No interior de cada uma dessas atitudes políticas polares há gradações várias, assim como há variadas inclinações ideológicas, às vezes díspares entre si. É comum flagrar-se adversários aparentemente difíceis de conviver agindo de modo a jogarem água para um mesmo moinho, seja o da confrontação ou o da conciliação. Reacionários de direita e revolucionários de esquerda podem plantar a mesma semente agonística em seus solos ideológicos distantes, assim como conservadores e reformistas de centro ou de esquerda podem convergir na disposição comum de recusar os extremos. Os dois últimos preocupam-se – para usar jargão conhecido – com a criança que está na bacia, enquanto os primeiros prestam atenção, antes e ao fim de tudo, na água que julgam suja ou benta, conforme suas convicções.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
domingo, 10 de março de 2024
Paulo Fábio Dantas Neto* - Educação e atitude política
Luiz Carlos Azedo - Lula e o americanismo na vida brasileira
Correio Braziliense
O American way of life serve de espelho para
a maioria da população. Não apenas a elite econômica e a classe média, mas
também a grande massa de periferias e favelas
A complexidade das relações do Brasil com os Estados Unidos é determinada historicamente por nossa condição geopolítica na América do Sul, o republicanismo, a vocação agroexportadora e industrial e a influência cultural do modo de vida americano na vida urbana. Antes mesmo da independência do Brasil, quando as relações com os EUA se estabeleceram diplomaticamente, alternamos períodos de tensão por razões comerciais ou políticas, como na Inconfidência, na Confederação do Equador e nos governos Vargas e João Goulart, e momentos de estreita cooperação, maior até do que deveria, como na Primeira República, no governo Dutra e nos primeiros anos do regime militar.
Merval Pereira - O enigma
O Globo
O governo está sem saída, não tem maioria no
Congresso e está perdendo também nas pesquisas de opinião
Uma tempestade perfeita parece estar se
formando sobre o Palácio do Planalto, com a perda de força política do governo
em relação ao Congresso, e com a queda de popularidade do próprio presidente
Lula diante da opinião pública, revelada por diversas pesquisas recentes. O
mais estranho é que os resultados econômicos estão vindo, com crescimento do
PIB, aumento no rendimento médio dos trabalhadores e melhoria do PIB per
capita, o que não acontecia há muito tempo.
É provável que os resultados econômicos resultem na reversão, ou pelo menos na neutralização, desse quadro negativo, mas é preciso que o governo Lula atue em outros campos, pois tudo indica que hoje já não basta a situação econômica estar equilibrada para preencher as aspirações de uma ampla massa de eleitores, que já atinge até mesmo os moradores do nordeste, que continua sendo uma barreira inexpugnável ao pessimismo em relação ao governo petista.
Elio Gaspari - O lulopetismo tem um problema: Lula 3.0
O Globo
As pesquisas do Ipec e da Quaest revelaram
que entre agosto e março a aprovação do desempenho de Lula caiu
enquanto a reprovação cresceu.
As duas linhas se aproximaram, e o resultado
confirmou a pesquisa do
Ipec de dezembro, que mostrava a boca do jacaré aberta: 50% dos
entrevistados não confiavam nele, contra 48% que confiavam. A diferença cabia
na margem de erro. Em março, não cabe mais: 51% não confiam, contra 45% que
confiam.
Alguma coisa está funcionando mal no governo de
Lula 3.0. Não se pode dizer que seja a economia. Anda-se de lado,
mas anda-se. Também não é a política, pois, em mais de um ano de governo,
aprovou-se a reforma tributária e levou-se o andor sem escândalos.
Lula restabeleceu a relação civilizada com governadores filiados a partidos da oposição e enfrentou uma crise militar com um desempenho capaz de causar inveja ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a Nelson Jobim, seu ministro da Defesa.
Bernardo Mello Franco - 'Tô nem aí' de Tarcísio
O Globo
Aliado de Bolsonaro, governador debochou de
denúncia à ONU por violência policial
Assim que venceu a eleição de 2022, Tarcísio
de Freitas deu início a uma operação de reposicionamento. Queria suavizar a
imagem e se descolar da extrema direita. “Nunca fui bolsonarista raiz”, jurou,
dias antes da posse. “Sou cristão e contra o aborto, mas não vou entrar em
guerra cultural”, prometeu.
Com ambições presidenciais, o governador de
São Paulo foi aconselhado a se vender como um político moderado. Na
sexta-feira, abandonou o teatro e rasgou a fantasia.
Entidades civis denunciaram a polícia paulista ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. Relataram ameaças, torturas e execuções sumárias na Baixada Santista. Questionado sobre o assunto, o governador respondeu em tom de deboche. “O pessoal pode ir na ONU, na Liga da Justiça ou no raio que o parta, que eu não tô nem aí”, disse.
Dorrit Harazim - Ser quem somos
O Globo
Se adiássemos a busca do conhecimento e a
procura do belo até haver alguma paz, nem sequer as pinturas rupestres
existiriam
Entre os feitos do britânico C.S. Lewis estão
ter sobrevivido às trincheiras da Primeira Guerra Mundial e ser o autor das
“Crônicas de Nárnia”, cujos sete volumes venderam mais de 100 milhões de
exemplares e foram adaptados para TV, cinema, teatro, videogame. Em 1939,
portanto às vésperas do conflito mundial seguinte, ele deu uma palestra na
Universidade de Oxford. O tema era uma indagação: “O belo importa quando bombas
começam a cair?”.
Como não? — respondeu ele.
A condição humana sempre foi feita de contendas, caos e dor. Vivemos inexoravelmente à beira do precipício, mas a cultura também emerge, sempre. Se adiássemos a busca do conhecimento e a procura do belo até haver alguma paz, nem sequer as pinturas rupestres existiriam.
Eliane Cantanhêde - O voluntarismo de Lula
O Estado de S. Paulo
Lula fala e interfere onde não deve, cala
sobre o que deve e despenca nas pesquisas
O presidente Lula parece ou finge não ver, mas as coisas estão desandando e as pesquisas já apontam para desaprovação maior do que aprovação nas próximas rodadas, com queda de popularidade nos diferentes segmentos. Fazer meia culpa não é e nunca foi o forte de Lula, mas cadê o decantado faro político, a perspicácia e o carisma de Lula? Está sempre sério, mal-humorado, com declarações recheadas de erros não só de comunicação, mas de informação e compreensão do mundo.
Edmar Bacha - Em busca do país Real
O Globo
O Plano Real permitiu abolir dois males
históricos da economia, a alta inflação e as crises de balanço de pagamentos
Em 1974, escrevi uma fábula sobre o reino de Belíndia, mistura de Bélgica com Índia, um país em que o crescimento econômico beneficiava somente a parcela mais rica da população. Em 1984, imaginei em nova fábula uma reunião de economistas no Sambódromo para discutir como dar fim à inflação no país dos contrários, em que tudo funcionava de trás para a frente, inclusive o próprio nome do país, Lisarb. Após a redemocratização, Mário Henrique Simonsen cunhou o termo Banglabânia, mistura de Bangladesh com Albânia, para expressar sua preocupação com o risco de empobrecimento do país como consequência das tendências autárquicas e estatizantes da Constituição de 1988. Em 1994, Delfim Netto concebeu a Ingana, mistura de Inglaterra com Gana, para criticar o governo que aumentava os impostos como se estivesse num país europeu, enquanto oferecia serviços públicos de terceiro mundo. As manifestações de rua de 2013 trouxeram à tona outra caracterização, que denominei de Rumala, triste combinação de Rússia com Guatemala: uma elite corrupta associada a uma alta taxa de criminalidade. Como se não bastasse, ao promover a devastação da Amazônia e a ocupação pelo garimpo ilegal dos territórios indígenas, o governo de Bolsonaro me sugeriu criar Brasa, um país em chamas, completando essa peculiar lista.
Pedro S. Malan* - Problemas complexos, soluções simples?
O Estado de S. Paulo
É preciso reconhecer, justiça lhe seja feita,
que há coerência e consistência na visão de Lula da Silva ao longo do tempo
“Nós temos mais três anos pela frente e
queremos ter algo concreto para a sociedade brasileira aprovar (em 2026). O
nosso problema era dinheiro e dinheiro não é mais problema.” Assim falou Lula
em 22 de janeiro de 2024, na cerimônia de lançamento do Programa Nova Indústria
Brasil (NIB).
O NIB define seis grandes missões: construir cadeias industriais sustentáveis, consolidar o complexo industrial da saúde, desenvolver a infraestrutura, promover a transformação digital, desenvolver a bio economia e desenvolver tecnologias estratégicas. A opinião pública foi informada de que o plano será guiado por “diretrizes transversais” como inclusão, equidade de gênero, cor e etnia e promoção do trabalho decente. O leque de instrumentos é amplo: subvenções, créditos tributários, participações acionárias, requisitos de conteúdo local, entre outros.
Rolf Kuntz - Estado laico, amém
O Estado de S. Paulo
Ato na Avenida Paulista evidenciou mais uma
vez os vínculos – vigorosamente afirmados pela ex-primeira-dama – entre a fé
religiosa e o jogo do poder
A mistura tóxica de religião e política, uma aberração num Estado leigo, é hoje parte do dia a dia dos brasileiros, como indica pesquisa da consultoria Quaest. Segundo o relatório, 42% dos cidadãos identificados como católicos avaliaram positivamente o atual governo e 28%, de forma negativa. Entre os evangélicos, a avaliação positiva ficou em 22% e a negativa, em 48%. O vínculo entre filiação religiosa e opinião política parece claro. Além disso, remete à fala da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro no comício de 25 de fevereiro na Avenida Paulista. “Por um bom tempo, fomos negligentes a ponto de dizer que não poderíamos misturar política com religião. E o mal tomou e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento, agora, da libertação”, disse a oradora, antes de chamar Deus para estabelecer seu reino no Brasil.
Vinicius Torres Freire - Crime, droga e o prestígio de Lula
Folha de S. Paulo
Economia aflige menos; nota do presidente na
segurança pública cai muito, diz pesquisa
A partir do final do ano passado até
agora, a avaliação
de Luiz Inácio Lula da Silva piorou muito em várias áreas, em
especial em segurança pública, combate à corrupção e em controle de gastos,
lê-se em pesquisa Atlas feita entre 2 e 5 de março.
Aumentou a preocupação do eleitorado com
criminalidade e tráfico de drogas e com corrupção, assuntos citados como os
principais problemas do país para quase 60% dos entrevistados. "Pobreza,
desemprego e desigualdade social", pior problema citado por 20,6%, e
"economia e
inflação", por 15%, ora estão longe no ranking das aflições.
Esses números podem ajudar a explicar a baixa da popularidade de Lula. O aumento do salário médio, dos benefícios sociais, do número de empregos e a queda da inflação não bastaram para compensar outras insatisfações (talvez mais reverberadas em redes sociais e de mensagens).
Celso Rocha de Barros - General entregou Bolsonaro
Folha de S. Paulo
Generais sabem que ex-presidente conspirou e
o que lhes teria acontecido se o golpe tivesse dado certo
Pelo que já vazou, os depoimentos do general
Freire Gomes e do brigadeiro Baptista Júnior à Polícia Federal
confirmaram que Bolsonaro lhes apresentou a minuta do golpe de Estado. Também
teria partido de Jair a ordem de não desmobilizar os acampamentos em frente aos
quartéis.
Vocês devem se lembrar do Jair na Paulista
dizendo que antigamente golpe era tanque na rua, e agora é só "uma
minuta".
Pois bem, Jair: quando você propôs a minuta aos chefes das Forças Armadas, você deu a ordem para que os tanques fossem para a rua. Se os tanques não te obedeceram, Jair, não é problema do juiz que vai te colocar em cana por tentativa de golpe de Estado.
Muniz Sodré* - As igrejas neopentecostais e a consolação a varejo
Folha de S. Paulo
Trata-se de um projeto escuso de poder, sob
uma teologia de domínio, cujo alvo é o Estado
Fato capaz de pôr orelhas em pé é a presença
maior de católicos no comício de 25/2 na Paulista, enquanto predomina entre os
evangélicos a opinião de que religião não deveria se misturar com política. O
paradoxo é que se tratava de organização neopentecostal, portanto, de evento do
nicho eleitoral da extrema direita.
É retrato diferente, induzido pela atuação neopentecostal, que trocou nas mentes o todo pela parte. Enriquecida, essa parte tem prosperado no pacto com a entidade anticrística Mamon, citada nos evangelhos de Lucas e Mateus como fetiche do dinheiro. O comício na Paulista foi mais Malafaia do que Bozo.
Hélio Schwartsman - Volodimir Zelenski, o showman
Folha de S. Paulo
Biografia do presidente da Ucrânia mostra
bastidores da guerra da Ucrânia e dá densidade psicológica ao personagem
Antes da guerra, era difícil olhar para Volodimir Zelenski e não achar que ele fosse uma espécie de piada. Ele, afinal, era um ator que conquistara a Presidência da Ucrânia por ter representado, numa série televisiva, o papel de um cidadão comum que se vê eleito presidente após viralizar ao fazer uma crítica aos políticos tradicionais. "O Showman", de Simon Shuster, é uma biografia que dá densidade psicológica ao personagem.
Alvaro Costa e Silva - Puramente criminosos
Folha de S. Paulo
O liberou geral de armas para criminosos pode
não ser só descuido
Depois do fim da saída
temporária de presos em datas comemorativas
–projeto aprovado no Senado por 62 votos a dois, com anuência de partidos da
base governista–, mais pautas ligadas à segurança serão debatidas. Entre elas
o aumento de
penas para quem comete furto (de um para dois anos de
reclusão), roubo com lesão corporal grave (de 7 para 16 anos) e latrocínio (de
20 para 24). Assim como tornar obrigatória a decretação de prisão preventiva na
audiência de custódia em casos de crime hediondo e roubo.
Desnecessário dizer que a revisão penal tem amplo apoio popular. Não poderia ser diferente: a sensação de insegurança é geral. No Rio um celular é roubado a cada 10 minutos; esse tempo é ainda mais curto em São Paulo.
Ruy Castro - Justiça para Messi, o cachorro do filme 'Anatomia de uma queda'
Folha de S. Paulo
O Oscar está a ponto de cometer a maior
injustiça contra um ator desde que negou o prêmio a Rin-Tin-Tin
Em reportagem de Fernanda Talarico, fico
sabendo que o grande injustiçado do Oscar deste
domingo (10) será um cachorro. Trata-se de
Messi, o border collie do filme "Anatomia de Uma Queda", da francesa
Justine Triet. É um drama de tribunal em que ele interpreta Snoop,
um cão superdotado. O mundo gira e o Oscar não se livra de seu formalismo. Pelo
simples fato de ser cachorro, Messi não pode concorrer ao Oscar de melhor ator
—talvez para alívio de Ryan Gosling e Jeffrey Wright e certamente de Robert De
Niro, candidatos ao prêmio.
Com a avançada idade de oito anos na vida real, Messi estréia na tela e já é considerado a maior revelação animal do cinema desde Flipper, o golfinho que nadava de costas, dava gargalhadas e falava francês. O nome é uma homenagem a Lionel Messi, claro, e os dois ainda não foram apresentados porque o craque teme ser ofuscado por seu xará canino. É um risco que ele pode correr pelo que se viu há pouco numa entrevista coletiva em Cannes, quando Messi deu um baile em seus colegas de elenco.
Cacá Diegues - A esplêndida história da Humanidade
O Globo
Somos constantemente ameaçados pelas mudanças
climáticas que nós mesmos provocamos, a população do planeta segue crescendo e
não temos como evitá-lo, as guerras destrutivas como as da Ucrânia e no Oriente
Médio se repetem por toda parte, parece até que curtimos essas desgraças
Acabo de mandar uma mensagem eletrônica para um grande amigo meu que sabe dessas coisas. Eu lhe dizia que os sinos da Academia estão batendo até agora com grande euforia por causa da eleição de Lilia Schwarcz. Ela é a mais nova acadêmica e ocupa a cadeira nº 9, onde esteve o querido Alberto da Costa e Silva, que nos honrou e ensinou durante anos com seus conhecimentos obtidos com a Diplomacia, na Literatura e na História do Brasil. “Minha candidatura é uma homenagem ao dr. Costa e Silva”, disse ela com modéstia, “ele sempre foi meu pai espiritual, meu pai intelectual, gostaria muito de seguir seus passos, e a ABL é fundamental para isso, como é fundamental para nossa memória nacional”. Os sinos continuam portanto a bater.
sábado, 9 de março de 2024
O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões
Operações policiais no Rio apontam rumo contra o crime
O Globo
Cooperação entre polícias levou a apreensão
de arsenal. Inteligência financeira desfez esquema de bicheiro
Duas operações policiais deflagradas ontem no
Rio mostraram a importância do planejamento, das investigações robustas e da
integração entre as diversas forças de segurança com o Ministério Público para
o sucesso no enfrentamento das organizações criminosas. Uma delas conseguiu
interceptar um comboio de milicianos na Avenida Brasil, levando à prisão de 15
criminosos e à apreensão do arsenal em poder dos bandidos. A outra, que teve
como alvo o bicheiro Bernardo Bello, mirou o esquema de lavagem de dinheiro do
contraventor.
A operação na Avenida Brasil aconteceu na madrugada de quinta-feira, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Graças ao trabalho de inteligência, equipes das polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal (PRF) interceptaram um “bonde” formado por 16 milicianos em quatro carros roubados. A quadrilha participara de um confronto numa favela da região controlada pela milícia e disputada pelas facções Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (ADA). Com o bando, foram apreendidos 12 fuzis, 58 carregadores, duas granadas, sete pistolas e mais de 1.500 projéteis — uma das armas tinha o brasão da polícia de Miami, nos Estados Unidos. Foram recolhidos também coletes à prova de bala e uniformes falsos das polícias. Seis suspeitos foram baleados nas ações.
Oscar Vilhena Vieira* - 'Tô nem aí'
Folha de S. Paulo
PM matou 94% a mais na Baixada Santista, mas governador não está preocupado
"Sinceramente, nós temos muita
tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, pode
ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí (sic)". É
o que brada o governador de São Paulo, Tarcísio
de Freitas, após a Conectas Direitos Humanos e a Comissão Arns denunciarem
à ONU as operações letais e a escalada da violência policial
na Baixada
Santista.
Mas o governador está tranquilo.
O número de pessoas mortas por policiais militares em serviço na Baixada Santista aumentou em 94% no primeiro bimestre de 2024 em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados do Ministério Público Estadual de São Paulo.
Hélio Schwartsman - Biden fala grosso
Folha de S. Paulo
Para contrapor-se à imagem de velho,
presidente faz discurso incomumente forte ao Congresso
Joe Biden sentiu o golpe. A tentativa de Donald Trump de associar a imagem do atual presidente à de um velho decrépito parece estar pegando. Para contrapor-se a isso, Biden fez um discurso sobre o estado da união incomumente forte, no tom e no conteúdo. Bateu em Trump, lembrou a insurreição de 6 de janeiro de 2021, explicou sua política externa e abordou explicitamente o problema da idade. Em suma, fez de tudo para mostrar-se como o exato oposto de um velhinho confuso e indefeso.
Dora Kramer - Não é só a economia
Folha de S. Paulo
Estilo sem filtro e prioridade ao mundo
contam muito na queda de Lula nas pesquisas
Enquanto caem as
avaliações positivas do presidente Luiz Inácio da Silva (PT) em
praticamente todos os itens e segmentos, como registrado nesta semana em duas
pesquisas (Quaest e Atlas), a economia exibe
bons índices no macro: inflação, PIB,
desemprego. No cotidiano, a carestia segue no comando.
Isso explica em parte, mas não destrincha com exatidão o mapa do campo minado para um presidente que saiu consagrado do segundo mandato e completa um ano do terceiro em queda no gosto do brasileiro. Mostra, primeiro, que a economia não é tudo. Na realidade, nunca foi, dependeu sempre da política, pois sem que um governo disponha de condições políticas favoráveis não há condução econômica que se sustente. Ao menos é assim nas democracias.
Adriana Fernandes - Banqueiros e a PEC da autonomia financeira do BC
Folha de S. Paulo
Preocupação é que autonomia orçamentária
coloque ‘política’ dentro da instituição
Banqueiros manifestaram desconforto com o
risco de a PEC que dá autonomia
orçamentária e financeira ao Banco Central colocar
a "política" dentro da instituição.
A preocupação é que a PEC acabe vinculando,
na prática, o BC ao Senado, dando margem para interferências dos parlamentares
no órgão, que é responsável pelas políticas monetária e cambial, além de
regular e fiscalizar a atuação das instituições financeiras no Brasil.
Em outras palavras, que o Banco Central fique dependente do Congresso até mesmo para nomeações de cargos dentro do banco.
Demétrio Magnoli - No jogo da raça
Folha de S. Paulo
Políticas de cotas raciais espalham o gás
tóxico do racismo no meio do povo
Cerca de dez anos atrás, um candidato ao
ensino superior que teve sua autodeclaração racial negada por um tribunal
racial ("comissão de heteroidentificação", segundo a novilíngua da
burocracia identitária) solicitou meu auxílio para reverter a sentença. Neste
ano, 204 candidatos à USP recorrem contra negativas similares, inclusive o
pardo Alison Rodrigues, que perdeu a vaga em medicina e ingressou com ação
judicial.
Nenhum deles fez contato comigo, mas atualizo
a resposta pessoal que ofereci no passado. Talvez ela interesse a dezenas de
milhares de jovens, Brasil afora:
Prezado candidato, não posso ajudá-lo. Você entrou num jogo com regras subjetivas, arbitrárias. É impossível comprovar objetivamente sua raça, pois raças humanas não existem.
Bolívar Lamounier* - A democracia à mercê de irresponsáveis
O Estado de S. Paulo
Crises tão portentosas como as que vivem EUA e Brasil não brotam naturalmente da terra, dos sofrimentos e angústias que atormentam os desprovidos da sorte
Em janeiro de 2021 e, novamente, em janeiro
de 2023, duas das maiores democracias do mundo sofreram agressões muito
parecidas com o que normalmente designamos como tentativa de golpe de Estado.
Em janeiro de 2021, a agressão ocorreu nos Estados Unidos, orquestrada por este mesmo senhor, Donald Trump, que a Suprema Corte norteamericana, por uma unanimidade de nove votos a zero, considerou elegível. A Corte baseou-se na 14.ª emenda à Constituição, mas o fator que mais pesou na decisão, salvo melhor juízo, foi a série de retumbantes vitórias de Trump nas primárias do Partido Republicano. À primeira vista execrável, tal decisão comporta duas outras leituras. Uma, o desejo de evitar uma crise política de extrema gravidade, na hipótese de os magistrados se posicionarem contra uma candidatura aparentemente endossada por uma ampla maioria dos cidadãos. Outra, a norma jurídica in dubio pro reo: havendo margem para dúvida – ou seja, não se tendo absoluta certeza de que a arruaça promovida por trumpistas às portas do Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021 –, a Corte teria mesmo de votar a favor dele.
Dom Odilo P. Scherer* - Uma aposta perigosa
O Estado de S. Paulo
Não se torna boa, mediante a legalização, uma
prática ilegal, ilícita e maléfica como os jogos de azar, que gera graves danos
e sofrimentos humanos
No Congresso Nacional tramita há mais de 30
anos o Projeto de Lei (PL) 442/1991, sobre a legalização dos jogos de azar.
Depois de várias tentativas frustradas de aprovação, o PL 442/91 foi novamente
retomado com força total e já passou pela Câmara dos Deputados, esperando ser
apreciado e votado no Senado.
Ao que tudo indica, além da pressão de grupos interessados na legalização dos jogos de azar no Brasil, desta vez a busca de arrecadação para o erário poderia levar vento favorável aos militantes da causa. De fato, um dos argumentos invocados é de que a aprovação do PL 442/91 poderia contribuir para o cumprimento das metas de arrecadação do governo.
Pablo Ortellado - Avanço na proteção ao trabalho
O Globo
Motoristas passarão a ter acesso aos
benefícios do INSS
Depois de mais de um ano de debate, o governo
Lula finalmente enviou ao Congresso o Projeto de Lei que regulamenta o trabalho
por aplicativos de transporte, como Uber e 99. O texto mantém o caráter
autônomo desse tipo de trabalho, estabelece um piso de remuneração equivalente
ao salário mínimo e garante ao trabalhador os direitos que advêm da
contribuição ao INSS.
Apesar das limitações, o projeto é um avanço na proteção ao trabalho e dá segurança jurídica para a atuação das empresas. Para ter a dimensão desse tipo de trabalho, apenas a Uber tem 1 milhão de motoristas cadastrados. Isso é mais que o total dos que trabalham para os dez maiores empregadores do país, como Itaú, Correios e BRF.
Carlos Alberto Sardenberg - Uma bandeira a reerguer: a anticorrupção
O Globo
Repararam que ninguém fala dos atos concretos
de corrupção, das confissões e, sobretudo, do dinheiro devolvido?
O tiro fatal contra a Lava-Jato foi disparado
pelo juiz símbolo da operação — Sergio Moro, quando aceitou ser ministro da
Justiça de Bolsonaro. Sendo generoso, havia atenuantes favoráveis à escolha de
Moro. O então futuro presidente entregara tudo, o controle da Polícia
Federal, de todo o sistema de segurança pública e das movimentações
financeiras. Mais a garantia de apoio aos ambiciosos projetos de combate à
corrupção.
A República de Curitiba, tão temida por boa
parte da elite política, se instalaria em Brasília.
Avaliação equivocada de Moro. Primeiro, Bolsonaro já não era de confiança, mesmo porque ele e seus filhos tinham rolos na Justiça e na polícia. Seu comportamento nunca foi de um republicano, mas de desconfiança em relação às instituições, a começar pelo Judiciário. Não demorou muito para Bolsonaro reclamar da PF de Moro e conseguir uma PF para chamar de sua.
Eduardo Affonso - O liberal, esse desconhecido
O Globo
Liberais deram ao Brasil o Plano Real, que
botou freio na inflação, castigo tão mais cruel quão mais baixa a renda
Imagine alguém a favor da igualdade de
gênero, de plenos direitos para casais homoafetivos (incluindo adoção), do
Estado laico (com o fim dos privilégios fiscais concedidos a “igrejas”), da
descriminalização das drogas e do aborto, da legalização da eutanásia, da opção
por fontes limpas e renováveis de energia — e, ainda assim, considerado de
direita.
Pense agora em alguém que defenda a
autorregulação do mercado, a privatização das estatais, a liberdade de
expressão, a redução da maioridade penal, a implantação de normas de compliance
em todo o setor público, o empreendedorismo, o capitalismo como única forma de
criação de riqueza — e que, ainda assim, volta e meia seja chamado de
esquerdista.
Muito prazer: esse cara sou eu, um liberal — em época de eleição, também conhecido pela pouco lisonjeira alcunha de “isentão”. Um gênero fluido: à esquerda se a referência for um bolsonarista; à direita se for um petista o parâmetro.
Cláudio Couto* - Reforma para quem?
CartaCapital
As propostas de mudança no sistema eleitoral
atendem mais aos políticos do que aos eleitores
Recente levantamento da CNN Brasil mostra
que, desde a aprovação da reeleição para as chefias do Executivo, ao menos 57
propostas de emenda constitucional para acabar com o instituto foram
apresentadas. Não obstante, ele continua aí. Também tem sido frequente que
presidenciáveis de oposição se manifestem contra a proposta. Os que se
elegeram, contudo, logo abandonam a ideia. Foi assim com Lula em 2002 e Bolsonaro em 2018.
Idem o governador gaúcho, Eduardo Leite,
que se manifestara contra a reeleição antes de se tornar chefe de governo no
Rio Grande do Sul e acabou optando por disputar um segundo mandato – e
conseguiu. Agora, Leite volta a defender o fim do instituto ao lado de seus
colegas presidenciáveis do Consórcio Sul-Sudeste, Romeu Zema e Ratinho Júnior. Ambos,
aliás, reeleitos para o governo de seus estados.
Desta feita, a proposta de extinguir o instituto ganha impulso adicional, pois tem sido defendida pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que tem poder de agenda no processo legislativo congressual. O senador colocou-a como pauta prioritária da casa que preside para este ano, aproveitando o embalo da discussão de um novo código eleitoral, relatado pelo colega Marcelo Castro. E ela se faz acompanhar de outra velha ideia muitas vezes brandida por integrantes de nossa classe política, mas nunca aprovada: a de unificar todas as eleições num único pleito.
Luiz Gonzaga Belluzzo* - Keynes, filósofo moral
CartaCapital
Ele insistia na direção inteligente, pela sociedade, dos mecanismos profundos que movem os negócios
Peço licença (ou desculpas) aos leitores de
nossa CartaCapital: vou reapresentar uma de minhas obsessões prediletas.
Diante da soberba “científica” de alguns economistas, arrisco minha reputação
para celebrar os escritos de um filósofo moral que embrenhou sua sabedoria nos
áridos territórios da Economia.
No artigo de 1930, “As Possibilidades
Econômicas dos Nossos Netos”, Keynes projeta a vida social que pode nascer do
avanço tecnológico e da rápida acumulação produtiva. O capitalismo, diz ele,
criou as condições para a superação das limitações impostas milenarmente à
satisfação das necessidades básicas dos indivíduos. Criou, mas não entregou.
Nesse texto perturbador para o ethos da sociedade aprisionada nas engrenagens da concorrência, Keynes escreve: “Devemos abandonar os falsos princípios morais que nos conduziram nos últimos dois séculos. Eles colocaram as características humanas mais desagradáveis na posição das mais elevadas virtudes. Não há nenhum país, nenhum povo que possa vislumbrar a era do tempo livre e da abundância sem um calafrio… Pois, fomos educados para o esforço aquisitivo e não para fruir… Se avaliarmos o comportamento e as realizações das classes abastadas de hoje, as perspectivas são deprimentes… Os que dispõem de rendimentos diferenciados, mas não têm deveres ou laços, falharam, em sua maioria, de forma desastrosa no encaminhamento dos problemas que lhes foram apresentados”.
Marcus Pestana* - Os desafios dos novos gestores municipais
sexta-feira, 8 de março de 2024
O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões
São inexplicáveis os afagos de Lula à ditadura de Maduro
O Globo
Não tem cabimento comparar casos do próprio
petista e de oposicionista venezuelana impedida de concorrer
Dos dez países com que o Brasil faz
fronteira, a Venezuela é
o que mais gera dores de cabeça. Garimpeiros ilegais usam o território
venezuelano quando a fiscalização aumenta em terras indígenas e voltam ao
brasileiro quando diminui. Grupos criminosos atuam nos quase 3 mil quilômetros
de divisa, e venezuelanos têm buscado o Brasil para escapar da crise
humanitária provocada pelo regime chavista. Ameaças recentes de invasão da
Guiana fizeram ressurgir o espectro de um conflito armado a poucos quilômetros
de Roraima e Amazonas. Por fim, brasileiros e venezuelanos ainda têm a
responsabilidade de coordenar esforços pela preservação da maior floresta
tropical do mundo.
Com uma agenda dessas, é compreensível que o presidente do Brasil seja obrigado a estabelecer uma relação produtiva com a liderança venezuelana, ainda que se trate de um regime autoritário. Somente com canais abertos e um ambiente de cooperação, os interesses brasileiros podem avançar. Mas isso nada tem a ver com a atitude benevolente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva perante os desmandos do ditador Nicolás Maduro. A condescendência com o regime chavista, que Lula não perde a oportunidade de expressar, contradiz sua própria biografia e ofende a memória dos brasileiros que lutaram e lutam pela democracia.
Fernando Abrucio* - Contra o reformismo ilusionista
Valor Econômico
O caminho é construir um modelo baseado em
bons diagnósticos, com visão sistêmica e contextual dos problemas e,
geralmente, com alterações incrementais das instituições
O Senado federal discute agora uma proposta
de fim da reeleição para os cargos do Executivo e de junção de todas as
eleições - municipal, estadual e federal - num só pleito. Se a base para
avaliar tais medidas for o senso comum, é preciso aprovar essas leis. Mas, se
as evidências científicas forem a bússola da decisão, essas reformas são
completamente equivocadas. Todo esse debate, no entanto, tem uma utilidade:
mostrar que o Congresso Nacional precisa ouvir mais os especialistas e a
sociedade antes de fazer grandes alterações legislativas, pois o que parece ser
uma solução mágica pode ser apenas ilusionismo.
O novo projeto de reforma política, centrado
na extinção da reeleição, não é o único caso daquilo que chamo de reformismo
ilusionista. A proposta de reforma administrativa em discussão na Câmara, que
promete aumentar a eficiência e cortar gastos, sofre do mesmo mal. Outros
projetos recentes, como o que pretende acabar com a “saidinha” dos presos,
também é outro caso em que a legítima reação contra alguns bandidos que fogem e
cometem novos crimes produz magia reversa: a decisão vai aumentar a sensação de
inferno que predomina nas penitenciárias, favorecendo o poderio das facções
criminosas.
O reformismo ilusionista contém quatro características básicas. Em primeiro lugar, busca soluções que aparentam ter um impacto amplo e imediato, quase num passe de mágica. Nesse modelo, o legislador acredita que acabar com a reeleição vai alterar, já no período subsequente, a qualidade da ação dos governantes, que não pensarão mais em eleições e se concentrarão em governar. O ilusionismo não permite dúvidas sobre o dia seguinte, nem um caminho mais gradual de mudança. Sua força política está em ser simples, e sua debilidade encontra-se no simplismo de sua proposição.
José de Souza Martins* - As brechas autoritárias da organização política
Valor Econômica
As frequentes violações dos direitos humanos
pelas polícias e a fragilidade da segurança refletem suas origens na cultura da
repressão à senzala
O fim da ditadura militar (1964-1985) não
representou o fim da baderna estrutural. A de que ela foi expressão, a que
dotara o país de uma organização política anômala e desfavorável à democracia.
A coisa vem de longe. Desde, pelo menos, a
independência. A constituição do Estado brasileiro tem uma característica que o
distancia do que é próprio do verdadeiro Estado moderno, que na Europa nascia
quando houve aqui o Grito do Ipiranga. O que deu nascimento a um Estado
brasileiro antimoderno, baseado no poder do atraso, um tipo como contrapartida
do outro.
As anomalias retrógradas e autoritárias do período presidencial encerrado em dezembro de 2023 se determinam pela estrutura defeituosa desse passado que persiste e resiste. Somos muito atrasados achando que somos muito modernos.










.jpg)


.jpg)
.jpg)












.jpg)





