segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Justiça falha ao corrigir seus próprios erros

Por O Globo

Pedidos de revisão criminal crescem, mas análise é lenta, e medidas para acelerá-la ainda são incipientes

A Justiça se legitima perante a sociedade quando pune no tempo certo e revê seus erros com a presteza necessária. No Brasil, o Judiciário fica a dever nos dois aspectos. É lento na apreciação de processos e na revisão de equívocos. O diagnóstico é conhecido. Os pedidos de revisão na Justiça Criminal cresceram de 8.167 em 2020 para 25.487 no ano passado, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Não há informações consolidadas sobre quantos foram aceitos, mas só nos Tribunais de Justiça do Rio e de São Paulo houve 1.438 revisões no período de 2020 a 2024.

As medidas para acelerar o exame dos casos ainda são incipientes. O CNJ acaba de criar o Laboratório de Justiça Criminal, Reparação e Não Repetição, com o objetivo de tratar de falhas no sistema penal, analisar erros judiciais e propor medidas que evitem condenações equivocadas e garantam reparações. É correta a intenção de estabelecer protocolos para prisões, medidas cautelares e apreensões.

A eficácia do Judiciário depende de denúncias bem formuladas, que têm relação com a qualidade da investigação policial. As desigualdades brasileiras se reproduzem no padrão da Polícia Civil de cada uma das 27 unidades da Federação. Há esforços para que haja nivelamento num patamar aceitável.

Em março, a Secretaria de Segurança Pública (Senasp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, promoveu em Curitiba (PR) o 23º Curso Básico de Investigação de Homicídios, para alinhar procedimentos policiais. A taxa de elucidação de homicídios está em 46,8% no Brasil, segundo a Senasp — ante 68,8% nos Estados Unidos. Ao índice sofrível de êxito na elucidação, associam-se muitos pedidos de revisão, baseados em erros cometidos na investigação policial. Há protocolos obrigatórios que nem todos os estados seguem, além da falta de peritos. Sem polícia técnica eficiente, crescem os erros no encaminhamento de denúncias.

Nos Estados Unidos, a ONG Innocence Project surgiu a partir da disseminação de exames de DNA para inocentar condenados injustamente. No Brasil, segundo a advogada Dora Cavalcanti, já recebeu 7.800 casos e demonstrou a inocência de 11 condenados em dez anos. De 22 sentenças derrubadas, dez eram contra Carlos Edmilson Silva, que passou 12 anos preso por estupros e roubos que não cometeu. O material genético do verdadeiro criminoso chegou a ser coletado e não foi examinado. “A gente se compadece do drama das vítimas, mas ali havia um dado objetivo muito categórico de prova científica que excluía a autoria de Edmilson, o DNA”, diz o promotor Eduardo Querobim, que encaminhou o caso à Innocence Project. Outro erro envolveu Atercino Ferreira, condenado a 27 anos por abuso sexual dos filhos. Ele foi inocentado depois que eles procuraram a ONG e relataram que haviam prestado depoimentos falsos sob coação da mãe. Ferreira passou 11 meses preso até sua inocência ser demonstrada.

É espantoso como equívocos como esses possam ter sido cometidos. Por trás de erros da Justiça pode haver depoimentos mentirosos de interessados na condenação, coação ou mesmo tortura de detidos forçados a confessar. É certo que a revisão criminal não pode se banalizar como mais um recurso na já extensa lista à disposição de acusados no Brasil, mas a Justiça faz bem em tentar criar mecanismos mais ágeis para rever seus erros.

Ineficácia de operações policiais prova que PEC da Segurança é urgente

Por O Globo

Um ano depois da operação com 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, CV mantém domínio local

Um ano depois da megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, Zona Norte do Rio, que resultou em 122 mortos (entre eles cinco policiais), o Comando Vermelho (CV) mantém o controle do conjunto de favelas. A mais letal das ações policiais de que se tem notícia no Brasil não atingiu o objetivo de prender os chefes do CV. Os moradores continuam sob o jugo da facção, obrigados a pagar mais pelo sinal de internet ou pelo botijão de gás, como mostrou reportagem do GLOBO. Menos de duas semanas depois da ação policial, olheiros do tráfico já tinham voltado a seus postos de observação. “Falaram que a operação deixaria o complexo mais seguro. Não aconteceu”, diz uma moradora da Vila Cruzeiro, comunidade da região.

Um dos objetivos da operação era cumprir cem mandados de prisão da Justiça do Rio e do Pará. Só cinco foram cumpridos, um deles antes da ação policial. Os alvos prioritários, quatro acusados de ser chefes do CV, escaparam. O preso mais graduado foi o braço direito de um deles. “Todas as lideranças deixaram o território na véspera da operação”, diz Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense. “A gente não teve notícia de perdas territoriais no CV no último ano. A facção segue na mesma rota de expansão na Região Metropolitana do Rio e no cenário nacional.”

Desde as primeiras Unidades de Polícia Pacificadora, nos anos 2000, ficou demonstrado que o êxito de operações não pode ser medido pelo número de mortos ou armas apreendidas. Sem que os moradores possam acessar serviços públicos básicos de segurança, saúde e educação, elas são na prática inócuas, pois não causam prejuízos significativos às organizações criminosas. “Tivemos uma mobilização grandiosa, mas o saldo concreto foi nulo. As mais de cem mortes e dezenas de fuzis apreendidos viraram estatística descartável, pois homens e armas foram repostos com agilidade pelo CV”, diz Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em São Paulo, a última demonstração de força do Primeiro Comando da Capital (PCC) está nos 20 corpos abandonados em pontos da cidade desde setembro, amarrados, ensacados ou enrolados em cobertores. A hipótese predominante entre os investigadores é que sejam condenados em “tribunais do crime”, executados pela facção. O abandono de cadáveres em locais públicos é uma forma de mandar recados, diz o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo.

É preocupante que CV e PCC continuem a funcionar como Estados paralelos, opressores e violentos, que até pena de morte decretam. Passadas as eleições, não há mais tempo a perder: o Congresso tem de aprovar sem demora a PEC da Segurança, que traz ao verdadeiro Estado instrumentos mais eficazes para combater o crime organizado. Ela não resolverá tudo, mas é um primeiro passo. E o combate precisa começar. Não com ações espetaculares, mas com um trabalho consistente e integrado entre todas as forças policiais e a Justiça. É prioridade nacional.

Lula 4 precisa moderar pautas diante de Congresso hostil

Por Folha de S. Paulo

Crescimento do PL obriga presidente a buscar alianças com o centrão para criar condições de governabilidade

É um mau sinal, assim, que o petista queira condicionar o espaço nos ministérios a uma fidelidade canina às pautas governistas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou no segundo turno como azarão, por ter ficado atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na primeira rodada, e saiu com uma vitória expressiva, dada a amplitude da vantagem que impôs sobre o seu adversário. A solidez de sua votação, contudo, não lhe garantirá trânsito fácil no Congresso Nacional.

Ao contrário, o petista encontrará um Legislativo a princípio hostil. Os blocos que lhe farão oposição serão maiores do que os atuais tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado, em decorrência da expansão do PL, dono das maiores bancadas nas duas Casas.

Penoso do ponto de vista do governo, esse contraste de forças não deixa de ser bem-vindo para a sociedade, já que obrigará o presidente a buscar pautas legislativas menos controversas e, sobretudo, nomes mais consensuais para a ocupação de vagas que dependem de aval do Senado.

Propostas de emenda à Constituição, por exemplo, dificilmente avançarão com um DNA 100% petista, em especial no campo econômico. Indicações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), por sua vez, encontrarão, logo de saída, a resistência de 29 senadores do PL e 3 do Novo —apenas 9 a menos do que o necessário para derrubar a nomeação.

Esse entrechoque será negativo, contudo, se a agenda da oposição se converter em um esforço para bloquear o governo; se, em vez de contribuir para uma resultante moderada do encontro de vetores à esquerda e à direita, essa situação levar a uma paralisia perniciosa para o país.

Lula, com a experiência acumulada em três mandatos presidenciais, deveria saber disso melhor do que ninguém. E, como nas demais vezes que se instalou no Palácio do Planalto, precisará compor alianças a fim de conquistar um mínimo de governabilidade.

As movimentações nesse sentido já começaram e se intensificarão nas próximas semanas, graças a uma confluência de interesses: partidos do centrão perderam espaço com o crescimento do PL nestas eleições e esperam que, aliando-se ao Executivo, possam preservar influência e poder.

Siglas como PP, Republicanos e União Brasil consideram que, por não terem apoiado Flávio no primeiro turno, poderão ingressar no governo desde o começo, sem constrangimentos. Para isso, negociam, como contrapartida, o controle de alguns ministérios.

Nada haverá de errado se as tratativas avançarem nessa toada: partidos compõem a base governista no Congresso e, em troca, exercem o comando de algumas políticas públicas do Executivo.

O histórico do PT e do centrão, porém, recomenda doses máximas de ceticismo diante dessas promessas e de vigilância quanto aos próximos passos.

É um mau sinal, assim, que Lula queira condicionar o espaço nos ministérios a uma fidelidade canina às pautas governistas. Se é verdade que a base deve apoiar o Executivo, este deveria se mostrar aberto a debater sua agenda, e não ávido por fazê-la prevalecer.

A conta da IA está chegando

Por Folha de S. Paulo

Mercado deixou de premiar promessas e passou a cobrar mais caro para o financiamento da inteligência artificial

A virada importa para o Brasil, que aposta na expansão de data centers; elemento-chave desta discussão é o momento de juros mais altos no mundo

A corrida da inteligência artificial entrou em nova fase. Durante dois anos, investidores premiaram quem anunciava mais investimento. Agora, querem saber quem consegue pagar por ele.

O caso da Meta ilustrou bem essa mudança. No terceiro trimestre, a receita cresceu 26%, acima do esperado. Ainda assim, o fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 2,1 bilhões, a previsão de investimento anual subiu para até US$ 145 bilhões, e a companhia lançou ações sem direito a voto para financiar a expansão. A ação caiu quase 7% em um dia, e o risco de crédito atingiu nível recorde.

Nas empresas menores, o sinal é mais forte. A CoreWeave, que aluga capacidade de processamento, acumula dívida de cerca de US$ 50 bilhões, com títulos rendendo acima de 16% ao ano. Três ofertas de ações de data centers foram suspensas em outubro, e o SoftBank, que é um dos grandes estruturadores dessa infraestrutura, perdeu metade do valor de mercado desde junho.

A Nvidia admite que a demanda é enorme, mas o capital ficou escasso. Há risco considerável de o grande IPO da Anthropic (criadora do Claude) não sair.

Há quem veja exagero. Corretoras elevaram o preço-alvo da Meta, e analistas apontam que a CoreWeave não está perto da insolvência. Mas acertar o futuro não basta quando o investimento é financiado com dívida cara, e o retorno ainda não chegou.

Recorde-se que empresas de ferrovias e de internet, por exemplo, faliram antes de suas tecnologias proporcionarem lucro. Foi assim com as ferrovias britânicas nos anos 1840 e com a Global Crossing, que quebrou em 2002 com rede de fibra ótica ociosa.

Um elemento-chave desta discussão é o momento de juros mais altos no mundo. Projetos que dependem de capital barato e têm prazos longos de retorno são os primeiros a sofrer quando o dinheiro encarece.

O Brasil não está fora desse jogo. O país aprovou o Redata, regime de benefícios tributários para atrair data centers, e a estratégia pressupõe que as empresas globais continuarão capazes de financiar a expansão.

Se o crédito secar, projetos podem ser adiados, enquanto benefícios e obras de energia e transmissão já terão sido contratados.

Não se trata de abandonar a política, mas de desenhá-la com prudência. Incentivos deveriam ser liberados conforme o investimento. Como em toda revolução tecnológica, quem financia a construção nem sempre é quem colhe os frutos. O Brasil deveria garantir que não seja o contribuinte a carregar esse risco.

A margem de manobra de Lula no Congresso

Por O Estado de S. Paulo

Apesar do avanço da direita, o petista terá espaço para construir sua base e, se quiser, aprovar reformas. Mas há o risco de Lula confundir governabilidade com acomodação de interesses

Reeleito para um quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem pela frente o desafio de reconstruir sua relação com o Congresso. Não será tarefa simples, diante da avalanche da direita nas últimas eleições, mas tampouco se trata de uma missão impossível. Há margem de manobra, porque os partidos do Centrão têm interesse em impedir a hegemonia do PL bolsonarista. A direita vencedora das eleições legislativas, portanto, não é homogênea, e Lula certamente terá condições de pescar apoio nas águas do Centrão – desde que, é claro, pague o preço.

O PL, partido do derrotado Flávio Bolsonaro, terá a maior bancada da Câmara, com 121 dos 513 deputados, enquanto o PT contará com 70. No Senado, o PL passará de 15 para 28 das 81 cadeiras, ante apenas 9 do PT. É uma correlação de forças desfavorável ao governo, mas insuficiente para assegurar à oposição o controle das votações. Na Câmara, são necessários 257 votos para aprovar um projeto de lei complementar e 308 para uma proposta de emenda à Constituição (PEC). No Senado, os respectivos quóruns são de 41 e 49 votos.

O PL cresceu bastante, mas está longe de mandar sozinho no Congresso. Lula, por sua vez, precisará buscar votos fora da sua base para aprovar praticamente qualquer proposta relevante. O fiel da balança continuará sendo o Centrão, esse conjunto de partidos que, apesar de suas inclinações conservadoras e de seu apoio majoritário a Flávio, não tem princípios quando se trata de obter poder. Nem mesmo o PL votará necessariamente em bloco. A legenda abriga diferentes grupos políticos, inclusive com alguns deles mais próximos das lideranças tradicionais do Congresso do que do núcleo bolsonarista.

As articulações para as presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro, já oferecem uma demonstração dessas possibilidades. Hugo Motta (Republicanos-PB) reuniu partidos de centro e de esquerda em torno de sua candidatura. Já o senador Davi Alcolumbre (União-AP) conta com interlocutores até mesmo dentro do PL. Há, portanto, espaço para composições políticas que não reproduzam necessariamente as alianças da campanha presidencial.

Para aproveitar isso, Lula precisará reaprender a conversar. Ao longo do terceiro mandato, o presidente manteve uma relação excessivamente distante do chão do Congresso. Não faltaram reclamações de parlamentares sobre a dificuldade de acesso ao governo, a ausência de diálogo com ministros e a falta de atenção do próprio presidente. Lula aproximou-se dos chefes das Casas quando as eleições já se avizinhavam e precisava de apoio político. A escolha de interlocutores pouco eficazes tampouco ajudou a manter desimpedida a curta travessia da Esplanada, entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional. Entre os resultados desse arranjo, Lula amargou uma derrota quase inédita para um presidente, ao ver um indicado seu para o Supremo Tribunal Federal ser rejeitado pelos senadores.

O País tem reformas importantes à espera de encaminhamento, como a administrativa e a previdenciária, que exigirão acordos que ultrapassem as fronteiras partidárias. Há espaço para uma agenda comum entre o governo e parlamentares que se apresentam como defensores da responsabilidade fiscal e da eficiência do Estado. Seria imperdoável desperdiçá-lo em disputas destinadas apenas a produzir derrotas para o adversário.

Mas há o risco de Lula confundir governabilidade com acomodação de interesses. O presidente não pode comprar apoio parlamentar ao preço de preservar tudo aquilo que precisa ser reformado. O exemplo mais evidente é o sistema de emendas parlamentares. Não seria aceitável que, em nome de uma maioria confortável, o governo desistisse de enfrentar essa distorção, como prometeu em seu plano de governo.

O Congresso também terá de assumir suas responsabilidades. A força conquistada pela direita nas urnas deve servir para fiscalizar o Executivo e promover as mudanças estruturais que seus representantes tanto defendem, não para paralisar o País.

Lula afirmou, após a vitória, que trabalhará com o Congresso escolhido pelos brasileiros. Que assim faça. O Brasil precisa de reformas e não de mais quatro anos de acomodações políticas.

A constrangedora mudança do PT

Por O Estado de S. Paulo

Depois de três mandatos de Lula e a caminho do quarto, o PT ‘descobre’ que sua renovação também exige recordar aos companheiros uma regra elementar: o Estado não lhes pertence

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, anunciou que o partido passará por “mudanças profundas”. Era de esperar. Uma legenda que acaba de conquistar o quarto mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva deveria estar discutindo como sobreviver politicamente ao seu demiurgo, atualizar seu programa, renovar quadros e responder a um mundo do trabalho irreconhecível para quem ainda enxerga a sociedade com lentes da década de 1980. Edinho, porém, revelou que a reforma terá de começar alguns andares abaixo. “O PT não vai ser um amontoado de projetos pessoais, não vai ser instrumento de enriquecimento pessoal”, disse ele, em uma reveladora entrevista ao jornal O Globo.

É uma confissão constrangedora. O presidente do maior partido de esquerda do País fala de uma legenda que comandou a Presidência por muitos anos e ocupou milhares de postos. E, ainda assim, julga necessário anunciar como horizonte de transformação algo que qualquer partido republicano deveria considerar cláusula de entrada: não existir para enriquecer seus próprios integrantes.

O PT gosta de pensar grande. Seus congressos falam em soberania, transformação social, democracia, desigualdade, revolução tecnológica e futuro. Sua caciquia jamais foi modesta sobre a missão histórica que reserva a si mesma. Há sempre uma página grandiosa a escrever, uma herança maldita a corrigir, uma correlação de forças a superar. Eis que, depois de toda essa épica trajetória, a direção descobre uma tarefa mais prosaica: convencer os companheiros de que o partido não pode ser um elevador social particular.

Não é uma frase perdida. Ao assumir o comando do PT, em 2025, Edinho já havia dito que a legenda não fora criada para “projetos pessoais” nem para “ascensão social”. E Lula foi ainda mais claro em 2015. Disse que o PT estava “velho e viciado em poder” e confessou: “Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego, em ser eleito”. Onze anos depois, após mais duas vitórias presidenciais, a criatura continua exigindo o mesmo sermão.

Talvez por isso a expressão “Partido da Boquinha”, cunhada por Anthony Garotinho em 1999 numa disputa sobre cargos no governo do Rio, seja tão difícil de sepultar. A acusação era uma generalização e foi repelida pelo PT. Mas a boquinha tem uma qualidade inconveniente: volta e meia reaparece pela boca dos próprios petistas. Não é o adversário quem agora fala em projetos pessoais e enriquecimento. É seu presidente nacional.

O vexame está aí. Durante décadas, o PT cultivou a convicção de que não era apenas mais um partido disputando poder, mas uma espécie de reserva moral da política brasileira, nascida de baixo e vocacionada a representar interesses mais nobres que os das siglas tradicionais. Mesmo depois de escândalos e acomodações ao poder, sobreviveu entre seus quadros o hábito de narrar a própria trajetória em registro messiânico. O PT pode ter errado, mas sua causa seria sempre virtuosa.

A frase de Edinho Silva funciona como um peteleco nessa mitologia. Antes de salvar a democracia, reorganizar a esquerda ou interpretar a classe trabalhadora do século 21, talvez seja preciso recordar à companheirada que cargo público não é prêmio, estatal não é balcão partidário e governo não é agência de colocação profissional. Convenhamos: é uma pauta pouco heroica para quem se acostumou a falar em nome da História.

Reconhecer o problema é melhor do que negá-lo, mas tamanha sinceridade cobra preço. Se Edinho precisou dizer o que disse, terá de explicar quais práticas pretende mudar e que critérios pretende impor. O PT terá grande influência sobre a máquina federal no próximo mandato de Lula. É ali, entre nomeações, diretorias, conselhos, estatais e postos de confiança, que se verá se a declaração era princípio ou apenas liturgia.

O PT pode atualizar estatuto, programa e discurso. Pode convocar seminários sobre inteligência artificial, clima e os dilemas do capitalismo. Tudo legítimo. Mas, se quer convencer o País de que mudou profundamente, talvez deva começar por uma reforma muito menos sofisticada: ensinar a seus quadros que o Estado não lhes pertence. Para um partido que se imaginou durante décadas portador do futuro, é uma humilhação ter de voltar a uma lição tão primária.

O xadrez do endividamento

Por O Estado de S. Paulo

BC anuncia medidas para aumentar transparência na oferta de crédito, mas a questão é mais ampla

Preocupado com os elevados índices de comprometimento de renda e inadimplência no Brasil, o Banco Central (BC) acaba de anunciar novas resoluções que visam a aumentar a transparência na oferta de crédito e reduzir o superendividamento no País.

Dados do próprio BC situam o nível de endividamento das famílias acima de 50%, um recorde indigesto. Já a taxa de inadimplência para as pessoas físicas no crédito com recursos livres atingiu 8,1% em setembro. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), por sua vez, apontou que 81,7% das famílias brasileiras tinham dívidas a vencer em setembro.

O que já está ruim ainda pode piorar. O próprio BC reconhece que a tendência para o endividamento é de elevação. E isso em um cenário em que a atividade econômica já dá sinais de esfriamento, o que só dificulta a capacidade dos brasileiros de honrarem suas contas.

Apesar de a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva já ter editado três edições do programa de renegociação de dívidas Desenrola – duas delas somente neste ano –, o elevado nível de endividamento não dá trégua.

É nesse contexto que o BC determinou que, a partir de 31 de março de 2027, as instituições financeiras disponibilizem um mecanismo para que o consumidor possa bloquear o recebimento de propagandas e ofertas de crédito. No caso de clientes em situação de vulnerabilidade financeira, as ofertas de crédito só poderão ocorrer se houver autorização prévia. Além disso, essas pessoas não poderão receber novas ofertas de concessão, mas apenas de operações como renegociação e portabilidade de dívidas.

Outra regra, que deverá vigorar a partir de julho, cria o Painel de Dívidas Consolidadas. As instituições financeiras terão de disponibilizar aos clientes uma ferramenta de visualização do quanto eles devem. Tal ferramenta também deverá oferecer simulações dos custos e efeitos de operações de crédito.

Por fim, também a partir de julho, a oferta de crédito no ambiente do Pix só poderá ocorrer mediante autorização prévia do cliente. Ao contrário de uma operação Pix tradicional – a transferência instantânea de alguém para outra pessoa ou empresa –, o Pix crédito envolve a cobrança de juros, mas nem sempre o cliente está ciente disso.

As medidas são positivas em um cenário de forte aumento da bancarização no Brasil, sobretudo através de contas digitais. Por meio de um aparelho celular, milhares de pessoas hoje têm acesso a produtos financeiros anteriormente só acessíveis em agências físicas. Isso é obviamente um avanço, mas é forçoso reconhecer que muita gente está sendo bombardeada no mundo virtual por ofertas que não conseguem compreender inteiramente.

Reduzir o superendividamento, porém, vai muito além de ampliar a educação financeira da população e passa, necessariamente, pela questão dos juros altos, que acabam transformando um empréstimo em uma bola de neve. Reeleito, Lula precisa ajudar o BC a baixar os juros, o que exige parar de incentivar a população a gastar sob a promessa de que, caso não possa pagar, o governo se encarregará da dívida.

O alerta do Novembro Azul

Por Correio Braziliense

O tratamento para o câncer de próstata evoluiu e oferece hoje mais opções, mas todas dependem de uma decisão que só o homem pode tomar: ir ao consultório enquanto ainda não sente nada.

Novembro começa com um aviso que se repete todos os anos e segue sem ser plenamente ouvido: o câncer de próstata mata cerca de 50 brasileiros por dia. Foram 18,5 mil mortes em 2025, segundo o Ministério da Saúde. Entre 2017 e setembro deste ano, a doença tirou a vida de mais de 160 mil homens no país, e a curva continua subindo. O total de óbitos do ano passado supera em 20% o de 10 anos antes, quando foram registrados 15,4 mil.

O quadro tende a se agravar. A previsão para 2026 é de mais de 77 mil novos diagnósticos, o que mantém o câncer de próstata como o tumor mais frequente entre os homens brasileiros. É nesse cenário que a campanha Novembro Azul ganha sentido. A iniciativa mobiliza o país neste mês para lembrar ao homem que a consulta preventiva é o caminho mais seguro contra uma doença que não dá sinais no início. A mensagem precisa ser repetida todo ano, porque os números mostram que ainda não chegou a todos.

Quando o tumor é descoberto cedo, as chances de cura chegam a 90%. Nessa fase, porém, o paciente não sente nada. Sangue na urina ou no sêmen, aumento da frequência urinária, jato fraco, disfunção erétil e dores nos ossos costumam surgir quando a doença já avançou. Esperar o corpo reclamar significa, com frequência, perder a janela em que a cura é mais provável.

A investigação é simples. Consiste na dosagem do PSA, feita em exame de sangue, e no toque retal, que avalia tamanho, forma e textura da próstata. Se houver suspeita, a biópsia confirma o diagnóstico. A recomendação é de que homens a partir dos 50 anos procurem um urologista, e que a avaliação comece aos 45 para quem tem histórico familiar da doença, para negros e para obesos. São minutos de consulta que podem decidir o desfecho de uma vida.

Mesmo assim, muitos homens adiam ou evitam o exame por preconceito, por constrangimento e por uma ideia ultrapassada de que procurar o médico seria sinal de fraqueza. Houve avanço nas últimas duas décadas, e os consultórios recebem hoje homens mais dispostos a conversar sobre a própria saúde. Mas os números de mortalidade mostram que a mudança cultural ainda está incompleta.

A medicina também oferece mais recursos. A cirurgia da próstata assistida por robô foi incorporada ao SUS em 2026, e o Conselho Federal de Medicina aprovou métodos pouco invasivos, como o ultrassom focado de alta intensidade (HIFU) e a crioablação. Todas essas opções funcionam melhor quando o tumor é encontrado cedo, e a porta de entrada para elas continua sendo a consulta preventiva.

Câncer é doença grave, e com saúde não se brinca. O tratamento evoluiu e oferece hoje mais opções, mas todas dependem de uma decisão que só o homem pode tomar: ir ao consultório enquanto ainda não sente nada. Nenhum constrangimento justifica o risco de descobrir tarde o que poderia ser resolvido cedo. A cobrança vale, também, para quem convive com ele: companheiras, filhos, amigos e colegas de trabalho podem perguntar se o exame foi feito e insistir até ouvir que sim. O Novembro Azul cumpre seu papel quando o mês termina com mais consultas marcadas do que começou. São poucos minutos em troca de uma chance muito maior de continuar vivo para ver os filhos e netos crescerem.

Os primeiros efeitos do fim das bets

Por O Povo (CE)

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) acaba de divulgar um levantamento que aponta na direção de um acerto do governo ao decidir pela proibição das apostas online no nosso País. Desde quando a medida entrou em vigência, no dia 25 de setembro, o volume de vendas no varejo alimentar experimenta crescimento expressivo, com razões para se concluir que os movimentos se cruzam de maneira direta.

Para se ter uma ideia, o aumento na movimentação nos supermercados observado na semana seguinte ao começo de validade da Medida Provisória nº 1.394/2026, foi, no Nordeste, de 6,5%. Uma situação que vai ao encontro de advertência que já tinha sido feita por empresários do setor de que estava acontecendo um desvio preocupante de dinheiro do orçamento das famílias para gastos com apostas de quota fixa, as "populares" bets.

As vendas nacionais do setor apresentam a mesma mudança positiva, conforme os dados organizados e divulgados pela Abras. Com um dado complementar que torna o resultado ainda mais expressivo: houve expansão em todos os canais de um segmento que abrange supermercados, atacarejos, mercearias e demais formatos.

É um dado que complementa outro já divulgado pelo Banco Central como indicação de que a proibição das tais bets pode já estar impactando na economia real. Trata-se daquele que apontara uma queda de 10% no volume de transações via Pix no período imediatamente posterior ao começo de vigência da MP e mesmo a redução do percentual para 7%, valendo-se de dados atualizados, não diminui a força do impacto da mudança no perfil de gastos do brasileiro determinada por ela.

Claro que vale discutir o momento do anúncio e da assinatura da medida, quando o processo eleitoral se encaminhava para seu momento decisivo em primeiro turno, mas, para agora, ressaltar seu mérito parece mais importante. O oportunismo político, se havia, teve a resposta conveniente da sociedade que impôs uma derrota parcial para o governo colocando seu candidato numa inesperada segunda posição no 1º turno. Ou seja, se havia uma intenção de comnquistar votos através da ação que tinha (e tem) apoio amplo dos brasileiros, a estratégia não parece ter surtido efeito.

É importante que apareçam os resultados concretos da nova realidade no País em relação às apostas, porque há uma tendência de o tema voltar ao debate político quando o novo governo nacional e o novo Congresso se instalarem, no começo do próximo ano.

O fato de o presidente Lula (PT) ter sido reeleito, não é garantia de que a realidade se imponha para o futuro. A MP em vigência precisa ser aprovada por deputados e senadores até o fim de janeiro próximo, sob pena de perder validade e se voltar à situação anterior.

Até lá será importante que dados relacionáveis à medida como efeitos dela sejam tornados públicos, auxiliando os parlamentares a tomarem uma decisão com base naquilo que realmente beneficia as famílias e a sociedade. Evitando-se, assim, que os interesses desviados e os lobbies, por mais fortes que sejam, continuem a prevalecer.

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