Valor Econômico
Pesquisas e projeções apontam que o Partido
Democrata deve obter a maioria na Câmara e é favorito também no Senado
Os americanos devem votar com a carteira nas
eleições de amanhã, o que é um mau presságio para o Partido Republicano, do
presidente Donald Trump. A economia dos EUA está crescendo, mas pesquisas
indicam que a situação econômica é a principal preocupação dos eleitores e que
eles avaliam mal o desempenho do governo Trump nessa área. Essa insatisfação
parece estar relacionada à perda de poder de compra no curto prazo e ao aumento
da desigualdade no longo prazo.
Os republicanos controlam hoje o Congresso. Mas pesquisas e projeções apontam que o Partido Democrata deve obter a maioria na Câmara e é favorito também no Senado. A mídia americana alerta sobre a possibilidade de uma onda azul (a cor dos democratas), que poderia fazer a oposição a Trump vencer em tradicionais bastiões republicanos, como o Texas.
Dos seis temas mais citados pelos americanos
como importantes nesta eleição, cinco têm a ver com a economia. O primeiro é
justamente a situação econômica geral, mencionada por 87%, segundo pesquisa
Gallup divulgada na semana passada. Em seguida estão a saúde e a situação no
Irã, citados por 77%. Esses, porém, também são temas prevalentemente
econômicos, já que o custo dos planos de saúde subiu com Trump e a guerra
encareceu combustíveis e energia. Em quarto lugar está o preço dos
combustíveis, com 72%. Em quinto vem a imigração, citada por 67%. E, logo
abaixo, a questão da renda e da distribuição da riqueza, citada por 66%.
Mais de metade (51%) dos eleitores se dizem
insatisfeitos com a sua situação financeira atual, contra 49% que estão
satisfeitos, segundo pesquisa NBC News divulgada no domingo. A diferença, na
margem de erro da pesquisa, pode parecer pequena, mas essa foi a primeira vez
em que o número de insatisfeitos é maior, em quase 30 anos de pesquisa. Ou
seja, há mais americanos descontentes hoje do que na grande crise financeira de
2008/9. O índice de sentimento do consumidor, da Universidade de Michigan, está
nos menores patamares da série histórica.
Os eleitores responsabilizam Trump e suas
políticas por essa piora. Apenas 26% dos americanos aprovam a gestão da
economia pelo presidente, segundo pesquisa AP-Norc de outubro. E só 17% aprovam
como ele lida com o custo de vida. Oito em cada dez americanos querem mudanças
significativas nas políticas econômicas. Isso é uma reversão importante em
relação ao primeiro mandato de Trump, quando a economia era o seu ponto forte.
Além disso, apenas 33% dos americanos aprovam a ação do presidente no Irã
(pesquisa Pew) e só 34% a sua atuação nas tarifas comerciais (pesquisa Harris).
O presidente se reelegeu prometendo
revitalizar a economia dos EUA e reduzir a inflação (que superou 9% em meados
do governo Joe Biden) e os preços dos combustíveis. Dados divulgados na semana
passada mostram resultados positivos e negativos.
O Produto Interno Bruto (PIB) americano
cresceu 3,4% no terceiro trimestre (taxa anualizada), o ritmo mais forte em um
ano e acima da expectativa dos mercados. Essa expansão foi puxada pelos
investimentos das empresas e pelos gastos dos consumidores. O desemprego, em
4,2% (setembro), se mantém num nível historicamente baixo, e os pedidos de
seguro-desemprego estão no menor patamar em décadas.
Como pode, então, uma economia que cresce com
desemprego baixo, lucros empresariais elevados e valorização das bolsas
produzir insatisfação generalizada? A resposta talvez esteja na perda do poder
de compra nos últimos anos e no aumento da desigualdade, fenômeno que vem
ocorrendo há décadas.
"Os eleitores não votam pelo PIB",
disse o estrategista republicano Doug Heye à agência Bloomberg. "A
inflação ainda é alta, e acho que esse número, no fim das contas, é o mais
importante." Cada vez que o eleitor paga alguma coisa, sente a perda do
poder aquisitivo, o que gera frustração, observa Heye.
A inflação subiu para 3,7% em setembro, no
acumulado de 12 meses, puxada por combustíveis e energia. O dado ficou acima do
esperado e um ponto a mais do que em novembro de 26de 2024, quando Trump venceu
a eleição presidencial atacando justamente a alta de preços.
No entanto, o custo de vida provavelmente é
mais sentido pelos segmentos baixos e médios, que comprometem uma parcela maior
de sua renda em gastos essenciais que estão aumentando acima da média, como itens
de alimentação, saúde, combustíveis e energia.
O custo médio dos planos de saúde oferecidos
pelos empregadores, os mais usados nos EUA, subiu 11% desde o início de 2025,
acima da inflação acumulada de 5,4% no período. Já o custo do chamado
Obamacare, plano de saúde que atende principalmente pessoas de renda baixa e
média que não têm o plano empresarial, aumentou 58%, devido ao corte do
subsídio federal.
O preço da gasolina disparou mais de 50%
desde o início deste ano. O do diesel, 77%. Comer fora de casa ficou 6,2% mais
caro. A taxa média de financiamento imobiliário estava em 7,24% na última
semana de outubro, contra em geral menos de 4% até 2022. Juros maiores
encarecem a compra da casa própria.
A Tax Foundation estima que as tarifas
comerciais adotadas pelo governo Trump elevaram o gasto médio das famílias
americanas em US$ 1.000 em 2025 e em US$ 820 neste ano. Já a guerra no Irã
custou até agora a cada família americana cerca de US$ 1.120 em gastos extras
apenas com combustíveis, segundo estimativa da Universidade Brown.
Como o salário médio do trabalhador está
estagnado em termos reais desde o início do governo Trump, isso significa que
boa parte da população perdeu poder aquisitivo nesse período. Nos últimos 12
meses, houve uma perda de salário médio real de 0,7%, segundo o Birô de
Estatísticas do Trabalho dos EUA.
Ou seja, o país está enriquecendo, mas uma
parcela importante da população está empobrecendo relativamente. É a chamada
recuperação da economia em formato de K, na qual os ricos ficam mais ricos,
enquanto o restante em geral empobrece.
A desigualdade e a concentração de renda
aumentaram substancialmente nos EUA nas últimas décadas. Segundo o Escritório
de Orçamento do Congresso americano (CBO), a participação do 1% de maior renda
na renda total do país dobrou, de 7% para 14% entre 1979 e 2022 (último dado).
A fatia da renda dos 60% intermediários (a classe média) caiu 6 pontos
percentuais. Do mesmo modo, em 1989 o 1% mais rico detinha 22,8% da riqueza no
país; em junho deste ano, esse percentual estava em 32,5%, segundo o Fed (o BC
americano). Já a faixa que vai dos 50% aos 90% mais ricos (que também inclui
parte da classe média) viu sua participação na riqueza cair de 35,7% para
28,8%.
Pesquisas acadêmicas indicam que costuma
haver uma tolerância da sociedade com o aumento da desigualdade quando uma boa
parte da população acredita que, ainda assim, melhorará de vida. Isso parece
não estar ocorrendo agora. E esse sentimento ameaça se voltar contra Trump e os
republicanos amanhã.

Nenhum comentário:
Postar um comentário