segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Sobre a (in)constância da humanidade atual, por Aldo Paviani*

Correio Braziliense

As sociedades que se encontram dentro da curva de crescimento possuem visão de futuro: traçam caminhos, planejam e realizam seus projetos. Já as que estão fora dela aplicam a máxima "o futuro a Deus pertence"

A humanidade atravessa um período de profundas alterações estruturais e de processos, impulsionadas, em parte, pelas transformações no perfil populacional e sociocultural. O volume demográfico de diversas regiões tem se modificado, assim como a representação de gênero. As mulheres vêm ocupando papéis cada vez mais proeminentes na estrutura populacional, tanto em âmbito regional quanto nacional. A Região Centro-Oeste, por exemplo, segundo o IBGE, é atualmente composta por 52% de mulheres e 48% de homens. Espera-se, portanto, que elas assumam um protagonismo crescente não apenas na manutenção das famílias, mas na ocupação de cargos de liderança na sociedade, uma das principais pautas sociais do momento. Todavia, o aumento simultâneo da violência contra a mulher sugere que parcelas da sociedade ainda reagem de forma brutal a essas mudanças sociofamiliares.

A grande transformação no espaço geográfico mundial é vinculada também às diversas expressões do "período técnico-científico-informacional", para utilizar a conceituação de Milton Santos. A fusão entre ciência e técnica, a intensificação dos fluxos de informação, a dinâmica fluida de ocupação territorial e a materialidade do consumo apontam para um novo estado organizacional das relações humanas. No entanto, essas expressões atuais não apenas falham em corrigir problemas socioestruturais históricos, como tendem a agravá-los. As desigualdades socioeconômicas entre os estratos populacionais aprofundam-se, promovendo o empobrecimento dos mais vulneráveis e a concentração de riqueza. Não se trata de um desenvolvimento voltado à inclusão, mas de um processo que gera soluções mediante a exclusão das vítimas do próprio sistema.

Os tempos mudam e as ciências e tecnologias avançam, mas a pobreza permanece. Historicamente, as populações vulneráveis vivem das migalhas do progresso. O crescimento da humanidade, sob a lógica atual, não visa a tornar os indivíduos iguais, mas a conferir ainda mais poder àqueles que já dispõem de condições sociopolíticas favoráveis. Se essas parcelas empoderadas demonstram alguma empatia, sobram para os despossuídos eventuais ganhos residuais em qualidade de vida, saúde, educação e poder de compra. Veja-se, por exemplo, o valor do salário mínimo, fixado com base no montante que o Estado pode custear sem comprometer o crescimento dos setores já favorecidos.

As sociedades que se encontram dentro da curva de crescimento possuem visão de futuro: traçam caminhos, planejam e realizam seus projetos. Já as que estão fora dela, na periferia do sistema, aplicam a máxima "o futuro a Deus pertence" e são tragadas pelo desenvolvimento. A essas sociedades não cabe poder decisório sobre o amanhã; apenas seguem o fluxo, coletando restos do caminho. Trata-se de uma constância do movimento humano rumo ao futuro: um amanhã que, na prática, não é pensado por todos, de todos e para todos.

O expressivo avanço tecnológico atual evidencia essa disparidade. As grandes corporações de tecnologia e inovação que dominam a economia global trabalham dia e noite, noite e dia, para desenvolver produtos destinados àqueles que possuem capacidade de consumo. É uma corrida desenfreada entre as potências hegemônicas pela inovação. Contudo, inovar para quê e para quem? Fundamentalmente, para perpetuar hegemonias e manter esses atores na liderança da construção do futuro. As nações em desenvolvimento ou subdesenvolvidas são abandonadas, incapazes de acompanhar os líderes impulsionados pela tecnologia. Nessa dinâmica, o bloco da liderança torna-se cada vez menor, mas mais poderoso, enquanto o grupo dos excluídos cresce em contingente e escassez de recursos, pondo em risco nossa coesão como humanidade.

Qual é, afinal, o objetivo do avanço científico-técnico-informacional contemporâneo? Perpetuar a divergência ou promover a convergência? Parece haver aqui um descompasso entre os pesquisadores, agentes da prática científica, e os governos e corporações, que detêm o controle do uso e da distribuição desses avanços. Enquanto os cientistas compreendem que o objetivo maior da ciência é a solução dos problemas globais e a redução das desigualdades, governos e empresas operam com uma definição restrita de humanidade, ignorando questões de equidade.

Para nossa sorte, a natureza opera, em grande medida, alheia às dinâmicas humanas, e os ventos atuais sopram contra a lógica perversa do aumento das disparidades. A ascensão quantitativa e qualitativa de mulheres causará transformações decisivas no tecido estrutural das sociedades, introduzindo novos valores e perspectivas de crescimento. Espera-se que elas atuem como reais agentes de inovação, transformação e desenvolvimento, contribuindo para a edificação de uma sociedade mais agregadora e mais empática. Vida longa às mulheres! 

*Aldo Paviani — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e geógrafo

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