Correio Braziliense
As sociedades que se encontram dentro da
curva de crescimento possuem visão de futuro: traçam caminhos, planejam e
realizam seus projetos. Já as que estão fora dela aplicam a máxima "o
futuro a Deus pertence"
A humanidade atravessa um período de profundas alterações estruturais e de processos, impulsionadas, em parte, pelas transformações no perfil populacional e sociocultural. O volume demográfico de diversas regiões tem se modificado, assim como a representação de gênero. As mulheres vêm ocupando papéis cada vez mais proeminentes na estrutura populacional, tanto em âmbito regional quanto nacional. A Região Centro-Oeste, por exemplo, segundo o IBGE, é atualmente composta por 52% de mulheres e 48% de homens. Espera-se, portanto, que elas assumam um protagonismo crescente não apenas na manutenção das famílias, mas na ocupação de cargos de liderança na sociedade, uma das principais pautas sociais do momento. Todavia, o aumento simultâneo da violência contra a mulher sugere que parcelas da sociedade ainda reagem de forma brutal a essas mudanças sociofamiliares.
A grande transformação no espaço geográfico
mundial é vinculada também às diversas expressões do "período
técnico-científico-informacional", para utilizar a conceituação de Milton
Santos. A fusão entre ciência e técnica, a intensificação dos fluxos de
informação, a dinâmica fluida de ocupação territorial e a materialidade do consumo
apontam para um novo estado organizacional das relações humanas. No entanto,
essas expressões atuais não apenas falham em corrigir problemas
socioestruturais históricos, como tendem a agravá-los. As desigualdades
socioeconômicas entre os estratos populacionais aprofundam-se, promovendo o
empobrecimento dos mais vulneráveis e a concentração de riqueza. Não se trata
de um desenvolvimento voltado à inclusão, mas de um processo que gera soluções
mediante a exclusão das vítimas do próprio sistema.
Os tempos mudam e as ciências e tecnologias
avançam, mas a pobreza permanece. Historicamente, as populações vulneráveis
vivem das migalhas do progresso. O crescimento da humanidade, sob a lógica
atual, não visa a tornar os indivíduos iguais, mas a conferir ainda mais poder
àqueles que já dispõem de condições sociopolíticas favoráveis. Se essas
parcelas empoderadas demonstram alguma empatia, sobram para os despossuídos
eventuais ganhos residuais em qualidade de vida, saúde, educação e poder de compra.
Veja-se, por exemplo, o valor do salário mínimo, fixado com base no montante
que o Estado pode custear sem comprometer o crescimento dos setores já
favorecidos.
As sociedades que se encontram dentro da
curva de crescimento possuem visão de futuro: traçam caminhos, planejam e
realizam seus projetos. Já as que estão fora dela, na periferia do sistema,
aplicam a máxima "o futuro a Deus pertence" e são tragadas pelo
desenvolvimento. A essas sociedades não cabe poder decisório sobre o amanhã; apenas
seguem o fluxo, coletando restos do caminho. Trata-se de uma constância do
movimento humano rumo ao futuro: um amanhã que, na prática, não é pensado por
todos, de todos e para todos.
O expressivo avanço tecnológico atual
evidencia essa disparidade. As grandes corporações de tecnologia e inovação que
dominam a economia global trabalham dia e noite, noite e dia, para desenvolver
produtos destinados àqueles que possuem capacidade de consumo. É uma corrida
desenfreada entre as potências hegemônicas pela inovação. Contudo, inovar para
quê e para quem? Fundamentalmente, para perpetuar hegemonias e manter esses
atores na liderança da construção do futuro. As nações em desenvolvimento ou
subdesenvolvidas são abandonadas, incapazes de acompanhar os líderes
impulsionados pela tecnologia. Nessa dinâmica, o bloco da liderança torna-se
cada vez menor, mas mais poderoso, enquanto o grupo dos excluídos cresce em
contingente e escassez de recursos, pondo em risco nossa coesão como
humanidade.
Qual é, afinal, o objetivo do avanço científico-técnico-informacional
contemporâneo? Perpetuar a divergência ou promover a convergência? Parece haver
aqui um descompasso entre os pesquisadores, agentes da prática científica, e os
governos e corporações, que detêm o controle do uso e da distribuição desses
avanços. Enquanto os cientistas compreendem que o objetivo maior da ciência é a
solução dos problemas globais e a redução das desigualdades, governos e
empresas operam com uma definição restrita de humanidade, ignorando questões de
equidade.
Para nossa sorte, a natureza opera, em grande
medida, alheia às dinâmicas humanas, e os ventos atuais sopram contra a lógica
perversa do aumento das disparidades. A ascensão quantitativa e qualitativa de
mulheres causará transformações decisivas no tecido estrutural das sociedades,
introduzindo novos valores e perspectivas de crescimento. Espera-se que elas
atuem como reais agentes de inovação, transformação e desenvolvimento,
contribuindo para a edificação de uma sociedade mais agregadora e mais
empática. Vida longa às mulheres!
*Aldo Paviani — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e geógrafo

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