Folha de S. Paulo
Apesar da postura arrogante, Flávio sai do
debate com cortes para evangélicos
Campanha do bolsonarista conseguiu mais
material para usar nas redes sociais
O Brasil tem pelo menos 40 milhões de
evangélicos, e esse número cresce se incluirmos os católicos conservadores. Mas
a fé apareceu só de raspão nas falas dos dois candidatos no debate da Band, no
domingo (18). Qual deles se comunicou melhor com os cristãos indecisos?
Flávio Bolsonaro se apresentou como crente em apenas dois momentos. No primeiro bloco, quando Lula afirmou que venceria a disputa, Flávio respondeu: "Tá repreendido em nome de Jesus". E completou: "Só o Senhor é Deus. Está repreendido".
A expressão vem do vocabulário pentecostal.
Ela é usada quando alguém ouve uma notícia ruim, tem um pensamento pessimista,
presencia algo indesejado ou enfrenta um momento de opressão espiritual. Ali no
debate, serviu principalmente para mostrar à audiência evangélica qual dos dois
é o crente.
A outra menção explícita à fé veio no final
do debate. Flávio reforçou a percepção de que o PT é oportunista
nesse terreno: "Tinha que ter eleição toda semana, porque petista começa a
ser a favor de redução da maioridade penal. Petista começa a ir para igreja,
né? Petista começa a professar a sua fé. Olha que milagre!". Foi um
comentário inteligente.
A disputa religiosa também apareceu de forma
indireta, no debate sobre moralidade. Ao responder a uma pergunta sobre
licença-maternidade, Flávio se apresentou como marido, pai e protetor do seu
lar. "Eu vou dar sempre o meu melhor como presidente da República e como
um homem para defender a minha família e fazer o melhor para elas." A
família está entre os valores mais defendidos no meio evangélico.
Lula também jogou no terreno da moral. Ainda
no primeiro bloco, mencionou a relação de Flávio com o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro, dono do Banco Master,
e as festas que ele organizava: "Eu não sei se você participou, não vou
fazer acusação, mas os bacanais que havia neste país com o dinheiro do Vorcaro.
A quantidade de festas que ele fez. A quantidade de sacanagem, a quantidade de
mulher, a quantidade de senadores, ministros".
Flávio acenou aos evangélicos ainda com o uso
insistente da palavra "prosperidade", central na teologia de muitas
igrejas. Falou em "Ministério da Prosperidade", em "Caixa como
banco da prosperidade", em "você vai prosperar" e em "levar
esperança para dentro da sua casa". E associou essas promessas à mulher e
ao pequeno negócio feito em casa.
OK, mas quem venceu? Considerando apenas o
debate, é provável que o evangélico indeciso tenha desligado a televisão diante
de tanta agressividade.
Flávio Bolsonaro se comunicou com mais
clareza e, em alguns momentos, deixou explícito quem é o candidato evangélico e
conservador nos costumes. Mas o eleitor indeciso de igrejas que não estão
polarizadas pode ter visto nele um jovem arrogante que imita a postura
lacradora de Pablo Marçal, o influenciador que disputou a Prefeitura de São
Paulo em 2024 e prega uma versão aguada do cristianismo.
Já em termos de cortes, a campanha dele sai
do debate com mais material para usar nas redes durante a semana.

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