do PT de Dilma. Diante de futuro tão pouco promissor, é fácil entender a perda de ímpeto das manifestações pelo impeachment da atual presidente.

Os poucos milhares que foram às ruas domingo defender a saída de Dilma são menos pessimistas sobre o que aconteceria se Temer chegasse ao poder, mas nem tanto. Segundo pesquisa Datafolha entre quem foi protestar na Avenida Paulista, em São Paulo, só 19% acham que Temer faria um governo bom ou ótimo, contra 28% que apostam em algo ruim ou péssimo. Comparando-se Ibope e Datafolha, verifica-se que o descrédito do vice é 12 pontos maior entre os que ficaram em casa no domingo passado.

Não faltam motivos para a população estar tão descrente de um governo do PMDB. O partido divide a gestão federal com o PT desde 2004. E suas principais lideranças – como a Operação Catilinárias da Polícia Federal evidenciou – estão no mesmo barco de investigados que os demais condôminos do poder.

Como cereja do bolo, há Eduardo Cunha, com quem Temer tem se reunido regularmente. Suas atitudes como presidente da Câmara dos Deputados, se transpostas para um seriado de TV, resultariam em algo tão inverossímil que o transformaria de série dramática em programa de terror pastelão.

Resta ver quantos ministros do Supremo Tribunal Federal acompanham House of Cards Brazil e irão acolher o pedido da Procuradoria-Geral da República para afastar Cunha do cargo. Na hipótese de o castelo de cartas de Cunha cair, Temer perderia um aliado importante, mas lhe restaria um consolo. Caso o impeachment de Dilma prospere mesmo sem a mãozinha dada por Cunha, sua legitimidade teria menos motivos para ser contestada.

Depois do voto do relator Edson Fachin obrigando o Senado a seguir eventual decisão da Câmara pelo impeachment e afastar Dilma antes de julgá-la, diminui a chance de o resto do STF deixar o destino da presidente nas mãos de Renan Calheiros e dos 80 senadores. O foco voltaria aos 342 votos de deputados federais que a oposição precisa para afastar Dilma.

Isso seria um problema para a presidente, especialmente se essa votação ficar para depois do carnaval. Nem a impopularidade e falta de credibilidade do PMDB e de Temer fazem refrear o desejo da maioria da população pelo impeachment de Dilma. Dois em cada três brasileiros continuam apoiando a perda do mandato: 67% a favor, 28% contra. O resto não respondeu ao Ibope.

Logo, quanto mais tempo os deputados passarem longe de Brasília, em contato com seus eleitores durante o recesso parlamentar, maior pressão sofrerão. O tempo voltou a contar contra Dilma.

Maria Cristina Fernandes: A rixa pemedebista e o japonês da Federal

• O ano que não começou pode acabar só depois do Carnaval

- Valor Econômico

Renan Calheiros assumiu o comando da operação de salvamento da presidente Dilma Rousseff num dia de dois revezes para o governo, no Supremo e na nota de risco do país no mercado.

O senador do PMDB alagoano é o principal especialista em bacias das almas num partido de grande expertise no tema. Declarou-se em guerra contra o vice-presidente da República num momento em que nenhum risco está precificado. Sem salvaguarda nas investigações da Lava-jato, o senador resolveu investir na tomada do PMDB como meio de garantir a sobrevivência política de seu grupo político.

Sua decisão de fazê-lo abertamente, em contraposição à carta-confissão com que seu principal adversário rompeu com a presidente da República, não desidrata seu DNA pemedebista. Ao dar publicidade à sua condição de âncora de um governo acossado pelo impeachment e pelo mercado, Renan apela à substância de um partido que navega com conforto como força contramajoritária da política nacional.

Reportagem de André Guilherme Vieira noValor de hoje dá voz ao ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, para explicar as bases reais da disputa entre as bancadas do PMDB na Câmara e no Senado. As operações de busca e apreensão da Polícia Federal da temporada distribuíram-se indiscriminadamente entre os aliados de Renan e Temer. Para consumo externo, o enfrentamento foi batizado de "Agenda Brasil" e "Ponte para o futuro", o primeiro capitaneado pelo senador, no fim do primeiro semestre e o segundo, mais recentemente, pelo vice-presidente.

Renan arregimentou seus dois maiores aliados no Senado, Jader Barbalho (PA) e Eunício Oliveira (CE), para interferir na disputa pela liderança do PMDB na Câmara porque tem por meta o comando do partido na convenção de março. Ao se confrontar com o grupo do vice-presidente às vésperas de eleições municipais cruciais para o partido, Renan cresce, aos olhos de um governo que ainda tem caneta, como aliado merecedor de crédito e nacos de poder. A remuneração de seus servidos estará subordinada à meta fiscal de 0,5% do PIB, aprovada ontem pela Comissão Mista de Orçamento.

Aliado de primeira hora de Fernando Collor de Mello, Renan rompeu com o ex-presidente ao ver o dedo do tesoureiro Paulo César Farias, na sua derrota pelo governo de Alagoas em 1990. Foi peça-chave nas denúncias que acabariam levando à destituição do ex-presidente e antecipou a corrente da história ao tomar o barco do impeachment. Buscava retomar o poder na província e no Planalto.

Desta vez, tendo seu primogênito no governo local e aliados que, a despeito da Lava-jato, ainda subsistem na administração federal, trata de mantê-lo. Dado o voto de ontem do ministro Luiz Fachin, que impede o Senado de anular a decisão da Câmara no impeachment, a cruzada que empreende no PMDB será sua maior serventia. A investida de Renan sobre o comando do partido, prévia ao julgamento do mandato da presidente, transformou-se em uma das principais âncoras do governo.

Renan é o mais poderoso sobrevivente dos pemedebistas-chave do impeachment de Collor. Os dois processos estão condenados ao cotejamento, como ficou claro no julgamento, iniciado ontem, do rito a ser estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal. Ao defender ontem na Corte o procedimento adotado por Eduardo Cunha, o deputado Miro Teixeira chegou a dizer que teria que fazer mea culpa em relação ao seu voto no impeachment de Collor se as regras vigentes àquela época viessem a ser revogadas.

Um de seus mais notórios adversários, Miro foi acionado pelo presidente da Câmara para fazer a defesa do rito estabelecido pela Casa para a escolha da comissão do impeachment. À Constituição, que impõe voto aberto para as deliberações congressuais, contrapôs o regimento da Câmara que garante voto secreto para suas eleições internas.

A escolha de Miro, notório adversário de Cunha, foi um sinal de que o presidente da Câmara foi desprovido do decoro mas não de suas qualidades de estrategista. Na Corte, Miro disse que a situação desconfortável de Cunha perante o Judiciário não o impedia de defender a Casa onde se fazem as leis da democracia.

Fachin respaldaria a peroração de Miro, contrariando a suspeição daqueles que propagandeavam sua defesa pública na presidente Dilma Rousseff em 2010 como indício de um decisão favorável ao Palácio do Planalto. Se o plenário do Supremo convergir com o relator, o rito do impeachment de 23 anos atrás tende a ser, em grande parte, mantido.

O respeito à autonomia do Legislativo, sugerido ontem no voto do relator, indicaria rejeição ao pedido feito ontem pelo procurador-geral da República para o afastamento do presidente da Câmara, que é objeto de uma representação no Conselho de Ética da Casa. Mas o Supremo não se move pela regra de três. Dava-se como provável, ontem à noite, que Rodrigo Janot, derrotado pelo voto de Fachin, arrancasse hoje do ministro Teori Zavascki uma liminar favorável.

Os manifestantes que ontem saíram à rua em defesa do mandato da presidente comemoram o pedido da PGR, mas não há indicações de que uma decisão colegiada sobre o tema venha a ser tomada antes do recesso do Judiciário, que deverá ser ainda mais longo do que o do Legislativo.

As manifestações de ontem e de domingo não são suficientes para conferir ao impeachment o caráter popular do processo que tirou Collor do cargo. As catilinárias ameaçam invadir 2016 com a rixa entre pemedebistas. Talvez por isso nenhum grito de ordem pró ou contra o impeachment parece competir com o previsível sucesso da marchinha em homenagem a Newton Ishii, o agente onipresente das ações da Polícia Federal.

O ano que não começou pode acabar depois do carnaval. A marchinha do japonês é dessas melodias que as pessoas se pegam cantando sozinhas sem saber por que. Ou talvez saibam.

Demétrio Magnoli: A narrativa suja

- O Globo

Foi só um “esquenta”, organizado em uma semana. Os promotores dos atos pró-impeachment têm alegações razoáveis para o relativo fracasso das manifestações do 13 de dezembro, mas nenhuma delas ocultará a mensagem óbvia: as ruas já não são as de agosto, nem muito menos as de março. Há uma explicação para isso, que escapa aos argumentos de circunstância. O impeachment assumiu a forma de uma narrativa suja, incapaz de mobilizar multidões.

Março foi o mês do grande repúdio. Sob os impactos combinados do escândalo do “petrolão” e do estelionato eleitoral, as manifestações imensas concentravam a indignação nacional contra o governo Dilma Rousseff. O grito do impeachment era uma tradução possível, mas não a única, nem talvez a dominante, do sentimento das ruas. Protestava-se contra a captura do Estado por uma elite política e empresarial consagrada ao desvio sistemático de recursos públicos e identificava-se no lulopetismo a representação de um sistema de poder dedicado a iludir os cidadãos.

Agosto foi o mês de uma filtragem política inicial. O Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre, principais organizadores das manifestações, fincaram na praça a bandeira do impeachment, estabelecendo uma fronteira. Saíram às ruas, em protestos ainda muito grandes, mas menores que os anteriores, os mais entusiasmados aderentes do impeachment. Debandaram aqueles que, mesmo abominando o governo, nutriam dúvidas sobre o rumo político a seguir.

Dezembro é o mês da desmobilização. A bandeira do impeachment saiu das ruas quando foi empunhada por um setor da elite política: o PMDB de Michel Temer e Eduardo Cunha, o PSDB e o DEM. Na opinião pública, a questão do impeachment passou a ser entendida como uma guerra intestina entre máfias políticas em disputa pelos despojos do aparelho de Estado. Apesar dos esforços de tantos arautos, a transição de Dilma para Temer não é percebida como uma oportunidade de união nacional legítima, mas como um rearranjo por cima, ditado pelo oportunismo e empapado de cinismo.

De agosto a dezembro, a dinâmica política foi configurada pela denúncia tucana contra a presidente. O pedido de impeachment assinado por Miguel Reale Jr., Hélio Bicudo e Janaína Paschoal definiu um caminho. Sua argumentação, concentrada nas “pedaladas fiscais”, separou a decisão do impeachment da evolução da Lava-Jato, propiciando uma aliança entre os tucanos e lideranças do PMDB potencialmente envolvidas no escândalo do “petrolão”. O foco jurídico nas “pedaladas”, de difícil compreensão para a maioria da população, partidarizou ao extremo o desenlace, que passa a depender exclusivamente da ruptura definitiva entre os dois componentes nucleares do condomínio de poder. A “união nacional” transforma-se, assim, na mera reconfiguração das alianças no Congresso.

Na geometria, a menor distância entre dois pontos é uma reta. Na política, a opção pela reta equivale, com frequência, a uma abdicação. A estratégia tucana do impeachment implicou a renúncia à crítica de fundo do lulopetismo. Abrindo mão da oportunidade de iluminar as raízes do fracasso da política econômica do governo, o PSDB passou a votar sistematicamente contra o Planalto, mesmo quando isso significava enfraquecer os pilares do Plano Real, como no caso do fator previdenciário. Ao trocar o registro da Lava-Jato pelo das “pedaladas”, o PSDB desistiu de explicar que o capitalismo de Estado é um capitalismo de compadrio, distanciando-se do clamor popular pela instauração de uma administração pública honesta e transparente.

As ruas esvaziaram-se porque a mera substituição da aliança PT-PMDB por uma aliança PMDBPSDB atrai apenas os militantes de um antipetismo caricatural, estridente e primitivo. Se os tucanos tivessem optado por uma longa curva, assinariam a denúncia contra Eduardo Cunha apresentada pela Rede e pelo PSOL. Nessa hipótese, o “Fora Cunha!” ajudaria a evidenciar a natureza corrupta do bloco de poder lulopetista. Mas, escolhendo o caminho reto do impeachment, os tucanos enredaram-se num pacto tático com o diabo que contamina toda a narrativa política. Nesse cenário, o falso embate de Dilma contra Cunha, pedra de toque na estratégia de sobrevivência do governo, adquire alguma verossimilhança, confundindo a opinião pública.

O Planalto aposta suas fichas no erro básico do PSDB, que desvinculou o pedido de impeachment das investigações da Lava-Jato. Na hora das prisões de Delcídio Amaral e José Carlos Bumlai, peças cruciais para a decifração dos papéis desempenhados por Lula e Dilma no assalto à Petrobras, a presidente que comandou direta e indiretamente a estatal durante todos esses anos exibe-se como a personificação da honestidade. O discurso do governo, uma peça quase onírica, deveria ser objeto de bombardeio implacável. Mas, vergado sob o pesado fardo do pacto com Cunha e imerso na lógica de seu pedido de impeachment, os tucanos reduziram-se à condição de linha auxiliar numa dissidência palaciana e parlamentar conduzida pelo PMDB.

O Ibope revela que a rejeição ao governo continua na casa dos 70%. As projeções do PIB apontam para o túnel escuro de uma depressão similar à do início da década de 1930. A inflação já ultrapassou a barreira dos 10%, acima do índice de aprovação da presidente, enquanto a taxa de desemprego move-se rumo a esse patamar. Cunha e Renan Calheiros estão na mira da Lava-Jato, que fecha o cerco em torno de Lula. O governo Dilma implode em câmera lenta e talvez não sobreviva ao carnaval.

O impeachment inepto sustentado em argumentação jurídica precária pode, afinal, dar certo. Contudo, o rearranjo pelo alto, articulado nas sombras pelo PMDB de Michel Temer com o apoio dos tucanos, não solucionará a crise nacional. As ruas, esvaziadas e amortecidas, enviam uma mensagem que já não será ouvida. Elas dizem que, no fim das contas, nada substitui uma narrativa limpa.

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Demétrio Magnoli é sociólogo

Miriam Leitão: A raiz da crise

- O Globo

O governo acabou. No dia de ontem isso ficou muito claro. O Supremo Tribunal Federal (STF) está definindo o rito do impeachment, o país perdeu o grau de investimento, a área econômica bate cabeça, com decisões sobre o Ministério da Fazenda sendo tomadas sem que o ministro seja ouvido. No Congresso, a oposição é que se mobiliza para defender o erário.

Pode parecer um mero detalhe, mas é um exemplo desse clima de fim de governo. A Receita Federal é contra a nova mudança e ampliação do Simples Nacional. Uma já foi aprovada no ano passado. Entre outras razões, argumenta que isso significaria perda de R$ 6 bilhões em 2016, de R$ 12 bilhões em 2017 e R$ 18 bilhões em 2018. Estados e municípios perderiam de R$ 5 bi a R$ 7 bi por ano. A Receita fez uma nota técnica mostrando os riscos da mudança, mas o Projeto de Lei Complementar 125/2015 está sendo ardorosamente defendido pelos governistas.

Os senadores do PSDB Aloysio Nunes Ferreira e Cássio Cunha Lima tentaram barrar o projeto para debatê-lo, mas a bancada do governo o defende. Quando o senador Aloysio procurou o líder do governo na Comissão Mista de Orçamento, Paulo Pimenta, com a nota técnica da Receita, mostrando os argumentos, ele disse que isso era coisa de “burocrata”. O senador oposicionista disse que a Fazenda era contra, mas o deputado disse que a Casa Civil era a favor. Foi aprovado na Câmara.

A área técnica do governo não consegue interlocução com os próprios governistas. Fatos assim alimentam o pessimismo em relação ao Brasil. Uma agência, quando analisa o país, olha a tendência de longo prazo. O Brasil, depois de dois anos com déficit primário, terá uma meta flexível, que poderá ser zero. Houve mais um espetáculo de desautorização pública do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Daqui para diante haverá mais fluxo de capital para os Estados Unidos e menos interesse em países em desenvolvimento. Ontem os juros começaram a subir nos Estados Unidos depois de sete anos de juros zero. Não foi apenas um movimento. Haverá outros. É uma mudança na política monetária da maior economia do mundo e isso tem reflexos. O Brasil está na pior situação possível neste momento: sendo rebaixado por agências de risco.

O rebaixamento pela Fitch era esperado, mas tem efeitos. A partir de agora o Brasil não é grau de investimento. Os investidores institucionais exigem duas agências classificando nesse nível para que o país seja colocado no mapa das inversões. A única nota boa que o país tem é da Moody’s, mas a agência já comunicou rebaixamento para breve.

Como foi que chegamos até aqui? Com o ataque sistemático e continuado às bases da Lei de Responsabilidade Fiscal, com o desprezo pelos fundamentos da estabilidade monetária e fiscal que tem caracterizado a administração Dilma Rousseff.

A presidente agora deverá enfrentar um rito diferente do que foi defendido pelo advogado-geral da União no processo de impeachment. O processo é longo, e ela terá tempo de se defender. Mas do que é acusada a presidente Dilma? De atentar contra a Lei Orçamentária, de desrespeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal. E ela tem feito exatamente isso, tanto que o país chega ao fim de cinco anos de seu governo em trapos do ponto de vista fiscal.

Na nota técnica da Receita Federal contra a nova mudança e ampliação do Simples — que inclui até empresas de bebidas na renúncia fiscal e dobra os prazos para pagamentos de dívidas tributárias — um dos argumentos é que ela fere a Lei de Responsabilidade Fiscal. Só quem se preocupa com as ponderações dos técnicos do governo é a oposição, porque os governistas aprovaram o regime de urgência ao projeto sem ouvir o que a Receita está dizendo.

A ideologia de Dilma é incompatível com a estabilidade monetária e fiscal. Não foram apenas seis decretos de crédito suplementar. Foi toda a política implantada por ela. O Brasil perdeu o selo de bom pagador pelo qual lutou durante anos nos governos Fernando Henrique e no primeiro mandato de Lula. A vitória foi conquistada passo a passo. A perda é também o resultado de erros repetidos. Eles começaram no final do período Lula, mas ganharam vulto na administração Dilma.

Maria Alice Rezende de Carvalho*: Sobre “tudo que está aí”

- Boletim CEDES – agosto-dezembro

Alguém já disse que o ensaísta Otávio Paz se sentia à vontade “no todo”, no trato de questões que lhe permitiam viajar por largos períodos de tempo, transitando, quase sempre, do domínio da política para o da cultura, do conjuntural para um aspecto constitutivo do modo de existência dos mexicanos. Mas talvez se pudesse dizer que, independente do ensaísta, esse é o propósito do gênero ensaio: um esforço de entendimento de algo que é pressentido no seu contorno, e não no detalhe. Ensaios falam de coisas já sabidas por todos, que, contudo, tomam de assalto a consciência quando arrumadas de um jeito novo. Por isso, quando o contexto expõe fraturas políticas aparentemente profundas, quando a divisão é o elemento dominante no cenário intelectual, o ensaio é um convite à reunião de todos nesse lugar comum, uma convocação a esse recuo de onde é possível avistar mais facilmente o “todo”.

Vive-se hoje uma crise cujo escopo abrange a política, a economia, a legalidade republicana e um modo de existir socialmente, a que se dá o nome – ou, pelo menos, se dava – de Brasil. Se as três primeiras dimensões são constantemente referidas, revezando-se na preferência dos analistas, as menções à nossa maneira de viver, isto é, à ética social brasileira e aos deslocamentos que se verificam nesse âmbito têm sido menos frequentes. E talvez seja aí onde se nutre o nosso mal estar.

No Brasil, guardadas as devidas proporções, as três últimas décadas conheceram uma revolução social comparável à dos anos compreendidos entre 1940 e 1980. Naquela época, a chegada de milhões de brasileiros às cidades era o aspecto que mais se destacava e o que melhor traduzia os rumos que a modernidade assumia entre nós. O êxodo rural experimentou um momento de grande aceleração, e, por volta de 1970, chegou a transferir para as cidades o equivalente a 30% da população rural – cerca de 12 milhões de pessoas. Assim, se o Brasil dos anos 1940 apresentava uma taxa de urbanização de 26,35%, ao final do período mencionado, essa taxa já havia atingido 68,86%. 
Em seu livro A urbanização brasileira, onde se encontram tais informações Milton Santos afirma que, ao longo desses quarenta anos, a população total do Brasil triplicou, enquanto a população urbana brasileira se multiplicou por sete vezes e meia.

Os migrantes vinham atrás de melhores condições de vida – o que significava não apenas casa e trabalho dignos, mas também o acesso à educação e, sobretudo, a uma vida livre, que as relações de trabalho nos latifúndios não favoreciam. Movido pelas políticas de substituição de importações, o mercado industrial de trabalho foi uma poderosa miragem para aquele contingente, estimulando, nesse sentido, a urbanização dos Estados de São Paulo e da Guanabara, destinos preferenciais de homens pobres do campo, sem adequação imediata ao modo de vida urbano. Muita gente se desprendeu de toda parte do Brasil em busca de melhor destino; e a penosa entrada em um mundo desconhecido não parecia tão ruim, comparada à permanência no campo.

O fato, porém, é que essa revolução demográfica conhecerá assentamento durante a ditadura militar, conformando, nas cidades, um tipo de experiência social inseparável daquela circunstância. Se a experiência política da ditadura vem sendo revolvida – como se observa com a construção de uma memória pública relativa àqueles anos –, o mesmo não se dá com a experiência social da ditadura, ainda que seus efeitos sejam bastante severos e duradouros. É claro que um número significativo de estudos se debruçou sobre a organização da sociedade civil naquele período, apontando, justamente, a destruição – ou, pelo menos, o abrandamento – do que havia sido conquistado desde o segundo pós-guerra. Mas as organizações sociais, como se sabe, além de habitarem a fronteira da política, supõem a participação de cidadãos empenhados. 

Portanto, a experiência social da ditadura como algo que afeta a todos, indistintamente, e não apenas àqueles que participam do mundo público-político, deve ser buscada em uma específica configuração histórico-espacial que resultou do encontro entre aquela gigantesca onda migratória e o autoritarismo político. A esse resultado se pode dar o nome de “cidade da ditadura”, isto é, o ambiente urbano que, tendo sido fruto de uma determinada conjuntura, se tornou perene.

A súbita movimentação de migrantes em escala superior ao que as cidades brasileiras poderiam comportar gerou uma pressão social latente que terá sido afrouxada com a informalização do trabalho e da habitação, o que não apenas liberou variadas estratégias de subsistência, incluído o improviso habitacional das favelas e cortiços, como também desmarcou algumas instituições da cidade – sobretudo ruas e espaços públicos, que foram sendo devoradas pela informalidade reinante. 

Deliberada ou não, foi essa a “política urbana” praticada pelos militares: deixar que as cidades fossem 3 conformadas pela acomodação espontânea entre velhos e novos habitantes, velhos e novos interesses, cabendo os custos materiais e sociais daquela acomodação aos próprios citadinos. Ao fim de algum tempo, a desregulação encontrou operadores que mercantilizaram alguns arranjos e passaram a viver do absenteísmo governamental. Mandões, valentões, toda a florada de patronos dos ajuntamentos populares contiveram a pressão embaixo – alinhados, evidentemente, pela repressão estatal – enquanto, em cima, mandava a indústria da construção civil, incorporando novos terrenos e dando emprego à mão de obra despreparada e analfabeta que adentrara o mundo urbano. Viadutos, túneis, pontes, conjuntos habitacionais construídos em áreas de fronteira da cidade, foram amarrando as gerações futuras a uma era de autoritarismo político que se inscreveu na própria morfologia das cidades.

É, portanto, nessas “cidades da ditadura” que continuamos a viver – cidades marcadas por arranjos urbanísticos de péssima qualidade e pior inspiração, pela escassez de saneamento, pela proliferação de guetos sociais, pela violência do Estado, pela ausência de participação efetiva da sociedade em experiências de auto-organização, e, como se não bastasse, pelo desrespeito à vida (e mesmo à morte), que se percebe em eventos como o da recente passagem do trem da SuperVia sobre o corpo do jovem que jazia em seus trilhos. 

Pesquisa realizada posteriormente pelo jornal O Dia constatou que a maioria dos entrevistados apoiou a decisão dos administradores. Quem há de estranhar? A brutalização dos passageiros da SuperVia é nutrida, cotidianamente, pela ausência de dignidade que a empresa lhes concede: não há limpeza, conforto, segurança, banheiros públicos, plataformas cobertas nas estações, acessos facilitados aos mais velhos, às crianças e aos deficientes, e, aliás, qualquer certeza quanto aos serviços anunciados. Enfim, esse é o miserável cenário que nos contém, em nada parecido com o de uma cidade livre – vivemos tristes em ruas tristes, aprisionados em cidades da ditadura.

As três últimas décadas no Brasil, de modo similar ao que ocorreu nos anos compreendidos entre 1950-1980, representaram uma mudança estrutural no país, expressa na chegada de milhões de brasileiros ao mundo dos direitos. Não se trata mais da migração campo-cidade, mas da vitória da agenda da igualdade, que conhece enorme desenvoltura em todo o mundo – e, no Brasil, não tem sido diferente. Entre nós, as políticas de transferência de renda somadas a um ambiente político democrático pareciam poder impulsionar a participação e, com ela, o aprofundamento das conquistas consagradas pela Carta de 1988. O tema da “inclusão” e a denúncia da desigualdade 4 seguem sendo, desde o início dos anos 2000, os ângulos hegemônicos das análises voltadas aos impasses da democracia brasileira.

Portanto, é impossível não mencionar avanços auferidos nesse âmbito – das políticas focais a estratégias de valorização dos setores mais vulneráveis da população. Mas também seria irresponsável desconhecer o fato de que tais avanços apenas roçam a superfície do problema. E por dois motivos. O primeiro deles é mais óbvio: não basta apenas ter acesso aos direitos; é preciso que eles se tornem efetivos, cumulativos e cotidianos. Crianças e jovens vão às escolas, mas não necessariamente se alfabetizam ou têm a chance de fazer do conhecimento uma via de ascensão e de reconhecimento social; moradores de favelas têm acesso à eletricidade, mas, se houver um problema no fornecimento, por quantos dias, semanas, em alguns casos, meses, permanecerão sem o serviço? De fato, a democratização dos “bens de cidade” ainda é limitada, pois a simples garantia dos direitos não corresponde automaticamente ao seu usufruto

O segundo motivo, talvez mais importante, é que a cidade, tal como se encontra estruturada, não permite que mesmo as mais bem intencionadas políticas de transferência de renda alterem o círculo vicioso da pobreza urbana, que, como se sabe, supõe uma forte relação entre territórios e oportunidades sociais e ocupacionais. Assim, transferir renda, mantendo, porém, grandes áreas da cidade destituídas de equipamentos e serviços públicos, não promoverá a democratização da sociedade. Afinal, parodiando Luiz Cesar Queiroz Ribeiro, “o que a economia produz como promessa de bem-estar individual, a metrópole transforma em mal-estar coletivo”.

Em suma, a novidade dessa segunda revolução demográfica não é mais a chegada das grandes massas à cidade e sequer sua adequação à pauta de consumo que a cultura urbana impõe, mas, antes, a chegada das grandes massas ao mercado de crédito – fenômeno que cancelou a barreira da “heterogeneidade estrutural” que, na América Latina, impedia o avanço da sociedade de mercado. O argumento é da economista Lena Lavinas, que, no caso brasileiro, observa que o sistema de saúde – mas, se poderia dizer o mesmo sobre o sistema educacional – foi financeirizado, como se atesta pela rápida expansão dos planos de saúde. No caso do sistema educacional, vide a multiplicação de escolas e faculdades privadas.

Ora, esse deslocamento da provisão pública dos “bens de cidade” para a esfera privada não reflete a melhoria das condições de vida das famílias brasileiras. Trata-se, ao contrário, de uma dinâmica de fortalecimento do capital financeiro e de mercantilização da cesta básica de direitos (nela incluídos, habitação e transporte), cujo 5 efeito tem sido a ampliação da vulnerabilidade dos segmentos mais pobres da população. 

Em outras palavras, a política social que acompanha esse segundo grande ciclo de expansão da urbanização brasileira não concorre para a democratização da cidade. Sendo o acesso ao mercado financeiro a grande novidade desse segundo desenvolvimentismo, todas as exigências de uma cidade igualitária vêm sendo progressivamente descuidadas, para não dizer canceladas: não há saneamento básico para uma grande parte da população metropolitana, não se construíram moradias dignas na proporção requerida, o sistema de transportes humilha e avilta seus usuários, a saúde e a educação públicas são deficientes e... se utiliza o crédito para assegurar necessidades básicas. Nesse sentido, à “cidade da ditadura”, excludente e autoritária, se superpõe a “cidade da inclusão financeira”, que não afeta a morfologia urbana herdada do regime militar e tampouco a desigualdade nela inscrita.

Daí que, paralelamente aos diagnósticos que tomam as jornadas de julho de 2013 como expressão periférica de um movimento global de contestação política, como algo derivado de energias destampadas pela interação de jovens que, “não sabendo o que querem”, sabem que não desejam ver obstruídos seus esforços de participação, é importante destacar o quanto o modo de vida nas cidades brasileiras contribuiu para a deflagração daquele e de futuros levantes.

É claro que há algo de descontentamento político no movimento das ruas, sobretudo se considerarmos o quanto os representantes se distanciaram da sociedade e de seus anseios. Mas isso talvez seja mais verdadeiro entre os jovens argentinos, que têm proclamado um contundente “que se vayam todos”. O levante das ruas brasileiras, diferentemente, foi e será movido por uma constatação da falência das instituições urbanas, uma sensação de desatendimento das expectativas quanto ao viver em cidade, uma amarga experiência social – além da política – deixada pela ditadura. A (des)organização do espaço, a sofrível oferta de serviços públicos, a individualização do acesso a bens de cidadania, a mercantilização, a exclusão, a desregulação, enfim, “tudo isso que está aí” são vestígios do fracasso da democracia brasileira em prover uma cidade livre e justa.
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* Professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio e Pesquisadora do Centro de Estudos Direito e Sociedade (CEDES-PUC-Rio).

Visita ao núcleo político da corrupção – Editorial / O Globo

• A Lava-Jato não pode condicionar suas operações ao momento político ou se preocupar com especulações sobre hipotéticos interesses ocultos

A operação de terça-feira da Lava-Jato tem ingredientes de sobra para inspirar visões conspiratórias. A começar pelo nome, carregado de ironia: Catilinárias, o conjunto de discursos de Cícero, na Roma antiga, de denúncia contra o senador golpista Lucio Catilina.

Há ainda a coincidência com uma sessão importante marcada no Supremo sobre o rito do processo de impeachment pedido contra Dilma, enquanto é executada na Câmara outra liturgia de defenestração, esta do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos alvos ilustres da Catilinárias.

Cunha repetiu a interpretação conspiratória de que ele e seu partido são vítimas do PT e do governo — por meio do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Faltou, porém, explicar como petistas e Planalto iriam acossar logo agora o PMDB, legenda formalmente aliada e chave para evitar o impedimento da presidente. Mais ainda: e no momento em que o grupo do quase dissidente assumido vice-presidente Michel Temer articula catapultar o partido que preside para fora do governo.

Acrescente-se que entre os atingidos estão peemedebistas ministros do governo Dilma: Celso Pansera (PMDB-RJ), de Ciência e Tecnologia, e Henrique Eduardo Alves (PMDBRN), do Turismo.

É mais lógico, até considerando o histórico do trabalho do juiz Sérgio Moro, de procuradores e delegados da PF que constituem a força-tarefa da Lava-Jato, entender que a Catilinárias marca a retomada do avanço da Operação no núcleo político do esquema que assaltou a Petrobras, a partir do aparelhamento lulopetista da empresa.

Cabe lembrar que nesta mesma terça-feira o amigo íntimo do ex-presidente Lula, o pecuarista e lobista José Carlos Bumlai, foi ungido réu por Moro e confessou à PF que o empréstimo de R$ 12 milhões levantado por ele junto ao banco Schahin era na verdade para o PT pagar dívidas. A operação é tenebrosa, porque levou o grupo Schahin, em troca, a fechar um contrato bilionário com a Petrobras, para operar um navio-sonda, algo nada familiar à expertise da empresa. Ou seja, tráfico de influência grosseiro, praticado nas cercanias de Lula. E não há provas de que Bumlai pagou ao banco. Tudo teria ficado elas por elas.

Há ainda, para inspirar especulações, a negativa do ministro Teori Zavascki, do STF, a mandado de busca e apreensão contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o oposto que fez com Eduardo Cunha.

Mas o ministro também não atendeu a outros pedidos de mandados. E não escaparam pessoas ligadas a Renan: Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, um elo do petrolão, indicado pelo senador ao cargo; e Aníbal Gomes (PMDB-CE), que seria representante de Renan em transações obscuras. Portanto, é um exagero achar que o presidente do Senado está tranquilo neste momento.

A Lava-Jato parece seguir um roteiro bem planejado, a partir da delação premiada de Alberto Youssef, em 2013: diretores da Petrobras, empreiteiros, outros operadores, incluindo o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e políticos. Fernando Baiano, operador ligado ao PMDB, cruzou com repórteres, também na terça, ao chegar para depor na PF em Curitiba, fugiu de perguntas, mas disse que “tem muita coisa ainda a acontecer”. Fala com conhecimento de causa, e espera-se que haja mesmo, e que nada impeça o avanço da operação.

A investigação desse gigantesco escândalo, ocorrido no núcleo do grupo no poder há 13 anos, numa eclética aliança que vai da extrema-esquerda à extrema-direita, não pode ser condicionada a calendários políticos ou quaisquer outros.

Fernando Pessoa: Entre o sono e sonho

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Candeia:Gamação/ Peixeiro Granfino/ Ouço uma Voz/ Vem Amenizar