sábado, 31 de outubro de 2026

É o fim do bolsonarismo? Por Thaís Oyama

O Globo

Mercado de votos está de agora em diante aberto — e pronto para ser disputado por quem se provar viável para enfrentar petismo

Os Bolsonaros já haviam provado sua tendência à autocombustão. Antes da incineração política de Flávio na quarta-feira, o pai fora preso por tentar incendiar a República, e o irmão Eduardo se lançara ao autoexílio na campanha pelo tarifaço americano contra o Brasil. Ao abandonar o país dois dias depois de receber quase 60 milhões de votos — e divulgar dos Estados Unidos uma carta sobretudo ridícula —, o primogênito seguiu a tradição familiar.

Hoje, da cesta de onde Jair tirou o Zero Um e o Zero Três, já não há sucessor eleitoralmente competitivo para comandar a direita. Carlos, Jair Renan e Laura — por inapetência, inaptidão ou pouca idade — não podem ser considerados. Michelle pode disputar o espólio, mas seus enteados não a reconhecem como sucessora, nem a maior parte da bancada do PL que gravita em torno de Flávio e Eduardo. Jair, por sua vez, está virtualmente inelegível pelo resto da vida. Estaria o bolsonarismo em via de extinção?

Os bolsonaristas, que já chegaram a um quarto do eleitorado, hoje são cerca de 15%. Arredondando, dá 24 milhões que já viram de tudo — das trágicas decisões de Bolsonaro pai na pandemia a sua condenação por tentativa de golpe, passando pelas trapalhadas de Eduardo em Washington e pelo envolvimento de Flávio no escândalo “Dark Horse”. Quem atravessou tudo isso sem abandonar o barco pode bem estar disposto a consumir os tuítes a ser doravante produzidos no degredo pelo “líder brazileiro”. Aconteça o que acontecer, os bolsonaristas resistirão.

Na política partidária, a coisa é diferente.

— Ninguém aprova isso. Ninguém quer ter problema — repetiu Valdemar Costa Neto ao ser questionado sobre a carta de Flávio, que, na primeira das três versões, o apresentava como “presidente eleito”.

O capo do PL não poderia ter sido mais claro: não quer problema. Já na segunda-feira, Valdemar havia dado a senha de que o partido e o filho de Bolsonaro seguiriam cada qual seu rumo. Reconheceu a vitória de Lula menos de 12 horas depois de Flávio dizer o contrário. Até ontem, não mais que cinco senadores do PL, dos 28 atuais e eleitos, haviam apoiado publicamente a carta do colega. Flávio virou um peso difícil de carregar. Mas o partido tem 1 bilhão de motivos para ser grato a ele e sua família.

Em 2018, Bolsonaro se apresentava como outsider e fazia campanha dormindo em vans para economizar no hotel. Em 2022, já estava 100% instalado no sistema, apoiado pelo Centrão e filiado ao PL, que lhe deu casa, comida e roupa lavada. Se Bolsonaro passou a ter estrutura partidária e inserção institucional, o PL ganhou na Mega-Sena. Com 33 deputados em 2018, tornou-se o maior partido nas duas Casas do Congresso e amealhará neste ano mais de R$ 1 bilhão em fundos públicos.

Hoje, partido e família continuam dependendo um do outro, mas o equilíbrio mudou: os Bolsonaros têm uma franquia desfalcada; Valdemar, uma máquina em expansão. Com a fortuna eleitoral amealhada nessa sociedade, o chefe do PL pode escolher, sem pressa, a próxima aposta. Pode investir em Michelle — que Jair, à falta de alternativas, poderá ter de aceitar — ou numa composição com o Republicanos de Tarcísio de Freitas. A aproximação já ganhou expressão na campanha. André do Prado, fiel escudeiro de Valdemar, foi apresentado como “braço direito” do governador.

A linhagem política dos Bolsonaros — com sua insinceridade democrática, sua ignorância política e seu mau gosto estético — entra em declínio com a saída de Flávio, e o bolsonarismo pode restar como ala radical de uma direita que provavelmente já não comandará. Mas o vasto eleitorado que a família mobilizou em 2018, 2022 e 2026 não nasceu com Bolsonaro; apenas encontrou nele seu intérprete. Esse mercado de votos está de agora em diante aberto — e pronto para ser disputado por quem se provar viável para enfrentar o petismo.

 

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