O Estado de S. Paulo
A atividade política havida no Brasil é
rasteira. A campanha eleitoral, rasteira. Rasteiros a serem os próximos quatro
anos. Causalidade. Uma condenação. Serão anos de depressão aguda; de exaustão
terminal, talvez com alguma chance de termos chances em 2030. (O esquema
vigente, o tal polarizado, dá sinais de esgotamento na sociedade, embora
sejamos mestres em desaproveitar chances.)
Será necessário sobreviver – andar de lado – até lá, qualquer que seja o produto das urnas. (O cronista não compara os candidatos, problemas diferentes, carregadores individuais para crises específicas.) Sobre o presente projetado no amanhã: o que pauta o debate hoje condiciona o porvir. O debate está num lugar distante daquelas que seriam as prioridades deste País.
Teremos instabilidade permanente,
parquíssimas as condições para reformismos de natureza estrutural. A gastança
de capital político terá outros destinos... Falta humildade, desprovidos os
concorrentes dos meios para compreender as razões por que venceram – Lula em
2022, Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026: venceram porque menos
rejeitados que o adversário da vez.
Será gastar esperança em vão supor que
transcorreria sob os pressupostos do diálogo o encontro eleitoral tardio entre
candidatos que competem acirradamente para que o outro seja o mais desprezado.
O debate eleitoral rasteiro esteve – está – à altura da atividade política
havida no Brasil. O debate eleitoral na TV concentra a expressão de uma doença
para além da prioridade aos cortes de redes sociais: a atividade política
governada por grupos que inadmitem ouvir o outro; que não consideram legítima a
existência do outro.
Qual debate será travado, se um não reconhece
o outro como adversário? O debate que afasta. O debate que, entre dois muito
rejeitados, faz crescer a rejeição à eleição – ao comparecimento às urnas. O
debate que contrata o aumento da abstenção. Aqui, não tendo Lula conseguido se
distinguir como presidente da República, parece ser Bolsonaro o beneficiário do
empate na lama.
Será muito fácil culpar a forma – o espaço
para que os candidatos discutissem e circulassem livremente no palco – pelo que
protagonizaram os finalistas na tela da Band. No Brasil, atribui-se à forma –
às regras para indicar ministro do Supremo, por exemplo – o problema, em vez de
se lhe enfrentar o uso pervertido. A questão está nos usuários da forma. No que
as pessoas fazem com as regras, com a oportunidade, com a cancha e com o tempo.
A questão está no modo como corrompem a forma, devendo o eleitor cobrar que tenham recursos para debater por 30 minutos. A forma não aproveitada comunica a miséria, devendo o eleitor cobrar que os disputantes sejam ao menos capazes de formular-desenvolver a acusação que farão ao outro, em vez de se revezar na repetição cuspida de nomes – Luchsinger, Vorcaro, Careca, Lulinha, irmãozinho.

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