sábado, 10 de outubro de 2026

O que aconteceu com os jovens? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Esquerda se institucionalizou e deixou campo da rebeldia livre para a ultradireita

Distanciamento afetivo dos horrores do totalitarismo reduz defesas contra a radicalização

Uma das possíveis explicações para o mau desempenho de Lula (PT) no primeiro turno é que ele perdeu apoio entre os eleitores mais jovens. Pesquisas mostraram que o petista, que antes mantinha confortável vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas faixas de 16 a 34 anos, viu sua dianteira estreitar-se mais perto do pleito. Numa disputa acirrada, esses votos fizeram diferença.

Não é só no Brasil. Jovens, notadamente homens, abraçando posições da direita radical foram um fator relevante para as eleições de Javier Milei na Argentina e de José Antonio Kast no Chile. Não é só na América Latina. Jovens também passaram a engrossar as fileiras da ultradireita nos EUA, França, Alemanha, Espanha etc. Até duas décadas atrás, jovens eram, no Ocidente, um público quase cativo da esquerda. O que aconteceu?

Há várias hipóteses, que vão de uma frustração com o "statu quo" econômico (eles já não querem as vagas de emprego tradicionais) até o advento das redes sociais (influenciadores de direita parecem ser mais eficazes que os de esquerda). Haveria inclusive uma dimensão estética, já que a esquerda, até por ter emplacado várias de suas bandeiras, se fossilizou, deixando para a direita o papel de movimento de contestação à ordem, que casa tão bem com os instintos de rebeldia da juventude.

Outro elemento relevante é que a mais poderosa das vacinas contra a radicalização, que é a memória, tem prazo de validade. Os horrores do nazifascismo e das tiranias comunistas estão todos nos livros de história. Mas isso não basta. Para atuar como imunizantes, essas memórias precisam vir com uma carga afetiva que vai se apagando com a passagem do tempo. Eu ainda lembro das histórias de meus avós sobre as perseguições a judeus na Europa e me recordo bem dos amigos de meus pais que foram torturados e de um que foi assassinado na ditadura. Meus filhos conhecem esses casos, mas só de forma abstrata e muito menos vívida.

Talvez a humanidade precise mesmo de crises periódicas para atualizar as bússolas morais das pessoas.

 

 

2 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Misericórdia!!!

Anônimo disse...

Muito bom!