terça-feira, 8 de junho de 2010

Dragão tatuado no braço:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A tensão que assola o ambiente na campanha presidencial da oposição não se deve à procura de um candidato, ou candidata, a vice de José Serra. Isso é, no máximo, um problema.

Bem como é um transtorno a perda da dianteira folgada transformada em empate nas pesquisas com a adversária Dilma Rousseff. Tudo isso é do jogo. Preocupa, mas não é suficiente para abalar os nervos de gente habitualmente fleumática, acostumada a disputar eleições.

O que desnorteia o PSDB são os movimentos e os objetivos do ex-governador Aécio Neves. O que anda acontecendo no meio dos tucanos é uma crise de confiança.

Não obstante os desmentidos, disfarces e tentativas de identificar "mensageiros ocultos" por trás dessa notícia que virão a seguir, não há outra maneira de definir a situação.

E como se obtém esse tipo de certeza? Ao menos aqui nessa seara não é atendendo à solicitação de alguém interessado em envolver outrem (no caso, Aécio Neves) em intrigas partidárias ou reproduzindo "informação" de um desafeto que relata sua versão dos fatos com intuito de criar constrangimento ao personagem que procura atingir.

Esse truque é bastante comum. Está em uso agora no mais novo caso de dossiê a provocar engalfinhos entre PT e PSDB.

Mas retomemos. A certeza de que Aécio Neves é alvo de aguda desconfiança do núcleo de coordenação de campanha resulta da soma de conversas, reações, avaliações, fatos presentes e passados. Não de quaisquer conversas.

A base é que sejam fundamentadas em gente com acesso às decisões e que não tenham por Aécio um mínimo resquício de antipatia. Do contrário a premissa será falsa e a conclusão estará errada.

Onde hoje o mineiro provoca o mais forte desapontamento é exatamente onde todo tempo residiu a ideia de que todo e qualquer movimento dele deveria ser respeitado e reconhecido pelo conjunto do partido como forma legítima de se afirmar politicamente no cenário nacional. Sob a seguinte lógica: o que é bom para Aécio acabará sendo bom para o PSDB.

Aí se incluem cordialidades político-eleitorais com Lula em 2006 ao tempo do voto "lulécio"; visitas no ano de 2007 ao PMDB para fotos enquanto grassavam versões (sempre desmentidas e depois retomadas) sobre possíveis filiações ao partido; aliança em 2008 com o petista Fernando Pimentel na eleição da Prefeitura de Belo Horizonte e fazer um "laboratório" para lançar Pimentel ao governo de Minas em 2010 com o apoio de Aécio; demonstrações de apreço político a Ciro Gomes, inimigo assumido daquele que viria a representar o partido na eleição presidencial.

A partir do fim da eleição municipal, iniciou-se o jogo da candidatura presidencial paralelamente ao da candidatura a vice. Aécio defendia as prévias internas, mas não fazia movimentos efetivos para que elas concretizassem.

Em setembro de 2009 chegou a combinar com a direção do PSDB que tiraria uma licença do governo para viajar pelo País a fim de "trabalhar" os diretórios, mas do anúncio não evoluiu à prática.

Em dezembro desistiu da candidatura, assegurou que não seria vice. Por três vezes negou peremptoriamente, mas sempre por iniciativa de alguém de seu grupo o assunto renasceu inúmeras vezes.

Com isso, o processo de escolha atrasou, se desgastou e hoje a quantidade de nomes postos e retirados da cena dá a impressão de que todos correm da missão como de uma doença contagiosa.

Muito bem. Se o núcleo de decisão do PSDB desconfia de que foi vítima das artimanhas de Aécio, por que não encerrou o assunto antes e tocou o processo sem ele?

Medo do efeito de um "racha" e dependência real de Minas.

Moedas, porém, têm duas faces. Dois parceiros de Aécio foram vítimas de cordas excessivamente esticadas em longos, muitas vezes incompreensíveis, nem sempre no interesse coletivo dos respectivos partidos, lances de vaivém: Fernando Pimentel e Ciro Gomes. Ambos abatidos por Lula.

Se o presidente resolver eleger Hélio Costa ao governo de Minas será um poderoso adversário ao projeto prioritário de Aécio de manter o controle político de seu Estado.

A outra face da velha moeda:: Wilson Figueiredo

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Ficou para trás aquele Lula sem gravata, a quem se atribuía a responsabilidade pelo estado de desencontros, provocações, conivências, suspeitas e informalidades republicanas, nos dois mandatos, sob risonha condescendência em relação ao que separa o país que temos daquele outro que queremos (e ninguém sabe exatamente qual seja). Bateu em porta errada quem o culpou pela proliferação risonha e franca dos costumes comprometedores de uma República que só existia na nossa nostalgia do futuro. A verdade é que Luiz Inácio Lula da Silva é o produto eleitoral da mal contada história que se acumulou à porta da República e ainda não foi coletada, filtrada e passada adiante. Fica mais fácil entender o que se passa e preparar-se para o que vem por aí quando se verifica que não foi propriamente Lula quem deixou o Brasil desse jeito, e sim o Brasil que o elegeu pelo voto direto.

As pesquisas de opinião puseram as coisas no lugar provisório para quem lê também nas entrelinhas. Lula bate com a cabeça no teto das pesquisas. Não estava na cogitação presidencial reformar aquele país que não foi obra dele, pois recusou a empreitada – quando estava com a faca e o queijo na mão – ao se apresentar a oportunidade. Reforma política só na hipótese de tremor institucional que rache o próprio governo. Bastava-lhe o Brasil como se apresentava. Não se sentia eleito para mais do que isso e, antes de sair, vem convencendo a opinião pública, e se convencendo, de que sua parte em dois mandatos era mesmo revelar o Brasil aos brasileiros. A outra face da moeda, que começa a circular depois de sair, terá a sua efígie. O mesmíssimo Lula – curado da expectativa que o precedeu, de barriga cheia com dois mandatos (resistiu ao terceiro que ele mesmo recusou diante do perigo à vista), com 80 e tantos por cento de admiração popular pela maneira como faz e não acontece – não se livrará da responsabilidade do que vier a acontecer, daqui por diante, como consequência, tanto a previsível como a outra.

Um presidente da República que chega a ser multado cinco vezes pela Justiça Eleitoral, antes de começar a campanha, pode estar fazendo ouvidos de mercador mas não quer fazer história. Desse julgamento que se esboça, o presidente Lula não se livrará assim que puser o pé fora do mandato, que é quando a verdade sobre os governantes sai das gavetas e ganha potencial incalculável. No modo petista de entender a política, a campanha presidencial tem uma zona de sombra sob a qual tudo é permitido, principalmente o eufemismo burocrático denominado dossiê. Nada de bom se pode esperar de um princípio que traz em si o fim segundo o qual, quanto pior, melhor. Porque, então, quanto melhor, pior. Dependendo de quem é um e quem é o outro.

PTrificado :: Melchiades Filho

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Em público, Lula tem reiterado que é hora de "despaulistizar" a política no Brasil. Mas é justamente a seção paulista do PT que saiu fortalecida da pré-campanha.

A crise do dossiê anti-Serra serviu para desidratar a última liderança capaz de desafiar o velho -e contestado- status quo do partido.

Fernando Pimentel, melhor amigo de Dilma Rousseff e apontado, com justiça ou não, como o responsável pelos novos aloprados, teve ontem de desistir da candidatura ao governo de Minas Gerais.

Caso saísse vencedor no segundo maior colégio eleitoral do país, o ex-prefeito de Belo Horizonte seria um contrapeso a Antonio Palocci, José Dirceu, Marta Suplicy, Rui Falcão e outros petistas de São Paulo que se aproximaram de Dilma e hoje até lhe indicam o que vestir.

Nos demais Estados, não pintou outro nome. O PT não cresceu como o previsto na era Lula. No Nordeste, por exemplo, foi o aliado PSB que mais posições conquistou.

Em contrapartida, desde os tempos áureos do Campo Majoritário não se via o PT paulista tão unido.

As várias forças do partido no Estado voltaram a se agrupar em 2009, por uma questão de sobrevivência. Havia ainda a ressaca dos vários escândalos (mensalão, aloprados 1, quebra do sigilo do caseiro). E havia o desconforto com o projeto de eleger ao Planalto uma ministra desconhecida e inexperiente. Não fazia sentido desperdiçar energia com rivalidades locais.

Agora, ironicamente, os paulistas se abraçam por causa das boas chances de vitória à Presidência.

Não cuidam só de assegurar a atenção da candidata e a influência sobre os rumos da candidatura.
Empenham-se, também, em tomar o controle da máquina da campanha, sobretudo a publicidade e a comunicação, e fincar âncora nessas áreas num governo Dilma.

Dividir esse mercado futuro com Pimentel não cabia no roteiro.

No submundo da arapongagem :: Raymundo Costa

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Tem supostos demais e dossiê de menos no "suposto dossiê" encomendado pela campanha de Dilma Rousseff. O que era uma história de espionagem dentro da campanha do PT transformou-se, de uma hora para outra, numa investigação sobre o papel de José Serra nas privatizações, no governo FHC. No submundo da arapongagem brasiliense, um entulho da ditadura, nada é sólido e tudo se desmancha no ar: o que começou no regaço de Dilma, numa reviravolta da trama acabou no colo de Serra.

A surpresa é o candidato do PSDB esquentar um assunto que parecia de vida curta, uma lambança num comitê do PT que não foi adiante. Gato escaldado tem medo de água fria. É possível que Serra, o alvo real dos aloprados de 2006 (pelo menos é assim que ele se considera), talvez tenha resolvido agir preventivamente. Talvez. É certo que um livro sobre as privatizações do PSDB deve ser lançado após a Copa do Mundo. Mas também não há como responsabilizar Dilma por um dossiê que só parece existir no plano do "suposto".

O que há, e não é de hoje, é uma disputa de poder no comitê da campanha do PT que já havia sido contornada por Dilma, no jeito Dilma de ser, quando a história da arapongagem se tornou pública. Dizia que o PT espionava o PT, além dos adversários. Tudo leva a crer que se trata de uma peça de ficção a denúncia segundo a qual havia escuta nos telefones dos coordenadores da campanha com fins preventivos. Mas é evidente que a campanha de Dilma, como outras campanhas, recolhe informações sobre os adversários, sobretudo, para usar no programa de televisão, o que não é ilícito - até agora que sugere que foram adotados métodos ilegais para a obtenção de informações.

"Amigo de 40 anos" de Dilma Rousseff, o fato é que o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel nunca se impôs como o comandante de fato da campanha petista. Pimentel sempre foi uma espécie de "outsider" na nomenclatura petista. E desde que passou a despachar em Brasília, o ex-prefeito sempre teve os olhos mais voltados para a política mineira, dividiu atenção e energia e ficou sob o assédio do grupo do PT paulista no comitê. Formalmente, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, é o coordenador de uma campanha que aos poucos ficou à feição do ex-ministro Antonio Palocci e de outro "amigo de 40 anos" da candidata Dilma, o deputado estadual Rui Falcão (SP).

Falcão entrou na campanha como representante do PT, não como um integrante do grupo de Marta Suplicy, como costuma ser identificado no aparato partidário. Na realidade, em sua nova empreitada eleitoral, candidata ao Senado, Marta renovou o time que costumava acompanhá-la nas eleições que disputou até perder a prefeitura de São Paulo para José Serra (a interlocutores, Falcão disse que de fato não está próximo da atual campanha de Marta, mas que mantém boas relações e fala com alguma frequência, ao telefone, com a ex-prefeita).

Falcão responde, na campanha, por uma área para a qual esteve cotado na composição da nova direção do PT: comunicações. Ao chegar, encontrou todos os espaços preenchidos por Pimentel. Segundo pessoas próximas a Pimentel, o que correu a seguir foi uma tentativa de Falcão para aninhar na campanha empresas do círculo do PT paulista, o que teria deflagrado uma intensa disputa comercial no comitê eleitoral. Internamente, Falcão negou qualquer interesse pessoal em beneficiar alguma empresa e que houvesse motivos para a briga até porque campanha teria espaço suficiente para abrigar a todos. Prova disso seria que a empresa paulista de comunicação que já prestava serviços ao PT também foi contratada.

Nos contatos para contratar uma empresa de segurança, efetivamente, a campanha de Dilma conversou com o escritório de um conhecido serviço de arapongagem de Brasília. À frente, a turma de Pimentel. Agentes ligados ao escritório chegaram a fazer uma inspeção na casa onde funcionam serviços da campanha de Dilma, como aqueles relacionados à internet, pesquisa e imprensa. Detectou vários "furos" na segurança, inclusive dos telefones. A contratação (deste escritório especificamente) não chegou a ser efetivada, mas a movimentação expôs as divergências internas da campanha que levaram Dilma Rousseff a mandar "parar tudo".

No submundo da arapongagem há góndolas ao gosto do freguês. Originariamente, o que Pimentel queria era contratar um serviço de segurança a fim, entre outras coisas, de conter vazamentos de informações da campanha. A conversa evoluiu para uma contraproposta: a montagem de um serviço para neutralizar um suposto (outra vez) esquema de espionagem - e chantagem - que estaria sendo operado pela campanha do PSDB.

Até onde se sabe, a conversa do comitê de Dilma com os arapongas em questão parou por aí - ficaram as histórias de que o deputado e ex-delegado da Polícia Federal Marcelo Itagiba (PMDB) estaria fazendo dossiês sobre a base aliada do governo e que um livro sobre as privatizações chega às lojas depois da Copa do Mundo. Supostamente, com o relato sobre o envolvimento de familiares de Serra com o processo. Uma denúncia que frequenta o noticiário a cada eleição de que Serra participa, desde 2002, sem que nada tenha sido provado.

O episódio dos aloprados sem dúvida dá a Serra razões para prevenção. Naquela época, o que a operação policial mostrou é que um grupo tentava falsificar um dossiê que envolveria os tucanos em irregularidades no Ministério da Saúde - o tucano concorria ao governo de São Paulo contra o hoje senador e novamente candidato Aloizio Mercadante. Alguns milhões de reais foram apreendidos nas operações policiais, mas a PF nunca chegou à origem do dinheiro. Os principais implicados na fase policial também foram exonerados pelo Ministério Público.

Por outro lado, ao transformar em cavalo de batalha uma denúncia que não se sustenta em pé, Serra dá sua contribuição pessoal para uma campanha cujo "trailer" aponta para um nível baixo.


Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Canhoto da Paraíba & Paulinho da Viola - Heineken Concerts - São Paulo - 1994

Aécio mobiliza prefeitos em favor de tucano

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Na primeira aparição ao lado de Serra após voltar de férias, ex-governador cobra apoio de aliados ao presidenciável e descarta dissidência no PSDB mineiro

ENVIADO ESPECIAL

MONTES CLAROS - Pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra visitou Montes Claros ao lado do ex-governador Aécio Neves, que mobilizou os aliados em favor da candidatura do tucano. O governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia (PSDB), que vai tentar a reeleição, também participou do encontro com lideranças e prefeitos da região norte de Minas.

Na primeira aparição com o ex-governador paulista desde que voltou das férias ao exterior, Aécio cobrou ontem dos cerca de 60 prefeitos do PSDB, PPS, DEM, PP, PTB e PSC presentes no auditório do Automóvel Clube o voto casado em Anastasia e no presidenciável tucano, chamado sempre de "presidente Serra".

Aécio encerrou seu discurso conclamando as lideranças a manter as "mangas arregaçadas" para eleger Serra: "Rumo à vitória da decência, para encerrar esse ciclo de governo que não interessa mais ao País."

Após o evento, em entrevista coletiva, o ex-governador mineiro mandou recado a eventuais dissidentes. "Se não estiver (com Serra), sai do PSDB."

Reivindicações. Presidente da Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene, o prefeito de Patis, Valmir Morais (PTB), entregou ao presidenciável do PSDB a Agenda de Desenvolvimento do Norte de Minas, documento com reivindicações da região ? como a construção de um porto seco e de um aeroporto específico para a exportação de frutas da área irrigada do São Francisco, a renegociação das dívidas de pequenos e médios produtores rurais; além de incentivos para a exploração de minério de ferro e gás natural na região.

Morais deixou claro que Aécio é a "bússola" dos políticos mineiros e disse que a mesma lista foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato à reeleição em 2006, classificando o resultado como uma "decepção". "Não recebemos satisfação nenhuma", afirmou.

Serra se comprometeu em levar "muito em conta"" o documento na formulação de seu programa de governo. O tucano também prometeu a duplicação de estradas e a construção de um câmpus universitário na cidade.

Ao final, depois de ressaltar a fama da cachaça de Salinas ? cidade vizinha a Montes Claros ? e reclamar que não havia ganhado "nenhuma garrafinha", Serra disse que, se for eleito, pretende acumular, durante seis meses, a presidência da República com a presidência da Sudene.

Continuidade. Aécio e Anastasia mantiveram o discurso confiante ao comentarem a definição pelo senador Hélio Costa (PMDB) como candidato da base aliada de Lula ao governo de Minas. O governador disse que acredita numa vitória no primeiro turno da eleição. E Aécio reiterou o discurso de continuidade contra o risco de retrocesso no Estado. "Qualquer que seja o adversário, estamos prontos para vencer. Por uma razão: Minas não quer retrocesso, Minas quer continuar avançando", afirmou.

Interpelado pelo PT, Serra visita Aécio

DEU NO JORNAL DO BRASIL

O pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, esteve ontem no Norte de Minas junto do ex-governador Aécio Neves, que vai concorrer por uma vaga ao Senado na chapa tucana. Na ocasião, Serra afirmou desejar que a campanha deste ano não tenha “baixarias”, ao responder a uma pergunta sobre o caso de um suposto dossiê do qual teria sido vítima. Ontem, o PT interpelou Serra judicialmente, para que ele confirme ou não declarações de que a ex-ministra Dilma Rousseff, sua principal rival na disputa à Presidência, seria responsável pelo suposto documento.

Pesquisa Junto a Aécio, Serra também fez comentários sobre a recente pesquisa Ibope, que mostra a subida da petista em relação ao o tucano no percentual de intenções de voto, que coloca ambos empatados com 37%.

– Pesquisa eleitoral vai ter muita até lá (as eleições) e eu não costumo comentar. A campanha eleitoral vai mesmo acelerar depois da Copa do Mundo – disse Serra.

Também indagado sobre as pesquisas, Aécio demonstrou otimismo: – Sou extremamente otimista em relação à vitória do companheiro José Serra.

Serra irá para a convenção sem vice escolhido

DEU EM O GLOBO

Presidente do PSDB diz que partido e aliados terão até o fim de julho para completar a chapa

MONTES CLAROS (MG) e BRASÍLIA. O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), admitiu ontem que a escolha do candidato a vice na chapa do pré-candidato tucano à Presidência, José Serra, deverá mesmo ficar para depois da convenção nacional do partido, marcada para este sábado, em Salvador: — Não vai dar para resolver isso até a convenção, embora nossa ideia fosse resolver logo — admitiu Guerra.

A prioridade da coordenação da campanha tucana esta semana é organizar a convenção que formalizará a candidatura de Serra. Como o vice da chapa não estará definido, deverá ser delegado à Executiva Nacional do PSDB o poder para referendar posteriormente o nome do escolhido, assim como de novas alianças que possam ser garantidas até 30 de junho.

— Não é obrigatório decidirmos até a convenção o nome do vice. Nosso prazo para isso vai até 30 de junho — reiterou o deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA).

Ontem, a primeira viagem de Serra ao norte de Minas Gerais teve clima de campanha a pleno vapor. Ao lado dos também tucanos Aécio Neves, ex-governador do estado, e Antônio Anastasia, atual ocupante do cargo e candidato à reeleição, Serra fez corpo a corpo e elogiou Aécio, que tem forte apelo entre os líderes da região.

— Vamos governar juntos o Brasil, vamos governar juntos Minas com Anastasia governador, vamos governar juntos com esse grande líder que é o Aécio Neves — discursou Serra para cerca de 300 pessoas, incluindo prefeitos, deputados, vereadores e outros líderes políticos e empresariais da região.

Serra mira em Dilma e critica 'jogo sujo' na eleição

DEU EM O GLOBO

Sem citar nominalmente rival petista, tucano diz que dossiê é "característica desse pessoal"

MONTES CLAROS (MG). O pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, pediu o fim da “baixaria” e do “jogo sujo” na eleição, e voltou a acusar ontem a sua oponente petista, Dilma Rousseff, pelo suposto dossiê que estaria sendo montado contra o tucano e sua filha, Verônica Serra. Serra evitou citar nominalmente Dilma ou outro integrante do PT, mas disse que esse tipo de atitude é “característica desse pessoal”: — O que precisa acabar é a baixaria, é contratar arapongas, é espionar, é denegrir famílias — disse o tucano. — A gente precisa acabar no Brasil (com essa história de) que a cada eleição, como em 2006, a gente fica encontrando essas coisas que não fazem nenhum bem ao processo democrático. Estamos voltando àquela velha prática, característica desse pessoal, de jogo sujo, abaixo da cintura, ataques a familiares e coisas do gênero.

Em evento ao lado do ex-governador de Minas Aécio Neves e vários outros líderes tucanos em Montes Claros, ao norte de Minas, Serra se mostrou irritado ao ser perguntado sobre o assunto, principalmente sobre a ação que o PT apresentou à Justiça para que ele explique a acusação de que Dilma seria “responsável” pela questão.

— Esse episódio de dossiê deve ser jogado na lata de lixo da História.

Não contribui em nada para nossa democracia — disse.

Em seguida, no entanto, voltou a direcionar a artilharia contra a campanha petista, que, segundo ele, abriga “todas as pessoas, ou algumas delas” envolvidas no escândalo.

E declarou que não deve explicações sobre nada relacionado à questão.

— Tudo que a imprensa publicou deve ser respondido por quem? Pela candidata que chefia a sua campanha. O resto é factóide. Basta vocês olharem as revistas, os jornais, que vocês vão ver quem é que tem que dar explicação para o Brasil a respeito do que está acontecendo.

Quem tem que dar explicação é a candidata que é chefe da sua própria campanha, como eu daria se houvesse acontecido algo no meu caso — afirmou o tucano.

Já Aécio Neves rebateu informações divulgadas na última semana de que a montagem do suposto dossiê teria partido do próprio ninho tucano, durante a disputa entre ele e Serra pela indicação do partido para a disputa presidencial.

— Exijo respeito. A minha trajetória política é conhecida. E nós sabemos onde estão os aloprados. Até endereço têm — disparou, referindo-se à mansão em Brasília alugada pela campanha petista para o trabalho da equipe que seria responsável pela montagem do dossiê.

Aécio: Engajamento total em Minas

DEU NO ESTADO DE MINAS

Presidenciável do PSDB recebe a garantia de Aécio Neves de seu compromisso com a chapa tucana. Primeira atividade pública dos dois foi em Montes Claros, em encontro com prefeitos

Luiz Ribeiro

O pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB, José Serra, recebeu, ontem, o compromisso do ex-governador Aécio Neves de engajamento total em sua campanha. A manifestação foi feita em Montes Claros (Norte de Minas), onde, pela primeira vez desde que ambos se desincompatibilizaram dos governos de Minas e de São Paulo para a disputa da eleição de outubro, Aécio apareceu publicamente ao lado de Serra numa atividade política, que contou ainda com a presença do governador Antonio Anastasia, que vai concorrer à reeleição.Embora o trabalho para a busca de votos só deverá começar em 4 de julho, prazo final para a homologação das candidaturas, a visita do presidenciável tucano a Montes Claros foi em clima de campanha eleitoral. Depois de participar de um encontro com lideranças, no Automólvel Clube, que contou com a participação de cerca de 300 participantes, ao lado de Aécio, Anastasia, deputados federais e estaduais e candidatos a deputado, José Serra caminhou a pé do local da reunião até o Café Galo, ponto conhecido e parada obrigatória de políticos que visitam a cidade.

Do Automóvel Clube até o conhecido estabelecimento, Serra e comitiva percorreram cinco quarteirões, atravessando a Praça Doutor Carlos, a mais central da cidade, em horário movimentado. Ao longo do trajeto, o pré-candidato a presidente do PSDB, parou em algumas lojas e atendeu pedidos para tirar fotos ao lado de eleitores. Houve o mesmo assédio com Aécio. No Café Galo, cerca de 200 pessoas esperavam pelos pré-candidatos com bandeiras e faixas, a maioria deles integrantes de uma claque que animou o encontro no Automóvel Clube. Serra ficou no local por cerca de 10 minutos, posando para as fotos com a xícara de café, juntamente com Aécio e Anastasia.

Participaram do encontro cerca de 60 prefeitos, segundo cálculos da Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene (Amams), que organizou o evento. Para a entidade, o número de participantes foi uma prova de afastamento da ameaça à campanha de Serra pela "Dilmasia", movimento que visa o voto casado dos prefeitos na presidenciável petista Dilma Roussef f, e na reeleição do governador Antonio Anastasia.

O presidente da Amams, Valmir Morais de Sá, falou em nome dos prefeitos da região: "Nós vamos seguir uma bússola, que é o ex-governador Aécio Neves. Vamos seguir a direção que ele indicar. Não tem meio caminho". Em discurso inflamado, Aécio Neves – que resistiu em ser candidato a vice de Serra para concorrer ao Senado – reiterou que está engajado na campanha do ex-governador paulista e de Anastasia para a reeleição em Minas. Ele convocou os prefeitos a acompanhá-lo. "Quem seguir Aécio Neves, quem acompanha Aécio Neves vota em José Serra e Anastasia", disse o ex-governador mineiro, lembrando que "não se faz política sem companheirismo".

O ex-governador José Serra fez um discurso recheado de frases de efeito e elogios a Aécio, que classificou como "a grande liderança que Minas Gerais oferece ao Brasil." Prometeu que, se eleito, vai investir maciçamente na saúde e na educação, priorizando o ensino profissionalizante. "Vamos entupir o Brasil de escolas técnicas". Disse que também que sempre disputou eleições não com o intuito de tirar algum benefício pessoal, mas com o espírito de "um servidor do povo brasileiro."

Questionado, em entrevista, sobre qual será o seu principal discurso de campanha, Serra respondeu: "O meu principal discurso de campanha é que aquilo que Brasil pode (fazer) mais, especialmente nas áreas onde andou para trás, na prática. É o caso da saúde, da segurança, do ensino, inclusive do ensino profissionalizante, que não acompanha as necessidades do Brasil. Essas são as áreas cruciais, para atender as famílas, principalmente as pessoas mais pobres". Ele evitou comentar resultados das pesquisas. "A pesquisa é apenas a fotografia de um momento", disse. Serra alegou ainda desconhecer qualquer tipo de levantamento que aponta resistência ao seu nome por parte de um grupo de prefeitos mineiros, incluindo filiados ao PSDB.

Vice

O PSDB realizará a convenção para a homologação do nome do ex-governador paulista José Serra como candidato a presidente da República no sábado. Mas a escolha do candidato a vice na chapa somente será feita no fim do mês. A informação foi repassada, ontem, pelo ex-governador Aécio Neves. Ele repetiu que a escolha do vice deverá ser feita exclusivamente pelo próprio Serra, mas que ele também deverá participar da indicação. "A questão continua sendo uma prerrogativa do Serra. Mas acredito que ele deverá consultar os companheiros", afirmou o ex-governador mineiro, que também reafirmou que a escolha deve ser feita com calma.

Aécio pede votos para Serra em Minas

DEU EM O GLOBO

"Talvez não haja alguém com mais disposição que eu para ajudar Vossa Excelência", diz ele

MONTES CLAROS (MG). Na visita ao norte de Minas, o ex-governador Aécio Neves, que deverá disputar o Senado pelo PSDB, pediu voto para Serra.

Declarou que percorrerá o estado para dizer “diretamente à dona de casa, ao estudante, ao empresário, ao homem do campo: me ajudem a continuar trabalhando por Minas Gerais”.

— Volto a Minas, como fiz na última semana, para dizer que neste estado, e talvez não haja no Brasil alguém com mais disposição do que eu, mais determinado do que eu, para ajudar a que Vossa Excelência chegue à Presidência da República para que encerremos este ciclo de governo que não interessa mais ao país. A partir de agora, mangas arregaçadas — afirmou Aécio, durante corpo a corpo com Serra e o governador Antonio Anastasia, que disputará a reeleição.

Aécio estava de férias até semana passada.

PT nacional enquadra petistas de Minas e fecha apoio a Hélio Costa

DEU EM O GLOBO

Para Dutra, partido forte no estado é o "PL: Palácio da Liberdade"

Maria Lima e Adriana Vasconcelos

BRASÍLIA. Num clima descrito por petistas mineiros como de “velório”, o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, formalizou ontem decisão do partido e da pré-candidata Dilma Rousseff de enquadrar o PT de Minas e forçar o apoio ao peemedebista Hélio Costa na disputa pelo governo do estado.

Assim, enterrou a pretensão do PT mineiro de lançar ao cargo Fernando Pimentel, exprefeito de Belo Horizonte e um dos coordenadores da campanha presidencial.

Com a decisão, fica garantida a realização da convenção do PMDB, sábado, para a formalização da aliança nacional entre os dois partidos em torno da candidatura Dilma.

PSB, PR e PRB devem apoiar Anastasia Ao final de um dia de longas e tensas reuniões, com participação direta de Dilma, Dutra anunciou que Pimentel será candidato ao Senado e que um nome do PT, ainda a ser escolhido, será o vice da chapa de Hélio Costa.

Dutra admitiu que Costa terá de liderar um processo de entendimento para atrair partidos da base que não se recusam a apoiá-lo, como já anunciaram apoio ao tucano Antonio Anastasia, candidato de Aécio Neves.

Por enquanto, apenas o PT, fraturado e abatido, e PCdoB garantiram trabalhar para Costa.

O PSB do prefeito Márcio Lacerda avisou que, sem o PT no páreo, apoiará Anastasia. O PR de Clésio Andrade também deve ir com o tucano, além do PRB.

— Estou indo para o velório.

Mas mesmo com a alma ferida, o PT vai trabalhar para tentar eleger Hélio Costa e Pimentel.

Mas o PSB, o PRB e o PR vão embora para o Anastasia — disse o deputado Reginaldo Lopes , presidente do PT de Minas, ao chegar para o anúncio.

— Não temos controle sobre o voto do eleitor. Se o eleitor mineiro vai de Dilmasia ou de Serrosta, quem pode controlar? Nós não vamos fazer campanha para o Anastadilma, mas a vontade do eleitor não tem controle — afirmou Dutra, referindose à possibilidade de o eleitor votar em Dilma e Anastasia ou em Serra e Costa.

Costa disse que vai negociar o preenchimento de sua chapa para tentar obter mais apoio: — Estamos em negociações avançadas que poderão redundar numa composição até mesmo na chapa majoritária. Até porque ainda temos uma vaga ao Senado e duas suplências, que podem ser destinadas aos partidos da base. Notadamente deveremos continuar a conversar com PR, PDT, PRB e PCdoB — disse Costa Segundo Dutra, será uma eleição muito difícil, porque o partido mais forte em Minas é o “PL: Palácio da Liberdade”, alusão ao peso de Aécio.

Mesmo um pouco abatido, Pimentel fez questão de participar do anúncio. Disse que não sabe se conseguirá compatibilizar sua campanha com a de Dilma.

— Não sei. Acho que é compatível, mas isso tem de ser discutido com a própria ministra Dilma e os companheiros de Minas para ver qual é a demanda de um e de outro. O importante é que tivemos um processo de debate cristalino, que está encerrado.

Nós fechamos a chapa da unidade PMDB/PT, que responde à necessidade do acordo nacional e é a chapa com a qual vamos vencer a eleição em Minas — disse Pimentel.

O presidente da Câmara e candidato a vice na chapa de Dilma, Michel Temer, garantiu a Dutra que 90% do diretório do PMDB vão homologar a coligação, no sábado.

Cúpula do PT soube de dossiê no fim de 2009

DEU EM O GLOBO

A cúpula petista da coordenação da campanha de Dilma Rousseff sabe, desde o fim de 2009, da existência de um suposto dossiê contra o tucano José Serra e sua filha, Verônica Serra. O material passou a ser visto como uma arma secreta, a ser usada em caso de necessidade.

Cúpula do PT sabia de dossiê

Além de Pimentel, dirigentes da campanha de Dilma conheciam material contra Serra

Gerson Camarotti e Jailton de Carvalho

BRASÍLIA - Apontado como bode expiatório no episódio do suposto dossiê contra o pré-candidato José Serra, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT) não era o único que sabia das denúncias. Toda a cúpula petista que integra a coordenação de campanha da pré-candidata Dilma Rousseff tinha conhecimento, desde o fim de 2009, da existência de um farto material investigativo contra o tucano e sua filha, Verônica Serra. Ontem, dois jornalistas envolvidos no caso negaram a versão do delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo das Graças Sousa, de que o comitê petista desejou contratar serviços de espionagem.

Segundo relatos feitos ao GLOBO por dirigentes do PT, o partido esperava que aliados do exgovernador Aécio Neves (PSDB-MG) usassem o material durante o processo de disputa interna no PSDB para a escolha do presidenciável tucano.

Como isso não ocorreu, contou um integrante da campanha petista, houve a decisão coletiva de se ter acesso a esse material, que estava sendo investigado pelo jornalista Amaury Ribeiro Junior. Na ocasião, Amaury acabara de sair do jornal “O Estado de Minas”.

Na coordenação de campanha de Dilma, o dossiê passou a ser usado internamente como “arma secreta”, para ser usada, se necessário.

Amaury foi procurado, então, pelo jornalista Luiz Lanzetta, dono da empresa Lanza Comunicação, contratada para a área de comunicação da pré-campanha. Lanzetta se desligou da campanha no fim de semana.

O acerto feito com Amaury teria o propósito de se produzir um livro com todas as investigações feitas pelo jornalista contra Serra.

Pela estratégia, que recebeu o aval de todos os integrantes da coordenação de campanha da Dilma, o livro-dossiê seria publicado no período eleitoral. Assim, Amaury foi integrado originalmente à campanha petista.

Só em abril, com a oficialização da pré-campanha, houve a decisão de um grupo do PT de ampliar o núcleo de inteligência do comitê de Dilma, o que causou um racha interno. Lanzetta, o empresário Benedito Oliveira Neto e Amaury participaram do encontro em abril com Onézimo.

Jornalistas querem ser acareados com delegado

No PT, a versão é que Onézimo foi infiltrado pela campanha tucana para detonar a crise no comitê de Dilma. Em entrevistas, Lanzetta e Amaury desafiaram ontem Onézimo a manter, em público, a acusação de que tenha sido sondado para montar esquema de espionagem contra Serra.

Segundo os dois, foi o delegado quem se ofereceu para desmontar um suposto grupo de produção de dossiês que teria sido organizado pelo deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) contra políticos da base aliada, principalmente do PMDB. Amaury disse que gostaria de ser acareado com Onézimo.

Os dois decidiram partir para o ataque depois de a revista “Veja” publicar, no fim de semana, entrevista em que Onézimo diz ser sido procurado para fazer investigações, inclusive com uso de grampos telefônicos, contra Serra e Itagiba. A proposta teria sido feita numa reunião em 20 de abril, num restaurante em Brasília.

— Se ele falou isso (sobre espionar Serra), vamos reconstituir os fatos: quem falou, a que horas falou, como foi. Vamos fazer uma acareação.

Esse negócio (de espionagem) é uma mentira, que tem que vir à tona — disse Amaury.

Lanzetta e Amaury contam que tiveram encontro com Onézimo porque estavam em busca de uma empresa para investigar vazamentos de dados confidenciais do escritório central da pré-campanha de Dilma. Os dois chegaram a Onézimo por sugestão de Idalberto Matias, o Dadá, ex-agente do Serviço de Inteligência da Aeronáutica. Amaury disse ainda que, duas semanas depois do primeiro encontro, Onézimo cobrou R$ 1,8 milhão para fazer o suposto serviço de contra-espionagem. A proposta não teria sido aceita, segundo Amaury.

Itagiba negou que tenha feito dossiês e disse que há uma tentativa de se desviar o foco do episódio: — O que temos hoje? De um lado um grupo que diz que estava lá porque foi chamado para fazer dossiês. E de outro, outro grupo que diz que recebeu a oferta de dossiês. De qualquer forma, estavam todos em uma reunião para praticar um delito. E que, quando confrontados, montaram suas historias para se justificar, querendo imputar a culpa a uma terceira pessoa. Que se instaure um inquérito policial para investigar o que eles faziam reunidos lá.

Procurado pelo GLOBO, Idalberto não retornou a ligação. Onézimo não foi localizado.

Guerra de dossiês é antidemocrática: Editorial/O Globo

DEU EM O GLOBO

A folha corrida do PT não ajuda nos desmentidos da candidata do partido

No final do primeiro turno das eleições de 2006, uma operação clandestina, criminosa, de tentativa de fraude contra a candidatura do tucano José Serra ao governo de São Paulo foi abortada pela Polícia Federal. Num hotel da capital paulista, Hamilton Lacerda, assessor e chefe da campanha do adversário de Serra, o senador petista Aloizio Mercadante, foi filmado levando a mala em que estaria R$ 1,7 milhão, depois apreendido, sacado de algum caixa dois partidário para comprar um dossiê que incriminaria Serra. Os tais documentos, sobre a gestão do tucano no Ministério da Saúde, eram fajutos, a montanha de dinheiro apareceu na imprensa e Lula perdeu a chance de ganhar no primeiro turno.

O candidato à reeleição tachou os conspiradores de “aloprados”, entre eles, além de Lacerda, um ex-secretário do Ministério do Trabalho, Oswaldo Bargas, que dava as cartas, em nome do governo e das centrais sindicais, no fórum criado, sem sucesso, para propor a reforma sindical, e Jorge Lorenzetti, comandante da churrasqueira do Planalto.

Assim, “aloprado” passou a adjetivar todo militante petista mais aguerrido, sem medir meios e maneiras na hora de trabalhar pelos chefes. Algo como, no tempo dos militares, os “bolsões sinceros porém radicais”, terminologia usada por generais para designar as forças de repressão que atuavam na clandestinidade.

Pois a alopragem petista esteve prestes a agir de dentro de um bunker de comunicação montado pelo comitê de Dilma Rousseff em Brasília. Segundo reportagem de “Veja”, assessores contratados por Fernando Pimentel, amigo pessoal de Dilma e um dos coordenadores da campanha, trabalhariam em um dossiê sobre Serra, citando negócios de Verônica, filha dele.

A denúncia teria sido um contra-ataque do núcleo paulista do PT conduzido por Rui Falcão, oriundo da máquina partidária no estado berço da legenda, para deslocar o grupo mineiro.

Uma típica luta pelo poder nos bastidores petistas, onde também se costuma desferir golpes abaixo da cintura, no estilo das virulentas batalhas sindicais.

A seriedade da história do dossiê ganhou tinturas mais fortes com a entrevista, publicada na última edição da revista, em que um delegado federal aposentado, Onézimo Sousa, declara ter sido procurado pelo braço mineiro do bunker petista para espionar Serra e o deputado tucano Marcelo Itagiba, também egresso da PF e que estaria montando um esquema idêntico de arapongagem para ser usado contra petistas.

Serra acusou diretamente Dilma, que ontem pediu ao tucano explicações por via judicial.

Resvala-se, portanto, para a judicialização da campanha. Será desanimador se as eleições enveredarem por esses caminhos tortuosos, quando se tem a chance de debater o futuro do país num momento muito especial, em que avanços sociais precisam ser consolidados por uma projeto de reforma do Estado, cada vez mais pesado para o contribuinte e menos eficiente.

A candidata se exime de qualquer culpa, e os tais assessores foram corretamente afastado.

Não poderia ser diferente, nem se deve, a priori, duvidar da palavra de Dilma. Mas o PT, com sua folha corrida de alopragens, não ajuda a candidata. Tem razão a candidata Marina Silva ao pregar “tolerância zero” com esse tipo de ação, de inspiração antidemocrática.

Esta deve ser a postura de todos, a começar pela Justiça e o Ministério Público eleitorais.

A miséria já teve uma “função social” :: Arnaldo Jabor

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Falar da miséria nos alivia porque, para nós, os bacanas, a miséria é apenas um problema existencial. Muitos artistas e intelectuais que falam na miséria como tema de livro ou filme, ou políticos que usam miséria como curral eleitoral, ganham dinheiro ou votos com a miséria dos outros. Ou seja, a miséria dá lucro.

Na verdade, para entendermos o horror que nos envolve, temos de analisar os que “não” são miseráveis, a burguesia, as classes médias, a estrutura do País, a formação torta do Estado.
Quem quiser fazer uma tese ou ficção sobre o atraso nacional tem de estudar os “formadores” da miséria – os séculos de oligarquias e patrimonialismo. Um estudo psicológico sobre alguns de nossos principais lideres políticos explicaria mais o País do que cem volumes economicistas. Nós fazemos parte da miséria brasileira. Em nós, e não nos morros e periferias, está o segredo, ou melhor, a explicação para a ignorância e o desabrigo de nosso povo.

A miséria de nossa formação não atingiu apenas os escravos libertos, os sub empregados, os analfabetos. A miséria atingiu a todos nós. Não na blindagem de nossos carros apavorados, mas na blindagem de nossos corações contra o lado de fora da vida. Não basta sofrermos com o “absurdo” da miséria. Ela é uma construção minuciosa feita por um sistema complexo. A miséria não é absurda, ela é uma produção.

Há alguns anos, a miséria era vista com vagos sentimentos caridosos. Ela era até idílica, nas “favelas dos meus amores”. Tolerávamos tristemente a miséria, desde que ela ficasse longe, quieta, sem interferir na santa paz de nosso escândalo. A miséria tinha quase uma... “função social”.

Contra nossa vontade, hoje sabemos que a miséria se entranha em nosso egoísmo, na busca maníaca de felicidade e prazer, esquecendo a existência do “outro” – este ser longínquo e desagradável. Pouquíssimos de nós pensam como o imperador filósofo Marco Aurélio: “O que é bom para a abelha tem de ser bom para a colmeia”.

Além disso, a miséria não está apenas naqueles que se lixam para ela, mas também nos que se acham seus “proprietários”, que a consideram seu latifúndio ideológico.

Existe a política da miséria dentro da miséria de nossa política. Transformar a miséria em bandeira, sem entender o conjunto que nos inclui, usar a miséria para uma simplificação oportunista de “ricos e pobres”, usar a miséria como um divisor de águas para a complexidade de nossos problemas é uma atitude miserável e resulta nos vexames a que temos assistido neste governo, que tem o alívio hipócrita de ser “contra” ela – isso justificou roubalheiras, crimes e mentiras, legitimou a invasão do Estado pelos “amigos” do povo, que fazem sucesso junto aos ignorantes que adulam na mídia da política virtual. Os pelegos sempre se disfarçaram de pobres.

A miséria está nos “sanguessugas”, está nas emendas espertas ao orçamento, está na sordidez do sistema eleitoral, está na falsa compaixão dos populistas, está nas caras cínicas, torpes, “lombrosianas” dos ladrões congressistas , está na lei arcaica e sem reformas, está na atitude olímpica e gelada de juristas impassíveis, está nos garotinhos na rua e nos garotinhos da política.

Mas, o tempo passou e a miséria cresceu – a espuma suja na champanha do progresso. Com o avanço da indústria de armas, das drogas, da internet, a miséria foi tocada pela evolução do capitalismo e começou a se modernizar. A violência é, de certa sinistra forma, um “upgrading” na miséria, antes tão dócil. A violência nos pegou de surpresa, com velhas armas. Ninguém sabe o que fazer. Antes, os governantes oscilavam entre a repressão sangrenta, entre a queima de favelas ou a construção de guetos. Mas hoje, a miséria é grande demais para ser erradicada. Somos miseráveis porque poderíamos ter um País muito melhor e não sabemos fazê-lo. A miséria habita nosso egoísmo, nossa cegueira proposital em não ver o mal e a dor dos desvalidos.

É miserável nossa fome de consumo supérfluo, é miserável nossa angústia por pequenos problemas, nossas neuroses de mínimas causas, é miserável o que pagamos a empregados frágeis, é miserável nossa ideia de posse no amor e no sexo. Somos miseráveis porque até os ricos poderiam lucrar com a justiça social, mas eles só pensam a curto prazo, somos miseráveis na alma, em nossa amarga alegria, em nossa ignorância política, em terrores noturnos, em síndromes de pânico, em noites vazias nos bares ameaçados, nos perigos das esquinas, em amores despedaçados, a miséria está no esforço para esquecê-la, no narcisismo deslavado que aumenta entre as celebridades, na ridícula euforia das sacanagens e nas liberdades irrelevantes.

A miséria está até na moda – vejam este texto de um catálogo “fashion”: “Use uma calça bacana, toda desgastada, bata na calça com martelo, dê uma ralada no asfalto, ou esfregue a calça com lixa, ou por fim, atropele seu jeans, passe por cima dele com o carro (blindado?). A moda pede peças puídas, como ficam depois de um ataque das traças ou baratas. E se você tem algo a dizer sobre a vida, diga com sua camiseta, nas estampas com frases no peito...”

Só que antes, só falava de miséria quem não era miserável, só falava em “fome” quem comia bem. Agora, os miseráveis nos olham e nos criticam.

Hoje, a miséria desfila nas ruas ameaçadoramente, de sandália, bermudas e corpo nu. Não se esconde pelos cantos mendigos. Nossas elites desatentas estão mais ligadas e percebem aos poucos que nós é que temos de nos reformar. Não tem mais jeito, a miséria tem de ser integrada a nossas vidas. Temos de conviver com ela, pois também somos miseráveis.

E mais: os miseráveis não esperam nada de nós ou dos governos. Estão indo à luta. Não resolveremos nada. Eles é que vão fazer isso. A miséria está nos modernizando.

O Brasil e o Tratado de Não-Proliferação:: Rubens Barbosa

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Mesmo antes do fim da guerra fria, o desarmamento nuclear, a não-proliferação de armas atômicas e o uso pacífico da energia nuclear já eram preocupações da comunidade internacional. Em 1968 havia sido negociado o Tratado de Não-Proliferação (TNP), abrangendo essas três vertentes. Nos 40 anos seguintes, em vez de avançarmos no sentido de livrar o mundo da ameaça nuclear, tivemos recuos importantes no processo negociador.

Contrariamente ao disposto no TNP, Israel, Índia e Paquistão tornaram-se potências nucleares sem aderir ao tratado. A Coreia do Norte e o Irã, por sua vez, querem dominar a tecnologia para a construção de artefatos nucleares.

A situação agravou-se mais recentemente, com o temor de que grupos terroristas tenham acesso a produtos ou materiais nucleares. Essa questão passou a dominar quase obsessivamente a agenda doméstica nos EUA depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

A eleição do presidente Barack Obama e o fim do radicalismo "bushiano" abriram espaço para o governo de Washington propor iniciativas adicionais em relação à questão do desarmamento e também quanto à não-proliferação. O discurso de Praga sobre a eliminação total das armas atômicas, mais o acordo assinado em março com a Rússia para a redução dos arsenais de ogivas nucleares foram gestos táticos dos EUA para reduzir as críticas de inação na área do desarmamento, enquanto aumentavam as pressões sobre os países não-nucleares para conter os riscos da proliferação.

A Conferência de Segurança Nuclear, convocada pelos EUA em abril, e a quinta revisão do TNP, realizada em maio, no âmbito da Organização das Nações Unidas, foram instâncias utilizadas com esse objetivo, pelos países nucleares, para a aprovação de medidas e resoluções restritivas. Os temas do desarmamento e, sobretudo, o da não-proliferação nuclear, pela ameaça que representam para a paz e a segurança mundiais, em especial a partir da entrada em cena das redes terroristas, passaram a ser incluídos com alta prioridade na agenda internacional.

Para o Brasil, que desenvolve um programa nuclear importante e domina o ciclo completo do combustível, trata-se de matéria de grande interesse. A planta de enriquecimento de urânio em Resende (RJ) coloca o Brasil num seleto clube de fornecedores desse produto para centrais nucleares espalhadas pelo mundo.

O documento final do TNP contém uma avaliação dos últimos dez anos e um plano de ação que refletem, em larga medida, as posições defendidas pelo Brasil. O equilíbrio de ações em matéria de desarmamento e da não-proliferação confirmou a tese, sempre defendida pelo nosso país, de que ambos os processos se reforçam mutuamente, não sendo, portanto, necessário avançar simultânea e paralelamente com medidas concretas e verificáveis nos dois campos.

Sob o ângulo político, talvez o resultado mais importante tenha sido a decisão de discutir a criação, no Oriente Médio, de uma zona livre de armas nucleares e de outras armas de destruição em massa, em cumprimento da resolução sobre o assunto adotada no bojo do pacote que estendeu o tratado indefinidamente, em 1995, e até aqui paralisada.

No tocante ao desarmamento, apesar de menos ambicioso do que esperavam os países não armados nuclearmente, o plano de ação contém pontos positivos e, até certo ponto, inovadores, como a ideia de que a redução de arsenais deve abranger não só as armas empregadas, mas também as armazenadas, e que o processo de redução poderá envolver ainda as armas nucleares que os EUA mantêm em território europeu. Por outro lado, embora tenha ficado muito aquém do que era exigido pelos países não-nucleares, prevaleceu a ideia de se iniciarem consultas com vista à negociação de um quadro jurídico mais preciso do desarmamento nuclear.

Quanto à não-proliferação, a questão mais importante para o Brasil diz respeito ao tratamento dispensado à aplicação do Protocolo Adicional do TNP, com exigências adicionais para inspeções pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em plantas de enriquecimento de urânio e outras dependências ligadas ao programa nuclear.

A redação ambígua do documento final permitiu que tanto o Brasil como os EUA reivindiquem que suas preocupações foram plenamente atendidas. Em vez de linguagem aceitando a obrigatoriedade do Protocolo Adicional (como pretendiam as potencias nucleares), ficou estabelecido, segundo o Brasil, que se trata de documento voluntário e que concluí-lo ou não é um direito soberano de cada Estado. A conferência reconhece que se trata de um padrão de verificação apenas para os países que assinaram e aplicam o Protocolo Adicional. O protocolo, portanto, não pode ser considerado como um padrão de verificação geral das salvaguardas da AIEA.

Nossa interpretação não coincide com a dos países nucleares, em especial a dos EUA, que afirmam que, pela primeira vez, um documento oficial do TNP reconhece o Protocolo Adicional, juntamente com o Acordo de Salvaguardas da AIEA, como sendo o padrão avançado de verificação do TNP.

No tocante aos usos pacíficos da energia nuclear, as posições brasileiras também foram atendidas. Entre elas, o reconhecimento de que as opções em matéria de energia e de usos pacíficos da energia nuclear são soberanas e, portanto, devem ser respeitadas, inclusive as relacionadas com o desenvolvimento do ciclo do combustível nuclear.

Os resultados da reunião de revisão do TNP são um passo positivo, embora limitado.

A questão das inspeções mais intrusivas da AIEA, de interesse do Brasil, e a decisão de tornar o Oriente Médio uma zona desnuclearizada continuarão, contudo, por muito tempo, sem consenso na agenda global.


Foi Embaixador em Washington (1999-2004)

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Abertura da Ópera "O Guarani" -- Antônio Carlos Gomes

Num monumento à aspirina:: João Cabral de Melo Neto


Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.



(Em A educação pela pedra - 1966)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Reflexão do dia - José de Souza Martins


" Lula tem popularidade e não carisma. Carisma não se transfere, pondera Max Weber, em sua análise dos tipos de dominação. É um atributo pessoal e histórico de que pouquíssimos são dotados. Na história política do Brasil, apenas dois governantes foram dotados de carisma: o imperador dom Pedro II e o presidente Getúlio Vargas. Ambos assumiram impessoalidade do poder e governaram conscientes do mandato da história, personificando acima dos interesses pessoais e partidários o destino do País. "


(José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo/Aliás, 6 de junho de 2010.)

A sucessão e o banho de lua:: Luiz Werneck Vianna

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Tal como no belíssimo romance "O Albatroz Azul", de João Ubaldo Ribeiro, em que o nascimento de uma criança é bafejado pelo sortilégio dela ter vindo ao mundo de bunda para a lua, feliz augúrio, conforme antiga crença, de que ela seria dotada de melhor sorte do que a sua sofrida família, já dá para suspeitar que algo com o mesmo condão propício se faz presente no governo Lula. Só mesmo a proteção do destino seria capaz de reverter o que parecia ser uma aposta grávida de perigos, como a cartada iraniana da diplomacia presidencial, em um trunfo promissor para o sucesso dessa intervenção em paragens tão distantes como as do Oriente Médio.

Pois foi o que aconteceu a partir dessa malfadada e iníqua agressão praticada por forças militares de Israel contra uma flotilha de voluntários que tentavam levar solidariedade à população palestina da Faixa de Gaza, e que pôs a nu os equívocos cometidos pelos dirigentes daquele Estado quanto à sua política para a sua região, suscitando um clamor de protestos da comunidade e da opinião pública internacionais. A mesma boa sina socorreu o presidente quando do episódio do mensalão em 2005, do qual saiu indene de uma avalanche de denúncias de corrupção contra o seu governo para uma consagradora reeleição no ano seguinte.

A calmaria em que transcorre a sucessão presidencial, desconhecendo, ao menos até aqui, duros antagonismos entre os três principais candidatos envolvidos, assemelhados em tantos aspectos cruciais, podem sugerir de que estamos a assistir a uma disputa entre alas de um mesmo partido.

Como que postos de acordo quanto ao principal, os candidatos divergem em questões tópicas, a exemplo, entre outras, do quantum de autonomia que deveria gozar o Banco Central, de como encaminhar uma reforma tributária - exigiria ela uma emenda constitucional? -, todos alinhados a uma perspectiva pós-Lula, que não deixa de ser, querendo ou não, também pós-FHC, com os temas da estabilidade financeira e da responsabilidade fiscal.

Enfim, a se tomar pelas aparências, já teríamos atingido um ponto ótimo na história da evolução do país, restando agora cuidar - por que podemos mais - do seu aperfeiçoamento. E, assim, essa hora da sucessão, longe de impor um debate sobre os caminhos já percorridos e sobre a marcação dos objetivos estratégicos a serem atingidos, se apequena na rotina e na reiteração de práticas, algumas delas tidas como tão consagradas que ninguém se atreve a discuti-las. Tudo se passa como se não estivéssemos no fim de um governo, mas no seu recomeço. Para que, então, uma sucessão?

Dessa forma, uma política orientada para intervir em caráter emergencial, legítima enquanto tal, como o assistencialismo do programa Bolsa Família, ameaça se tornar permanente sem que se discutam os seus aspectos perversos, como na criação de uma gigantesca clientela a que não se fornecem os meios para escapar dessa condição. Mais que isso, apresenta-se o que deveria ser apenas um paliativo como instrumento idôneo de correção da nossa desigualdade social.

Nessa circunstância, em que o que vale é o resultado imediato, redescobrem-se, no baú da nossa história, velhas ferramentas a que se pretende dar uso novo, como o sindicalismo controlado por seus vértices, agora representados por centrais sindicais dependentes do imposto sindical.


Amplia-se o Estado em um sem número de agências que invadem a esfera da sociedade civil com a disposição de regulá-la por cima. O social passa à órbita de um Estado administrativo sob a gestão de uma tecnocracia especializada, tal como se pretendera fazer com o mundo do trabalho nos idos do Estado Novo. Nessa chave, a sociedade civil é vista como uma matéria prima sobre a qual deve se exercer a modelagem de uma intelligentzia de novo tipo a que se atribui a missão de combater a desigualdade social.

Nessa construção, não sobra espaço para a política, quase um monopólio de fato do Estado e dos seus agentes. Estiolam-se os partidos, boa parte deles destituídos de representação significativa, dependentes de favores do governo, sem vida própria, apropriados por uma "classe política", em sua maioria, animada pelo projeto único de garantir a sua reprodução. Ausente a energia que provém da luta política, vive-se na modorra do pensamento único, qualquer manifestação de dissonância com os rumos atuais, a que restaria apenas aperfeiçoar, soando como um crime de lesa majestade. Não há sucessão livre sem que haja livre discussão sobre que sociedade queremos para viver, sobre uma avaliação da nossa história e com a determinação das escolhas com que pretendemos dar continuidade a ela.

Mas, se a política, enquanto atividade consciente dos homens para tentar criar o seu destino, está em baixa e sob o controle de alguns poucos, temos um potente mundo dos interesses, grandes e pequenos, uns bem mais atendidos que outros, prontos ao conflito, se muito contrariados. Certamente, no que se avizinha, interesses serão afetados, não necessariamente os grandes, e nem sempre passíveis de compensação por vias administrativas. Se até aqui o decantado carisma de Lula e a sua proverbial boa sorte permitiram que as fortes contradições entre eles não ganhassem as ruas, sempre resolvidas por acordos nos gabinetes ministeriais sob a arbitragem presidencial, resta pouca esperança de que, com esses pretendentes à sucessão, o mesmo remédio seja eficaz. Seguramente, falta-lhes o carisma e é provável que também lhes falte o mesmo banho de lua. A política de que estamos tão distantes, oculta nas razões da gramática tecnocrática, promete nos cobrar com juros a sua próxima aparição.


Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador do Iuperj e ex-presidente da Anpocs. Escreve às segundas-feiras

PT em transição :: Fernando Rodrigues

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Há uma feroz disputa de poder dentro do PT. O elemento vital responsável por amalgamar o partido está de saída. Lula não será candidato neste ano. Em 2011, deve dar uma "sumida", como tem dito aos mais próximos.

Quem vai de fato mandar no PT pós-Lula? Ninguém sabe. Não há um petista com poder comparável ao exercido pelo hoje presidente mais popular da história recente do Brasil. Um imenso vácuo está em processo de formação.

Para mensurar o poder de Lula deve-se recapitular a construção da candidatura de Dilma Rousseff. Ninguém exceto ele teria condições de apontar o dedo para alguém vindo do PDT como o nome mais apropriado para sucedê-lo.

Entre os petistas, o projeto Dilma virou a candidatura da inevitabilidade. Só poderia ser ela. Mais recentemente, todos também passaram a acreditar na vitória da escolhida de Lula. A única dúvida no partido do poder é sobre se a vitória virá no primeiro ou no segundo turno.

Assim, todos estão demarcando território. Ninguém quer arriscar entrar em 2011 em posição frágil ou desfavorável.

Duas correntes claramente sobreviverão dentro do PT. Uma é a do establishment partidário. Seu representante oficial maior é José Eduardo Dutra, presidente nacional da legenda. Mas há também o ubíquo José Dirceu, uma fênix.

A outra facção é a dos herdeiros do lulismo. Nessa categoria puxa a fila o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Ele é Lula na campanha presidencial de Dilma Rousseff. Seu poder só faz crescer.

Por fim, há Dilma. Seu representante na política tem sido o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel -abalroado pelo caso do suposto dossiê anti-PSDB. O episódio foi uma amostra grátis de como será tortuoso o convívio da eventual futura presidente com seu partido e com a herança lulista. Até porque, por enquanto, o dilmismo ainda é apenas um neologismo.

Mensalão: antes e depois:: Fernando de Barros e Silva

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Completam-se nesta semana cinco anos das duas entrevistas que Roberto Jefferson, então ilustre deputado governista, concedeu à jornalista Renata Lo Prete. Elas trouxeram à tona o escândalo do mensalão e deram início à maior crise política dos anos Lula. O mensalão marca um capítulo do jornalismo e da história brasileira.

Para dimensionar sua importância, podemos fazer um exercício de imaginação: o que seria hoje do país sem o conhecimento do mensalão? José Dirceu provavelmente ainda estaria na Casa Civil, comandando as ações do governo. E Dilma Rousseff não seria nunca candidata à sucessão de Lula. O candidato talvez fosse o próprio Dirceu. Ou quem sabe Antonio Palocci. São apenas especulações.

Mas o mensalão também foi um divisor de águas para Lula. A crise obrigou o presidente a testar seus próprios limites, colocando à prova a extensão do seu poder. Paradoxalmente, o mensalão serviu para emancipar Lula do PT. E, de certa forma, dele mesmo.

Numa analogia psicanalítica, o mensalão foi uma espécie de terapia expressa para Lula. A superação do trauma veio desembocar no líder "bem resolvido" do segundo mandato. É evidente que na base material que explica esse processo estão o desempenho da economia e os efeitos dos programas e ações sociais do governo.

No que se refere aos costumes políticos, no entanto, não houve nenhuma superação virtuosa do mensalão. Pelo contrário. O PT recalcou seus dilemas éticos. A conversa da refundação não era séria. A popularidade de Lula acabou se convertendo em pretexto e razão suficiente para abafar qualquer autocrítica. Prevaleceu o pragmatismo da realpolitik.

Lula superou pessoalmente um problema que o PT desistiu de enfrentar. Vários "companheiros" ficaram pelo caminho e vão ter de responder à Justiça. Entre mortos e feridos, o país caminha, como o malandro da canção, assim de viés.

Aloprados: o retorno:: Ricardo Noblat

DEU EM O GLOBO

“Hélio Costa não será candidato ao governo de Minas com o apoio do PT se não quiser.” (Fernando Pimentel, do PT mineiro)

Que diferença faz um dossiê a mais ou a menos? Nada é mais comum, aqui e em toda parte, do que candidato estocar munição para disparar contra adversários. É o jogo sujo da política. Às vezes nem dispara. Em certas ocasiões, representantes dos candidatos se reúnem em local seguro e neutro e firmam um acordo: tiro só da cintura para cima.

Dossiês, quase sempre, são confeccionados para uso clandestino ou divulgação pela mídia. Servem para detonar escândalos. Quem se envolve com a tarefa trabalha no limite da irresponsabilidade. Uma coisa é juntar informações verdadeiras. O eleitor tem direito a conhecêlas. Outra é misturá-las com informações falsas captadas por meios criminosos: grampos, subornos e chantagem.

No segundo debate de televisão do segundo turno da eleição de 1989, Fernando Collor encarou Lula sobraçando pastas recheadas de documentos. Amigos de Lula temeram que ele pudesse exibir fotos do candidato do PT na companhia de uma amiga psicóloga. Quem supostamente presenteou Collor com as fotos foi o então deputado Bernardo Cabral (PMDBAM). As fotos não saíram das pastas.

O ensaio de candidatura de Roseana Sarney a presidente no início de 2002 foi fulminado por uma operação de agentes da Polícia Federal e procuradores da República. Achou-se R$ 1,3 milhão no cofre da empresa do marido dela. Roseana enrolou-se para explicar o que não passava de caixa dois. Sarney, o pai, atribuiu a culpa pelo sucedido a José Serra, também candidato a presidente.

Às vésperas do segundo turno da eleição daquele ano, o comando da campanha de Lula foi informado de que o programa de televisão de Serra exploraria imagens de uma antiga noitada alegre em Manaus do candidato do PT. Baixou o desespero. José Dirceu, presidente do PT, falou a respeito com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Prometeu retaliar desovando o que armazenara contra o governo e Serra.

Amigo de Lula e de Serra com igual intensidade, o deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF) voou às pressas para São Paulo a pedido de Dirceu. Conversou com Serra tarde da noite. Ouviu que não havia as tais imagens e que ele seria incapaz de apelar para recurso tão degradante. Na dúvida, Dirceu passou o resto da campanha de 2002 sem tirar o dedo do gatilho.

Dali a quatro anos, sobraria para Serra. Aqueles chamados por Lula de “aloprados”, funcionários do seu comitê de campanha à reeleição, forjaram um falso dossiê contra Serra, candidato ao governo de São Paulo, e Geraldo Alckmin, candidato do PSDB a presidente da República. O dossiê explodiu no colo de Lula. E acabou com suas chances de se eleger no primeiro turno.

Agradeça a Deus, Dilma, o fato de a nova geração de aloprados do PT ter sido logo flagrada em ação. Imagine se estivessem no ar os programas de propaganda eleitoral dos partidos no rádio e na televisão. E se só então pipocasse a história do dossiê contra Serra e do almoço do assessor de campanha com o delegado especialista em escutas telefônicas clandestinas.

Empenha-se o PT em vender algumas versões do episódio que não resistem a um sopro de criança. Dossiê? “Não havia dossiê”. Ora, há dossiê, sim, e ele segue sendo encorpado. Como o PSDB tem o dele contra Dilma, o PT e o governo. O PT informa que o dossiê não passa de um livro do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, a ser postado em breve na internet. Menos!

Há 15 dias, Amaury não tinha um livro. Tinha documentos e a ideia de publicar um livro. Por que participou do almoço onde seu amigo Luiz Lanzetta, assessor de comunicação da campanha de Dilma, disse ao delegado-araponga Onésimo de Souza que precisava saber tudo que Serra fizesse ou falasse? Antes que o espaço acabe, digo que Dilma só agiu contra os aloprados depois de ter sido procurada pela imprensa.

Em telefonema para a direção da revista “Veja”, jurou inocência, pediu um voto de confiança e garantiu punir com rigor quem ferisse a lei. A conferir.

Peleguismo eleitoral :: Paulo Brossard

DEU NO ZERO HORA (RS)

Dos temas, recentemente versados, chamaram minha atenção pela evidente importância de ambos, e, como não são novos, sua gravidade mais graúda se torna. Um diz respeito à voracidade estatal, inclusive em relação a salários, que estão longe de serem altos. Trabalhador solteiro, em situação regular, com carteira assinada, com R$ 2 mil mensais de salário, entre os descontos a que é submetido e os custos impostos ao empregador, resultará em R$ 837 que passam para os cofres públicos. Ora, a mim parece extorsiva essa contribuição a que o trabalhador e o empregador estão sujeitos inexoravelmente, sem ter a quem apelar, quando os serviços públicos devolvidos à sociedade são defectivos, não são bons e em geral são maus, especialmente os mais vitais, como os referentes à saúde, à assistência médico-hospitalar, à educação, à segurança pessoal do trabalhador e de sua família. Por isto já foi dito que, entre nós, as contribuições são de padrão escandinavo, enquanto os serviços públicos são de escala africana.

O outro assunto que também me impressionou, vivamente, conhecidas as condições históricas do serviço, tradicionalmente reumático, é referente aos serviços portuários. Só no porto de Santos, o maior da América do Sul, na entrada ou saída de navios, exigem-se 17 toneladas de papel por ano; para cada navio são necessários 112 formulários, em diversas vias, com 935 informações a serem encaminhadas a seis diferentes entidades da administração! Se isto ocorre em um porto, o de Santos, que quantidade de papel e dias de demora serão consumidos com os 37 portos nacionais que respondem por 97% do comércio exterior brasileiro, dos quais, ao que me consta, pelo menos em sua maioria, está sujeito ao arcaísmo que respondeu e que responde por funestas consequências prejudiciais à economia nacional. Ainda bem que, ao lado do anquilosado modelo tradicional, graças à lei de modernização dos portos, passaram a existir terminais privatizados e especializados nos quais sua efi-ciência não faz feio se comparados com os melhores portos estrangeiros.

Os dois tópicos comentados, com brevidade e objetividade, seriam suficientes para encher o palmo da coluna que, faz 25 anos, semanalmente, venho ocupando nesta folha, mas outro fato, que me parece sem precedente, ocupa uma página de um dos maiores e importantes jornais de São Paulo, sob o título “Centrais gastam R$ 800 mil do imposto sindical para barrar eleição de Serra” – Sucessão. “Valor foi usado para pagar evento realizado ontem no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, com objetivo de aprovar Agenda da Classe Trabalhadora e pregar a continuidade do governo Lula; das 30 mil pessoas esperadas, apenas metade compareceu”.

Independente do facciosismo da novidade e do seu caráter ilegal, porque o sindicato não pode imiscuir-se em procedimentos partidários, a serviço de partidos ou sobrepondo-se a ele, o fato de antecipar uma sindicalização partidária vai representar regresso formidável na nossa frágil organização partidária, herança direta do regime autoritário, que por duas vezes extinguiu os partidos e depois do insucesso do festejado bipartidarismo, optou pela fragmentação deles para deteriorar o instrumento imprescindível do funcionamento democrático, agora sob a ameaça do expediente da sua eliminação de fato na medida em que se pretende sua perversão mercê do famigerado imposto sindical.

Desde que, ainda estudante, comecei a militar na vida partidária, até o ingresso na magistratura, ou seja, de 1945 a 1989, ouvi ser imperioso extinguir o imposto sindical e, por faz ou nefas, ele tem a solidez das coisas provisórias no Brasil e que duram mais que as definitivas. E isto é um dos aspectos mais expressivos da nossa realidade social e das consequências inevitáveis que dela decorrem. Pois hoje o imposto em causa historicamente serve para o peleguismo eleitoral. Para dar um exemplo, 500 passagens aéreas foram adquiridas, por uma central, para transportar pessoas para a brincadeira no Pacaembu! Não seria demais?

P.S.: Do Liceu Leão XIII, do Rio Grande, aos 96 anos, faleceu o padre salesiano Hugo Neves Ferreira, o derradeiro sobrevivente dos meus professores do ginásio. Grande sacerdote e amigo.


*Jurista, ministro aposentado do STF

Cachaça com Arnica - Não deixa o samba morrer (Edson e Aluísio

Dossiê afasta Pimentel da campanha de Dilma

DEU EM O GLOBO
Em meio à crise do dossiê, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel será afastado do comando da campanha da petista Dilma Rousseff, e o grupo de Antonio Palocci se fortalece. Veio de Pimentel a indicação de Luiz Lanzetta, responsável pela montagem de um suposto dossiê contra tucanos. Lanzetta deixou a campanha. O PT mineiro insiste em lançar Pimentel ao governo do Estado, mas a Executiva nacional deve vetar o nome dele e apoiar Hélio Costa (PMDB).

Pimentel será isolado da campanha de Dilma

Supostos dossiês contra Serra complicam ex-prefeito de BH, que será empurrado para cuidar só da própria candidatura

Maria Lima e Fábio Fabrini

ELEIÇÕES 2010: Ligação com Lanzetta enfraqueceu mineiro; presidente do PT e Palocci se fortalecem no comando

BRASÍLIA. O afastamento do jornalista Luiz Lanzetta não será a única baixa no comando da campanha da pré-candidata petista Dilma Rousseff. Considerado um homem-problema não só por causa do episódio dos supostos dossiês contra o tucano José Serra e a vinculação com Lanzetta, mas também devido ao impasse na aliança com o PMDB mineiro, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel será isolado do núcleo duro da campanha. Com isso, se fortalecem no comando o presidente do PT, José Eduardo Dutra, e o deputado Antonio Palocci (SP), que desistiram de disputar a eleição para ter exclusividade na coordenação.

A estratégia para afastar Pimentel sem alarde é empurrá-lo para cuidar de sua candidatura ao Senado ou, numa hipótese menos provável, ao governo de Minas. Ontem, o grupo do exprefeito insistia em lançá-lo como cabeça de chapa, o que a cúpula do PT rejeita. A avaliação reservada entre os petistas é que o braço direito de Dilma vai perder duplamente: seu posto na coordenação da campanha presidencial e a candidatura ao Palácio Tiradentes.

Hoje, a Executiva do PT deve desautorizar o PT mineiro e decidir pelo apoio a Hélio Costa, do PMDB, tendo Pimentel apenas como candidato ao Senado.

Nos bastidores, a direção do PT e o presidente Lula já não perdoavam Pimentel pela aliança em 2008 com o então governador Aécio Neves (PSDB), quando ele afiançou a candidatura de Marcio Lacerda (PSB) e, assim, pôs a prefeitura de Belo Horizonte no colo da oposição. Agora, a sua situação piorou muito por causa da crise do dossiê.

‘Palocci vai ficar mais forte’

Até mesmo aliados de Pimentel reconhecem que ele “foi trapalhão” na escolha de Lanzetta, pois entregou a um amador o núcleo de inteligência da campanha petista. Outro erro teria sido a aproximação com o empresário Benedito Oliveira Neto, proprietário da companhia de eventos Dialog, investigada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria Geral da União (CGU).

De acordo com aliados seus, o afastamento de Pimentel do QG de Dilma vai ocorrer após as convenções partidárias do PMDB e do PT, marcadas para o próximo fim de semana.

A campanha oficial começa dia 5 de julho.

— O Palocci já é muito forte e vai ficar mais forte — admitiu o secretário nacional de Comunicação do PT, deputado André Vargas (PR).

Amigo pessoal de Dilma desde os tempos da militância nos grupos de luta armada, o exprefeito conquistou a antipatia do grupo paulista da pré-campanha petista. Principalmente do coordenador de comunicação, Rui Falcão, e de Palocci.

Falcão — ao descobrir que Lanzetta estaria montando um grupo de espionagem, inclusive do grupo paulista na campanha, e que a operação teria tido o aval de Fernando Pimentel — teria cuidado de vazar as informações sobre a montagem dos supostos dossiês para queimar os dois integrantes do grupo mineiro internamente.

Mesmo com a confusão dos supostos dossiês, Dilma Rousseff tem resistido ao afastamento de Pimentel, apontado como o político mais próximo a ela dentro da campanha.

Mas, ainda assim, a situação dele é insustentável.

O deputado Virgílio Guimarães (PT-MG), do grupo de Pimentel em Minas, nega que o aliado político vá ser afastado da campanha por causa da confusão dos supostos dossiês.

Admite apenas que, se ele for candidato, haverá um afastamento natural.

— Se o Pimentel for candidato ao Senado, ele vai ter que cuidar da campanha dele. Já o Dutra e o Palocci não serão candidatos e poderão se dedicar à campanha de Dilma — disse Virgílio.

Antes do estouro do escândalo dos dossiês, Pimentel e seus aliados apostavam que, mesmo com a sua candidatura ao Senado, ele permaneceria no núcleo da campanha de Dilma. O que agora é praticamente descartado por companheiros petistas.

— Só vou me desligar da campanha da Dilma se for candidato ao governo de Minas.

Se for candidato ao Senado, vou acumular — dissera Pimentel há cerca de dez dias, na sabatina dos candidatos na Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Aliados negam desgaste

Procurado ontem pelo GLOBO, Pimentel não atendeu às ligações.

Outros aliados seus negaram o desgaste e atribuíram o episódio do dossiê a uma reação dos tucanos à escalada de Dilma Rousseff nas pesquisas.

— Isso aí é especulação. O Serra está caindo, não consegue encontrar nenhum vice e agora está indo para o desespero.

Vocês sabem que quem entende de dossiê é o Serra — afirmou o presidente do PT de Minas, Reginaldo Lopes.

Após o desligamento de Lanzetta da campanha, uma nova empresa deverá substituir a sua firma, a Lanza Comunicação, e manter os jornalistas que já estão integrados à assessoria da pré-candidata petista.

Lanzetta anunciou seu afastamento sábado, após publicação de entrevista na qual o exdelegado da Polícia Federal Onésimo de Sousa afirma que foi convidado por Pimentel para uma conversa, no mês passado, mas quem o encontrou foi Lanzetta, que lhe teria proposto montar um grupo de espionagem.

O ex-prefeito nega que tenha proposto a conversa ou a autorizado. Lanzetta admite o encontro, mas afirma ter sido procurado por Onésimo.

Em Minas, acordo com PMDB emperra

DEU EM O GLOBO

Grupo de Pimentel insiste que ele dispute governo do estado

BRASÍLIA e BELO HORIZONTE. Após um dia de tensas negociações, com socos na mesa e troca de acusações, líderes do PT e do PMDB de Minas não chegaram a um acordo sobre o palanque para as eleições no estado. À revelia da cúpula nacional do partido e do presidente Lula, que tentam viabilizar a candidatura do peemedebista Hélio Costa para o governo, os petistas propuseram lançar o ex-prefeito Fernando Pimentel como cabeça de chapa, tendo o presidente do PR mineiro, Clésio Andrade, como vice e Costa como candidato a senador.

Os mineiros planejam boicotar o encontro entre os líderes nacionais de PT e PMDB hoje, em Brasília, para selar um acordo. No mesmo horário, em BH, prometem oficializar a candidatura do ex-prefeito.

A decisão do PT mineiro foi tomada pela manhã, em reunião de apoiadores de Fernando Pimentel com representantes de PR, PRB e PCdoB na casa de Clésio Andrade, em BH. Os peemedebistas faltaram. À tarde, a proposta foi levada por quatro emissários do ex-prefeito a oito integrantes da executiva estadual do PMDB.

Foram três horas de conversa num hotel, que terminou sem qualquer avanço. Aliados de Costa chegaram a socar a mesa, segundo o relato dos presentes. Uma hora antes, o exprefeito reafirmara sua posição em negociação reservada com um apoiador do ex-ministro das Comunicações.

No hotel, os petistas argumentaram que as pesquisas encomendadas pelos dois partidos indicam empate técnico entre Pimentel e Costa.

Contudo, o ex-prefeito tem menor rejeição e é conhecido por fatia menor do eleitorado, o que lhe daria mais chances de crescer e derrotar o governador Antônio Anastasia (PSDB).

— Não adianta apostar num nome que está caindo nas pesquisas e está fadado a perder as eleições — disse um aliado do ex-prefeito antes de entrar no encontro.

Os peemedebistas acusaram o grupo de Pimentel de tentar aplicar um golpe no PMDB.

Ameaçaram não votar pela aliança com Dilma Rousseff na convenção do partido, no próximo sábado, ou mesmo adiá-la. E avisaram que, caso o PT insista em ter a cabeça de chapa, podem aderir à campanha de Anastasia.

— O Pimentel fez uma confusão desgraçada.

Ele se enrolou todo no PT nacional. Agora, vem com essa proposta indecente de ser o candidato, com o Clésio de vice. A insatisfação no PMDB mineiro é tão grande que é bem capaz de a gente votar para não fazer a aliança formal para apoiar Dilma — avisou o ex-senador Wellington Salgado, braço direito de Costa, que acompanhava a reunião à distância.

O PT nacional adiantou que, a despeito de eventuais traumas, vai enquadrar o grupo de Pimentel.

— Este é o momento de Pimentel provar que tem responsabilidade com a campanha da Dilma.

Nós, da direção nacional, decidimos apoiar o PMDB na cabeça de chapa. Se insistirem, só vão aumentar o desgaste dos integrantes da Executiva do PT — avisou André Vargas.

Por palanque no Ceará, tucanos cobram definição de Cid Gomes

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Murillo Camarotto, do Recife

Com a missão de reforçar o palanque de José Serra no Ceará, o PSDB local começa a elevar o tom das cobranças ao governador Cid Gomes (PSB), para que ele se manifeste sobre a chapa que sustentará sua candidatura à reeleição. Até agora, Serra tem como único aliado de peso o senador Tasso Jereissati, o que leva líderes tucanos a sinalizarem com o lançamento de uma candidatura própria ao governo, que daria mais consistência ao palanque do presidenciável.

A posição de Cid, no entanto, é crucial para que o partido defina qual caminho seguir. O ideal para o PSDB é que o governador confirme o apoio a apenas um candidato ao Senado: o do deputado federal Eunício Oliveira (PMDB). Isso deixaria o caminho livre para a reeleição de Tasso, amigo de longa data dos Gomes.

O problema é que o PT, aliado e dono da vaga de vice de Cid, rejeita a possibilidade. Quer a chapa majoritária do governador com o ex-ministro da Previdência José Pimentel (PT) para o Senado.

O apoio de petistas e tucanos proporcionou a Cid uma gestão tranquila, quase sem oposição. Porém, com a proximidade das eleições, chegou a fatura. O governador vem sendo pressionado pelos dois lados, porém se recusa a falar de eleição, para minimizar as inevitáveis perdas que sua decisão acarretará.

O tempo para o rompimento do silêncio, entretanto, está se esgotando. Com as convenções que oficializarão as chapas se aproximando, o PSDB aumenta a pressão. "O governador não pode esperar mais. Nossa convenção está marcada para o dia 19. Até lá, tudo terá que ser resolvido", afirmou o líder do PSDB na Assembleia Legislativa, João Jaime.

Segundo ele, se Pimentel for mesmo confirmado na chapa de Cid, o PSDB deverá lançar candidato próprio ao governo. Estão colocados os nomes do ex-deputado estadual Marcos Cals e do empresário Beto Studart. Também há a possibilidade, menor, de apoio ao ex-governador Lúcio Alcântara, ex-tucano e hoje no PR. Ele teria se oferecido para encabeçar uma chapa composta pelo candidato ao Senado que for preterido por Cid, seja Pimentel ou Tasso.

De acordo com Jaime, uma conversa definitiva entre Cid e Tasso deve ocorrer nos próximos dias. Ele afirmou ainda que o PSDB local não trabalha com a hipótese de que Tasso aceite ser o vice de Serra, possibilidade que ganhou força nos últimos dias na boca do governador de Minas Gerais, Aécio Neves.

Estrategicamente ou não, o fato é que a convenção que lançará a candidatura de Cid Gomes à reeleição foi marcada para 27 de junho, ou seja, três dias antes do fim do prazo estabelecido na legislação eleitoral. A versão corrente no Ceará é de que o governador irá segurar o máximo que puder para divulgar sua chapa. Dessa forma, ele praticamente eliminaria a viabilidade eleitoral de qualquer adversário.

Independentemente de qualquer decisão, o PSDB se movimenta para ganhar musculatura por meio da atração de alguns partidos nanicos. Esta semana, o vice-prefeito de Fortaleza, Tin Gomes (PHS), que é primo do governador, participou de uma reunião com Tasso Jereissati, onde se tratou de potenciais alianças para as eleições proporcionais.

Questionado se encontro poderia gerar irritação na prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), ferrenha adversária de Tasso, o vice-prefeito ironizou. Disse ao jornal O Povo que "sua mãe já havia morrido", dando a entender que uma eventual bronca da prefeita não o assustava.

Desde 1945, Getúlio foi único eleito sem vencer em MG

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Paulo Peixoto

BELO HORIZONTE - De todos os presidentes eleitos no país a partir de 1945, após o declínio do Estado Novo, somente Getúlio Vargas, em 1950, não foi o mais votado pelos eleitores mineiros. Todos os demais presidentes eleitos venceram a disputa eleitoral em Minas.

O Estado é o segundo maior colégio eleitoral do país, com 14,5 milhões de eleitores. Por isso tem peso importante na disputa presidencial, a ponto de PSDB e aliados pressionarem o ex-governador Aécio Neves para ser vice na chapa de Serra.

Na exceção que aconteceu com Vargas, a derrota foi por uma margem de 1,8 ponto percentual dos votos válidos, ou 23.496 votos. Desde 1945 aconteceram nove disputas.

Tanto Fernando Collor (1989) quanto Lula (2002 e 2006) se mantiveram na frente nos dois turnos das disputas que venceram.

Nas eleições após a redemocratização, a maior diferença de votos registrada foi em 1994, quando Fernando Henrique Cardoso abriu 42,9 pontos sobre Lula. A menor ocorreu no primeiro turno da eleição de 2006, quando Lula abriu 10,2 pontos sobre Geraldo Alckmin (PSDB).

Mas, no segundo turno, Alckmin viu a diferença subir para 30,4 pontos.

O fato de haver um candidato do Estado concorrendo à Presidência pode influir. Por isso há esforço da pré-candidata Dilma Rousseff (PT) em reafirmar sua "mineiridade". Essa influência aconteceu em SP, onde Alckmin bateu Lula em 2006 e no Rio, quando Anthony Garotinho venceu Lula em 2002.