O Globo
Flávio Bolsonaro copia propostas de Lula e
diz que fará muito mais. Mas nas reuniões com a Faria Lima, promete tudo o
oposto
Na economia, essa campanha virou uma disputa de quem faz mais populismo fiscal. Flávio Bolsonaro copia as proposta de Lula e aumenta ainda mais as despesas. Lula prometeu que o Tesouro compraria dívidas velhas dos endividados exigindo dos credores um desconto. Flávio pegou carona na proposta e disse que vai comprar também, mas vai congelar a dívida restante das pessoas físicas por seis meses, e, das pessoas jurídicas, por um ano. Qual a diferença entre os dois caminhos econômicos? Lula está fazendo propostas elaboradas por sua equipe, depois de estudos. Pode-se discordar, mas tem lógica. Flávio Bolsonaro está copiando tudo o que Lula anuncia, elevando as ofertas numa espécie de leilão de populismo.
As propostas de Lula são expansionistas. As
de Flávio são uma cópia improvisada das de Lula e ainda mais expansionistas. Só
que ele está prometendo ao mercado financeiro um corte de gastos de R$ 200
bilhões. Outra diferença é que Lula apresentou um saco de bondades com a
intenção de cumprir. E isso se vê até pela delimitação mais precisa da
população alvo da política pública. Flávio Bolsonaro está propondo sem ter
feito os estudos prévios porque está pegando carona no que o seu oponente
disse.
Lula propôs a compra de carteiras das
dívidas, mas estabeleceu métodos e limites. Serão dívidas bancárias e não
bancárias de até 10 mil reais no valor original. As dívidas atingidas pelo
programa são as de mais de dois anos e de menos de quatro anos e meio. O
Tesouro vai fazer um leilão para que os credores ofereçam descontos, mas
avisará que quer pelo menos 90% de desconto. Com essa delimitação, o universo
de dívidas será de R$ 150 bilhões e o custo total deve ficar em torno de R$ 15
bilhões.
Flávio Bolsonaro repetiu Lula no debate da
Band e disse que ele também vai comprar a dívida. Mas fará mais. Vai congelar a
dívida remanescente.“Você não vai pagar boleto nenhum, seis meses congelado,
sua dívida parada e você que é pessoa jurídica esse prazo é de um ano, um ano
sem pagar os boletos das suas dívidas atrasadas”. Ficará uma parte para ser
paga. “A sua parcela que você pagava R$ 100, R$ 200, vai chegar a R$ 20 e a R$
30”. Mas isso será refinanciado pela Caixa.
Essa proposta é evidentemente mentirosa, além
de confusa. Como Flávio Bolsonaro não delimita nada, o valor ou o tempo da dívida,
a conta vai ao infinito. A proposta genérica é para atrair todos os
endividados. O montante da dívida total em atraso é R$ 592 bilhões e o universo
dos endividados é de 84 milhões de pessoas.
Ao mercado, ele garante que cortará R$ 200
bilhões no primeiro ano. Em certos momentos, diz que o dinheiro virá da redução
dos supersalários. O governo Lula propôs esse corte e o Congresso se recusou a
analisar a proposta. O Judiciário entrou para diminuir os exageros, mas na
prática elevou o teto. Mesmo se fosse o limite anteriormente fixado, e fosse
possível acabar da noite para o dia, o governo não conseguiria economizar nem
10% do que está prometendo.
Flávio Bolsonaro disse no debate da Band o
seguinte: “O simples fato de Flávio Bolsonaro virar do primeiro para o segundo
turno na frente, a taxa de juros futuros já caiu 2%. Com essa dívida que o
atual governo está deixando de R$ 11 trilhões, se você fizer uma conta rápida,
com Flávio Bolsonaro presidente da República, muito rapidamente você já vai ter
um espaço no orçamento de R$ 200 bilhões. Sabe o que eu vou fazer com isso? Eu
vou ajudar você a pagar a sua dívida”.
Isso é uma heresia econômica e monetária. Não
se usa a “economia” com o custo menor da dívida pública para ampliar gastos. Se
Lula falasse algo assim seria crucificado na Faria Lima.
A estratégia de Flávio é a seguinte: fugir
das perguntas pela tangente, repetir à exaustão propostas na segurança pública
que não resolvem o problema mas parecem efetivas, partir para o ataque quando é
confrontado com os muitos indícios de corrupção dele e da família Bolsonaro,
copiar todas as propostas econômicas de Lula, dizendo que fará o mesmo e muito
mais. Nas reuniões, a portas fechadas no mercado financeiro, ele diz o oposto
do que diz em público. É manipulação populista.
Criando confusão nos debates, nas entrevistas
e nas postagens, Flávio Bolsonaro escapa da pior questão que pesa sobre ele: o
risco real que ele representa para a democracia, por tudo o que já disse e por
tudo que o bolsonarismo sempre defendeu.

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