quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Trump faz discurso de chefe do mundo no plenário símbolo do multilateralismo, por Fernanda Godoy

Valor Econômico

Discurso no plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas foi uma afirmação cabal de sua visão como líder, ou melhor, chefe global, em detrimento do sistema multilateral

O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas foi uma afirmação cabal de sua visão como líder, ou melhor, chefe global, em detrimento do sistema multilateral erguido com esforço diplomático do mundo inteiro após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

Trump ameaçou os iranianos com aniquilação e inferno. Também se autocongratulou pelo sucesso da operação das tropas de elite das Forças Armadas dos EUA que resultou na deposição do “ditador fora da lei e criminoso”, o então presidente (e ditador) Nicolás Maduro. Resta uma dúvida: existe ditador que não seja ou esteja fora da lei, que não possa ser considerado autoritário, ilegítimo, que não desrespeite as leis de seu país e as regras internacionais e a Carta das Nações Unidas?

Ao falar da Venezuela, foi explícito e contraditório. Talvez tenha sido um lapso freudiano, caberá aos psicanalistas avaliar. Anunciou um “futuro muito melhor” para o povo venezuelano com a deposição de Maduro. Na frase seguinte, se jactou do “maior acordo já feito” para exploração das imensas reservas de petróleo do país de Maduro e de sua vice, Delcy Rodríguez, alçada a presidente após a entrada dos americanos. Acordo este que trará grandes benefícios às empresas petrolíferas americanas, à economia do país, e a Trump. “Aos dois países”, disse o presidente Trump.

Trump ameaçou seu vizinho mais próximo e codependente, o México da presidente Claudia Scheinbaum. Deu ordens (ou pretendeu dar) a ela sobre como combater os cartéis de narcotraficantes que aterrorizam o país.

Abraçou a visão ideológica do secretário de Estado, Marco Rubio, cubano-americano, expoente da descendência da diáspora que se seguiu à revolução socialista comandada por Fidel Castro em 1959. Chamou Cuba de Estado falido, provocando a retirada do plenário das delegações de Cuba e do Irã, país aliado da ilha caribenha.

Nomeou as organizações criminosas de narcotraficantes que atuam no subcontinente como o Estado Islâmico (Isis, na sigla em inglês) do Hemisfério Ocidental — as Américas no jargão do Departamento de Estado.

No que diz respeito à política doméstica, fez um hedge para a provável derrota nas eleições parlamentares de meio de mandato, em novembro. “Eu não estou concorrendo”, disse, esquivando-se previamente de um fracasso que está sendo desenhado, de acordo com as pesquisas de intenção de voto. “É o Partido Republicano quem está concorrendo.”

Por fim, demoliu, um a um, os principais órgãos das entidades multilaterais: a Organização Mundial da Saúde (OMS), a do Comércio (OMC), o Tribunal Penal Internacional (TPI) e os acordos climáticos.

Trump listou oito guerras regionais encerradas sob sua gestão, como se com isso o mundo fosse obviar a guerra de escolha dos EUA e de Israel contra o Irã. Posicionou-se como candidato ao Nobel da Paz, que almeja mais que nada.

É uma visão de quem acredita, que quem precisa acreditar que lidera a única superpotência global, de quem se vê como a última Coca-Cola do deserto. Em que pese o avassalador avanço da China. Ou por isso mesmo. A conferir.

 

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