quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Ruas não são cheque em branco para Lula, por Vera Magalhães

O Globo

Mobilização nas ruas que assegurou virada para o presidente não dá a ele respaldo para ignorar clamor por sinalização clara de compromisso fiscal

Lula venceu a eleição sem prometer um ajuste fiscal de grandes proporções, sem apresentar um plano para conter o crescimento das despesas obrigatórias e sem fazer concessões ao mercado financeiro. Não seria razoável, portanto, exigir que, uma semana depois de sua vitória, anunciasse uma guinada radical na política econômica. Mas seria igualmente equivocado interpretar o resultado das urnas como um aval para atravessar o quarto mandato sem mudanças relevantes nessa área.

A vitória de virada sobre Flávio Bolsonaro, inédita em eleições presidenciais brasileiras, não apaga um fato: o petista esteve muito perto de encerrar sua carreira política com uma derrota. A rejeição ao adversário, o peso de sua biografia e a mobilização de múltiplos grupos da sociedade na última hora foram decisivos para reverter o quadro. Nada disso autoriza a conclusão de que os eleitores aprovaram, em bloco, a condução da economia nos últimos quatro anos.

Passada a comemoração, Lula não demonstra pressa em dissipar as dúvidas sobre os rumos do novo governo. A escolha do ministro da Fazenda virou uma espécie de bolsa de apostas, com nomes que vão do atual titular, Dario Durigan, ao governador do Piauí, Rafael Fonteles, passando pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. A profusão de candidatos diz menos sobre a qualidade de cada um que sobre a indefinição de quem terá a palavra final. Lula resiste a antecipar a escolha por considerar que isso equivaleria a ceder à pressão de um mercado que sempre lhe foi hostil. Tem dito a interlocutores que pretende ter mais voz na condução da economia em seu último mandato — o que aumenta, e não reduz, as tensões.

A política econômica não interessa apenas a investidores e banqueiros. Seus efeitos alcançam empresas que precisam de crédito, famílias endividadas e trabalhadores que dependem da continuidade do crescimento para manter empregos e melhorar sua renda. Enquanto o presidente administra seu próprio tempo, Durigan tenta conter a ansiedade dos agentes econômicos. Ontem, reiterou o compromisso com um ajuste gradual, que preserve as promessas de campanha e não penalize os mais pobres. Também afastou a hipótese de tabelamento dos juros defendida por André Lara Resende. São sinais importantes, mas ainda insuficientes para esclarecer como o governo pretende estabilizar a trajetória da dívida pública.

A indefinição já produz consequências. O Comitê de Política Monetária pode interromper hoje o ciclo, já lento, de redução dos juros. A Selic está em 13,75% ao ano, patamar que encarece o crédito, dificulta investimentos e compromete o próprio crescimento que Lula deseja preservar. Seria injusto atribuir ao governo toda a responsabilidade pela reação dos mercados. A aposta em bloco numa vitória de Flávio mostra a visão de curto alcance desse setor, além de sua falta de preocupação com outros fatores, como a institucionalidade e a preservação da democracia.

Mas tampouco é possível tratar toda a deterioração das expectativas como chantagem de especuladores. Há problemas fiscais concretos que não desaparecerão porque o presidente conquistou mais quatro anos. O ajuste necessário não deve reproduzir o programa derrotado nas urnas, nem é razoável imaginar que Lula vá, na saideira, comprometer as políticas públicas que criou e que, em grande medida, ajudaram na sua virada. Mas é incontornável enfrentar a expansão das despesas obrigatórias, rever gastos pouco eficientes e estabelecer prioridades compatíveis com os recursos disponíveis. A opção por recorrer continuamente a novas receitas já se esgotou no atual governo.

Lula deveria aproveitar o início do mandato para tomar decisões mais difíceis. A armadilha será imaginar que a mobilização nas ruas lhe dá lastro para seguir gastando como se não houvesse amanhã. Se pretende deixar como legado um país com crescimento sustentável e menor desigualdade, terá de reconhecer que a responsabilidade fiscal não é uma imposição do mercado, mas uma condição para preservar suas próprias conquistas sociais.

 

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