terça-feira, 3 de novembro de 2026

Entre muros e caminhos, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

É preciso reforçar que a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população

Das dezenas de milhões de brasileiros que suspiraram com alívio e júbilo no momento em que se confirmou o resultado do segundo turno da eleição presidencial disputada em 25 de outubro, um grupo muito restrito teve motivos especiais para celebrar. Trata-se das pessoas que conheceram o que de pior a ditadura militar (19641985) praticou: as prisões arbitrárias, a perseguição política, a tortura, os assassinatos e os desaparecimentos de opositores do regime. Fora outros atributos naturais e familiares que o aproximam das milícias e dos grandes esquemas de corrupção, o candidato derrotado tem um especial, herdado do pai: o de admirar e exaltar as terríveis práticas da ditadura militar. É de ter um tipo desses no principal cargo da República que o País se livrou.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe assegura o inédito quarto mandato presidencial, é, por isso, uma vitória dos que querem um Brasil democrático. A igualmente inédita virada entre o primeiro e o segundo turno deveuse certamente à sua liderança e a seu carisma, mas foi impulsionada por outros fatores, um dos quais o fato de sua candidatura representar o bastião para conter o avanço da extrema direita. Por isso, a reeleição de Lula é muito maior do que um feito do PT ou da esquerda. Ela resultou do apoio de forças democráticas que rejeitaram a extrema direita.

É ilusório imaginar, porém, que com a derrota e a fuga de Flávio Bolsonaro, o bolsonarismo esteja liquidado. Não se pode esquecer que o candidato derrotado teve praticamente 60 milhões de votos. Foi apoiado por quase a metade dos eleitores que compareceram às urnas. Temporariamente, a oposição de extrema direita, até há pouco liderada por Bolsonaro, está sem um comando firme, mas ela tem condições de se recompor e exercer um papel de grande relevância ao longo do próximo governo, que tomará posse em 5 de janeiro. A partir de 2027, é importante frisar, o PL, partido de Bolsonaro, terá 28 senadores e 121 deputados federais, o que significa que deterá as maiores bancadas nas duas Casas do Congresso. Se suas lideranças parlamentares atuarem com competência, poderão impor grandes dificuldades à gestão do presidente Lula.

Além disso, o PL elegeu seis governadores. Outros eleitos por diferentes partidos integram o grupo bolsonarista. O exemplo mais óbvio é o do reeleito governador paulista, Tarcísio de Freitas, filiado ao Republicanos, mas considerado o provável sucessor de Flávio Bolsonaro na liderança dos bolsonaristas. Tarcísio deve disputar a função com a senadora eleita pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro.

Esse quadro dá a dimensão das dificuldades que o quarto governo Lula enfrentará. Em seus pronunciamentos após a vitória, Lula falou em governar de maneira diferente da que mostrou nos mandatos anteriores e de estar mais sintonizado com a população. É difícil saber o que isso significará na prática. Mas que mudança deve haver não há dúvida, para se alcançar uma gestão que preserve o que de importante foi feito no campo social e que saiba enfrentar os novos desafios. São desafios que parte do PT não vê, mas que estão moldando um novo mundo.

As rápidas mudanças tecnológicas geram novas formas de trabalho, às quais nem sempre os organismos estatais sabem reagir com a presteza e a eficácia necessárias para impedir danos a direitos e para capacitar o mundo do trabalho a responder às novas exigências. A questão ambiental terá de perder o tom de discurso político e merecer atenção científica adequada e políticas públicas eficientes. As mudanças sociais que ocorrem a partir das inovações nos sistemas de produção e distribuição de bens exigem nova visão do poder público sobre seu papel.

E continuam abertas questões que, para grande parte dos militantes do PT, só interessam ao grande capital, como a necessidade de ter as contas públicas organizadas. Mas há petistas preocupados com o tema. “A trajetória da dívida pública tem de ser sustentável em algum horizonte de tempo”, disse ao Estadão o governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles, um dos nomes citados para ocupar o Ministério da Fazenda no novo governo. “Eu não costumo usar a palavra ajuste. Eu uso a palavra equilíbrio fiscal, justamente para demonstrar que são múltiplas as possibilidades de se buscar esse equilíbrio. Isso envolve corte de privilégios e de desperdício e não vai envolver, com o presidente Lula, qualquer prejuízo social, qualquer corte em programas sociais.”

São muitos os muros na rota do novo governo. Não há muitos caminhos para contorná-los. Espera-se que os escolhidos sejam os melhores. Há sensatez. Há, pelo menos no discurso, a disposição do presidente reeleito de incorporar a população na sua gestão. É preciso reforçar que, se de fato houver essa tentativa, a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população.

 

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