segunda-feira, 22 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Biden fez bem em desistir de candidatura

O Globo

Com ele no páreo, derrota democrata era quase certa. Agora partido tem nova oportunidade

Joe Biden precisou de quase um mês para se convencer do óbvio. Depois do desempenho constrangedor no debate com Donald Trump em junho, até tentou permanecer no páreo em busca da reeleição em novembro. Deu entrevistas tentando disfarçar o declínio, fez discursos negando que desistiria, ligou para doadores e chamou congressistas à Casa Branca. Nada funcionou. Deputados e senadores democratas continuaram exigindo a desistência. A queda nas doações de campanha e nas pesquisas enfim o persuadiu. Ainda se recuperando da Covid-19, Biden acabou neste domingo com as especulações e tomou a decisão acertada. “É do interesse do meu partido e do país que eu desista e me concentre apenas no cumprimento de meus deveres como presidente no que me resta de mandato”, afirmou em carta aberta. Em seguida, numa rede social, apoiou o nome da vice-presidente, Kamala Harris, como candidata democrata.

Com Biden no páreo, a derrota era quase certa. Agora, o cenário muda. Embora a desistência esteja longe de significar vitória do Partido Democrata, traz oportunidade para uma candidatura com mais chance de derrotar Trump. Antes, o partido precisa chegar a consenso sobre o novo candidato. Dois cenários são possíveis. O primeiro é o nome ser escolhido em votação virtual antes da convenção de agosto em Chicago. O segundo é uma convenção disputada, de desfecho imprevisível.

Preto Zezé - Municípios precisam entrar na discussão sobre a violência

O Globo

Cidadão comum vive na cidade. Sua vida é a rua onde mora, seu território e sua percepção

A violência novamente dominou as preocupações dos brasileiros. E, se dermos uma volta no país, veremos que, grosso modo, os recursos têm sido destinados à construção de prisões (o Brasil já é a terceira população carcerária mundial). Prende-se muito e de maneira que não produz resultados efetivos na redução dos índices.

Munição, armamentos, efetivo, viatura e prisões têm sido o cardápio diante de uma população apavorada e de gestores acuados ante o avanço de grupos armados dominando territórios, estabelecendo gestão acima e contra o Estado democrático. Os gastos são imensos nesse aspecto, gastos não submetidos à avaliação da sociedade sobre eficácia.

Bruno Carazza - O pente fino e o faroeste fiscal

Valor Econômico

Para além de bloqueios e contingenciamentos, há um problema fiscal solenemente ignorado no Brasil

Pressionado por uma situação fiscal difícil, com o arcabouço fazendo água e em meio a uma avalanche de memes divulgados à direita e à esquerda criticando seu “ajuste pelo lado da receita”, Fernando Haddad e sua equipe econômica divulgam nesta segunda-feira sua proposta de bloqueios e contingenciamentos para tentar atingir a meta de déficit zero até o fim do ano.

Alguns números já foram antecipados, mas não é bom esperar nada de estrutural sendo anunciado, para além de medidas paliativas e o engodo do “pente fino” em despesas, esse emplasto utilizado pelos políticos quando não querem se indispor com cortes efetivos nos gastos.

Fernando Gabeira - Violência e torta de maçã nos EUA

O Globo

Tiros contra Trump acabaram atingindo a Ucrânia, o esforço contra o aquecimento global e os imigrantes

A violência é tão americana quanto a torta de maçã. Ouvi isso pela primeira vez numa entrevista do escritor Norman Mailer. Não sei se a frase é uma invenção dele ou era um dito popular. Mailer, pessoalmente, era bastante agressivo e se meteu em inúmeras brigas.

Observando a História dos Estados Unidos, vemos confronto em muitos momentos. Com os índios, os mexicanos e, mais tarde, os negros, que não foram apenas escravizados, muitos morreram por tortura, espancamento e assassinato.

No meio do século XIX, os Estados Unidos viveram uma guerra civil violenta. Em sua História, quatro presidentes já foram assassinados, sem contar figuras como Bobby Kennedy e Martin Luther King Jr. O homem que tentou matar Ronald Reagan queria impressionar a atriz Jodie Foster.

Demétrio Magnoli - A conquista – e os conquistadores

O Globo

Incompetência eleitoral dos democratas, que perdurou ao menos até ontem, pode custar caro

Os nomes históricos não estavam lá: George Bush, Mitt Romney, Mike Pence. No segundo dia da Convenção Republicana de Milwaukee, um a um, os antigos desafetos de Trump ajoelharam e declararam lealdade: Marco Rubio, Ted Cruz, Ron DeSantis, Nikki Haley. A convenção pode ser descrita como espetáculo da unidade. A descrição mais precisa é outra: a celebração da conquista.

O velho Partido Republicano — conservador, moderado e liberal — não existe mais. Em Milwaukee, assistiu-se ao desfecho de uma trajetória iniciada durante o mandato presidencial de Trump. O movimento Make America Great Again (Maga), nacionalista, populista e ultraxenófobo, fincou sua bandeira no pátio da fortaleza republicana. Lincoln, Theodore Roosevelt, Reagan? Os ícones do passado foram soterrados pela cavalgada dos conquistadores.

Humberto Saccomandi - Desistência de Biden dará novo ânimo à eleição nos EUA e pode ameaçar Trump

Valor Econômico

Decisão inédita e tardia de Biden da corrida à Casa Branca joga a disputa eleitoral americana em terreno absolutamente desconhecido

O presidente dos EUA, Joe Biden, desistiu neste domingo (21) de uma candidatura à reeleição que não deveria nem ter começado. As duas questões vitais para os democratas agora são: quem será o candidato presidencial e se terá chances de derrotar o republicano Donald Trump. Isso só ficará mais claro nas próximas semanas. A decisão inédita e tardia de Biden joga a disputa eleitoral americana em terreno absolutamente desconhecido.

O Partido Democrata falhou em aceitar sem oposição a disposição de Biden de, aos 81 anos, concorrer à reeleição. A questão principal não é se Biden conseguiria ganhar de Trump, como vinha sendo o argumento de muitos democratas que pediam um novo candidato. O mais importante era que o presidente muito possivelmente não teria condições físicas, e talvez nem mentais, de governar a maior potência global por mais quatro anos.

Edward Luce - Aconteça o que acontecer, democratas farão História

Financial Times / Valor Econômico

Joe Biden é o primeiro presidente dos EUA a desistir de tenta a reeleição desde 1968

Joe Biden fez história. O presidente mais velho dos Estados Unidos também se tornou o primeiro a renunciar voluntariamente ao poder desde Lyndon Johnson em 1968 e, antes disso, provavelmente George Washington em 1796. Sua decisão de renunciar ao cargo de candidato, que ocorreu após semanas de atormentado debate no Partido Democrata sobre suas habilidades cognitivas em declínio, também provavelmente proporcionará mais novidades históricas.

Seu apoio a Kamala Harris, sua vice-presidente, provavelmente garantirá a primeira candidatura presidencial de uma mulher não branca. Se ela vencer uma convenção disputada no mês que vem, Harris iniciaria as eleições gerais oficiais com chances quase iguais de derrotar Donald Trump.

Embora Biden tenha demorado a ouvir o coro crescente de democratas seniores, os grandes doadores e os meios de comunicação clamavam por tomar essa decisão. Ele deixou tempo suficiente para que os democratas se unificassem em torno de Harris, ou de outro candidato, até a convenção do partido em Chicago, no próximo mês.

David Brooks - O que os democratas precisam fazer

New York Times /O Estado de S. Paulo

O MAGA é uma espécie de marxismo de direita, que vê luta de classes como algo definidor da política

Em 2016, o movimento Faça a América Grande de Novo (MAGA), de Donald Trump, era apenas um slogan – ou, na melhor das hipóteses, um espasmo de ressentimentos e instintos sobre questões como a imigração. Nos últimos oito anos, pesquisadores, ativistas e políticos transformaram o MAGA em uma visão de mundo, uma visão de mundo que agora transcende Donald Trump.

Em todo o mundo ocidental, os partidos de direita deixaram de ser partidos das elites empresariais e se tornaram partidos da classe trabalhadora. O MAGA é a visão de mundo que está de acordo com essa realidade em transformação. Ele tem suas raízes no populismo ao estilo de Andrew Jackson (sétimo presidente dos EUA, um dos fundadores do Partido Democrata, criticado pelo tratamento de indígenas e deslealdade política), mas atualizado e mais abrangente. É a visão de mundo que representa uma versão dos interesses da classe trabalhadora e oferece respeito a esses eleitores.

Lourival Sant'Anna - Uma nova corrida presidencial começa nos EUA

O Estado de S. Paulo

A única certeza, neste momento, é a de que os democratas se livraram de um enorme peso

O cronômetro foi zerado. Uma nova corrida presidencial começa, com a desistência de Joe Biden e o endosso de sua vice, Kamala Harris. Dificilmente o nome dela será desafiado no Partido Democrata. A escolha do vice na chapa de Harris é o novo capítulo que determinará os rumos da disputa.

A desistência de Biden elimina o duplo ônus, para os democratas, de sua presença na cédula eleitoral: a rejeição que ele sofre do eleitorado, comparável somente à de Trump, e o seu desempenho desastroso em aparições públicas.

Agora, o mesmo ônus, por razões diferentes, fica exclusivamente com os republicanos: a conduta divisiva de Trump, que frustra muitos independentes e republicanos moderados, e a forte rejeição a seu nome.

Carlos Pereira -- Cooperação apenas para sobreviver

O Estado de S. Paulo

Estratégia mista de cooperar com o Legislativo e confrontar o Judiciário foi útil para Bolsonaro

Políticos de perfil autocrata, sejam eles de esquerda ou de direita, governam quase que invariavelmente confrontando as instituições que lhes impõem restrições.

No jantar de lançamento do livro “Por que a democracia brasileira não morreu?”, que aconteceu na semana passada no restaurante Cícero Bistrot, em Lisboa, o Ministro Gilmar Mendes do STF, com quem tivemos a honra de interagir como debatedor no evento, destacou que o ex-presidente Jair Bolsonaro manteve estratégias distintas para lidar com o Legislativo e com o Judiciário.

Camila Rocha - Reacionarismo e invasão de terras

Folha de S. Paulo

Hoje existem no Congresso 20 projetos de lei que integram o chamado 'pacote anti-MST'

Após o fracasso da CPI do MST, grupos ruralistas reacionários buscam promover uma nova ofensiva no Congresso. Hoje existem 20 projetos de lei que integram o chamado "pacote anti-MST", dada a pretensão explícita em criminalizar esse e outros movimentos sociais.

Três projetos já tramitam no Senado, entre os quais o projeto de lei 2.250/2021, que classifica como terrorismo a invasão de terras quando praticada com finalidade de provocar terror social ou generalizado; o PL 2.869/2023, que propõe o aumento de penas com objetivo de coibir invasões, sobretudo aquelas que ocorrerem em áreas rurais ou locais ermos; e o PL 709/2023, que propõe que ocupantes e invasores de propriedades sejam proibidos de acessar benefícios sociais e tomar posse em cargo ou função pública.

Marcus André Melo - Direita radical na Europa

Folha de S. Paulo

Entender o paradoxo exige examinar regras diferentes para o mesmo eleitorado

O RN liderado por Marine Le Pen quase dobrou o número de votos (37%) nas eleições legislativas francesas. No entanto obteve apenas 20% das cadeiras. Algo que já ocorrera antes. Em 2017, o partido, antes de mudar o nome, amealhou 13,3% (1º turno) e 8,5% (2º turno) dos votos e apenas 1,3% (8 em 577) das cadeiras.

Na última eleição britânica, o Reform Party foi o terceiro partido mais votado (14,3% dos votos), mas obteve apenas cinco cadeiras (0,7% do total). Em 2015, foi ainda pior: com 12,6% dos votos ficou com apenas 0,15% das cadeiras (isso mesmo, uma cadeira em 650).

A melhor forma de compreender o paradoxo é examinando o efeito de regras diferentes para o mesmo eleitorado.

Igor Gielow - Teimosia de presidente força partido a tomar uma decisão rápida

Folha de S. Paulo

Ato do presidente revela tanto o risco da insistência quanto a impotência ante o populismo

O ato de contrição final das cinco décadas de carreira política de Joseph Robinette Biden Jr. não poderia ser mais melancólico, até por inevitável.

Isolado devido à Covid-19, ele comunicou ao mundo que deixa a corrida presidencial contra um reenergizado Donald Trump a meros 107 dias do pleito —nunca antes isso havia ocorrido tão perto da eleição.

A desistência demonstrou duas coisas. Primeiro, que líderes precisam saber a hora de parar, por bem ou mal. O Partido Democrata não se renovou. Biden, 81, demorou três agônicas semanas para render-se ao óbvio.

Isso pode lhe custar caro: se não resolver lançar um George Clooney, para ficar no ator que simbolizou o grito pela saída de Biden, a missão de derrotar Trump ficará ou com a anódina vice, Kamala Harris, ou algum dos governadores não testados da sigla.

Lúcia Guimarães - Democrata não deveria ter esperado tanto e põe legado em risco

Folha de S. Paulo

Democrata insistiu numa postura sebastianista em que se imaginou o único capaz de salvar os Estados Unidos do genuíno horror que será uma segunda presidência Trump

Não era preciso ter esperado tanto. O melhor presidente americano dos últimos 60 anos colocou em risco seu legado. É fácil fazer análise de espelho retrovisor, mas o fato é que Joe Biden, o mais velho chefe de estado eleito, aos 77 anos, devia ter cumprido antes sua alegada intenção de sair do cargo ao final deste ano, depois de um governo genuinamente transformador para a vida dos americanos.

Ou o recado que ele passou –uma candidatura de um só mandato em dezembro de 2019— , quando sua vitória parecia francamente improvável, era apenas uma forma de aquietar aliados preocupados com sua idade?

Poesia | Calma, de Fernando Pessoa

 

Música | Vanessa da Mata - 'Faltando um pedaço'(Djavan)

 

domingo, 21 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Indicadores melhoram, mas violência segue alta

O Globo

Apesar de queda nas mortes violentas nos últimos anos, Brasil ainda é um dos países onde mais se mata

A principal notícia trazida no panorama da violência no Brasil em 2023, traçado pelo 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, é positiva: a queda de 3,4% na taxa de mortes violentas (de 23,6 para 22,8 por 100 mil habitantes). É verdade que ainda é pouco diante da angústia que aflige os cidadãos, mas o levantamento mostra que a queda no indicador é consistente desde 2017, quando os números bateram recorde, com 64.079 ocorrências (30,8 por 100 mil habitantes). As 46.328 mortes do ano passado representam redução de 28% no período. Houve queda na maior parte do país.

Mas os números são altos demais. Por hora, cinco brasileiros perdem a vida em homicídios, latrocínios, lesões corporais letais, feminicídios ou ações policiais. A taxa brasileira é 18,8% superior à média de América Latina e Caribe (19,2 por 100 mil) e quase o quádruplo da média mundial (5,8 por 100 mil). O Brasil figura como 18º país mais violento do mundo, segundo dados do escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC). Com apenas 3% da população mundial, concentra 10% dos homicídios.

Murillo de Aragão - A agenda 2024

Revista Veja

Calendário político e econômico revela um cenário desafiador

A agenda política do segundo semestre revela desafios de grandes proporções para o governo. São temas eleitorais, fiscais e econômicos com amplas repercussões para as expectativas do país. No campo eleitoral, a batalha das disputas municipais será uma prévia das eleições gerais de 2026. Os partidos que se saírem bem terão amplas possibilidades de consolidar grandes bancadas no Congresso na próxima legislatura.

Outro fato relevante é que as eleições municipais de Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte são extremamente importantes tanto para o lulismo quanto para o bolsonarismo. Lula tem dado especial atenção à disputa nessas capitais. No Congresso, a corrida pela presidência da Câmara dos Deputados deverá ter novos contornos com a possibilidade do anúncio do candidato de Arthur Lira no início do semestre. No Senado, o favoritismo de Davi Alcolumbre parece consolidado pelo fato de ter apoio do atual presidente, Rodrigo Pacheco, e também do presidente Lula.

Merval Pereira - O medo das urnas

O Globo

É compreensível que o governo brasileiro, qualquer governo que se guia pelas regras internacionais, precise manter sua liderança na América do Sul, mas para tal não é preciso assumir as vergonhosas ações das ditaduras

Mesmo que Maduro não fosse seu candidato preferido, o presidente Lula estaria agora mais empenhado do que nunca na sua vitória, para não ter que enfrentar o dilema de quem se mete a apoiar ditadores: evitar o “banho de sangue” prometido pelo ditador venezuelano em caso de derrota. Caso ela venha, o que não parece impossível a esta altura, o presidente brasileiro, que se diz um democrata, terá que intervir para que a Venezuela não se torne uma ditadura escancarada.

Não que Lula não apoie ditaduras, como mostra seu comportamento com Cuba, ou Nicarágua. Esses três exemplos, aliás, são de países que fizeram revoluções de esquerda para afastar governos autoritários de direita, presumidamente para defender o povo explorado. No que foram apoiados entusiasticamente em determinado momento histórico. Agora são eles os ditadores de esquerda que exploram o mesmo povo. De heróis passaram a vilões, e colocam governos como o de Lula em uma enrascada: como dizer-se um democrata quando os amigos se tornam ditadores?

Elio Gaspari - Godoy esmiúça o segredo do PCB

Livro traça um grande painel da história do Partido Comunista Brasileiro, com seu chefe, Luís Carlos Prestes, ilustrado por um verdadeiro romance policial

Está chegando às livrarias “Cachorros”, do repórter Marcelo Godoy. É um grande painel da história do Partido Comunista Brasileiro, com seu chefe, Luís Carlos Prestes, ilustrado por um verdadeiro romance policial: a dupla militância de Severino Theodoro de Mello, o Pacato ou Melinho, morto em maio passado, aos 105 anos. Era um cabo do Exército quando participou do levante comunista de 1935. Cuidou do aparelho onde vivia Prestes, morou na União Soviética e tornou-se um dirigente do PCB; era um contato de agentes soviéticos no Rio. Essa vida começou a mudar no dia 10 de maio de 1966, quando ele caminhava por Copacabana e foi abordado por um agente do Serviço Nacional de Informações, o SNI. (Ele era o quarto dirigente contactado pelo serviço brasileiro, ou americano. A clandestinidade do PCB era uma fantasia.)

Luiz Carlos Azedo - Cachorros, o “cerco e aniquilamento” da cúpula do PCB

Correio Braziliense

Severino Theodoro de Mello, o Pacato, militante histórico do PCB, era “Vinícius”, um super espião da inteligência militar nos anos de chumbo

O novo livro de Marcelo Godoy, “Cachorros” (Alameda), já à venda na internet, remove velhos esqueletos dos porões do regime militar e sua infiltração nas organizações de esquerda, sobretudo a cooptação de um dirigente histórico do antigo PCB, Severino Theodoro de Mello.

O novo livro de Marcelo Godoy, “Cachorros” (Alameda), já à venda na internet, remove velhos esqueletos dos porões do regime militar e sua infiltração nas organizações de esquerda, sobretudo a cooptação de um dirigente histórico do antigo PCB, Severino Theodoro de Mello.

Mello contribuiu para sequestros, mortes, prisões e desaparecimentos que ajudaram a neutralizar o PCB nos anos 1970. Com a publicação do livro “A Casa da Vovó: uma biografia do DOI-Codi, relatos inéditos de policiais e militares que atuaram nos centros de torturas e assassinatos do regime”, ganhador dos prêmios Jabuti (não ficção) e melhor Ensaio Social da Biblioteca Nacional, questionamentos de dirigentes oriundos do antigo PCB sobre esses depoimentos, que classificam os infiltrados como “cachorros”, desafiaram Godoy a aprofundar suas investigações, sobretudo sobre o veterano dirigentes do PCB.

Dorrit Harazim - O predestinado

O Globo

Ele portava na orelha direita o curativo branco, sua condecoração de herói do destino e quase mártir

A coreografia levou a assinatura do comunicador de massas intuitivo. Donald Trump sempre exerceu controle detalhista da própria imagem e, muito antes de entrar na política, aprendeu a dominar recursos imagéticos de impacto. Não foi diferente na última noite da Convenção Nacional do Partido Republicano, quando fez seu aguardado discurso de candidato oficial. Mandou escurecer as luzes na arena Fiserv Forum de Milwaukee e emergiu no palco a passos lentos, entre colunas de neon que projetavam cinco letras monumentais: T, R, U, M, P.

Portava na orelha direita o curativo branco, sua condecoração de herói do destino e quase mártir. Cinco dias antes, por um átimo, o candidato quase foi morto com um tiro de AR-15 na cabeça perante uma multidão de apoiadores. O atentado que estarreceu os Estados Unidos e o resto do mundo fez dele um candidato a predestinado.

Bernardo Mello Franco – A mágica de Trump

O Globo

Tentativa de assassinato deu a republicano chance de estrear no papel de vítima

Ele conquistou a fama com pancadas, caretas e cambalhotas. Nos anos 80, Terry Bollea se projetou com um bigode gaulês e o nome de guerra de Hulk Hogan. Virou estrela do telecatch, misto de circo com luta livre que movimenta milhões de dólares nos Estados Unidos.

Na quinta-feira, o fortão trocou o ringue pelo palanque. Foi escalado para discursar no encerramento da convenção do Partido Republicano, em Milwaukee. “Deram um tiro no meu herói”, disse Hogan, hoje um marombado septuagenário. Repetindo o número que o consagrou, ele fez cara de mau e rasgou a camiseta que lhe encobria os músculos. Por baixo do pano, revelou-se outra camisa — esta com a logomarca da campanha de Donald Trump.

Lourival Sant’Anna - A chave democrata

O Estado de S. Paulo

Democratas buscam alguém capaz de transmitir a vitalidade que Biden já não tem

A eleição americana está nas mãos dos democratas. A convenção republicana provou que a tentativa de assassinato não tornou Donald Trump menos tóxico. A compulsão por mentir e incitar o ódio segue intacta. Só Joe Biden se equipara a Trump em rejeição. Sua saída da disputa daria chance aos democratas de manter o poder.

Biden já chegou a essa conclusão. Sua desistência depende de encontrarem alguém capaz de derrotar Trump e ajudar os democratas a conquistar maioria no Congresso. Não faltam nomes. Kamala Harris é a candidata mais forte. Sua posição de vice simplificaria a troca, facilitando a transferência de doações de campanha e dos votos das primárias. Em pesquisa da CNN, ela reuniu 45% das intenções de votos, encostada em Trump, com 47%. Já Biden perderia por 43% a 49%.

Trump, Vance e o futuro dos EUA

The Economist /O Estado de S. Paulo

Republicanos saem da convenção em Milwaukee mais fortes do que parecia possível

Se vencer, Trump será mais velho do que Biden quando deixar o cargo – daí a importância de Vance

Os EUA passaram por uma daquelas semanas que parecem décadas, como dizia Lenin. Se Thomas Matthew Crooks tivesse disparado um centímetro para a direita, se Donald Trump não tivesse virado a cabeça, agora ele estaria morto. Felizmente, Trump não foi seriamente ferido. E a sorte o abençoou de outras formas também.

Na Flórida, uma juíza dispensou o caso mais forte contra ele, e seu oponente enfraquecido, Joe Biden, permanece na corrida, embora mais democratas estejam o incentivando a desistir. Na convenção republicana, em Milwaukee, esta semana, a presença de Trump foi recebida como um sinal de providência divina.

Delegados usavam bonés de beisebol com a mensagem “45/47 neles (uma alusão ao 45.º presidente americano, que foi Trump, e ao 47.º, que pode ser Trump). Isso costumava ser uma aspiração; hoje parece uma previsão.

Vinicius Torres Freire – As promessas econômicas de Trump 2

Folha de S. Paulo

Apesar do desastre da campanha de Biden e do atentado, eleição nos EUA é muito incerta

É ainda mais temerário fazer prognósticos sobre uma eleição em que um candidato quase foi assassinado e outro pode ser deposto.

Mas os últimos acontecimentos provocaram mais especulação sobre Donald Trump 2. Segundo pesquisa YouGov/CBS feita entre os dias 16 e 18 de julho, Trump tem 52% dos votos, Joe Biden, 47%. A margem de erro é de 2,7 pontos percentuais.

Dados o estado calamitoso da campanha de Biden, a hipótese de que o sangue de Trump inflaria sua votação e que faltam três meses e meio para a votação, não parece vantagem insuperável. De resto, o resultado da eleição muito depende de meia dúzia de estados que oscilam entre democratas e republicanos, onde a disputa está apertada.

Hélio Schwartsman - América iliberal

Folha de S. Paulo

Livro mostra que, na história dos EUA, movimentos autoritários convivem com tradições liberais

Uma das grandes narrativas de nosso tempo assevera que os EUA, fiéis a suas tradições liberais, não apenas se converteram numa das primeiras democracias do mundo como ajudaram a espalhar esse regime pelo planeta. Tal enunciado, embora tenha algo de verdade, esconde problemas, como toda grande narrativa. Na vida real, as coisas tendem a ser mais complexas e nuançadas, quando não contraditórias.

Muniz Sodré - Política de vexame

Folha de S. Paulo

O ato grotesco escatológico, que o argentino fingiu entender o significado, ainda foi acolhido por governadores de estado

Ainda circula nas redes a cena em que Bolsonaro entrega a Milei sua medalha de "imorrível, imbrochável e incomível", com um dos filhos tentando traduzir os termos para o espanhol. Pode-se perguntar por que reportar uma baixaria dessas, quando a memória coletiva já está saturada dos episódios repugnantes a cargo de ambos. Mas o ato recente ocorre num quadro de estresse de variáveis essenciais da vida política, levado além do que seria normal chamar de zona crítica, e pelo visto peça de uma estratégia.

Bruno Boghossian - Normalizar não é preciso

Folha de S. Paulo

Manter ideias radicais fora do cardápio político é uma maneira de respaldar as instituições que fazem a contenção de abusos

Se os franceses tivessem acordado no dia 1º de julho convencidos de que a ultradireita representava uma alternativa normal na política do país, a Reunião Nacional estaria hoje no poder. No segundo turno da disputa, a maior parte daqueles atores decidiu que a turma de Marine Le Pen não deveria governar a França.

O problema da "normalização da ultradireita" começa e termina no desejo do eleitor, mas é também uma questão de debate público e de organização política. Quando a população de um país identifica uma plataforma radical como melhor opção de governo, a escolha está feita. Ela não deixa de ser radical nem passa a ser admitida com menos resistência.

Celso Rocha de Barros - O tiro e a facada

Folha de S. Paulo

Republicano sai do atentado com ferimentos menos graves que os de brasileiro e não deve esperar por bônus semelhante

O tiro de Thomas Crooks vai ajudar a eleger Donald Trump como a facada de Adélio Bispo ajudou a eleger Jair Bolsonaro?

É difícil dizer. Na verdade, até hoje não sabemos bem qual foi o efeito da facada sobre a campanha eleitoral de 2018. A maioria dos analistas acha que o atentado ajudou Bolsonaro, eu também acho. Mas como?

Uma primeira hipótese, levantada nos primeiros dias após o atentado de 2018, apostava que a comoção em torno do atentado faria Bolsonaro subir rapidamente nas pesquisas. Alguns achavam que algo semelhante havia acontecido com a campanha de Marina Silva em 2014, lançada logo após a morte de Eduardo Campos em um acidente aéreo.

Não foi bem assim: Bolsonaro subiu nas pesquisas depois da facada, mas gradualmente. Se houve um "bônus de solidariedade" eleitoral, ele cresceu conforme o candidato era mostrado no hospital, com sua família, todos os dias, correndo risco de vida.

Pablo Spinelli - 1974: a derrota vitoriosa

Voto Positivo

O ano de 1974 é deveras importante para a análise e a ação da política no tempo presente. Dez anos antes se instaurou no país aquilo que a academia há cerca de duas décadas intitulou de Ditadura Militar-Civil. O termo civil é exposto para lembrar a adesão do empresariado, de políticos, de setores eclesiásticos, da mídia escrita e falada, de grupos da heterogênea classe média, dentre outros, que transbordavam quantitativamente o número de militares quanto à proposta da derrubada do governo constitucional de João Goulart que foi substituído por generais em simulacros de eleições organizadas pelo Alto Comando das Forças Armadas.

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Hamilton de Holanda, Diogo Nogueira e Silvia Perez Cruz - "Dança da Solidão" (Paulinho da Viola)

 

sábado, 20 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Parlamentares usam emendas em favor de parentes candidatos

O Globo

Antecipação permitiu driblar regra em ano eleitoral. Laço familiar é exaltado em palanques sem constrangimento

As eleições municipais têm funcionado como estímulo para deputados destinarem emendas parlamentares a prefeituras de parentes. Depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucionais as emendas identificadas pela sigla RP9, ou “emendas do relator”, os congressistas passaram a usar as RP8, ou “emendas de comissão”, para alocar recursos a seus projetos particulares.

Até a semana passada, o governo federal programara pagar R$ 9,1 bilhões em emendas de comissão, garantindo o envio do dinheiro depois de esgotado o prazo determinado pela Justiça Eleitoral para essas transferências, o início de junho. Com a garantia dos recursos, as prefeituras e seus padrinhos poderão erguer palanques, anunciar e iniciar obras a tempo de conquistar votos para prefeito e vereador.

Carlos Alberto Sardenberg - O risco de complicar

O Globo

O texto básico, já aprovado, é bastante bom. Mas os detalhes podem pôr muito a perder

Há pelo menos duas décadas, a reforma tributária está na pauta política e econômica. Pode-se entender isso como perda de tempo, a versão pessimista. Faz sentido. Os temas se repetiram demasiadamente. Parecia impossível chegar a uma decisão, a um projeto abrangente de reforma. Até surgiram alguns, mas não pegaram embalo. Mas há também uma versão mais esperançosa. Foi o tempo necessário para decantar as propostas e chegar a um entendimento sobre as bases da reforma.

Fiquemos com essa última linha, pois o Congresso Nacional acaba de aprovar uma abrangente reforma dos impostos sobre o consumo. Caminhamos, portanto, para uma mudança por acumulação, não por ruptura. Mesmo porque, depois de tudo aprovado, será implantada ao longo de dez anos. Mais ainda: o texto básico é exatamente do que o Brasil precisa. Simplifica o sistema, facilitando a vida das empresas, torna-o mais eficiente e justo.

Pablo Ortellado - ‘Hashtags’ mostram riscos à democracia

O Globo

Na esquerda, a teoria conspiratória dominante sustenta que o atentado a Trump foi encenado

A democracia americana balançou no último sábado quando um atirador disparou contra a cabeça de Donald Trump durante um comício, gerando uma tempestade de teorias conspiratórias e ameaças de mais violência. Duas hashtags rapidamente se tornaram os assuntos mais comentados nas mídias sociais, destacando os riscos que um episódio de violência política como esse pode trazer num cenário de polarização crescente.

Poucos minutos depois dos disparos, a expressão staged (armado/encenado) já estava entre os tópicos mais discutidos no X. Postagem após postagem especulavam sobre que forças ocultas estariam por trás do atentado suspeito. A discussão girava em torno das falhas graves do serviço secreto e da polícia, que, supostamente alertados sobre a presença do atirador, demoraram a agir. Também foi considerada suspeita a rapidez com que Trump se recompôs e “posou” para a famosa foto produzida pela agência Reuters, em que aparece com o punho erguido, cercado por seguranças, sob uma bandeira americana tremulando.

Eduardo Affonso - Falso ou verdadeiro?

O Globo

O brasileiro está mais exposto aos vieses dos algoritmos, a ficar refém da própria bolha

Uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicada em junho, avaliou em 21 países a capacidade da população de identificar notícias falsas. Para surpresa de ninguém, o Brasil ficou em último lugar.

São vários os motivos para nossa constrangedora credulidade. Alguns, universais — como o viés de confirmação, que nos leva a acreditar no que mais nos convém (vide os “patriotas” identificando sinais de uma iminente operação de “garantia da lei e da ordem”, que lhes garantiria burlar a lei e institucionalizar a desordem). Outros, ligados ao estágio de qualquer país eternamente “em desenvolvimento” — como o baixo nível de alfabetização digital, que nos deixa acríticos (vide a quantidade de gente que ainda cai em golpes na internet). Há também a desinformação sistêmica — uma força-tarefa trabalhando em tempo integral para desintegrar nossos detectores de mentiras.

Dora Kramer - A arte da zoeira

Folha de S. Paulo

Criativo na era analógica, na digital PT foi pego no contrapé do novo tempo

Na era analógica, o PT era eficiente no embate. Naqueles idos do final do século passado, era também bom de festa, de (algum) humor e criatividade. Com esses atributos, tanto fez oposição que conseguiu, e segue conseguindo, ser situação.

Nesse lugar de poder pela quinta vez e na era digital, o partido parece ter sido pego de jeito no contrapé do novo tempo. Perde de lavada num ambiente dominado pela direita. Não consegue pautar as provocações nem reagir a elas de modo eficaz.

Leva o tranco e, quando (raramente) se anima a dar o troco, o faz em moeda de menor valor.

Hélio Schwartsman - Física do crime

Folha de S. Paulo

Números do 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública esmiúçam os padrões da violência no país e oferecem possibilidades de intervenção

Se a física com suas fórmulas e números longos parece uma coisa complicada, as ciências sociais são muito mais. É que o reducionismo, isto é, a possibilidade de quebrar um fenômeno complexo em elementos mais simples para entendê-lo, funciona melhor nas ciências exatas do que nas que envolvem seres humanos. Átomos são comportamentalmente mais consistentes do que pessoas.

A dificuldade não é motivo para desistir. Mesmo em fenômenos multifatoriais complexos como a criminalidade é possível identificar tendências e encontrar oportunidades de intervenção.