sábado, 11 de setembro de 2021

Ascânio Seleme - Desculpas não inocentam

O Globo

Qualquer movimento que tente serenar as coisas tem que ser visto positivamente. Mas o correto a se fazer, a solução definitiva, será processar, julgar e afastar Bolsonaro das suas funções

A carta de desculpas de Jair Bolsonaro ressalta o enorme esforço feito pelos que querem tão somente que a vida política volte ao normal. O objetivo é claro e até digno. Ninguém suporta mais ouvir os berros idiotas do presidente. Sua retórica antidemocrática passou do limite. Por isso, qualquer movimento que tente serenar as coisas tem que ser visto positivamente. Mas o correto a se fazer, a solução definitiva, será processar, julgar e afastar Bolsonaro das suas funções, além de cassar por oito anos os seus direitos políticos. Pedido de desculpas não inocenta criminoso. E Bolsonaro cometeu mais de um crime no dia 7 de setembro.

Perdoá-lo seria como soltar o curandeiro João de Deus se ele pedisse desculpas às dezenas de mulheres que violentou. O pedido de perdão feito na carta pacifica os espíritos, mas não apaga os crimes de responsabilidade perpetrados pelo presidente. Eles são muitos, se multiplicam a cada fala de Bolsonaro e chegaram ao ponto sem retorno nos discursos que proferiu nas manifestações da Esplanada dos Ministérios e da Avenida Paulista. Desculpar a incitação que fez a milhares de pessoas contra o Supremo apenas dará a ele a chance de voltar logo adiante ao ataque.

É tolice imaginar que Bolsonaro parou, que não vai recrudescer. Na primeira live pediu “uns dois dias” aos fanáticos que o seguem e voltou a atacar a urna eletrônica. O presidente não sabe fazer outra coisa. Ele não resistirá. De outro modo, como vai continuar manipulando seus zé trovões? Como vai olhar nos olhos dos três zerinhos? Aliás, um dos objetivos da ira presidencial contra Alexandre de Moraes era exatamente por medo de ver preso um dos seus filhos. E como se explicará aos weintraubs, damares e olavos da sua entourage? Não, caro leitor, Bolsonaro não virou bonzinho. Não acredite nele, você vai quebrar a cara.

Pablo Ortellado - Bolsonaro teme ser preso

O Globo

No discurso no 7 de Setembro na Avenida Paulista, Bolsonaro repetiu que vê três alternativas para o futuro: ser preso, ser morto ou conseguir a vitória. Podemos pensar que se trata de mais um arroubo retórico do presidente, mas temos motivo para supor que ele realmente acredita que seu horizonte está limitado a esses três cenários. E, se realmente teme ser preso, Bolsonaro não passará pacificamente o poder ao vencedor das eleições de 2022.

Alguns otimistas acreditam que uma boa gestão das crises causadas pelo presidente poderá nos conduzir até janeiro de 2023 sem maiores traumas. De crise em crise, Bolsonaro seria contido, ora pelo Congresso, ora pelo STF, até ser obrigado a reconhecer uma derrota eleitoral, ainda que tacitamente, como fez o presidente americano Donald Trump. Este não aceitou o resultado das urnas e afirmou até o final que as eleições americanas foram fraudadas, mas fez as malas e saiu pacificamente da Casa Branca.

Há, porém, uma diferença importante entre a situação de Trump e a de Bolsonaro. Este teme — e com razão — ser preso ao sair do Palácio do Planalto.

Trump também tinha problemas com a Justiça, acusado de ter compactuado com a interferência russa nas eleições de 2016. Mas a gravidade das acusações e a força das evidências contra Bolsonaro não se comparam às que havia contra Trump.

Carlos Alberto Sardenberg - Falsa impressão

O Globo

À primeira vista, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, matou a charada. Conforme registramos aqui na semana passada, Paes acreditava que não aconteceria nada no 7 de Setembro. Muito barulho de um bando de irresponsáveis e ignorantes — e só.

É verdade que não foi propriamente só barulho. Os caminhoneiros bolsonaristas interromperam estradas, provocaram algum desabastecimento, acharam que o golpe estava em curso, mas recuaram, entre perplexos e atônitos, depois da carta à nação escrita por Temer e assinada por Bolsonaro.

De todo modo, voltaram para casa. E os bolsonaristas se dividiram entre os que dizem “confiem no capitão” e os que se decepcionaram. Afinal, na quinta-feira, o chefe deles arregou duas vezes. Primeiro, na reunião do Brics, elogiou a China por seus esforços na confecção da vacina. Depois, divulgou a carta em que chega perto de pedir desculpas ao STF e, em particular, ao ministro Alexandre de Moraes — chamado de canalha apenas 48 horas antes.

Carlos Góes - O custo Bolsonaro

O Globo

Um presidente que gerenciou uma tragédia econômico- sanitária e que gera incerteza ao abrir a boca é péssimo para a economia

Esta coluna é para você que se preocupa, antes de tudo, com os rumos da economia brasileira. Meu objetivo é convencê-lo de que, mesmo que você só se preocupe com isso, este governo faz mal à economia e ao ambiente de negócios brasileiros.

É o custo Bolsonaro: tudo o mais constante, há menos crescimento, menos produção e menos produtividade com Bolsonaro no poder. Comecemos pelo curto prazo. Em tempos extraordinários como os que vivemos, política sanitária é política econômica.

As perdas econômicas ocorridas ano passado são indissociáveis da crise sanitária: países com mais mortes per capita também tiveram mais perdas inesperadas de atividade econômica. O anverso desta mesma moeda é que, do ponto de vista puramente econômico, vacinas devem ser vistas como investimento.

O governo Bolsonaro falhou na gestão da crise sanitária e, por consequência, prejudicou também a economia.

No lugar de buscar alternativas para minimizar mortes e adaptar a atividade econômica a práticas seguras, com o uso de máscaras, o presidente decidiu brigar com governadores que estavam tentando fazê-lo. No lugar de priorizar a compra de vacinas, que poderiam acelerar a normalização da economia brasileira, o governo rejeitou pelo menos seis ofertas da Pfizer..

É importante notar que essas são perdas econômicas irrecuperáveis. Mesmo que os indicadores de atividade se recuperem, o PIB mede um fluxo produtivo. O valor que deixou de ser gerado por causa das trapalhadas sanitárias do governo já não será gerado. Está na conta do custo Bolsonaro.

Oscar Vilhena Vieira* – A intolerável independência do STF

Folha de S. Paulo

Assim como agressor de mulher, bolsonarismo vê na independência do STF uma postura intolerável

Tem se tornado cada vez mais corriqueiro culpar o Supremo e a conduta de alguns de seus membros pelos ataques que recebem de Bolsonaro e seus apoiadores. Da mesma forma que agressores de mulheres buscam justificar os seus atos violentos a partir da conduta pretensamente inapropriada das vítimas, o bolsonarismo vê na independência do Supremo uma postura intolerável que merece ser “enquadrada”.

Não há dúvida de que o tribunal comete erros, bem como as condutas de alguns de seus membros são passíveis de crítica e reprovação. Assim como o Congresso, os partidos, as Forças Armadas, a imprensa, as igrejas, as empresas ou as universidades, o Supremo também erra. E esses erros só poderão ser corrigidos se forem objeto de constante escrutínio da sociedade. Logo, criticá-los é fundamental para quem acredita na capacidade de uma sociedade aberta e democrática de aperfeiçoar suas instituições.

O fato, porém, é que os ataques de Bolsonaro e de seus aliados ao Supremo parecem decorrer mais de acertos do que de erros do tribunal. Mais de suas virtudes do que de seus vícios. Não falo aqui em virtudes no sentido de moral individual, mas da capacidade institucional do tribunal de cumprir o seu papel no sistema de freios e contrapesos estabelecido pela Constituição.

Hélio Schwartsman – Vinte anos de guerra ao terror

Folha de S. Paulo

Parece lícito concluir que a reação dos EUA ao 11 de Setembro foi exagerada

Vinte anos atrás, em 11/9, a rede Al Qaeda lançou uma série de ataques aos EUA, que responderam declarando guerra ao terror. Para vingar as 2.977 vítimas e prevenir novos atentados, os americanos invadiram o Afeganistão e, depois, o Iraque, dando lugar a duas longas ocupações que deixariam centenas de milhares de mortos. Os custos dessas duas intervenções se contam em trilhões de dólares e pode-se argumentar que os EUA saíram derrotados em ambas.

A guerra ao terror também introduziu novas medidas de segurança que complicaram a vida de milhões em todo o mundo, de passageiros de avião a imigrantes. Por estímulo ou exigência dos EUA, vários países ficaram mais perto de tornar-se Estados policiais, relativizando as garantias fundamentais e o direito à privacidade. A própria geopolítica dos EUA foi reorientada, o que, segundo alguns analistas, abriu caminho para Pequim converter-se na potência que hoje rivaliza com Washington.

Cristina Serra - Temer e a proteção a Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Bolsonaro vai continuar latindo aqui e ali, porque é o que sabe fazer

O país parou com medo de um golpe no 7 de Setembro. Sob o comando do líder ensandecido da seita e com patrocínio do agronegócio, caminhões e tratores reluzentes substituiriam tanques. Caminhoneiros estariam no lugar de "um soldado e um cabo". Eis que no fim do feriado um cheiro de impeachment exalou de redutos até então considerados seguros e o alarme tocou.

Foi a deixa para Michel Temer voltar aos holofotes com seus trejeitos de ilusionista e artifícios de golpista. Como já escrevi aqui, o golpe foi em 2016, contra Dilma Rousseff. Desdobrou-se em 2018 e agora assistimos a uma nova reacomodação de tensões entre as mesmas forças que disputam o butim desde a ruptura travestida de legalidade cinco anos atrás.

Alvaro Costa e Silva - Próximos capítulos da farsa

Folha de S. Paulo

Assinada por Bolsonaro, mas com digitais de Temer, carta de recuo é enganação

Depois dos atos antidemocráticos no Dia da Independência, caminhoneiros bolsonaristas, muitos dos quais a soldo de empresários do agronegócio, resolveram bloquear as estradas do país. Até quinta-feira (9), mais de cem caminhões continuavam a ocupar a Esplanada dos Ministérios, tentando a derrubada da proteção ao STF, maior alvo dos “protestos”. Para eles, o preço do litro de gasolina ou do tomate na feira não importa. Querem o que o presidente sempre quis: um país fora de controle e uma justificativa para o uso da força.

Em estilo delirante, dopados por mensagens de celular, os caminhoneiros curtiram sua frustração —o número de manifestantes no Sete de Setembro ficou aquém da expectativa— fazendo terrorismo e preparando o cenário para os próximos capítulos da farsa.

Demétrio Magnoli - Política como blefe

Folha de S. Paulo

Lira, Pacheco e Fux têm o dever de ativar a máquina do equilíbrio de Poderes

Jair Bolsonaro transformou o 7 de Setembro em Dia do Blefe. Diante de seus apoiadores, em Brasília, anunciou a convocação, para a manhã seguinte, do Conselho da República. Líderes corajosos falam claramente, para o bem ou para o mal. Líderes covardes que se julgam espertos falam por senhas.

A mensagem implícita do presidente era que ele preparava a decretação do estado de sítio. De fato, ele nem mesmo convocava o Conselho de República: um blefe embrulhado no celofane de uma farsa.

O Conselho de República compõe-se do presidente da República, de seu vice, do ministro da Justiça, dos presidentes da Câmara e do Senado, dos líderes da maioria e da minoria nas duas Casas e de seis cidadãos indicados pelo Executivo e pelo Congresso. Bolsonaro não havia convidado nenhum deles para a reunião que anunciou. A reunião não aconteceu. Era tudo mentirinha, uma farsa infantil.

Nos comícios de Brasília e São Paulo, o presidente farsesco proclamou que, na tal reunião, o presidente do STF, Luiz Fux, seria compelido a “enquadrar” seu colega Alexandre de Moraes. Ocorre que não há representante do STF no Conselho da República.

Entrevista | Antonio Lavareda: ‘Recuo não fará Poderes esquecerem o que passou’

 

Antonio Lavareda, sociólogo e cientista político 

‘Partidos e Judiciário vão aguardar para ver o quanto dura o Bolsonaro amante da Constituição’, afirma cientista político

Tulio Kruse /O Estado de S. Paulo

O ápice da narrativa antidemocrática do presidente Jair Bolsonaro durante as manifestações do 7 de Setembro produziu um efeito imediato que, na avaliação do sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, pode levar à unidade de seus adversários contra o governo. Segundo ele, políticos e partidos, da esquerda à centrodireita, podem deixar de lado rivalidades para se concentrar na discussão do impeachment.

Para Lavareda, mesmo com o recuo de Bolsonaro – anteontem o presidente divulgou um comunicado em tom conciliador e elogiou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes –, essa mobilização deve permanecer. “Levantada a bandeira branca, os espíritos relaxam em certa medida. Mas não se imagine que os Poderes e os políticos vão simplesmente esquecer o que passou”, disse.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estadão.

João Gabriel de Lima - Nossa voz no mundo e as bravatas no carro de som

O Estado de S. Paulo

Hoje o Brasil só ocupa o espaço nobre de canais internacionais com notícias ruins

No dia em que o presidente Jair Bolsonaro subiu num carro de som para afrontar um ministro do Supremo Tribunal Federal (e depois se arrependeu), as manchetes nos canais internacionais de notícias foram um terremoto na Cidade do México, o incêndio num presídio na Indonésia e as eleições no Marrocos. Como já escrevi neste espaço, emissoras como BBC, Deutsche Welle, CNN, CGTN e Aljazira têm reduzido o Brasil às letrinhas miúdas do gerador de caracteres – onde desfilam os assuntos irrelevantes ou curiosos.

Existem dois Brasis, o das letrinhas e o das manchetes. O interesse internacional sobre nosso país se concentra em dois temas: economia e meio ambiente. Somos manchete positiva quando cuidamos de nossas contas públicas – o que traz recursos para investir na área social – e quando preservamos nossas florestas. Hoje só ocupamos o espaço nobre com notícias ruins: desmatamento na Amazônia e insegurança institucional que espanta investidores.

O Brasil que ocupou o espaço nobre nos noticiários da semana passada nada tinha a ver com brados golpistas na Avenida Paulista. As imagens em que populações tradicionais se manifestavam na Esplanada dos Ministérios, defendendo seu direito à terra, se espalharam pelas emissoras e sites internacionais.

Carlos Melo* - Presidente foi obrigado a dar marcha à ré

O Estado de S. Paulo

Assim como o sapo de Guimarães Rosa, o recuo do presidente Jair Bolsonaro não foi “por boniteza, mas por precisão”. Dito isso, o recuo merece mais atenção e ponderação a respeito. Não é um recuo como tantos outros. As circunstâncias do presidente e do País mudaram nas últimas semanas. Desta vez, Bolsonaro não depende apenas de si ou da condescendência conveniente dos líderes do Centrão. Depende também de seus maiores adversários: as instituições e as leis.

Antes, é preciso limpar essa área. A sempre repetida locução de que, “apesar de tudo, as instituições estão funcionando”, carece de lógica, razão e base conceitual. Asseverou o Nobel Douglass North que instituições garantem a segurança e a previsibilidade, são a base do desenvolvimento econômico e social e, para isso, se antecipam a problemas previsíveis. Tudo o que tem faltado. Funcionassem, a situação do País seria outra. Muitas instituições no Brasil – não todas – parecem divididas: em parte, ocupadas pelo bolsonarismo; em parte como trincheira de resistência aos avanços do primeiro.

Bolívar Lamounier* - O Brasil não é isso

O Estado de S. Paulo

O País que eu e os brasileiros de boa-fé conhecemos sempre entendera o imperativo da paz política

Meus caros leitores e leitoras, a realidade, infelizmente, é esta. Temos na chefia do Estado um indivíduo excluído das Forças Armadas por indisciplina, que se compraz em posar para fotografias fazendo gracinhas com armas de fogo de grosso calibre, e que, a fim de se reeleger em 2022 ou implantar um regime de exceção, não hesitará em convulsionar o País.

Isso não é o Brasil que cedo conheci e aprendi a amar e esse não é um modelo aceitável de presidente da República. O Brasil que conheci em tempos mais felizes não é este sob o qual estamos atualmente encangalhados. O Brasil de Jair Bolsonaro consegue ser pior que o retratado em grande parte de nossa historiografia, que, por sua vez, serve de farto alimento para novelas e comédias, na qual a formação do Estado brasileiro é representada como pura farsa. A própria Constituição de 1824 é geralmente pintada nessas cores, como se passar da tirania colonial para uma tirania caudilhesca pudesse ter sido uma solução superior à passagem ao Estado constitucional, rapidamente implantado, não obstante todas as precariedades da época.

O Brasil que conheci optou, desde os primórdios, por uma Constituição liberal, com os olhos fitos num futuro democrático-representativo, cujos dirigentes compreendessem a importância da separação e da harmonia entre os Poderes, valorizassem a liturgia a que os Estados constitucionais têm recorrido ao longo dos séculos como modelo de comportamento para as autoridades públicas e tivessem na alma a devoção a uma verdadeira polis, vale dizer, à sagrada missão de manter a vida em comum dentro de padrões ordeiros e civilizados.

Marcus Pestana* - Um Novo Rumo para o Brasil

A liberdade e a democracia são valores universais, inegociáveis e imprescindíveis. A liberdade é pilar essencial da natureza humana. É de certa forma surpreendente e inacreditável que num país que vivenciou uma pandemia com quase 600 mil mortes; esteja assistindo a inflação sair de controle, com a perda do poder de compra dos assalariados; tenha milhões de desempregados, desalentados, subempregados e miseráveis; enfrente uma monumental crise hídrica e energética; veja a tênue recuperação da economia ir pelo ralo; e ao mesmo tempo, testemunhe uma manifestação de cerca de dois milhões de brasileiros indo às ruas em torno de uma pauta exótica, descolada do mundo real, pedindo o impeachment do Ministro do STF, Alexandre de Moraes, e o reestabelecimento do voto impresso, questão já decidida pelo Congresso Nacional.

Nossa democracia experimenta o mais longo período de existência em toda a história do Brasil. São trinta e sete anos. A democracia brasileira contemporânea tem suas raízes na resistência democrática, na luta pela Anistia, na Campanha das Diretas, na vitória de Tancredo e na Constituição de 1988. Um dos mais belos discursos pronunciados no Congresso certamente foi o de Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, em 5 de outubro de 1988, na promulgação da nova Constituição, cheia de ensinamentos úteis para o grave momento que vivemos. As novas gerações deveriam resgata-lo e lerem com atenção cada linha.

Cristovam Buarque* - Espantos brasileiros

Correio Braziliense

Durante 350 anos, os estrangeiros se espantaram com a escravidão e com o fato de os brasileiros não se espantarem com o tratamento dado aos escravos. Se um visitante comentasse o assunto, o brasileiro branco diria: “São negros”. Passados 133 anos da Abolição, se algum estrangeiro comenta a má educação recebida por alunos das escolas públicas, ouve como resposta: “São pobres”.

Espanta os turistas como em nossas praias convivem banhistas ao lado de trabalhadores servindo sob o sol e sobre a areia, vendendo o que a moderna indústria oferece. Se o visitante estrangeiro disser “vocês ainda mantém privilégios do tempo da escravidão”, os brasileiros respondem: “Mas precisam desse trabalho para sobreviver”. Os escravos também. Ao voltar do século XIX ao século XXI, o visitante pensaria que a escravidão continua como se as algemas fossem invisíveis.

José Casado - O espetáculo do confronto terminou na rendição de Bolsonaro

Revista Veja

A guerra de Bolsonaro durou menos de 24 horas. Escolheu recuar, para salvar o mandato. Nada de novo: fez isso várias vezes, como militar e deputado federal

Jair Bolsonaro esgotou sua presidência no espetáculo do confronto. Tenta agora salvar os 14 meses de mandato que lhe restam.

A “Declaração à Nação” de ontem é uma confissão, um desmentido público para uso em processos judiciais no futuro.

É, também, um recuo, um pedido formal de trégua imediata, de alguém que percebeu as consequências de rasgar a Constituição no confronto com o Judiciário, recusando-se a cumprir decisões do Supremo Tribunal Federal — como enunciou nas ruas de Brasília e de São Paulo, no dia da Independência. Crimes de responsabilidade são puníveis com a perda do mandato.

Prisioneiro do próprio tumulto, viu-se diante de um dilema: cumprir o que anunciara significava a sandice de cometer um crime e arriscar o mandato; recuar era aceitar o risco do descrédito, da desmoralização entre seus partidários.

A guerra de Bolsonaro durou menos de 24 horas. Ele escolheu recuar, surpreendendo os mais fiéis aliados, que entenderam como uma capitulação, ou rendição sem resistência no campo de batalha.

 “Nunca tive nenhuma intenção de agredir os Poderes”, diz na abertura da “declaração” de ontem. É variação de outra (“Não tenho qualquer intenção de fazer”) que escreveu numa noite de outubro de 34 anos atrás, ao renegar a autoria de um plano terrorista de explosão de bombas na Vila Militar, no Rio, a pretexto de pressionar o governo José Sarney por aumento na remuneração dos soldados.

Dora Kramer - A volta do cipó

Revista Veja

O STF está em estado de alerta máximo e mobilizado para reagir com algo mais que palavras duras à escalada de provocações do presidente da República

Mais que preocupado, o Supremo Tribunal Federal está em estado de alerta máximo e mobilizado para reagir com algo mais que palavras duras à escalada de provocações do presidente da República daqui até as eleições de 2022. Afrontas agravadas pelos discursos do 7 de Setembro.

No radar do tribunal, unido como nunca esteve por obra das agressões de Jair Bolsonaro, está a hipótese de tomar a iniciativa de enviar à Câmara, com todo o seu peso institucional e sem passar pela Procuradoria-Geral da República, um pedido de impeachment contra o presidente se ele concretizar as ameaças de não cumprir decisões judiciais.

Bolsonaro fez essa ameaça de duas formas: ao indicar em declarações públicas que pode atuar fora dos limites da Constituição “se for necessário” e por meio de recados que há algum tempo vem fazendo aos ministros. Daí a convicção da maioria do STF sobre a impossibilidade de ocorrer um recuo do Palácio do Planalto rumo à moderação. Ao contrário, a expectativa é de exacerbação crescente.

Com apoio do colegiado, o presidente do STF, Luiz Fux, já decidiu que não dará mais um passo na direção do diálogo. Se qualquer outra autoridade insistir na proposta de reabrir um canal de conversa, Fux não rejeitará liminarmente, mas vai impor duas condições.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Meia-volta retórica

Folha de S. Paulo

Após fracasso em superar a fraqueza com gritaria, Bolsonaro encena recuo cínico

Depois de uma jornada de exaltações no 7 de Setembro, em que proferiu ameaças golpistas ao Supremo Tribunal Federal, dirigiu ofensas ao ministro Alexandre de Moraes, pregou desobediência à Justiça e anunciou que só deixará morto a Presidência, Jair Bolsonaro divulgou nota na qual afirma que não teve “nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes”.

Os excessos, tentou explicar, deveram-se ao “calor do momento”.

Em tom cínico, a meia-volta retórica teve o intuito de salvar do incêndio as pontes que ainda permitem algum tráfego entre a Presidência, os Poderes constituídos e a economia —depois que a tentativa de mostrar força nas ruas só deu em gritaria irracional.

Se Bolsonaro já se encontrava em avançado estágio de isolamento político, após o festival de afrontas que promoveu em Brasília e São Paulo o quadro se agravou.

Com mais ou menos veemência, mas sempre em tom de reprimenda, sucederam-se pronunciamentos contrários à atuação do presidente por parte de autoridades da República. Também vieram à luz palavras de apreensão por parte do setor empresarial.

Poesia | Clarice Lispector entrevista Pablo Neruda (1904-1973)

 

Música | 11/09/1973 - Allende, presente!: Quilapayún - El Reencuentro

 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Vera Magalhães - Nota de recuo vale por uma de R$ 3

O Globo

Vale tanto quanto uma cédula de R$ 3 a nota em que Jair Bolsonaro usa o marqueteiro de Michel Temer como ghost-writer para ajoelhar no milho diante do Supremo Tribunal Federal e fingir um arrependimento que não tem das ameaças de golpe que sinceramente proferiu no 7 de Setembro.

Quem fingir que acredita no propósito de se moderar, de obedecer aos desígnios do Judiciário e de zelar pela independência e harmonia dos Poderes feito por Temer é cínico, burro ou ingênuo. Ou um mix dos três.

Cínico será o alívio do mercado, dos ministros e dos deputados da base aliada.

O primeiro grupo tratará de tentar recuperar os prejuízos dos últimos dias.

Os integrantes do primeiro escalão buscarão para o espelho, para o travesseiro e para os filhos uma justificativa plausível para continuar servindo a um governo que busca uma ruptura institucional.

E os nobres parlamentares da base aliada encontrarão a desculpa necessária para continuar mamando nas tetas do Orçamento até exauri-las, sem precisar fingir que estão pensando a sério em abrir um processo de impeachment.

Ingênuo será o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM), se, com base nessa encenação tosca, deixar de devolver a Medida Provisória que susta parte do Marco Civil da Internet ou se receber os caminhoneiros que fazem chantagem com o país com uma paralisação que foi convocada e insuflada por Bolsonaro em pessoa.

Bernardo Mello Franco - Bolsonaro não vai mudar

O Globo

No oitavo dia do governo de Jair Bolsonaro, o ex-ministro Fernando Haddad deu um conselho aos adesistas de plantão: “Antes de defender uma bozoideia, espere 24h. Poupa o esforço de defender o recuo”.

O capitão mal havia vestido a faixa e já voltara atrás diversas vezes. Anunciou um aumento no IOF e foi desmentido. Prometeu ampliar a isenção do Imposto de Renda e desistiu. Admitiu a instalação de uma base americana e mudou de ideia.

O vaivém era previsível. Eleito sem um programa de governo, Bolsonaro nunca mostrou interesse nos problemas da gestão pública. Seu negócio é solenidade militar, agitação na internet e passeio de motocicleta.

Flávia Oliveira - Presidente recuou, por ora

O Globo

Nunca neste século a inflação oficial foi tão alta em agosto. O IPCA, índice da meta, bateu projeções de todos os analistas e alcançou 0,87%, sob o impacto de reajustes nos preços da comida, do gás, da gasolina, do álcool, do diesel e na tarifa de energia elétrica. Em metade das localidades pesquisadas pelo IBGE, o IPCA acumula alta acima de 10% — dois dígitos, portanto. Também a cesta de consumo das famílias mais pobres, com renda mensal de até cinco salários mínimos, ficou 10,42% mais cara desde setembro do ano passado. Não é coincidência que tudo isso tenha ocorrido no período em que a crise política, por responsabilidade integral do presidente da República, se agravou a ponto de eclipsar todas as outras dificuldades que o Brasil enfrenta. E não são poucas.

Foi em agosto que os ataques de Jair Bolsonaro a ministros do Supremo Tribunal Federal e ao sistema eleitoral atingiram níveis inaceitáveis. Por intensos, levaram à reação em onda: do Judiciário, de empresários, acadêmicos, sociedade civil por meio de notas em defesa da democracia; do mercado financeiro na forma de deterioração aguda dos ativos — ações despencaram, juros e dólar dispararam. Tudo isso, num país com desemprego, desalento e informalidade recordes; inflação galopante; economia enfraquecida; crise hídrica e escassez de energia; quase 600 mil mortos por Covid-19; 19 milhões de famintos.

Ruth de Aquino - Nem militantes acreditam mais em Bolsonaro

O Globo

Reina a anarquia delirante entre os bolsonaristas raiz. Estão perdidos entre o real e o imaginário. Esse pessoal de chapéu de caubói, enrolado na bandeira, comemorou em Brasília um “estado de sítio” fake. E caminhoneiros militantes, em vez de protestar pelo preço do combustível, bloquearam as rodovias. Atendiam ao apelo de Bolsonaro por desobediência civil.

Os bolsonaristas se acostumaram a compartilhar tantos vídeos fake sobre tratamento de Covid, urnas eletrônicas, ministros do STF e comunistas que não conseguem mais acreditar num áudio real do presidente. Bolsonaro mandou desbloquear as estradas e esquecer o motim. Traição aos coitados dos caminhoneiros, não é, Zé Trovão. Foragido no México, pode ser preso a qualquer momento. O caminhoneiro Zé lamentou ter arriscado a vida por Bolsonaro. 

Vocês deveriam protestar contra a alta da inflação, a quase 10%, contra o desemprego, contra a pobreza, mas não. Os caminhoneiros esquecem seu próprio desamparo e protestam contra o Supremo Tribunal Federal! Que categoria politizada. Só num Brasil surreal, governado por um fanático pela mentira. 

Pedro Doria - Lições para aprendermos

O Estado de S. Paulo / O Globo

Nada do que estamos vivendo ocorreria se aprendêssemos algo com o passado

Esta coluna tem tema — o impacto das transformações digitais no mundo. Mas esta não é uma semana qualquer. Na terça-feira, logo um 7 de Setembro, o presidente Jair Bolsonaro juntou uma pequena multidão na avenida Paulista e ameaçou violar o artigo 85 da Constituição. É aquele que obriga alguém em seu cargo a cumprir decisões judiciais sob a pena de impeachment. Durante aquele dia, a PM do Distrito Federal resistiu a sete ofensivas contra o Palácio do Supremo. Foi uma tentativa de golpe de Estado, que se frustraria, o que não faz disso menos grave. Dois dias depois, na quinta, perante um impeachment posto no radar, Bolsonaro se acovardou. Tenta recuar do desastre com uma carta escrita pelo ex-presidente Michel Temer. Peço licença, pois, aos leitores habituais da coluna para vestir só nesta semana meu outro chapéu profissional — o do jornalista que escreve sobre história. Porque nada do que estamos vivendo ocorreria se aprendêssemos algo com o passado.

A primeira lição: existe um germe militar autoritário na cultura política brasileira. Sempre que o País se desorganiza, um grupo grande o suficiente de brasileiros bate à porta dos quartéis. Por algum motivo, acreditamos que os militares representam ordem, disciplina e competência. Foi assim em 1889, quando Deodoro pôs abaixo o Império. Também foi assim em 1937, quando Getúlio se apoiou em dois marechais para cercar o Congresso e encerrar o período da melhor Constituição que tivemos até 1988. A eleição de Eurico Gaspar Dutra foi isso. Ia sendo assim em 1954, quando o mesmo Getúlio — agora na outra ponta — meteu um tiro no peito evitando um golpe. Em 1964. E, em 2018, perante o caos deixado pela instabilidade da década de 10, com a eleição de Bolsonaro.

Eliane Cantanhêde – ‘Calor do momento’

O Estado de S. Paulo

O presidente Bolsonaro foi dormir moderado ontem. Como será que vai acordar hoje?

O presidente Jair Bolsonaro foi dormir ontem moderado, defensor da harmonia entre os três Poderes e de bem até com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes, com quem conversou ao telefone, selando uma trégua. Resta saber como Bolsonaro vai acordar hoje. No modo moderado ou no modo de sempre, armado até os dentes contra tudo e todos?

No manifesto que distribuiu por escrito e assinado, por influência do seu antecessor, Michel Temer, Bolsonaro atribuiu toda a sua fúria contra o Supremo e particularmente Alexandre de Moraes ao “calor do momento”. Puxa! O calor nos palácios da Alvorada e do Planalto deve estar de matar e o tal “momento” é longo: todo mês, toda semana, todo dia, toda hora.

Foi preciso a ação de um bombeiro do calibre de Michel Temer, constitucionalista e um homem de extrema elegância, que presidiu a Câmara três vezes e assumiu a Presidência da República em condições totalmente adversárias, após o impeachment de Dilma Rousseff.

Simon Schwartzman* - A Marcha sobre Brasília

O Estado de S. Paulo

Os Poderes no Brasil precisam se defender dos ataques de nosso candidato a Mussolini

Se a expectativa dos Maquiavéis que planejam a estratégia de Bolsonaro se inspirando em Mussolini era replicar, no 7 de setembro, a “marcha sobre Roma” de 1922, não deu certo. Em 1922, Il Duce ganhou forças para subjugar o Parlamento, o Judiciário e as Forças Armadas, e ficou no poder até ser assassinado, em 1945, depois de ter levado seu país à ruína. Aqui, as manifestações foram pacíficas, nenhum palácio foi invadido e o que restou foi a promessa do presidente de deixar de cumprir as decisões do ministro Alexandre de Morais. Difícil de saber o que virá agora, se finamente o impeachment, uma tentativa de golpe de Estado ou algum tipo de administração arrastada da crise, como vem acontecendo até aqui. Todos os analistas políticos se estão fazendo essa pergunta. Sou menos capaz do que eles de prever, mas minha impressão é de que as coisas vão continuar como estão, para ver (ou não) como é que ficam.

Seja como for, o que fica de mais marcante deste 7 de setembro é a grande presença de pessoas nas ruas atendendo à retórica inflamada e vazia de Bolsonaro, mesmo depois de dois anos de desgoverno, de manejo incompetente da epidemia, dos escândalos das rachadinhas e da compra das vacinas, do abandono das pautas de combate à corrupção e de reorganização da economia, da depredação do meio ambiente, da inflação saindo do controle e de ter entregado o governo a seus antigos inimigos do Centrão, do qual agora se diz membro desde criancinha.

Ruy Castro - Vem aí: bolsonarismo sem Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Um caubói caminhoneiro acaba de chamá-lo de frouxo. Um dia, toda criatura se volta contra o criador

Faixas abertas por seguidores de Jair Bolsonaro nas arruaças de 7 de setembro faziam ameaças aos seus inevitáveis desafetos: STF, TSE, CPI, TV Globo, petistas, governadores, jornalistas, intelectuais, artistas, cientistas, povos indígenas, ecologistas, feministas, negros, gays, usuários de máscara e demais comunistas. Até aí nada demais, eles odeiam o mundo. O surpreendente foi a aparição em algumas faixas de dois nomes tachados de "cânceres": o deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco, presidentes das casas do Congresso. Mas como? Por quê? É assim que os bolsonaristas agradecem a quem tanto os ajuda —voltando-se contra eles?

Sim, assim como se voltaram contra Sergio Moro, que lhes deu numa bandeja a eleição de Bolsonaro, e contra todos os que por algum motivo desertaram da matilha. A diferença é que, até há pouco, esperavam pelo chefe para saber a quem odiar. Agora já escolhem por conta própria os inimigos a destruir. Era inevitável: de Adão aos robôs da ficção científica, a história está cheia de criaturas que se libertaram de seus criadores.

Hélio Schwartsman - Razões para o impeachment

Folha de S. Paulo

E agora até o mercado passou a reagir às declarações mais abertamente golpistas

Em seu discurso pós-7 de Setembro, o presidente da Câmara, Arthur Lira, deu indicações de que não pretende pautar o impeachment de Bolsonaro. Nas contas do centrão, é cedo para abandonar a nau bolsonarista. Ainda dá para seguir por mais um tempo usufruindo dos cargos e verbas proporcionados pela blindagem que o grupo empresta ao presidente. A aposta mais sensata, portanto, é a de que a destituição não sairá, mas eu acrescentaria que está surgindo uma possibilidade real de o jogo mudar.

As razões morais para o impeachment estão dadas há tempos, mas imperativos éticos não são o melhor dos motivadores. Os últimos dias trouxeram sinais de que razões instrumentais podem estar entrando em ação. O movimento começa pela economia. Quando Bolsonaro se sente pressionado, ataca as instituições e, cada vez que o faz, diminui as chances de seu governo produzir boas notícias, que poderiam ajudá-lo na reeleição. E, se antes o mercado não ligava para o que julgava ser bravatas presidenciais, agora, diante de um cenário econômico deteriorado, passou a reagir às declarações mais abertamente golpistas.

Bruno Boghossian - Um habeas corpus para Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Acuado, presidente busca proteção para não ser punido pelos crimes que já cometeu

Jair Bolsonaro acionou um advogado para tentar se salvar do cerco que se formou contra ele após o 7 de setembro. Com a ajuda de Michel Temer (OAB 16534/SP), o presidente divulgou uma nota para afirmar que jamais teve a "intenção de agredir" outros Poderes nos atos golpistas. O texto pode parecer um recuo, mas é, na verdade, um pedido de habeas corpus para um político em perigo.

Os dez parágrafos da declaração publicada nesta quinta (9) pelo Planalto dão todos os sinais de que Bolsonaro está em busca de proteção, não de diálogo e pacificação. No texto, o presidente ignora sua ameaça pública de descumprir decisões judiciais e torce para que a manobra seja suficiente para não ser punido pelos crimes que já cometeu.

Reinaldo Azevedo - Bolsonaro recua para adiar o fim

Folha de S. Paulo

Quanto tempo demora para que o príncipe volte à condição de ogro? A verdade é que o governo, que nunca existiu, acabou

Contive uma furtiva lágrima ao ler a carta de Jair Bolsonaro, o golpista subitamente convertido à democracia. Quer negociar com o STF o calote nos precatórios? Está com medo do impeachment? Dado o contexto, parece certo que busca também se livrar da cadeia.

Quanto tempo demora para que o príncipe volte à condição de ogro? A verdade é que o governo, que nunca existiu, acabou. O que deu errado? Valeria uma enciclopédia. Mas aqui se tem espaço pouco maior do que o de uma fábula. Então vamos a ela, com direito à moral da história.

Quando Bolsonaro ofereceu ao mercado de ideias os seus 28 anos de Câmara, trazendo na bagagem a defesa de torturadores, a apologia de fuzilamentos, o elogio às milícias, a recomendação para que o pai espancasse o filho “gayzinho” e o conceito de que, na raiz do estupro, está o merecimento —uma distinção cabível só às belas—, os reacionários e iliberais das elites se encantaram. Na metafísica, estavam juntos. Mas restavam temores.

Vinicius Torres Freire – A inflação de loucuras de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Economia avançaria com Bolsonaro na camisa de força, mas seu poder depende de loucura

O estrago social, econômico e político da inflação está dado e vai durar até bem entrado o ano de 2023, pelo menos, isso se tudo der muito certo. A taxa de inflação, o ritmo do aumento médio de preços, pode até diminuir, mas o nível de preços ficará nas alturas; os salários, ao menos dos mais pobres, metade do país, não vão subir a ponto de compensar a carestia. Pode até ser que o rendimento de remediados e mais ricos, com emprego formal etc., volte a subir, mas a curto prazo isso realimenta a inflação, afora milagres.

Como ficam a eleição e o governo de Jair Bolsonaro, dada essa situação? Se ele deixasse de ser o que é, haveria uns esparadrapos possíveis. Mas é difícil de acreditar nessa ficção, em chifre em cabeça de cavalo, imaginar que Bolsonaro vá abandonar adeptos, sectários e falangistas, que ainda lhe dão chance de ficar no poder. Ou seja, o projeto de tirano teria de trocar o certo (seus adeptos) por uma melhora difícil e de efeito político incerto na economia.

Maria Cristina Fernandes – Inflação fecha porta de saída dos excluídos

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Depois da redução nos benefícios assistenciais ter ampliado universo dos biscates, preços como os dos combustíveis fecham a porta de saída do empreendedorismo, largamente ignorado pelas redes sociais

Na tarde da última sexta-feira antes do feriado de Sete de Setembro, três faixas foram colocadas na Ponte do Piqueri, Zona Norte de São Paulo, na avenida Brasil, zona Norte do Rio, e na Praça dos Três Poderes, em Brasília. “$7,00/litro de Setembro”, dizia a mensagem. As imagens inundaram as redes sociais. Impossível dizer tanto com tão pouco.

Dilson Teixeira, motorista de aplicativo em São Paulo, não chegou a vê-las, mas foi apresentado às fotos pelo celular. Não entendeu a que aludia a junção da cifra ao dia da pátria, mas reconheceu que a gasolina cara havia reduzido a concorrência por passageiros em São Paulo. Não fazia o mesmo porque, sendo bombeiro civil aposentado, não depende da renda do aplicativo para viver.

Com a resistência das empresas em reajustar a tarifa ou aumentar o valor dos repasses, um quarto dos motoristas de aplicativos já desistiu de rodar na capital paulista, nas contas da associação dos trabalhadores do setor. Crescem as reclamações de usuários sobre a demora no atendimento.

Dilson é um dos 32 milhões de brasileiros que, nas contas do instituto Locomotiva, conseguem renda por algum tipo de aplicativo. São pessoas que voltaram a trabalhar depois da aposentadoria, deixaram o mercado de trabalho formal ou não chegaram nem mesmo a nele ingressar. Uma parte deles abriu uma microempresa para isso.

José de Souza Martins* - A tirania do medo

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana  

A facilidade irresponsável com que o governante daqui atrai e aglutina gente medrosa é notória tanto em suas bravatas quanto nas bravatas dos que são por ele atraídos

O Brasil é o país que mais lincha no mundo, um linchamento ou tentativa de linchamento por dia. Há cerca de 30 anos, quando comecei uma extensa pesquisa sociológica sobre esse grave problema social, a geografia desse crime de multidão mostrava que eram estados de maior incidência de linchamentos a Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, nessa ordem.

Hoje o centro está deslocado para o Norte, o Amazonas, sobretudo Manaus. A multidão, com facilidade, elege inimigos e os trucida, supondo com isso assegurar sua liberdade e seu modo de ser. Seu medo é juiz e carrasco.

Os linchamentos ocorrem em áreas de ocupação relativamente recente, seja pelo advento de novas populações migrantes, seja pela chegada de novos vizinhos em bairros urbanos. O crime de multidão, no Brasil, é praticado por gente que tem medo. Medo do que é novo, do que é diferente e de quem é diferente. É crime da ordem sem progresso, a da sociedade do medo.