segunda-feira, 27 de maio de 2024

Ruy Castro - Prefeito perfeito

Folha de S. Paulo

Todos admiramos Graciliano Ramos como escritor. Mas é que ainda não o conhecíamos como prefeito

Em 1931, os relatórios de um ex-prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, circularam sabe-se lá como pelo Rio. Prestações de contas, mesmo de um prefeito corajoso, honesto e trabalhador, não são literatura. São prestações de contas. Mas, ao caírem aos olhos do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, este pensou: "Quem escreve desse jeito deve ter um romance na gaveta". Mandou carta ao ex-prefeito e este confirmou: sim, tinha um romance, vou lhe enviar o manuscrito.

Semanas depois, chovendo no Rio, Schmidt foi pegá-lo no correio. Enfiou-o no bolso da capa, voltou para a editora, pendurou a capa no armário e foi fazer qualquer coisa. Como não chovesse pelos meses seguintes, não voltou a usar a capa e se esqueceu onde guardara o pacote, achou que o perdera. Em 1932, foi ao armário e lá estava. Leu, maravilhou-se e escreveu ao autor propondo publicação. E assim, por intermédio de "Caetés", título do romance, em 1933 o Brasil conheceu Graciliano Ramos.

Camila Rocha - Tarcísio e Nunes querem educação para ditadura

Folha de S. Paulo

Em vez de ordem e progresso, futuro com escolas militarizadas promete retrocesso

Imagine que a escola de seu filho mudou. Agora, ele precisa manter os cabelos raspados para ir à aula. Conflitos rotineiros são resolvidos por policiais que usam spray de pimenta, ameaçam bater nos alunos e levam jovens à delegacia para serem fichados. Colegas com deficiência ou dificuldade de aprendizado se sentem pressionados a abandonar a escola. Atividades como colocar fantasias para um festival de inglês, ou falar sobre racismo e violência policial, passam a ser vistas com desconfiança ou são censuradas. O medo e a insegurança crescem na comunidade escolar. Você tenta mudar seu filho de escola, mas é inútil, pois agora todas as escolas da sua região são "cívico-militares": educam crianças e jovens para viver em uma ditadura.

Sergio Lamucci - O peso das vinculações de despesas no problema fiscal do país

Valor Econômico

O grande desequilíbrio das contas públicas está no lado do gasto, mas enfrentar o problema com determinação não está na agenda do governo

Com menos de um ano de vigência, o novo arcabouço fiscal já tem a credibilidade arranhada. O governo afrouxou em abril a meta de resultado primário (exclui gastos com juros) de 2025 e dos anos seguintes, e o ajuste das contas públicas depende muito de um aumento forte e incerto de receitas, visto com ceticismo por muitos analistas. O grande desequilíbrio fiscal do país está no lado do gasto, mas enfrentar o problema com determinação não está na agenda do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que a ministra do Planejamento, Simone Tebet, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tenham falado nas últimas semanas sobre a necessidade de se discutir a vinculação de despesas.

Bruno Carazza - Cadê o Cade que estava aqui?

Valor Econômico

Instrumentalização política e fragilidade institucional colocam órgão de defesa da concorrência à deriva

Nos meus tempos de criança no interior de Minas, creme dental era chamado de dentifrício - e isso rendeu muita gozação de meus amigos quando me mudei para Belo Horizonte para fazer faculdade. (Décadas depois, num supermercado na região do Douro, em Portugal, vi numa gôndola que lá eles também usam a palavra dentifrício; estranha conexão linguística entre povos da montanha dos dois lados do Atlântico.)

Na mesma época em que riam do meu modo de falar, nos anos 1990 muita gente se referia a creme dental simplesmente como Kolynos - exemplo clássico de metonímia, em que a liderança da marca é tão forte que o consumidor se refere a ela como sinônimo para o próprio produto. Mas em 1995 a Colgate, a segunda colocada do mercado, comprou a Kolynos, gerando uma concentração de 78% no mercado de cremes dentais.

Maria Cristina Fernandes - Câmeras policiais antecipam embate de 2026

Valor Econômico

Depois do edital paulista, governo federal lança diretrizes para câmeras corporais

O edital para a compra de novas câmeras para os uniformes da Polícia Militar de São Paulo reúne dois temas do embate antecipado da corrida sucessória de 2026, a segurança pública e a eficiência administrativa. Depois de polemizar em torno do programa durante a campanha eleitoral e ao longo do primeiro ano de sua gestão, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, espera convencer que as novas câmeras, além de estarem em linha com o enxugamento de gastos pretendido, são também mais eficientes. O edital enfrenta forte resistência de entidades civis que apontam enfraquecimento do controle da atividade policial.

Carlos Pereira – A antessala do populismo

O Estado de S. Paulo

Decisões monocráticas, como as de Toffoli, geram desencantamento político e desconfiança nas instituições

O mal-estar social e a desconfiança gerados pela atuação individual de ministros podem pavimentar o terreno para emergência de novas saídas populistas de perfil extremista

O Ministro do STF, Dias Toffoli, decidiu, de forma monocrática, pela “nulidade absoluta” de todos os atos processuais praticados contra Marcelo Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato.

Se baseou em gravações hackeadas de conversas do então juiz Sérgio Moro com os procuradores da Lava Jato que, segundo Toffoli, atuaram em conluio ignorando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa do acusado, ao misturar a função de acusação com a de julgar.

Poesia | Como fazer-te saber que há sempre tempo, de Mario Benedetti

 

Música | Ana Cañas e Ney Matogrosso - Como nossos pais

 

domingo, 26 de maio de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

IDH indica ineficiência do Estado brasileiro

Folha de S. Paulo

Com carga tributária elevada e iníqua, além de gasto mal direcionado, país não alcança nível elevado de desenvolvimento

Entre os 30 países com maior carga de impostos, o Brasil é o que apresenta o pior índice de desenvolvimento humano (IDH). O dado, apurado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, evidencia de modo eloquente distorções do Estado brasileiro.

Em 2022, ano que serviu de base para o levantamento, a arrecadação tributária brasileira, nos três níveis de governo, correspondeu a 32,4% do Produto Interno Bruto —a 24ª posição da lista, encabeçada pela Noruega (44,3%) e quase toda composta por economias ricas.

Já nosso IDH, de 0,76 numa escala de 0 a 1, é o único na relação abaixo do patamar classificado como alto desenvolvimento (0,80).

O índice leva em conta renda per capita, educação e longevidade. No primeiro critério, corrige-se o poder de compra em cada país, de modo a se obter uma régua comum, dado que regiões com renda superior têm nível de preços mais alto.

Luiz Sérgio Henriques - Esquerda, democracia e despolarização

O Estado de S. Paulo

Se não é novidade, a polarização atual vale-se da velocidade das redes e da quase ilimitada possibilidade de manipulação de consciências

Parece algo distante no tempo, mas pouco mais de 30 anos se passaram desde que pareceram se desfazer no ar as razões da esquerda, identificadas sumariamente com o comunismo histórico e o tipo de sociedade que criou na União Soviética e em seus satélites. O mundo se mostrava plano, os enigmas estavam decifrados. Um certo tédio, aliás, se anunciava: uma democracia formal, de baixa intensidade, poderia apoiar-se indefinidamente em mercados globais e numa cultura de consumo capaz de avassaladora universalização.

Relativamente pouca gente se manifestou contra esse bizarro panorama de terra plana. Na época, num pequeno livro, o italiano Norberto Bobbio teve a coragem de divergir. Sem arroubos retóricos, como de hábito, defendeu a pertinência da oposição entre direita e esquerda no novo contexto global. A velha distinção, nascida casualmente com a distribuição de cadeiras na convenção francesa de 1793, ainda seguiria sendo uma boa chave interpretativa. A igualdade, segundo Bobbio, haveria de se enriquecer com conteúdos novos. Além das diferenças de classe, mal teriam começado a ser arranhadas as de gênero e raça. E o caminho da esquerda, em sentido lato, longe de haver terminado, estava rigorosamente no início.

Manuel Castells* - Nosso mundo, nossas vidas

SOPRAM VENTOS MALIGNOS no planeta azul. Nossas vidas titubeiam no turbilhão de múltiplas crises. Uma crise econômica que se prolonga em precariedade de trabalho e em salários de pobreza. Um terrorismo fanático que fratura a convivência humana, alimenta o medo cotidiano e dá amparo à restrição da liberdade em nome da segurança. Uma marcha aparentemente inelutável rumo à inabitabilidade de nosso único lar, a Terra. Uma permanente ameaça de guerras atrozes como forma de lidar com os conflitos. Uma violência crescente contra as mulheres que ousaram ser elas mesmas. Uma galáxia de comunicação dominada pela mentira, agora chamada pós-verdade. Uma sociedade sem privacidade, na qual nos transformamos em dados. E uma cultura, denominada entretenimento, construída sobre o estímulo de nossos baixos instintos e a comercialização de nossos demônios. 

Míriam Leitão - O que Porto Alegre ensina para Belém

O Globo

Cientista José Marengo, do Cemaden, diz que Rio Grande do Sul pode sair de um período de enchente para o oposto, a estiagem

O cientista José Marengo do Cemaden, Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, usa uma expressão forte para explicar o que está acontecendo agora no clima, após o aquecimento simultâneo do Pacífico e do Atlântico. “A América Latina está como num sanduíche entre dois oceanos quentes”. É o retrato do tempo atual que tem provocado a inundação tão prolongada do Rio Grande do Sul. Marengo acha que a situação no território gaúcho deve durar um mês ainda para se normalizar e, depois, o clima pode ir para o extremo oposto. “Da enchente para a seca”.

Cacá Diegues - Moramos no mesmo espaço

O Globo

Percebi como o Brasil é igual em todas as suas paragens

Nesses últimos dez dias, acompanhei a tragédia sem trégua que acontece no Rio Grande do Sul, na Praia de Ipioca, ao norte de Maceió. Percebi como o Brasil é igual em todas as suas paragens. Na época do CPC (Centro Popular de Cultura da UNE), defendíamos com entusiasmo a tese de que a Cultura Popular tinha em uma de suas ondas principais a de que era formada inicialmente pelas questões sociais de cada região do país. Hoje sabemos que não é bem assim.

Por mais atrasado que seja o país, alguma coisa claramente o une em uma dimensão cultural inesperada. No caso do Brasil, por exemplo, existem os valores que herdamos de uma cultura sofisticada que não nos foi possível exercer ou o que fomos obrigados a inventar outra coisa para resistirmos a essa obrigatoriedade de uma cultura especificamente nossa. Isso pode gerar, como é o caso brasileiro, análises equivocadas sobre o que finalmente somos.

Dorrit Harazim - Choque

O Globo

Assim como Netanyahu, também o Hamas é contra criar uma Palestina convivendo com Israel

A fotógrafa americana Dorothea Lange, que documentou de forma indelével a essência da desolação humana na Grande Depressão do século passado, considerava o rosto humano uma língua universal.

— Suas expressões podem ser lidas e compreendidas em qualquer lugar do planeta — ensinava.

Na semana passada, o rosto opaco de uma gaúcha de meia-idade dizia o indizível. Estava simplesmente em choque, esvaziada da capacidade de sentir o que quer que fosse. Lembrava as imagens icônicas de soldados da Guerra da Crimeia, da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, do Vietnã, retratados em momentos de total abstração da crueza em volta.

Luiz Carlos Azedo - Não há anjos na política, nem mesmo no STF

Correio Braziliense

A atuação da Corte é polêmica, seja por causa do protagonismo político de alguns ministros, seja por decisões contraditórias

Quarto presidente norte-americano, James Madison teve um papel fundamental na elaboração da Constituição e da Declaração de Direitos dos Estados Unidos, com Alexandre Hamilton e John Jay, nos ensaios de “O federalista”, a publicação do fim do século 18 que se tornou um clássico da ciência política. “Se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governos”, resumiu (“O federalista”, nº 51), ao se referir aos políticos de um modo geral. A citação é oportuna porque estamos diante de polêmicas decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que parecem mais pautadas pelo jogo político e grandes interesses econômicos do que pela legislação vigente.

Eliane Cantanhêde - Efeito dominó

O Estado de S. Paulo

Governo brasileiro vê Netanyahu cada vez mais isolado e isolando Israel no mundo

Com a adesão de Espanha, Noruega e Irlanda, 146 dos 193 países que integram a ONU apoiam o reconhecimento pleno da Palestina como Estado e, portanto, com status para dialogar e negociar em condições de igualdade com Israel. “Hoje, não há diálogo entre eles, o que há um monólogo”, diz o chanceler Mauro Vieira. Pode-se ler que só Israel “fala”, subjugando a Palestina e impondo suas regras, interesses e poderio econômico e militar.

O movimento internacional pró estado Palestino tende a ter “efeito dominó”, inclusive pela simbologia da Noruega, que há 30 anos sediou o “Acordo de Oslo”,

entre Israel e Palestina, mediado pelos Estados Unidos e nunca cumprido pelos israelenses. Essa posição birrenta tornou-se irritante na era Netanyahu e inaceitável com a carnificina em Gaza e a escalada em Rafah. Agora mesmo Israel dá de ombros para uma decisão da Corte Internacional de Justiça, tribunal máximo da ONU, e mantém os ataques a Rafah.

Rolf Kuntz - Gastança versus crescimento

O Estado de S. Paulo

O presidente da República daria uma preciosa contribuição à política monetária se assumisse, logo, um compromisso claro com a estabilização dos preços

Mais empenhado em gastar do que em governar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve fechar este ano com um buraco fiscal de R$ 14,5 bilhões, segundo a nova projeção orçamentária. Pela estimativa anterior, haveria um déficit de R$ 9,3 bilhões. Esses números incluem apenas as contas primárias, sem os juros, portanto. Também os custos vinculados ao desastre climático do Rio Grande do Sul estão fora desses valores. Permanece a pergunta: para que serve aquela gastança? A indagação pode parecer estranha ao presidente, a alguns de seus auxiliares e a muitos petistas. Afinal, quem assume o poder público, podem argumentar, assume também o direito de usar o dinheiro público e até de endividar o Tesouro. Tudo bem, pode responder o cidadão teimoso, mas sem desistir da pergunta: gastar para quê?

Luiz Gonzaga Belluzzo - Trepidações da globalização

CartaCapital

As novas condições econômicas foram apontadas como o rumo da eficiência, mas só incautos acreditaram

O Centre d’Études Prospectives et d’Informations Internationales (CEPII) arriscou uma investigação cuidadosa a respeito do avanço da China nos mercados globais. Vou reproduzir, com as adaptações necessárias, as observações mais pertinentes do estudo da importante instituição francesa.

Em 2019, a China detinha uma posição dominante na economia global, definida por uma participação de mais de 50% do mercado mundial de exportação de quase 600 produtos. Essa avaliação foi obtida a partir de uma investigação realizada em um universo de classificações comerciais que abrangem cerca de 5 mil produtos.

Isso significa que a China fornece pelo menos metade das importações globais desses produtos. Este número é seis vezes maior do que o número equivalente para os Estados Unidos, Japão ou qualquer outro país. Mesmo a União Europeia, considerada como um todo, não atinge metade desse nível.

Celso Rocha de Barros - Onde fica o centro?

Folha de S. Paulo

Única área em que governo Lula de fato se distanciou do centro de 1994-2014 foi em parte da política externa

Boa parte da discussão política nos últimos meses tem sido sobre quem, entre os políticos de direita, é "de centro". Em parte, trata-se de saber quem herdará o legado político de Jair Bolsonaro. Mas é mais do que isso: trata-se de discutir onde deve ficar "o centro" no debate político brasileiro.

Isso é importante porque, quando marcamos o lugar do centro, fica estabelecido que há uma distância X a partir dali, nas duas direções do espectro político, a partir da qual está a falta de bom senso, o radicalismo e, conforme se ande ainda mais para longe, o extremismo.

Vinicius Torres Freire - Como arrumar a bagunça nos juros

Folha de S. Paulo

Mancadas de Lula, BC e Fazenda elevam o custo do dinheiro, dólar e projeção de inflação

As taxas de juros estão em nível de exagero faz pelo menos duas semanas, dizem executivos e negociantes de dinheiro de bancos maiores. A efervescência poderia diminuir um pouco caso governo, Fazenda e Banco Central falassem menos e dessem menos mancadas.

"Diminuir um pouco." Gente variada do BC e até do Ministério da Fazenda diz que um sedativo duradouro vai exigir mais do que gogó e compostura.

Vai exigir o quê?

Bruno Boghossian - Uma pizza de R$ 15 bi

Folha de S. Paulo

Lira e Alcolumbre controlam partilha de verba que se tornou ferramenta importante de poder

Cardeais da Câmara e do Senado assumiram a partilha de R$ 15 bilhões em emendas reservadas para as comissões do Congresso. O critério para dividir a verba ganhou de parlamentares o apelido de "pizza".

A distribuição é controlada por Arthur Lira (PP), na Câmara, e por um grupo representado por Davi Alcolumbre (União Brasil), no Senado. O líder de cada partido recebe uma fatia da verba para repartir entre os integrantes da bancada. A divisão segue orientações apresentadas num gráfico em formato de pizza, com a porção que deve ser indicada para cada ministério. A palavra final é dos gabinetes de Lira e Alcolumbre.

Muniz Sodré - Guerra molecular

Folha de S. Paulo

Quem restringe guerra a conflito entre Estados acha excessivo identificá-la à violência de milícias, terroristas e neonazistas e não vê que hater é hoje identidade sociopolítica

No anseio necropolítico do Bozo, a ditadura militar deveria ter matado 30 mil pessoas. Não é bizarrice, nem número aleatório, é o total estimado de mortos por Pinochet. Não se conectou essa intenção dolosa ao descaso com a morte de brasileiros durante a pandemia. Mas uma linha de sentido contínua passa pelo caos golpista até o negacionismo ecocida. A explicação cândida, em look colete laranja, do governador gaúcho para a falta de prevenção da catástrofe apesar dos avisos, é uma derivada: "Tínhamos outras prioridades". Entre elas, 50 atos ofensivos ao meio ambiente.

Ruy Castro - O Leblon careta

Folha de S. Paulo

O bairro pacato e família durante o dia se torna a zorra noturna pela qual todos o conhecem

A história das duas mulheres que passaram semanas morando no McDonald’s do Leblon, aqui no Rio, só me chocou pela escolha do anfitrião. Eu preferiria o Degrau ou o Alvaro’s, sexagenários altares da gastronomia e da boemia carioca, típicos do calor humano e da suavidade do Leblon.

Calor humano e suavidade? ---perguntará você. O Leblon não é o inferno noturno, com multidões nas calçadas das boates e dos botequins? É. E é também um dos bairros mais pacatos da cidade. Refiro-me ao Leblon diurno, ideal para flanar, com seu morno silêncio, ruas vazias e tudo o que um cidadão pode querer ao alcance das pernas. Duvida?

Ivan Alves Filho* - Frente Ampla Já!

O nazifascismo começa a levantar novamente a cabeça no mundo. O noticiário internacional indica que a formação de um novo Eixo é, hoje, uma possibilidade concreta. Ela passa pelo fortalecimento da extrema-direita na Europa, isto é, em países como Portugal, França, Suécia, Holanda, Alemanha e Itália. E, também, pela escalada expansionista cada vez mais agressiva implementada pelo governo de Vladimir Putin, defensor de uma propalada "limpeza étnica" na Ucrânia.  E, como se tudo isso não bastasse, temos as constantes ameaças golpistas e loas ao Terceiro Reich de Adolf Hitler por parte de Donald Trump. Uma eventual vitória desse aventureiro norte-americano nas eleições de outubro de 2024 poderá ter consequências gravíssimas para todos nós. As posturas terroristas dos governos atuais do Irã, de Israel e da Venezuela, endossadas igualmente pelo Hamas, tornam o quadro mundial mais tormentoso ainda.  

Poesia | Canção do Amor Imprevisto, de Mário Quintana

 

Música | Adriana Calcanhotto canta ''Estrela, Estrela'' no programa ''Altas Horas''

 

sábado, 25 de maio de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tarcísio erra na licitação de novas câmeras nas fardas

O Globo

Edital deixa a cargo do próprio policial ligá-las quando quiser, dando margem à sabotagem de um programa eficaz

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), já se mostrou capaz de reconsiderar posições equivocadas sobre o uso de câmeras corporais pela polícia. Antes de eleito, chegou a prometer acabar com elas, mas felizmente voltou atrás. Como governador, afirmou que não investiria na expansão, mas depois refletiu e decidiu modernizar e contratar mais equipamentos. Agora ele precisa mais uma vez corrigir rumos. O edital para o uso de 12 mil câmeras prevê que sejam acionadas manualmente, pelo próprio policial, se e quando quiser. É um absurdo que as gravações não sejam ininterruptas.

O registro das intervenções policiais é eficaz por vários motivos. Para o cidadão, funciona como proteção contra abusos das autoridades e a letalidade policial. Para as forças de segurança, serve de prova de agressões de criminosos ou para análises que levem à melhoria nas técnicas de abordagem. O próprio estado de São Paulo comprova as vantagens. Nos batalhões que passaram a usar os equipamentos, os civis mortos pela polícia caíram 76% entre 2019 e 2022 (ante 33% nos demais).

Zander Navarro* - Enigmas da política brasileira

(A sociedade da minoria de espertos e da maioria de cegos)

Antecedentes

Nesse conciso ensaio, submete-se um conjunto de sintéticas proposições sobre aspectos do funcionamento da política brasileira e suas relações e impactos sobre a ação governamental e, em decorrência, sobre a vida social dos brasileiros. Devido a um imperativo lógico, como se perceberá adiante, o comentário dirige uma ênfase especial ao Partido dos Trabalhadores e ao chamado “campo petista”, procurando refletir sobre as razões que explicam, tanto a “resiliência” do Partido como os seus espaços públicos de dominação. É uma agremiação que se mantém sólida por mais de quarenta anos, atuando com eficácia e consequência, seja no tocante ao número de filiados ou em relação à sua influente presença na vida política. Enquanto isso, se examinado o tempo mais longo, à sua volta nascem e desaparecem os demais partidos e, quando permanecem, são no geral relativamente inócuos em suas atividades e somente demonstram apelo eleitoral em função de fatos episódicos ou meramente conjunturais (como exemplo, o atual PL). Por que existiriam essas diferenças de funcionamento entre os partidos?

A análise oferecida nesse exercício de livre pensar reflete a observação, ao longo de considerável período de tempo, dos eventos marcantes na trajetória daquele Partido (supostamente) de esquerda, mas também considera as facetas salientes de nossa história social e os reiterados descaminhos que caracterizam os esforços da sociedade. São descaminhos porque, incluindo o campo petista, sequer sabemos (e nunca soubemos) para onde desejamos conduzir o grande barco nacional. Ou seja, acentua-se aqui o (convicto) pressuposto sobre o qual está ancorado esse comentário – nunca tivemos, com alguma explicitação pública razoável, uma ideia de “projeto nacional”, ou destino estratégico, que a maioria desejasse alcançar em algum radioso dia futuro. Qual seria, de fato, o porto que desejamos algum dia ancorar? Que tipo de sociedade realmente ambicionamos? Ninguém sabe responder essa pergunta sob algum enfático convencimento, e que fosse solução aceita por amplos segmentos de seus concidadãos. E não existe nenhuma razão para imaginar que esse conhecimento esteja sendo fermentado em alguma usina de ideias, instituto de pesquisa ou nas brilhantes mentes dos melhores analistas da vida brasileira.

Marco Aurélio Nogueira - O dilema da resiliência urbana

O Estado de S. Paulo

Havendo vontade política, mobilização e engajamento coletivo é possível mudar a rota e abrir caminho para formas de vida menos agressivas

É espantoso saber que uma em cada três cidades do País está desprevenida contra desastres climáticos. Milhões de pessoas, a qualquer momento, podem ser atingidas pela crise ambiental que, a esta altura, já deveria ser objeto de amplo conhecimento e de múltiplas providências. Não há negacionismo que possa ocultar o problema, nem à custa de desinformação em massa.

O tema reverbera as tragédias ambientais dos últimos anos, com particular destaque para a catástrofe que arrasou diversas cidades no Rio Grande do Sul durante o mês de maio. O Vale do Taquari já sofrera enchentes violentas no ano passado. A capital do Estado, Porto Alegre, viu pedaços inteiros da área urbana submergirem nas águas inclementes. Outras cidades sumiram do mapa, deixando um rastro de desgraças e sofrimento. Vidas perdidas, gente desabrigada, escolas e hospitais destruídos, prejuízos econômicos incalculáveis. O tranco foi tão forte que, no mínimo, deveria fazer com que parássemos para pensar.

Pablo Ortellado - Como defender o Supremo?

O Globo

Às vezes, parece que o STF não entende quanto está desgastado

O Supremo Tribunal Federal (STF) foi a última barreira de contenção quando a democracia brasileira esteve sob ataque. Foram momentos excepcionais, e a instituição esteve à altura dos acontecimentos. Mas, narcisicamente encantada com seu papel histórico, ela tem se descuidado de tal maneira da própria reputação que será difícil defendê-la quando a contraofensiva vier. O último passo rumo ao acelerado suicídio da legitimidade institucional foi a decisão monocrática de Dias Toffoli declarando a nulidade absoluta de todos os atos praticados em desfavor de Marcelo Odebrecht.

Carlos Alberto Sardenberg - O acordão saiu. Todo mundo livre

O Globo

Jornais consideram as decisões de Toffoli estapafúrdias, sem base jurídica e, pois, ditadas por interesses pessoais

Os três principais jornais brasileiros, O GLOBO, Estadão e Folha, criticaram as recentes decisões monocráticas do ministro Dias Toffoli, que, de canetada em canetada, vem anulando condenações por corrupção sentenciadas pela Lava-Jato e outras operações.

O GLOBO: “Não há dúvida de que a Lava-Jato cometeu excessos e que isso deve ser levado em conta ao avaliar suas sentenças e punições. Mas nada disso apaga toda a roubalheira confessada, comprovada por documentos, testemunhos e gravações. Diante de tema tão relevante sobre o passado recente, com reflexos no futuro do país, os 11 ministros do STF têm o dever de se manifestar. Não é razoável que um único juiz tenha o poder de tomar decisões tão graves sobre casos com tamanha repercussão”.

Eduardo Affonso - As veias da América Latina

O Globo

Ariel Palacios diz em livro que compartilhamos com nossos vizinhos muito mais do que gostaríamos de admitir

Nos anos 70, Sebastião Nery começou a publicar o melhor do “folclore político” — histórias pitorescas protagonizadas por esta gente matreira cujo nome o eleitor brasileiro sempre teve por hábito (ou sina) marcar na cédula ou confirmar na urna eletrônica. Uma fauna que ia das raposas felpudas à arraia-miúda (esta, hoje no topo da cadeia alimentar — um cardume chamado Centrão).

Antes, Sérgio Porto já havia deitado e rolado com um elenco de parlamentares, jornalistas, militares, celebridades e afins, que desfilava sua ignorância sobre cultura, ética, democracia, senso de ridículo e outros valores já então ameaçados de extinção. Quem também andou visitando a História em off do Brasil e do subcontinente foram Leandro Narloch e Duda Teixeira, com seus guias politicamente incorretos.

Dora Kramer - Sangria compartilhada

Folha de S. Paulo

STF perde a majestade com atos que minam sua credibilidade junto à população

Enquanto se empenha no desmonte da Operação Lava Jato, enquanto se ocupa do desígnio vocalizado pelo então senador Romero Jucá em 2016 de que a "sangria" precisava ser estancada, o Supremo Tribunal Federal faz sangrar sua credibilidade junto aos brasileiros.

Não individualizo condutas, como seria esperado, pois elas são diferentes e caberia à instituição fazê-lo. Seja no exame colegiado de decisões monocráticas ou no reparo ao comportamento de magistrados alheios aos autos e/ou aos ditames da ética. Calam-se; os corretos consentem. É assim a vida.

Alvaro Costa e Silva - Eduardo Paes, o prefeito-parque

Folha de S. Paulo

Nos planos, um 'aterro do Flamengo' na zona portuária e um shopping no Jardim de Alah

Eduardo Paes adora um parque. Em 2013, ao demolir o elevado da Perimetral, valorizou o conjunto arquitetônico da praça Quinze e possibilitou o surgimento do boulevard Olímpico e da orla Conde. Pois agora o prefeito promete fazer na mesma região "o parque do Flamengo do século 21", com praças flutuantes temáticas, marina pública e mais um píer para atracação de cruzeiros.

O projeto do parque Porto Maravilha já foi apresentado ao presidente Lula e ao ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho. A primeira fase de obras deve estar pronta para licitação até o fim deste ano.

Hélio Schwartsman - Cancelados da saúde

Folha de S. Paulo

Decisão de planos de saúde de rescindir contratos de usuários caros é um tiro no pé

Planos de saúde estão cancelando de forma unilateral os contratos de usuários "caros", isto é, de pessoas com condições crônicas e custosas, como o autismo, ou em meio a tratamentos particularmente dispendiosos, como os oncológicos. Alegam que estão zelando pela viabilidade financeira de sua carteira de clientes. Em tese, a lei lhes faculta rescindir apólices das modalidades empresarial ou por adesão que não tenham interesse em manter. Mas fazê-lo é dar um tiro no pé.

Carlos Andreazza – Dias Toffoli lavajatista

O Estado de S. Paulo

As canetadas do ministro não podem ser analisadas sob os marcos do Direito

Monocrata de causas CNPJ no Supremo, Dias Toffoli abriu exceção para matéria Pessoa Física. No caso, Marcelo Odebrecht – o filho de Emílio, amigo de Lula, de quem o ministro seria parça, “o amigo do amigo do meu pai”, segundo... Marcelo Odebrecht.

Referência cuja formalização deveria bastar para que – houvesse república – Dias Toffoli jamais pudesse julgar qualquer matéria relativa à empreiteira. Em setembro fará ano desde que enterrou todas as provas geradas no acordo de leniência da empreiteira, incluída a parte em que citado.

E só avança e se expande, tornado revisor-universal dos processos da Lava Jato, porque o tribunal se omite; os que lhe seriam contrários a plantar – coragem máxima – notas de incômodo ante às gestões autoritárias do colega. Seria – eis a preocupação – ruim para a imagem do STF.

Marcus Pestana - A parceria entre governo e o terceiro setor

Nem tudo o que é público tem que ser estatal, nem tudo que é estatal é público. No último artigo, resgatei os fundamentos históricos, institucionais, conceituais e jurídicos das parcerias entre o setor público e o terceiro setor para a execução de políticas públicas.

E olha que nem estamos falando de PPPs (parcerias Público-Privado) onde a iniciativa privada participa, como nas exitosas experiências do Governo Estadual da Bahia, liderado pelo PT, de um centro de diagnóstico de imagens que atende 11 hospitais públicos estaduais e envolve a empresa de aparelhos de imagem Philips e a de diagnóstico Alliança. Ou as Parcerias para Desenvolvimento Produtivo lançadas pelo Governo Federal, no 2º. mandato do Presidente Lula, envolvendo Ministério da Saúde e laboratórios privados e públicos. Estamos falando de entidades sem fins lucrativos, tais como, Santas Casas, Organizações Sociais, Serviços Sociais Autônomos ou Fundações de Apoio.

Cristovam Buarque - Soltos não libertos

Veja

Quarenta anos de democracia não completaram a Abolição

Há dez dias, o Brasil lembrou da maior reforma social de sua história: a Lei Áurea. Mesmo assim, foi uma reforma incompleta, porque 136 anos depois os descendentes raciais dos escravos ainda são vítimas de racismo, compõem a maior parte dos adultos analfabetos, incapazes de reconhecer a bandeira nacional, vivem em condições habitacionais e sanitárias inferiores e têm renda menor do que os descendentes dos escravocratas. Nesse período, o Brasil formou imenso contingente com dezenas de milhões de pobres, negros ou brancos, descendentes sociais da escravidão. A Lei Áurea foi debatida e aprovada no Parlamento em dez dias, entre 4 e 13 de maio de 1888. Joaquim Nabuco, o principal líder dos abolicionistas, alertou que a lei não surtiria os efeitos esperados, sem distribuição de terra para os ex-escravos e oferta de escolas para seus filhos.

Poesia | Eu queria trazer-te uns versos muito lindos, de Mário Quintana

 

Música | Amanda Maria - Pequena memória para um tempo sem memória (Gonzaguinha)