O Globo
Mercado de votos está de agora em diante
aberto — e pronto para ser disputado por quem se provar viável para enfrentar
petismo
Os Bolsonaros já haviam provado sua tendência
à autocombustão. Antes da incineração política de Flávio na quarta-feira, o pai
fora preso por tentar incendiar a República, e o irmão Eduardo se lançara ao
autoexílio na campanha pelo tarifaço americano contra o Brasil. Ao abandonar o
país dois dias depois de receber quase 60 milhões de votos — e divulgar dos Estados
Unidos uma carta sobretudo ridícula —, o primogênito seguiu a tradição
familiar.
Hoje, da cesta de onde Jair tirou o Zero Um e o Zero Três, já não há sucessor eleitoralmente competitivo para comandar a direita. Carlos, Jair Renan e Laura — por inapetência, inaptidão ou pouca idade — não podem ser considerados. Michelle pode disputar o espólio, mas seus enteados não a reconhecem como sucessora, nem a maior parte da bancada do PL que gravita em torno de Flávio e Eduardo. Jair, por sua vez, está virtualmente inelegível pelo resto da vida. Estaria o bolsonarismo em via de extinção?
Os bolsonaristas, que já chegaram a um quarto
do eleitorado, hoje são cerca de 15%. Arredondando, dá 24 milhões que já viram
de tudo — das trágicas decisões de Bolsonaro pai na pandemia a sua condenação
por tentativa de golpe, passando pelas trapalhadas de Eduardo em Washington e
pelo envolvimento de Flávio no escândalo “Dark Horse”. Quem atravessou tudo
isso sem abandonar o barco pode bem estar disposto a consumir os tuítes a ser
doravante produzidos no degredo pelo “líder brazileiro”. Aconteça o que
acontecer, os bolsonaristas resistirão.
Na política partidária, a coisa é diferente.
— Ninguém aprova isso. Ninguém quer ter
problema — repetiu Valdemar
Costa Neto ao ser questionado sobre a carta de Flávio, que, na primeira
das três versões, o apresentava como “presidente eleito”.
O capo do
PL não poderia ter sido mais claro: não quer problema. Já na segunda-feira,
Valdemar havia dado a senha de que o partido e o filho de Bolsonaro seguiriam
cada qual seu rumo. Reconheceu a vitória de Lula menos de 12 horas depois de
Flávio dizer o contrário. Até ontem, não mais que cinco senadores do PL, dos 28
atuais e eleitos, haviam apoiado publicamente a carta do colega. Flávio virou
um peso difícil de carregar. Mas o partido tem 1 bilhão de motivos para ser
grato a ele e sua família.
Em 2018, Bolsonaro se apresentava como
outsider e fazia campanha dormindo em vans para economizar no hotel. Em 2022,
já estava 100% instalado no sistema, apoiado pelo Centrão e filiado ao PL, que
lhe deu casa, comida e roupa lavada. Se Bolsonaro passou a ter estrutura
partidária e inserção institucional, o PL ganhou na Mega-Sena. Com 33 deputados
em 2018, tornou-se o maior partido nas duas Casas do Congresso e amealhará
neste ano mais de R$ 1 bilhão em fundos públicos.
Hoje, partido e família continuam dependendo
um do outro, mas o equilíbrio mudou: os Bolsonaros têm uma franquia desfalcada;
Valdemar, uma máquina em expansão. Com a fortuna eleitoral amealhada nessa
sociedade, o chefe do PL pode escolher, sem pressa, a próxima aposta. Pode
investir em Michelle — que Jair, à falta de alternativas, poderá ter de aceitar
— ou numa composição com o Republicanos de Tarcísio de Freitas. A aproximação já
ganhou expressão na campanha. André do Prado, fiel escudeiro de Valdemar, foi
apresentado como “braço direito” do governador.
A linhagem política dos Bolsonaros — com sua
insinceridade democrática, sua ignorância política e seu mau gosto estético —
entra em declínio com a saída de Flávio, e o bolsonarismo pode restar como ala
radical de uma direita que provavelmente já não comandará. Mas o vasto
eleitorado que a família mobilizou em 2018, 2022 e 2026 não nasceu com
Bolsonaro; apenas encontrou nele seu intérprete. Esse mercado de votos está de
agora em diante aberto — e pronto para ser disputado por quem se provar viável
para enfrentar o petismo.

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