Folha de S. Paulo
Banco Central não corta Selic, que pode ficar
na mesma por meses, dado o tumulto
PIB mais lerdo tende a acirrar o conflito
político sobre programa econômico
Desde o domingo de Todos os Santos, passando
por Finados, parte da opinião pública foi às redes para discussões encarniçadas
sobre política monetária, quem diria, com muita profissão de fé e propaganda.
Muita gente ficou feliz com a promessa de que as taxas de juros
pudessem cair do céu.
O risco real ou, francamente, imaginário de
que Lula
4 fosse enfeitiçado
por ideias heterodoxas agitou a praça do mercado e
economistas-padrão, o que acirrou as guerras religiosas. O boato de que o
presidente pudesse nomear para o Banco Central
uma bancada de oposição
heterodoxa à Gabriel
Galípolo também não ajudou.
Dado o climão, o presidente deve dizer algo sobre a importância de política de gastos prudente no pronunciamento que deve fazer no domingo. Pouco. Melhor do que nada.
Em resumo, vai sobrar para o BC, que vai ser
malhado como Judas de Semanas Santas d’antanho. Vai apanhar mais caso não corte
a Selic
nas três próximas reuniões antes da Sexta da Paixão, em março de 2027.
Há bancões que preveem Selic na mesma até
meados ou fins do ano que vem. Na reunião desta quarta (4), o BC deixou a
Selic em 13,75%. Em caso de desaceleração maior da economia,
sejam quais forem os fatores (juros entre eles), o BC será bode expiatório.
Ainda que quisesse ou pudesse fazer algo
mais, o BC é passageiro da agonia macroeconômica desde fins de 2024. Agora,
está também no mato sem cachorro. A Selic está em nível de arrocho e a economia
cresce cada vez mais devagar.
Mas donos e negociadores de dinheiro esperam inflação
mais alta (e cobram mais por isso) e não se sabe o que Lula 4 vai fazer das contas
públicas e como tal indefinição vai afetar dólar e expectativas de
inflação.
É situação ruim ora sem perspectiva. Há ainda
indefinições sobre juros nas economias centrais, preço do petróleo etc. Em
suma, "um aumento significativo das incertezas em torno do cenário
base", como o BC escreveu em comunicado.
As condições financeiras ficarão apertadas
por semanas (meses?), afora milagres. Um alívio viria de modo lento, gradual e
inseguro.
No atacado do mercado de dinheiro, de títulos
de dívida, as taxas de juros para além de dois anos estão próximas dos níveis
do pânico de janeiro de 2025. Se o pessoal do BC talhasse a Selic à matroca, as
demais taxas saltariam de novo, assim como o dólar e, a seguir, a inflação.
Por "condições financeiras"
entenda-se medida qualquer da situação de oferta e custo de financiamento para
pessoas, empresas e governos. Inclui taxas de juros de mercado, taxa de câmbio,
risco-país, juros em economias centrais, índice de ações e de commodities (como
petróleo): preços e taxas que afetem decisões de consumo e investimento.
Ficaram mais apertadas, óbvio. O BC pode fazer besteira, mas pode fazer
milagre.
Também incerto é o tamanho da desaceleração
(quão menos o PIB vai crescer em 2027). De menos incerto, um desaperto das
condições financeiras vai depender também de quão estrito vai ser o programa
fiscal do governo, da competência de quem vai conduzi-lo na economia e na
política do Congresso e da implementação de fato.
Lula 4 nem deve fazer loucura no
"fiscal" nem vai mudar muito o programa de Lula 3. O remendo pode até
prestar, mas não vai aliviar de modo importante as condições financeiras. No
mais, também não parece estar no horizonte alguma grande mudança institucional
capaz de acelerar o crescimento. É mediocridade a perder de vista. No mínimo.
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