sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Para uma nova esquerda – II, por Pablo Ortellado

O Globo

Não souberam ouvir a classe trabalhadora que, pragmaticamente, reivindicava flexibilidade para montar a jornada

Na coluna da semana passada, argumentei que a esquerda precisa abandonar o progressismo moral: a estratégia de tratar temas ainda controversos como direitos humanos inegociáveis e punir quem diverge com estigmas morais, censura nas redes sociais e ameaça de prisão. Hoje, trato de outro terreno em que a esquerda tem tido dificuldade de ouvir aqueles que pretende defender: o desejo dos trabalhadores por mais autonomia.

A esquerda sindical tem feito um enfrentamento ideológico aos trabalhadores que experimentaram e aprovaram formas mais modernas de trabalho que começaram a se difundir com a flexibilização e a uberização. Eles consideraram esse tipo de trabalho menos opressivo, pois permitia distribuir as horas em serviço e evitar a supervisão direta dos chefes.

É claro que as pressões econômicas ainda determinam uma jornada mínima e que os contratantes e os algoritmos exercem controle, mas muitos preferem trabalhar desse jeito novo, como mostram as pesquisas. De cada dez brasileiros, seis preferem trabalhar por conta própria a ser contratados por uma empresa, mostra pesquisa Datafolha do ano passado.

Os trabalhadores descobriram que, em oposição à rigidez do modelo da CLT, era preferível uma jornada de 12 horas num dia e apenas de quatro horas no seguinte, permitindo usar a tarde livre para ir ao posto de saúde ou passar mais tempo com as crianças. Era melhor também responder diretamente ao cliente ou a um algoritmo do que trabalhar para um chefe implicante.

A esquerda sindical atribuiu essa preferência à difusão da ideologia que produzia uma falsa consciência: os trabalhadores eram seduzidos por um discurso que os apresentava como microempresários ou empreendedores, falseando a condição de trabalhadores e bloqueando a conquista de direitos. Não souberam ouvir a classe trabalhadora que, pragmaticamente, reivindicava flexibilidade para montar a jornada e diminuir a opressão dos chefes.

Essa reivindicação poderia ter sido atendida pela esquerda sindical se, em vez de olhar para o passado, para o modelo dos direitos ligados ao trabalho subordinado, olhasse para a tradição operária que enfatizava a opressão do trabalho hierárquico e valorizava o autogoverno e a redução da jornada.

Em outras palavras, se a esquerda sindical tivesse escutado os trabalhadores, poderia ter incorporado essa demanda espontânea se apoiando em correntes dissidentes de sua própria tradição, por meio de teóricos do trabalho autônomo ou autogerido, como André Gorz na França ou Paul Singer no Brasil. Em vez disso, preferiu enfrentar os trabalhadores, acusando-os de alienados, negando a escolha que haviam feito a partir da vivência concreta nos dois regimes.

O movimento operário nasceu denunciando o despotismo da fábrica e sonhando com o autogoverno do trabalho. Em algum momento, a esquerda passou a defender a subordinação como se fosse uma conquista, desde que viesse acompanhada de direitos.

Essa dificuldade de escuta ficou evidente na tentativa de regulamentar o trabalho dos motoristas por aplicativo em 2024. Os sindicalistas que a conduziram ficaram lamentando que a categoria não aceitasse o sistema de direitos da CLT e, depois de cederem com relutância a um modelo de flexibilidade com direitos, a rigidez das regras propostas, combinadas à falta de legitimidade das lideranças, levou a protestos dos motoristas e a um recuo do governo. A perda de legitimidade junto aos trabalhadores tem impacto político enorme. Se Uber e 99 fossem empresas convencionais, teriam mais trabalhadores que as dez maiores empresas brasileiras somadas.

Estabeleceu-se, assim, um falso antagonismo entre trabalho subordinado com direitos e trabalho flexível sem direitos. Os trabalhadores não aceitam essa escolha. Na mesma pesquisa Datafolha, dois terços dizem preferir a carteira assinada, mesmo com salário menor, a um trabalho sem carteira mais bem remunerado. Querem ao mesmo tempo flexibilidade e proteção.

Enquanto a esquerda for incapaz de oferecer uma saída, os trabalhadores continuarão encontrando apoio nos discursos da direita, que lhes reconhece a autonomia, ainda que não lhes ofereça direito algum. Entre direitos sem liberdade e um pouco de liberdade sem direitos, muitos têm escolhido a segunda opção. A esquerda não deve abrir mão da proteção ao trabalhador, mas precisa defendê-lo de outra maneira: não mais como contrapartida da subordinação, mas como garantia de mais autonomia.

 

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