sábado, 10 de setembro de 2022

Pablo Ortellado - Atacar pesquisas é tática bolsonarista para contestar resultado da eleição

O Globo

'Datapovo' anda de braços dados com questionar urnas eletrônicas

Havia grande receio sobre o que poderia acontecer no 7 de Setembro. Enquanto se temia que, no discurso do presidente Jair Bolsonaro, viessem duros ataques às urnas eletrônicas, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), um dos principais alvos foram os institutos de pesquisa.

Em Brasília, Bolsonaro disse:

— Nunca vi um mar tão grande com essas cores verde e amarela. Aqui não tem a mentirosa Datafolha. Aqui é o nosso Datapovo.

No dia seguinte, na live presidencial das quintas-feiras, ele retomou:

— Alguém acha que esse cara [Lula] vai ganhar a eleição? O Datafolha, por exemplo, [diz que] pode ganhar no primeiro turno. Alguém acredita que, em eleições limpas, o Lula ganha?

Um dos objetivos da mobilização para o 7 de Setembro era produzir imagens eloquentes que questionassem o que mostram as pesquisas de intenção de voto. Afinal, como um presidente capaz de levar tanta gente às ruas pode estar atrás de Lula, ainda correndo o risco de perder no primeiro turno?

Ao gerar descrédito nos institutos, sugerindo que Bolsonaro vencerá, o bolsonarismo tenta evitar um fenômeno conhecido: a tendência de alguns eleitores de votar no favorito. Se conseguir convencer parte do público de que as pesquisas não valem e de que devem prevalecer as fotos de multidões mobilizadas, pode ser que esse empurrão rumo ao favorito vá para Bolsonaro, e não para Lula.

Eduardo Affonso - ‘Que diabos quer dizer imbrochável?’

O Globo

Coração de Dom Pedro I acabou destronado por um pinto presidencial, num evento nada republicano

Coitado do coração de Pedro I. Penou pelo amor da marquesa de Santos, bateu forte por dançarinas, atrizes, escravas, damas da corte, uma freira e sabe-se lá quantas outras mulheres. Deve ter disparado nos muitos retornos furtivos ao Palácio de São Cristóvão, onde o esperavam — cada uma a seu turno, mais ou menos resignadas — as imperatrizes Leopoldina e Amélia.

Há de ter se angustiado, o pobre coração, ao deixar para trás — e para nunca mais — quatro filhos pequenos e embarcar de volta a Portugal, a fim de garantir o trono da filha Maria da Glória. E de ter sofrido com a deslealdade do irmão Miguel, com a indiferença da mãe, Carlota Joaquina.

Durou pouco, esse coração: menos de 36 anos. Nem por isso lhe faltaram emoções: acelerou aos 9, fugindo, de madrugada, das tropas de Napoleão. Aos 23, é provável que tenha descompassado, às margens plácidas de um riacho de águas vermelhas, enquanto proclamava a Independência do Brasil. Parou definitivamente às 14h40 de um 24 de setembro de 1834, no mesmo quarto em que batera pela primeira vez fora do ventre materno.

Ascânio Seleme - O Brasil precisa de um líder de direita

O Globo

Os mais de 60 mil apoiadores de Bolsonaro que foram a Copacabana no dia 7 de Setembro vestidos de amarelo são majoritariamente conservadores, prezam a lei e a ordem, não gostam de mudanças bruscas, têm medo do que não conhecem, acreditam em Deus, confiam na família e querem seguir uma vida sossegada, sem atropelos e surpresas. Engana-se quem olha para aquela massa e enxerga um bloco compacto de extremistas de direita armados, com sangue nos olhos, prontos para atirar no primeiro comunista que vir pela frente.

Parte importante do Brasil é assim. A tomar pelas pesquisas eleitorais, pode-se dizer que cerca de 40% dos brasileiros são conservadores e querem eleger um presidente que divida com eles seus valores. Na falta de um verdadeiro líder de direita, apoiam Bolsonaro e acabam se confundindo com energúmenos que pregam uma intervenção militar, o fechamento do Supremo, o banimento da esquerda do convívio nacional. Uma clara fraqueza ideológica associada, em alguns casos, à ausência de pensamento crítico e ao medo do novo cria esta massa que vimos no 7 de Setembro.

Carlos Alberto Sardenberg – O que não aparece na campanha

O Globo

Na propaganda eleitoral, as dívidas serão perdoadas, negociadas, reduzidas, enfim, aliviadas. Como?

Olhando os grandes números, parece mesmo que a economia brasileira passa por um bom momento: a inflação desacelera, o crescimento acelerou no segundo semestre, deixando um embalo para o final do ano, a taxa de desemprego caiu, e não há dificuldades nas contas externas.

Comparando com a situação e as expectativas do início deste ano, o ambiente é claramente melhor. Mas não dá para concluir que isso tudo deixará uma boa herança para o próximo presidente.

Começando pelos preços ao consumidor. Pelo IPCA de agosto, divulgado ontem, a inflação em 12 meses caiu para 8,73%, a primeira vez em um ano que fica abaixo dos dois dígitos. Governo e mercado esperam desaceleração lenta, porém consistente para os próximos meses.

Essa expectativa faz sentido porque, depois de várias tentativas, finalmente temos uma legislação que garante a independência do Banco Central (BC). Isso permite que a instituição pratique uma política monetária de juros muito elevados mesmo em pleno ciclo eleitoral.

Mais ainda: pela nova lei, o mandato do presidente da República não coincide com o do presidente do BC. O atual chefe da instituição, Roberto Campos Neto, tem mandato até 2024 — e isso significa que a política monetária será mantida nos próximos dois anos. A expectativa dominante sugere que a inflação chegará à meta (3%) somente em 2024, depois de três anos seguidos de estouros.

No médio termo, está bom, mas em termos políticos há uma óbvia dificuldade. A inflação vem sendo derrubada a golpes de juros muito elevados — ou de uma política muito restritiva, como têm repetido os diretores do BC.

Bruno Boghossian - Barulho do 7 de Setembro não foi suficiente para mudar trajetórias

Folha de S. Paulo

Com voto cristalizado, favoritos na corrida ao Planalto tentam reforçar territórios conhecidos

Ainda que o 7 de Setembro tenha produzido um barulho político considerável, o episódio ainda não demonstrou força suficiente para sacudir um cenário eleitoral que parece cada vez mais consolidado à medida que o primeiro turno, marcado para o dia 2 de outubro, aproxima-se.

A liderança de Lula (PT) permaneceu inabalada na última semana, segundo a nova pesquisa do Datafolha. Jair Bolsonaro (PL) mostrou fôlego para manter uma trajetória de alta que vem se desenhando de maneira constante nos últimos meses, embora lenta demais para garantir que ele possa virar o jogo.

O quadro de estabilidade nas curvas dos dois principais candidatos, mesmo nos momentos em que a disputa esquenta, reflete duas características marcantes da corrida eleitoral deste ano: uma decisão de voto antecipada e um foco das campanhas no reforço de territórios conhecidos.

Três de cada quatro eleitores dizem já ter decidido o voto do primeiro turno –índice estável há algum tempo e indicador de um quadro sólido para o final de campanha. Como comparação, a esta altura da última corrida presidencial 45% dos eleitores diziam que poderiam mudar de ideia até o dia da votação.

O espaço reduzido para grandes alterações vem favorecendo o petista, uma vez que Lula manteve um patamar que beira a chance de vitória em primeiro turno –algo ainda imprevisível neste ponto da corrida.

Hélio Schwartsman – Nunca aos domingos

Folha de S. Paulo

O que determinou suas reações foi basicamente a pressa

Segundo o Datafolha, 56% dos brasileiros acreditam que política e valores religiosos devem andar juntos.

É difícil imaginar o que vai na cabeça de cada eleitor, mas me parece que dá para concluir daí que a maior parte dos conterrâneos vê um elo entre religião e ética. De algum modo, pessoas religiosas se comportariam melhor que as não religiosas. Mas será que isso é verdade? O que diz a literatura científica sobre o assunto?

O estudo clássico que mostrou ser no mínimo precário o vínculo entre doutrinação religiosa e bom comportamento data dos anos 70.

Alvaro Costa e Silva - Desfile de cafajestes do Brasil

Folha de S. Paulo

Bolsonaro, o 'imbrochável', lidera com ampla margem de votos

A maratona no Sete de Setembro não terminou bem para Bolsonaro. Depois de sapecar um beijo de língua na primeira-dama e puxar o coro de "imbrochável" no palanque de Brasília e de ser apresentado no trio elétrico de Copacabana como "homem escolhido por Deus, incorruptível e incomível", ele resolveu encerrar a jornada de campanha eleitoral indo ao Maracanã para assistir ao jogo do Flamengo pela Libertadores. Deve estar arrependido e estomagado até agora.

Ao entrar no estádio, o candidato —que já vestiu a camisa de todos os grandes clubes brasileiros, menos a do São Paulo— foi saudado nos camarotes e tribunas com gritos de "mito"; também ouviu vaias, mas tímidas. Nas arquibancadas lotadas, no entanto, a rejeição foi apoteoticamente sonora e mais feroz do que a verificada nas pesquisas: "Ei, Bolsonaro, vai tomar caju!".

Cristina Serra - Predadores do futuro na Câmara

Folha de S. Paulo

Na Câmara, 68% dos deputados votam e atuam contra o meio ambiente e indígenas

A agência de jornalismo Repórter Brasil divulgou recentemente um ranking sobre a atuação da bancada ruralista na Câmara dos Deputados, o Ruralômetro 2022, que é também uma ferramenta muito útil para os eleitores saberem quem são os responsáveis pela destruição ambiental no Brasil.

É uma radiografia de um dos setores mais empenhados na sustentação do governo Bolsonaro, como mostrou, aliás, o deprimente desfile de tratores na Esplanada, no 7 de Setembro. O Ruralômetro chegou ao número de 351 deputados —68% da Câmara— que votam e atuam sistematicamente contra o meio ambiente e os interesses de indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais.

Oscar Vilhena Vieira* - Para que serve uma Constituição?

Folha de S. Paulo

Sem ela estaríamos entregues aos nossos principais demônios

Um dos mais bem guardados segredos dos ingleses é a sua Constituição. Alguns estrangeiros desavisados chegam inclusive a acreditar que os ingleses não têm Constituição. A maneira pacífica e quase ritualística com que os processos de sucessão da rainha Elizabeth 2ª e da chefia de governo estão ocorrendo não deixa qualquer dúvida, no entanto, que o exercício e a alternância no poder estão subordinados a um conjunto bastante rígido de preceitos constitucionais no Reino Unido.

De outro lado, não há qualquer segredo que regimes autocráticos, do passado, como a União Soviética de Stalin e o Chile de Pinochet, ou do presente, como a Hungria de Orbán e a Rússia de Putin, empunhem suas Constituições, ainda que essas folhas de papel não tenham nenhuma capacidade de condicionar a forma como o poder foi ou é exercido nesses regimes.

Demétrio Magnoli - Mensagens chilenas

Folha de S. Paulo

A chance desperdiçada de constitucionalizar direitos sociais é lição para a esquerda do Brasil

Gabriel Boric, o jovem presidente chileno, sabe o significado da palavra democracia. Diante da derrota avassaladora da proposta de nova Constituição, falou em "autocrítica", pedindo "mais diálogo" para formular uma Constituição "que nos interprete a todos".

A Constituinte eleita na esteira das mobilizações populares tinha maioria da nova esquerda pós-moderna, que escolheu o caminho de produzir uma Constituição igual a si mesma. O texto foi rejeitado por 62% dos eleitores. Nem o apoio condicional da centro-esquerda (PS) e de parte do centro (DC) evitou o fracasso humilhante.

Constituições democráticas são contratos de princípios, que estabelecem as regras do jogo. Os constituintes chilenos escreveram uma Constituição programática, que pretendia determinar os resultados do jogo. O texto repelido fazia do programa de uma facção a lei do país. Por essa via, tentava congelar a política: os programas das outras facções se tornariam inconstitucionais.

"Pinochet renasceu", disse Gustavo Petro, presidente colombiano de esquerda, diante da decisão plebiscitária dos chilenos. Ele parece incapaz de aprender o que Boric entendeu. A primeira mensagem chilena é anti-autoritária: uma maioria circunstancial não deve se confundir com a nação inteira. Os outros —os que pensam diferente de mim— não são "inimigos do povo".

João Gabriel de Lima* - Somos mais que uma piada de gravata

O Estado de S. Paulo

Precisamos participar das conversas sérias – e deixar de ser uma piada de gravata amarela

“Quem é o cavalheiro de gravata amarela entre os presidentes do Brasil e de Portugal, a ocupar lugar tão nobre no palanque do bicentenário?” Responder a perguntas sobre nosso país faz parte da rotina de quem mora fora do Brasil. Isso inclui identificar Luciano Hang na foto que viralizou no 7 de Setembro – e explicar como o “véio da Havan” se tornou um ícone fashion do bolsonarismo. “Tem piada”, disseram meus incrédulos amigos portugueses.

Portugal organizou vários eventos para celebrar o bicentenário do Brasil. Um tema apareceu de forma recorrente nas conversas sobre nosso futuro: a nova economia verde. As oportunidades na produção de energia eólica e solar perpassaram as mesas do Fórum Independência com Integração, que ocorreu nesta semana em Lisboa. Num evento anterior, a ex-ministra Marina Silva foi aplaudida de pé ao mostrar como a preservação ambiental se tornou causa transversal à esquerda e à direita.

Adriana Fernandes - Quem responde?

O Estado de S. Paulo.

O buraco das contas em 2023 será maior do que levar o Auxílio Brasil a R$ 600 ou R$ 1 mil

Jair Bolsonaro prometeu mais R$ 200 de Auxílio Brasil depois de Lula ter acenado com R$ 150. Onde isso vai parar? A corrida eleitoral paralela do valor do benefício que os dois primeiros candidatos nas pesquisas travam é insana. Mais uma semana, Bolsonaro e Lula chegam ao valor de R$ 1 mil, prometido pelo terceiro colocado nas pesquisas, Ciro Gomes.

A candidata Simone Tebet também prometeu R$ 600, mas já defendeu a adoção de um estado de emergência com as despesas fora do teto para zerar a fila no Sistema Único de Saúde. Explicação também não veio.

É sintomático que os candidatos não digam como farão para cumprir a promessa, e muito menos que isso pode envolver até mesmo a retirada ou diminuição de benefício para um grupo.

Parece até heresia quando a imprensa cobra respostas das campanhas de cada lado.

Rafael Cortez* - Datafolha mostra que Bolsonaro encontrou sua estratégia, Lula ainda procura plano

O Estado de S. Paulo

Levantamento retrata melhora na avaliação de governo no apoio à reeleição

As redes sociais e a democratização das fontes de produção de conteúdo político exacerbaram a capacidade das campanhas eleitorais em produzirem mensagens “nichadas” para segmentos específicos. A pesquisas eleitorais e seus diferentes recortes reforçaria a necessidade de os candidatos produzirem mensagens para grupos específicos de eleitores, seja pensando no recorte por renda, raça, opção religiosa ou geografia. As evidências recorrentemente frustram a expectativa de grandes impactos da campanha. Grosso modo, o jogo eleitoral é fundamentalmente um cenário de estabilidade dos demais candidatos com exceção da candidatura à reeleição do presidente Bolsonaro.

O levantamento mais recente do Datafolha retrata o peso da melhora na avaliação de governo no apoio a reeleição, reforçando o peso do desempenho do incumbente no cargo como condicionante do comportamento eleitoral, reforçando a tendência da eleição caminhando para o segundo turno. Se confirmado, esse movimento apenas retrataria o equilíbrio entre esquerda e direita no Brasil nas últimas décadas.

Bolívar Lamounier* - Gorbachev e a perpétua vocação autocrática russa

O Estado de S. Paulo

A atual agressão russa contra a Ucrânia mostra que, no que tange à Rússia, seus heroicos esforços foram baldados

No dia 30 de agosto o mundo perdeu um dos grandes estadistas de nossa época: Mikhail Gorbachev (1931-2022). Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, como relatarei a seguir. Em outubro de 2001, as fundações Fride (Fundación para las Relaciones Internacionales y el Diálogo Exterior), presidida por Diego Hidalgo, empresário, e

The Gorbachev Foundation of North America promoveram em Madri um grande seminário intitulado Conferência sobre Transição e Consolidação Democrática. Essa conferência foi a origem do Clube de Madri, entidade integrada por ex-presidentes e ex-primeiros-ministros com a missão de apoiar iniciativas internacionais em prol da democracia.

No início de 2001, tive o privilégio de ser convidado, junto com outros 15 renomados intelectuais de várias partes do mundo, a participar, em Madri, de uma reunião preparatória da conferência, que seria realizada em outubro daquele ano. Deu-se, porém, como se recorda, que no dia 11 de setembro uma organização terrorista levou a cabo um ataque em Nova York, destruindo as chamadas Torres Gêmeas. Diante desse fato, sem dúvida a mais audaciosa operação terrorista de que se tem notícia, as fundações organizadoras rapidamente consultaram os futuros participantes sobre se a conferência deveria ser mantida. A resposta, unânime, foi positiva, até porque, no entender de todos, a entrada em cena do terrorismo a tornara ainda mais importante. Assim foi que, nos dias 19 a 27 de outubro, nos reunimos e lançamos as bases do Clube de Madri, cujos principais patronos, além do próprio Gorbachev, foram o ex-presidente norte-americano Bill Clinton e o rei Juan Carlos.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Violência exige repúdio firme dos candidatos

O Globo

Em vez de insuflar ódio, Bolsonaro e Lula têm o dever de condenar atos bárbaros e pregar campanha pacífica

Mais um assassinato por clara motivação política na campanha eleitoral soa o alarme para o maior risco da polarização que divide a sociedade brasileira: a violência. A barbárie, primeiro nos tiros em Foz do Iguaçu, agora no esfaqueamento hediondo no interior de Mato Grosso, exige repúdio firme de todos os candidatos, na busca de um ambiente pacífico para o pleito. É intolerável a perpetuação do clima de ódio que contribui para transformar palavras de divergência em atos de agressão, disputas políticas em brigas e morte.

Embora as vítimas de ambas as tragédias tenham sido partidários do PT, a agressividade não está restrita a apenas um lado do espectro ideológico. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro promove o culto às armas e afirma, em discurso no 7 de Setembro, que a esquerda “tem que ser extirpada da vida pública”, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva compara manifestantes bolsonaristas à odiosa organização racista Ku Klux Klan. Nada disso traz sensatez. Pelo contrário, são palavras que contribuem para inflamar os ânimos, quando o necessário é apaziguá-los.

Um levantamento da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) verificou que a violência política já fez 40 mortos no país desde janeiro. Entre ameaças, agressões, tiroteios, homicídios, sequestros e atentados, o estudo contou ao todo 223 episódios. É verdade que são eventos isolados, que não refletem o sentimento da maioria do eleitorado, seja o petista, seja o bolsonarista. Um outro levantamento, feito pela empresa Quaest para uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), verificou que mais de três em quatro eleitores consideram a violência injustificável em caso de vitória do grupo adversário. Mas, justamente por confrontar a ampla maioria, é preocupante a pequena parcela dos que consideram a violência “justificada” em alguma medida (21% dos eleitores de Lula; 19% dos de Bolsonaro).

Poesia | Fernando Pessoa - Se te queres matar

 

Música | Capital Inicial - Que país é esse?

 

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Fernando Abrucio* - Reconstruir o país pelo equilíbrio

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Brasil só vai ter futuro melhor se incorporar mais grupos em sua governança, estabelecendo diálogo entre eles

O aspecto que chama mais a atenção na comemoração dos 200 anos de Independência é a falta de uma celebração coletiva e plural da sociedade brasileira. O que sobrou são poucos festejos oficiais, sendo que Bolsonaro fez pior do que a ditadura militar: usa os recursos do Estado para dividir a nação e fazer campanha personalista em prol de sua reeleição.

A questão é que o sectarismo bolsonarista impede a reflexão sobre a trajetória passada e recente do país, destrói as instituições e enfraquece o sentimento de pertencimento nacional. Para sair dessa enrascada, o Brasil só vai ter um futuro melhor se incorporar mais grupos em sua governança, estabelecendo diálogo entre eles e criando um novo equilíbrio político.

Sair da situação sectária e sem diálogo em que estamos é fundamental para reconstruirmos as instituições políticas e as políticas públicas atingidas por Bolsonaro. Há uma longa lista de tarefas. Em primeiro lugar, setores governamentais foram, em maior ou menor grau, desmontados.

Esses são os casos do Sistema Único de Saúde (SUS), da política educacional, da longa tradição diplomática, da burocracia e da legislação ambientais, da área de cultura, da proteção das comunidades indígenas, dos serviços e programas de assistência social, dos programas habitacionais, do embrionário modelo do Sistema Único de Segurança Pública e das ações no campo dos direitos humanos. Quase todo o Estado brasileiro sofreu um processo de deterioração institucional.

Em cada uma dessas políticas públicas será necessário apaziguar o conflito gerado pelo bolsonarismo, retomar o diálogo com os atores estratégicos, trazer de volta o que havia de bom e corrigir o que precisa se adequar às novas demandas do século XXI. De todo modo, o objetivo é sair da lógica das guerras culturais e estruturar os programas governamentais de forma profissional, baseando-se em evidências e no expertise de técnicos governamentais e especialistas que trabalham há anos com o assunto.

Vera Magalhães - O crime ruidoso acua e compensa

O Globo

Quando abusos de um populista são endossados por um público grande e radicalizado, as instituições têm receio de agir

Jair Bolsonaro foi um mestre ao arquitetar o 7 de Setembro e fazer com que ele ocorresse exatamente segundo o que planejou. Mais de um mês antes, disse que a micareta seria na Praia de Copacabana, que favoreceria a mistura proposital dos militares e do povo. Disseram que o Exército não aceitaria, o prefeito Eduardo Paes tentou resistir, mas, no fim, tudo ocorreu como ele designou.

O presidente formulou discursos sem xingamentos, mas cheios de mensagens subliminares, conhecidas como “apitos de cachorro”. Estava lá a ameaça velada de trazer para as tais “quatro linhas” aqueles que estão agindo fora dela, ou seja, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Isso não foi casual, tampouco sinal de moderação, algo impossível no bolsonarismo e no caldo altamente radicalizado que está sendo curtido nas redes — e que deu as caras nas ruas de Brasília e do Rio, nas mensagens presentes em cartazes e guindastes.

Nos dias anteriores aos atos, mensagens nos grupos públicos bolsonaristas de WhatsApp já avisavam aos “patriotas” que não haveria agressões aos ministros do Supremo porque o Judiciário, que seria aliado da esquerda, estaria “provocando” Bolsonaro com atos como a proibição de celulares e armas no dia da eleição, na expectativa de que a reação do presidente ensejasse interpretações de que ele pretende dar um golpe.

César Felício* - O #EleNão bolsonarista

Valor Econômico

Mobilização e radicalização andam de mãos dadas

O 7 de setembro, de um certo modo, foi o equivalente ao #EleNão do bolsonarismo. O golpismo teve ampla guarida no público vestido de verde e amarelo anteontem na praia de Copacabana, como mostrou o levantamento de um núcleo da USP, publicado no site do jornal “O Globo”, mas esta não foi a tônica das ruas.

Muito mais forte na retórica do presidente Jair Bolsonaro foi a diatribe contra o nove-dedos, o carniça, o cachaceiro, o ladrão, o comunista, o ameaçador das tradições, o pervertedor das famílias.

A aposta nas ruas implica naturalmente em radicalismo, não há outra maneira de se conseguir uma mobilização. Prega-se aos convertidos. Bolsonaro ontem reuniu uma plateia de aficcionados - 91% dos presentes votaram nele em 2018, de acordo com a pesquisa divulgada pelo “O Globo”. O saldo mais concreto em termos eleitorais é uma energização da base que leva o seu eleitor a se empenhar mais na persuasão ou intimidação de quem pensa diferente.

José de Souza Martins* - Álibis políticos da corrupção

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O homem comum tem dificuldade para perceber que em países como o Brasil há ladrões honestos, isto é, os que são corruptos nos procedimentos que redundam em seu enriquecimento

O destino político do Brasil tem sido hipocritamente decidido pelo retorno cíclico da suposta honestidade de alguns contra a suposta corrupção de outros. Em havido, até, governantes eleitos na presunção autoproclamada de que são honestos, de uma imaculada honestidade que salvará o país da suposta roubalheira dos demais. Corrupto é sempre o outro. Temos até corruptos bentos. Ninguém explica, porém, que corrupção é essa nem que honestidade é essa. E políticos provavelmente íntegros e melhores têm deixado de ser candidatos e até de ser eleitos porque não conseguem provar e convencer que não são desonestos. Coisas de um país do avesso.

Para entender esse país anômalo, cada vez mais rico e mais pobre ao mesmo tempo, cujas irracionalidades econômicas, sociais e políticas são produzidas, apoiadas e estimuladas pelo próprio governo, é preciso compreender sua estranha e persistente formação.

Sua base histórica é o município. Desde os primeiros anos da Conquista, tornou-se ele a base da estrutura política brasileira e fundamento da superestrutura da administração pública, mesmo quando ela se desdobrou nos poderes das províncias, dos estados e da nação. Criou uma cultura política.

Claudia Safatle - Mobilidade social e populismo

Valor Econômico

Parece que elevador social do mundo desenvolvido quebrou

Cresce no mundo a preocupação com o encolhimento das oportunidades de trabalho da classe média na estrutura de ocupações, por avanço tecnológico. Há, porém, um aumento nas ocupações do estrato alto (associadas com o pensamento crítico, solução de problema, criatividade, interação com pessoas) e, em menor escala, nas do estrato baixo (transporte, serviços simples, cuidados pessoais).

É a polarização do trabalho que, em íntima associação com o aumento da mobilidade social descendente da classe média, formam a raiz do populismo que se instalou em parte do mundo, cujos líderes eram e são: Donald Trump (EUA), Boris Johnson (Reino Unido), Alexis Tsipras (Grécia), Viktor Orbán (Hungria), Recep Erdogan (Turquia), Vladimir Putin (Rússia), Rodrigo Duterte (Filipinas), Evo Morales (Bolívia), Pedro Castillo (Peru), Andrés Manuel López Obrador (México), Hugo Chávez e Nicolás Maduro (Venezuela), Cristina Kirchner e Alberto Fernández (Argentina), Gabriel Boric (Chile), Lula e Jair Bolsonaro (Brasil).

Essa é a síntese de trabalho elaborado por José Pastore e apresentado em debate recente na Fipe (Fundação instituto de Pesquisa Econômica). Na Europa, nos EUA, na América Latina e no Brasil, em particular, o fenômeno se repete e fragiliza a democracia.

Eliane Cantanhêde - O Dia da Pátria que não houve

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro jogou a rede e colheu o 7 de Setembro, o bicentenário e toda a mídia

O presidente Jair Bolsonaro não só implodiu a Constituição e as leis, sequestrou o 7 de Setembro e o bicentenário da Independência do Brasil e pôs a estrutura, os recursos, os funcionários públicos e as Forças Armadas a serviço da reeleição como também capturou toda a mídia nacional e os jornalistas com a armadilha da “princesa” e o “imbrochável”.

Não há uma só referência do presidente ao Dia da Pátria e à Independência na quarta-feira, em que rádios, televisões, internet e nós, editores, comentaristas, colunistas, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas demos ao candidato Bolsonaro uma exposição que nenhum de seus concorrentes terá em toda a campanha, na cobertura e na propaganda eleitoral.

“Trending topics” do Twitter e citado até no The New York Times, o “imbrochável”, difícil de traduzir, foi o sucesso do Dia da Pátria. Tão abjeto quanto o presidente comparar sua mulher e a dos adversários e convocar solteiros a casar com “princesas”. Ou quanto o então presidente Lula se referir-se ao “ponto G” feminino numa entrevista com o americano George W. Bush em São Paulo. Isso tudo diminui homens, mulheres e o País.

Laura Karpuska* - A bandeira é nossa.

O Estado de S. Paulo

Excluir quem não apoia o governo é uma tentativa de desmonte da nossa identidade nacional

Na quarta-feira pela manhã passei próximo à Avenida Paulista. Ambulantes vendiam bandeiras do Brasil para apoiadores do presidente que iam chegando aos poucos. Era uma onda verde-amarela.

Comemoramos 200 anos da nossa independência, mas a celebração era partidária. Era pró-Bolsonaro. A exceção talvez tenha sido a feliz reinauguração do Museu do Ipiranga. O resto foram eventos com tom golpista e repletos de falta de decoro.

A apropriação das cores da bandeira por um grupo político não é apenas uma infelicidade para quem quer torcer na Copa pela Seleção, mas não quer ser confundido com um apoiador do presidente. É também uma forma de enfraquecer nosso tecido social.

Simon Schwartzman* - O Golpe da Independência

O Estado de S. Paulo

É triste quando um povo celebra sua identidade e sua história desfilando tanques e cultivando cadáveres.

Cem anos atrás, o Brasil comemorava um século da independência com uma grande exposição internacional no Rio de Janeiro, em que se celebrava a entrada do País na modernidade do rádio e da eletricidade. Havia nela o Pavilhão da Estatística, dedicado à “ciência da certeza”, que apresentava os resultados do censo brasileiro de 1920, o primeiro em quase 50 anos (*). Fake news, nunca mais! 1922 foi, também, o ano da Semana de Arte Moderna, em que pintores e escritores se propunham a mostrar o Brasil como ele era e falava de verdade, do Macunaíma de Mário de Andrade aos operários de Tarsila do Amaral, livres das amarras da pintura clássica e do português castiço das velhas elites educadas em Coimbra.

O tema era o Brasil do futuro, e ninguém olhava muito para o dia em que, cem anos antes, a Família Real dera um golpe de Estado contra a revolução liberal portuguesa, que limitava seus poderes, e colocara a coroa brasileira na cabeça do herdeiro, Pedro I, “antes que um outro aventureiro o faça”, como diz a lenda. Mas a República Velha não se movia, e o povo, que havia assistido bestializado ao fim do Império, continuava sem entender o que República e mundo moderno lhe traziam.

Vinicius Torres Freire – Dinheiro grosso está calmo na eleição

Folha de S. Paulo

Parece que a atitude média dos donos do dinheiro é: 'depois do tombo, deste chão não passamos'

A campanha eleitoral parece não ter efeito negativo algum em indicadores financeiros, até agora: taxa de câmbio ("preço do dólar"), taxas de juros de prazo mais longo, Bolsa, por exemplo. Nos últimos dois meses, houve discreta melhora. Parece que a atitude média dos donos do dinheiro é: "depois do tombo, deste chão não passamos". Até novembro, ao menos.

As taxas de juros de prazo mais longo, dois anos em diante, baixaram. Tanto que a direção do Banco Central deu um grito nos povos dos mercados, para que não ficassem tão animadinhos com a perspectiva de queda precoce da Selic. As taxas de câmbio reais saíram do fundo do poço de meados de 2020. Até o Ibovespa saiu do buraco de julho, embora ainda longe do pico do ano, em abril.

Negociadores de dinheiro grosso dizem que a eleição, em si, pode ser um "não evento". Embora não tenham programa animador ou, no que interessa para a finança, programa quase algum, os candidatos principais, Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) teriam histórico "conhecido".

Bruno Boghossian - O roubo do ano

Folha de S. Paulo

Em busca de voto não ideológico, campanha do PL precisa tomar 1 milhão de eleitores por semana

Jair Bolsonaro precisa roubar mais do que um punhado de votos de Lula para ter a chance de um novo mandato. Se a disputa for ao segundo turno, o presidente só vence se conquistar 100% dos indecisos, virar todos os votos nulos e ainda tomar do petista 4 milhões de eleitores. Sem os nulos, a tarefa é mais difícil: Bolsonaro teria que atrair 9 milhões de eleitores que estão com Lula —mais de 1 milhão por semana.

Não há caminho possível para Bolsonaro nesta corrida que não passe pela tomada de pelo menos alguns territórios pintados de vermelho. A missão é particularmente complicada numa eleição marcada por uma cristalização do voto e um alto índice de rejeição ao presidente.

Hélio Schwartsman - O nó górdio do TSE

Folha de S. Paulo

Grilagem do bicentenário por Bolsonaro põe TSE em encrenca

Como previsto, Bolsonaro transformou as comemorações do bicentenário em comício eleitoral. Nunca entendi o fascínio humano por números redondos. Não vejo por que 200 anos mereçam celebração mais vistosa que 193 anos, por exemplo. Eu particularmente prefiro números primos a redondos. O fato, porém, é que Bolsonaro não só grilou a data cívica como também pôs a estrutura do Estado, Forças Armadas incluídas, a serviço de sua candidatura. Como previsto, partidos representaram contra ele, e o TSE vai ter de decidir.

Reinaldo Azevedo - Pobres, democracia e imprensa

Folha de S. Paulo

Sociedade está desaparelhada para enfrentar assalto às instituições

O Datafolha vai dizer daqui a pouco se a cruzada criminosa de Jair Bolsonaro no 7 de Setembro interferiu de forma importante na decisão do eleitorado. Estava em curso já um movimento de discreta aproximação entre os líderes das pesquisas. Tendo havido uma aceleração, pode-se especular que a "demonstração de força" tenha surtido efeito.

O TSE não vai cassar a chapa encabeçada pelo presidente. Ou sobreviria o caos. O populismo em tempo de redes é novo, mas a prática é antiga: acuar as instituições ou cooptá-las, a exemplo da Procuradoria-Geral da República. Os inquéritos hoje sob a relatoria de Alexandre de Moraes são a única barreira de contenção. Moraes se tornou um dos alvos da imprensa.

A extrema-direita populista que fala diretamente às massas por intermédio das redes sociais, sem qualquer mediação, populariza, como é sabido, teses e pautas as mais obtusas e reacionárias. O algoritmo virou senhor da razão e critério para aferir a verdade.

Luiz Carlos Azedo - A Rainha Elizabeth II deu sobrevida ao império

Correio Braziliense

O fracasso do Brexit e a guerra da Ucrânia abalam a economia do Reino Unido, agora sem sua icônica rainha. A estabilidade política é vital à manutenção da Commonwealth sob a liderança de Charles III

“Chegou no porto um canhão/ De repente matou tudo, tudo, tudo/ Capitão senta na mesa/ Com sua fome e tristeza, esa, esa/ Deus salve sua rainha/ Deus salve a bandeira inglesa”. Sul da Bahia, década de 1930, um aventureiro sem nome nem passado, sete vezes baleado, sorridente, trovador e feroz, intromete-se na luta dos grandes coronéis pela posse da terra e do cacau. Está disposto a acirrar a guerra de interesses econômicos e tomar o lugar do coronel Santana, sua mulher e seu dinheiro. Precipita um banho de sangue, no qual sucumbem sertanejos simples e os próprios usineiros. O homem parece conseguir o seu intento, mas seu destino também está assinalado pelos deuses.

O enredo do filme Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra, com trilha sonora de Milton Nascimento, autor da descrição acima, tem como pano de fundo o colonialismo britânico, daí a exaltação à rainha. Lançado em 1970, o filme era uma alegoria do regime militar e da atuação dos Estados Unidos, que haviam substituído o império britânico como força hegemônica no mundo após a II Guerra Mundial. O filme foi saudado pelo The New York Times como um “western tropical”, que misturava o japonês Akira Kurosawa com o italiano Sérgio Leone, tendo a temática do cacau na saga descrita por Jorge Amado.

Bernardo Mello Franco - A rainha e o capitão

O Globo

No sexto mês de governo, Jair Bolsonaro acusou o Congresso de tratá-lo como uma Elizabeth II sem coroa. O capitão estava invocado com um projeto de lei para dar aos parlamentares o poder de indicar diretores de agências reguladoras. “Querem me deixar como a rainha da Inglaterra?”, esbravejou.

A fala do presidente reproduziu um engano comum: a ideia de que a rainha britânica só teria papel decorativo. No Reino Unido, o governo é exercido por representantes eleitos, mas o monarca tem atribuições relevantes. É o chefe de Estado, exerce funções diplomáticas e serve de anteparo em crises políticas.

Em 70 anos no trono, Elizabeth II conviveu com 15 primeiros-ministros. Todos cumpriram o ritual de visitá-la semanalmente para relatar problemas, pedir conselhos e dividir decisões. Essas audiências inspiraram peças e filmes, mas nunca foram gravadas, filmadas ou vazadas à imprensa. Permanecem como a caixa-preta do reino, na definição do jornalista e biógrafo Andrew Marr.

Flávia Oliveira - Nunca esquecer

O Globo

Rainha foi a gestora que manteve de pé a Firma e liderou o mais bem-sucedido projeto de marketing da monarquia no planeta

Sou consumidora voraz das histórias e da produção audiovisual sobre a folhetinesca monarquia britânica. Aos 11 anos, em julho de 1981, passei horas diante da TV assistindo ao casamento de Diana Spencer com o príncipe Charles. O vestido de tafetá e renda marfim, com mangas bufantes e cauda de 7,6 metros, povoou meu imaginário a ponto de, uma década depois, ter eu mesma fugido do branco total radiante na minha cerimônia religiosa. Acompanhei delícias e dores — mais estas que aquelas — da princesa de Gales até a derradeira madrugada em Paris, em 1997. Quatro anos atrás, madruguei para acompanhar o casamento do então príncipe Harry, caçula do agora rei, com Meghan Markle. Emocionou-me, por familiar, a emoção de Doria Ragland, uma mãe negra americana, sem cônjuge, na cerimônia que uniu à filha um integrante da monarquia britânica.

De férias em Londres, em 2012, durante os Jogos Olímpicos, passeei por salões e pelo gramado de Buckingham. Festejavam-se os 60 anos de reinado de Elizabeth II. Nos meses de calor, quando a rainha se retirava para a residência de verão, o palácio se abria à visitação de súditos e turistas. Ali comprei a mais cara peça da coleção de canecas de viagens que iniciei em 1993. Custou dez libras esterlinas — moeda forte é outra coisa. Conto tudo isso para revelar a consumidora voraz que sou da saga folhetinesca da família real britânica sob o comando de Elizabeth II. E, claro, maratonei “The Crown”, a série da Netflix.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Elizabeth II foi mais que uma mera rainha da Inglaterra

O Globo

Ela soube dar um rosto moderno à monarquia — instituição que estava ameaçada quando subiu ao trono

Apenas o francês Luís XIV ficou mais tempo no trono que Elizabeth Alexandra Mary Windsor, a rainha Elizabeth II do Reino Unido, morta ontem aos 96 anos. Ao longo dos 70 anos, sete meses e dois dias de seu reinado, houve sete papas, 16 primeiros-ministros britânicos, 14 presidentes americanos e 18 brasileiros (sem contar interregnos). Foram 17 Copas do Mundo e 18 Olimpíadas. No início havia dúvidas de que aquela jovem de 25 anos conseguiria dar sobrevida à instituição que andava moribunda depois da Segunda Guerra. Elizabeth II desafiou as expectativas e deu um rosto moderno à monarquia britânica.

Pelo sistema político sui generis em vigor no Reino Unido (e nos demais países por onde se espalham súditos do trono britânico), o papel do monarca é simbólico, cerimonial, quase decorativo. Mas Elizabeth II foi mais que uma mera “rainha da Inglaterra”, na expressão pejorativa consagrada para designar os governantes sem poder. Conciliou a obrigação de manter distância de disputas políticas à necessidade de conferir a seu país — uma potência em declínio — um novo papel no Pós-Guerra. Viajou o mundo (Brasil inclusive), levando a mensagem de que os britânicos, ainda que não comandassem mais o “Império onde o sol nunca se põe”, continuavam relevantes.