domingo, 8 de novembro de 2026

Lula e seu carcereiro, por Elio Gaspari


O Globo

Livro de agente da PF que acompanhava o petista durante a prisão em Curtiba revela detalhes da rotina e das percepções do presidente sobre aliados, integrantes do Supremo e adversários

Está nas livrarias “Banho de sol: Os 580 dias de Lula na prisão”, de Jorge Chastalo Filho, o agente da Polícia Federal que guardava o prisioneiro em 2018/9 em Curitiba. É um documento de raro valor, uma espécie de memória do cárcere pelo olhar do carcereiro.

Na forma de diário, Chastalo registrou minuciosamente a vida do prisioneiro, sua rotina e seus rancores. Lula ralou 580 dias de cadeia com a certeza de que voltaria ao Planalto.

As circunstâncias especiais dessa relação comprometem sua essência, a despeito da cordialidade mantida pelo preso e seu carcereiro. Chastalo vai aos detalhes. A esteira para os exercícios de Lula chegou no dia 13 de maio de 2018.

Em muitos momentos, Lula se comporta como um mestre reminiscente, quase sempre maledicente, incomodando as mães das vítimas. Os ministros Edson Fachin e Luiz Fux ficam mal na foto. Cármen Lúcia sai chamuscada. Sergio Moro, Deltan Dallagnol e o ex-ministro Antonio Palocci ficam no canto mais quente do inferno.

Das conversas de Lula com Chastalo sai o melhor retrato de Dilma Rousseff traçado por seu benfeitor: “A Dilma é muito boa para cumprir ordens, mas não para decidir. (...) No dia da votação do impeachment, estava na casa da Dilma e ela trouxe uma lista extensa de deputados para ele ligar, pedindo apoio. Disse que não ligaria para todos e enxugou a lista para cerca de 20 nomes. Mas, ao ligar para os primeiros, ouviu a mesma justificativa: ‘Lula, se fosse você na Presidência, nós nem estaríamos tendo esta conversa, não teríamos chegado a esse ponto. Mas a Dilma eu não apoio, ela nem mesmo me cumprimenta, não cumprimenta minha esposa ou meus filhos.’”

“E o que nós fizemos com o Temer? A culpa não é toda dele, é também nossa. Tratamos o Temer igual cachorro, sem o devido respeito. Um presidente precisa chamar seu vice para as reuniões importantes, afinal, por que aceitamos ele como vice? E a Dilma não fazia isso, deixava ele a ver navios, sem saber o que estava sendo decidido. Seria melhor ter perdido essa eleição para o Aécio, teria sido menos prejudicial ao partido.”

Como era de se prever, Chastalo privou da intimidade de Lula. Em novembro, ele lhe disse: “Chastalinho, estou contando com você para trazer minha namorada.” No dia 30 de julho, o 114º da cana. Os dois se encontraram, a sós, por uma hora.

Um mês depois, a namorada estava na lista oficial de visitantes e Lula informou: “Estou casado”. “E mostra o dedo com uma aliança de compromisso, de prata. Ela ostenta a sua também e pede mais cinco minutos.”

Quando Lula chegou a Curitiba, achava que seria candidato e derrotaria Jair Bolsonaro. Depois, acreditou que Fernando Haddad conseguiria. “Nunca errei no diagnóstico das eleições, e estou certo de que o PT ganha.” De uma coisa estava certo: voltaria ao Planalto.

A volta

Lula sabia das coisas e avisou: “Chastalo, você vai ter trabalho no início do ano se as investigações sobre as falcatruas dos filhos do Bolsonaro continuarem. Já está aparecendo coisa... Se prepara!”.(...) Lula nunca perdeu a fé no seu eleitorado:

“Eu sozinho tenho mais votos que o Bolsonaro, a Marina e qualquer outro juntos! Eles estão fodidos se me deixarem disputar.” Não deixaram. Os seus anos de pobreza nunca o deixaram. Relembrando uma reunião de chefes de Estado, contou:

“Nenhum deles teve sua casa alagada, com pedaços de merda humana boiando na sala. Nunca passaram fome ou tiveram que ver seus filhos chorando porque não tinham um pedaço de pão pra comer. Não precisaram criar cinco filhos em uma casa de 30 metros quadrados. Passei então a conversar com eles sobre isso e, sem frescura, tive um diálogo bastante íntimo e sincero com todos.”

Onda azul

A primeira consequência da vitória do partido Democrata nas eleições americanas nas relações com o Brasil poderá ser a regularização da situação consular da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, que teve seu visto de permanência suspenso.

Vida boa, mas com Limites

Como Trump ficará mais dois anos na Casa Branca, a vida dos Bolsonaro continuará boa, com alguns limites. Trump detesta perdedores.

Fanfarra

O maior logro do mundo será comprar a PEC da Segurança pelo que ela diz que vale para vendê-la pelo seu justo valor.

Nouriel Roubini

Enquanto a vitória dos Democratas estimula temor de um próximo crash no valor de mercado das empresas de inteligência artificial, o economista Nouriel Roubini, que cantou a pedra da última crise mundial, se diz tranquilo. Uma coisa é certa: a vassalagem que os donos das big techs expuseram-se como malandraços. Dois perderam 2,5 bilhões de dólares.

Falta de audiência

Flávio Bolsonaro disse ao The New York Times que levará para o túmulo o roteiro e as maquinações de sua fuga do Brasil. Resta saber se haverá alguém interessado. Os Bolsonaro têm dois senadores (Michelle e Carlos), ambos radioativos. A derrota e a fuga de Flávio Bolsonaro afastaram do clã os eleitores que querem sossego.

Ajuste fiscal

Lula sabe que deverá fazer o ajuste fiscal. O que ele quer é fazê-lo quando estiver livre dos especuladores dos últimos dias.

De qualquer forma

A presença de Guido Mantega na reunião dos sábios de quinta-feira foi um cabelo. A última vez que esteve com Lula comboiava um cliente: o banqueiro Daniel Vorcaro.

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