Folha de S. Paulo
A formidável vitória do presidente não apaga
o fato de que quase 60 milhões preferiram um candidato extremista
Terão grande importância as escolhas da
direita e sua disposição de não apostar em quem é desafeto da democracia
O Brasil saiu das eleições presidenciais
tão dividido quanto nelas entrou. Assim continuará? Depende muito do que
acontecer com a extrema-direita e do que o governo e as forças democráticas
fizerem para garantir a normalidade política.
É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O Bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?
A formidável vitória do presidente Lula não apaga o
fato de que cerca de 60 milhões de eleitores preferiram um candidato de
retórica extremista, cujas ideias eram tão desconhecidas quanto sabidas eram
suas relações com o mundo do crime carioca e com o afamado Daniel
Vorcaro —já não bastasse a forma pouco ortodoxa mediante a qual ele fez
fortuna e acumulou patrimônio.
Como em 2022, a polarização política não
resultou só da regra eleitoral que no segundo turno força o eleitor a optar
entre dois concorrentes. Então, como agora, já na primeira volta as
preferências dos cidadãos se concentraram em dois polos situados a grande
distância ideológica e programática —um deles nas mãos da ultra, o outro
ocupado pela esquerda democrática e moderada.
A competição eleitoral naturalmente
radicaliza as diferenças entre os contendores. Ainda mais quando um deles,
seguindo o roteiro da extrema destra, ativa medos e ressentimentos nas ruas e
nas redes, estimulando o oponente a fazer o mesmo. Difícil imaginar que o
"Exército
do Lula" pudesse ter a mesma força, não tivesse mobilizado o temor
real de milhões de pessoas ao retorno do bolsonarismo à Presidência.
Ainda assim, pesquisas dos institutos Quaest
e Ideia, feitas antes das eleições, mostraram que só uma minoria se
identificava com o bolsonarismo: 12% dos entrevistados. Já entre 21% e 26%,
conforme cada instituto, se declararam de direita não bolsonarista. Parcela
significativa se definia como independente: 32% (Quaest) e 28% (Ideia). Um em
cada três eleitores se considerava parte da esquerda petista ou não-petista.
Da mesma forma, outros levantamentos,
comentados pelo jornalista Pedro Doria no Canal Meio na terça-feira (3) indicam
que o apoio a alguns temas, como o fim da jornada 6x1, é de tal ordem que
necessariamente reúne cidadãos de diferentes campos políticos. Ou seja: há,
sim, questões aptas a produzir consensos, rompendo a polarização construída no
campo eleitoral.
O encarcerado Jair e o fugitivo Flávio podem
engendrar o encolhimento do movimento que leva seus sobrenomes a seu efetivo
tamanho na preferência dos brasileiros. Pode, mas não é certo. Terão grande
importância as escolhas das lideranças direitistas e sua disposição de não
apostar de novo em quem é desafeto da democracia. Pesarão também as decisões do
presidente reeleito; sua capacidade de conceber políticas que beneficiem as
maiorias e caibam no orçamento; a prontidão para falar com os que nele não votaram
e entender suas aspirações —além do permanente exercício da sua comprovada
capacidade de negociação.

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