segunda-feira, 11 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Trump abala confiança nos EUA ao pressionar Fed

O Globo

Por ora, ele parece ter desistido de demitir Powell. Mas seus atos revelam desprezo pelo equilíbrio institucional

A pressão de Donald Trump sobre o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, tem ganhado contornos preocupantes. Trump não esconde sua intenção de se livrar do presidente do Fed, Jerome Powell, que ele próprio indicou ao cargo em 2017, mas que hoje considera “tardio” demais para reduzir os juros. Por lei, ele não pode demitir Powell, cujo mandato só termina em maio de 2026. Mas alguém com os instintos autoritários de Trump não se deixaria intimidar por esse tipo de detalhe.

Ganhou corpo nas hostes trumpistas a ideia de usar como pretexto para a demissão o custo exorbitante da nova sede do Fed, orçada inicialmente em US$ 1,9 bilhão, mas que não sairá por menos de US$ 2,5 bilhões. Depois de uma visita de Trump ao canteiro de obras, parlamentares republicanos decidiram denunciar à Justiça irregularidades atribuídas ao projeto, afirmando que Powell mentiu sobre ele em seu último pronunciamento ao Congresso. Uma demissão antes do fim do mandato seria fato inédito, que por certo despertaria um processo judicial e teria consequência imediata nos mercados.

Trump contra a globalização - Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Todos os países fazem um jogo de perdedor: protecionismo contra protecionismo. Fica tudo mais caro

No dia em que entraram em vigor as tarifas globais, Donald Trump escreveu em sua rede social:

— Bilhões de dólares estão agora fluindo para os Estados Unidos.

Ele acredita que o país exportador de algum modo paga as tarifas. Repete essa tese, digamos, toda vez que anuncia uma nova taxa. Por exemplo:

— A Suíça vai ter de nos pagar 39%.

É bem o contrário. O nome da coisa é tarifa de importação, logo, e caminhando pelo óbvio, quem paga é o importador americano, que passará esse custo adicional ao consumidor local. O hambúrguer e o suco de laranja ficam mais caros.

Digamos que o importador absorva todo esse custo, tirando de sua margem de lucro. Mesmo assim, quem paga é o próprio importador americano. O fluxo de bilhões de dólares vai do bolso americano para os cofres do Tesouro americano, do setor privado para o governo. Tanto é assim que Trump não perde oportunidade de comemorar os dados sobre o aumento de receita das importações. É contraditório, mas quem diz que Trump se importa com isso? Na verdade, ele nem percebe a contradição — como têm dito os analistas com um mínimo de noção.

A volta da censura - Miguel de Almeida

O Globo

No rastro do esdrúxulo conceito de Escola Sem Partido, pais conservadores buscam interferir no conteúdo didático

Nos últimos meses, escrevo um livro sobre a censura na época do regime militar: um show de horrores, felizmente dinamitado pela volta da democracia. Além de centenas de canções, cerca de 500 títulos foram proibidos de chegar ao público — como o romance “Zero”, de Ignácio de Loyola Brandão, e os contos de “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca. Em geral, o argumento, quando havia, era ferir “a moral e os bons costumes”.

Na São Paulo de 2025, 40 anos depois do final da ditadura, a Prefeitura da cidade reinstituiu a censura ao arrepio da lei. São vários os casos. Cinco dias antes de seu início, a 7ª Flipei (Feira Literária Pirata das Editoras Independentes) recebeu comunicado da Fundação Theatro Municipal de que o evento fora cancelado. O diretor Abraão Mafra não dourou a pílula: a proibição ocorria “em razão do uso político por parte dos organizadores”.

Lei Magnitsky é soberana? - Irapuã Santana

O Globo

Problema é político, com reflexos no mundo do Direito, e não o contrário, porque, juridicamente falando, não há para onde correr

Muito tem se falado sobre os efeitos da Lei Magnitsky nas últimas semanas. Sua essência reside na imposição de sanções a indivíduos e entidades estrangeiros considerados responsáveis por violações graves de direitos humanos ou atos de corrupção significativos.

Um ponto central é a natureza da decisão de aplicar as sanções. A inclusão do nome de qualquer pessoa na lista da Lei Magnitsky é um ato privativo do presidente dos Estados Unidos, com base no interesse nacional. Portanto, sua legitimidade está ligada somente à ordem jurídica americana.

A soneca dos governadores - Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidenciáveis, Tarcísio e Caiado tentam culpar Lula por tarifaço articulado pelo filho do capitão

Na tarde em que extremistas de direita invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, o governador do Distrito Federal estava fora do ar. Ibaneis Rocha não atendeu o telefone enquanto a multidão de verde e amarelo destruía os palácios e urrava por golpe e ditadura. Mais tarde, escreveu a um amigo que estava tirando uma soneca.

Responsável pela segurança pública em Brasília, Ibaneis ignorou alertas de que os bolsonaristas preparavam atos violentos. Também rejeitou ajuda da Força Nacional de Segurança, oferecida na véspera pelo Ministério da Justiça. O emedebista foi afastado pelo Supremo por “omissão dolosa”, mas conseguiu voltar ao cargo dois meses depois. Nesta quinta, reapareceu no noticiário como anfitrião de um encontro de governadores.

O perfil dos amotinados no Congresso e seus riscos - Bruno Carazza

Valor Econômico

Dados revelam que líderes bolsonaristas na insurreição da semana passada preocupam-se mais em tumultuar do que em propor soluções

"Sinceramente, Bruno, as métricas que você utiliza para avaliar o quão ruim é o Congresso atual comparado com os anteriores, para dizer que não é tão mau assim, depois de ontem foram para o vinagre!”

Recebi a mensagem acima na quinta, vinda do meu amigo Leandro Novais, professor de direito econômico da Faculdade de Direito da UFMG. Obviamente, ele se referia à tomada do controle do Congresso Nacional à força pelos bolsonaristas em reação à decretação da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

A agitação durou trinta horas e ligou o sinal de alerta sobre o grau de ameaça que paira sobre a democracia brasileira no momento em que um Poder se mobiliza para colocar outro contra a parede.

Boas e más ideias para o crédito imobiliário - Alex Ribeiro

Valor Econômico

Governo prepara medidas para revitalizar o sistema de crédito habitacional


 O dinheiro barato da caderneta de poupança para o financiamento imobiliário está acabando, e o governo prepara medidas para revitalizar o sistema de crédito habitacional. Há uma má ideia circulando: fazer a liberação dos depósitos compulsórios para turbinar os empréstimos no curto prazo, às custas de riscos à estabilidade.

Clientes que, ultimamente, buscaram crédito conseguiram financiar apenas metade do valor do imóvel. É um racionamento. Os bancos captam dinheiro para emprestar na poupança, mas o depositante está sumindo.

A caderneta paga cerca de 8,5% ao ano, apesar da isenção de impostos. É um mau negócio e, graças à maior educação financeira, as pessoas estão percebendo. Com a Selic a 15% ao ano, outras aplicações rendem pelo menos 11,5% ao ano, depois de pagar o imposto.

Provocar para romper - Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Fica claro que a missão de Gabriel Escobar é provocar o Brasil e obter a própria expulsão

Em plena era digital, ainda se utiliza a expressão “telegramas” (cables, em inglês) para se referir às comunicações oficiais entre o governo de um país e suas embaixadas e consulados ao redor do mundo. No mundo pré-internet, era exclusivamente por meio desses comunicados, geralmente confidenciais, que os diplomatas informavam aos seus chefes no ministério de relações exteriores o que estava acontecendo nos países onde atuavam e recebiam as ordens sobre como se posicionar publicamente sobre questões referentes à relação bilateral.

O Brics em tempos de Trump - Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Em um cenário global fragmentado e volátil, a aposta mais segura é o alinhamento múltiplo

A volta de Donald Trump teve um efeito inesperado: dar novo fôlego ao Brics. Com sua retórica errática, tarifas punitivas, ameaças contra o grupo e disposição de interferir na política interna de países do bloco, ele reforçou a necessidade de diversificar parcerias e reduzir a dependência de Washington.

Enquanto os antecessores de Trump ignoraram o grupo, os ataques do atual presidente representam, paradoxalmente, um elemento unificador. Até na Índia, que vinha estreitando laços com os EUA, as tarifas reforçaram a percepção de que é arriscado depender demais de um aliado volátil, levando Nova Délhi a valorizar a estratégia de alinhamentos múltiplos como um seguro geopolítico.

Os defensores da democracia - Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Limites devem ser estabelecidos, sob pena de a defesa da democracia tornar-se uma arma que pode miná-la

O Brasil precisa se defender dos defensores da democracia! Cuidado! O terreno está minado! O número de falsos personagens que se arvoram em defensores das liberdades é propriamente assustador. O País está rumando para uma crise institucional de proporções importantes, com as instituições se desagregando internamente, para além dos conflitos cada vez mais visíveis entre elas, enquanto os responsáveis políticos nada mais fazem do que defender seus interesses eleitorais, corporativos, de privilégios e outros, como se o bem coletivo pudesse ficar à deriva.

Bolsonaro e seu filho Eduardo só se preocupam com uma anistia generalizada que os beneficiaria, usando para isso, sem quaisquer limites, todo e qualquer meio, inclusive as tarifas impostas, que contrariam os interesses nacionais. Fazem o jogo dos EUA em prejuízo de seu próprio país, algo inaceitável para um ex-presidente. Agir contra a própria nação é propriamente um crime. Do ponto de vista eleitoral, tanto mais inexplicável é, uma vez que sua própria base foi prejudicada, em particular o agronegócio, seu pilar de sustentação. Se o deputado tinha alguma pretensão presidencial, ela simplesmente esvaiu-se. Entre o Brasil e os EUA, optaram por esse último, sob o pretexto de estarem defendendo as nossas liberdades! Ora, o País sofreu um imenso tarifaço e eles defenderam que o presidente americano tenha ingerência no Judiciário brasileiro. Pasmem, declaram defender as liberdades.

O STF e o foro - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Proposta restaura o statu quo pelo qual a Câmara controlará a licença e estenderá no tempo os processos

Antes do início do julgamento da denúncia do PGR sobre Bolsonaro, escrevi aqui neste espaço que o saldo líquido para a corte seria negativo em qualquer cenário. "O julgamento será fatalmente percebido como hiperpolitizado —seu custo proibitivo— em um momento crítico para a democracia brasileira". O pior cenário materializou-se. E a intervenção de Trump no processo representa um choque no sistema. Ela altera o equilíbrio perverso entre parlamentares e juízes no qual há interdependência: a ameaça de impeachment é a contrapartida de ameaças de condenação em ações penais.

Congresso corre para aprovar Código Eleitoral - Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Novas regras vão impactar na composição das Casas Legislativas

Apesar das tentativas de deputados e senadores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro de barrar o retorno dos trabalhos legislativos na última semana, o segundo semestre promete ser agitado no Congresso Nacional.

A urgência em pautar temas relevantes para os próprios congressistas, especialmente as regras para as eleições de 4 de outubro de 2026, que são regidas pelo princípio da anualidade, deve dar o tom nas próximas semanas.

São dois os principais projetos nessa temática que vão dominar a agenda: o novo Código Eleitoral e a decisão sobre a manutenção ou derrubada do veto presidencial ao projeto de lei que prevê aumento de 513 para 531 cadeiras na Câmara, além de regras para garantir a proporcionalidade entre a população dos estados e o número de representantes.

O projeto de lei complementar (PLP) 112/2021, que atualiza o Código Eleitoral, tramita no Senado desde setembro de 2021.

A catedral orgânica – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Como o brasileiro pode amar a floresta e protegê-la se não é educado para entendê-la como central para o mundo?

"O Brazil não conhece o Brasil/ O Brasil nunca foi ao Brazil// O Brazil não merece o Brasil/ O Brazil tá matando o Brasil// Do Brasil, SOS ao Brazil/ Do Brasil, SOS ao Brazil". São versos de Mauricio Tapajós e Aldir Blanc em "Querelas do Brasil", que Elis Regina lançou em 1978 e, hoje, quase 50 anos depois, às vésperas da COP30, soam com assombrosa atualidade.

Reencontrei esse alerta na entrevista do cineasta João Moreira Salles e da ativista indígena e colunista da Folha Txai Suruí a Rosiska Darcy de Oliveira no último número da indispensável Revista Brasileira, publicada pela Academia Brasileira de Letras e dirigida por Rosiska.

Para Bolsonaro, salvar a pele equivale a desmontar instituições - Bernardo Carvalho

Folha de S. Paulo

Extrema direita precisa inverter o sentido de coisas e palavras para se manter no poder

Outro dia ouvi que o único erro de Eduardo Bolsonaro foi não ter pedido a Trump para deixar de fora o nome de sua família na punição ao Brasil. Tudo bem que taxista não conta, mas é mau sinal que a esta altura chamar os Bolsonaro de câncer, neoplasia social, soe pueril e inócuo, como me dei conta ao responder. Segundo pesquisa do Datafolha, 46% dos brasileiros são contra a condenação do ex-presidente.

Contra a Justiça brasileira, Bolsonaro diz que só obedece à lei de Deus —o seu, é claro, como sempre. Vale-se da versatilidade da escusa que lhe permitiu cometer atos gravíssimos aos olhos de qualquer deus, incluindo o que ele costuma chamar de seu, para seguir bravateando como se não fosse réu.

Música | Moacyr Luz - Atravessado

 

domingo, 10 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Impacto do tarifaço no Brasil pode não ser tão dramático

O Globo

Qualquer programa de ajuda do governo precisa ter foco e, sobretudo, ser temporário

Não era apenas bravata. O Brasil foi alvejado por Donald Trump com a maior punição em seu tarifaço, uma sobretaxa de 50% nas exportações aos Estados Unidos (se até o fim do mês a Índia não ceder à pressão para que pare de comprar petróleo russo, será o único país sujeito a taxação igual). A fúria tarifária de Trump, vale lembrar, tem escala planetária. Como tarifas subiram para praticamente todos os parceiros comerciais americanos, o resultado será um rearranjo da economia global. Para reduzir os danos aos exportadores brasileiros, o governo federal terá de analisar caso a caso suas demandas.

O Tesouro não tem recursos sobrando, e o Executivo não deveria aumentar ainda mais o endividamento para socorrer todos os que passarem por dificuldade. Qualquer programa de ajuda deve ter foco e, sobretudo, ser temporário — afinal, sabe-se lá quanto tempo durarão as tarifas. Para vários segmentos, o sobressalto agudo poderá ser passageiro. O deslocamento das mercadorias para o mercado interno é sempre uma saída, e há dezenas de compradores externos além dos Estados Unidos.

Exportadores de café estão entre os que sem dúvida conseguirão encontrar novos mercados. Há escassez nos estoques mundiais, e a demanda se mantém inalterada. O setor tem tudo o que é preciso para buscar alternativas: tradição exportadora, contatos em vários países e mão de obra especializada em comércio internacional. Esse também é o caso da indústria de carnes. Com atuação marcante de grandes grupos empresariais, ela na certa tem mais capacidade de enfrentar as adversidades.

Em setores como a indústria têxtil, de calçados, frutas ou pescados, a situação é outra. Há grande participação de pequenas e médias empresas, mais suscetíveis a problemas como falta de capital de giro. As próximas semanas e meses serão desafiadores, em especial para empresas que trabalham com produtos perecíveis. Mesmo para essas, porém, o governo não deve antecipar linhas de socorro, sob o risco de desestimular a procura por novos mercados. Com o rearranjo no comércio global, é provável que oportunidades surjam.

Pós-verdade trumpista - Merval Pereira

O Globo

Quando o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, em seu primeiro mandato, lançou o conceito de “verdade alternativa”, estava aberta a temporada que seria identificada como a da “pós-verdade”, termo que já fora usado anteriormente, mas tornou-se oficial quando assessores do recém-eleito presidente afirmaram que o número de pessoas que assistiram à posse presidencial em janeiro de 2017 foi maior do que na de Obama em 2009. Ao serem confrontados com outros dados, eles afirmaram que não estavam mentindo, mas apresentando “fatos alternativos”.

A “pós-verdade”, que já virara palavra do ano do dicionário Oxford, passou a definir a ação política de Trump, inclusive com o uso de “fake news” para atingir objetivos. Mentir em política sempre foi uma arma utilizada, mas o advento das redes digitais potencializou a disseminação de notícias falsas que antigamente chamavam-se de boatos, e hoje transformaram-se em “pós-verdade”.

Guerra invisível no centro da Terra - Míriam Leitão

O Globo

A COP no Brasil precisa superar seus desafios e ser bem-sucedida para enfrentar a guerra invisível provocada pelas mudanças climáticas

O Brasil estará amanhã na constrangedora situação de participar de uma reunião convocada pela ONU para discutir o custo exorbitante da hospedagem em Belém. O assunto deixou de ser um problema logístico para estar no centro do debate sobre o sucesso ou não da COP 30. A ganância e a falta de gerenciamento da questão podem destruir nossa chance de tornar bem-sucedida a primeira Conferência do Clima na maior floresta tropical do planeta. Há outros problemas. O governo Donald Trump não mandou um representante sequer para as reuniões preparatórias, o que derruba a expectativa de haver alguma participação dos Estados Unidos.

A guerra é a continuação da política por outros meios? - Antonio de Aguiar Patriota*

O Globo

O relógio simbólico que marca o risco de conflito nuclear nunca esteve tão perto da meia-noite

O general prussiano Carl von Clausewitz, que ajudou a derrotar Napoleão em Waterloo, era também um teórico da guerra. Seu nome ficou associado ao adágio segundo o qual a guerra é a continuação da política por outros meios. Será que essa ideia ainda faz sentido?

Até 1914-1918, a guerra era considerada atividade legítima para aquisição de território ou implementação de política externa. Em 1928, o Pacto Briand-Kellogg preconizou sua ilegalidade. Isso não impediu que Mussolini implodisse a Liga das Nações, nem que Hitler desencadeasse a Segunda Guerra Mundial. Determinados a impedir a repetição da tragédia, em 1945 os fundadores da ONU estabeleceram um sistema pelo qual o uso da força seria admissível apenas em autodefesa ou mediante autorização do Conselho de Segurança.

A Ferrogrão completa dois anos de vida só no papel - Elio Gaspari

O Globo

Completam-se amanhã dois anos do lançamento do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), joia da coroa do governo Lula 3.0. Previa R$ 1,8 trilhão de investimentos. Na cumbuca, entrou o projeto da Ferrogrão. Trata-se de uma ferrovia com mil quilômetros de extensão, ligando as cidades de Sinop (MT) e Miritituba (PA). Pelo andar da carruagem, era fake news, pois nenhuma folha de papel saiu do lugar para permitir a discussão ou a realização da obra, prevista no Novo PAC para ser concluída em 2030.

Na melhor das hipóteses, a Ferrogrão ficou no ar por conta de um governo que não se mexe. Na pior, ela entrou no PAC para enganar a turma do agro.

A ferrovia — paralela à rodovia BR-163 já existente e asfaltada —, permitirá o escoamento de 50 milhões de toneladas de grãos anuais, com o frete estimado em R$ 150 por tonelada, metade do custo do mesmo frete por transporte rodoviário.

Admitindo-se que não se tratou de uma brincadeira, em dois anos Lula 3.0 não mexeu um só papel, nem discutiu um só tema relacionado com essa obra.

São muitos e dormentes os interesses contra a abertura de qualquer ferrovia. Se o governo teve de fato algum interesse na obra, nada melhor que abrir a discussão do projeto. Como se sabe, a luz do Sol é o melhor detergente.

Agressão externa e radicalização interna, arma-se a tempestade perfeita - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Comando da Câmara é presidencialista, essa autoridade não pode ser afrontada, ainda mais numa Casa cuja característica principal é o diálogo como método de formação de maiorias e não a força física

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não tem a dimensão da sua responsabilidade histórica diante do impasse institucional que se arma a partir da crise diplomática e comercial do Brasil com os Estados Unidos. Seu comportamento durante as 30 horas em que um grupo de parlamentares bolsonaristas sequestrou a Mesa Diretoras da Câmara, em protesto contra a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, revela isso.

Fosse qualquer um dos que o antecederam, a resposta seria dura e imediata, à altura do poder e da liturgia do cargo que exerce. O comando da Câmara é presidencialista, essa autoridade não pode ser afrontada, ainda mais numa Casa cuja característica principal é o diálogo como método de formação de maiorias e não a força física.

O golpe avança - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com dossiês e chantagens, os golpistas querem o Brasil refém de Donald Trump

O nosso Brasil, tão varonil, está se tornando refém da aliança Bolsonaro-Trump, que ataca e chantageia o Supremo, tenta controlar o Congresso, desqualifica a mídia, captura corações e almas na sociedade e joga o setor privado contra a parede, com o intuito cada vez mais claro de não só livrar Jair Bolsonaro da cadeia, mas de isolar o governo Lula e dominar o País em 2026. É um projeto muito mais ameaçador do que parece a olho nu.

Depois da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, promoveram ataques coordenados a ministros do Supremo: um post ultrajante e sem precedentes da embaixada americana sobre “monitoramento” de quem apoia Moraes e um vídeo indecente de Eduardo Bolsonaro citando Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. A intenção é deixar no ar a existência de dossiês para amedrontar o STF.

Candidato a chefe do mundo tem apoio no Brasil - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

As semelhanças entre o 6 de janeiro de 2021 em Washington e o 8 de janeiro de 2023 em Brasília de nenhum modo são casuais

A ambição de mandar no mundo foi reafirmada pelo presidente americano, Donald Trump, com a imposição de um tarifaço de 50% à Índia, como “punição”, segundo se informou, por negócios com a Rússia. Muito usada nos últimos dias, a palavra punição é inadequada. Pode-se punir quem descumpre uma regra. Mas nenhuma norma internacional proíbe o comércio com a Rússia. Além disso, nenhum acordo atribui aos Estados Unidos o controle de parcerias comerciais de outros países. Desprezar o perigo de um pretenso castigo, no entanto, seria uma imprudência. Sem sujeitar suas decisões a controle estrangeiro, o presidente do Brasil deve estar atento a ameaças, um risco aumentado, agora, por alguns políticos – patriotas de quais países? – empenhados na busca de interferência externa.

Trump já atingiu seu objetivo no Brasil - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os dois lados do espectro político do Brasil trabalham pela escalada com os Estados Unidos

O governo americano não prepara novas sanções contra o Brasil. Donald Trump já atingiu o objetivo principal, de rebater para a esquerda o estigma autoritário. Diante disso, Lula e o grupo de Jair Bolsonaro voltaram a fomentar a escalada que interessa a ambos.

De acordo com minha apuração, o Departamento de Estado não tinha planos, até sexta-feira, de adotar novas medidas contra autoridades do STF e do Planalto. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA também não recebeu instruções de estudar tarifa adicional contra o Brasil por importar da Rússia, como fez com a Índia.

Oposição se atrela a boia furada - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ação de radicais desarruma a cena da direita, que precisará rever sua política de alianças para 2026

A direita, descontada a extrema que merece outro tipo de qualificação, estava dando andamento razoável aos seus planos eleitorais para 2026, até que se viu engolfada pela crise do tarifaço e demais sanções.

Antes, apresentou-se ao debate, elegeu porta-vozes do projeto, na forma de candidaturas prévias de governadores e, no aguardo do desfecho do julgamento no Supremo Tribunal Federal, vinha cozinhando a fictícia postulação de Jair Bolsonaro (PL) de liderar a chapa presidencial.

A partir daí, rearrumaria as peças e daria início ao jogo. Isso na dependência do aprofundamento, ou não, do desgaste do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As condições estavam mais ou menos dadas para uma campanha em que a direita entraria com a missão de administrar a abundância e a esquerda na condição de refém da escassez de possibilidades, atada à decisão de Lula.

Dólar segura a onda do Brasil - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois do choque do tarifaço, juros e moeda dos EUA voltam à tendência de queda, por ora

tarifaço Trump-Bolsonaro causou febre nos mercados financeiros do Brasil em julho. Parece estar passando. As taxas de juros de prazo de dois anos ou mais estão à beira de voltar à linha da tendência de queda que vinha desde fevereiro, como se observa no atacado do mercado de dinheiro. O preço do dólar parece voltar à tendência de queda que se via desde abril, grosso modo.

Essa calmaria relativa ocorre durante a ofensiva "Blitzkrieg" do "duce" Donald Trump e de novo surto da insurreição permanente dos Bolsonaros e cúmplices. Portanto, pelo menos na visão da maioria dos donos e dos negociadores de dinheiro grosso, o risco de agravamento da guerra econômica de Trump e o golpismo sem fim dos Bolsonaros não têm peso suficiente para "fazer preço", para alterar correntes maiores que influenciam preços (câmbio, juros). Números piorados nas contas externas, de entrada de dólar ("fluxo cambial"), a ruindade porém estagnada das contas públicas e o tumulto político-eleitoral ora não fazem coceira nesse cenário.

Xandão está 100% certo - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Críticos do ministro agem por mistura de miopia com mutreta

Alexandre de Moraes está obviamente certo em decretar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro não foi preso porque tentou um golpe de Estado depois de perder a eleição de 2022. Esse processo ainda está em andamento. Bolsonaro só deve ser preso por isso depois de condenado.

Foi preso agora em outro inquérito, instaurado porque Jair cometeu, com seus cúmplices Eduardo e Donald, a mais clara e evidente tentativa de obstrução de Justiça da história moderna: a maior superpotência do mundo tomou a economia brasileira como refém até que o Judiciário brasileiro aceite entregar para os Estados Unidos o direito de dizer que leis valem ou não valem em nosso território.

Um diagnóstico com brilho de pirita - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Ninguém duvida da importância da diversidade de cérebros, nem minimiza os desestímulos paralisantes de verbas

Nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que brilha em Harvard deve ser levado, acriticamente, a sério. É o que vem à mente após a leitura de um texto do renomado professor de filosofia e teoria social daquela universidade, Roberto Mangabeira Unger, brasileiro-americano. Ele compartilha o bom senso já generalizado de que o Brasil precisa deslocar-se do fornecimento de commodities físicas para o de serviços de conhecimento. Nisso é fundamental universidade de alto nível.

Até aí, reluz o argumento. Em seguida, porém, sustenta que entrave para o nível desejado é a dificuldade brasileira na contratação de professores estrangeiros. Ninguém duvida da importância da diversidade de cérebros, nem minimiza os desestímulos paralisantes de verbas e burocracia. Mas, para quem chefiou por duas vezes uma Secretaria de Assuntos Estratégicos, é surpreendente desconhecer a excelência das instituições nacionais que combinam ensino, pesquisa e extensão. Cabe especular se, no exercício daquelas funções, alguma vez se cogitou definir universidade como recurso estratégico.

O bolsonarismo no assalto ao Parlamento – Juliana Diniz

O Povo (CE)

A política democrática convive com a resistência, a irresignação e o dissenso, mas tudo isso só pode se dar legitimamente nos limites que a Constituição permite, do contrário, é de golpe que estamos falando

Em política, mais grave do que ser um líder fraco, é parecer fraco. Foi o que mostrou Hugo Motta na última quarta-feira. As cenas do presidente da Câmara dos Deputados tentando atravessar um amontoado de colegas até sua cadeira na mesa diretora da casa legislativa foram uma das mais deploráveis demonstrações de fraqueza que já se viu no Parlamento brasileiro. Impossibilitado de assumir seu posto diante da negativa de Marcel van Hattem, que ocupava a cadeira, Motta recuou, desmoralizado, sob comemorações dos parlamentares da oposição. Um vexame.

Poesia | Palavra mágica, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Moacyr Luz & Samba do Trabalhador - Beija-me (Ao Vivo No Bar Pirajá) ft. Rildo Hora

 

sábado, 9 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não pode prosperar a barganha para blindar congressistas

O Globo

Fim do ‘foro privilegiado’ e PEC da Blindagem são despropósitos. País tem pautas mais urgentes a tratar

Foi nefasta a barganha costurada para pôr fim à inaceitável ocupação da Câmara e do Senado em protesto contra a decretação da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. O pacote negociado envolve a votação de projetos com o objetivo indisfarçável de blindar deputados e senadores de ações do Judiciário. Se já eram ideias ruins, ficaram piores quando líderes bolsonaristas admitiram terem sido objeto de negociação para acabar com o motim que paralisou o Parlamento.

Várias propostas já haviam sido discutidas quando o deputado Arthur Lira presidiu a Câmara. É o caso da PEC da Blindagem, que, além de exigir aval do Congresso para um parlamentar ser investigado, estabelece que sua prisão só pode acontecer em casos de flagrante ou crime inafiançável. Ideias dessa natureza não foram adiante por falta de apoio, porque são despropositadas e porque o país tem pautas mais urgentes. É lamentável que retornem agora.

O projeto de maior destaque tenta mudar o foro em que são julgados os políticos — tecnicamente chamado “foro por prerrogativa de função” e popularmente conhecido como “foro privilegiado”. A Constituição estabelece que presidente, ministros, parlamentares, governadores e outras autoridades sejam submetidos a julgamento em instâncias específicas, para evitar que processos judiciais se transformem em arma política. No início, o foro era especial até se o político já tivesse saído do posto, mas em 2018 o Supremo determinou que deve valer apenas para crimes cometidos no cargo e em razão dele. Em março, fez um ajuste na interpretação, estabelecendo que o processo deve ser mantido no tribunal em que começou a ser julgado mesmo depois de a autoridade deixar o cargo. A decisão foi sensata, pois era comum a autoridade renunciar quando estava prestes a ser julgada, para o processo recomeçar na primeira instância.

Agora, um dos objetivos da tentativa de extinguir o “foro privilegiado” é favorecer Bolsonaro, tirando do STF o processo em que é réu por tentativa de golpe de Estado. A estratégia não funcionará, pois a jurisprudência assevera que julgamentos em fase avançada não mudam de tribunal. Mas não há dúvida de que tiraria congressistas da mira da Corte, levando à primeira instância dezenas de processos — há 80 inquéritos só sobre emendas parlamentares.

As propostas estapafúrdias para blindar parlamentares podem abrir caminho a outros desvarios. É o caso da descabida anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro ou de mudanças nas regras para impeachment de ministros do Supremo. No entender de oposicionistas, caso sejam aprovadas as mudanças no foro, uma vez longe da mira do STF, os parlamentares se sentiriam mais à vontade para aderir à agenda mais radical.

Não pode haver condescendência com a balbúrdia encenada no Congresso. A ocupação foi um atentado ao regimento e uma agressão à democracia. “Não vamos permitir que atos como esses possam ser maiores que o plenário e a vontade desta casa”, afirmou o presidente da Câmara, Hugo Motta. “A presidência da Câmara é inegociável.” É fato que, segundo os próprios bolsonaristas, ele não participou das negociações para o fim da ocupação.

Deputados e senadores precisam ter a responsabilidade de barrar no nascedouro pautas oportunistas, fruto de chantagem. Se a pantomima juvenil de ocupar o Congresso já foi um absurdo, a imposição de uma agenda legislativa sem cabimento é ainda mais nociva.

A disputa pela franquia Bolsonaro - Thaís Oyama

O Globo

Quem será o ungido que levará a tocha do bolsonarismo nas eleições de 2026?

Hermeticamente fechado em casa até segunda ordem, e sem perspectiva de sair desta para melhor com o julgamento de setembro, muito antes pelo contrário, Jair Bolsonaro está prestes a virar uma “ideia”. A afirmação de que fulano “não é mais uma pessoa, mas uma ideia” foi usada por integralistas nos anos 1930 para se referir ao líder do movimento de extrema direita e inspiração fascista Plínio Salgado. Lula copiou a frase em 2018, no discurso que fez antes de se entregar à Polícia Federal. Ironicamente, ela pode agora ser adaptada a seu adversário Bolsonaro — o quarto ex-presidente brasileiro a amargar a prisão, fato que leva qualquer um a se perguntar o que há de errado com este país.

Brasil, mostra a tua cara - Eduardo Affonso

O Globo

O país que o governo endossou não é o da diversidade, mas o dos estereótipos, da romantização da miséria

Você deve se lembrar: antes das eleições de 2018, o Jornal Nacional fez uma campanha em que pedia aos telespectadores vídeos sobre “o Brasil que eu quero”. Pela amostragem (cerca de 50 mil, de todos os cantos do país), os brasileiros queriam menos corrupção e mais segurança; mais cidadania e menos intolerância; mais educação e menos preconceito. Mais saúde, mais emprego. E políticos melhores. Sete anos, um ex-presidiário e um futuro presidiário depois, não resta dúvida: o brasileiro é, antes de tudo, um otimista, um inquilino da ilusão.

Dissuasão e resiliência - Cristovam Buarque

Nossa força será a construção de um país democrático e educado

A arrogância de Trump ao tentar intervir na política e na Justiça do Brasil não surpreende quem lembra da história. Um pouco antes do golpe de 1964, e depois dele, John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon foram decisivos para a implantação dos anos de chumbo no Brasil, nos quais ocorreram cassações de parlamentares, fechamento do Congresso, manipulação do Judiciário, tortura e prisões. Desde então, nossa dependência diminuiu, mas chegamos a 2025 assustados diante da postura trumpista. O fato: não criamos poder de dissuasão para evitar ameaças, nem resiliência para enfrentar um presidente que ignore nossa força.

Golpismo permanente – Aldo Fornazieri

Os idiotas dos formalismos não querem proteger a democracia. Defendem a garantia da liberdade de conspiração, disfarçada de liberdade de expressão

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro tem suscitado um enorme debate jurídico acerca do acerto ou do exagero da medida decretada por Alexandre de Moraes. Imbricada com o debate jurídico está, também, uma discussão sobre a conveniência política da decisão. Existem prós e contras. Alguns críticos da prisão domiciliar concordam que Bolsonaro deu margem para que ela ocorresse, por violar medidas cautelares decretadas anteriormente pelo magistrado. O problema jurídico estaria nas próprias medidas cautelares, que supostamente teriam violado a liberdade de expressão do ex-presidente.

Esses críticos se esquecem de alguns aspectos centrais na vida pregressa de Bolsonaro. Como militar, ele já havia sido preso por quebrar as regras de disciplina e hierarquia por motivos salariais. Depois disso, ocorreu algo mais grave. Por volta de 1987, segundo reportagens da revista ­Veja, teria participado do planejamento de atentados a bomba em quartéis e outras unidades militares. Após uma investigação, uma Comissão do Exército decidiu pela sua expulsão. No entanto, ao julgar um recurso em sessão secreta, o Superior Tribunal Militar absolveu o então capitão. A expulsão foi anulada, e ele não foi preso. No ano seguinte, passou para a reserva.