Folha de S. Paulo
Propostas em discussão na Câmara prometem o melhor de dois mundos, mas não consideram casos anteriores
Mudar as regras para responder à última
eleição pode criar problemas para a próxima
A reforma eleitoral é visita frequente no
Congresso. Em 2015 e 2017, a Câmara
dos Deputados votou projeto do chamado distritão, que elege os mais votados
e ignora os partidos. A proposta foi derrotada nas duas ocasiões. Em 2021,
voltou a circular e foi descartada.
Desde que assumiu a presidência da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB) defendeu três vezes a adoção de um sistema misto.
Em abril de 2025, o modelo apareceu sem um diagnóstico claro; em novembro,
virou blindagem contra o crime organizado; agora, é apresentado como resposta
aos puxadores de votos ideológicos, como
esta Folha escreveu em matéria de 28 de
outubro. Gilberto
Kassab, presidente do PSD, já defendia a mudança antes de 2026. Portanto, a
preferência dos dois antecede o resultado das últimas eleições,
embora os resultados deste ano possam ter engrossado o coro de apoio.
Muitos deputados ficaram insatisfeitos com a distribuição das cadeiras, que teria sido distorcida pelos puxadores de voto —que qualificamos como candidatos com votação correspondente a mais de duas vezes o quociente eleitoral— concentrados sobretudo no PL. Foram apenas sete no pleito de 2026; nas três eleições anteriores, não passaram de cinco.
Quase todos falam em adotar um sistema misto:
uma combinação de disputa majoritária e proporcional. A promessa é obter o
melhor de dois mundos: a proporcionalidade das listas e o vínculo local dos
distritos. Não por acaso, a obra de referência de Matthew Shugart e Martin
Wattenberg sobre o tema traz essa expressão no subtítulo, com um ponto de
interrogação. A combinação pode entregar o melhor dos dois, mas também o pior
dos dois, ou um monstro que nenhum deles produziria sozinho. O quadro que
acompanha este artigo apresenta os principais modelos e experiências
internacionais.
Quem acreditou na combinação virtuosa
raramente ficou satisfeito. A Itália adotou um
sistema misto em 1993, trocou-o em 2005, aprovou em 2015 outro que nunca chegou
a ser usado e voltou a um misto em 2017, reformado novamente em 2026.
Na Alemanha,
modelo dos reformistas, as cadeiras excedentes levaram o Tribunal
Constitucional a derrubar a lei eleitoral em 2008 e em 2012, e o Bundestag
chegou a 736 deputados antes de nova reforma, em 2023. No Lesoto e na Coreia do
Sul, os partidos criaram legendas-satélite para driblar a compensação. São sistemas
em reforma permanente, puxadinhos que pedem novos puxadinhos.
Há duas famílias principais dos sistemas
eleitorais mistos. No modelo paralelo, usado no Japão e no México,
distritos e listas são apurados separadamente e as cadeiras se somam, o que
favorece o maior partido. No compensatório, da Alemanha, da Nova Zelândia e da
Escócia, a votação partidária define o tamanho de cada bancada, e a lista
completa o que os distritos não deram.
Outra escolha decisiva nos sistemas mistos é
o número de votos. Com dois, o eleitor escolhe um candidato no distrito e, em
separado, um partido para a lista, que pode ser outro, e os partidos precisam
pedir voto para si. Com um só, o eleitor precisa da pessoa para chegar ao
partido, e o partido fica refém do candidato.
Uma proposta atribuída ao deputado Glaustin
da Fokus (Podemos-GO) propõe o chamado sistema
federativo misto. Metade das cadeiras de cada estado iria aos candidatos
mais votados no estado, sem distritos: é o "distritão", nome
brasileiro dado ao voto único não transferível (SNTV, na sigla em inglês). A
outra metade seria preenchida por listas fechadas, também conhecidas como
pré-ordenadas. As cadeiras de lista seriam divididas pela votação de cada
partido, descontados os votos de seus candidatos já eleitos, mecanismo
conhecido como desconto.
Nenhuma democracia usa algo parecido, e a
proposta ignora a experiência de quem chegou perto. Japão e Taiwan abandonaram
o voto único não transferível depois de décadas de disputa entre candidatos do
mesmo partido, campanhas caras e escândalos de corrupção. Na
proposta, ainda informal, do Podemos, a campanha continuaria estadual, sem
aproximação entre representantes e representado e sem redução de custos de
campanhas. Qual seria o benefício para a democracia brasileira com esta
reforma?
O desconto ainda pune o partido que concentra
votos em quem se elege, e a experiência italiana mostra que os partidos
aprendem rápido a driblá-lo.
A proposta também parte de uma crítica
discutível à lista aberta. No sistema atual, embora o eleitor escolha um nome,
seu voto é um voto na lista do partido e a escolha do nome tem a função de
ordenar a lista. O candidato muito votado que ajuda a eleger colegas é uma consequência
prevista da regra proporcional.
Em 2026, 63 deputados foram eleitos com menos
votos individuais do que candidatos que ficaram sem cadeira no mesmo estado.
Isso resulta do desempenho global dos partidos e da distribuição proporcional
das vagas, e não necessariamente da atuação dos puxadores de voto. Uma reforma
calibrada para os resultados circunstanciais de uma eleição pode subestimar a
capacidade dos partidos de se adaptar a regras novas.
A proposta associada ao deputado Antônio
Brito (PSD-BA)
segue outra lógica. Prevê distritos territoriais uninominais, ou seja, com
apenas uma cadeira em disputa, para metade das vagas de cada estado, combinados
com listas pré-ordenadas para a outra metade, e com apenas um voto para o
eleitor. A votação de todos os candidatos do partido define sua cota de cadeiras
no estado; descontadas as vitórias distritais, a lista completa a bancada. É
muito semelhante ao modelo usado na Escócia, mas lá o eleitor tem direito a
dois votos.
No caso de um partido vencer mais distritos
no estado do que sua cota proporcional, conserva essas cadeiras, mas a Câmara
não cresce. Isso reduz a proporcionalidade e tende a afetar partidos menores.
O voto único preserva uma forma de votação
familiar ao brasileiro e dificulta a criação de legendas-satélite. Mas impede o
eleitor de escolher o candidato distrital de uma legenda e apoiar outra para a
lista. Também incentiva os partidos a lançar candidatos em muitos distritos,
mesmo onde tenham pouca chance de vencer, com o intuito de ampliar sua votação
proporcional.
Com só um voto, o eleitor que adote o
"voto útil", escolhendo um candidato competitivo no seu distrito, mas
que não seja do partido de sua predileção, perde a chance de apoiar o partido
com o qual tenha maior afinidade. Os deputados que defendem a reforma parecem
apostar neste mecanismo e que as emendas ao Orçamento
lhes garantirão a competitividade necessária nos distritos, minimizando o
peso das preferências partidárias. Reclamam justamente que em 2026 as
preferências partidárias se sobrepuseram às emendas.
Os distritos teriam tamanhos muito diferentes
entre estados. Tomando como referência o eleitorado de 2026, a média seria de
cerca de 975 mil eleitores por distrito em São Paulo, 606 mil em Minas Gerais e
100 mil em Roraima. A proposta ainda prevê suplente para o eleito distrital,
espécie de vice que comporia a chapa, e mantém a lista aberta nos municípios
com até 200 mil eleitores.
Definir quem desenha os distritos, com quais
critérios, é essencial para evitar a manipulação de fronteiras eleitorais,
fenômeno conhecido como gerrymandering, tão comum nos Estados
Unidos.
A reforma também exigirá discutir
financiamento. Com listas fechadas, as direções partidárias passariam a
controlar tanto a ordem de acesso às cadeiras quanto a distribuição de recursos
de campanha. O fundo eleitoral, de R$ 4,9 bilhões, amplia esse poder. A
definição das listas e dos recursos exige critérios inclusivos e transparentes.
Nenhum sistema misto elimina necessariamente
os puxadores de votos. Como a candidatura simultânea ao distrito e à lista é
admitida na proposta, um nome como Nikolas
Ferreira pode vencer sua disputa territorial e ajudar a atrair votos para o
PL em outros distritos ao encabeçar a lista do partido.
As duas propostas em discussão atualmente
mostram que o consenso em torno do rótulo "misto" esconde diferenças
substanciais. Uma preserva a disputa estadual com o distritão e acrescenta um
desconto de votos. A outra cria distritos territoriais, mas admite desvios da
proporcionalidade quando há vitórias distritais excedentes. O que importa não é
o nome da reforma, mas como votos se convertem em cadeiras e quais incentivos
são criados.
Não somos refratários à mudança
no sistema eleitoral, mas fazemos duas ressalvas. A primeira é que o
sistema proporcional, adotado há quase cem anos no país, tem problemas, como
qualquer sistema, mas entregou governabilidade e respeita as preferências dos
eleitores, afinal somos nós que ordenamos as listas. Podemos argumentar que o
aumento da partidarização seria bem-vindo, mas convém lembrar que a reforma de
2017, que acabou com as coligações nas eleições proporcionais e criou a
cláusula de desempenho, tem gerado resultados neste sentido.
A segunda é que os sistemas mistos têm
problemas próprios, como a criação de duas categorias de deputados: os
"verdadeiros", eleitos pelo voto direto, e os da "lista". A
divisão cria facções nos partidos e pode dificultar a organização tanto da base
do governo quanto da oposição, como observado em outros países. É preciso,
portanto, debater a adoção de sistemas eleitorais sobre o prisma do funcionamento
da democracia e da eficiência das instituições e não motivada por questão
corporativistas e de ocasião.
Há ainda a discussão quanto ao processo de
transição, que seria adotado em 2030. Corre nos corredores da Câmara a sugestão
de se adotar o "distritão" como regra de transição, o que não faz
nenhum sentido. A transição precisa ser um passo na direção das mudanças que se
pretende implementar em 2034, não um sistema completamente novo que seria
utilizado apenas por uma eleição.
Fica, por fim, a pergunta: por que reformar?
Quer mudar as regras quem acha que está perdendo com as atuais e espera ganhar
com as novas. Os insatisfeitos de 2026 apontam os puxadores como vilões, mas
por que assumir que quem está vencendo é o bandido e quem está perdendo é o
mocinho? Reformas
eleitorais raramente produzem os efeitos imaginados por seus
patrocinadores, e mudar as regras para responder à última eleição pode ser uma
maneira de criar problemas para a próxima.
*É professora na Escola de Economia de São
Paulo (FGV EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo
IESP-UERJ.
*Cientista político, é professor na UFPR e coordenador do Laboratório de Partidos e Sistemas Partidários (LAPeS)

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