O Globo
Candidatura de Flávio jamais deveria ter sido
levada a sério
O Brasil, felizmente, acordou a tempo da hibernação que por pouco não fez presidente da República um senador sem brilho, herdeiro de um líder político golpista, mergulhado em investigações por crimes comuns, de corrupção passiva a lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A candidatura de Flávio Bolsonaro, alavancada pelo capital político do pai, jamais deveria ter sido levada a sério, seja pela escassez de propostas, seja pela biografia minúscula, cujo epílogo (espera-se) contém vexatória fuga para os Estados Unidos e uma carta à nação em que se proclama “presidente eleito” num pleito em que foi derrotado por mais de 4,4 milhões de votos, mais que a população inteira da Paraíba.
Como se faz com sonho ruim, ao vencedor
maiúsculo da corrida eleitoral 2026, Luiz Inácio Lula da Silva, cabe apagar dos
registros o adversário, tal qual já fazem os próprios aliados. Tarcísio de
Freitas, governador reeleito de São Paulo, em entrevista ao Estado
de S. Paulo, admitiu disputar a Presidência em 2030. Usou até o discurso
teocrático do campo político que integra:
— Eu acredito muito na vontade do Senhor —
disparou à moda Jair Bolsonaro, messias também por sobrenome.
Valdemar Costa Neto foi outro a sinalizar que
a fila anda. Em vez de chorar pelo fugitivo que sonhava liderar a oposição da
Flórida, ocupou-se de manter em evidência a legenda que preside, o PL,
partido de 121 deputados federais, 29 senadores e seis governadores, a partir
de 2027.
A direita se engalfinha por protagonismo, o
campo progressista — e até o Centrão, velho de guerra — por cargos. No par de
discursos na noite em que festejou a robusta vitória, Lula prometeu fazer, a
partir do ano que vem, o melhor dos quatro mandatos para os quais se elegeu.
Acenou aos jovens que lotaram as ruas; aos idosos convencidos a exercer o voto,
a partir dos 70 anos facultativo; às mulheres, reserva eleitoral de costume;
aos que — sobretudo, católicos e religiosos de matriz africana — foram às urnas
pelo Estado laico. Até então avesso às engenhocas tecnológicas, o presidente,
na campanha de segundo turno, tomou gostou pela comunicação direta apresentada
pelo deputado federal André Janones
e seu Exército de 10 milhões. Lula 4.0, ele jura, será digital.
Pelos lados do Planalto, já gravitam, de olho
em nacos do futuro governo, líderes da coalizão vencedora, correligionários
derrotados nas urnas e integrantes de um Centrão sempre apegado ao poder.
Convém o presidente reeleito não perder de vista quem o elegeu. Foi, de novo, a
gente que subiu com ele a rampa do Palácio do Planalto, quatro anos atrás. E lá
ficou. Lula conquistou o quarto mandato, apesar do terceiro. Não houve plano de
comunicação capaz de garantir ao incumbente uma avaliação positiva confortável,
véspera de bom desempenho nas urnas.
Houve redesenho do Bolsa Família, retomada da
produção cultural via Lei Rouanet, reorganização das políticas de saúde, novo
arcabouço fiscal e reforma tributária, isenção do IR para rendimentos de até R$
5 mil. Faltou representatividade. O presidente montou um ministério com quase
40 pastas e pouquíssima diversidade de gênero e raça. Indicou três ministros
para o Supremo Tribunal Federal — um deles, Jorge Messias,
rejeitado pelo Senado — e duas vezes o mesmo procurador-geral da República.
Todos homens. Abraçou a proposta de fim da escala 6x1, em fins de 2025,
campanha batendo à porta.
A mobilização dos 64,4 milhões de
brasileiros, de todos os cantos do país, fez a última reeleição de Lula
tornar-se um caso mundial de vitória da democracia sobre a ameaça autoritária.
Mundo afora, “fazer o L” viralizou como símbolo global contra a extrema
direita. A eleição deu no novo soft power brasileiro. Além da música, do
futebol e do engajamento digital em cultura e comportamento, tornamo-nos
exportadores de ação político-eleitoral.
Não foi almoço grátis. Restaram 45 episódios
de violência política, com dez mortos, três deles indígenas. Cristiane Soares
teve de se postar, no debate da TV Globo,
diante do candidato que advogou pelo policial que matou sua filha, Ana Clara,
de 5 anos, com tiro de fuzil. Ana Elisa (PT-MG), 21 anos, recém-eleita deputada
federal, enfrentou ameaça de morte ao se engajar na campanha presidencial. E a
redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, bandeira historicamente
rechaçada pelo campo progressista, virou moeda de troca para contrapor à
proposta do adversário, de até 14 anos.
Que Lula, no próximo e derradeiro ciclo, não
deixe de assistir quem o elegeu. Estudantes, idosos, homens e mulheres que
despejaram 10 milhões de votos a mais no segundo turno no 13 reagiram à volta
do bolsonarismo, à submissão a Donald Trump,
ao retrocesso nas políticas sociais. Também marcharam por uma agenda de
prosperidade e conforto, segurança e inclusão, equidade e respeito já
prometida, nunca cumprida.

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