Folha de S. Paulo
Embates televisivos raramente têm efeito
decisivo sobre o resultado de eleições
Oferecem, porém, uma brecha para avaliar
candidatos fora de ambiente por eles controlado
Sim, o debate de domingo (18) foi muito ruim, mas o que dava para esperar? O homem, e, por conseguinte, o candidato, é um produto de seu meio. Uma campanha presidencial marcada pela polarização afetiva, por escândalos de corrupção e por uma ausência de propostas e ideias ainda mais intensa que o normal só poderia mesmo produzir um debate como o que vimos, em que sobressaíram agressividade, pegadinhas e evasivas. O surpreendente seria se, dadas as condições objetivas de campanha, os candidatos tivessem discutido seriamente projetos e programas.
Políticos, marqueteiros, jornalistas e, em
alguma medida, os próprios eleitores, em especial os mais politizados, nutrimos
um verdadeiro fetiche por debates. Nessa visão, tão romantizada quanto
imprecisa da democracia, debates representariam um momento transcendental, no
qual postulantes a um cargo público discutiriam de maneira franca e urbana seus
planos com os oponentes. Tal embate subsidiaria a escolha de cidadãos racionais
e informados.
Até devem existir alguns nerds que definem
seus votos dessa forma, mas a grande maioria o faz a partir de critérios mais
afetivos, que incluem valores que preza, afinidade com os grupos com os quais
convive e sentimentos em relação ao governo de turno, que são em boa medida
pautados por dados do mundo real como o desempenho econômico. São raras as
ocasiões em que a performance de um candidato lhe assegura ou lhe custa o cargo
pretendido. Daí se segue que debates são inúteis? Não tão rápido. Em disputas
acirradas, mesmo efeitos diminutos podem, somando-se a outros fatores,
revelar-se decisivos.
Mas, mesmo que não definam o resultado de eleições,
debates são uma das poucas ocasiões em que os candidatos se mostram para o
eleitor num ambiente não totalmente controlado por seus marqueteiros, o que
pode deixar escapar informação valiosa.
De mais a mais, debates se tornaram parte da
tradição democrática, e a democracia, como as religiões, precisa de alguns
ritos para operar suas mágicas sociais.
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