domingo, 1 de setembro de 2019

Vera Magalhães: O tamanho do veto

- O Estado de S.Paulo

Lei de Abuso de Autoridade expõe Bolsonaro a dilema que ele entende, daí o nervoso

E aí, veta ou não veta? As areias da ampulheta começam a cair mais depressa, e dia 5 deste mês se encerra o prazo para que Jair Bolsonaro sancione, vete ou sancione com vetos a famosa Lei de Abuso de Autoridade, que poucos leram, mas todos odeiam.

Talvez não todos, mas principalmente os bolsonaristas. Esses odeiam com força. A ponto de não entender exatamente as nuances do momento atual, em que seu Mito se vê entre a cruz e a caldeirinha, ou seja: entre o apelo da sua tropa pelo veto integral e as circunstâncias novas da política que o levariam a desejar ser bem mais parcimonioso na tinta da caneta, seja ela Bic, Compactor ou de que marca for.

A incompreensão dessa mudança do vento levou a turma do verde e amarelo às ruas no domingo passado. Em número bem menor que em outras oportunidades e ainda não cientes da divisão paulatina entre bolsonarismo e lavajatismo, os manifestantes exalavam uma confiança completa no #VetaTudoBolsonaro.

Mesmo parlamentares do PSL estavam lá engrossando o coro, como o senador Major Olimpio e a deputada Carla Zambelli.

Lourival Sant'Anna: Entre Johnson e Salvini

- O Estado de S.Paulo

Democracia exige paciência e concessão, em um mundo de imediatismo e intolerância

Na mais antiga democracia moderna, um governante populista impediu o Parlamento de participar do passo mais importante do país desde a 2.ª Guerra. Na política mais bagunçada da Europa Ocidental, o Parlamento barrou a ascensão de um populista ao poder.

O que a suspensão do Parlamento britânico pelo primeiro-ministro Boris Johnson e a formação da coalizão entre o Partido Democrático (PD) e o Movimento 5 Estrelas (M5S) para evitar a convocação de novas eleições na Itáliadizem sobre o estado da democracia no mundo?

No sistema brasileiro, uma sessão legislativa dura um ano. No Reino Unido, dura enquanto o Parlamento sentir que tem questões importantes não resolvidas.

O primeiro-ministro pode solicitar à rainha o encerramento de uma sessão enquanto ele prepara a apresentação de novo plano de governo.

Em um dos muitos rituais pitorescos do sistema britânico, um mensageiro da rainha leva a mensagem à Câmara dos Comuns, cuja porta é batida três vezes na cara dele, simbolizando a independência do Parlamento frente ao monarca.

Mario Vargas Llosa*: O retorno à barbárie

- O Estado de S.Paulo

Vários países da América Latina correm risco de retrocesso, como visto na Venezuela

O segundo homem forte da Venezuela, Diosdado Cabello, enfurecido porque, em razão da inflação vertiginosa que assola sua terra natal, o bolívar desapareceu de circulação e os venezuelanos só compram e vendem em dólares, pediu aos seus compatriotas que recorram ao “escambo” para banir a moeda imperialista do país de uma vez por todas.

É certo que os infelizes venezuelanos não darão a menor atenção ao pedido, porque a dolarização do comércio não é um ato livre ou uma escolha livre, como o líder chavista acredita, mas sim a única maneira pela qual os venezuelanos podem conhecer o valor real das coisas em um país onde a moeda nacional é desvalorizada a todo momento pela pavorosa inflação – a mais alta do mundo –, que levou a Venezuela e seus irresponsáveis dirigentes a multiplicar os gastos públicos e imprimir moedas sem respaldo.

A alusão de Cabello ao escambo é uma clara indicação do retorno à barbárie na qual vive a Venezuela, pois, em um ato de cegueira coletiva, o povo venezuelano levou o comandante Chávez ao poder.

O escambo é a forma mais primitiva de comércio, os intercâmbios que nossos antepassados remotos fizeram e que alguns pensadores, como Hayek, consideram o primeiro passo dado pelos homens das cavernas em direção à civilização.

Naturalmente, comercializar é muito mais civilizado do que brigar com bordoadas, como as tribos fizeram até então, mas suspeito que o ato decisivo para a civilização do ser humano tenha ocorrido antes do comércio, na época em que nossos ancestrais se reuniam na caverna primitiva, ao redor de uma fogueira, para contar histórias.

Merval Pereira: Dar sentido à vida

- O Globo

Para Ricupero, não haverá paz, estabilidade, retomada do desenvolvimento sem a integração progressiva dos marginalizados

“Os regimes atuais, quer o capitalismo ocidental, quer a versão estatizante chinesa, são incapazes de resolver os três maiores problemas humanos: o aquecimento global, o aumento da desigualdade, o desemprego estrutural agravado pelos robôs e a inteligência artificial”.

Essa pessimista constatação faz parte do diagnóstico do embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero na Academia Brasileira de Letras, que fechou um ciclo de palestras dedicado a debater o futuro do Brasil. Durante o evento, coordenado pela escritora Rosiska Darcy de Oliveira, a questão foi analisada por diversos ângulos: o das políticas públicas, pela presidente da Fiocruz, Nísia Trindade; o da economia, por Edmar Bacha; o dos direitos humanos, por Antonio Cicero; o do sentimento nacional, por Cacá Diegues (os três últimos membros da ABL).

O ciclo encerrou-se com a palestra do ex-ministro Ricupero, que analisou o perigo de termos um futuro pior que o presente. Não apenas no Brasil, mas no mundo. Embora o diagnóstico seja pessimista, a conclusão é esperançosa, como veremos. Ricupero lembrou que houve outras fases de abatimento no Brasil, “mas a versão mais grave data de poucos anos atrás, de 2015/16, o instante em que começou a desfazer-se a ilusão de que o país tinha dado certo”.

As fórmulas petistas se tornaram insustentáveis, ressalta. “Algumas concorreram poderosamente para desencadear, primeiro, a crise fiscal, em seguida, o gravíssimo colapso que prostrou a economia até este momento”.

Após os sucessos do Plano Real, do crescimento do governo Lula, da conquista do grau de investimento, “a debacle da economia trouxe de volta aos brasileiros o efeito psicológico desmoralizante do fracasso”.

Bernardo Mello Franco: Bolsonaro antecipa o jogo

- O Globo

Com pouco mais de três meses no cargo, o presidente admitiu que deseja a reeleição. Agora ele passou a alvejar Doria e Huck, potenciais adversários em 2022

Era de se esperar, pelo discurso de posse, que Jair Bolsonaro mantivesse o tom de campanha ao se instalar no Planalto. Mas não estava no script que ele anteciparia tanto a próxima disputa, como se o país já estivesse sintonizado em 2022.

O presidente levou pouco mais de três meses para rasgar a promessa de não concorrer a outro mandato. “A pressão está muito grande para que, se eu estiver bem, me candidate à reeleição”, disse, no início de abril.

Desde então, a autopromoção eleitoral se tornou mais frequente e mais explícita. “Pegamos um país quebrado, mas se Deus quiser conseguiremos entregá-lo melhor para quem nos suceder em 2026”, discursou, em julho.

Nas últimas semanas, Bolsonaro abriu uma nova etapa da campanha antecipada. Passou a alvejar diretamente possíveis adversários no campo antipetista. Entraram na mira o governador paulista João Doria e o apresentador Luciano Huck, que voltou a desfilar como presidenciável.

Em 2018, Doria só faltou ajoelhar diante do favorito ao Planalto. Não conseguiu uma foto com o capitão, mas lançou o slogan “Bolsodoria” para forçar a dobradinha eleitoral.

Huck ensaiou ficar no muro, mas flertou com Bolsonaro na reta final da campanha. Em vídeo divulgado a uma semana da eleição, disse que “jamais” votaria no PT e que Bolsonaro tinha uma “chance de ouro” para “amadurecer” e “ressignificar a política no Brasil” — seja lá o que isso queira dizer.

Com a popularidade em queda, o presidente farejou a concorrência e passou a tratar os dois como inimigos. “Olha a caixa-preta do BNDES aparecendo aí! Apareceu aquela galerinha da compra de aviões por 3%, 3,5% ao ano. Que teta, hein? Que isso, hein, Luciano Huck?”, provocou, na quinta-feira.

“Comprou também, Doria? Explica isso aí! Só peixe amigão do Lula, da Dilma. E depois eu vejo o Doria falando: ‘A minha bandeira jamais será vermelha’. É brincadeira, né? Quando ele tava mamando lá, a bandeira era vermelha, com a foice e o martelo!”, tripudiou.

Míriam Leitão: Sociedade reage e mostra limite

- O Globo

O que ficou claro nesta crise é que o presidente não tem a maioria ao seu lado nas ideias sobre Amazônia, órgãos de controle e conservação

A sociedade brasileira mostrou um enorme vigor nesta crise ambiental. Ex-ministros do Meio Ambiente foram juntos a Brasília pedir apoio ao Congresso. Funcionários de órgãos ambientais reagiram. Instituições científicas e organizações ambientalistas mostraram os riscos que o país estava correndo. Os empresários do agronegócio alertaram para o prejuízo que a perda de reputação poderia provocar nas exportações. A imprensa contou histórias como a do “dia do fogo”, exibiu imagens eloquentes em reportagens e nos artigos de opinião.

O governo teve que recuar e mandar as Forças Armadas para a Amazônia. Disse que houve efeito imediato de reduzir os focos de incêndio e que a fiscalização voltou a atuar. Houve prisão e suspeito foragido. A Polícia Civil apreendeu em São Félix do Xingu galões com gasolina que seriam usados num vasto plano de queima de floresta em área protegida.

O MPF do Pará, por sua vez, diz que é preciso esperar pelos dados do Inpe para se ter certeza de que houve redução dos incêndios. Está preocupado com o andamento das investigações e diz que não houve “nenhuma ação coordenada do governo federal em Novo Progresso.” Exatamente o município do Dia do Fogo.

Na democracia é assim. O governo eleito não tem carta branca para fazer o que quiser. Mesmo os seus eleitores não aprovam todas as suas propostas. Alguns votam por se identificar integralmente com o político, outros, por algumas das ideias defendidas na campanha, muitos escolhem um candidato para evitar o adversário. 

Dorrit Harazim: Acordou tarde

- O Globo

Preocupação com impactos socioambientais no universo dos fundos graúdos só cresce. Queimadas já deveriam ser proibidas antes

Nova York ainda ardia nas cinzas do ataque terrorista do 11 de setembro de 2001 quando o presidente George W. Bush decretou a sua guerra ao terror. O primeiro flanco que abriu foi no Afeganistão, de onde os Estados Unidos não conseguem sair até hoje. Em 2003, Bush propôs aos aliados que também se juntassem a ele na malfadada invasão do Iraque. Só que a França disse “não” através de um chanceler que já tinha o sobrenome para ser vilipendiado (Dominique de Villepin), o aliado historicamente bissexto voltou a ser visto como traidor. Seguiu-se um episódio do qual os americanos preferem não se lembrar, por tolo.

Dois congressistas do Partido Republicano, um deles presidente da Comissão de Assuntos Administrativos da Casa, instruíram todas as cafeterias do Capitólio a rebatizarem seus cardápios. As populares french fries (batatas fritas) passaram a ser listadas como liberty fries, e o ato de patriotismo de ocasião teve inevitável tribo de seguidores. Donald Trump certamente teria aprovado. Jair Bolsonaro também. Detalhe: trocou-se o nome do prato, ninguém deixou de devorar batatinhas.

À época, a embaixada da França emitiu resposta cortante — “... Em momento tão grave não estamos focando na nomenclatura que americanos dão a batatas...” — e informou que o mundialmente popular prato é originário da Bélgica, não da França. Fim da história: numa calada manhã do verão de 2006, com o desastre no Iraque sem fim à vista, o novo presidente da mesma comissão parlamentar devolveu às frites a sua designação em inglês. Em surdina, para não chamar a atenção.

29 de agosto de 2019, Palácio do Planalto, cerimônia de lançamento do Em Frente, Brasil, programa de combate a crimes violentos. Ao assinar o documento do projeto piloto, o presidente do Brasil gostou de anunciar a demissão oficial da esferográfica francesa Bic para atos de governo, e de exibir uma Compactor como sua sucessora oficial. Talvez não soubesse que a Cia. de Canetas Compactor, com sede na Baixada Fluminense, tem origem alemã e sociedade com parceiros globais, mas ninguém é perfeito. Para estes tempos de guerra amazônica com o mundo, é até um alívio quando o presidente apenas troca de stylo à bille.

Elio Gaspari: O inferno de Moro, uma tragédia brasileira

- O Globo | Folha de S. Paulo

Ministro é hoje uma fritura ambulante. Fritam-no (ou frita-se) no Planalto, no Congresso e no Judiciário

Quando decidiu largar a toga, trocando o altar da Lava-Jato pelo serpentário de Brasília, Sergio Moro fez uma escolha arriscada. Ele havia se tornado um símbolo da luta contra a corrupção, mandando para a cadeia gente convencida de que aquilo era lugar de preto e de pobre. Na última quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro chamou-o de “patrimônio nacional”, mas Moro e as paredes do Planalto sabem que há poucas semanas ele o chamava de outra coisa. Quem já fritou um bife sabe que é preciso virar a carne, para não queimá-la. Moro é hoje uma fritura ambulante. Fritam-no (ou frita-se) no Planalto, no Congresso e no Judiciário.

Há dois anos ele seria um forte candidato na disputa pela Presidência da República. Essa viagem do paraíso ao inferno é uma tragédia brasileira que aponta para algo maior que ele. Mostra os vícios de soberba inerente à ideia do “faço-porque-posso”. Em 2004, antes de se tornar famoso, o juiz Sergio Moro escreveu um artigo sobre a Operação Mãos Limpas italiana e disse o seguinte:

“Os responsáveis pela Operação Mani Pulite ainda fizeram largo uso da imprensa. (...) A investigação da ‘Mani Pulite’ vazava como uma peneira. Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no ‘L’Expresso’, no ‘La Repubblica’ e outros jornais e revistas simpatizantes. (...) Os vazamentos serviram a um propósito útil.”

Moro e os procuradores da Lava-Jato repetiram a mágica. Agora queixam-se de vazamentos, e o ministro da Justiça lastimou que seus projetos “não têm tido a necessária exposição na imprensa”.

O doutor não percebeu a mudança climática a que se submeteu trocando Curitiba por Brasília. Era um juiz que encarnava o combate à roubalheira e, junto com os procuradores, era também a melhor fonte de notícias. Afinal, era preferível ouvir Moro ou Deltan Dallagnol a dar crédito às patranhas virginais de empreiteiros ou de comissários petistas. Moro, Dallagnol e os procuradores sempre souberam que seus serviços seriam avaliados nas cortes superiores de Brasília. Confiaram numa inimputabilidade que lhes seria concedida pela opinião pública, até que vieram as revelações do The Intercept Brasil e, acima de tudo, a decisão do Supremo Tribunal Federal que anulou a sentença de 11 anos de prisão imposta a Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil.

Os inimigos do procurador Dallagnol acusavam-no de manipular a fama com palestras bem remuneradas, mas ninguém seria capaz de supor que de 20 palestras vendidas entre fevereiro de 2017 e fevereiro de 2019, cinco fossem patrocinadas pelo plano de saúde Unimed, com um tíquete médio de R$ 32 mil. Em setembro de 2018 o procurador queria ir à Bahia e perguntou a uma agenciadora: “Será que a Unimed Salvador não quer me contratar para uma palestra na semana de 24 de setembro?” (A Lava-Jato passou ao largo dos planos de saúde.)

Dallagnol fez o que achava que podia fazer. Desde o aparecimento das mensagens obtidas pelo Intercept, os procuradores da Lava-Jato e Sergio Moro encastelaram-se numa defesa suicida de silêncio e negação. Danificaram a alma da Lava-Jato com a soberba do encastelamento que levou as empreiteiras e os comissários do PT à ruína e à cadeia.

Para Moro, a conta do “faço-porque-posso” veio na semana passada, com a decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal.

Alberto Toron estava certo
No dia 19 de janeiro de 2018 o advogado Alberto Toron, defensor de Aldemir Bendine, encaminhou ao então juiz Sergio Moro um pedido para que seu cliente apresentasse seus argumentos finais depois de conhecer os memoriais de Marcelo Odebrecht e de outros colaboradores que o acusavam de receber propinas. 

Janio de Freitas: Grande queima

- Folha de S. Paulo

Para Bolsonaro, todo o fogo é bem-vindo

Jair Bolsonaro já não é aquele que assumiu. Os medos e fugas que levaram a dar Paulo Guedes como o todo-poderoso, carta branca a Sergio Moro, ao general Augusto Heleno a primeira e a última palavras, e tantas outras fraquezas, não existem mais.

O rosto, em acelerado envelhecimento, assume uma firmeza de mandante, o olhar endurecido, nada mais daquela figura de deslocado em um mundo desconhecido.

Designar o próprio filho, de capacitação improvada, para falar e agir pelo país no centro de decisão global é uma atitude que simboliza, por si só, tudo o que é o Bolsonaro agora possuído por sensações de poder, de hierarquia única e de vontades impositivas.

Entramos na zona do perigo.

Quando esse Bolsonaro diz que a imprensa, por criticá-lo, está cometendo suicídio, fala da imprensa, mas sobretudo fala de si, da sua sensação de poder incontrastável. E de uma vontade já manifestada por diferentes maneiras.

Está claro que Bolsonaro tem intenções bem definidas quanto à liberdade de imprensa, assim como antes indicou e já restringe a criação cultural. O risco causa na imprensa mais intimidação do que reação. E com a falta de contraditório contribui para maiores ímpetos da hostilidade à liberdade de expressão.

Prepara-se no Planalto um indulto de policiais presos por crimes de morte e por envolvimento em atividades ilegais. Com participação explícita ou velada, muitos desses policiais são integrantes de milícias.

Em referência ao indulto desses "presos injustamente", Bolsonaro chamou-os de "colegas". Seja qual for a via do coleguismo, o indulto extemporâneo conjuga-se com as relações pessoais, familiares e financeiras dos Bolsonaros com aquela próspera atividade e suas cercanias. No mínimo, o indulto trará a consolidação de disposições milicianas para o que der e vier.

Hélio Schwartsman: 5ª série

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro já deu todos os sinais de que não deixará de ser Bolsonaro

Vamos colocar a discussão em nível de 5ª série para que todos a compreendam. Sim, o Brasil tem soberania sobre a Amazônia. Se quiser derrubar toda a floresta e pavimentar a área, transformando-a num gigantesco estacionamento, pode perfeitamente fazê-lo. Só que o mundo também tem suas soberanias.

Se consumidores ou governos estrangeiros decidirem que vão deixar de comprar produtos brasileiros ou impor sanções ao país, podem perfeitamente fazê-lo.

Nesse cenário, o Brasil amargaria duplo prejuízo: perderia a floresta e se veria transformado em pária internacional. É um tiro no pé, portanto, a atitude do governo Bolsonaro de bater boca com líderes de nações que nos cobram os compromissos de preservação ambiental firmados pelo Estado brasileiro.

Jair Bolsonaro e seus seguidores não só não veem o óbvio como, de forma preocupantemente infantil, se põem a insultar o presidente francês Emmanuel Macron, fazer referências à aparência de sua mulher e a exigir que ele "retire o que disse". Só ficou faltando o "te pego na saída".

Bruno Boghossian: O transatlântico e o capitão

- Folha de S. Paulo

Recuperação leva tempo, mas Bolsonaro deve prestar mais atenção no desânimo das ruas

O governo não vai demorar a perceber que planilhas mexem pouco com os humores fora dos gabinetes. Jair Bolsonaro cobrou paciência e reclamou de má vontade da imprensa ao comentar os números que mostraram que o país escapou de mais uma recessão. O presidente deveria olhar pela janela do Planalto com mais frequência.

Bolsonaro tem razão ao dizer que a recuperação do PIB é um movimento que leva tempo, "igual a um transatlântico". A economia vacilante e o desemprego resistente, no entanto, cobram um preço político até de mandatários iniciantes.

A popularidade em queda do presidente reflete seus despautérios em série, mas é especialmente sensível às percepções do povo sobre o próprio bolso. Ainda que anos recentes tenham terminado em ruína absoluta, só 24% dos brasileiros acham que a economia está melhor agora do que em governos anteriores.

A pesquisa CNT/MDA de agosto marca esse aborrecimento da população. Para 45% dos entrevistados, a situação econômica é igual à dos últimos anos, e 28% dizem que é pior.

Vinicius Torres Freire: Salário é um zero à esquerda no país da extrema-direita

- Folha de S. Paulo

Rendimento do trabalho parou de crescer desde abril; política extremista está em alta

O salário médio não cresce desde abril. Para ser mais preciso: desde então o rendimento médio do trabalho não aumenta ou até cai, se comparado com valores do mesmo mês do ano passado. Não era ruim assim desde 2016, ainda na recessão.

Não causa escândalo. No país da Grande Depressão, o conflito mais expressivo ou evidente é tenebrosamente político. Por exemplo, há grande disputa pelo controle de instituições do sistema de Justiça, do Supremo ao moribundo Coaf, passando por Ministério Público e Polícia Federal.

Lavajatistas, bolsonaristas e a uberdireita (que quer fechar ou tomar STF e Procuradoria), grupos no Congresso e os diversos partidos da Justiça, todos batem-se pelo poder arbitrário de mandar gente para a cadeia, de fugir da polícia ou de decretar o esbulho de direitos civis, quem sabe políticos. Os direitos sociais já vão para o vinagre por inércia.

Sim, lamenta-se de modo vazio o desemprego, que não terá melhora notável até 2022, se der tudo certo. Há quem se anime com o aumento do número de pessoas trabalhando, mais 2,2 milhões de um ano para cá. Mais de 80% desses novos empregos são da categoria “empregado sem carteira assinada” e por “conta própria”.

A soma (“massa”) de todos os rendimentos do trabalho cresce no ritmo mais lento desde agosto de 2017, ao passo de 2,2% ao ano. No mínimo, o zero à esquerda dos salários deveria preocupar quem quer a ressuscitação do PIB, em tese desejo geral. Nem isso.

Ricardo Noblat: A próxima crise contratada pelo governo Bolsonaro

- Blog do Noblat | Veja

Agora, com a Igreja Católica
A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que se nega a ser reconhecida como o Serviço Secreto do governo, mas que é o que é, espiona padres, bispos e cardeais que preparam o Sínodo da Amazônia convocado pelo Papa Francisco e a realizar-se em Roma a partir da primeira semana de outubro próximo.

Foi Jair Bolsonaro que, ontem, confirmou a informação publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em fevereiro último e desmentida à época pelo Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República. Bolsonaro não falou em “espionagem”. Preferiu usar o termo “monitorar”, que significa vigiar, acompanhar.

“Tem muita influência política lá, sim”, afirmou Bolsonaro em almoço com jornalistas no quartel-general do Exército, em Brasília. Quando lhe perguntaram sobre o monitoramento da Abin, respondeu que a agência monitora “todos os grandes grupos”. Quando lhe perguntaram se o Papa é de esquerda, esquivou-se:

– Não vou arrumar confusão com os católicos. Só posso dizer que o Papa é argentino.

O Sínodo reunirá padres, bispos, arcebispos e cardeais dos nove países por onde se estende a Amazônia e deverá ser presidido pelo próprio Papa. Em discussão, mudanças climáticas, situação dos povos indígenas e desmatamento, temas considerados de esquerda pelo governo Bolsonaro e pelas Forças Armadas brasileiras.

Escolhido pelo Papa, o relator do Sínodo será o cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes. Foi ele o único cardeal a aparecer na foto que marcou a primeira aparição pública de Francisco como Papa no balcão da Basílica de São Pedro, no Vaticano. O dois são amigos desde que o Papa era arcebispo de Buenos Aires.

Na única entrevista que concedeu depois de ter sido nomeado relator e representante pessoal do Papa no Sínodo, dom Hummes disse que Francisco quer “pressionar” os governos da região a agirem para preservar o meio ambiente na Amazônia e cuidar melhor dos povos que vivem ali.

Foi por encomenda de dom Humes que a Igreja Católica divulgou uma carta na última sexta-feira onde afirma que os bispos envolvidos na organização do Sínodo estão sendo “criminalizados” e tratados como “inimigos da Pátria”. A Igreja nega que o Sínodo represente alguma ameaça “à soberania nacional”.

Essa será a próxima encrenca que o governo Bolsonaro irá enfrentar. Em 17 de setembro próximo, Bolsonaro discursará na abertura de mais uma assembleia anual da ONU, em Nova Iorque. Ativistas ambientais de diversos países preparam uma recepção à altura do presidente que apontam como inimigo da natureza.

Sérgio Abranches: ‘Bolsonaro nasceu no extremo, sempre foi o que é hoje’

Entrevista com Sérgio Abranches, cientista político e sociólogo

Para cientista político, presidente não tem sido capaz de buscar a conciliação em um ambiente de crise política iniciada em 2014

Paulo Beraldo | O Estado de S.Paulo

Em um cenário de crise política, que não acabou com a eleição, o presidente Jair Bolsonaro não tem sido capaz de buscar uma “conciliação” e dialogar com demais setores da sociedade. A análise é do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, autor de, entre outros livros, Presidencialismo de Coalizão – Raízes e Evolução do Modelo Político Brasileiro.

“Ele nasceu no extremo. Sempre foi o que é. Está na direita, bem lá na ponta”, disse em entrevista ao Estado. Segundo Abranches, a perda de popularidade de Bolsonaro é “preocupante”. “Qualquer fagulha pode pegar fogo.” O sociólogo afirmou ainda que a polarização minou a centro-esquerda e empurrou o PT, principal partido de oposição, para uma esquerda de “posições que já deveria ter abandonado”, enquanto PSDB e DEM foram puxados para a direita.

“Está vazia uma centro-esquerda e até um centro mais moderado, com uma visão mais social, um posicionamento contemporâneo, reformista, que tenha consciência da crise dos empregos, dessa nova economia, que entenda que a globalização é inevitável e que o mundo hoje é mais cosmopolita.” consciência da crise dos empregos, dessa nova economia, que entenda que a globalização é inevitável e que o mundo hoje é mais cosmopolita.”

 Abaixo, a entrevista completa.

• Por que, com apenas oito meses de um novo governo, já se fala em cenários para 2022?

O Brasil está em uma crise política desde o início do segundo mandato de Dilma Rousseff. A crise não foi superada. O impeachment agravou a crise e aguçou a polarização. Michel Temer também não conseguiu superar a crise, que, depois, virou paralisia de governo no momento em que ele precisou obter o veto para impedir que fosse processado no Supremo. A polarização que continuou no governo Temer desaguou nas eleições de 2018, que foram disruptivas, mas pouco construtivas.

• Pesquisa divulgada na segunda-feira mostrou que a desaprovação pessoal do presidente Bolsonaro subiu de 28% para 53%. Isso é motivo de preocupação?

Há razões para ficar preocupado. A crise não acabou com o fim da eleição. Continua sendo um governo no contexto de uma crise política, que se agravou porque o presidente tem uma atitude de confrontação. Ele não é capaz de um movimento de conciliação, de uma abertura para setores da sociedade e do mundo. É muito fechado. Em geral, quando o presidente perde rapidamente popularidade, temos um quadro de instabilidade da própria governança. Isso pode produzir um tipo de conflito que não seria positivo para o momento atual.

Temos a continuação da crise econômica, uma situação social que não é boa, um contexto como o Cerrado na seca. Qualquer fagulha pode pegar fogo. É um quadro preocupante.

• E o que, na sua avaliação, tem mitigado a crise?

Avança ação por centro ‘liberal e progressista’

Grupo defende conciliar propostas liberais na economia à agenda social; articulação envolve eventual candidatura do empresário Luciano Huck em 2022

Eduardo Kattah, Pedro Venceslau e Caio Sartori | O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO e RIO - Um grupo de políticos, economistas e representantes de movimentos de renovação organizou um discurso e ações para a construção de uma alternativa de centro no persistente cenário polarizado da política nacional. A defesa de uma agenda liberal na economia e, ao mesmo tempo, “progressista” na área social vem sendo reiterada por nomes como o economista e ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e líderes políticos como o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung (sem partido) e o presidente do Cidadania, Roberto Freire. Como na tentativa frustrada de lançar um “outsider” na disputa presidencial do ano passado, esta articulação tem como peça central o apresentador Luciano Huck.

O empresário recuou dos apelos para entrar na corrida pelo Planalto em 2018, mas mantém atividade intensa em grupos de renovação política como o RenovaBR e o Agora! – surgidos a partir de 2016 na esteira do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e do desgaste dos partidos. Estes movimentos elegeram, juntos, 17 parlamentares. Em outra ação concreta, Armínio desenvolveu um instituto para desenhar políticas públicas na área de saúde – ainda sem lançamento oficial, mas já em funcionamento no Rio.

Antigo PPS, o Cidadania incorporou nomes de três dos principais grupos de renovação política – Livres, Acredito e Agora!. Por essa proximidade, é considerado, até o momento, um provável destino para uma experiência eleitoral do “novo centro”.

No campo teórico, a defesa do “liberalismo progressista” tem sido apresentada como uma recuperação do centro político do País que, mais identificado com a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), fracassou na eleição presidencial do ano passado. “Dos liberais reformistas aos militantes da centro-esquerda, esse eixo da política brasileira está se recompondo”, disse Hartung ao Estado.

Para Huck, “o povo está cada vez com mais dificuldade em rotular as posturas e pensamentos entre direita, esquerda ou centro”. Mas é preciso “chutar com as duas pernas”. “Enxergo a eficiência de agenda liberal e do Estado no tamanho necessário, sempre atribuída ao pensamento de direita, como o melhor caminho. Ao mesmo tempo, o olhar social, inclusivo e de redução de desigualdades, sempre atribuído à esquerda, é prioridade absoluta se quisermos colocar o Brasil em outro nível de desenvolvimento econômico e social”, afirmou ao Estado.

O que pensa a mídia – Editoriais

Usurpação do poder: Editorial | O Estado de S. Paulo

O ex-presidente Michel Temer alertou, em entrevista ao jornal Valor, para a ocorrência cada vez mais habitual da quebra da ordem constitucional. “O que mais temos no Brasil é a violação de natureza institucional”, disse, referindo-se aos excessos de órgãos subordinados aos Três Poderes. A denúncia é de extrema gravidade, já que significa que, por vias ocultas, o poder estaria sendo exercido fora dos cânones institucionais. Em outras palavras, haveria um exercício não democrático do poder.

“Quando a Constituição diz que ‘todo poder emana do povo’ não é regra de palanque, é regra jurídica”, lembrou Michel Temer. Sendo o Brasil um Estado Democrático de Direito, “em vez de haver um único poder no Estado, como no absolutismo (...), há três órgãos para exercer o poder. A partir deles é que há os órgãos inferiores. E esses órgãos inferiores não podem estar em busca de poder. Eles têm que acompanhar o que a estrutura do poder constitucional estabelece, por meio do Legislativo, Executivo e Judiciário. É neste sentido que digo que há equívocos institucionais muito acentuados”, afirmou o ex-presidente.

Eis o ponto central da questão e que tem sido motivo de muita confusão. Precisamente porque todo o poder emana do povo, no Estado Democrático de Direito, os órgãos subordinados aos Três Poderes não exercem poder e, portanto, não devem estar em busca de poder. O poder, por delegação do povo, é exercido pelas três instituições superiores – Legislativo, Executivo e Judiciário – na exata medida de suas competências constitucionais.

Poesia | Manuel Bandeira - Pensão Familiar

Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebeias, dominicais.

Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
— É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

Música | Gilberto Gil & Roberta Sá - Afogamento

sábado, 31 de agosto de 2019

Aloísio Toledo César*: A instabilidade e suas razões

- O Estado de S.Paulo

Se depender de Bolsonaro, corremos, sim, o risco de um governo autoritário

Neste momento em especial da vida política brasileira, temos à frente da República um presidente que busca livrar-se psicologicamente de culpa e de atos social e politicamente inaceitáveis, atribuindo-os a outros.

Todos nós, brasileiros, estamos percebendo que não é fácil conhecer um governante e por isso mesmo vale um rápido mergulho na psicanálise, como fez Freud, para melhor compreender o comportamento humano. Aquele extraordinário psicanalista foi talvez quem mais se aprofundou no reino inconsciente de desejos reprimidos que levam os homens a se afastar das regras de condutas aceitáveis.

Freud observou que no reino político, mais do que em qualquer outro, o inconsciente se manifesta e por isso os homens raramente admitem motivos egoístas, ao mesmo tempo que procuram racionalizar e criar bodes expiatórios para justificar crueldades. Esse o motivo também por que projetam a culpa sobre os outros, responsabilizando-os – como, por exemplo, no caso das queimadas na Amazônia.

Para predizer e compreender o comportamento de políticos com essa natureza, a atenção deve estar voltada não apenas para os seus atos, mas para os motivos psicológicos existentes por detrás deles. É extremamente preocupante, no caso do nosso presidente, que ele não se preocupe em ser compreendido nem demonstre que é capaz de compreender a realidade que enfrenta no dia a dia.

Neste momento em especial, pesa sobre ele uma forte incompreensão universal, à qual não parece dar muita importância. Praticamente todos os países se incomodam com a destruição da Amazônia, mas nosso presidente age como se todos estivessem errados e somente ele estivesse certo. Às vezes parece preferir o isolamento, abandonando de vez o caminho mais seguro da diplomacia (de outra parte, é incrível não perceber que a indicação de um de seus filhos para a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos choca grande parcela dos brasileiros, soando como algo leviano e ao mesmo tempo autoritário).

Essa conduta faz lembrar Erich Fromm, outro psicólogo de expressão, para quem o homem moderno está possuído por sentimentos de inferioridade, insegurança, impotência, solidão, humilhação e insignificância. Por isso é muitas vezes levado a aparentar superioridade, segurança, poder, integração, prestígio e glória na área política, “especialmente por meio de ideologias e movimentos totalitários”.

João Domingos: Freios e contrapesos

- O Estado de S. Paulo

Mesmo em choque, as instituições democráticas têm funcionado bem

É possível que, da Proclamação da República para cá, não tenha sido testada tão insistentemente, como tem sido testada no governo de Jair Bolsonaro, a Teoria da Separação dos Poderes de Montesquieu, conhecida também como Sistema de Freios e Contrapesos. Por essa teoria, na qual se baseia a maioria das nações democráticas modernas, um poder vigia o outro, evitando excessos, desmandos, quedas pelo autoritarismo, omissões e descumprimento da lei, de forma que cada um fique ali no seu quadradinho.

Não há uma semana em que o Congresso ou o Supremo Tribunal Federal não mande um recado para o presidente Bolsonaro, naquele bom estilo do “menas, menas”. Brigado com o presidente da França, Emmanuel Macron, o presidente Bolsonaro fez beiço e decidiu rejeitar a ajuda de cerca de R$ 83 milhões oferecida para ajudar no combate às queimadas na Amazônia. Para Bolsonaro, tratava-se de uma esmola, de uma tentativa de comprar o Brasil em suaves prestações. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), rebateu. Disse que não se deve dispensar nenhum dinheiro que vier, mesmo que seja apenas R$ 1.

Quando Bolsonaro, ainda irritado, atacou a França, Maia contemporizou. Num encontro com empresários franceses ele destacou que muitas das instituições brasileiras foram criadas com base no modelo francês. Além de elogiar a tradição libertária da França e o principal legado da Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Adriana Fernandes: Sob sigilo

- O Estado de S.Paulo

Os militares serão os únicos contemplados com reajustes salariais no Orçamento

A pressão externa sobre a Receita Federal colocou em evidência a segurança do armazenamento dos dados dos contribuintes pelos servidores do órgão.

O Fisco tem hoje 600 sistemas de informações dos contribuintes empresas e pessoas físicas. Garantir sua inviolabilidade é função primordial de um País com economia do tamanho da brasileira.

Essa proteção ganhou ainda mais importância no momento atual, em que o órgão é alvo de críticas de ministros do STF, do presidente Jair Bolsonaro e de outras autoridades que foram investigadas por auditores fiscais da elite da Receita. Informações sigilosas sobre os negócios e a vida privada dos contribuintes e de seus familiares é munição certeira para uso político, independentemente do espectro ideológico em que ele esteja. A punição da corregedoria do órgão para esse tipo de prática tem que ser exemplar.

É por meio das informações de “log” de consultas que o Fisco consegue identificar que servidor fez o acesso, horário, modificação de conteúdo, tempo de permanência, quantidade de cópias impressas de dados e tudo que possa apontar depois,se houve acesso imotivado para fins não republicanos. Funciona como uma espécie de impressão digital do usuário do sistema.

Os “logs” de acesso, a depender das suas características, ficam armazenados por um período de 8 a 16 anos. A Receita paga por esse serviço ao Serpro e ao Dataprev, empresas de processamento de dados do governo federal.

Todo cuidado é pouco com esse tema tão delicado para que não haja motivo também de ataques aos procedimentos de fiscalização do órgão. Muita coisa está em jogo nesse momento, inclusive o trabalho de anos de fortalecimento das investigações. Uma vez perdida, a confiança no sigilo fiscal, muito tempo se leva para recuperá-la.

A pressão por mudanças na Receita teve como origem o vazamento de investigações realizadas por auditores envolvendo autoridades do STF e reclamações de Bolsonaro sobre investidas do órgão contra seus familiares. A crítica é de atuação política de auditores do órgão. A crise ganhou força após a recomendação, por pessoas ligadas a Bolsonaro, para a demissão de José Alex Nóbrega de Oliveira, titular da Delegacia da Aduana de Porto de Itaguaí.

À coluna, a Receita informou que não há intenção de reduzir o tempo de retenção dos “logs”. Pelo contrário: o órgão diz que avalia aumentar ainda mais o controle sobre as consultas realizadas pelos auditores fiscais.

O sistema responsável pelos relatórios dos “logs” de acesso é o DW-LEL, mas ele não é único. Há outros mecanismos de consulta aos “logs” de sistemas. A alegação de que a auditoria dos “logs” seria inviável não merece prosperar, diz a Receita. Mas é inegável também que precisa reforçar os controles.

O assunto ganha mais importância nesse momento em que o governo incluiu o Serpro e a Dataprev na lista das estatais que serão privatizadas. Como o governo vai garantir a segurança dos dados sigilosos é uma resposta a ser dada rapidamente.

Merval Pereira: A perda da esperança

- O Globo

Falta ao presidente a compreensão de que é o representante de um país, e não de um restrito grupo de apoiadores

A incongruência desse governo, em dizer-se parte do mundo ocidental e defender posições completamente em desacordo com os legados mais básicos da cultura desse mundo, ficou patente na recente crise das queimadas da Amazônia.

Como se fosse uma síntese de suas convicções mais arraigadas, no mesmo episódio o presidente Bolsonaro menosprezou os problemas do meio-ambiente, embora tenha sido avisado pelos estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e entrou em conflito, direto e pessoal, com o presidente Emmanuel Macron, da França, país símbolo das liberdades individuais e dos direitos humanos, legados fundamentais do Ocidente à civilização.

Civilidade que não esteve presente no desacato à primeira-dama francesa, Brigitte Macron. Embora tenha dito que não a ofendeu, Bolsonaro apagou sua mensagem misógina do twitter, numa autoincriminação.

Aproveitando-se de uma demagogia ecológica de Macron, que tentou levar a discussão para o lado da internacionalização da Amazônia, Bolsonaro tirou da manga a carta do patriotismo que, como disse Samuel Johnson, numa versão amenizada, é o último refúgio dos sem argumentos.

Não era preciso, Macron foi isolado pelos demais líderes europeus de peso, como Angela Merkel, da Alemanha e Boris Johnson, da Inglaterra.

Míriam Leitão: Mais emprego, mais informais

- O Globo

Dois milhões de pessoas ocupadas a mais do que há um ano, mas ainda há muitos sinais deque precariedade no mercado de trabalho

O Brasil tinha no trimestre de maio a julho 2,2 milhões de pessoas a mais trabalhando do que no mesmo período do ano anterior. Essa é uma boa notícia na vastidão das más notícias quando o assunto é desemprego. É o melhor número no dado divulgado ontem, que tem que ser entendido por inteiro. O percentual do desemprego caiu de 12,3% no mesmo período do ano passado para 11,8%. Porém, o próprio IBGE diz que ficou “estatisticamente estável”. Parece contraditório, mas não é.

É preciso olhar com calma os números que vivem sendo atacados pelo presidente da República quando trazem notícias desagradáveis. O aumento da população ocupada aconteceu no segmento que não tem carteira assinada e nos trabalhadores por conta própria. O total de pessoas desempregadas era 12,8 milhões há um ano e agora é 12,6 milhões. Ou seja, em número de pessoas está quase igual, mas em percentual caiu.

Parece estranho que tenha mais de dois milhões de novos trabalhadores na população ocupada, e ao mesmo tempo se diga que a desocupação está “estatisticamente estável”. O que se mede é o número de pessoas procurando emprego sem encontrar, por isso o total de trabalhadores ocupados pode crescer, sem que o estoque de desocupados caia fortemente. Além disso, há os jovens que entram no mercado todos os anos, e isso influencia no cálculo da taxa.

Marcus Pestana: Sonhos, conquistas e tropeços de uma geração

- O Tempo (MG)

O artigo poderia se chamar simplesmente “Por que não vou assumir”. Nas últimas eleições obtive 72.099 votos para deputado federal. Votação maior que a de dezenove dos eleitos e a maior entre centenas de suplentes. Fiquei como primeiro suplente da coligação. Agora, com a licença temporária do experiente deputado Bilac Pinto, fui convocado para assumir a vaga.

A vida pública e a militância política sempre foram o centro de minha trajetória. Comecei muito cedo. Em 1976, com apenas dezesseis anos, liderei a maior manifestação secundarista pós-68 em Juiz de Fora. Em sequência, participei do movimento pela Anistia e presidi o Diretório Acadêmico de Economia e o Diretório Central dos Estudantes da UFJF. Fruto dessa experiência, aos 22 anos, em 1982, me elegi vereador na histórica campanha ao lado de Tancredo Neves, Itamar Franco e Tarcísio Delgado. As forças democráticas conquistaram uma grande vitória abrindo o horizonte para a Nova República. Minha motivação sempre foi alimentada pela busca da liberdade, da justiça social e do desenvolvimento econômico sustentável. Portanto, a minha recusa em assumir o mandato temporário nada tem a ver com qualquer postura antipolítica. Ao contrário, é uma homenagem e um reconhecimento a todos aqueles que se dedicam a mais nobre atividade humana, a maior ferramenta para melhorar o mundo e transformar a vida.

Nos trinta e três anos do ciclo da Nova República avançamos muito. Consolidamos a democracia, derrotamos a hiperinflação, iniciamos o combate às desigualdades, construímos as bases do SUS, universalizamos o ensino fundamental, modernizamos o Estado, privatizamos estatais ineficientes, introduzimos a preocupação com a responsabilidade fiscal. Mas é inevitável sentir nos resultados de 2018 certo gosto amargo de fracasso geracional. A criminalização da política, a forte rejeição no seio da sociedade aos políticos, a desmoralização do quadro partidário tradicional, a corrupção endêmica revelada pela Lava Jato e a radicalização extrema do jogo político foram me transformando em uma “ideia fora do lugar”, um “peixe fora d’água”.

Demétrio Magnoli*: Soldados de Caxias

- Folha de S. Paulo

Maduro utiliza, para as ONGs de direitos humanos, a mesma linguagem que Bolsonaro usa para as ONGs ambientalistas

“Os governos imperialistas aproveitam a crise para lançar uma ofensiva em torno da questão ambiental para atacar a soberania nacional brasileira. Aos incautos que insistem em tutelar os desígnios da brasileira Amazônia, não se enganem: os soldados do Exército de Caxias estarão sempre atentos e vigilantes, prontos para repelir qualquer tipo de ameaça.”

Quem escreveu isso? Assim, ninguém. A primeira frase é do Partido da Causa Operária, um grupúsculo de ultraesquerda (e, nela, depois da “crise”, aparece um “criada por Bolsonaro”).

Já a segunda é do general Edson Pujol, comandante do Exército, na Ordem do Dia lida no último dia 23. Mas as duas ficam bem juntas, abraçadas no ninho do nacionalismo. A nação, ensinou Benedict Anderson, é uma “comunidade imaginada”. O patriotismo nacionalista, registrou Samuel Johnson, é “o último refúgio dos canalhas”.

A invocação da soberania nacional é o refúgio clássico de governantes quando estrangeiros apontam rupturas dos compromissos internacionais assumidos pelo país, desrespeito às leis nacionais ou violações dos direitos dos cidadãos. Os canalhas perfilam-se à sombra da bandeira sempre que emergem temas diplomáticos globais, como as políticas ambientais e os direitos humanos. Nessas horas, a extrema direita e a esquerda tradicional revelam suas notáveis semelhanças. Então, uns e outros começam a empregar as palavras “imperialismo” e “colonialismo”.

Julianna Sofia: Quando a poeira baixar

- Folha de S. Paulo

Tentativa de Bolsonaro e Moro de mostrar que ainda é possível colar os caquinhos é trégua de araque

O teatrelho de Jair Bolsonaro e Sergio Moro nos salões do Palácio do Planalto na quinta-feira (29) tapeia poucos. Blandícias em excesso num esforço para demonstrar publicamente que ainda é possível colar os caquinhos depois de todo o desgaste da relação entre o presidente e seu (ex-super) ministro da Justiça. Trégua de araque.

Na Polícia Federal, o clima se deteriora progressivamente desde que Bolsonaro atropelou Moro e declarou que poderia trocar superintendente, diretor-geral e o escambau. Não há superbonder que dê jeito nisso. Aliás, a ausência de Maurício Valeixo (o DG) foi notada na plateia da ópera-bufa encenada por Jair e Sergio no palco palaciano. Na véspera do evento, sua permanência no cargo fora reafirmada por um ministro pouco convicto ("as coisas eventualmente podem mudar").

Oscar Vilhena Vieira*: Custos do Estado de Direito

- Folha de S. Paulo

O desafio é combater a corrupção, respeitando a lei

O processo do mensalão e a Operação Lava Jato estabeleceram um novo padrão de relacionamento entre os Poderes no Brasil.

A tradicional cordialidade e complacência dos agentes de aplicação da lei em relação ao corpo político, agraciada com generosos privilégios corporativos, foi subitamente substituída por uma postura de confronto.

Alavancados pela introdução das delações premiadas, instrumento essencial para o combate ao crime organizado, introduzido pela lei 12.850/13, agentes da lei foram expondo as teias de corrupção que enredaram nosso sistema representativo.

Com isso, juízes e procuradores alcançaram um enorme apoio da opinião pública, dos meios de comunicação e, sobretudo, daqueles que se opunham ao governo do PT, principal alvo das investigações.

Fundamental para o avanço da Operação Lava Jato foi o respaldo conferido pelos tribunais superiores, que raramente impuseram limites à atuação de magistrados e membros do Ministério Público.

Com a expansão da Lava Jato em relação a importantes membros da oposição —e governistas que abandonaram Dilma— o corpo político começou a se reposicionar em relação à operação.

Também o Supremo Tribunal Federal, a partir da alteração de posicionamento de alguns de seus membros, passou a impor alguns importantes limites à operação, restringindo o uso de conduções coercitivas, separando crimes de corrupção e lavagem de dinheiro dos delitos eleitorais, retirando os últimos da Justiça comum.

A própria questão da prisão em segunda instância, elemento essencial para o sucesso da operação, está em xeque no tribunal.

Com a adesão do ex-juiz Sergio Moro ao governo Bolsonaro e a divulgação dos diálogos entre membros da operação pelo The Intercept Brasil, abusos na condução do processo e a própria quebra do primado da imparcialidade judicial, que já vinham sendo denunciados há muito, passaram a ser criticados de forma mais ampla e contundente, abrindo espaço para que o Congresso Nacional, com razoável facilidade, aprovasse uma nova lei de abuso de autoridade.

Ao presidente da República caberá determinar a extensão dos limites impostos aos agentes da lei, ao sancionar ou vetar a nova legislação, sabendo que eventual veto poderá ser derrubado no parlamento.

Uma cronologia da troca de farpas entre presidente e governador

Antes aliados, Jair Bolsonaro e João Doria se distanciam em estratégia para eleições presidenciais de 2022

João K'er | O Estado de S.Paulo

A aliança das eleições de 2018 estampada pelo slogan Bolsodoria, usado pelo governador paulista, João Doria (PSDB-SP), para vencer a disputa na onda que elegeu Jair Bolsonaro (PSL), ficou para trás. Nesta quinta-feira, 29, o distanciamento entre os dois ficou mais evidente após quase dois meses de farpas trocadas. Nas redes, Bolsonaro acusou o tucano de “mamar nas tetas” do PT, ao comentar o financiamento pelo BNDESde um jatinho particular do governador. Nesta sexta, 30, Doria rebateu: “Nunca precisei mamar em teta nenhuma”.

De olho nas eleições de 2022, ambos deixaram para trás os tempos em que faziam flexões de braço lado a lado. Abaixo, o Estado relembra em ordem cronológica os desentendimentos públicos entre Bolsonaro e Doria:

“Não é hora de eleição. É momento de gestão” - 24 de junho

O primeiro ‘conflito’ entre Bolsonaro e Doria esteve relacionado à disputa entre São Paulo e Rio pela realização do GP Brasil de Fórmula 1, cujo contrato vence em 2020. O presidente afirmou que a disputa tem “99% ou mais” de chance em ser transferida para o Rio de Janeiro, enquanto defendeu a ida da prova para a capital carioca.

Na mesma ocasião, Bolsonaro também aproveitou a oportunidade para provocar Doria: “A imprensa diz que ele será candidato à Presidência em 2022, então ele tem de pensar no Brasil. Se ele disputar a reeleição, aí ele pensa no seu Estado”, afirmou, dois dias após confirmar sua própria candidatura à reeleição para o cargo. “A questão da Fórmula 1 não é política. É econômica. Não é hora de eleição. É momento de gestão”, rebateu o tucano.

“Declaração infeliz” - 29 de julho

Quatro dias após o presidente ter provocado polêmica nas redes sociais ao afirmar que sabia o que ocorreu com Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, que foi morto durante a ditadura militar. O governador afirmou que a fala (“Se ele quiser saber como o pai morreu, eu conto”) foi “infeliz”.

“Como filho de um deputado que foi cassado na época do regime militar, eu acho que foi uma declaração infeliz”, disse sobre os comentários do presidente de que Santa Cruz desapareceu no Rio de Janeiro.

Desemprego recua com recorde de trabalho informal

Taxa de desemprego caiu para 11,8% e atingiu 12,6 milhões de pessoas no trimestre, diz IBGE

Diego Garcia | Folha de Paulo

RIO DE JANEIRO - A taxa de desemprego recuou no país, mas devido à criação de vagas no mercado informal, que bateu novo recorde.

O número de empregados sem carteira assinada atingiu 11,7 milhões no trimestre encerrado em julho, enquanto os trabalhadores por conta própria —cuja maior parte não tem CNPJ— chegaram a 24,2 milhões, informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (30).

Os números são os mais altos já registrados pelo IBGE na série da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), iniciada em 2012.

No período, a taxa de desocupação no Brasil caiu para 11,8%, o que representa 12,6 milhões de pessoas desempregadas, contra 12,5% no trimestre imediatamente anterior (fevereiro a abril de 2019).

“Desde o início da crise econômica a inserção por conta própria vem sendo ampliada em função da falta de oportunidade no mercado formal”, afirmou Cimar Azeredo, gerente da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE.

O total de empregados do setor privado sem carteira de trabalho assinada teve um aumento de 3,9% (441 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e de 5,6% (619 mil pessoas) em relação ao mesmo trimestre de 2018.

Já o número de trabalhadores por conta própria subiu 1,4% (343 mil pessoas) na comparação trimestral e 5,2% (1,2 milhão de pessoas) em comparação ao mesmo período do ano passado.

Segundo Azeredo, experiências de crises anteriores apontam que, quando o mercado de trabalho se recupera, o emprego informal cai, em vez de aumentar. Ou seja, o recorde da informalidade indica que o mercado de trabalho ainda não se recuperou, apesar da queda na taxa de desemprego.

Como vagas informais costumam pagar menos que as formais, um aumento no número de postos sem carteira reduz a média salarial da população. Segundo o IBGE, o rendimento médio real habitual do trabalhador chegou a R$ 2.286, contra R$ 2.311 nos três meses antes.

O número de empregados no setor privado com carteira assinada marcou 33,1 milhões, estável em comparação ao trimestre anterior e ao mesmo período do ano passado.

Populismo, o corruptor da democracia

Ação de Boris Johnson para ampliar recesso parlamentar é última de uma série que mina lentamente valores liberais

- The Economist*| O Estado de S.Paulo

No geral, o que persiste é a noção de que as democracias morrem por um cano de revólver, em golpes e revoluções. Hoje, entretanto, é mais provável que ela seja estrangulada lentamente em nome do povo. Veja o caso da Hungria, onde o partido no governo, o Fidesz, utiliza sua maioria parlamentar para tomar conta das agências reguladoras, dominar o mundo empresarial, controlar os tribunais, comprar a mídia e manipular as normas eleitorais.

O primeiro-ministro Viktor Orbán não precisa infringir a lei, porque o Parlamento que ele controla pode alterá-la. E não necessita da polícia secreta para subtrair seus inimigos durante a noite. Eles podem ser colocados no devido lugar sem violência, pela imprensa dominada ou pelo fisco. Na forma, a Hungria é uma democracia florescente, mas no espírito é um Estado de um único partido.

As forças que atuam na Hungria estão socavando outros sistemas de governo também. Isso vem ocorrendo não apenas em jovens democracias, como a Polônia, onde o Partido da Lei e da Justiça decidiu copiar o Fidesz, mas mesmo em outras mais perenes como Reino Unido e Estados Unidos. Esses sistemas de governo já estabelecidos não estão prestes a se tornar Estados de um único partido, mas já mostram sinais de decadência. E quando a deterioração se instala, é extremamente difícil de conter.

No âmago da degradação da democracia húngara está o cinismo. Depois que o chefe de um governo socialista visto como corrupto admitiu ter mentido para o eleitorado em 2006, os eleitores aprenderam a imaginar o pior dos seus políticos.

Esta tendência foi explorada entusiasticamente por Viktor Orbán. Em vez de apelar para a tolerância e generosidade dos seus compatriotas, ele semeia a divisão, instiga o ressentimento e explora seus preconceitos, especialmente no tocante à imigração. Este teatro político tem por finalidade desviar a atenção do seu objetivo real, a manipulação astuta de regras e instituições obscuras para garantir seu controle do governo.

Juan Arias: Na guerra sobre a Amazônia, o Brasil ganhou e Bolsonaro perdeu

- El País

Quem sai engrandecido dessa guerra são, de fato, os brasileiros e sua luta na defesa do meio ambiente

Na guerra sobre a destruição da Amazônia, o presidente, Jair Bolsonaro, saiu derrotado enquanto o Brasil e suas riquezas naturais foram defendidos em todo o mundo. As ideias destrutivas do líder brasileiro e seus comentários depreciativos e até grosseiros pronunciados, por exemplo, sobre presidentes europeus como Emmanuel Macron, da França, e Angela Merkel, da Alemanha, acabaram ofuscando ainda mais sua já surrada figura no exterior.

O presidente brasileiro que havia dito, dias atrás, que não iria ser um presidente “banana”, acabou sendo visto como tal pelos líderes mais importantes do estrangeiro. Suas chacotas sobre a Amazônia apelando até a uma linguagem de cunho anal como quando disse que bastava “um cocô petrificado de índio” para paralisar uma obra, não foram apreciadas fora do Brasil. O mundo sempre admirou e até invejou o santuário natural da Amazônia que abriga o maior bioma do planeta e que é reconhecido como um dos maiores tesouros ecológicos ainda vivos da Terra.

Também se tornaram um bumerangue as zombarias sobre o Presidente Macron nas redes sociais aplaudidas por Bolsonaro sobre a comparação entre sua esposa, Brigitte, já idosa, e a jovem Michelle, a esposa do Presidente brasileiro. E mesmo as brincadeiras de mau gosto do vice-presidente, o general Mourão, sobre os tremores que às vezes afetam a líder alemã Merkel. Todas essas atitudes serviram principalmente para que o mundo constatasse que o Brasil, possuidor não somente de imensas riquezas naturais, como também humanas, merecia alguém mais digno e preparado para ser governado.

A atitude do Presidente brasileiro e de seu governo durante o episódio da Amazônia, que abalou o mundo, serviu também para expor a ausência dramática de uma política externa à altura das circunstâncias, algo que sempre foi considerado como uma das glórias e acertos da política brasileira, seja de direita ou de esquerda.

O que pensa a mídia | Editoriais

Brasil precisa de política ambiental consistente: Editorial | O Globo

Bolsonaro quer construir proposta conjunta com Trump, mas EUA não são boa referência no setor

Antes mesmo de assumir, o presidente Jair Bolsonaro já demonstrava descaso com a proteção ao meio ambiente, tema prioritário na agenda de luta coletiva para redução do aquecimento global.

Bolsonaro pretendia fundir o Ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura, o que representaria grande retrocesso. Felizmente, recuou da ideia, e a pasta foi mantida. Não significou muito. Em oito meses de gestão, construiu-se pouco e desconstruiu-se muito em termos de política ambiental.

Não faltaram sinais de alerta. Em maio, os ex-ministros do Meio Ambiente Rubens Ricupero, José Carlos Carvalho, Marina Silva, Carlos Minc, Izabella Teixeira, José Sarney Filho e Edson Duarte subscreveram manifesto no qual advertiam: “A governança socioambiental do Brasil está sendo desmontada, em afronta à Constituição”.

O roteiro do desmonte parecia claro já antes da posse. Ao participar de solenidade na Academia Militar das Agulhas Negras, em dezembro, Bolsonaro disse que não admitiria mais que Ibama e ICMBio saíssem multando a torto e a direito: “Essa festa vai acabar”. Excessos, certamente, existiam, mas a mensagem presidencial foi percebida como uma liberação generalizada.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Música | Roberto Silva - Escurinho ( Geraldo Pereira)