domingo, 12 de fevereiro de 2023

Vinicius Torres Freire - Lula e a maldição de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Governo precisa denunciar crime em vacinas, educação, estatais, estradas e muito mais

O massacre dos yanomami é o exemplo mais horroroso da herança maldita de Jair Bolsonaro. Foi exposto por jornalistas da plataforma Sumaúma, baseada em Altamira, Pará, zona de guerra social e ambiental, de pistolagem contra líderes de movimentos populares e de destruição da vida em geral. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva pegou o bastão da denúncia e toma providências para conter o genocídio e a razia de matas, terras e águas.

Governo não é polícia nem promotoria, mas tem a obrigação legal de documentar e denunciar os responsáveis pelos crimes ao sistema de Justiça. Se fizer uma varredura elementar, vai encontrar facilmente outros ataques contra indígenas.

No entanto, os ataques contra a vida, a negligência criminosa e a violência ignara contra a competência e a decência humana básicas foram muito além nos anos de trevas. Daqui a algum tempo, há o risco de que o governo Lula, como qualquer outro, entre na rotina e seja absorvido por dificuldades e crises ou conveniências políticas. Assim, a denúncia bem documentada dos anos de trevas pode se tornar apenas um slogan esquecido, "sem anistia".

Muniz Sodré* - Inferno a céu aberto

Folha de S. Paulo

Nos regimes de ultradireita, isso é aberto e não raro com consequências devastadoras para minorias

Populismo não é fenômeno homogêneo. Mas um paradoxo interno a quase todos é o desprezo latente pelo povo.

Nos regimes de ultradireita, isso é aberto e não raro com consequências devastadoras para minorias. A tragédia dos yanomamis, revelada em toda a sua brutalidade, é o flagrante da desumanidade dos quatro anos de bolsopopulismo. Nesse período, centenas de crianças morreram de malária e desnutrição por criminosa falta de assistência, com cumplicidade de grupos financeiros (compradores de ouro ilegais, bancada legislativa garimpeira etc.). Agora fica patente que a ameaça pesava sobre milhares de indígenas.

Cristovam Buarque* - Juros invisíveis

Blog do Noblat / Metrópoles

Se o Brasil tivesse investido na educação de sua população, nossa produtividade, em 53º lugar, estaria entre as maiores do mundo

É natural que o pagador de empréstimo se sinta revoltado ao ver seu dinheiro abocanhado pelo emprestador, sobretudo quando obrigado a pagar juros considerados crime de agiotagem. Estranho é achar natural, às vezes nem perceber, os outros juros que paga todos os dias por empréstimos que tomou no passado, sem perceber. A população não percebe, por exemplo, o juro paga por ter maltratado a natureza antes. As inundações nas cidades é o juro pago hoje por ter ocupado com asfalto as áreas que antes permitiam drenagem das águas. As catástrofes das mudanças climáticas são o juros que a Terra cobra pelo uso dos recursos naturais no processo produtivo industrial, sobretudo a partir do século XX. Reclamamos dos juros por empréstimos, mas aceitamos outros muito maiores, cobrados por equívocos e omissões: deslizamentos de encostas é o juro pelo descuido com a ocupação do solo; a maior parte das doenças urbanas decorrem da omissão sanitária; parte das mortes pelo covid foi o juro pago pela recusa de vacina.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Prioridade na economia é a reforma tributária

O Globo

Governo deve evitar as armadilhas dos que querem que tudo fique como está para não perder privilégios

O atual governo não é o primeiro a tentar promover uma reforma tributária. A criação de uma secretaria especial para cuidar dela, ocupada pelo economista Bernard Appy, é sinal evidente de que o tema entrou na agenda. Será preciso, contudo, enorme capacidade política para evitar que mais uma vez o Brasil desperdice a oportunidade.

Este governo leva vantagem ao tentar aproveitar as propostas já em tramitação no Congresso, em vez de querer reinventar a reforma como o anterior. Há duas iniciativas em andamento: a PEC 45 na Câmara, com base técnica do próprio Appy, e a PEC 110 do Senado. Ambas preveem a fusão de impostos estaduais, federais e municipais, substituídos por um imposto sobre valor agregado (IVA) nos moldes do existente em economias avançadas. A PEC 110 propõe um IVA dual, com uma fatia destinada à União, a outra a estados e municípios. Por isso provoca menos resistência nos entes federativos, temerosos de perda de arrecadação.

Poesia | Três Coisas - Paulo Mendes Campos

 

Música | Voltei Recife - Os Bicudos & Fios de Choro

 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Pablo Ortellado - Chance de regular as mídias sociais

O Globo

A regulação europeia cria um precedente oportuno

Depois dos eventos de 8 de janeiro, formou-se o consenso de que as mídias sociais e os aplicativos de mensagem precisam de regulação. Mas iniciativas concorrentes e desarticuladas do Legislativo e do Executivo podem desperdiçar a oportunidade que se abriu para uma regulação robusta, amparada pela experiência internacional.

Logo depois do 8 de Janeiro, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e o ministro da Justiça, Flávio Dino, anunciaram separadamente iniciativas legislativas para regular as mídias sociais.

Lira anunciou que retomaria a tramitação do PL 2630, conhecido como PL das Fake News, uma proposta elaborada pelo Senado no começo do governo Bolsonaro, que empacou na Câmara, cercada de controvérsias. O projeto do Senado foi aperfeiçoado pelo trabalho cuidadoso do relator Orlando Silva (PCdoB-SP), mas também limitado e distorcido pelo lobby das plataformas de mídia social e pelas condições políticas de uma Câmara alinhada com o governo Bolsonaro.

Eduardo Affonso - Eu, máquina de escrever sozinha

O Globo

A I.A. se encarrega de encadear assuntos e preparar um rascunho. Adeus, angústia diante da tela em branco

Todo avanço tecnológico implica uma reação de igual intensidade, em sentido contrário, por parte de quem acha que perderá o ganha-pão. Foi assim que os acendedores de lampiões receberam a chegada da luz elétrica. Ou que os fabricantes de ficha telefônica viram o advento do celular. Com a inteligência artificial não havia por que ser diferente.

O que acontece a um escritor quando aparece uma “máquina de escrever” que, diferentemente das Remingtons e Olivettis da nossa juventude, escreve sozinha? E — o que é pior — escreve em segundos, de forma articulada, sem a autoexigência de ser (ou parecer) original e sem erros de português? O mesmo que em qualquer luto: negação, revolta, barganha, depressão e — ufa! — aceitação.

Rubens Barbosa* - Países falam uma mesma língua em muitas áreas

O Estado de S. Paulo.

O encontro Lula-Biden marca a volta das relações institucionais entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, depois do que se viu no relacionamento pessoal entre Bolsonaro e Trump. Cercada de forte simbolismo, a reunião procurou acentuar as convergências na defesa da democracia e dos direitos humanos, e contra a extrema direita, depois das experiências traumáticas com a invasão do Congresso norte-americano e da Praça dos Três Poderes, exemplos da divisão política existente nos dois países.

Além desses temas políticos, foi ressaltada a coincidência de percepções nas questões de meio ambiente e mudança de clima. Lula insistiu na governança global e na cooperação internacional para ajudar o governo brasileiro no combate aos ilícitos na Amazônia: queimadas, destruição da floresta e garimpo ilegal. Não foi surpresa a intenção de Biden de passar a contribuir para o fundo amazônico.

João Gabriel de Lima* - Lá fora, nosso nome é Amazônia

O Estado de S. Paulo.

Na economia do futuro, o Brasil tem sua grande chance de protagonismo internacional

Não existe ferramenta capaz de aferir, com precisão, a contribuição de cada país no combate às mudanças climáticas. O Climate Scanner, apresentado na semana passada em evento em Lisboa, pretende suprir essa lacuna. A plataforma digital será alimentada com informações confiáveis sobre financiamento, políticas públicas e governança.

A ferramenta está sendo desenvolvida pela Intosai, entidade que congrega órgãos de controle de diversos países – entre eles o nosso Tribunal de Contas da União (TCU). O Brasil assume a presidência do Intosai em novembro deste ano, quando o Climate Scanner será lançado oficialmente. “Será uma oportunidade de recuperar a liderança e o respeito que sempre tivemos quando falamos em meio ambiente”, diz Bruno Dantas, presidente do TCU. Ele é entrevistado no minipodcast da semana.

Bolívar Lamounier* - Grande país, ideias pífias

O Estado de S. Paulo.

O leitor consegue imaginar um país onde os ricos estudem de graça nas melhores universidades e a pequena classe média estude à noite em instituições medianas?

Pelo que sei, a situação oftalmológica individual dos brasileiros tem melhorado muito, mas a do País como um todo, nem tanto. Nunca enxergamos muito, e nada indica que estejamos melhorando.

Tentarei esclarecer meu argumento. Sabemos que alguns países enriqueceram notavelmente. Outros decolaram, mas estancaram num nível mal e mal aceitável, ou regrediram. Não me consta, porém, que algum tenha dado certo começando pela distribuição da pobreza, quero dizer, distribuindo o que não tinha e deixando para depois a realização de suas aspirações. (Se é que aspirava a alguma coisa.) Neste último caso, o disparate seria ainda maior se, além da inversão do curso lógico das coisas, tal país sofresse da já referida deficiência oftalmológica coletiva. Neste caso, nem sequer perceberia que estava buscando o levante pelo poente.

Dom Odilo P. Scherer* - Fome outra vez

O Estado de S. Paulo.

Neste ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escolheu novamente o tema para a Campanha da Fraternidade

Estudos sobre a segurança alimentar no Brasil dão conta de que, em 2022, cerca de 58% dos brasileiros enfrentavam alguma situação de insegurança alimentar e nutricional, o que significa alimento insuficiente e de baixa qualidade. Destes, 15,5% conviviam com a fome, o que corresponde a cerca de 33 milhões de pessoas. O problema é mais acentuado em 18,6% de domicílios rurais, que convivem diariamente com a fome. Quase a metade dessa população com fome vive nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil.

A fome está diretamente relacionada com a questão do trabalho e do nível da renda. Como pode assegurar uma alimentação minimamente adequada a família ou o domicílio com renda inferior a um quarto de salário mínimo por pessoa? Os diversos benefícios sociais apenas conseguem mitigar essa situação, sem, contudo, resolvê-la. A pandemia de covid-19 agravou ainda mais este quadro preocupante. Mas, depois dela, a fome persiste e até se agravou. Mesmo se a fome não consta oficialmente como causa mortis de tantas pessoas, aquelas que dela padecem podem sofrer consequências graves, como a subnutrição crônica, danos ao desenvolvimento físico e intelectual e a fragilização da saúde, que marcam o resto de sua vida.

Hélio Schwartsman - Para salvar a Bíblia e Marx

Folha de S. Paulo

Defesa abstrata, mesmo das ideias mais loucas, não deve ser reprimida

A intentona golpista reforçou o clamor por uma revisão da legislação sobre redes sociais. Não sou contra mudanças, mas lembro que esse é um assunto complexo, no qual precisamos estar atentos a nossos vieses. Temos forte tendência a ver a expressão de teses que desprezamos como crime e a classificar no máximo como deslize a propagação, ainda que violenta, de ideias com que concordamos.

Um exemplo real? Será difícil enquadrar os atos de janeiro como terrorismo porque a esquerda, a fim de proteger movimentos sociais como o MST, excluiu da Lei Antiterrorismo, de 2016, a motivação política do rol de razões que permitem tipificar uma ação como terrorista. Com isso, poupou a turba bolsonarista de responder por um delito mais grave.

Cristina Serra - Os extremistas do mercado

Folha de S. Paulo

Debate sobre juros não pode ser interditado

Faz um mês que terroristas contrariados com o resultado da eleição tentaram um golpe de Estado. Não são os únicos a criar dificuldades para o novo governo. Os fundamentalistas do mercado também não se conformam com a vitória de Lula e promovem alarido em tom de ameaça e intimidação cada vez que o presidente questiona dogmas do extremismo liberal.

Quem está feliz com a taxa de juros a não ser aqueles que têm dinheiro sobrando para investir no tal mercado? Mas Lula mal abre a boca e já é chamado de populista e gastador. O debate sobre juros não pode ser interditado. Qual a dose certa do remédio? Quando ele vira veneno?

Demétrio Magnoli - Senhor Polarização

Folha de S. Paulo

Retórica polarizadora fabrica um conveniente 'inimigo do povo'

Diz-se por aí que Lula ainda não desceu do palanque. De fato, na campanha eleitoral, o candidato até que evitou o proverbial palanque: buscou aliança com o centro democrático, sinalizou uma pacificação nacional, prometeu governar para todos. Foi só depois dela que o presidente subiu no palanque, reacendendo a fogueira da polarização. A estratégia discursiva organizou-se sobre quatro eixos, pontilhados por mentiras factuais e clamorosas contradições.

1) Independência do Banco Central

A linha definida por Lula foi exibir o BC como inimigo: um agente do bolsonarismo engajado na elevação dos juros para sabotar o crescimento econômico. Gleisi Hoffmann declarou que "o BC não deu um pio sobre as façanhas orçamentárias de Bolsonaro". É fake news impune: durante o (des)governo bolsonarista o BC elevou a Selic de 2% para 13,75% e, ata após ata, o Copom alertou para as "façanhas" cometidas contra a responsabilidade fiscal. O BC é o STF de Lula.

Entrevista | Gleisi Hoffmann*: União Brasil precisa de freio e PT não vai ceder mais espaço no governo

Presidente do partido defende reeleição de Lula e afirma que há como atrair outros partidos sem negociação de ministérios

Catia Seabra e Thiago Resende  /Folha de São Paulo

BRASÍLIA - A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann, rejeita a hipótese de reduzir o número de ministérios ocupados pelo partido para acomodação de novos aliados à base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Não vejo como o PT ceder mais espaço no governo para contemplar outras forças", diz em entrevista à Folha.

Gleisi, que participou nas negociações para formação do ministério de Lula, defende ajustes no acordo com a União Brasil —sigla que recebeu três pastas e ainda se declara independente em relação ao governo.

"Temos que fazer um freio de arrumação, porque, mesmo sendo contemplado como foi, é um partido que não está fazendo entrega", afirma a petista.

Para a presidente do PT, é natural que o governo imponha um filtro ideológico para nomeações descartando indicados que se alinharam ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). "Se nós ganhamos, nós temos uma posição política clara contra o bolsonarismo."

Uma das principais colaboradoras de Lula, ela defende que ele concorra à reeleição em 2026.

Lula e o PT têm feito duras críticas ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Essa postura tem sido alvo de contestação dentro da própria base governista. Isso não contraria o discurso de pacificação de Lula da campanha? 

A postura que o presidente está tendo é a mesma que teve durante a campanha. Ele prometeu a pacificação, mas não prometeu entregar o país ao retrocesso econômico e ao desemprego. Ele prometeu o crescimento e emprego, prometeu políticas sociais robustas, prometeu um investimento. Tudo que ele está falando é o programa que foi vitorioso.

Lula propõe a Biden órgão multilateral para o clima em visita à Casa Branca

Presidentes de Brasil e EUA ressaltaram importância da preservação ambiental e fortalecimento da democracia

Patrícia Campos Mello e Thiago Amâncio / Folha de S. Paulo

WASHINGTON - Na primeira reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Joe Biden como presidentes do Brasil e dos EUA, realizada na Casa Branca, em Washington, nesta sexta-feira (10), o petista convidou o líder americano para discutir um mecanismo de governança global que force os países a acatar decisões na área climática.

Em declarações dadas na presença de jornalistas no Salão Oval, os dois líderes destacaram a importância da preservação ambiental e reforçaram a necessidade de fortalecer instituições em defesa da democracia.

"A questão climática, se não tiver uma governança global forte e que tome decisões que todos os países sejam obrigados a cumprir, não vai dar certo", afirmou o petista ao democrata. "Não sei qual é o fórum, não sei se na ONU, não sei se é no G20, não sei se é no G8, mas alguma coisa temos que fazer para obrigar os países, o nosso Congresso, os nossos empresários a acatar decisões que tomamos em nível global."

Marcus Pestana - O mundo das ideias e a prática política

Pretendo me afastar do debate conjuntural que não anda nada estimulante. Provocado por alguns amigos leitores, pretendo me refugiar na discussão das ideias e teorias que movem a arena política contemporânea. A desconexão entre a produção teórica e a prática política, e a era das “verdades alternativas” e da torrencial produção de afirmações, verdadeiras ou não, presentes nas redes sociais, têm deixado como legado uma certa indigência intelectual e um sectarismo inédito, interditando o debate.

O próprio papel das ideias na transformação da vida e do mundo é tema controverso. A perspectiva revolucionária sempre acreditou que um conjunto de ideias e valores novos podem dinamitar a velha ordem e construir um mundo novo.  Já a ótica conservadora se ancora na convicção de que as tradições e os costumes devem nos orientar na prudência necessária para a produção de reformas e mudanças.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Viagem aos EUA resgata status global do Brasil

O Globo

Adesão dos americanos ao Fundo Amazônia mostra que Lula começa a tirar do país a pecha de pária

O encontro dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Joe Biden na Casa Branca rendeu mais que o esperado aperto de mãos no Salão Oval e a condenação do extremismo político dos populistas autoritários. Em comunicado conjunto, os Estados Unidos anunciaram a intenção de destinar recursos ao Fundo Amazônia, que já conta com aportes da Noruega e da Alemanha. Desde o início do governo anterior, o Brasil pedia aos americanos dinheiro para ajudar a preservar a Amazônia, mas as conversas nunca foram adiante devido à política antiambiental do governo Jair Bolsonaro. Em 2019, Noruega e Alemanha congelaram seus repasses ao fundo, enquanto a devastação na floresta batia recordes.

Criado em 2008, o Fundo Amazônia depende de doações para investir em prevenção, monitoramento, combate ao desmatamento e promoção do uso sustentável da floresta. Até o momento, a Noruega já doou R$ 3,1 bilhões, a Alemanha R$192 milhões (e a Petrobras R$ 17 milhões). Gerido pelo BNDES, em 15 anos o fundo já apoiou 384 instituições locais, 195 unidades de conservação, 101 terras indígenas, além de dezenas de milhares de indivíduos em atividades produtivas sustentáveis. As ações permitiram a inscrição de 1,1 milhão de imóveis no Cadastro Ambiental Rural, 1.700 missões de fiscalização e o combate a cerca de 30 mil incêndios e queimadas. Quanto mais recursos, mais projetos podem ser apoiados.

Poesia | Colhe o dia, porque és ele - Fernando Pessoa

 

Música | Meu canto é pra valer - Moacyr Luz & Samba do Trabalhador

 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Vera Magalhães - Biden dá a Lula chance de mudar de assunto

O Globo

Visita aos EUA oferece aos bombeiros a oportunidade de aplacar bate-boca com BC, que tem pouca chance de produzir algo proveitoso ao governo

A crise entre Lula e o Banco Central sai de cena momentaneamente graças à viagem do presidente brasileiro aos Estados Unidos para um encontro bilateral com Joe Biden. É uma bem-vinda possibilidade de Lula mudar de assunto e dar aos bombeiros dos dois lados a chance de aplacar um bate-boca que tem pouca chance de produzir algo proveitoso para o próprio governo.

A agenda com Biden, ao contrário, tem dois temas de consenso que permitem a Lula surfar externa e internamente, podendo render dividendos imediatos ou produzir uma narrativa que impulsione iniciativas no Congresso e na sociedade.

São eles o meio ambiente e a defesa da democracia. É muito boa a ideia de sugerir aos Estados Unidos que ingressem de alguma maneira como mantenedores do Fundo Amazônia. Trata-se de uma iniciativa já consolidada, que tem dois países europeus, Alemanha e Noruega, como financiadores e que, simbolicamente, também ficou travada pela política destrutiva de Jair Bolsonaro para o meio ambiente.

César Felício - O que une Lula a Biden e Bolsonaro a Trump

Valor Econômico

A política doméstica falará alto na cúpula em Washington

As semelhanças entre as conjunturas políticas do Brasil e dos Estados Unidos virtualmente condenam ao sucesso a breve visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Joe Biden nesta sexta-feira. Trata-se de uma estratégica ocasião para Biden e Lula manterem em evidência o alerta que paira sobre as duas democracias em relação aos seus antecessores e possíveis sucessores.

Movida a “fake news”, boa parte da opinião pública dos dois países contesta o resultado eleitoral que afastou os dois países da extrema-direita. Se Biden teve seu 6/1, Lula teve seu 8/1 a apontar que a democracia não está imune a riscos tanto em um caso como no outro.

A ligação do extremismo entre os dois países é evidente e não por acaso o ex-presidente Jair Bolsonaro está a 155 milhas do refúgio de Donald Trump em Mar-a-Lago e no domicílio eleitoral da nova esperança da direita radical, o governador da Flórida, Ron De Sanctis.

Luiz Carlos Azedo - Encontro de Lula com Biden muda o eixo da política externa

Correio Braziliense

A viagem do petista aos Estados Unidos e seu encontro com o presidente Biden demonstram que a rota histórica de nossas relações internacionais se mantém tendo por norte o Ocidente

A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca, para um encontro com o presidente Joe Biden, muda o eixo da política externa brasileira, que volta ao Ocidente, por razões geopolíticas e político-ideológicas. Se num primeiro momento a política externa do governo de Jair Bolsonaro fora de alinhamento absoluto com a política de Donald Trump, com a vitória do democrata a política externa brasileira havia nos levado a um afastamento dos Estados Unidos e a uma aliança tácita com os regimes iliberais da Europa Oriental, da África e do Oriente Médio. Bolsonaro estava se tornando um espelho do presidente russo Vladimir Putin.

O cientista político Luiz Werneck Vianna, logo no começo do governo Bolsonaro, foi um dos intelectuais a primeiro destacar que a democracia brasileira estava sob alto risco, não apenas por causa de um governo reacionário, “que faz do seu desmonte o seu objetivo estratégico”, mas também porque “uma parte de sua sociedade abandonou sua afeição por ela”. Uma de suas causas foi “o descaso com a organização da vida popular e a descrença no papel que uma cidadania ativa pode desempenhar nas democracias”.

Bernardo Mello Franco - O presidente do Banco Central é infalível?

O Globo

Lula não gasta saliva à toa ao criticar Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro

Na campanha de 2022, Ciro Gomes disse que, se eleito, não governaria com os dirigentes do Banco Central nomeados por Jair Bolsonaro. “No primeiro dia, convidarei suas excelências a se demitirem”, afirmou. Quando alguém lembrou a lei que deu autonomia ao BC, estabelecendo mandatos fixos, ele respondeu ao seu estilo: “Para a gente convidar as pessoas a se demitirem, não tem lei nenhuma”.

Lula não é Ciro. Não propôs o fim da autonomia do BC nem instou Roberto Campos Neto a pedir as contas. Mesmo assim, vem apanhando sem dó desde que começou a criticar a taxa de juros. No dia 1º, o Copom contrariou o governo e manteve a Selic em 13,75% ao ano. Ao reclamar da decisão, o presidente entrou na mira da elite financeira e de seus porta-vozes.

José de Souza Martins* - A tragédia yanomami

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Não são os indígenas que devem compreender e acatar os brancos. São os brancos que devem compreender os indígenas, reconhecer-lhes o direito à diferença e respeitá-la

Uma tradição, ainda que relutante, de respeito pelos direitos territoriais dos nossos indígenas, desde o período colonial, desde o Diretório dos Índios do Grão Pará e Maranhão, de 1755, foi desconsiderada cada vez mais a partir da economia do regime militar.

Desde que a frente de expansão do café começou a ocupar o “sertão desconhecido” de São Paulo, nas décadas finais do século XIX, bugreiros, profissionais do genocídio, eram pagos para liquidar indígenas, levando como comprovante do “serviço” para os patronos do extermínio os pares de orelhas de suas vítimas. Hoje, mudou o estilo da violência, mas o propósito continua o mesmo: “limpar” o país de seus nativos imemoriais e usurpar-lhes os meios de sobrevivência, a terra e os recursos naturais.

Claudia Safatle - Campos Neto vai defender seu legado

Valor Econômico

Problema de presidente do BC com governo Lula se tornará mais delicado se e quando as declarações se transformarem em decisões concretas

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, está disposto a enfrentar o mau humor do governo do PT com a sua gestão, que manteve os juros básicos em 13,75% ao ano na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Enquanto for manifestação de desagrado por parte do presidente Lula com o nível elevado da taxa de juros, não há muito que fazer.

O problema se tornará mais delicado se e quando as declarações se transformarem em decisões concretas, como o governo mudar a meta de inflação de 3% para 4,5%, como sugeriu Lula - na crença de que um pouco mais de inflação poderá gerar um pouco mais de crescimento; se o governo tentar revogar a lei complementar que conferiu independência para o Banco Central; ou, ainda, se o governo quiser tirar Campos do comando do Banco Central através do Senado, que é quem pode fazê-lo.

Bruno Boghossian – Uma reforma para o Supremo

Folha de S. Paulo

Aliados de Lula e cúpula do Senado querem evitar debate contaminado pelo bolsonarismo

No discurso de candidato à reeleição, Rodrigo Pacheco fez um aceno aos senadores que enxergam um gigantismo na atuação do STF. "Vamos legislar para colocar limites aos Poderes", propôs. Em seguida, apresentou um cardápio de medidas que poderiam estabelecer regras para mandatos e decisões do tribunal.

Pacheco fez o movimento ao identificar o flerte de colegas moderados com a candidatura do bolsonarista Rogério Marinho. O presidente do Senado sugeriu a discussão daqueles projetos num esforço para apresentar alternativas a ideias defendidas do outro lado do corredor, como o impeachment de desafetos no tribunal e tentativas de golpe.

Reinaldo Azevedo - Vem à luz o 'metaphysical state'

Folha de S. Paulo

Na pena e na boca de sectários de centro, 'populista' vira xingamento análogo a 'comunista' e 'fascista'

Não falarei aqui, e o contraste seria desmoralizante para mim, como Nietzsche no prefácio de "O Anticristo", tão certo da chacota da quinta série que antecipou a própria eternidade antes que a patota declarasse a sua obsolescência —suposta no caso dele, certa no meu. Escreveu: "Alguns homens nascem póstumos".

Preparo-me para o perecimento. Não com o estoicismo dos monges, mas com a "nonchalance" dos sátiros. E leio, "nas horas intermédias do tédio", André Lara Resende. Não por crença, mas por apreço ao dissenso. Ademais, tem obra, bem além do alarido dos "bonitinhos, mas ordinários". Ou não tem? Faço uma citação coberta para eventuais caçadores de referências. Discurso único intoxica a inteligência, despreza as evidências em contrário e é incompatível com a civilidade.

Vinicius Torres Freire - Comida cara e metas de inflação

Folha de S. Paulo

Lula pode, com razão, jogar a culpa da crise em Bolsonaro, mas inflação alta dói na carne

"A população tem que saber o que está acontecendo no país, porque, senão, isso vai ficar no colo do presidente", disse Gleisi Hoffmann a esta Folha.

Na economia da vida cotidiana, acontece que o preço da comida ainda aumenta mais de 10% ao ano (ou muito mais) faz praticamente 30 meses. Há sinais de que a despiora no emprego está chegando ao fim.

Essa conversa a respeito de juros e meta de inflação vai refrescar a vida de quem vive no fio da navalha, afetado imediata e duramente por carestia e falta de trabalho decente?

Segundo Hoffmann, presidente do PT e mulher de alta confiança de Luiz Inácio Lula da Silva, acontece o seguinte:

O presidente do Banco Central, Roberto Campos, não tem autonomia política, é um adepto de Jair Bolsonaro; toma, pois, decisões políticas.

Por manter a Selic em 13,75% ao ano, o BC "joga contra o Brasil", adota a política monetária de Bolsonaro, derrotada nas urnas.

Hélio Schwartsman - Problema insolúvel

Folha de S. Paulo

Ideia de Lula para a Ucrânia não é absurda, mas nó a desatar é difícil

Se o problema não tem solução, então não é um problema. Essa frase, uma das favoritas de gurus da autoajuda, tem um problema. Ela não é verdadeira, ao menos não em todas as instâncias. A guerra na Ucrânia, prestes a completar um ano, é um bom exemplo disso. Até dá para imaginar desfechos para o conflito, mas eles são tão ruins que fica difícil chamá-los de "soluções"; não obstante, a guerra continua sendo um enorme problema.

Ruy Castro - De Nuremberg para Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Os ministros de seu governo sabiam o que estava acontecendo aos yanomamis

As imagens dos yanomamis em condições subumanas, com as costelas da fome, doentes, agonizantes ou mortos remeteram o mundo às vítimas dos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra. Desde o começo da guerra sabia-se da existência desses campos e que eles deviam ser palco de maus-tratos e de mortes de judeus, mas não se tinha a dimensão da tragédia. Foi preciso que, com a rendição da Alemanha, os Aliados penetrassem neles para que fosse conhecido o tamanho do horror.

Eliane Cantanhêde - Lula e o ‘império’

O Estado de S. Paulo.

Lula e Biden se unem contra a extrema direita, mas divergem quanto a China e Rússia

Política externa, como tantas coisas na vida, é feita (também) de interesses e conveniências e o que não falta nas relações do Brasil de Lula com os EUA de Joe Biden são exatamente interesses e conveniências. Isso, porém, não apaga velhas divergências entre os dois países, nem o ranço petista contra “o império” e os rastros da política externa Sul-Sul de Lula 1 e 2, pautada na resistência a um “mundo unipolar”, leia-se, aos EUA.

Lula e Biden enfrentam os fantasmas de Bolsonaro e Trump e a ascensão de uma extrema direita mundial raivosa e sem limites, alimentada pela internet. Logo, um interesse comum é combater esses movimentos e se prevenir contra novos ataques, com Lula atuando claramente pela recuperação do prestígio do Brasil e do seu próprio palanque internacional. Washington é fundamental nessa direção.

Simon Schwartzman * - O futuro das Forças Armadas

O Estado de S. Paulo.

Questão da intervenção dos militares na política é o passado. O futuro é a contribuição que as Forças, renovadas, podem e precisam dar ao País

A tentativa frustrada de Jair Bolsonaro de jogar as “suas” Forças Armadas na aventura de um golpe não deu certo, detida que foi pela atuação firme do Judiciário e pelo profissionalismo dos principais comandantes, mas serviu para recolocar na agenda a questão do papel dos militares na sociedade brasileira. O governo Lula procurou reagir aplacando os militares, oferecendo apoio a seus projetos de modernização e reunindo os comandantes com empresários, acenando com o ressurgimento da fracassada indústria nacional de armamentos, tentada pelo regime militar na década de 70. Quem sabe, assim, eles deixariam a política de lado e ficariam tranquilos em suas casernas?

Laura Karpuska* - Foco

O Estado de S. Paulo.

Instituições foram cooptadas por grupos de interesse, o que distorce as escolhas sociais

A taxa de juros não parece importar para o crescimento de longo prazo de países. Na verdade, poderíamos nos perguntar se as taxas de juro elevadas reduzem o crescimento a longo prazo ou se são os próprios fatores que causam taxas de juro elevadas que também atrasam o nosso crescimento.

Vivemos hoje um equilíbrio econômico ineficiente – e equilíbrios ineficientes costumam se autorreforçar. Instituições que foram cooptadas por pequenos grupos de interesse geram incentivos para que os mesmos grupos de interesse continuem distorcendo escolhas sociais e possam continuar capturando o Estado.

Celso Ming - Nova matriz desenvolvimentista

O Estado de S. Paulo.

O PT e os partidos de esquerda da base do governo já não querem apenas a derrubada dos juros e o fim da autonomia do Banco Central (BC). Querem o que chamam de política econômica desenvolvimentista.

Se o presidente Lula for adiante nessas intenções haverá consequências, com probabilidade de que se transforme num tiro no pé do governo.

Política desenvolvimentista é uma coisa vaga. A ideia é alavancar crescimento econômico e criação de empregos sem apego ao equilíbrio das contas públicas. Pressupõe sempre mais despesas do governo e, portanto, despejo de dinheiro público – de maneira a puxar pelo aumento do consumo e da atividade econômica. Esse ambiente é incompatível com juros altos, não só porque encareceriam o crédito e os investimentos, mas porque juro alto só existe com escassez de moeda.

Fabio Giambiagi -Regra fiscal II: o teto

O Globo

A proposta é que a regra a ser apresentada pelo governo considere uma hipótese de despesa prevista para 2023 de R$ 1,98 trilhão

Em artigo anterior, discutimos qual deveria ser a atitude que o governo deveria ter acerca do chamado “extrateto”, na regra que deverá propor ao Congresso nos próximos meses. Com vistas a colaborar nesse debate, este é parte de um conjunto de três artigos com ideias a esse respeito.

O artigo de hoje versará sobre o “X da questão”, ou seja, qual deveria ser o valor X do teto no ano inicial de referência, que a sugestão aqui feita é que seja 2024. Em nosso próximo encontro, trataremos da proposta de regra de variação do teto de 2025 em diante.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Erros do passado assombram nova gestão do BNDES

O Globo

Ao defender mudança na TLP e banco ‘mais atuante’, Mercadante traz de volta fantasmas das gestões petistas

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se insurgia contra a autonomia do Banco Central e a taxa de juros, o economista Aloizio Mercadante assumiu o BNDES avisando que deseja um banco “mais atuante”, particularmente no apoio à indústria e às empresas de menor porte. Argumentou que o Brasil não pode ser apenas a “fazenda do mundo”. Há um sentimento entre economistas ligados ao PT de que o BNDES deve ser o vetor da “reindustrialização” do Brasil. As ideias e o histórico de Mercadante despertam o receio de que se repitam erros cometidos no passado.

“Na cabeça do Lula existe um BNDES velho; os tempos são novos, e o banco precisa refletir isso”, disse ao GLOBO o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES. O banco é uma fonte importante de crédito para projetos de longo prazo, incertos para o capital privado. Mas sempre foi usado para favorecer empresários próximos ao poder, criando distorções no mercado de crédito de impacto deletério para todos os demais investidores e consumidores.

Poesia | Aproveitar o tempo - Fernando Pessoa

 

Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - De Janeiro a Janeiro