O Estado de S. Paulo
A prisão de Santiago Peña no Paraguai e a
crise política, econômica e social de Javier Milei na Argentina são um alerta
para a região e o presidente Lula, que participa da cúpula do Mercosul em 4 e 5
de dezembro e faz hoje um pronunciamento sobre o grande dilema do quarto
mandato: onde cortar e onde arrecadar mais para cobrir sua própria “herança
maldita”?
Do lado oposto de Peña e Milei, Lula tem discurso e base na esquerda (apesar de dizer que jamais foi de esquerda), foi eleito em nome da democracia e da soberania, mas também torrando o orçamento público com políticas eleitoreiras e prometendo, dia sim e outro também, que não cortaria dos pobres. E é assim que vai assumir pela quarta vez em 2027.
Economia não é pura aritmética, mas dois mais
dois sempre serão quatro. Não há mágica. Lula está certo em reafirmar,
firmemente, que “o pobre não pagará a conta” (da sua própria gastança), mas
precisa dizer quem, como e quanto vai pagar. O ministro da Fazenda, Dario
Durigan, anuncia “corte de privilégios”.
Ouvimos isso a vida inteira, mas quem tem
privilégios é quem tem poder de pressão sobre governos, Congresso e, como está
cada vez mais claro,
Judiciário. Lula tem como resistir, com o PT
insistindo nos seus erros, a oposição em maioria na Câmara e no Senado e o Supremo
desmoronando?
Voltamos ao velho dilema, que se repete num
País e numa região em que o problema original é a desigualdade, a injustiça
social, que sacrifica a maioria das populações para beneficiar a minoria
insaciável, os mais “fortes” e excrescências como o Banco Master aqui e o Ueno
Bank no Paraguai.
A síntese da crise paraguaia é a inscrição na
camiseta de Costanza Peña num post: “Tax The Poor” (Taxem os pobres). Uma
barbaridade à altura de Eduardo Bolsonaro, que fica ainda pior escrita em
inglês e pela filha do presidente, rica e descompromissada, que vive em Nova
York e debocha dos compatriotas.
Portanto, a primeira providência para
“acertar as contas” não é penalizar quem trabalha, estuda, compra, produz,
vende e emprega, mas garantir as engrenagens para prevenir, detectar e punir
crimes dessa envergadura, só possíveis com a conivência dos poderes e o
enriquecimento ilícito de agentes públicos.
O desafio de Lula, porém, é muito maior: é
garantir equilíbrio das contas. Até porque o desequilíbrio não é inimigo só das
Bolsas e do câmbio, é sinônimo de “taxe os pobres”.
Um doce para quem acertar a mágica que Lula
vai apresentar à Nação nesta noite de domingo para equilibrar as contas e
revelar, afinal, quem paga a “herança maldita”. Mais corte ou mais imposto?

Um comentário:
Eliane,leia Míriam Leitão.
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