sexta-feira, 17 de março de 2023

Fernando Abrucio* - Brasil vive epidemia de intolerância

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Nas últimas semanas, foram vários casos de preconceitos sociais vindos de indivíduos dos mais variados lugares da sociedade brasileira

Foram mais de dois anos de pandemia de covid-19, com um número enorme de mortos e sequelados no Brasil. A vacina nos salvou de uma situação pior e agora houve uma grande redução dos casos e dos óbitos. Há um quadro de quase normalidade, com todas as crianças na escola, as pessoas novamente indo a festas, shows e atividades esportivas, além do prazer inenarrável de voltar a frequentar o teatro. Mas nem tudo são flores, pois uma nova epidemia está assolando a sociedade brasileira: a praga da intolerância.

Nas últimas semanas, foram vários casos de preconceitos sociais contra nordestinos, mulheres, negros, transexuais/travestis, pessoas com deficiência e gente com mais idade (etarismo). Foram falas vindas de indivíduos dos mais variados lugares da sociedade brasileira, como empresários, parlamentares, estudantes, donas de casa e humoristas. O que chama primeiramente a atenção é que não são episódios isolados. Trata-se de uma epidemia de intolerância

José de Souza Martins* - As joias e o poder dos presentes

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Episódio envolvendo Arábia Saudita e o governo brasileiro pode criar uma consciência crítica de que a confusão decorre do nosso atraso cultural e político

A estranha incerteza quanto ao destinatário das joias enviadas da Arábia Saudita, supostamente ao governo do Brasil, tem ocupado a atenção da mídia nos últimos dias. Talvez porque esse poderá vir a ser motivo de um caso policial.

Também no âmbito dessas relações, é crime alguém apropriar-se do que é público. E o que é homenagem pessoal ao governante deve revestir-se do valor e da modéstia do que é simbólica manifestação de respeito. A dádiva, nesses casos, não pode ser tão desproporcional à função de quem ocupa o poder que se torne manifestação de desrespeito ao país que ele governa.

Essa distinção fica difícil numa sociedade como a nossa, em que muitas pessoas e mesmo pessoas na política não distinguem entre o que é público e o que é privado. Temos uma história de corrupção política que expressa para muitos a naturalidade dessa confusão. O eleitor, não raro, entendendo que a apropriação privada do que é público é um privilégio inerente à função política.

Naercio Menezes Filho* - Reforma tributária

Valor Econômico

Mudança irá provocar mudanças na distribuição da renda real ao longo do tempo

O Congresso deverá analisar em breve a proposta de reforma tributária que está no plenário. A proposta deverá enfrentar dificuldades na tramitação, pois alguns setores perderão arrecadação. Quais são os principais pontos positivos e negativos da proposta? Como funcionará a desoneração da cesta básica e o “cash-back” para os consumidores pobres?

Em primeiro lugar, é importante entender como funciona a estrutura tributária brasileira. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil arrecada 32% do PIB com impostos, sendo 14% do PIB com impostos sobre bens e serviços, 7% com impostos sobre a renda, 8% com contribuições previdenciárias e o restante com demais impostos. A arrecadação total brasileira está em linha com a média dos países da OCDE e acima dos demais países latino-americanos.

Claudia Safatle - Lupi mexeu em vespeiro com juros do consignado

Valor Econômico

Bancos suspenderam o crédito e aguardam uma solução da Fazenda e Casa Civil

Começou ontem a prática de um teto de juros de 1,70% ao mês para o crédito consignado dos aposentados do INSS, conforme decisão de segunda feira do Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS).

O Ministério da Fazenda e a Casa Civil, no entanto, estão debruçados sobre uma alternativa a essa medida, que aparentemente beneficiaria os aposentados, mas que os atinge em cheio.

Ontem os bancos divulgaram nota avisando que estão suspensas, por tempo indeterminado, as operações de concessão de crédito novo, refinanciamento e portabilidade para o consignado do INSS.

O resultado da decisão do CNPS, cujo placar foi de 12 votos a favor e apenas 3 contra, portanto, vai ser secar a oferta de crédito, sobretudo para os aposentados com menor renda e para o público com idade mais avançada. Os de mais idade, quando morrem, a dívida simplesmente desaparece, entrando nas estatísticas de inadimplência, onde respondem por 70%.

Vera Magalhães - Marco fiscal já nasce refém

O Globo

Projeto entrou na roda da chantagem de Arthur Lira para manter sob seu poder a tramitação das medidas provisórias

De pouco parece ter adiantado o cuidado de Fernando Haddad ao costurar o fechamento da equipe econômica em torno do seu projeto de novo marco fiscal, tampouco a preocupação com que a proposta não vazasse antes de apresentada e referendada por Lula. O presidente tanto demorou para receber o ministro da Fazenda e dar atenção ao projeto mais importante da largada de seu governo que a proposta nem chegou ao Congresso e já sofre pressões de várias origens.

Além disso, não parece que haja mais tempo hábil para que a nova âncora fiscal seja analisada e digerida pelo Comitê de Política Monetária de modo a ter influência concreta na indicação de breve mudança na trajetória dos juros básicos da economia, uma vez que a reunião acontece nas próximas terça e quarta-feira.

A culpa de nada disso é de Haddad ou da área econômica, e sim, de novo, do presidente e de seu entorno político. Se Lula tem pressa em ver os juros caírem, pois isso seria crucial para a economia ganhar tração e sua popularidade subir, deveria priorizar a análise da proposta da Fazenda a qualquer outro compromisso. No entanto o que se viu nesta semana foi o presidente para cima e para baixo em agendas de menor relevância.

Rogério F. Werneck - O jogo do arcabouço fiscal

O Globo

No que tange à questão fiscal, os discursos de Fernando Haddad e do presidente da República estão gritantemente desalinhados

Não falta hoje quem se esforce para acreditar que o anúncio da tão aguardada proposta de um novo arcabouço fiscal dará, afinal, credibilidade ao suposto compromisso do novo governo com a gestão responsável das contas públicas, abrirá amplo espaço para a queda da taxa básica de juros e trará perspectivas bem mais promissoras para a economia nos próximos anos.

O ministro da Fazenda tem feito o possível para reforçar a esperança de que a deflagração desse círculo virtuoso está prestes a ocorrer. Em boa hora, decidiu antecipar a concepção do novo arcabouço fiscal. E, com o devido cuidado, preocupou-se com formar consenso entre ministros da área econômica em torno da proposta para, afinal, conseguir que seja respaldada pelo Planalto e submetida ao Congresso.

Flávia Oliveira - É promessa de vida

O Globo

Não é surpresa o país que naturaliza o extermínio de jovens ridicularizar o envelhecimento dos adultos. No Anuário Brasileiro da Segurança Pública 2022, a taxa de homicídio na faixa etária de 20 a 29 anos (55,6 por 100 mil habitantes) é mais que o dobro da média nacional (23,2). Uma sociedade que não preza a vida em amadurecimento é incapaz de celebrar a longevidade. Desde 1991, a esperança de vida no Brasil aumentou dez anos; saiu de 67 para 77 anos. Um brasileiro que chegou aos 40 anos em 2021 tinha perspectiva de viver mais quatro décadas, informou o IBGE na última divulgação da Tábua de Mortalidade, mesmo com o excesso de mortes decorrentes da pandemia de Covid-19. Em vez de bênção, constrangimento. Nesta semana, o debate sobre etarismo emergiu da cena em que três estudantes de biomedicina de 20 e poucos anos debochavam da colega de 45, Patrícia Linares. Trataram-na como se chegar ao ensino superior na maturidade fosse demérito, não fé no futuro, promessa de vida.

Luiz Carlos Azedo - Volta de Ibaneis sinaliza esgotamento das medidas de exceção

Correio Braziliense

A volta de Ibaneis ao cargo para o qual foi reeleito sinaliza que as medidas de exceção adotadas por Moraes contra os golpistas estão se esgotando, devido à necessidade de preservar o devido processo legal

Depois de 66 dias de afastamento, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), Ibaneis Rocha (MDB) reassumiu ontem o cargo de governador do Distrito Federal, do qual havia sido afastado na tarde de 8 de janeiro, pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do processo que apura a tentativa de golpe de Estado. O motivo do afastamento foi a suspeita de que se omitiu em relação à ação das forças de segurança sob seu comando.

“Foram dias muito difíceis, mas esse afastamento que tivemos ao longo desse período foi necessário. A invasão dos prédios do Congresso, do STF e do Palácio do Planalto foram significativos para a história deste país”, admitiu Ibaneis, ao reassumir o cargo. Classificou como um “apagão” o comportamento das forças policiais sob seu comando, num cenário de inoperância generalizada. “Houve um relaxamento geral. A Força Nacional também não atuou”, disse.

Bernardo Mello Franco - O apagão de Ibaneis

O Globo

Governador do DF omite alertas ao dizer que invasão dos palácios era ʽimprevisívelʼ

Um “apagão geral”. Assim o governador do Distrito Federal descreveu a inação da polícia diante dos atos golpistas de 8 de janeiro. Ao reassumir o cargo, Ibaneis Rocha tratou a depredação dos palácios como uma mera fatalidade. “Foi uma coisa imprevisível”, disse.

Na decisão em que autorizou a volta do governador, o ministro Alexandre de Moraes ressaltou que ele continua sob investigação. Ibaneis preferiu entender que já estaria absolvido. “Tenho consciência de que não devo nada à Justiça”, sentenciou.

O emedebista também tentou salvar a pele do ex-secretário Anderson Torres, preso há dois meses por ordem do Supremo. “Não foi culpa do Anderson”, garantiu.

Bruno Boghossian - ‘Conjunto da obra’ na mira TSE

Folha de S. Paulo

Minuta golpista deve ser avaliada pelo tribunal como parte de pacote de abuso de poder

O TSE ouviu o ex-ministro Anderson Torres por uma hora e meia sobre a minuta golpista que ele guardava em casa. O aliado de Jair Bolsonaro fez pouco caso da papelada. Chamou o documento de lixo, ainda que estivesse numa pasta do governo, e disse que o texto era folclórico, embora seu chefe admita que buscava uma saída para a derrota nas urnas.

O tribunal não esperava coisa diferente de Torres, um bolsonarista fiel. Mas o depoimento cumpriu uma etapa no plano para tornar a minuta uma peça central da ação que pode tornar Bolsonaro inelegível.

Hélio Schwartsman - Impostura autoritária

Folha de S. Paulo

É grave tentar estender à população um núcleo particular de crenças

O Senado instalou sua própria bancada evangélica, com o objetivo de tentar barrar a legalização dos jogos de azar e enfrentar pautas que podem ampliar o acesso ao aborto ou descriminalizar as drogas, além de defender a liberdade religiosa.

Sou liberal. Religiosos têm todo o direito de achar que jogo, aborto (ou mesmo sexo) e drogas são pecado. Sendo este o caso, têm o dever moral de convencer seus fiéis a ficar longe dessas obras do demônio. Podem, se quiserem, jogar pesado na consecução dessa meta. Os católicos, por exemplo, inventaram um engenhoso sistema de excomunhão automática ("excommunicatio latae sententiae") para quem se envolver com abortos. Não sei se funciona (apostaria que não muito), mas não vejo problema em religiões (ou clubes) se valerem de regras próprias, ainda que esdrúxulas ou draconianas, desde que abraçadas voluntariamente por seus membros.

Reinaldo Azevedo - 'Uzmercáduz' são a nata reacionária

Folha de S. Paulo

Você pertence ao setor de proteína animal porque consome um bife?

Pesquisa da Genial-Quaest divulgada na quarta (15) revela mais do que a opinião de 82 executivos do mercado financeiro. Expõe o núcleo do reacionarismo nacional, um pedaço da economia de mercado corroída pelo "mercadismo" burro, a contaminação desses luminares pelo bolsonarismo troglodita, o flerte com um país ética e moralmente degenerado e, adicionalmente, um provável descuido com o dinheiro de terceiros.

Nota: há certo esforço para tornar "Uzmercáduz" um ente metafísico. Nos termos de Gil Vicente, seriam "Todo Mundo" e "Ninguém". Assim, se você tem uns caraminguás depositados, seria mercado também. Conversa mole. A Quaest ouviu 82 pessoas. Acertadamente, não estou na lista. E você? A composição da amostra, ademais, não é a de uma pesquisa eleitoral. O fato de que seríamos todos punidos por um calote da dívida não nos torna parte "d’Uzmercáduz". Não atuo no setor de proteína animal só porque como um bife, embora seja certo que, sem boi, não tem carne.

Vinicius Torres Freire - Vaquinhas de bilhões para bancos

Folha de S. Paulo

Remendos contêm mais falências, mas crises financeiras vêm em ondas e deixam cicatriz

O Banco Central da Suíça ofereceu empréstimo de até 50 bilhões de francos suíços para o Credit Suisse. O bancão vai pegar muito desse dinheiro, pois estava no bico do corvo. Esse cheque especial monstruoso equivale a 6,7% do PIB da Suíça. Mal comparando, seria como se o BC do Brasil oferecesse R$ 674 bilhões para um bancão bichado.

O número serve apenas para dar uma ordem de grandeza do problema. Não serve para outra elucubração.

Nos Estados Unidos, bancões e pares menores fizeram uma vaquinha para depositar US$ 30 bilhões (R$ 157 bilhões) no First Republic, banco de ricos da Califórnia, que vinham sacando o dinheiro por temer destino igual ao do SVB.

Os remendos fizeram algum efeito. Bolsas subiram, taxas de juros pararam de despencar etc. Acabou a crise?

Eliane Cantanhêde – O mundo (ainda) não desabou

O Estado de S. Paulo

Haddad: ‘Objetivo não é aumentar alíquotas, é fazer quem não paga passar a pagar’

A turma do Ministério da Fazenda estava para lá de preocupada com os sacolejos do Silicon Valley Bank (SVB) e do Credit Suisse, mas alguém mantinha a cabeça fria na quarta-feira à tarde, no pico da insegurança: o ministro Fernando Haddad, apostando que a crise não passaria dali e, se passasse, não afetaria, ou dificilmente afetaria, o sistema bancário brasileiro.

“A regulação bancária do Brasil é muito superior e mais rígida do que a americana e a europeia”, me disse o ministro, reconhecendo que, ao longo de quatro crises internacionais no governo FHC e da quebra do Bamerindus e do Marka FonteCindam, o sistema foi se aperfeiçoando até chegar ao Proer, por exemplo. “Se a crise ficar do tamanho que está, tudo bem”, acrescentou, minutos antes de seu assessor trazer a boa notícia: o compromisso do banco central da Suíça com US$ 54 bilhões para o Credit Suisse, segundo maior banco do país.

Fernando Gabeira - Um governo que começa

O Estado de S. Paulo

É preciso andar rápido e bem, pois a extrema direita recuou após o 8 de janeiro, foi golpeada com o escândalo das joias, mas está sempre pronta a ressurgir

O ano político começa, de fato, com o envio do projeto de arcabouço fiscal ao Congresso e, em seguida, o debate sobre a reforma tributária. Alguns anos começam mais tarde, outros custam a acabar, como o último de Bolsonaro. Foi prolongado pelos acontecimentos de 8 de janeiro, a tragédia Yanomami e, agora, mais recentemente, o escândalo das joias presenteadas pela Arábia Saudita.

A reforma tributária é vista por muitos como um projeto que vai fazer o País avançar, tanto quanto o Plano Real, no passado. Há um otimismo em relação ao resultado, mas também em relação às possibilidades. Parece que o tema amadureceu e a maioria no Congresso concorda em aprovar algum tipo de texto nesse sentido.

Como o tema envolve muitos interesses conflitantes, há quem duvide da sua viabilidade, com o argumento de que a reforma foi tentada muitas vezes e fracassou. De fato, há um emaranhado de interesses, mas é difícil de ver o tema com o olhar da história natural, uma simples repetição, como o curso das estações do ano.

Nathalia Rocha - No ‘nós contra eles’ vai todo mundo perder

O Estado de S. Paulo

Proteção ambiental pode ser o eixo temático para construir uma visão única sobre o Brasil que queremos

Todo brasileiro tem um conflito: o orgulho do nosso país e de suas potencialidades e a frustração pelo choque entre aquilo que ele poderia ser e aquilo que ele é. O sentimento descrito por Darcy Ribeiro – “tenho tão nítido o que o Brasil pode ser, e há de ser, que me dói demais o Brasil que é” – talvez encapsule este misto de esperança e insatisfação. A construção deste Brasil do qual possamos nos orgulhar seguirá como uma promessa enquanto não conseguirmos construir uma visão compartilhada daquilo que queremos.

Tomemos a agenda de mudanças climáticas, um dos principais desafios que temos a enfrentar. A maioria dos brasileiros (96%) reconhece que o aquecimento global já está acontecendo e 77% consideram importante proteger o meio ambiente, ainda que isso signifique menor crescimento econômico e menos empregos. Os dados da pesquisa Mudanças climáticas na percepção dos brasileiros, realizada pelo Ipec a pedido do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS) e da Universidade

Celso Ming - Alívio na crise bancária global

O Estado de S. Paulo

A crise financeira global foi aparentemente revertida com firme atuação (intervenção) dos bancos centrais e de organismos reguladores. Mas há questões à espera de solução.

O colapso de liquidez do Credit Suisse, o segundo maior banco da Suíça, foi solucionado com a abertura de créditos de 50 bilhões de francos suíços (US$ 53,7 bilhões) pelo Banco Nacional da Suíça (banco central), contra garantias em ativos do banco. Não ficaram claras outras condicionalidades exigidas ao Credit. Algumas informações dão conta de que, além da correção das tais inconsistências acusadas em balanço, há em vista possível fusão com seu principal concorrente, o União de Bancos Suíços (UBS). É providência a conferir.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Crise em bancos estrangeiros traz dilema monetário

O Globo

Depois de o Banco Central Europeu elevar juros, dúvida é se Fed relaxará combate à inflação para aliviar tensão

Desde a quebra do Silicon Valley Bank (SVB) e do Signature Bank dias atrás, o mundo passou a seguir os movimentos das autoridades americanas para desarmar o risco de uma crise bancária com desdobramentos globais. Do outro lado do Atlântico, o Credit Suisse, considerado um dos 30 bancos críticos para o sistema financeiro global, revelou estar em apuros e recebeu socorro de US$ 54 bilhões do banco central suíço. As medidas tomadas por americanos e suíços enfraqueceram os prognósticos catastrofistas. Ainda assim, a situação exige cautela e tornou evidentes desafios de regulação e política monetária.

As dúvidas começaram a ser respondidas ontem pelo Banco Central Europeu (BCE). Ao manter o aumento previsto na taxa de juros da Zona do Euro — de meio ponto, para 3% —, o BCE transmitiu um recado de que não vê risco de contágio no sistema financeiro a ponto de mudar a política de combate à inflação. Os olhos se voltam agora para a decisão do Fed na semana que vem. É uma decisão menos evidente.

Poesia | O Analfabeto Politico, de Bertolt Brecht

 

Música | Despejo na Favela/Abrigo de Vagabundo (Adoniran Barbosa)

 

quinta-feira, 16 de março de 2023

Maria Hermínia Tavares* - Venezuela: hora de agir

Folha de S. Paulo

Momento favorece atuação do Brasil por uma transição à democracia no país vizinho

Ao lado do compromisso ambiental e do empenho pela paz, a defesa da democracia é um dos instrumentos mediante os quais o governo do presidente Lula busca recuperar o respeito e o protagonismo do país na cena internacional.

Para que o enunciado seja crível, porém, não basta coerência entre o que se prega no exterior e o que se faz em casa: também para o mundo, ações devem se seguir às palavras.

O Brasil está à vontade para falar de democracia. A resiliência das instituições políticas, a atuação de organizações da sociedade civil e a impecável resposta do governo e dos Poderes de Estado à grotesca tentativa de golpe em 8/1 respaldam uma política exterior empenhada em defender o regime de liberdades sob ameaça em muitos lugares.

Merval Pereira - A distorção da ciência

O Globo

Estudo mostra que referências científicas no debate da Covid-19 foram de péssima qualidade

O uso de termos técnicos e científicos no debate sobre a Covid-19 no país durante a pandemia, especialmente no decorrer da CPI do Senado, mostra como é possível desvirtuar evidências científicas em políticas públicas, propiciando a grave crise que levou à morte de quase 700 mil pessoas no país. Um estudo do Laboratório Lagom Data, de inteligência de dados, apoiado pelo Instituto Serrapilheira, instituição privada de incentivo e valorização da ciência no Brasil, levantou todas as 91 mil falas das 69 sessões da CPI da Covid, com mais de 3 milhões de palavras, e fez uma análise quantitativa e qualitativa para entender como as referências científicas foram usadas.

Os pesquisadores concluíram que quem mais trouxe estudos científicos para a discussão foram justamente os parlamentares e depoentes ligados ao campo negacionista, mas com referências de péssima qualidade, estudos falhos e enviesados. O discurso negacionista, segundo os pesquisadores Daniel Duarte (USP) e Pedro Benetti (Uerj), estrutura-se em cinco estratégias:

Malu Gaspar - O alerta potiguar

O Globo

De tempos em tempos, o crime organizado produz um espetáculo de violência e selvageria que nos lembra da pior maneira possível de uma de nossas mais graves lacunas, que nenhum governo foi capaz de sanar: a falta de uma política integrada de segurança pública, que submete os brasileiros à constante sensação de vulnerabilidade.

Nos últimos dias, o Rio Grande do Norte vem sofrendo com ataques a ônibus, prédios públicos e lojas que resultaram em três mortos e 43 presos. Para tentar conter a desordem, a governadora Fátima Bezerra (PT) recorreu ao governo federal, que enviou a Força Nacional*.

Pelo que se sabe até agora, os ataques têm relação com as péssimas condições nos presídios locais, com denúncias de tortura, superlotação e de comida estragada.

Bruno Boghossian - O espinheiro da segurança pública

Folha de S. Paulo

Há anos, esquerda tem dificuldades para superar conflitos com posições do eleitorado nessa área

O debate da segurança pública foi um adubo da extrema direita brasileira na última década. A violência urbana e a imagem do "cidadão de bem" abandonado foram exploradas para ampliar a rejeição à esquerda e alimentar soluções obtusas como a matança policial e a liberação indiscriminada de armas de fogo.

O bolsonarismo reivindicou o monopólio do tema, mesmo sem entregar uma plataforma para a área. Aproveitando o histórico errático do PT, o grupo renovou a falsa crença de que direitos humanos só beneficiam criminosos, tiraram do armário eleitores que defendem a brutalidade e carimbaram adversários como inimigos da polícia.

Lula voltou a esse campo de espinhos nesta quarta (15). O presidente relançou o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, destacando investimentos sociais, programas de qualificação de agentes e críticas à violência policial.

Cora Rónai - Os diamantes e o poder

O Globo

Fui cobrada por um leitor na semana passada por falar sobre as joias milionárias interceptadas pela Receita Federal:

“Oi, Cora. Essas bolsonarices ajudam os petistas a esconder os presentes que Lula e outros petistas receberam das empreiteiras. (Lembra dos relógios do Jacques Wagner?) Abs.”

O missivista (ainda se usa essa palavra?) não é, a rigor, um desconhecido; é um leitor que me escreve rotineira e educadamente, em geral enviando links para colunas e matérias com um certo viés. Ele sabe que não pensamos da mesma forma e não pretende me converter, apenas apontar o que lhe parece mais sensato do que o que eu escrevo. Respondi:

Ruy Castro - Tais militares, tais civis

Folha de S. Paulo

Eles não imaginavam que, sob Bolsonaro, teriam de aprender a ser como aqueles que desprezam

Civis não podem entrar de surpresa num quartel militar e sair pintando postes sem autorização —os militares são muito ciosos de seus postes. Civis não podem invadir as repartições dos quartéis e sair carimbando despachos ou assinando promoções de segundo sargentos a primeiro sargentos —os militares são muito específicos a respeito de despachos a serem carimbados e de quais segundo sargentos merecem passar a primeiro. E, claro, nenhum civil pode se candidatar a general e, mesmo que seja absurdamente aceito pela comunidade militar, continuar se dizendo civil, com os gozos e benesses dos civis.

Luiz Carlos Azedo - Desconfiança do mercado financeiro é a mesma da eleição

Correio Braziliense

O único dado positivo para o governo na pesquisa Genial Quaest é o apoio à reforma tributária, que chega a 91% quanto à unificação dos impostos e à perspectiva de aprovar a reforma em seis meses

A Consultoria Genial Quaest divulgou, ontem, uma pesquisa com representantes do mercado financeiro que mostra claramente a má vontade desses setores com o governo Lula. É a mesma registrada na eleição, quando apoiaram a recondução do presidente Jair Bolsonaro e a continuidade da política econômica do ex-ministro Paulo Guedes, o Posto Ipiranga do governo passado. Cerca de 94% confiam pouco ou nada no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O levantamento foi realizado entre 10 e 13 de março e ouviu 82 representantes de fundos de investimentos de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A pesquisa também apontou que 98% dos entrevistados consideram que a economia do país, com o governo Lula, está indo na direção errada. O pessimismo em relação aos próximos 12 meses também é grande: 78% dos representantes acham que a economia vai piorar. A pesquisa mostra também um alinhamento com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, pois 90% consideram a relação do governo com o BC negativa; 89% temem a sua exoneração. Confiam “muito” no presidente do BC 68% dos entrevistados.

Míriam Leitão - Arcabouço sem gastos especiais

O Globo

Nova regras fiscal incluirá um limite de despesas, e não vai prever gastos fora da regra fiscal, seja social ou investimentos

O arcabouço fiscal vai ter uma regra de limite de gastos, e não haverá despesas fora do teto. O que se pretende é ter um mecanismo que respeite qualquer escolha da sociedade no futuro. Ou seja, se houver um governo de centro, ou até de direita, que a administração pública possa conviver com a regra. Bastará apenas ajustar os parâmetros para o novo projeto. Pode parecer teórico, mas a ideia da equipe econômica é separar o que é conceito e o que são os parâmetros. Como se fosse assim: o conceito fica, os parâmetros podem mudar.

A proposta de não criar qualquer exceção, seja para gastos sociais, seja para investimentos, pode gerar um grande ruído no governo ou no Partido dos Trabalhadores. Mas era muito arriscado deixar algumas despesas fora de qualquer controle.

Vinicius Torres Freire - Nova crise da finança mundial

Folha de S. Paulo

Não se sabe o tamanho ou a duração do tumulto, mas finança está em reviravolta ruim

Estamos em uma crise financeira, crise mundial, de duração e tamanho incertos. O rolo vai ter alguma ou muita influência, da sua aplicação no banco à política econômica do governo, passando pelo Banco Central, para citar apenas questões caseirinhas.

É o estágio um da crise: as autoridades dizem que os problemas são localizados e o sistema é sólido. Apagam os incêndios que enxergam. Pode haver fogo em outra parte.

Fazer prognóstico seria agora, mais do que sempre, chute desinformado. Desconhece-se o tamanho de certos estragos. Alguns mercados são obscuros (não há dados, cotações ou quantidades, públicos). Os entendidos fazem avaliações ainda mais disparatadas.

Francamente, quase ninguém deve mesmo saber a dimensão do que se passa.

Maria Cristina Fernandes - Uma pitada de poção mágica na regra fiscal

Valor Econômico

É a dívida privada, não a pública, que corre risco e pressiona a política a convergir por redução no juro

No jogo de adivinha sobre as novas regras fiscais que estão por ser apresentadas já se disse quase tudo. Quando a PEC da transição, que impôs o prazo para sua apresentação, foi votada, a única certeza que se tinha é que estas regras teriam que ser aprovadas sob pena de o teto de gastos voltar a vigorar. As ambições anunciadas com a posse do novo governo lhe deram centralidade e a crise de crédito da economia as tornaram um imperativo.

Foi sob a vigência do teto de gastos que o Congresso ampliou a obrigatoriedade da execução e o espaço fiscal de suas emendas. O teto haveria de vigorar apenas para o Executivo, não fossem as sete mudanças constitucionais que o furaram sob a régua e o compasso legislativos. A equação não tem mais como ser reprisada. A crise de crédito, inaugurada pela Americanas, e a zoada amplificada pela quebradeira de bancos estrangeiros também passou a acossar o Legislativo.

Cristiano Romero - Selo de bom pagador adiou adoção de NME

Valor Econômico

Banqueiros pressionaram agências por nova classificação em maio de 2008

As provas de que a democracia brasileira carece de instituições fortes que a protejam de interesses desestabilizadores de grupos de interesse específico se sucedem a cada governo. Apesar das conquistas obtidas tanto no campo da estabilidade política quanto econômica desde o fim do regime militar, em 1985, tudo pode mudar. O país vem convivendo com ameaças a essas duas conquistas desde 2011. E a nossa história é pródiga de momentos de interrupção da ordem institucional.

Um dos raros períodos de continuidade quase foi interrompido em abril de 2008, como vem revelando esta coluna. Naquele mês, um grupo de economistas de dentro e de fora do governo chegaram a convencer o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a dar um "cavalo de pau" na política econômica, que, pasmem, adotada em meados de 1999 pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), vinha rendendo bons frutos.

William Waack - Qual é o plano de Lula?

O Estado de S. Paulo

Dificuldades de Lula para governar têm um defeito de saída

Lula está jogando com um time velho e experiente. É o que torna maior a surpresa com as dificuldades que o presidente exibe até aqui para governar.

A recente bronca dada em público em reunião com 19 de seus 37 ministros revelou uma séria desarticulação. Que aponta um defeito de saída: a falta de conjunto e de um sentido e direção.

A mesma bronca dada nos ministros havia sido aplicada pelo presidente da Câmara no presidente da República. Aparentemente com razão, Arthur Lira se queixa da lentidão de Lula em compor os entendimentos políticos que definem a ocupação de comissões e a distribuição geral de cargos.

O problema, apontou Lira, é que sem essas definições (que ainda estão em curso) não existe a tal “base” para votações. Note-se que essa advertência foi formulada antecipando vulnerabilidades do governo para garantir no Congresso a permanência de mecanismos com impacto na arrecadação (o voto de qualidade no Carf é um entre vários exemplos).

Felipe Salto* - Novo arcabouço fiscal

O Estado de S. Paulo

Predisposição dos governos ao controle das contas públicas, quando não há ou é mais modesta, precisa ser motivada por sistemas de incentivos apropriados

A dívida pública precisa estacionar em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e, num segundo momento, diminuir. Esse tem de ser o objetivo geral do novo arcabouço fiscal, no lugar do teto de gastos. A nova regra precisa combinar: transparência, previsão de sanções para o caso de descumprimento, flexibilidade e mecanismos que colaborem para manter a nau no rumo mesmo quando os ventos não forem bons.

A título de sugestão, levei ao ministro Fernando Haddad, no mês passado, uma proposta formulada por mim em parceria com o economista e ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI) Josué Pellegrini. Na empreitada, contamos com a colaboração e comentários de outros especialistas: Renato Ramalho, Fernando Facury Scaff, José Roberto Afonso, Cristiane Coelho e Eduardo Walmsley Carneiro.

Roberto Macedo* - Na expectativa do novo arcabouço fiscal federal

O Estado de S. Paulo

Além da nova regra em si, há a questão de sua sustentação política no Congresso e a inapetência do governo por cortes abrangentes de gasto

Até a conclusão deste artigo ontem, no início da tarde, o governo Lula ainda não havia divulgado este arcabouço que substituirá o teto de gastos. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que já havia passado ao presidente Lula o documento deste arcabouço e aguardava manifestação dele sobre o assunto.

“(O novo arcabouço) deve ser votado em lei complementar (...) e levar em conta o limite de gastos, a curva da dívida, a evolução da dívida, e a questão do superávit. É uma combinação de vários fatores”, disse o vice-presidente Geraldo Alckmin à Agência Brasil na terça-feira à tarde.

A frase de Alckmin já mostra a complexidade do assunto, mas é muito mais do que isso. Recentemente, muitos analistas de fora do governo se manifestaram com suas sugestões. As últimas que vi vieram no jornal Valor Econômico em página quase inteira, na segunda-feira passada, com o título Ibre vê trajetória da dívida como possível âncora fiscal, num diagnóstico dos seus pesquisadores Manoel Pires, Bráulio Borges e Carolina Resende. Ibre é o Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas.

Celso Ming - A ameaça de crise global

O Estado de S. Paulo

O colapso do Silicon Valley Bank (SVB) nos Estados Unidos é a ponta de um iceberg que mostra vulnerabilidades do sistema financeiro global.

Por tudo quanto se sabe, o banco quebrou não por fraude ou por aplicação em ativos de qualidade duvidosa. Quebrou porque estava superaplicado no mais seguro título do mundo, o do Tesouro dos Estados Unidos (o treasury).

É fácil entender por que o treasury pode se desvalorizar e deixar um grande banco na pior, como aconteceu. Se os juros sobem rapidamente, os detentores de títulos não conseguem revendê-los no mercado pelo mesmo preço de face. Numa conta sem rigor aritmético, um treasury de US$ 1 mil que paga juros de 2% ao ano rende US$ 20 ao ano. Se os juros sobem para 5% ao ano, o novo treasury paga US$ 50 ao ano. Para render os mesmos US$ 50, o título de US$ 1 mil com juros contratuais de 2% ao ano tem de ser negociado no mercado a US$ 953. No caso do SVB, os correntistas correram aos saques – o banco teve de vender seus ativos a preços mais baixos e, de uma hora para outra, ficou sem caixa.

Adriana Fernandes - Reforma tributária sem transparência

O Estado de S. Paulo

Não apresentar novo texto da tributária faz com que a equipe econômica não fique exposta às críticas

O governo não vai enviar um novo texto de reforma tributária para o Congresso, como se esperava no início do ano pelas declarações da época do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Esse ponto, que parece óbvio para os negociadores da reforma, que se mobilizam no Congresso e em reuniões técnicas com os principais atores envolvidos, não estava claro para muitos que acompanham a evolução da reforma tributária fora do círculo de poder em Brasília.

Isso significa, na prática, que a influência do governo na reforma será feita por meio do grupo de trabalho da Câmara, criado pelo presidente da Casa, Arthur Lira. E, em última instância, no parecer final do relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC), deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB).

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

CPMI dos atos golpistas é só diversionismo

O Globo

Congresso tem tarefas mais relevantes, como as reformas administrativa, tributária e o novo marco fiscal

Os atos golpistas do 8 de Janeiro são investigados pela Polícia Federal, pela Procuradoria-Geral da República e contam com empenho do Supremo. Por isso mesmo o Congresso tem mais o que fazer do que perder tempo com uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o assunto, iniciativa do deputado André Fernandes (PL-CE) que já reuniu assinaturas suficientes para a leitura do requerimento. Outra tentativa de abrir uma comissão para investigar os ataques, da senadora Soraya Thronicke (União-MS), foi descartada pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), por ter sido iniciada na legislatura anterior.

A verdade é que não há com que deputados e senadores possam contribuir. Quem defende a CPMI quer apenas tumultuar. Vários apoiam teses segundo as quais os culpados são vítimas e as vítimas culpados. O país não precisa de um novo circo de embate político, e o Congresso tem pautas mais relevantes para tratar, como o novo marco fiscal e a reforma tributária.

Poesia | Fernando Pessoa - Grande são os Desertos (Narração de Paulo Autran)