Valor Econômico
Independentemente de quem se sentar na cadeira de ministro da Fazenda, a palavra final sobre a política fiscal será, invariavelmente, de Lula
Duas ausências chamaram a atenção no almoço
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nessa quinta-feira (5), com
economistas: do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que
continua cotado para o Ministério da Fazenda, mas submergiu; e de André Lara
Resende, que não teve agenda com Lula, conforme esclareceu o ministro da
Fazenda, Dario Durigan.
Além de ouvir os convidados sobre medidas para frear a alta da dívida pública, a obsessão do presidente é encontrar instrumentos viáveis para reduzir os juros. Alguns auxiliares o aconselharam a antecipar o nome do futuro ministro da Fazenda. Se o escolhido se comprometer com algum ajuste fiscal - um ajuste rigoroso tem o veto de Lula -, e despertar credibilidade no mercado, os juros futuros poderiam começar a cair, e isso abriria caminho para o recuo gradual da Selic. Mas o presidente descartou essa antecipação. Mais do que isso, fontes do entorno presidencial afirmam que ele ainda não escolheu o ministro da Fazenda, nem formalizou nenhum convite.
No começo da semana, a informação de que Lula
poderia se reunir com André Lara Resende acendeu o sinal amarelo no mercado, já
que suas ideias para a queda dos juros são consideradas radicais. Nos
bastidores, o próprio Lula se incomodou com a notícia. Em conversa com
auxiliares, o petista relembrou que, em 2023, teve um encontro rápido com o
economista, que se colocou à disposição para colaborar com o governo. Na
ocasião, Resende foi levado ao Palácio do Planalto pelo então titular da
Fazenda, Fernando Haddad. Desde então, Lula não voltou a falar com o
economista.
Em paralelo, o distanciamento de Rafael
Fonteles da cena nacional, depois de uma semana de superexposição na mídia,
suscitou dúvidas se ele continuaria no páreo para o Ministério da Fazenda. A
coluna apurou com fontes do governo e do mercado que, sim, o nome do piauiense
segue no radar. Porém, seguindo conselhos de aliados e de pessoas próximas, o
governador adotou a discrição e voltou as atenções para o Piauí.
Embora ausente na reunião de Lula com
economistas, Fonteles mantém contato frequente com o mandatário. Nesta semana,
por exemplo, foi um dos consultados sobre o texto do pronunciamento gravado na
quinta-feira (5), e que vai ao ar no domingo (8).
Depois de se projetar como um dos principais
coordenadores da campanha lulista no segundo turno - atuando em sintonia com o
ex-ministro Camilo Santana (PT) e com o ministro da Secretaria de Comunicação
(Secom), Sidônio Palmeira -, Fonteles concedeu entrevistas para vários veículos
nacionais. A superexposição foi interpretada como um gesto de quem colocou o
nome para o ministério, provocando críticas e, até mesmo, fogo amigo.
A percepção de alas do PT e de aliados é de
que o eventual convite de Lula a Fonteles para o ministério, implicando a
renúncia dele ao segundo mandato, seria um estelionato eleitoral. Esse
movimento esvaziaria a força do PT no Estado, abrindo alas para a oposição.
Uma liderança do PT comparou a situação de
Fonteles ao gesto do ex-ministro e ex-governador da Bahia Waldir Pires, que
teve final infeliz. Em 1989, Pires renunciou ao governo da Bahia, na metade do
mandato, para ser candidato a vice-presidente na chapa de Ulysses Guimarães.
Contudo, o emedebista terminou em sétimo lugar, com 4,4% dos votos. Além disso,
o MDB perdeu o eleitor baiano. Com alta rejeição, Nilo Coelho, sucessor de
Pires no governo, acabou pavimentando o caminho para o retorno de Antônio
Carlos Magalhães ao poder no Estado.
Uma fonte com trânsito privilegiado no
mercado financeiro disse ao Valor que
o piauiense causou boa impressão na recente passagem por São Paulo. “Ele é um
matemático, que por isso, sabe fazer contas, e é agradável”, resumiu a fonte.
“É um grande contador de causos”, que seduz o interlocutor, acrescentou.
Enquanto Lula reflete sobre a composição do
novo governo, Fonteles segue em campanha discreta no Piauí. Nas redes sociais,
anunciou a continuidade nos cargos dos secretários de Planejamento e da
Fazenda, oportunidade em que voltou a exaltar números do Estado: relembrou que
o Piauí tem a maior taxa de investimentos em relação à receita, recebeu nota B+
do Tesouro Nacional, e mantém gastos controlados. “Viva o equilíbrio fiscal!”,
publicou, na língua do mercado.
Ao lado de Fonteles, entretanto, outros nomes
continuam no radar para a função: o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que
tem histórico de rigor nas contas públicas como ex-governador de São Paulo,
enquanto o atual titular, Dario Durigan, não foi descartado.
Defensores da permanência de Durigan no
governo ressaltam que ele tem jogado em sintonia com o ministro do
Planejamento, Bruno Moretti. Em dupla, elaboraram medidas para um ajuste
gradual das contas, que não contrariasse Lula, com espaço até mesmo para
superávit em 2027.
Em meio à indefinição, quem conhece o
presidente de outros carnavais - ou melhor, de outros mandatos -, sabe que
independentemente de quem se sentar na cadeira de ministro da Fazenda, a
palavra final sobre a política fiscal será, invariavelmente, de Lula.
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