quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Vera Magalhães - O Mito nasce e morre pela boca?

O Globo

Eleito em 2018 com um forte aparato de redes sociais, Bolsonaro se vê assombrado pelo tipo de comunicação que o notabilizou

A campanha de Jair Bolsonaro terminou o domingo entre aliviada e exultante. Aliados comemoravam a decisão de Alexandre de Moraes de mandar o PT retirar do ar reproduções do vídeo em que, em entrevista a um podcast na última sexta-feira, o presidente dizia que “pintou um clima” quando visitou uma casa que abrigava refugiadas venezuelanas de 14 e 15 anos. O desempenho do candidato do PL no debate com Lula também era fator de otimismo. Não contavam com a língua de Bolsonaro.

Eleito em 2018 com um forte aparato de redes sociais, consolidado muito à custa de suas “mitadas”, as declarações sem filtro que deu ao longo da vida sobre mulheres, negros, tortura, população LGBTQIA+ e outros alvos, o presidente se vê assombrado, na campanha pela reeleição, justamente pelo tipo de comunicação que o notabilizou.

De duas, uma: ou o Q.G. bolsonarista não fez uma varredura para constatar que Bolsonaro já havia mencionado o caso das meninas venezuelanas pelo menos num evento transmitido pela TV Brasil e a um outro podcast (de um pool evangélico, aliás), ou contou com o amadorismo da campanha de Lula para que a reiteração da insinuação de que as meninas se prostituíam passasse batida. Deu errado.

Bernardo Mello Franco - Vale tudo pela reeleição

O Globo

Governo antecipa pagamentos e anuncia uma benesse por dia para tentar virar a disputa

O governo liberou ontem a quarta parcela do auxílio para motoristas autônomos. O dinheiro pingou na conta de 670 mil taxistas e caminhoneiros. Cada um deles recebeu mais R$ 1.000 antes da data prevista — e a menos de duas semanas do segundo turno.

Jair Bolsonaro anunciou o benefício com a alegação de que o combustível estava caro. O Planalto torrou recursos públicos para reduzir o preço da gasolina e do diesel, mas não se lembrou de suspender a despesa extra. Todo gasto é pouco no esforço pela reeleição.

No início de junho, o pacote de bondades já custava mais de R$ 340 bilhões, incluindo o aumento do Auxílio Brasil, o Auxílio Gás e a antecipação do 13º dos aposentados. Apesar da gastança, Lula ficou a menos de 2 milhões de votos de vencer no primeiro turno.

A paulada das urnas fez o governo raspar ainda mais os cofres públicos. Em uma semana, foram queimados outros R$ 15,7 bilhões em novos benefícios. Agora a ordem é anunciar uma benesse por dia para tentar virar a disputa.

Elio Gaspari - A bola está nos pés de Lula

O Globo

A questão é o que ele vai fazer com ela

Lula já viu isso. Celso Rocha de Barros conta no livro “PT, uma história” que, no primeiro semestre de 1994, ele pediu ao presidente do partido, Rui Falcão, que começasse a sondar nomes para seu governo. Pudera, em fevereiro tinha 30% das intenções de voto, e Fernando Henrique Cardoso, com sua promessa de estabilização da moeda, patinava em 7%. Falcão não gostou da ideia. Achava prematura. Em julho, Lula caiu de 41% para 38%, e FH foi para 21%. Em outubro, deu no que deu.

Sem levar em conta o debate do domingo, o ponteiro da pesquisa do Ipec não se mexeu. No debate, Lula entrou cavalgando o Bolsonaro da pandemia. Estonteou-o. Nos segmentos seguintes, Bolsonaro trouxe-o para a discussão das malfeitorias praticadas durante seus oito anos de governo.

Luiz Carlos Azedo - Estratégia de Lula tipo “bateu, levou” favorece Bolsonaro

Correio Braziliense

Os ataques de Lula não fazem grande efeito, a não ser em casos em que a imagem de Bolsonaro no seu próprio campo pode ser abalada, como a história das meninas venezuelanas, um tiro no próprio pé

O comentário é de quem entende de marketing eleitoral, Luiz Gonzales, veterano de campanhas do PSDB: “Eu acho que a estratégia da campanha Bolsonaro de rolar na lama emparedou a campanha de Lula. Atacada com tantas barbaridades, a campanha de Lula ataca igual. Mas já está tudo na conta. Ninguém subiu. Mas Lula não projeta esperança e, com isso, não captura votos dos eleitores sem preferência partidária e sem rejeição brutal ao Bolsonaro”. O diagnóstico é compartilhado por aliados de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não petistas, apreensivos, principalmente, com a situação eleitoral de São Paulo, onde uma vantagem de 10% dos votos a favor do presidente Jair Bolsonaro pode leva-lo à reeleição.

Segundo esses aliados, Bolsonaro trouxe Lula para um confronto no pântano das fake news e das baixarias eleitorais como uma estratégia de quem não tem mais nada a perder nesse terreno. O problema é que os ataques de Lula não fazem grande efeito, a não ser em alguns casos em que a imagem de Bolsonaro no seu próprio campo poderia ser abalada, como a história das meninas venezuelanas, que Bolsonaro tratou como se fossem prostitutas e teve que ir até elas pedir desculpas, para minimizar o estrago que sofreu.

Fernando Exman - Uma nova arquitetura para o teto de gastos

Valor Econômico

PEC é formatada, enquanto campanha foca outros temas

A despeito da expectativa - ou torcida - de empresários e investidores, a esta altura da campanha eleitoral é possível lamentar que há poucas chances de se ver um debate franco entre os dois postulantes a presidente sobre o futuro do teto de gastos e o arcabouço fiscal que o Brasil terá a partir do ano que vem.

À frente das pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deveria ser mais claro. Seu programa fala da demolição do teto, mas não dá pistas claras do que ele pretende construir no lugar.

Daniel Rittner - O ‘superplano’ de PPPs do novo governo Lula

Valor Econômico

Ideia no PT é usar crédito do BNDES e garantia do Tesouro

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem dito frequentemente que, se eleito, chamará os 27 governadores e os prefeitos das capitais para uma reunião, no começo de janeiro, com o objetivo de definir logo projetos prioritários na área de infraestrutura. Obras como a Fiol, ferrovia que corta a Bahia, e um programa emergencial de recuperação das estradas já são candidatos óbvios para ganhar mais recursos. A obtenção de uma licença temporária para gastar, talvez antes mesmo de mudanças na regra do teto de gastos, deverá ditar o ritmo de investimentos orçamentários nos primeiros meses de um eventual novo governo Lula.

Mas outra iniciativa - esta sim com potencial de “game changer” na infraestrutura do país - vem sendo desenhada por pessoas que recentemente se aproximaram do núcleo de economia do PT. Trata-se de um superplano de PPPs (parcerias público-privadas) para Estados e municípios, que ficarão como responsáveis pela contratação dos projetos, mas com estímulo direto do governo federal para viabilizá-los. Um dos focos será o investimento em mobilidade urbana: metrô, VLTs, BRTs. São obras que exigem investimento bilionário, empregam milhares de trabalhadores na construção e depois melhoram a qualidade de vida de milhões de pessoas.

Mario Mesquita - Uma crise particular?

Valor Econômico

Depois das ondas de endividamento dos últimos anos, o espaço fiscal pode se mostrar bem mais exíguo

Carlos I, da Inglaterra, perdeu uma guerra civil, foi acusado de traição e acabou sendo decapitado. Seu filho, Carlos II, foi convocado pelo Parlamento, que havia condenado o pai, a retomar o trono, começando a longa e exitosa trajetória de monarquia constitucional na Inglaterra, que perdura até hoje. Esperemos que o reinado de Carlos III se pareça muito mais com o do segundo. Mas o fato é que o primeiro evento relevante em seu reinado foi uma crise fiscal e financeira - sobre as quais o monarca não tem nenhuma responsabilidade, claro, o Parlamento continua governando o Reino Unido.

A crise, até o momento, custou o emprego do Chanceler (Ministro da Fazenda), e, a julgar pelos comentaristas políticos, pode determinar o fim bem prematuro do governo de Liz Truss, e, em última instância, contribuir para levar os Trabalhistas de volta ao poder, na próxima eleição.

Vera Rosa - O ‘fogo amigo’ que atinge Haddad

O Estado de S. Paulo

Em grupo, Emídio diz que culpar ex-prefeito por desempenho de Lula em SP é ‘miopia’

Uma bronca dada em dirigentes do PT pelo WhatsApp provocou mal-estar no comitê de Luiz Inácio Lula da Silva. Na mensagem, o deputado Emídio de Souza, coordenador da campanha de Fernando Haddad ao Palácio dos Bandeirantes, definiu a tentativa de culpar o ex-prefeito pelo desempenho de Lula em São Paulo como “miopia pura ou coisa pior”.

Emídio citou “o velho e nefasto ‘fogo amigo’” para pedir que a lavação de roupa suja não fosse feita “no meio da guerra”. O pito de 25 linhas foi enviado há duas semanas no grupo da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), a mesma de Lula e Haddad, majoritária no partido.

Bruno Boghossian – Trabalho de formiguinha

Folha de S. Paulo

Capilaridade criada pela campanha do presidente pode favorecer mobilização de eleitores

Num coquetel na casa de um empresário, a senadora Simone Tebet reúne 650 convidados e defende que eles votem em Lula para preservar a democracia brasileira. Enquanto isso, em milhares de templos evangélicos espalhados pelo país, pastores aterrorizam fiéis com a falsa alegação de que a vitória do atual presidente é a única maneira de evitar que o PT feche igrejas.

A capilaridade é uma das principais armas de Jair Bolsonaro para converter votos no segundo turno. Além de pulverizar um discurso contra Lula nos templos, a campanha do presidente faz uma aproximação em massa com prefeitos e aposta no uso despudorado da máquina do governo para melhorar a imagem do presidente nos municípios.

Mariliz Pereira Jorge - Barbie fascista

Folha de S. Paulo

Não há nada que seja dito sobre Bolsonaro que a tire do transe emburrecedor

Você conhece o meme da Barbie Fascista? A famosa boneca ilustra situações e falas absurdas que ajudam a revelar o perfil canalha de parte da sociedade. Suas principais características são desconexão com a realidade, falta de consciência social, preconceitos dos mais variados, profunda ignorância política.

São pessoas manipuláveis que repetem frases prontas quando confrontadas sobre questões que podem e devem ser debatidas. Mas a Barbie Fascista só consegue repetir "Lula ladrão", "bilhões da Petrobrás", "vai pra Cuba", "tá com saudade da mamata". É a típica boneca que vem de fábrica com repertório limitado. Como Jair Bolsonaro teve mais de 50 milhões de votos? Barbie Fascista explica melhor do que qualquer cientista político. Ela não se preocupa com falência da democracia, teocracia, ditadura — a menos que seja de esquerda, direitos individuais — a não ser para tomar seu MD em Mikonos e para fazer seu aborto numa clínica clandestina bem limpinha, sem contar para ninguém, claro.

Hélio Schwartsman – Conselho cooptado

Folha de S. Paulo

CFM ficou tão bolsonarista que bane maconha, mas legitima a cloroquina

Em janeiro de 2021, quando as principais associações médicas do planeta já haviam concluído que a cloroquina era ineficaz no tratamento da Covid-19, o então presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) escreveu um artigo na Folha em que dizia que a entidade, por "respeito absoluto à autonomia do médico" para tratar seu paciente, mantinha a possibilidade de os profissionais fazerem o uso "off label" da droga.

Em outubro de 2022, o mesmo CFM (a diretoria mudou, mas os conselheiros são os mesmos) baixou uma resolução que tira dos médicos a possibilidade de prescrever "off label" o canabidiol (CBD), um dos princípios ativos da maconha. A partir de agora, o CBD só pode ser receitado em duas situações muito específicas de epilepsia refratária a outros tratamentos, apesar de a molécula receber cada vez mais atenção da comunidade científica por seus efeitos benéficos em um amplo rol de doenças.

Vinicius Torres Freire - Suspeita de crime na Defesa

Folha de S. Paulo

Fiscalização das urnas por militares e caso das venezuelanas são caso de polícia

O ministério da Defesa tem de entregar ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) o relatório da fiscalização eleitoral ou de seja lá o que fuçaram nas urnas na eleição de 2 de outubro. O prazo acaba na quinta-feira (20), tempo bastante para que se invente alguma desculpa, farsa ou chicana a fim de se burlar a boa-fé.

Para explicar sua decisão, Alexandre de Moraes, ministro do TSE, afirmou também que esse trabalho das Forças Armadas pode ter sido em favor de um candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), o que em tese é desvio de finalidade e abuso de poder.

Ou seja, é suspeita de crime de militares em favor de um presidente-candidato. A gente não liga mais, pois a delinquência oficial foi normalizada, mas isso é muito grave.

Se bolar uma chicana ou entregar um papelucho farsesco, o ministério que administra as Forças Armadas terá procedido outra vez segundo o padrão do bolsonarismo: se flagrado, ainda mais sob risco de cadeia, minta, camufle ou choramingue pedindo desculpas como um covarde cínico.

Câmara aprova urgência para criminaliza pesquisas

Em meio à investida de governistas contra institutos, Arthur Lira (PP-AL) colocou em votação a urgência de projeto que impõe até dez anos de prisão a quem "errar" resultado

Por Natália Portinari / O Globo

BRASÍLIA - A menos de duas semanas para o segundo turno das eleições de 2022, a Câmara dos Deputados aprovou, nesta terça-feira, a urgência para votar projetos de lei que criminalizam a divulgação de pesquisas que não correspondam ao resultado das urnas. Essas propostas serão, agora, priorizadas na fila de proposições que aguardam apreciação da Casa.

Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, colocou em pauta a votação da urgência nesta terça-feira, mas ainda não há data para a votação do mérito, quando o conteúdo da proposta será debatido pelos parlamentares. Na sessão, ele disse que não há um texto definido e que o projeto será discutido entre os líderes, negando se tratar de uma "punição" aos institutos de pesquisa.

— O que está acontecendo hoje no Brasil e nos estados é um absurdo que deve ser combatido — disse o líder do PP, André Fufuca (MA), partido que compõe a base do governo Bolsonaro.

Em reunião de líderes na residência de Lira na tarde desta terça-feira, foram discutidas versões mais "brandas" do projeto. Uma seria a responsabilização cível — obrigando ao pagamento de indenização, por exemplo — de institutos que fizerem sondagens em que o resultado das urnas ficar muito longe da margem de erro. Outra seria a proibição da divulgação de pesquisas 15 dias antes do pleito.

Não se chegou a um acordo entre os líderes e, por isso, foi votada apenas a urgência de projetos já existentes, com o compromisso de debater um novo texto após o segundo turno das eleições.

Base do governo a favor

O que a mídia pensa – Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Moro, o inimigo da Lava Jato

O Estado de S. Paulo

Ao apoiar Bolsonaro, a quem acusou de interferir na PF, Moro diz que a lei é só para os inimigos e que, na política, vale tudo. É a antítese perfeita da mensagem renovadora da Lava Jato

A Operação Lava Jato teve dois grandes méritos. Em primeiro lugar, mostrou que a lei vale para todos – ricos e pobres, empresários e políticos, poderosos e anônimos. Todos devem responder por seus atos. Longe de significar uma obviedade, a recordação desse princípio republicano básico – todos são iguais perante a lei – representou uma revolução na percepção sobre a Justiça brasileira, que, até então, quase sempre tinha se mostrado conivente com a impunidade dos poderosos.

O segundo grande mérito da Lava Jato foi mostrar ao País que a política não pode prevalecer sobre a lei. Toda a atuação política deve estar submetida ao império da lei – e isso vale também para as estatais e empresas de capital misto, para as indicações de cargos, para as licitações, para os acordos partidários, para as doações de campanha. Nada está fora do alcance da lei.

Trata-se de dois grandes legados da Operação Lava Jato, que transcendem, em boa medida, os resultados dos próprios processos penais. Seja qual for o encaminhamento que um caso tenha recebido ou venha a receber, é de reconhecer que o País adquiriu, com a Lava Jato, um outro patamar de exigência em relação ao cumprimento da lei.

Poesia | Fernando Pessoa - Mar português

 

Música | Edu Lobo / Orquestra Brasil Jazz Sinfônica - Choro Bandido

 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Hélio Schwartsman - Canoa furada

Folha de S. Paulo

Episódio do canibalismo e 'pintou um clima' eram falas reais do candidato

Sei que, nos tempos conturbados em que vivemos, o STF e o TSE se tornaram indispensáveis polos de resistência às investidas autoritárias de Jair Bolsonaro e sua turma. Nessa missão, os togados têm todo meu apoio. Mas gosto de imaginar que vivemos num ambiente adulto e racional, no qual críticas ponderadas são vistas como uma contribuição, não um ataque a pessoas ou a instituições.

Feito esse esclarecimento, penso que o TSE está cometendo erros em série nas decisões sobre o que constitui propaganda abusiva. A corte chegou ao ridículo de, na prática, censurar declarações de Bolsonaro para protegê-lo de si mesmo. Tanto no episódio do canibalismo como no do "pintou um clima" o que foi ao ar eram falas reais do candidato, sem adulteração ou cortes enviesados. Não acho que apetites antropofágicos e desejos pedófilos sejam as melhores interpretações para entender os dois casos, mas o ponto é que não cabe à corte tutelar interpretações. Poderia, no máximo, proscrever a falsificação de fatos incontestes e, mesmo aí, é preciso moderação, pois é difícil encontrar discursos de candidatos que não venham repletos de erros factuais. Se Bolsonaro deu declarações infelizes, é muito razoável que arque com as consequências.

Cristina Serra - Bolsonaro e os ladrões de Brasil

Folha de S. Paulo

Atual governo é uma rede de predadores da infância e de mulheres

Ao dar exemplos de profissões para os jovens, no debate da Band, Bolsonaro mencionou marceneiro e auxiliar de enfermagem, ofícios dignos e honrosos, sem dúvida. Mas o que Bolsonaro expressou foi a visão excludente (a mesma de Guedes e de Milton Ribeiro), de que a universidade não cabe nos sonhos da juventude das periferias.

A aversão aos pobres também ficou explícita quando o tema foi a visita de Lula a uma comunidade, no Rio de Janeiro. Bolsonaro disse que só tinha "traficante" em volta do ex-presidente. Para o candidato que tem conexões com milicianos (um deles, seu vizinho até ser preso), quem mora em favela é bandido.

Alvaro Costa e Silva - Compra de votos

Folha de S. Paulo

Agentes do governo e pessoas ligadas à candidatura de Bolsonaro sentem-se autorizados a burlar a lei

Além de acirrar o medo e a violência física, as eleições de 2022 estão estabelecendo um novo marco de crimes. Não há santos na hora de garantir ou virar um voto, os dois lados cometem exageros e irregularidades, mas os agentes do governo e as pessoas ligadas à candidatura da reeleição se sentem mais à vontade ou mesmo autorizados a burlar a lei.

Há episódios pitorescos, como o da tia que em Minas Gerais escondeu o título do sobrinho de 17 anos e se justificou: "Ele é abestalhado. Ganhou R$ 10 para votar no Bolsonaro". Outros resultam em tragédia: em Goiás, uma mulher foi esmagada e acabou morrendo ao participar da promoção "Picanha do Mito", que previa a venda por R$ 22 de uma peça de picanha que custa R$ 130 a quem estivesse com a camisa da seleção brasileira. Ao fiscalizar o frigorífico, depois do tumulto, o Procon encontrou 50 quilos de carne estragada.

Joel Pinheiro da Fonseca - Existe fake news do bem?

Folha de S. Paulo

Notícias falsas empobrecem o debate e tolhem a liberdade de expressão

O nível de campanha eleitoral sempre foi baixo. Mas em 2018 Bolsonaro varreu o panorama eleitoral numa campanha que bateu todos os recordes de mentiras, calúnias e fake news. Agora, em 2022, está fazendo de novo. A diferença é que a oposição hoje sabe um pouco melhor como reagir. E alguns petistas estão, inclusive, fazendo igual.

O principal exemplo é o deputado André Janones. Veicula e promove fake news contra Bolsonaro de todas as maneiras possíveis. Vídeos sensacionalistas, acusações infundadas, tom apocalíptico. Está agora criando um exército de voluntários para aumentar ainda mais o alcance desse material. Até ontem a ordem do dia era acusar Bolsonaro de pedofilia. O TSE proibiu essa, mas tenho certeza que amanhã aparecerá uma nova.

Andrea Jubê - Pintou um clima de ‘flashback’ nas urnas

Valor Econômico

Em 2014, Dilma venceu em Minas, com o PT no governo

À medida que se aproxima o segundo turno, surgem semelhanças entre a reta final desta eleição presidencial e o pleito de 2014.

A disputa que opôs a presidente Dilma Rousseff (PT), em busca da reeleição, e o senador Aécio Neves (PSDB), foi uma das mais acirradas pós-redemocratização. Os candidatos chegaram às vésperas do segundo turno tecnicamente empatados. Num momento em que o presidente Jair Bolsonaro (PL) comemora a reação da economia e a melhora na avaliação do governo, com expectativa de conversão desse sentimento em mais votos, não é temerário afirmar que ele e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) podem chegar no dia 30 num cenário de empate técnico, tal qual Dilma e Aécio.

Alguns institutos de pesquisa já indicam essa conjuntura, a se considerar a margem de erro. O levantamento do Ipec divulgado ontem confirmou a tendência de crescimento de Bolsonaro, que oscilou de 42% para 43% das intenções de voto em uma semana, enquanto Lula caiu um ponto percentual. A dúvida é se haverá tempo hábil para Bolsonaro superar o petista, que ainda lidera a corrida sucessória.

Maria Clara R. M. do Prado* - O risco de autocracia está à espreita

Valor Econômico

É sob o regime democrático que se pode alcançar desenvolvimento sob a ótica social e econômica

Há muito tempo, talvez desde a campanha das “Diretas Já”, a palavra democracia não foi tão falada, escrita, lembrada e exaltada no país com sinais de alerta e doses de preocupação. A defesa do regime democrático tem crescido desde o início desta temporada eleitoral a ponto de ganhar recentemente demonstrações de apoio concreto ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva por pessoas influentes, intelectuais e representantes de segmentos da sociedade civil, que até então sequer imaginavam a possibilidade de votar no PT.

A percepção de que há muito mais em jogo do que uma simples disputa eleitoral falou mais alto para aqueles apoiadores de última instância, acentuando a polarização não entre um partido de esquerda e outro de direita, mas entre o bem e o mal. Desde o início, parecia claro que a chamada terceira via teria poucas chances de emplacar e o que se vê nesta reta final é um esforço descomunal de muitos formadores de opinião no sentido de evitar a reeleição de Bolsonaro, encarnado na figura do mal que ele mesmo construiu ao longo do governo.

O presidente nunca deixou de dar indicações claras de descaso relacionadas à educação, saúde, segurança, cultura e meio ambiente, mas foram as suas declarações sobre o processo eleitoral, a configuração da Suprema Corte de justiça e os meios de comunicação que chamaram a atenção para os riscos de o país caminhar para uma autocracia.

Luiz Carlos Azedo - Talvez a pergunta seja, quem perdeu com o debate?

Correio Braziliense

O debate não é programático, para o futuro imediato ou o programa do novo governo

Sempre achei muito complicado analisar o resultado de debates entre candidatos a partir da minha própria percepção. O debate da Bandeirantes, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) não foge à regra. É possível fazer uma leitura racional dos debates a partir do conteúdo das respostas dos candidatos, mas existe fatores subjetivos que alteram completamente a percepção da imagem dos debatedores pelos eleitores. Tanto é assim que as pesquisas mostram uma divisão de opiniões sobre a atuação dos candidatos que mais ou menos gravita em torno dos índices de intenção de voto. Quando o resultado destoa muito, aí sim podemos afirmar que fulano ou beltrano venceu o debate. Mas não é o caso. Por isso, alguns acham que Lula se saiu bem, outros apontam Bolsonaro como vitorioso.

Como numa luta de boxe, num debate eleitoral todo mundo apanha. Alguém somente vence inequivocamente quando o adversário vai a nocaute. Quando isso não acontece, a decisão é por pontos, depende dos jurados, e nem sempre corresponde ao gosto do público.

Eliane Cantanhêde – Erros de lá, erros de cá

Estado de S. Paulo

Bolsonaro colecionou erros na semana passada, mas Lula não soube capitalizar o debate a seu favor

Se a semana passada foi péssima para o presidente Jair Bolsonaro, esta começou mal para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e essa montanha-russa das eleições acirra os ânimos na reta final até o dia 30, com expectativa de mais fake news e jogo sujo. Muita calma nessa hora, minha gente.

Especialista em dar tiro no pé e no peito, Bolsonaro fez feio no Círio (não Sírio…) de Nazaré, fez pior ainda em Aparecida e ele e seus seguidores não param de açoitar a Igreja Católica e pressionar fiéis evangélicos. E a agenda foi incompreensível. Comício no Recife um dia antes de Lula, que teve 66% de votos em Pernambuco? E a ida a Fortaleza, se Lula teve o mesmo índice no Ceará?

Para fechar a semana, depois da “revelação” grotesca até de estupros de bebês em Tapajós (PA), feita pela senadora eleita Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos (?), veio mais um de tantos vídeos aterrorizantes de Bolsonaro. Neste, o presidente fala que, numa motociata, “pintou um clima” com venezuelanas de 14 anos. Mundo cão…

Merval Pereira - Um valor mais alto

O Globo

Dificilmente Bolsonaro conseguirá virar o jogo, mas ele se solidifica como líder da direita no Brasil

A estarem corretas as pesquisas eleitorais, dificilmente Bolsonaro terá condições de virar o jogo no segundo turno, superando o ex-presidente Lula. Mas, se o tempo ruge no cangote do presidente, seus pequenos avanços em setores importantes, como no Sudeste e no Nordeste, na redução da rejeição, nos anunciam que ele vai solidificando sua posição de líder da direita no país, partindo de uma base de extrema direita que sempre o caracterizou.

Como constatado desde 2018, e confirmado no primeiro turno, com uma votação surpreendente para quem se guiou pelas pesquisas, Bolsonaro capturou o eleitorado que há anos votava no PSDB como alternativa do PT. O que restou da social-democracia dos tucanos ficou ao lado de Lula nesta eleição, e o centro, a direita, os liberais e os extremistas fecharam com Bolsonaro, não apenas no voto antipetista, mas também entre liberais que ainda alimentam esperanças de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, possa influir mais decisivamente num segundo mandato.

O combate à corrupção e o medo de um comunismo que não existe mais como quando da Guerra Fria têm seu papel nesse apoio a Bolsonaro, surpreendente diante do que ele fez durante seus quatro anos, e especialmente do que não fez. Não fez, por exemplo, o combate à corrupção que prometeu ao levar o ex-juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Carlos Andreazza - Pintou um clima

O Globo

O clima: Ciro Nogueira e Sergio Moro unidos por Jair Bolsonaro na plateia do debate. Bonito. Unidos e atuantes. Ambos trabalhando por subsidiar o candidato. Que um já chamou de fascista. Que o outro acusou de interferir na autonomia da Polícia Federal; para então sua honra, na hipótese de que houvesse uma, ser enxovalhada pela máquina de moer do bolsonarismo.

Releve-se. Há que ganhar a vida, afinal.

Pintou um clima. Bolsonaro une, o cupido. Bolsonaro, o cupido, degenera. Nogueira e Moro, porém, já vieram prontos. Feitos um para o outro, os unidos pelas circunstâncias. Velho e novo senadores da República. Um, o ministro que botou Guedes no bolso e instaurou a PEC Kamikaze. O outro, o ex-ministro cuja farsa foi biombo para que, à sombra, ascendesse um Augusto Aras.

Nogueira e Moro. O orçamento secreto e o combate à corrupção. Unidos sob os escombros da imaginação moral, o orçamento secreto e o combate à corrupção. Dois homens objetivos. Um pela permanência; o outro pela existência. Nogueira e Moro. O orçamento secreto, um complexo esquema de corrupção, e o combate à corrupção, que o tempo exporia ser pura fachada para o exercício do antipetismo.

Míriam Leitão - Bolsonaro e o seu desprezo ao pobre

O Globo

Bolsonaro não consegue se conectar aos mais pobres por fobia e preconceito. Por isso, os eleitores de menor renda são os que mais resistem a ele

Bolsonaro tem dado demonstrações seguidas de desprezo aos pobres. Isso explica vários erros. No debate da Band ele confundiu moradores de favela com bandidos, no fim de semana ofendeu adolescentes venezuelanas pobres, após o primeiro turno chamou nordestinos de analfabetos para explicar sua derrota na região. Simplesmente ele não consegue se conectar com o pobre por fobia e preconceito. Por isso, pesquisa após pesquisa, e isso deve enfurecê-lo, os eleitores de menor renda são os que mais resistem a ele.

— Eu conheço o Rio de Janeiro. O senhor esteve recentemente no Complexo do Salgueiro, não tinha nenhum policial do seu lado. Só traficante — disse Bolsonaro.

Isso permitiu a Lula corrigir a geografia e a visão do presidente. Lembrou que foi ao Complexo do Alemão e se encontrou com trabalhadores:

— Os bandidos você sabe onde estavam, um vizinho seu tinha 100 armas dentro de casa. Achar que os bandidos estão só no lugar dos pobres?

Ligia Bahia* - Identidade médica e saúde da população

O Globo

Médicos confundidos com um regime, um governo, entraram para a História como carrascos

O dia 18 de outubro costumava ser uma data protocolar. Por décadas, mensagens entre colegas de profissão, poucos anúncios na imprensa parabenizando médicos por sua dedicação e eventos mais para festivos de entidades de representação da categoria compuseram um repertório comemorativo repetitivo, mas simpático e inclusivo. Neste ano, as divergências político-eleitorais engoliram a tradição. O princípio da profissão — definido por suas competências e também interdições de práticas, um espaço comum para o exercício de atividades — passa por uma reviravolta. O que era partilhado em função do que se faz, como e onde se trabalha está sendo substituído por um fanatismo político que rejeita diferentes e diferenças.

Faculdades públicas, acervos comuns e textos científicos — disponíveis para qualquer médico — subverteram antigas hierarquias e se tornaram núcleo de uma comunidade profissional mais democrática. Um árduo processo, atravessado por ilusões e desilusões. Divergências entre médicos acompanham a constituição das alternativas para projetos nacionais. Não fossem as polêmicas entre Afrânio Peixoto e Oswaldo Cruz sobre a compreensão dos “nossos males”, possivelmente teríamos demorado ainda mais tempo para a transição da medicina bacharelesca para a científica.

Lula se diz preocupado com extrema-direita em alta

Petista reuniu-se por mais de duas horas com padres, freiras e religiosos na capital paulista

Cristiane Agostine / Valor Econômico

18/10/2022 05h01  

Candidato do PT à Presidência, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou nesta segunda-feira (17) preocupação com o crescimento da extrema-direita no Brasil e o com o clima de “ódio” de parte da população. A uma plateia de religiosos católicos, o petista avaliou que o bolsonarismo está “criado” no país, afirmou que será um problema depois das eleições e disse que é preciso evitar que se transforme em uma “política definitiva”.

 “Nós vamos ter um problema, [porque nós vamos ganhar as eleições, nós vamos derrotar o Bolsonaro, mas o bolsonarismo está criado”, disse Lula, em referência ao presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL). “Mas depois nós temos que conscientizar a sociedade para que ela não crie no bolsonarismo uma política definitiva no Brasil, que é o que a extrema-direita está tentando fazer aqui e em outros países”, afirmou.

O petista reuniu-se por mais de duas horas com padres, freiras e religiosos na capital paulista, em um ato para reforçar o apoio de grupos católicos à sua candidatura.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Debate foi mais civilizado, não mais propositivo

O Globo

Brasileiros já sabem quem são e o que fizeram Lula e Bolsonaro. Precisam saber o que farão no futuro

O primeiro debate do segundo turno entre os candidatos à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), promovido por um pool de veículos liderado pela Band, foi mais civilizado do que se imaginava diante da guerra suja conflagrada na campanha. Não deixa de ser um avanço. Mesmo assim, se o eleitor pretendia esclarecer dúvidas para decidir, consolidar ou mudar seu voto, é provável que tenha saído frustrado. Fora as reiteradas vezes em que um chamou o outro de “mentiroso”, Lula e Bolsonaro falaram mais do passado que de seus projetos para o futuro governo.

A economia foi relegada a segundo plano. Instado por Bolsonaro, Lula mais uma vez se negou a dizer quem será seu ministro ou a detalhar seus planos para a área. Ao responder a questionamento sobre a corrupção na Petrobras, reiterou sua posição equivocada sobre a necessidade de manter refinarias em poder do Estado e defendeu o indefensável desperdício de bilhões nos governos petistas com programas megalomaníacos que jamais saíram do papel. Quanto ao teto de gastos, apesar de ambos já terem manifestado intenção de acabar com a única âncora fiscal que resta ao país, nenhum dos dois explicou o que será colocado no lugar.

Poesia | Cora Coralina - O Sentido da vida

 

Música | Gabriela Machado - Caminhando (Nelson Cavaquinho)

 

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Míriam Leitão - Lula venceu o debate. Foi por pontos, não por nocaute

O Globo

Bolsonaro, que ficou atrás no primeiro turno e continua atrás na pesquisa, precisava mais da vitória

Lula foi o vencedor claro da primeira rodada porque fez Bolsonaro falar durante quase todo o tempo do bloco de pandemia, e ficou na defensiva. Não há resposta possível para uma fala como a do Lula.

–Mas vou perguntar de pandemia. O Brasil tem 3% da população mundial. E o Brasil teve 11% das mortes da pandemia no mundo. Por que houve tanta demora para se comprar vacina? O senhor não se sente responsável? O senhor não carrega nas costas um pouco do sofrimento dos brasileiros de ser responsável pelo menos por 400 mil mortes nesse país?

Essa é uma pergunta sem resposta. Bolsonaro conseguiu piorar ainda a sua situação porque recentemente disse que a “molecada” não morre de Covid. Lula deu o número de duas mil mortes de crianças. Bolsonaro voltou a defender o “off label”. Lula traduziu: “você virou defensor de remédio que não serve para nada”. E acrescentou “eu sei o que é perder alguém para a Covid”. Nesse ponto Lula se coloca ao lado de cada brasileiro que perdeu alguém. Lula o acusa de nunca ter visitado um hospital. Bolsonaro alega que foi e ninguém viu. Bolsonaro voltou a mentir: disse que vacina é só para quem não teve Covid. Bolsonaro permanece o anti-ciência que nos levou a ter muito mais mortes do que no resto do mundo.

Alvaro Gribel - O golpe mais baixo no debate entre Lula e Bolsonaro

O Globo

Pressionado por Lula sobre as ações do governo na pandemia, Bolsonaro baixou o nível e disse que Lula "fez discurso sobre o caixão da esposa"

Coube a Jair Bolsonaro o golpe mais baixo do debate com Lula, na noite deste domingo. Ainda no primeiro bloco, pressionado pelas perguntas do candidato petista sobre as mortes na pandemia, Bolsonaro evocou o enterro da ex-primeira-dama Marisa Letícia, que faleceu em fevereiro de 2017. Segundo Bolsonaro, Lula "fez discurso em cima do caixão da esposa".

- Fez discurso em cima do caixão da esposa e está se comovendo pela sogra. Sr. Lula, entenda uma coisa, Sr. Lula? entenda uma coisa, por favor: os enterros eram com caixão lacrado, ninguém podia ir ao enterro, nem familiares. E eu visitei hospitais, sim, e o senhor não tem conhecimento. Só que eu não preciso fazer propaganda do que faço. Me comovi. Me preocupei com cada morte no Brasil - disse Bolsonaro.

Lula não caiu na provocação e manteve Bolsonaro na defensiva ao falar de pandemia. O primeiro bloco do debate foi tão favorável ao candidato petista que, ainda que Bolsonaro tenha equilibrado nos dois restantes, o saldo acabou positivo para Lula.

Bela Megale - Os altos e baixos do debate para as campanhas de Bolsonaro e Lula

O Globo

Campanhas tiveram avaliações similares sobre melhores e piores momentos dos candidatos no debate da Band

Coordenadores das campanhas de Lula e de Bolsonaro apontaram os melhores e piores momentos para os candidatos no debate da Band realizado neste domingo.

Na avaliação de integrantes da equipe de Bolsonaro, o presidente teve um desempenho pior no primeiro bloco, quando Lula conseguiu pautar boa parte do tempo com temas desgastantes para o presidente, como a pandemia. Carlos Bolsonaro chegou a se aproximar do palco e fazer gestos para que o pai mudasse de assunto.

Há, no entanto, a avaliação de que Bolsonaro terminou melhor o último bloco do programa, ao controlar o tempo e falar por mais de seis minutos sem que Lula tivesse direito de se pronunciar por já ter gasto os minutos que tinha direito.

Um dos momentos mais celebrados pelo QG do presidente foi quando ele tocou no ombro de Lula, que se esquivou. Os coordenadores da campanha também consideraram que Bolsonaro conseguiu pautar a parte final do programa com temas como os desvios da Petrobras, o que, na visão deles, ajudou a fazer o petista perder a noção do tempo.

Maria Cristina Fernandes - Sem acuar Bolsonaro, Lula desperdiça vantagem

Valor Econômico

Dificilmente um momento da campanha poderia sintetizar melhor a campanha do que o debate da Band. O presidente Jair Bolsonaro saiu de uma situação de desvantagem, acuado que estava pela abordagem às adolescentes venezuelanas, para pautar a corrupção como eixo. Já o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, que tem uma vantagem de seis milhões de votos e agregou a mais ampla frente de apoio já obtida por um candidato em segundo turno, gastou tempo demais para se defender e propagar seu governo demonstrando pouca agilidade para explorar as vulnerabilidades da atual gestão.

Contribuiu para o desempenho de Bolsonaro a decisão do presidente do TSE, Alexandre de Moraes, que mandou suspender a veiculação do vídeo em que o presidente da República diz ter “pintado um clima” com as adolescentes. Moraes foi o ministro com quem Bolsonaro mais antagonizou até hoje, chamando-o de "canalha". Ao mencionar o episódio, Lula excedeu-se na ironia, que é pouco clara para quem o assiste. A decisão de Moraes não o impediria de perguntar por que Bolsonaro, se constatou a prostituição de adolescentes, não tomou qualquer providência. Mas Lula não o fez.

Acuado pela exploração que Bolsonaro fez do “petrolão”, Lula bateu na tecla da corrupção que poderia ter sido punida sem quebrar a empresa sem mencionar a parcialidade do juiz do caso. Demorou-se tanto em se defender e em listar todos os feitos da Petrobras sob seu governo que deixou cinco minutos livres para Bolsonaro repisar os velhos temas das ditaduras latino-americanas e da ideologia de gênero.