O Estado de S. Paulo
A eleição para um novo presidente do Senado é só daqui a três meses, mas já se tornou a questão política mais urgente. A reeleição de Davi Alcolumbre seria o retrato acabado de um conluio de contornos sórdidos entre os Poderes, que nasceu da necessidade urgente de seus articuladores (Alexandre de Moraes, Davi Alcolumbre e o próprio Lula) de escapar das consequências imediatas das investigações de escândalos de corrupção.
Ganhou alicerces poderosos com o resultado da eleição presidencial, embora as eleições estaduais e do Congresso prometessem o contrário. A causa disso é a desarticulação da oposição, visivelmente sem liderança efetiva, neste momento. Mas também o fato de que um bom pedaço dessa oposição, no Senado e na Câmara, tem interesse num conluio que garanta aos donos de partidos os mesmos acessos a diversos fundos, além da máquina pública. Ou seja, o status quo promete mais do que seu rompimento.
Nele mantém-se alta a degradação
institucional do STF, que não será corrigida de dentro para fora, e Alcolumbre
é a garantia de que não será corrigida também de fora para dentro. O resultado
do primeiro turno exibiu um “clamor popular” contra o comportamento (em termos
éticos) de integrantes do Supremo e as suas interferências na política, mas
perderá força se não tiver liderança e organização eficazes.
Da perspectiva da ala de força no STF
retorna-se ao “business as usual”. Significa manter seus intocáveis poderes
supremos. Recuperou a capacidade de combinar com o Executivo, que tanto depende
dele, como será a composição próxima do colegiado, montado para garantir a
sobrevivência da ala de força. E também a de chantagear os atores políticos do
Legislativo, começando pelo próprio Alcolumbre.
Nas figuras dos principais atores envolvidos
e no relacionamento entre eles está um poderoso simbolismo. Existe alguma
possibilidade de se romper o ferrolho de proteção mútua análogo ao que se
encontra em organizações clandestinas? O acordo político que se costura hoje
para dar a Lula uma base parlamentar maior tem nas suas origens distantes a
necessidade de sobrevivência política de um grupelho preocupado sobretudo com
interesses particulares, mas ganhou tração própria.
Grandes sacudidas no “esquema” surgiram, por
exemplo, na esteira de uma formidável crise econômica que Dilma precipitou. Em
outras palavras, se o “esquema” for novamente abalado, será provavelmente numa
implosão causada pelo peso insustentável das contas públicas, pelas travas ao
crescimento da economia e pela ameaça de anomia, resultado de enormes
frustrações. Mas apostar em crise não é um bom palpite em ação política.

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