segunda-feira, 10 de agosto de 2009

PTB busca alternativa para desembarcar do governismo em 2010

Caio Junqueira, de São Paulo
DEU NO VALOR ECONÔMICO


A definição do lado em que o PTB estará na disputa pela Presidência da República em 2010 passa pelo futuro de dois de seus principais integrantes, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro (PE), e o senador Romeu Tuma (SP).

Dono da principal Pasta do partido no governo Lula, Múcio espera ser indicado para uma vaga no Tribunal de Contas da União. A nomeação tiraria o único nome da legenda da Esplanada e principal apoiador do governo federal dentro da legenda. Simultaneamente, abriria espaço para que o restante do PTB apoie o candidato da oposição em 2010. Se ele não for o nomeado, a legenda se manteria no governo ainda por alguns meses, embora seja grande a probabilidade de que o próprio Múcio, ressentido, deixe o governo.

Hoje, a chance de que a nomeação não ocorra é grande e deve levar às outras correntes do partido a aderir, juntas, à candidatura oposicionista em 2010. O PTB é dividido em três forças, cada uma com cerca de um terço do partido: o ex-deputado federal e presidente nacional da sigla, Roberto Jefferson (RJ), uns dos protagonistas do escândalo do mensalão que acabou tendo seu mandato cassado pela Câmara; Campos Machado (SP), deputado estadual desde 1990 e o mais votado das Assembleias do país em 2006; e o chamado "PTB do Nordeste", que tem em Múcio sua principal liderança, além do ex-presidente da República e atual senador Fernando Collor (AL), trazido à legenda em 2006 por Jefferson. Dos atuais sete senadores petebistas, três são do Nordeste, ao passo que dos vinte deputados federais, sete são nordestinos.

Os grupos de Jefferson e Campos tendem a ser oposição na campanha presidencial em 2010, ao contrário do de Múcio, que pretende embarcar na candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. Para Jefferson, porém, o xadrez político de 2010 está completamente indefinido. Antipetista, diz acreditar que um cenário em que prevaleça entre os tucanos a candidatura do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, sobre o de São Paulo, José Serra (PSDB), seja mais agregador. "Para conciliar o país o candidato teria que ser o Aécio. Ele sintetiza o pós-Lula. Até o PMDB, se Aécio se lançar, não vai de Dilma. Com Aécio, a campanha seria mais tranquila, mais serena. Ele não é o candidato do confronto contra o Lula como é o Serra", afirma.

Ele afirma haver risco na estratégia de Lula de tentar consolidar Dilma como candidata. "Foi muito precoce o lançamento da Dilma e isso leva a uma grande exposição do presidente. Por exemplo, dizer que quem está contra o Bolsa Família é um imbecil quando muitos que estavam com ele não estão mais justamente devido ao Bolsa Família é um grande risco", diz. Também aposta que por enquanto há uma proteção de Lula em relação a Dilma e que a ministra pode ser prejudicada quando tiver de encarar a campanha sozinha. "Ele está muito exposto e a Dilma também está muito exposta. Por enquanto tem essa proteção do Lula, mas a hora em que ela estiver sozinha na campanha pode complicar, pelo pavio curto".

Além disso, dentro de um quadro de imprevisões para 2010, Jefferson avalia danos a Dilma com a aventada candidatura da ex-ministra do meio Ambiente, Marina Silva (PT), pelo PV. "A Marina é um torpedo na Dilma". Ele também diz acreditar que o deputado federal Antonio Palocci (PT-SP) não está fora do jogo para a disputa presidencial pelo PT.

"Você veja que em qualquer espaço que abra um cargo o Lula cogita a hipótese de Palocci ocupá-la. Em todo lugar tem espaço para o Palocci. Além disso, a classe empresarial paulista que detém o poder real no país prefere o Palocci a Dilma. Palocci está no jogo."

Um outro fator que pode alterar o jogo interno no PTB é a candidatura à reeleição de Romeu Tuma (SP) ao Senado. Sua mudança de partido há dois anos, do DEM (então PFL) para o PTB, impulsionada por Campos Machado, teve como uma de suas condicionantes a candidatura à reeleição.

O partido no Estado de São Paulo é aliado do PSDB, mas são muitos os candidatos para as duas vagas existentes na chapa que deve ter Geraldo Alckmin como candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Além de Tuma, há quatro tucanos (o presidente estadual do PSDB, deputado federal Mendes Thame; o líder do partido na Câmara, José Aníbal; o vereador em São Paulo, Gabriel Chalita; e o secretário paulista de Educação, Paulo Renato Souza) e um pemedebista, Orestes Quércia.

Se Tuma não for candidato, o partido pode debandar para uma candidatura adversária em São Paulo, hipótese reforçada se o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) for o candidato a governador no Estado, dentro de uma aliança com PT, PDT, PSB e PCdoB. Campos Machado é amigo de Ciro de longa data.

Mesmo com a indefinição que deve se arrastar até 2010, Tuma aproveitou o recesso parlamentar para fazer campanha pelo interior, contando com a grande capilaridade que o partido tem no Estado, um atrativo a mais e tão importante quanto o tempo de televisão. A legenda é a que mais cresce no Estado. O número de filiados (277,6 mil) se aproxima do PT (314,5 mil) e já passou o PSDB (230,2 mil), mediante um sistema de metas de filiações estruturada pelo seu presidente estadual, Campos Machado.

A capilaridade do PTB no Estado é tamanha que sua estrutura alcança todos os 645 municípios paulistas. Até o fim do ano serão inaugurados 25 escritórios regionais. Desde 2008, já foram formados onze departamentos partidários segmentados para setores da sociedade, como afrodescendentes, mulheres, inter-religioso e sindical. "Não tenho a menor dúvida de que Tuma será candidato à reeleição. O partido que caminha para ser o mais forte do Estado não pode ficar sem candidato", afirma Campos Machado.

Egresso da política nas mãos do ex-presidente Jânio Quadros, que, segundo ele, afirmou que Campos Machado fora "o filho que não teve", a estrutura que o deputado estadual arma no partido visa resultados eleitorais efetivos nas eleições de 2012 e 2014, quando o partido não deve mais acompanhar o PSDB em São Paulo. "Deixaremos de entrar como vagão nas eleições dentro de três anos", afirma Campos, que foi candidato a vice de Alckmin em 2008 e 2000 para a Prefeitura de São Paulo.

A intenção é de que a partir de São Paulo o PTB deixe de ser coadjuvante, fato que tem feito com que, nacionalmente, o partido perca cadeiras tanto no Legislativo como no Executivo. Atualmente, os principais nomes que ocupam cadeiras no Executivo são os prefeitos de Manaus (AM), Amazonino Mendes, e de Belém, Duciomar Costa (PA). Entretanto, nenhum dos 27 governadores é filiado ao partido.

Trem-bala e investimento direto

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Não interessa ao Brasil oferecer de graça o mercado interno, o patrimônio mais precioso de uma nação

O MINISTRO das Relações Exteriores da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, esteve no Brasil acompanhado por uma comitiva de executivos de 20 empresas e informou ao jornal "Valor Econômico" (edição de 29 de julho) que o governo e as companhias espanholas estão muito interessados em participar da licitação para o trem de alta velocidade entre Rio e São Paulo.

Não é surpreendente. As empresas dos países ricos que dispõem de tecnologia para trens-bala estarão todas interessadas. Dessa forma, garantirão um rendimento seguro para seu investimento, que, como acontece com esse tipo de serviço, deverá ser duas a três vezes maior do que a taxa de juros que obteriam se emprestassem o dinheiro.

O que nós, brasileiros, deveríamos discutir seriamente é se interessa ao Brasil conceder a empresas estrangeiras a concessão de serviços públicos monopolistas, em vez de aceitarmos como pressuposto ou como "evidente" que temos esse interesse.

Eu estou seguro de que não interessa: não deveríamos abrir para empresas estrangeiras a concessão de serviços públicos. Em primeiro lugar, porque não interessa ao Brasil "crescer com poupança externa", ou seja, se endividar para crescer, independentemente da forma como o déficit em conta corrente seja financiado: através de empréstimos ou de investimentos diretos.

Os influxos líquidos de capital no país apreciam o câmbio e, em vez de aumentarem a taxa de investimento do país, aumentam seu consumo. É por essa razão -pela elevada taxa de substituição de poupança interna pela externa envolvida nos déficits em conta corrente- que as pesquisas econométricas mostram que não há relação causal entre investimentos diretos (que financiam aqueles déficits) e crescimento. A dívida, entretanto, foi contraída e passa a render juros elevados e dividendos ainda mais elevados para os países investidores.

Em segundo lugar, porque não interessa ao Brasil oferecer de graça nosso mercado interno aos países ricos. O mercado interno de um país é seu patrimônio mais precioso. Por isso, os países o negociam tão duramente na OMC e nos acordos regionais e bilaterais. Por que não adotar a mesma política no caso dos investimentos diretos? Os países ricos obtêm com sobra essa reciprocidade: abrem seus mercados para o investimento direto, mas, em compensação, investem em maior volume nos demais países, principalmente nos em desenvolvimento. Não é o nosso caso.

E a tecnologia? Esta é importante e justifica investimentos diretos, mas desde que o investimento seja feito em associação com o país recipiente, como fazem os chineses. Como a China tem sempre saldo em conta corrente, cresce com despoupança externa. Continua recebendo mais investimento direto do que faz, mas apenas na medida em que esse envolva partilha de tecnologia. E não abre seu mercado para o investimento em serviços públicos monopolistas.

A Espanha já é o segundo país em investimentos diretos no Brasil. Esses investimentos dirigiram-se principalmente para serviços monopolistas ou quase monopolistas. E contaram com subsídios do governo. Vale a pena para o governo espanhol apoiar suas empresas.

Dessa forma, transformam-se em rentistas -passam a receber uma renda segura e elevada que acresce sua riqueza. Não aumentaria também a nossa? Na maioria dos casos, não, já que a substituição de poupança interna por externa que os investimentos diretos envolvem representa endividamento adicional, obrigação de pagamento de dividendos elevados e pouco ou nenhum aumento da taxa de investimento.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

Lenine - Hoje Eu Quero Sair Só

Bom dia!

Vale a pena ver o video

domingo, 9 de agosto de 2009

Suicídio institucional

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


O arquivamento sumário das denúncias e representações contra o presidente do Senado, José Sarney, sem que nem mesmo o Conselho de Ética tenha se reunido, por decisão unilateral do senador sem votos do PMDB do Rio Paulo Duque, e o desaparecimento dos anais do Senado do trecho da fala do senador Renan Calheiros em que ele se dirige com palavrões ao senador tucano Tasso Jereissati são faces da mesma moeda, a truculência política em favor da manutenção da situação atual, a política arcaica tentando impedir a renovação dos costumes

O professor de filosofia da Unicamp Roberto Romano considera que a defesa incondicional da permanência do senador José Sarney na presidência do Senado “é suicida em termos institucionais”. O que ele considera muito grave “é essa prática de legisladores desacreditarem a lei. A lei não pode ser um ídolo imóvel, como dizia Platão, tem que ser uma coisa viva.

Mas você não pode dizer que a lei não vale, ou só vale para alguns”. Que o presidente Lula tenha dito que Sarney não é uma pessoa comum, Roberto Romano acha normal dentro das circunstâncias, “mas que uma classe inteira pense assim é preocupante”.

Especialmente, diz ele, os que não têm voto, como os suplentes de senador Wellington Salgado, que faz parte da “tropa de choque” governista, e Paulo Duque, o presidente do Conselho de Ética que arquivou todas as representações contra Sarney.

“Esses são os piores, a cicatriz do que há de mais doente no Senado”.

Uma dimensão antropológica que Romano gosta de analisar é a dos mitos, e ele adverte que, “quando você ataca um mito, como foi o caso do senador Pedro Simon, você já de antemão tem uma parcela forte da população contra você.

“Aquela demonstração explícita de falta de respeito, de violência, de truculência, de chantagem, cria um clima desfavorável a quem está atacando o mito”.

Para Roberto Romano, “eles estão afundando a legitimidade do Senado e confirmando todos os estereótipos, o que é muito preocupante”.

O ataque aos jornais é desesperado, segundo ele: “Uma hora o Mão Santa (senador do PMDB pelo Piauí) usa jornais para falar da corrupção no Piauí, e no mesmo instante o Paulo Duque arquiva as representações contra Sarney por que são baseadas em jornais. Fica claro que eles estão batendo de frente com a opinião pública por uma causa que não tem tamanha justificativa”.

Roberto Romano acha que “essa defesa intransigente do Sarney por causa do esquema de campanha da Dilma Rousseff em 2010 é estranha, porque em política não existem espaços vazios que não sejam ocupados, a qualquer momento um fato novo pode aparecer”.

Ele cita o exemplo da possível candidatura da senadora Marina Silva, que “abalou a estratégia inteira, mostrando sua fragilidade”.

O professor de filosofia da Unicamp acha que entramos em um terreno perigoso quando “já há sugestões de se acabar com o Senado”.

Isso traz em seu bojo, diz ele, a sequência lógica de que não precisamos de Congresso. “E nós temos uma longa tradição ética de extrema direita na cultura européia e na brasileira inclusive, o positivismo é uma delas, que desacredita a instituição parlamentar como inútil, que só serve para debater, e com isso vem o elogio da ditadura. E nesse momento, com Chavez no horizonte, com seus Evos Morales, os Correa, nós sabemos em que isso pode redundar”, diz Roberto Romano.

Outro aspecto que o deixa “enojado” é a prática da chantagem.

“Usa um instrumento importante como a representação no Conselho de Ética e o banaliza com a total falta de valores, com tentativa de calar e depois de retaliar”.

Para ele, esse procedimento “não tem nenhuma diferença em termos éticos do sequestro, da ameaça, você está tentando retirar ou o corpo ou a alma do indivíduo de circulação”.

O ex-ministro Marcilio Marques Moreira, na sua experiência como presidente do Conselho de Ética Pública, lembra que “os próprios códigos de ética nos Estados Unidos vêm sendo reforçados desde o primeiro, que foi do presidente Kennedy”.

No Brasil, “talvez por ser uma sociedade mais patrimonialista, que confunde, como diz o Roberto da Matta, a casa com a rua”, a evolução tem sido mais lenta, comenta.

Na experiência que teve, Marcílio diz que nos níveis superiores do governo há uma resistência maior, mas que não é homogênea. “Havia muitos ministros, presidentes de empresas, que eram muito respeitadores das normas, muito rigorosos consigo mesmo”.

Mas o respeito às normas era muito maior, ele admite, nos níveis mais baixos. “A autoridade tem que dar o exemplo.” Já o presidente da Academia Brasileira de Filosofia, João Ricardo Moderno, professor da Uerj, considera que a crise política tem também a origem em uma causa moral: “Temos que infundir valores da cidadania desde a educação de base, reformar a moralidade do país”.

Ele lembra que, desde a crise dos anões do Orçamento, “imaginávamos que esses problemas estariam sendo superados, mas depois tivemos o Collor e também pensávamos que tudo mudaria”.

A reforma da administração pública não aconteceu, e criaram-se “mecanismos mais sofisticados, até mesmo decretos secretos. Uma mentalidade predadora sem paralelos, parece que não tem fim”.

Ele considera que “o povo brasileiro é muito melhor do que sua representação política do ponto de vista moral e ético” e diz que Brasília “é como se fosse uma vida paralela”.

A megalomania, expressa nos prédios suntuosos e nas mordomias de Brasília, “é uma face da mitomania, que se tornou sistêmica”, analisa Moderno, para quem a transferência da capital para Brasília “multiplicou essa cultura no restante do país”. Do ponto de vista moral, diz ele, o que acontece no Senado e em Brasília de maneira geral “é uma fraude, não corresponde ao que é o Brasil”.

Dilma Rousseff decidiu dar um mau exemplo

Elio Gaspari
DEU EM O GLOBO

A ministra Dilma Rousseff e seu comissariado de informações ainda não desfizeram a encrenca do dado falso de seu currículo.

Há um mês o repórter Luiz Maklouf Carvalho revelou que ela não tinha mestrado pela Universidade de Campinas. O banco de dados Lattes, que armazena os currículos de todos os acadêmicos brasileiros, informava que ela obtivera o título com uma disser tação intitulada “Modelo Energético do Estado do Rio Grande do Sul”. Essa titulação estava listada também nas páginas da Casa Civil e da Petrobras, cujo Conselho de Administração ela preside. Entre seus méritos universitários havia ainda o de “doutoranda” da Unicamp em economia monetária e financeira.

Exposto o vexame, sucederam-se explicações: ela frequentara os dois cursos, mas não apresentara as devidas dissertações. Pena, porque são requisito essencial para a obtenção dos títulos. A condição de doutorando só existe enquanto a pessoa faz o curso.

Dilma Rousseff deixou de ser doutoranda em 2000, quando sua matrícula foi cancelada.

A ministra eximiu-se de responsabilidade pelo texto do Lattes, e o erro mostrado no currículo da Casa Civil chegou a ser atribuído a algum servidor desavisado.

Tudo bem, Dilma Rousseff seria a única pessoa que jamais leu o próprio currículo.

O Planalto pode botar o que quiser nas biografias dos companheiros, mas a Instrução 367 da CVM determina que as assembleias gerais das empresas de capital aberto, como a Petrobras, coletem os currículos de seus conselheiros e define como “infração de natureza gave” a prestação de “informações ou esclarecimentos falsos”. Não se pode ver no mestrado inexistente da ministra um risco para os acionistas da empresa.

Nesse aspecto, está mais para insignificância.

O relatório que a Petrobras preparou em 2007 para a Security Exchange Commission, a CVM americana, incorporou a condição de “doutoranda” da ministra. Como essa expressão não existe no vocabulário inglês, algum tradutor honesto informou que “atualmente ela está buscando um grau de doutora em economia monetária e financeira na Unicamp.” A mágica virou comédia.

Atualmente a Petrobras exibe uma nova versão do currículo. Informa que ela “foi aluna de mestrado e doutorado em ciências econômicas pela Unicamp, onde concluiu os respectivos créditos”. Blá-blá-blá.

Foi aluna buscando um título que não obteve.

A ministra Rousseff é candidata à Presidência da República, pessoa de quem se esperam exemplos de conduta.

Admitindo-se que nada teve a ver com os currículos maquiados e astuciosos, resulta que desprezou o caminho mais simples: bastaria jogar detergente na titulação, esquecendo a Unicamp e dispensando acrobacias.

Ela continuaria economista diplomada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o que não é pouca coisa.

O governo governou, e a banca pagou

Quando o governo trabalha, as coisas melhoram. Há três anos começou uma negociação com a banca para que ela lhe pagasse algum dinheiro pela manipulação de folha de 26,6 milhões de benefícios do INSS. A Viúva pagava R$ 250 milhões pelo serviço.

A reação inicial dos plutocratas foi classificar a ideia como absurda.

Passou o tempo, aceitaram um acordo e pararam de cobrar. Em seguida, o governo anunciou que leiloaria a manipulação dos novos benefícios da Previdência. Alguns banqueiros ameaçaram boicotar o leilão, e o governo respondeu avisando que o Banco do Brasil e a Caixa compareceriam.
Para o bem de todos e felicidade geral da nação, realizou-se o leilão, e a banca compareceu. A simples decisão de fazer o certo resultou numa economia de R$ 250 milhões anuais e num embolso adicional de algo como R$ 35 milhões a partir de 2010.

Descarrilhamento

O governador José Serra não é um admirador da ideia da construção do trem-bala ligando o Rio a São Paulo e Campinas.

Madame Natasha

Madame Natasha adora ônibus cheio. Ela decidiu conceder uma de suas bolsas de estudo ao secretário municipal de Transportes da cidade de São Paulo, Alexandre de Moraes.

O doutor deu uma entrevista e explicou que num determinado cruzamento da cidade a “temporização semafórica” é de dois minutos.

Madame acredita que Moraes criou o congestionamento vocabular.

Novo jornalismo

Zarpou da Califórnia com destino a uma zona de calmaria ao norte do Havaí um navio com a equipe do projeto Kaisei. Eles vão em busca do “Lençol de Lixo do Pacífico” uma área do tamanho do estado do Amazonas, transformada em depósito de sujeira flutuante pelas correntes marítimas.

Na equipe viaja a repórter Lindsey Hoshaw, uma moça formada por Stanford que organizou um projeto de cobertura, colocou-o no sítio Spot.Us e pediu ajuda. Conseguiu seis mil dólares.

O “The New York Times” entrou no lance, oferecendo cerca de US$ 700 caso decida comprar fotografias. Se resolver publicar um texto, pagará mais. Também aderiram os fundadores do eBay e da CraigList, um megaportal de anúncios classificados.

O Spot.Us expõe projetos de reportagens relacionados com a área e os interesses de San Francisco. Aceita doações individuais que raramente chegam a cem dólares e devolve o dinheiro se o serviço não é entregue.

Salvo no caso de empresas jornalísticas, não recebe cheques com valor superior a 20% do custo do projeto.

Bolsa IPI

A Câmara aprovou por 206 votos a 162 a Bolsa IPI, que concede um refrigério tributário aos exportadores. Coisa de R$ 220 bilhões, segundo a Receita Federal. Há R$ 20 bilhões (dois Bolsa Família) de calotes inscritos na dívida ativa da União.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que pedirá a Nosso Guia que vete o mimo. Ele foi contrabandeado numa medida provisória que tratava do programa Minha Casa Minha Vida.

Numa perfeita maracutaia, os admiradores da Bolsa apressaramse para que a Câmara votasse antes de quarta-feira, quando o Supremo Tribunal Federal deve começar o julgamento do pleito.

O PSDB, que tanto fala em porta de saída para o Bolsa Família do andar de baixo, deu 32 votos decisivos para a porta de entrada da Bolsa IPI do andar de cima.

Pior: a liderança tucana recomendou que se desse o presente (dez de seus deputados votaram contra). No PT, a liderança ficou contra e conseguiu 53 votos.

(Seis petistas votaram a favor.) É o velho tucanato com suas doenças crônicas: demofobia e plutofilia.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e acredita que o senador Romero Jucá, presidente da CPI da Petrobras, mostrou ao que veio. Ao dizer que a comissão não deve investigar ninharias de shows e festas juninas sobrefaturadas, acrescentou “ou uma plataforma P-51 não sei de onde”.

O idiota pensa que embaixo da P-51 só há água. Fez uma conta e concluiu que Jucá não sabe quanto custa uma festa ou sabe de algo sobre a plataforma. A P-51 custou US$ 1 bilhão, dinheiro suficiente para 50 mil noites juninas.

Na era Lula, não falta verba para UNE

Evandro Éboli
DEU EM O GLOBO

No governo Lula, o repasse de verbas à UNE, cresceu 830%, em relação ao último ano do governo FH. Em 2008, a entidade recebeu R$ 4,4 milhões.

NE recebeu R$ 4 milhões do governo em 2008

Repasse é 830% maior que o de 2002, último ano de FH; entidade tem 20 convênios com três ministérios

BRASÍLIA. A União Nacional dos Estudantes (UNE) não tem do que se queixar do governo Luiz Inácio Lula da Silva, generoso com a entidade no repasse de verbas federais. Em 2008, a UNE recebeu R$ 4,4 milhões, em 20 convênios com três ministérios, dinheiro distribuído em vários programas. O valor representa um aumento de 830% em relação ao montante repassado para a entidade em 2002. No último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, a União repassou apenas R$ 536,5 mil para a UNE.

Este ano, até julho a UNE já recebeu R$ 2,9 milhões do governo federal. Neste ritmo, 2009 pode superar 2008, ano em que a instituição recebeu maior aporte financeiro em sua história.

O Ministério da Saúde foi o que repassou mais recursos à entidade ano passado: quase R$ 3 milhões para o projeto Caravana Estudantil da Saúde.

Já o Ministério da Cultura responde por 16 dos 20 convênios da UNE com órgãos do governo em 2008. Entre os programas da entidade beneficiados está o Circuito Universitário de Cultura e Arte, que realiza mostras de cinema, shows de música e oficinas para estudantes. Não há recursos do Ministério da Educação (MEC) para a entidade.

Com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, a UNE obteve verba para “organizar atividades de formação e mobilização, contribuindo para incidir no debate sobre expressões do machismo”. Para o projeto foram repassados R$ 72 mil.

Em 2009, a UNE obteve o apoio e dinheiro do Ministério do Esporte, comandado pelo PCdoB, que controla a UNE há décadas. Vários ex-presidentes da entidade ocupam cargos na pasta. A UNE recebeu este ano R$ 250 mil para pagar atividades esportivas. Mas os maiores repasses foram feitos pelo Ministério da Cultura.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Cientistas políticos demonstram ceticismo

Daniel Bramatti
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Cientistas políticos ouvidos pelo Estado defendem reformas administrativas e políticas para superar a crise do Senado, mas demonstram ceticismo em relação à possibilidade de elas serem implementadas sob o atual comando da Casa.

"O Senado precisa de novas concepções. Nas próximas eleições serão renovadas dois terços das vagas. Se tivermos novos nomes com velhas práticas, tudo se repetirá", disse Marco Antonio Teixeira, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica e da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

Leôncio Martins Rodrigues, da Universidade de Campinas, vê o quadro com pessimismo. "Grande parte do eleitorado não dá importância a condutas ilegais. Alguns senadores têm um eleitorado mais exigente, mas, de modo geral, os brasileiros não punem os políticos corruptos", afirmou. Rodrigues relaciona o problema à desinformação dos eleitores, apesar de elogiar o papel de "vigia" exercidido pela imprensa.

MÉRITO

Já o pesquisador Rubens Figueiredo demonstra otimismo em relação à perspectiva de mudanças. "O Senado fatalmente vai melhorar. Atos secretos e contas secretas, agora que foram revelados, certamente deixarão de existir. O que vai persistir é o empreguismo, mas, acredito, de forma atenuada."

Figueiredo defende o estabelecimento de critérios de mérito para o preenchimento de cargos comissionados (para funcionários não concursados), muitos dos quais acabam ocupados por apadrinhados de políticos. "O ideal seria estabelecer algum tipo de pontuação por currículo, escolaridade, proficiência", afirmou.

O cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (Unb), preconiza um corte radical nos cargos comissionados como forma de eliminar o empreguismo. Ele cita como exemplo a regra vigente na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, onde só os ganinetes de deputados têm comissionados. "Só isso já eliminaria cerca de 3.000 cargos."

SUBLEGENDA

Outra questão polêmica é a dos suplentes que "herdam" mandatos sem ter passado pelo crivo do eleitorado. Para Fleischer, isso poderia ser resolvido com a volta da chamada sublegenda - cada partido ou coligação poderia lançar mais de um candidato por vaga em disputa, e o segundo mais votado seria o suplente. Outra opção seria ceder a vaga eventualmente aberta por licença, perda de mandato ou morte ao segundo mais votado, independetemente de seu partido. "Assim, nenhum senador lucraria ao pedir licença do cargo", avalia Fleischer.

A regra atual, em que o titular do mandato tem um "vice", em geral desconhecido do eleitorado", é vista como "uma excrescência" por Rubens Figueiredo. "Isso deforma a representação que emerge das urnas", observa.

Fleischer lembra que o preenchimento de vagas abertas em meio ao mandato provoca polêmica até nos Estados Unidos. Lá, os governadores têm poderes para nomear senadores. No Estado de Illinois, o governador Rod Blagojevich acabou cassado por tentar vender a vaga de Barack Obama no Senado, aberta com sua eleição à Presidência.

''Discurso evidencia cultura patrimonialista''

Ricardo Brandt
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O discurso dos aliados do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), em defesa dos suplentes e da falta de um padrão ético definido para o Parlamento, revela uma elite dominante que, apesar dos avanços democráticos do País, continua enclausurada em uma visão patrimonialista de fazer política.

A avaliação é do cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo. Para ele, a postura desses senadores mostra que eles agem "como se fossem os novos titulares das capitanias hereditárias" - sistema do Brasil colonial em que o rei dava terras aos seus apadrinhados e lhe concedia poder absoluto nessas áreas.

"O episódio dessa crise mostra que temos uma enorme defasagem de uma parte da elite política, que está completamente enraizada e enclausurada em uma visão patrimonialista da política, em que se aspira ao cargo e usa o cargo para benefício próprio, da família, do mesmo grupo, do mesmo partido ou do mesmo clã", afirma Moisés.

Para ele, os bate-bocas travados entre os senadores Fernando Collor (PTB-AL) e Pedro Simon (PMDB-RS) e entre Renan Calheiros (PMDB-AL) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) são "indicação de que a elite política não tem a menor noção de seu papel político e histórico". "Eles estão estritamente ligados a interesses pequenos e mesquinhos de seus grupos, sem perceber que o Senado tem uma função para o conjunto da nação. Eles interpretam aquilo como uma casa particular, como uma arena da qual eles são donos", avalia.

O comportamento dos senadores, segundo o especialistas, confronta princípios básicos da democracia. "O Renan e toda tropa de choque - que já foi tropa de choque do Collor e agora defende o Sarney - defendem o que o presidente do Senado disse nesta semana, que a nação não tem o direito de julgá-lo. O que está presente nessa concepção é que eles se organizaram para chegar lá e se apropriar do patrimônio público e ninguém deveria colocar em dúvida o que eles fazem. É a total contradição com a democracia."

Moisés diz que, para esses parlamentares, "a política é o acesso ao patrimônio público para fins privados". "Eu chamo isso de corrupção", diz o cientista político. "Eles são os novos titulares das capitanias hereditárias", completa.

Lula, Sarney, Collor e Renan... por Lula, Sarney, Collor e Renan

Daniel Bramatti
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Hoje aliados, os principais personagens da crise dos atos secretos já trocaram acusações de corrupção e incompetência

A crise dos atos secretos evidenciou o compadrio de quatro figuras públicas que, há cerca de duas décadas, trocavam acusações de corrupção, incompetência e desequilíbrio. Em diversos momentos, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Collor, José Sarney e Renan Calheiros se portaram mais como inimigos que como adversários. Com o tempo, conveniências políticas fizeram com que todos gravitassem para o mesmo lado.

"Gostaria de tratar o senhor José Sarney com elegância e respeito, mas não posso, porque estou falando com um irresponsável, um omisso, um desastrado, um fraco. (...) O senhor sempre foi um político de segunda classe, nunca teve uma atitude de coragem."

As frases são de Collor, no horário gratuito de TV da campanha eleitoral de 1989, quando acusava Sarney de patrocinar, a 15 dias da eleição, uma manobra para incluir o apresentador Silvio Santos entre os candidatos a presidente. "O senhor passou boa parte de seu governo apadrinhando seus amigos, seus familiares, muitos dos quais hoje estão sendo processados por atos de corrupção", disse o então representante do PRN.

Passadas duas décadas, Sarney é novamente acusado de apadrinhar amigos e parentes, mas Collor agora está entre seus principais defensores - após ter conquistado, com o apoio do novo aliado, a presidência da Comissão de Infraestrutura do Senado.

Segundo o hoje senador pelo PTB de Alagoas, as denúncias de envolvimento do colega peemedebista em contratações irregulares e secretas fazem parte de uma "campanha difamatória". "Sei o que é isso, porque por isso passei, só que em maior escala. Sei como essas coisas funcionam e como isso tudo é feito, tudo é forjado. Sei a quem interessa que o Senado retire daquela cadeira o presidente que todos nós elegemos", disse Collor, se referindo ao processo que o derrubou da Presidência da República, em 1992.

Em 1989, os ataques televisivos do candidato do PRN resultaram em um processo por calúnia, injúria e difamação. "Sarney quer ver Collor preso", noticiou o Estado na edição de 7 de novembro daquele ano. Sarney também ganhou um direito de resposta e, na TV, se apresentou como vítima de "vandalismo verbal e terrorismo eleitoral". "O Brasil é testemunha da brutalidade, da violência, do desatino com que fui agredido por um candidato profundamente transtornado", afirmou, a uma semana do primeiro turno.

A polarização com o presidente - cujo final de mandato foi marcado pela explosão dos índices de inflação e impopularidade - era tudo o que o grupo collorido queria. Naquela mesma noite, o candidato do PRN foi comemorar na casa de Renan Calheiros, então seu braço direito na campanha e um dos principais articuladores da estratégia de "demonização" de Sarney como forma de ganhar eleitores.

RETRIBUIÇÃO

Hoje Renan e Sarney são unha e carne. Ao liderar a tropa de choque que busca evitar a queda do presidente do Senado, o alagoano retribui a solidariedade que recebeu do colega quando seu próprio mandato esteve a perigo, em 2007, por causa das acusações de que teria contas pagas por um lobista da empreiteira Andrade Gutierrez.

Em relação a Collor e Lula, a trajetória de Renan também é oscilante. Rompeu com o primeiro em 1990, depois de disputar - e perder - as eleições para o governo de Alagoas sem a esperada ajuda da máquina federal. Chegou a ser processado pelo antigo amigo, depois de acusá-lo na CPI que deflagrou o impeachment. "O presidente da República tinha pleno conhecimento das ações do senhor PC Farias porque foi por mim advertido e informado, enquanto fui líder de seu governo na Câmara dos Deputados", disse, ao prestar depoimento à comissão parlamentar de inquérito, em 1992.

Na CPI, Renan ainda comparou o ex-aliado aos "perversos" imperadores romanos Nero e Calígula. Não era a primeira comparação entre Collor e figuras históricas com trajetórias nada louváveis. Em 1988, no governo Sarney, o ainda ativo Serviço Nacional de Informações (SNI) produziu um relatório que qualificava o então governador de Alagoas como "um Al Capone moderno e discípulo aplicado de Goebbels".

De Lula, Renan só se aproximou quando o petista chegou à Presidência, em 2002 - antes disso, ocupou cargo em uma estatal no governo Itamar Franco e foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Na eleição vencida pelo candidato do PT, apoiou o tucano José Serra, sem que isso o impedisse de se tornar um dos principais articuladores da base governista logo depois.

PRAGMATISMO

Ao tomar posse, em 2003, Lula abandonara há muito a prática de selecionar os aliados com base em afinidades políticas e ideológicas. Em 1989, no segundo turno da campanha, o então candidato chegou a recusar o apoio do derrotado Ulysses Guimarães e de outros representantes do PMDB. A partir da derrota para Collor, o pragmatismo foi adotado como regra.

Nesse contexto, a campanha petista recebeu com festa, em 2002, o reforço de Sarney e seu grupo - o mesmo Sarney que o PT qualificava como oligarca e representante do atraso e que Lula havia chamado de ladrão.

Foi em 1987. O líder petista fazia um discurso em Aracaju, marcado por críticas ao então presidente. "Nós sabemos que antigamente se dizia que o Ademar de Barros era ladrão, que o Maluf era ladrão. Pois bem: Ademar de Barros e Maluf poderiam ser ladrões , mas eles são trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da Nova República", acusou. O ataque caiu no esquecimento até ressurgir em 2003, graças ao então deputado federal petista João Fontes (SE). Ameaçado de expulsão por ter votado contra a reforma da Previdência, Fontes queria mostrar que continuava fiel aos princípios petistas, e que Lula é que havia mudado de lado ao chegar ao poder. Expulso do partido, Fontes ajudou a criar o PSOL.

Ofendido e espezinhado pelo PT, Sarney - aliado de FHC em seus dois mandatos - só se converteu ao lulismo quando um episódio policial inviabilizou de vez a manutenção da parceria com os tucanos. Em março de 2002, durante investigação sobre desvios de recursos da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), a Polícia Federal invadiu a sede da empresa Lunus, pertencente a Jorge Murad, marido de Roseana Sarney, então governadora do Maranhão. Foram apreendidos no local cerca de R$ 1,3 milhão em dinheiro.

Roseana, que na época ensaiava se lançar candidata a presidente pelo PFL, acusou José Serra de estar por trás da investida da PF. Em nota, o então pré-candidato tucano considerou as declarações da governadora "estapafúrdias, para não dizer malucas". O fato é que o escândalo provocado pela exibição da pilhas de cédulas apreendidas inviabilizou a candidatura de Roseana e provocou a saída do PFL do governo FHC, além de jogar Sarney nos braços de Lula.

ABORTO E RACISMO

A ampla base governista acomodou, além de Sarney, outros adversários históricos do petismo, como Paulo Maluf. Ainda assim, foi com surpresa e desagrado que parte do PT assistiu à reaproximação entre Lula e Collor.

No segundo turno de 1989, diante do esgotamento da estratégia de se apresentar como anti-Sarney - papel que Lula também desempenhava -, o candidato do PRN voltou as baterias para o adversário.

Na TV, Collor acusou Lula de defender a luta armada e a invasão de casas e apartamentos. Chamou-o de "cambalacheiro" por negar em público acordos com peemedebistas e supostamente negociar seu apoio nos bastidores.

O ápice da investida, coincidente com a ascensão de Lula nas pesquisas, se deu com a aparição de Miriam Cordeiro, ex-mulher do petista, no programa eleitoral do PRN. Em depoimento gravado, Miriam acusava Lula de ser racista e de ter oferecido dinheiro a ela para que abortasse, nos anos 70. "Apoiar o Lula seria trair a mim mesma. Eu sofri muito na mão do Lula, fui traída por ele." Dois dias depois, emocionalmente abalado, o petista participou do último e decisivo debate televisivo com Collor, a quem chamou de "caçador de maracujás".

Passadas duas décadas, Lula faz afagos públicos ao ex-inimigo, que, como presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado, tem poder para acelerar ou atrapalhar a tramitação de propostas relacionadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Apesar de ter sido um dos principais incentivadores do impeachment de Collor, o petista recebeu dele sinais de solidariedade em meio ao escândalo do mensalão, quando a oposição discutia a possibilidade de pedir sua cassação.

"Não quero para o Lula o que fizeram comigo, pois me apearam do poder sem provas", disse Collor, em 2005. Ele ainda anunciou que apoiaria a reeleição no ano seguinte. "Não faço parte do rol daqueles brasileiros que tinham o PT como ícone da ética e da moralidade. Tem uma massa do eleitorado do PT que votou no Lula achando isso, mas eu não", justificou.

Câmbio mata

Yoshiaki Nakano
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Permitir uma apreciação e a flutuação excessiva é uma escolha entre consumo imediato ou crescimento

"INFLAÇÃO ALEIJA , câmbio mata" -alerta de Mario Henrique Simonsen que continua válido para o grupo de países dependentes de condições internacionais para seu crescimento. São dependentes porque não conseguem traçar a própria trajetória; têm horizonte temporal curto, portanto não planejam a longo prazo, privilegiando sempre o consumo imediato em detrimento da poupança, ou seja, investimento com recursos próprios. Incorrem em déficits em transações correntes, endividamento externo e crises de balanço de pagamento, interrompendo repetidamente o seu crescimento. Com essa nova apreciação excessiva da taxa de câmbio, cabe alertar: por que mata o crescimento?

Parece fora de propósito falar em crise de balanço de endividamento externo e de balanço de pagamento quando o Brasil tem mais de US$ 200 bilhões de reserva cambial, a situação das contas externas é boa e o risco Brasil está num nível muito baixo. Mas o Brasil ainda não tem a característica fundamental de países que crescem persistentemente para alcançar os países desenvolvidos: horizonte temporal longo para tomada de decisões de política econômica. Não respeitamos ensinamentos básicos da teoria econômica: para crescer é preciso elevadas taxas de investimento e poupança.

Países que crescem persistentemente privilegiam os investimentos que ampliam a capacidade produtiva em vez do consumo imediato; as exportações diversificadas de manufaturados para construir uma estrutura produtiva moderna, enfrentando os próprios países desenvolvidos, e poder importar bens de capital para trazer o conhecimento e a fronteira tecnológica para o país sem se endividar. A taxa de câmbio mata esse processo porque é o preço-chave nessas economias.

A taxa real de câmbio define a escala de comparação entre os preços de todos os produtos nacionais em relação aos do resto do mundo. País que privilegia o consumo imediato prefere câmbio apreciado, pois os importados ficam mais baratos relativamente aos nacionais. Taxa de câmbio determina preços relativos macroeconômicos que definem a alocação de recursos ("tradables" x "non-tradables"), a distribuição de renda (lucro x salário, ou seja, poupança x consumo) e a demanda agregada (tirar proveito ou não da ampla e elástica demanda externa).

A taxa nominal de câmbio é preço de um ativo financeiro, a moeda nacional -assim é âncora nominal do sistema de preços e afeta a inflação tanto via custos como canal de transmissão da política monetária, e pode ser usado também para controlar as expectativas no mercado.

Assim, permitir a apreciação e a flutuação excessiva da taxa de câmbio é uma escolha entre consumo imediato ou crescimento; entre importar e transferir emprego para o exterior ou construir uma estrutura produtiva nacional competitiva e gerar emprego no país; entre flutuações na taxa de inflação ou estabilidade de preços; entre ganho imediato e único no salário real ou aumento contínuo nos salários acompanhado de aumento de produtividade; entre especulação, falso e momentâneo fortalecimento da moeda nacional (ancorado nos ciclos de fluxo de capitais) e instabilidade ou estabilidade no mercado financeiro e fortalecimento da moeda ancorado nos fundamentos (sistemáticos superávits transações correntes).

Yoshiaki Nakano, 64, diretor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV, foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Mario Covas (1995-2001).

Surto de sinceridade

Juca Kfouri
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O presidente da CBF e sua filha foram de uma franqueza e transparência raras e, de fato, sensacionais!

RICARDO TEIXEIRA , que vinha alardeando que não haveria dinheiro público em estádios e plantando aqui e ali, mais ali do que aqui, notinhas para se distinguir do presidente do COB, Carlos Nuzman, um habitual tomador do nosso dinheiro, teve um acesso de sinceridade e disse aquilo que os chatos de plantão já vinham dizendo desde que se anunciou a candidatura brasileira à Copa de 2014: vão enfiar a mão no nosso dinheiro.

O país agradece ao cartola da CBF por tamanha transparência e sabe que a reação do ministro do Esporte, que insiste em dizer que não se dará um tostão da Viúva para os estádios, não passa de demagogia de quem, em breve, sairá do ministério para se candidatar à Câmara dos Deputados, ora pois não.

Ele, aliás, é até capaz de dizer que o dinheiro do BNDES não é público, descoberta típica de um membro do neo-PC do B.

Ao se equiparar ao colega do COB, até porque a matriz é a mesma, crias que são de João Havelange, Teixeira tira a máscara e, diferentemente do que se fez no Pan-2007, bota a faca no peito do governo desde já, sem essa de deixar para a última hora. Melhor assim.
Por falar em Havelange, Joana Havelange, neta dele, não filha como o sobrenome pode fazer supor, porque filha do presidente da CBF e do comitê organizador da Copa, do qual é secretária, foi também de uma sinceridade comovente ao dizer que a Fifa está muito feliz por não ter nenhum membro do governo no comitê. Não é verdadeiramente sensacional, para se aplaudir em pé?

Essa gente é assim mesmo.

Muito ciosa da sua privacidade, adepta da iniciativa privada desde que com o dinheiro de todos. Porque, afinal, trabalham pelo Brasil, são empreendedores capazes de, como no caso de Teixeira, se sacrificar patrioticamente por mais de 20 anos à causa pública, embora numa entidade privada, como faz sempre questão de ressaltar.

Ora, um membro do governo, sinônimo de política, essa coisa imunda como vemos na lavagem de roupa (está escrito "de roupa", não de dinheiro) suja entre os Sarney, Simon, Collor, Calheiros, Jereissati, todos farinhas do mesmo saco -como dizia o PT antigamente e não diz mais porque está no fundo, no meio e no topo dele, o saco-, mancharia o comitê, além de poder fiscalizá-lo, imagine a pretensão do bofe.

A palavra de ordem exigida é dê e não receba, nem recibo, porque estamos acima do bem e do mal e foram vocês mesmos, do governo, que nos deram tamanha dimensão.

E tratemos de mudar a missão do BNDES, assim como a Lei da Responsabilidade Fiscal e do Endividamento, para que os Estados possam atender às necessidades da Copa do Mundo, como se sabe, prioridade número um deste imenso paraíso chamado Patropi.

Se não bastasse, com pelo menos cinco anos de atraso, assim como foi para aceitar o campeonato de pontos corridos que o Estatuto do Torcedor, sabotado pela CBF e pelo Clube dos 13 desde sempre, enfiou-lhe goela abaixo, eis que Rico Terra agora também quer adequar o calendário brasileiro ao mundial, que muitos chamam de europeu.

Algo necessário, mas não suficiente, porque não é panaceia.

Adriana Calcanhoto - Traduzir-se - Ferreira Gullar e Fagner

Bom dia!
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sábado, 8 de agosto de 2009

A ética de cada um

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

Como bem disse o senador José Sarney no seu patético discurso de defesa, “ética é conduta”. E justamente na conduta de certos senadores, inclusive ele, está a explicação para o fato de que não é possível nivelar por baixo a atuação parlamentar. Não creio que o principal seja o julgamento deste ou daquele senador, mas sua postura diante do que fez, ou do que está acontecendo. A isso chama-se “ética”, conceito que varia de acordo com os tempos e os costumes. Roberto Romano, professor de filosofia da Unicamp, lembra que, se fizermos um levantamento da história do Ocidente, “encontramos pelos menos uns cinco paradigmas éticos fundamentais que foram se misturando com o tempo”

A cada vez que se tem um paradigma que permeia todas as relações sociais e políticas, a ética vai junto, comenta Romano. Mas, para falar de ética, ele ressalta que é preciso falar de uma virtude chamada prudência. “A lei geral vale para todo e qualquer indivíduo, mas, se você aplicar a lei sem nenhuma gradação, sem nenhuma consideração prudente, você faz um trabalho monstruoso”.

É nesse sentido que é preciso separar a atuação do senador Arthur Virgílio, que assumiu seus erros, dos que lutam para preservar os privilégios e manter a situação como está. Para Roberto Romano, “a doutrina das penas não pode dosar a pena igualmente, sem considerar a situação de tempo, espaço, a pessoa”.

Do ponto de vista da ética, do decoro, para o ex-dominicano Roberto Romano, “o senador Arthur Virgílio tem pecados veniais, enquanto está sendo massacrado por um Renan Calheiros que está cheio de pecados capitais”.

O fato é que o costume que vigorava no Congresso permitia desvios como os praticados pelo senador Arthur Virgílio e pela grande maioria dos senadores, e dos deputados: uso de verba indenizatória indiscriminadamente, passagens de avião para parentes e amigos, nomeação de parentes para seu gabinete ou para gabinetes de congressistas amigos, no cruzamento de favores, e até mesmo manter um funcionário pago pelo Senado em estudo no exterior, sem que fossem obedecidos os trâmites legais para essas situações.

Toda essa prática passou a ser inaceitável pela sociedade, e o que os congressistas deveriam ter feito era um mea culpa, como fizeram o tucano e diversos outros deputados e senadores no caso da verba indenizatória e das passagens de avião, e a partir daí colocarem mãos a obra para reformar a gestão do Congresso.

Mas seria preciso primeiro que o próprio presidente Sarney admitisse que os seus hábitos políticos estavam equivocados, deslocados no tempo, e se dispusesse a reformálos, como fez o líder tucano Arthur Virgílio, ou o deputado Fernando Gabeira, do PV. E, sobretudo, investigar o fato mais grave entre todos, a responsabilidade pelos decretos secretos e pela atuação do diretorgeral do Senado nomeado por ele 15 anos atrás.

Ao contrário, Sarney tenta sustentar o insustentável e até mesmo quando fez a coisa certa — devolver o dinheiro do auxílio-moradia — tenta passar à opinião pública a ideia que o fez por vontade própria, pois tinha direito a usá-lo.

Mostra, dessa maneira, que não está em condições de comandar a reforma administrativa que o Senado precisa.

Há uma diferença grande entre as duas posturas, e já que não estamos na Inglaterra, onde os deputados que gastaram abusivamente a verba indenizatória renunciaram aos mandatos, pelo menos demos um pequeno passo à frente com a atitude desassombrada do líder tucano, contrastando com as chantagens usadas por Renan Calheiros.

Marcílio Marques Moreira, ex-ministro da Fazenda e expresidente do Conselho de Ética Pública, ressalta que “esse ‘ethos’ (ética) pode ir mudando de acordo com a sociedade, como mudou na Grécia do ethos heróico do Homero para o ethos do trabalho, um pouco espelhando também as próprias condições daquela sociedade”.

Ele acha que no mundo todo tem havido um movimento no sentido de normas mais rigorosas, citando o caso recente dos políticos ingleses, que renunciaram ao Parlamento por “coisas de certa maneira semelhantes, com algumas analogias de utilizar recursos públicos para fins privados, caracterizando o conflito de interesses, aquele aspecto de maior risco da atividade pública”.

Marcílio vê um lado positivo no que está acontecendo em Brasília, significaria que estamos em uma transição, “mas todas transições são penosas”, ressalta. Enquanto não se consolida uma nova hierarquia de valores, “fica um espaço, um vazio, que pode aumentar muito esses conflitos. Apesar de haver retrocessos, acho que estamos evoluindo”.

O que o preocupa é justamente que “algumas pessoas querem transformar o hábito de desvio de conduta na norma, e esse é o perigo, a resistência à mudança”.

Para João Ricardo Moderno, presidente da Academia Brasileira de Filosofia e professor de filosofia na Uerj, a origem da crise está na mudança da capital para Brasília, e tem base filosófica, que é a interpretação que se deu ao positivismo de Augusto Comte: o poder não pode ficar próximo da população, tem que ficar longe para pensar as melhores soluções para os problemas nacionais.

Para Moderno, “a capital federal tem que coincidir com a capital cultural, que requalifica o poder”. Para ele, o que está acontecendo é que o “neo-patrimonialismo brasileiro criou uma capital estatal, com todas as mordomias e benefícios, criou-se uma cultura local de que é um sacrifício ir para Brasília e que você tem que ter vantagens para estar lá, compensar o sacrifício”.

Essa política provocou “uma multiplicação das benesses, que criou uma cultura do benefício legal e uma paralela, do benefício ilegal, que se confundem”.

O privado invadindo o público foi incentivado por medidas como o salário dobradinha, o apartamento funcional, acabando por criar “uma categoria extremamente especial, a dos servidores públicos.

Brasília é a capital que tem o maior poder aquisitivo do país e não produz nada”, diz ele. (Continua amanhã)

SOB A REGÊNCIA DE LULA

Editorial
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Lula recebeu no início dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobrás, na quinta-feira, os primeiros dividendos substanciais deste ano legislativo do seu investimento na montagem e sustentação de um esquema de controle do Congresso Nacional. Centrado no PMDB dos senadores José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá e do deputado Michel Temer, o aparato se estrutura numa coalizão-ônibus que só não tem espaço para quem não queira nela embarcar. Rigorosamente dentro do previsto, Jucá, o líder do governo no Senado escolhido a dedo para relator da CPI - o que por si só escancara a subordinação do Legislativo ao Planalto -, propôs de uma tacada a rejeição de 66 dos 88 requerimentos apresentados, na maioria, pela oposição para dar sentido à sua iniciativa de promover a investigação sobre a estatal. Qualquer semelhança com o engavetamento das denúncias contra Sarney no Conselho de Ética do Senado não é coincidência.

Sarney foi o beneficiário imediato do zelo com que Jucá colocou em movimento a operação-abafa na CPI. O oligarca maranhense será poupado da apuração do convênio da fundação que leva o seu nome com a Petrobrás. A empresa patrocinou com R$ 1,3 milhão um projeto cultural da entidade que não saiu do papel. Desse total, R$ 500 mil foram parar em empresas fictícias ou da rede de comunicação da família de seu presidente vitalício. "Qual é a intenção: começar a discutir patrocínio por causa da Fundação Sarney ou discutir seriamente patrocínio?", perguntou retoricamente o relator, como se uma coisa e outra não tivessem a menor relação. Ele barrou também a convocação da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, demitida pouco depois de considerar irregular, em nota oficial, o arranjo contábil pelo qual a Petrobrás modificou o seu regime tributário, no ano passado. Jucá alega que a questão poderá ser coberta pelo secretário interino da Receita, Octacílio Dantas Cartaxo, que deporá na terça-feira.

A CPI ouvirá o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, oito dos seus diretores, o presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Haroldo Lima, e quatro dos seus diretores - mas não as sócias de uma empresa que teria recebido R$ 260 milhões em comissões de prefeituras que a contrataram e tiveram aumentados os respectivos repasses de royalties do petróleo. Uma das sócias é casada com um diretor da ANP. "O relator optou por convidar apenas aqueles que supostamente defenderão a causa governista", reclamou o senador tucano Álvaro Dias, autor do pedido de criação da CPI. "Teremos aqui um tribunal só com advogado de defesa e sem promotor." Ele está no seu papel de espernear, mas decerto não tinha ilusões sobre a conduta dos representantes do governo na comissão de 11 membros titulares. Eles somam 8 senadores, a começar do presidente do colegiado, o petista João Pedro. Foram escalados, em última análise, para desmentir o dito de que se sabe como uma CPI começa, mas não como termina.

Ontem foi a incolumidade do presidente do Senado. Hoje é o inquérito sobre a Petrobrás.
Amanhã será o destino, entre outros, dos projetos para regulamentar a exploração do petróleo do pré-sal. Depois de amanhã será o desdobramento da coalizão de governo na coligação eleitoral em torno da candidatura Dilma Rousseff, com um vice do PMDB, ao qual o PT será forçado a ceder a primazia nas disputas para o governo de diversos Estados. O apoio a Sarney é peça-chave nessa formidável construção de poder que Lula rege pessoalmente porque considera a sua prioridade número um. No primeiro mandato, Lula não raro delegou as articulações políticas do governo a Dirceu e aos ministros Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, e Antonio Palocci, da Fazenda. Neste segundo período, escaldado pelos tropeços no escândalo do mensalão, e até por falta de alternativas, tornou-se ele próprio o seu principal operador político.

Tem demonstrado nisso uma competência comensurável pela falta de escrúpulos em fazer a sua parte nos arreglos com as figuras que aproximam o noticiário político das páginas policiais da imprensa. De há muito Lula aposentou os últimos vestígios de desconforto com a insalubridade moral da política brasileira. Até agora, com um sucesso que é a garantia de que o amoralismo reinará na cena política brasileira enquanto ele for o regente do espetáculo.

O Senado troca o voto pelo suicídio

Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Só uma pesquisa de historiador tinhoso talvez descobrisse na crônica parlamentar desde a queda da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas um exemplo de mais rombuda incompetência do que aquela que o Senado, nos estertores da degradação, acaba de surpreender a enojada sociedade com a sessão desta semana, em que recusou a oportunidade de uma trégua da crise em que se afunda para optar pelo suicídio.

As evidências dispensam os argumentos. Depois de três meses da paralisação do Congresso, com o bate-boca sobre a renúncia ou o licenciamento do presidente do Senado, senador José Sarney (PMDB-AP), a sua longa defesa, em discurso sem aparte, e com o plenário lotado, parecia o sinal de uma pausa para a articulação das muitas opções clássicas: da renúncia ou licença negociada do presidente à decisão pelo voto do plenário.

Mas o equilíbrio, com a diferença de um ou dois votos, exasperou os nervos tensos para o repeteco da baixaria na sessão seguinte. No desatino dos exaltados dos dois lados, inseguros do confronto pelo voto, o acerto de contas deu a sensação de que o Senado partira para o tudo ou nada do suicídio. E senadores trocaram palavrões, ameaças de desforço pessoal, do espero V. Excia lá fora.

O arquivamento sumário das quatro primeiras representações contra o presidente do Senado, José Sarney, foi o estopim ou o pretexto para o charivari. Na cadeira de presidente, o senador José Sarney assistiu ao show que encabularia os frequentadores de um frege de beira de estrada. O clímax da tensão foi protagonizado pelos senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL) que quase chegaram ao desforço físico. A barafunda foi provocada pela leitura, pelo senador Renan Calheiros, da representação do PMDB contra o senador Jereissati encaminhada ao Conselho de Ética. Na leitura, o líder do PMDB excedeu-se nas ironias e provocações ao senador Jereissati.

Daí em diante a troca de desaforos baixou ao calão. Jereissati pegou pesado: “Senador Renan, não aponte este dedo sujo para cima de mim”. E o revide: “O dedo sujo é de Vossa Excelência, são os dedos dos jatinhos que o Senado pagou”, numa alusão à denúncia de que Tasso usou parte da verba indenizatória para fretar jatinhos.

Nos xingamentos seguintes, além dos menos chocantes, como coronel de matéria fecal e cangaceiro de 3ª categoria, só a intervenção de senadores evitou a briga de dois senhores, avôs de netos crescidos. Necessito justificar-me. Espichei estas mal digitadas linhas para chegar à minha insistente análise sobre a decadência do Congresso desde a mudança da capital do Rio para Brasília inacabada, um canteiro de obras no cerrado.

Nada do que Brasília prometia no entusiasmo do presidente Juscelino Kubitschek, de olho no sonho que virou pesadelo da volta no JK-65, resistiu à improvisação e ao afobamento. A capital para uma população de no máximo 600 mil habitantes explodiu em mais de 2,5 milhões. E a corrupção, pela fresta das mordomias, das vantagens, dos privilégios para os marajás dos três poderes, começou com a farra das dobradinhas de salários para os servidores e todo o tipo de facilidades para ministros, desembargadores e magistrados, da gastança sem limites do Executivo com o maior Ministério de todos os tempos e agora, na pré-campanha eleitoral da candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, e os projetos eleitorais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e mais o Minha Casa Minha Vida, com a promessa da construção de 1 milhão de residências populares.

E não vai parar por aí. Como sobra dinheiro no milagre da Viúva, dona do cofre mágico, daqui até o dia da eleição, em 3 de outubro de 2010, vamos assistir a novas mágicas, conforme a necessidade indicada pelas pesquisas. Enquadrar o Executivo no latifúndio do orçamento, com o estrilo dos marajás, é um desafio à autoridade do presidente. E com a toga o acerto passa pelo entendimento entre poderes.

Mais grave e quase impossível é dobrar o Legislativo. Vai depender de que os senadores e deputados se conscientizem de que só o corte de todas as mordomias, vantagens e privilégios, passagens e verba indenizatória, para o funcionamento regular do Congresso em Brasília, pode salvar o mais democrático dos poderes.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Senador engaveta denúncias contra Sarney sem discussão

Maria Lima, Brasília
DEU EM O GLOBO

‘Não temo a opinião pública. Adoro decidir sozinho’, diz presidente do Conselho de Ética

O presidente do Conselho de Ética do Senado, Paulo Duque (PMDB-RJ), Arquivou os últimos sete pedidos de investigação sobre o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). Os casos engavetados apontavam suspeitas de envolvimento de Sarney em nepotismo, tráfico de influência, desvio de recursos e fraudes fiscal. Duque decidiu pelo arquivamento sozinho, sem convocar uma sessão do Conselho para deliberar sobre o caso. “Não temo a opinião pública. Adoro decidir sozinho”, disse Duque, que ontem nem foi ao Senado. DEM, PSOL e PSDB vão recorrer ao Conselho para tentar reabrir as investigações. Na sociedade civil, a reação ao baixo nível no Senado é de indignação.

Tudo para a gaveta, sem debate

Presidente do Conselho de Ética, Duque manda arquivar todas as denúncias contra Sarney

Sem convocar uma sessão do Conselho de Ética para o debate e nem mesmo aparecer em público, o presidente do colegiado, Paulo Duque (PMDB-RJ), mandou seu chefe de gabinete, Zaqueu Teles, protocolar ontem na Secretaria Geral da Mesa o despacho determinando que sejam engavetados os últimos sete pedidos de investigação sobre nepotismo, mentira, tráfico de influência, desvio de recursos e fraude fiscal supostamente praticados pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Falta agora Duque decidir, até quinta-feira, se arquiva ou aceita a representação do PMDB contra o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM).

Anteontem à noite, Duque disse, em relação a este último caso, que não teria como tomar outra decisão, para não ser incoerente. E afirmou não temer a reação da opinião pública: — Não temo. Já até marquei com minha família onde vou almoçar no Dia dos Pais. Não temo nada.

E negou estar a serviço da tropa de choque de Sarney: — Eu decidi tudo sozinho. Adoro decidir sozinho.

Ontem, porém, o senador não apareceu para entregar seus despachos.

— O senador Paulo Duque amanheceu hoje meio rouco — disse Zaqueu, apesar de seu chefe ser permanentemente rouco.

O alívio de Sarney pode ser passageiro.

Na segunda-feira, DEM, PSOL e PSDB vão protocolar recursos para tentar derrubar a decisão de Duque sobre cinco representações e seis denúncias contra o presidente da Casa.

Para a oposição, se o PT cumprir a promessa de não aceitar o arquivamento sumário, serão alcançados os oito votos necessários para a abertura do processo por quebra de decoro

Demóstenes: ‘O caso ainda não morreu

Caso contrário, a estratégia é levar a batalha ao plenário do Senado, onde as chances da oposição são maiores.

Ontem, Eduardo Suplicy (PT-SP) anunciou que assinará o manifesto pedindo o afastamento de Sarney até o fim das investigações. Se o fizer, serão 40 os senadores pedindo o afastamento de Sarney. São três os integrantes do PT no Conselho: Ideli Salvatti (SC), Delcídio Amaral (MS) e João Pedro (AM), todos afinados com o Planalto.

— Vamos para a luta! Agora nós vamos ver se o PT vai cumprir a palavra de votar conosco contra o arquivamento sumário. O caso ainda não morreu — disse Demóstenes Torres (DEM-GO), que redigirá os recursos.

Em nota ontem, o líder do PT e do bloco governista, Aloizio Mercadante (SP), reafirmou a posição da bancada pela licença de Sarney, e criticou o manifesto da oposição lido na véspera no plenário pedindo o afastamento. Mas não se refere ao recurso. A nota diz que Mercadante lamenta que setores da oposição utilizem a crise do Senado para atacar o presidente Lula: — Nós não nos prestamos a esse papel. A oposição poderia reconhecer publicamente que hoje reforça a posição que o PT sempre manteve (a de pedir licença).

Para arquivar a representação do PSDB que pede apuração do envolvimento de Sarney na nomeação do namorado da neta Maria Beatriz, Henrique Dias Bernardes, Duque repetiu argumento usado pelo presidente do Senado: “O pedido apresenta uma nulidade, uma vez que se baseia, integralmente, em gravações de conversas telefônicas que constam de processo que tramita em segredo de justiça e cuja divulgação é absolutamente ilícita”.

Duque diz que, no caso dos atos secretos, “praticamente todos os demais senadores foram objeto de atos administrativos não publicados” — mesma linha de defesa de Sarney

‘Recurso é certo’, diz Agripino Maia

Já no caso da denúncia apresentada por Arthur Virgílio, juntamente com Cristovam Buarque (PDT-DF), sobre fraude fiscal na venda de terras do Sítio São José do Pericumã, o presidente do Conselho usa um argumento curioso para arquivar: fraude fiscal não é matéria de competência do Conselho de Ética do Senado. Na representação que questiona a não declaração à Justiça Eleitoral da mansão que Sarney mora em Brasília, Duque diz que não foram anexados documentos e que o Conselho não pode servir de instrumento de política partidária.

— Esse argumento de luta partidária não tem nada a ver. Agora, não vejo erro no arquivamento sumário se o presidente Paulo Duque encontrou fundamento para não receber o despacho inicial. Se encontrou, está cumprindo o regimento. Se são 11 ou 12 arquivamentos, não vem ao caso. Fundamental é o fundamento — tentou justificar Almeida Lima (PMDB-SE), um dos integrantes da tropa de choque de Sarney no Conselho.

— Sarney não precisa comemorar.

O recurso é tão certo como dois e dois são quatro — disse o líder do DEM, José Agripino Maia (RN) — O Conselho foi constituído para blindar Sarney. Mas, se o Conselho não investigar, é uma pena, porque nem que quiséssemos poderíamos ajudá-lo a ter legitimidade para continuar presidindo o Senado — avaliou Renato Casagrande (PSB-ES).

Simon responsabiliza Lula

Cristiane Jungblut e Isabel Braga
DEU EM O GLOBO


Senador ironiza aliança do presidente com Sarney, Collor e Renan

BRASÍLIA. Um dia depois da guerra verbal em plenário, senadores foram ontem à tribuna apelar para o fim da batalha. Alguns insistiram para que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), deixe o cargo. Pedro Simon (PMDB-RS) foi além: responsabilizou o presidente Lula pela crise que vive a Casa, com a eleição de Sarney e sua permanência no cargo.

— A vitória foi de Lula. Foi o presidente da República, de maneira grosseira, de forma que nenhum ditador ou general de plantão fez com o Congresso, que, humilhando seu próprio partido, o líder da sua bancada, tomou uma posição acima do bem e do mal. É muito triste. Ele ganhou. Ele é o herói — discursou Simon.

O senador ironizou ainda a proximidade de Lula com Sarney, Renan Calheiros (PMDB-AL) e Fernando Collor (PTB-AL), lembrando que são eles que frequentam agora o Planalto: — Na campanha do ano que vem, a foto que a oposição usará será esta: Lula, Sarney, Collor e Renan.

Para o gaúcho, em vez de se aconselhar com Sarney, Renan e Collor, Lula deveria ouvir pessoas como o vicepresidente José Alencar, Frei Betto e outros nomes do velho PT: — Ah, meu Deus, se o dr. Lula ouvisse mais o José Alencar! Ah, se os grandes amigos do Lula fossem o José Alencar, o Frei Betto, aqueles nomes do velho e querido PT, que lutaram para transformar o PT em uma organização de ideias e de princípios! Mas os heróis do Lula são o dr. Sarney, o dr. Renan, o dr. Collor.

Simon disse ainda não ter compreendido a presença de Sarney na sessão de anteontem, para prestigiar o que classificou de “espetáculo surreal”.

Wellington Salgado (PMDB-MG) tentou justificar a baixaria entre Renan e o tucano Tasso Jereissati (CE): — Todo senador é um homem, é humano. Ninguém chega ao Senado sendo frouxo e sem, em determinado momento, mostrar que tem o sangue quente. Foi o que aconteceu ontem.

Heráclito Fortes (DEM-PI) também pediu calma: — Quero que os companheiros aproveitem o fim de semana para uma meditação e voltem, na segunda-feira, imbuídos de que esta é uma Casa de debates e que esses debates têm de ser acalorados e acirrados, mas que não podem, de maneira alguma, descer a níveis do que vimos.

Para Lula, Renan acertou

Vera Rosa e Tânia Monteiro
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Presidente endossa Renan e culpa oposição pelo tumulto

Discussão foi "lamentável", afirma ele, mas minoria tenta agir como se fosse maioria, mesmo sem ter votos

Preocupado com o agravamento da crise no Senado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou com assessores que o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), resumiu muito bem a percepção do governo sobre as ações de tucanos e democratas no Congresso ao afirmar que a oposição era "minoria com complexo de maioria". A frase de Renan foi dita durante bate-boca no plenário com Tasso Jereissatti (CE), na quinta-feira.

Embora considere "lamentável" a troca de insultos entre os senadores, Lula avalia que os adversários adotam a "tática da muvuca" e agem como se tivessem mais votos. Renan é o chefe da tropa de choque montada para socorrer o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e também já foi apoiado por Lula, em 2007, quando acabou renunciando à presidência do Senado para escapar da cassação.

O governo quer a permanência de Sarney, mas Lula tem seguido à risca a estratégia de não mais mexer nesse vespeiro em público, para evitar desgaste.

Faz exatamente oito dias que o presidente não fala sobre a crise. Na tentativa de evitar que o terremoto político contamine o governo, ministros repetem como um mantra que "a crise é do Senado". Na prática, porém, o Planalto está apreensivo com os efeitos colaterais da febre na Casa presidida por Sarney.

"É triste o que está acontecendo no Senado. A situação se complicou de novo e a temperatura está muito alta", afirmou o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro.

Lula insiste em que é preciso ajudar Sarney. Depois dos xingamentos de quinta-feira entre Renan e Tasso, no entanto, senadores do PT discutem a possibilidade de ajudar a oposição no Conselho de Ética.

"Não é um bom caminho para o Senado arquivar todas as representações de forma sumária", disse o senador Aloízio Mercadante (SP), líder do PT. "Vamos analisar caso a caso."

Convencido de que o segundo round da guerra está nas mãos do PT, Lula pretende conversar com líderes e dirigentes do partido na próxima semana. No diagnóstico do presidente, o apoio do PMDB é essencial para garantir a governabilidade. Além disso, Lula está de olho na eleição de 2010 e quer o PMDB unido em torno da candidatura ao Planalto da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT).

Na contramão do desejo do presidente, o PMDB e o PT vivem às turras em vários Estados, dificultando a montagem de um palanque único para Dilma. Na Bahia, por exemplo, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), rompeu com o governador Jaques Wagner (PT), que é candidato à reeleição.

Marina no PV pode levar briga ao 2º turno

Clarissa Oliveira e Julia Duailibi
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


PSDB e PT não veem ameaça, mas ex-ministra tiraria votos dos dois

A possibilidade de a senadora Marina Silva (PT-AC) entrar na disputa presidencial do ano que vem está longe de ser vista como uma ameaça pelos comandos do PT e do PSDB, que planejam polarizar a corrida ao Palácio do Planalto, conferindo a ela um caráter "plebiscitário". Tucanos e petistas, no entanto, avaliam que, caso a ex-ministra do Meio Ambiente aceite o convite do PV, a corrida de 2010 passar a ter mais chances de ser resolvida no segundo turno.

Líderes do PT e do PSDB consideram que a senadora deve se beneficiar da imagem de "vítima" que teria junto à opinião pública, alcançando cerca de 5% dos votos. Roubaria ainda votos de um eleitor mais ideologizado,que demonstra um certo cansaço da polarização PT-PSDB. Marina também receberia votos de eleitores órfãos da ex-senadora Heloisa Helena (PSOL), que concorreu ao Planalto em 2006 e que pode não disputar a Presidência em 2010. Manteria, assim, uma candidatura satélite e independente, como a da ex-senadora, que alcançou 6,8% dos votos em 2006.

Nos dois lados, entretanto, a notícia do convite foi suficiente para provocar alguma movimentação. No PT, que se prepara para lançar a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, setores da direção propuseram que seja imediatamente encomendada uma pesquisa, para avaliar o possível impacto na performance de Dilma. Mas prevaleceu a tese de que o melhor é aguardar até que a senadora tome uma decisão definitiva.

As divergências com Dilma por causa de licenças ambientais para obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tiveram um papel fundamental na decisão de Marina de pedir demissão do Ministério do Meio Ambiente, em maio do ano passado. Daí a avaliação de que ela poderá partir para o ataque a sua antiga colega na Esplanada dos Ministérios. Marina não nega as divergências, mas diz não alimentar rancores."Graças a Deus, não faço nada na minha vida movida por ressentimento ou mágoas", diz. "Não gosto nunca de me colocar em lugar de vítima ou de colocar os outros em lugar de algoz." É justamente a imagem de vítima que preocupa tucanos e petistas, dada a personalidade forte de seus candidatos - Dilma, no PT, e os governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas, Aécio Neves, no PSDB.

DECISÃO

Marina, por enquanto, se diz "obviamente incomodada" com especulações sobre o impacto de uma eventual candidatura sua na votação de outros concorrentes. "Ficam dizendo, diante de qualquer movimentação, que você tira voto de cicrano ou dá voto para beltrano. É uma visão patrimonialista", reage.

O PV, entretanto, já faz as contas. A sigla avalia que poderá ampliar sua bancada na Câmara para algo em torno de 25 cadeiras, bem acima dos atuais 14 deputados.

Marina ainda não decidiu seu futuro político, mas até em seu círculo mais próximo a avaliação é a de que ela está fortemente inclinada deixar o PT. A senadora vai dedicar este fim de semana a uma maratona de reuniões com seus aliados no Acre que, afirma, a ajudarão a se decidir.

Nos últimos dias, Marina confidenciou a um colega que não teria se reunido com o PV se não estivesse muito tentada a aceitar o convite. Afinal, disse ela, há anos o partido lhe oferece a vaga de candidata a presidente. Por outro lado, ela também se disse comovida pelos telefonemas e até cartas que recebeu de petistas.

Aécio: no PV, Marina pode se unir ao PSDB num 2 º turno

Maiá Menezes
DEU EM O GLOBO

Tucanos condenam aparelhamento do Estado no governo Lula

Um clima ameno e abraços efusivos marcaram ontem o encontro dos governadores tucanos de São Paulo, José Serra, e de Minas, Aécio Neves, no 16oCongresso Nacional do PPS, no Centro do Rio. Com uma divergência: empolgado com a provável ida da senadora Marina Silva (PT-AC) para o PV — aliado do PSDB em Minas e em São Paulo —, Aécio afirmou que Marina, caso se candidate à Presidência em 2010, poderá se integrar ao projeto tucano, num eventual segundo turno. Serra, lacônico, não quis comentar a movimentação partidária da ex-ministra do Meio Ambiente.

— Se ela for candidata, e é legítimo que ela seja, num segundo momento haverá muita afinidade com uma candidatura do PSDB. Que possamos caminhar juntos mais adiante, se não pudermos fazer isso no começo.

Há uma afinidade grande entre o PSDB e o PV no Brasil inteiro. Se o PV optar por uma candidatura num primeiro turno, deve ser respeitado, mas sem que se feche as portas para entendimento mais adiante — animou-se Aécio, bem-humorado, ao chegar, acompanhado do ex-presidente Itamar Franco (PPS), ao hotel onde ocorria o encontro.

— Estou em casa — disse o governador, em traje informal, que contrastava com o terno e a gravata do colega paulista.

Serra se disse desconfortável para tratar da possível troca de partido da senadora, mas fez elogios ao PV e ao deputado Fernando Gabeira (RJ), também presente ao encontro.

— Temos uma boa aliança em São Paulo. Tivemos uma eleição no ano passado. Pessoalmente tenho muitos amigos no PPS. Estamos afinados a respeito de muitos aspectos do nosso país.

Considero o Gabeira um dos grandes quadros da política brasileira — disse Serra, para encerrar o assunto quando perguntado sobre Marina Silva: — Não vou ficar opinando sobre mudança de partido, não me parece correto da minha parte.

“Temos que estatizar o Estado”, afirma Serra Em comum entre os dois, a troca de elogios e as críticas ao governo Lula. Serra e Aécio atacaram em discursos o aparelhamento do Estado na administração petista.

— O Estado brasileiro está sendo privatizado. É uma privatização espúria e nefasta. Não tem muita diferença do patrimonialismo antigo, de se apropriar do Estado para corrupção de meia dúzia, ou de se apropriar do Estado para fortalecer e construir o partido. Dá no mesmo, do ponto de vista do interesse nacional. Temos que estatizar o Estado — disse Serra.

— Vivemos um momento de desqualificação moral da vida publica, brasileira, um aparelhamento do Estado e uma ineficiência a que poucas vezes assistimos na vida federal, pelo menos na era republicana — concordou Aécio.

Para Serra, Aécio tem “todas as credenciais para se candidatar a presidente”.

— Agradeço e retribuo. O governador é um dos homens mais preparados do país. Não tenho dúvidas de que Serra e eu estaremos juntos nesse projeto — devolveu Aécio, que voltou a defender uma chapa com outros partidos em 2010 e prévias para estabelecer o consenso em torno da candidatura. — A partir de dezembro, o PSDB, seja através de prévias ou consultas informais, escolherá o nome.

PPS evita pressionar tucanos

Isabella Souto
DEU NO ESTADO DE MINAS


Partido realiza congresso nacional em que deve reafirmar apoio aos tucanos na campanha de 2010 e recebe os governadores do PSDB Aécio Neves e José Serra, que trocaram elogios

O Partido Popular Socialista (PPS) deve reafirmar neste fim de semana a tese de aliança com o PSDB nas eleições presidenciais do ano que vem. Ao contrário dos Democratas – que já cobraram agilidade dos tucanos em definir quem será o candidato à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) –, os socialistas não têm pressa e aguardam uma decisão do PSDB, mas sem descartar também a tese da candidatura própria.

Até o momento, o PSDB tem como pré-candidatos a presidente da República os governadores Aécio Neves e José Serra (São Paulo). Ambos foram convidados para participar da abertura do 16º Congresso Nacional do PPS, iniciado ontem e que ocorrerá até domingo no Rio de Janeiro.

Os discursos dos governadores Aécio Neves e José Serra foram marcados por uma troca de amabilidades. Serra referiu-se a Aécio em clima amistoso. Disse que o governador mineiro “é um nome forte e tem todas as credenciais para se candidatar e ser presidente da República”. Sorridente, Serra afirmou que entre ele e Aécio “não tem essa disputa que se imagina”.

O governador mineiro também fez elogios a Serra. “Agradeço e retribuo (as palavras de Serra). O governador José Serra é um dos mais preparados homens públicos do país. Feliz do partido que tem opções. Não duvidem de que estaremos juntos num projeto nacional. Mais importante do que projeto pessoal é dizer por que a população deve deixar de votar no atual governo e escolher uma outra proposta”, afirmou Aécio.

Sobre a possibilidade de uma candidatura da senadora Marina Silva (PT-AC) pelo PV, Aécio disse que é saudável e avaliou que ela poderá ser uma futura aliada no caso de segundo turno.

Para o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, “há uma ampla maioria” no partido que diz que as alianças devem se dar em torno da candidatura de Aécio ou Serra. “São candidatos que merecem nosso respeito.”

Em caso de candidatura própria, ou mesmo uma dobradinha com os tucanos, ocupando o lugar de vice, um dos nomes cotados pelos socialistas é o do ex-governador Itamar Franco, que se filiou à legenda no mês passado e deverá ser eleito para integrar a Executiva nacional. O governador Aécio Neves fez questão de participar da solenidade de filiação de Itamar, ocorrida na sede da Assembleia Legislativa, em Belo Horizonte.

Teses Durante o congresso serão discutidas ainda as teses propostas e bandeiras a serem defendidas nos próximos anos. No último dia será feita uma declaração política ao país, em que será reafirmada a postura de oposição ao governo federal e discutida a política de alianças para 2010. “O documento terá relação com a visão que temos do governo federal, ou seja, que somos oposição.” (Com agências)

Aécio e Serra trocam afagos

Luciana Nunes Leal
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Tucanos mostram união em congresso do PPS, no Rio

Uma troca de amabilidades marcou ontem o encontro dos governadores tucanos de Minas, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, no Rio. Os dois compareceram à abertura do 16° Congresso Nacional do PPS, aliado dos tucanos.

Serra, o primeiro a chegar, referiu-se a Aécio em tom amistoso. Disse que o governador mineiro, com quem disputa a candidatura do PSDB à Presidência "é um nome forte e tem todas as credenciais para se candidatar e ser presidente da República".

Sorridente, Serra afirmou que entre ele e Aécio "não tem essa disputa que se imagina". O governador de São Paulo evitou falar em uma candidatura exclusiva do PSDB, com Aécio candidato a vice na sua chapa. "Não faz sentido, neste momento, falar em candidatura única, em uma dobrada (do PSDB)", afirmou.

RETRIBUIÇÃO

O governador mineiro também fez elogios a Serra. "Agradeço e retribuo. O governador José Serra é um dos mais preparados homens públicos do País. Feliz do partido que tem opções. Não duvidem de que estaremos juntos num projeto nacional. Mais importante do que projeto pessoal é dizer por que a população deve deixar de votar no atual governo e escolher uma outra proposta", afirmou.

Sobre a possibilidade de uma candidatura da senadora Marina Silva (PT-AC) pelo PV, Aécio disse que é saudável e avaliou que ela poderá ser uma futura aliada no caso de segundo turno.

O tucano mineiro disse que a escolha do candidato do PSDB deve ser feita em dezembro, "através de prévias ou de uma consulta informal" no partido.

Aécio disse entender os que temem divisões com a consulta interna, mas afirmou integrar o grupo que vê nas prévias "uma oportunidade de enraizar e aprofundar propostas".

O governador de Minas chegou ao hotel onde ocorria o congresso do PPS acompanhado do ex-presidente Itamar Franco, que deu um abraço afetuoso em Serra. Eles foram recebidos pelo presidente da legenda, o ex-deputado Roberto Freire.

Serra e Aécio fazem elogios a PV e à possível candidatura de Marina

Raphael Gomide
Da Sucursal do Rio
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Presidenciáveis tucanos dizem que PT faz "privatização nefasta" no Estado

Após críticas fortes, mas indiretas contra o que chamaram de "privatização nefasta do Estado" pelo PT, os pré-candidatos tucanos à Presidência, os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), elogiaram e deram tratamento de futuro aliado a uma eventual candidatura da senadora petista Marina Silva pelo PV.

O paulista, sem citar diretamente o PT, fez duras críticas ao partido. "O Estado brasileiro está sendo privatizado. É uma privatização espúria, nefasta. Não tem muita diferença do patrimonialismo antigo, de se apropriar do Estado para corrupção de meia dúzia ou de se apropriar do Estado para se fortalecer e construir um partido. Precisamos estatizar o Estado brasileiro que hoje está privatizado por um partido."

Aécio acompanhou o colega: "Hoje há um aparelhamento do Estado aliado à ineficiência como poucas vezes vimos".

Foram aplaudidos pelos mais de 400 presentes na abertura do 16º Congresso Nacional do PPS, no hotel Guanabara (RJ), mas se negaram a comentar a situação do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Para Aécio, a entrada de Marina Silva na corrida presidencial qualifica o debate. "Quem tem projeto político não pode temer. Em um segundo momento, vejo afinidade entre ela e o PSDB. Hoje PV e PSDB já estão juntos no Brasil, em Minas e em cidades expressivas, com um projeto comum."

Serra não quis comentar. "Não opino sobre mudança de partido", disse, e lembrou que o PV integra o governo paulista e compõe a base na Assembleia. "O PV faz parte da aliança. Tive [na prefeitura] um grande secretário [do Verde e Meio Ambiente], Eduardo Jorge. É um partido que sempre teve tradição de proximidade comigo."

Elis Regina - O Rancho da Goiabada


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