quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O mundo de Lula na ONU, por Gunther Rudzit*

Correio Braziliense

A visão de mundo que organiza o discurso de Lula reconhece a erosão da ordem internacional, mas ainda busca respostas na gramática criada durante sua expansão

O discurso do presidente Luíz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU contém uma das manifestações mais claras do governo brasileiro sobre a transformação do sistema internacional. A novidade não está na defesa da paz, do multilateralismo ou da reforma do Conselho de Segurança. Está na descrição de um mundo em que as instituições perderam capacidade de conter as grandes potências.

Lula afirmou não desconhecer as realidades do poder. E o restante do pronunciamento mostra o alcance dessa constatação. A ONU vive seu momento mais crítico, o Conselho de Segurança está imobilizado, a OMC respira por aparelhos e as tarifas se transformaram em instrumentos de coerção e chantagem. Uma nova corrida armamentista está em curso, enquanto zonas de influência e investidas por recursos estratégicos voltam a organizar o comportamento das potências.

Não é uma mudança pequena. Durante as últimas décadas, o Brasil interpretou crises internacionais como desvios que poderiam ser administrados pela cooperação, pela reforma das instituições e pela inclusão dos países emergentes. O discurso vai além: reconhece que a própria arquitetura construída depois da Segunda Guerra Mundial perdeu capacidade de proteger os mais vulneráveis.

O diagnóstico também chega ao hemisfério. Ao afirmar que o Brasil não cabe no quintal de ninguém e não precisa de porta-aviões vigiando suas águas, Lula responde ao retorno de uma concepção militarizada da influência norte-americana. Soberania já não aparece apenas como princípio jurídico, mas como capacidade de resistir a pressões militares, econômicas, tecnológicas e eleitorais.

Há sinais semelhantes nas referências aos minerais críticos, às plataformas digitais, à inteligência artificial e ao Pix. Ao exigir agregação de valor, transferência de tecnologia e suprimento de setores estratégicos, o discurso reconhece que o poder depende do controle de cadeias produtivas, infraestruturas e tecnologias. São temas que já não cabem na separação entre economia e segurança.

A questão central, entretanto, surge quando o discurso passa do diagnóstico às respostas. A paralisia da ONU é atribuída a uma crise de liderança. O Conselho de Segurança deveria voltar a cumprir seu papel. A vontade política precisaria ser reencontrada. A diplomacia deveria prevalecer sobre a guerra e o multilateralismo sobre o unilateralismo. O mundo mudou, mas os instrumentos apresentados para enfrentá-lo continuam sendo, em grande medida, aqueles formulados durante o período de expansão da ordem multilateral.

O texto parece antecipar a objeção de que essa resposta seria idealista e procura apresentá-la como expressão de realismo. A preocupação é reveladora. Diplomacia e multilateralismo continuam indispensáveis, sobretudo para países que não dispõem do poder das grandes potências. O problema começa quando a defesa das instituições substitui uma estratégia para o período em que elas já não conseguem constranger os atores mais poderosos.

Reafirmar regras é necessário, mas não responde a uma pergunta decisiva: como o Brasil preservará sua autonomia enquanto essas regras não forem respeitadas? Reformar o Conselho de Segurança continua desejável, mas não oferece proteção imediata contra tarifas coercitivas, controles tecnológicos, dependências digitais ou a reconstrução de zonas de influência. A realidade do poder não desaparece porque suas manifestações são consideradas anacrônicas.

A visão de mundo que organiza o discurso reconhece a erosão da ordem internacional, mas ainda busca respostas na gramática criada durante sua expansão. Mark Carney, em Davos, partiu de uma premissa mais incômoda: a antiga ordem não voltará. Para o primeiro-ministro canadense, a ruptura exige que as potências médias fortaleçam capacidades internas e construam coalizões diferentes conforme o problema, sem esperar pela restauração do sistema anterior.

A diferença está nas consequências estratégicas extraídas do diagnóstico. Se a crise for apenas uma interrupção, recuperar a vontade política, reformar as instituições e reafirmar as regras podem bastar. Se a ruptura for estrutural, o Brasil precisará combinar sua defesa com novas formas de autonomia, capacidade nacional e cooperação seletiva.

O discurso de Lula revela que os responsáveis pela formulação internacional do governo já reconhecem grande parte das novas realidades do poder. Esse é um avanço importante. Mas reconhecer que o mundo mudou não significa necessariamente ter mudado a forma de pensá-lo. Mudou o diagnóstico. A questão é saber quando mudará também a gramática.

*Gunther Rudzit — professor de relações internacionais da ESPM, professor convidado da Unifa. Membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP

 

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