sábado, 31 de outubro de 2026

A polarização é menor do que se imaginava, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

No mundo todo, eleitores estão abandonando suas lealdades políticas a uma velocidade recorde

A imagem que temos dos EUA é a de um país profundamente dividido, separado pela educação, pela classe social e pela cultura em dois campos rivais que não se suportam. Quando se observa Donald Trump em campanha eleitoral ou se dá uma olhada nas redes sociais, essa percepção é constantemente reforçada.

Mas as pesquisas, à medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato, sugerem que talvez tenhamos deixado passar algo muito importante sobre os EUA de hoje. Trata-se de um país em transformação, com grande parte da população inquieta quanto ao futuro e incerta quanto a quaisquer lealdades políticas. Em outras palavras, o país está politicamente em aberto.

Observe as mudanças em relação a apenas dois anos atrás. Em 2024, Trump conquistou 44% dos votos hispânicos, segundo o jornal The New York Times. Em uma pesquisa recente do Times, apenas 31% deles disseram que pretendem votar em um republicano para o Congresso nas eleições de terça-feira.

Há dois anos, Trump reduziu a enorme diferença dos republicanos entre os eleitores jovens para menos de 10 pontos porcentuais. Hoje, essa diferença é maior do que era durante a eleição de Barack Obama, em 2008, chegando a 44 pontos em favor dos democratas para o Congresso. Trata-se de mudanças radicais que raramente ocorrem em um período tão curto como dois anos.

Muitos estão trocando os partidos tradicionais por outros radicais, de direita e de esquerda

ANSIEDADE. Mas o tempo acelerou, e movimentos que antes levavam anos agora podem levar meses, ou até mesmo semanas. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais, atrás de Flávio Bolsonaro, por mais de 2 milhões de votos.

Em três semanas, Lula conseguiu convencer mais 10 milhões de eleitores a apoiá-lo, vencendo o segundo turno com facilidade. Nunca antes, nas eleições presidenciais brasileiras, o candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno havia conseguido mudar a opinião de um número suficiente de eleitores para vencer no segundo turno.

Vivemos em uma era de ansiedade, e isso significa que as pessoas estão inseguras quanto às filiações políticas. Por toda a Europa, elas abandonaram os partidos tradicionais em favor de novos, muitas vezes mais radicais, tanto à direita quanto à esquerda.

Em parte, isso é uma reação ao fato de que os partidos de centro, tanto de direita quanto de esquerda, falharam em lidar com algumas questões importantes, como a imigração ilegal e o colapso do sistema de asilo.

Eles eram vistos como relutantes em defender a assimilação à cultura dominante e como meros administradores de um Estado de bem-estar social que se tornara disfuncional e desgastado.

Mas, quando o resultado é a raiva da esquerda que se transforma em tumultos nas ruas, a direita historicamente se beneficia. Parece que esse padrão se repetirá na França, à medida que o país se aproxima de sua eleição presidencial, no próximo ano.

FIDELIDADE. A verdade é que, hoje, mais pessoas têm lealdades políticas fracas. Uma pesquisa recente do Pew revelou que um quarto dos eleitores de Trump, em 2024, agora têm uma visão desfavorável do Partido Republicano.

Desses, cerca de metade afirmou que apoiaria seu candidato republicano ao Congresso nas eleições de meio de mandato. Quase metade da população se identifica como independente atualmente. E aqueles que tendem a apoiar um partido não o fazem necessariamente por profunda devoção a ele.

A pesquisa do Pew revelou que 64% dos independentes com tendência democrata citaram os danos causados pelas políticas republicanas como principal motivo de sua preferência, enquanto apenas 27% citaram os benefícios trazidos pelas políticas democratas.

Os independentes com tendência republicana apresentaram um padrão semelhante. De acordo com pesquisa recente do Wall Street Journal, 52% dos democratas queriam que seu partido se tornasse mais moderado ou permanecesse como está, enquanto apenas 37% queriam que ele se tornasse mais progressista.

Os problemas dos republicanos são, em grande parte, causados por eles mesmos. Os eleitores observam as tarifas de Trump e a guerra contra o Irã e as associam diretamente ao aumento dos preços e à crise de acessibilidade financeira.

Outros aplaudem o fechamento de fronteiras, mas não as batidas cruéis da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) contra imigrantes sem documentação. Para outros, a natureza aberta e flagrante da corrupção no segundo mandato de Trump tem sido insuportável. Mas nada disso sugere que eles tenham virado as costas aos princípios fundamentais da agenda trumpista.

Um candidato trumpista que se mantivesse mais coerente com sua ideologia e não fosse narcisista nem corrupto poderia reconquistar esses republicanos desiludidos.

Há aqui uma oportunidade para o centro político, mas ela não se concretizará simplesmente afirmando que os adultos estão de volta e vão responsabilizar Trump e consertar o que ele estragou. Eles precisam de uma agenda positiva capaz de acalmar alguns dos temores em relação ao futuro.

A melhor agenda seria uma que incorporasse elementos da esquerda e da direita. Manter a fronteira fechada e reformular o sistema de asilo para que milhões de pessoas não possam usar brechas para entrar no país. Combater os altos custos da saúde utilizando novas tecnologias, mas também empregando o poder do governo para manter os custos baixos e ampliar o acesso (o que pode andar de mãos dadas, pois quanto mais pessoas saudáveis houver no sistema, mais viável ele se torna).

Transformar a educação – com o incentivo e a coordenação das escolas públicas – utilizando o poder da inteligência artificial para proporcionar a todos um tutor pessoal. Construir moradias em todos os lugares. Tributar mais o capital e menos os salários e a mão de obra.

Oferecer aos americanos uma agenda que eles considerem atraente, que lhes dê a sensação de que o futuro pode ser construído e de que eles terão um lugar nele. Fazer isso poderia garantir não apenas o voto deles na próxima semana, mas também sua lealdade por muitos anos. •

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