sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Como antibolsonarismo aqui, antitrumpismo vence nos EUA, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Populista se esmerou em ser derrotado nas urnas ao fazer tudo ao contrário do que prometeu

Não é nada mau para o mundo que o presidente dos EUA tenha sua força política interna abalada

Donald Trump deu aula de como perder uma eleição. Transformou em motivo para a derrota nas legislativas de meio de mandato a frustração das promessas essenciais que o levaram de volta à Casa Branca.

Eleito para recuperar a prosperidade americana, reduzir o custo de vida e manter os EUA afastados de guerras distantes, acabou produzindo resultados inversos.

Os republicanos, no que se afigura como um colapso, perderam o controle da Câmara e do Senado e sofreram derrotas impensáveis em estados tradicionalmente conservadores.

Bem, esperemos que desta vez ninguém escreva um artigo com o título "é a economia, estúpido". Sim, Trump prometeu reduzir a inflação e promover crescimento. Na contramão, lançou uma ofensiva tarifária errática, que encareceu produtos e insumos usados pelas empresas americanas.

A política externa agravou o problema. O America First, uma das marcas de seu movimento, expressava a promessa de romper com as constantes intervenções do país em conflitos longínquos. Faz tempo que a maioria dos norte-americanos não quer saber de atoleiros militares em lugares que nem conseguem apontar no mapa.

Trump dizia que encerraria rapidamente as guerras na Ucrânia e em Gaza. Acabou, porém, envolvendo seu país, ao lado de Binyamin Netanyahu, de Israel, num conflito sem sentido contra o Irã.

O ataque teve consequências que Washington não conseguiu controlar. A interrupção do tráfego pelo estreito de Hormuz provocou uma disparada dos preços dos combustíveis. A guerra chegou aos postos de gasolina, aos custos de transporte e a outros preços.

Pesquisas no dia do pleito revelam que 9 em cada 10 apontaram o custo de vida como fator importante ou decisivo para seu voto.

Há ainda a dimensão política e institucional. O presidente fez do confronto permanente um método de governo, desafiou limites ao exercício do poder e transformou a truculência contra imigrantes em espetáculo de intimidação e terrorismo.

Nesse contexto, uma série de novidades fez história, como a Geórgia ter escolhido a democrata Keisha Lance Bottoms, primeira mulher negra eleita governadora de um estado norte-americano, e Michigan ter consagrado Abdul El-Sayed, o primeiro muçulmano a chegar ao Senado. No Novo México, a democrata Deb Haaland tornou-se a primeira mulher indígena eleita governadora.

Seria precipitado interpretar o resultado como a adesão dos americanos a um novo projeto democrata. De certa forma, como na eleição presidencial brasileira em que o antibolsonarismo deu a vitória a Lula, o antitrumpismo derrotou o populista. O fiasco terá consequências internas e externas.

Embora os EUA continuem sendo a nação mais poderosa do planeta, Trump já não será o autocrata arrogante e disruptivo com apoio popular. Não é nada mau para o mundo que esse tipo desprezível e perigoso de liderança tenha sofrido revés tão expressivo. Por fim, a permanecer a onda democrata, Flávio Bolsonaro ainda terá algum tempo para fazer novos planos de viagem.

 

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