Correio Braziliense
O Brasil precisa ampliar as pontes, inclusive
com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral numa extensão da
disputa partidária americana
Donald Trump não está na cédula das eleições norte-americanas de hoje, mas seu governo está em julgamento. Os dois principais cenários desenhados pelas pesquisas representam derrotas políticas para a Casa Branca: perder a Câmara dos Representantes ou entregar também o Senado aos democratas. O segundo seria o pior dos mundos. A expressão "pato manco", usada para definir presidentes em fim de mandato e com influência declinante, ganharia conteúdo imediato. Trump conservaria poderes importantes, mas encontraria obstáculos para transformar suas decisões em políticas duradouras.
É preciso, porém, distinguir o favoritismo da
sentença das urnas. As pesquisas finais do The New
York Times/Siena mostram democratas numericamente à frente nos sete
estados considerados decisivos para o Senado, inclusive Texas e Kansas,
tradicionais fortalezas republicanas. O próprio instituto adverte que a maioria
permanece em disputa. Há precedentes de subestimação do voto trumpista, cujos
eleitores resistem mais a responder aos pesquisadores. O tamanho da onda azul
dependerá de quem efetivamente for às urnas.
Custo de vida, combustíveis, insegurança
econômica e os gastos da guerra no Irã formam o coquetel que corrói a promessa
de prosperidade de Trump. A repressão migratória também tem efeitos colaterais:
parte dos eleitores que apoiou o controle da fronteira rejeita operações que
atingem trabalhadores, desorganizam famílias e retiram mão de obra das
empresas. Entre os hispânicos, protagonistas do avanço republicano em 2024, há
uma espécie de mea culpa.
Trump e Barack Obama protagonizam os polos
nacionais desse confronto, embora o Partido Democrata reúna lideranças e
correntes diversas. O presidente tenta converter a votação numa prova de
fidelidade pessoal. O ex-presidente mobiliza a oposição para transformar o
descontentamento em participação. Nos distritos e estados competitivos,
entretanto, a disputa exige candidatos capazes de dialogar com valores
religiosos e comunidades locais, cujas preocupações materiais podem atravessar
fronteiras que pareciam intransponíveis.
É nesse ambiente que a vitória de Luiz Inácio
Lula da Silva adquire significado internacional. A derrota de Flávio Bolsonaro
frustrou a possibilidade de um alinhamento do maior país sul-americano com o
projeto de poder associado a Trump. Nesse sentido, está sendo interpretada pela
opinião pública mundial como uma derrota política do presidente
norte-americano. Preserva a presença de um Brasil como uma das âncoras dos
BRICS, empenhado em manter autonomia diplomática e interlocução com diferentes
centros de poder. Uma vitória bolsonarista seria disruptiva do ponto de vista
da política externa brasileira.
Pragmatismo
Na Europa, a vitória de Lula ofereceu às esquerdas uma referência para
enfrentar a sensação de inevitabilidade do avanço da extrema-direita. Seu valor
é político e simbólico, pois mostra que mobilização social, alianças amplas e
defesa das instituições podem produzir uma vitória do campo da democracia. Isso
não significa que o eleitorado europeu reproduzirá o brasileiro, nem que
protestos e campanhas tenham passado a obedecer a um impulso vindo de Brasília.
Cada país tem seus próprios conflitos.
A derrota de Flávio, que está nos Estados
Unidos, também favorece aos democratas norte-americanos. Defender a democracia
exige respostas às condições de vida que alimentam a insatisfação popular.
Quando a política perde contato com emprego, renda, preços e segurança, deixa
um espaço que os adversários ocupam. A experiência brasileira foi uma
combinação de defesa institucional e compromisso social. Essa não uma receita
exportável, mas enfraquece a ideia de que a onda conservadora seja um destino.
O México ocupa posição particular nessa
equação. A integração econômica com os Estados Unidos convive com pressões
sobre imigração, segurança e comércio. A relação de "morde e assopra"
decorre dessa interdependência: Washington ameaça, mas também precisa negociar.
Para mexicanos e brasileiros, uma eventual derrota republicana pode ampliar os
interlocutores no Congresso e criar obstáculos a iniciativas coercitivas. Não
elimina, contudo, os instrumentos de pressão da Casa Branca nem dissolve
interesses nacionais conflitantes.
Para Lula, um Trump enfraquecido oferece
oportunidades e riscos. Uma Câmara democrata ampliaria a fiscalização, a perda
do Senado dificultaria nomeações e elevaria o custo político de iniciativas do
governo. Mas o presidente conservaria o veto e instrumentos executivos
relevantes. Pressionado internamente, poderia procurar compensações na política
externa e na sua nova doutrina de defesa nacional. O Brasil precisa ampliar as
pontes, inclusive com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral
numa extensão da disputa partidária americana.
O fato é que a vitória brasileira e uma
possível onda azul nos Estados Unidos podem marcar limites à projeção
internacional de Trump, ancorada no seu poder militar e tecnológico. É
precipitado anunciar seu esgotamento, diante da força de intervenção que ainda
deterá. O Brasil precisa combinar firmeza na soberania, cautela diante das
provocações e perseverança diplomática. Com Trump derrotado nas urnas,
administrar as relações com os Estados Unidos não comporta soberba e continuará
exigindo pragmatismo.

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