O Globo
Não souberam ouvir a classe trabalhadora que,
pragmaticamente, reivindicava flexibilidade para montar a jornada
Na coluna da semana passada, argumentei que a
esquerda precisa abandonar o progressismo moral: a estratégia de tratar temas
ainda controversos como direitos humanos inegociáveis e punir quem diverge com
estigmas morais, censura nas redes sociais e ameaça de prisão. Hoje, trato de
outro terreno em que a esquerda tem tido dificuldade de ouvir aqueles que
pretende defender: o desejo dos trabalhadores por mais autonomia.
A esquerda sindical tem feito um enfrentamento ideológico aos trabalhadores que experimentaram e aprovaram formas mais modernas de trabalho que começaram a se difundir com a flexibilização e a uberização. Eles consideraram esse tipo de trabalho menos opressivo, pois permitia distribuir as horas em serviço e evitar a supervisão direta dos chefes.
É claro que as pressões econômicas ainda
determinam uma jornada mínima e que os contratantes e os algoritmos exercem
controle, mas muitos preferem trabalhar desse jeito novo, como mostram as
pesquisas. De cada dez brasileiros, seis preferem trabalhar por conta própria a
ser contratados por uma empresa, mostra pesquisa Datafolha do ano passado.
Os trabalhadores descobriram que, em oposição
à rigidez do modelo da CLT, era preferível uma jornada de 12 horas num dia e
apenas de quatro horas no seguinte, permitindo usar a tarde livre para ir ao
posto de saúde ou passar mais tempo com as crianças. Era melhor também
responder diretamente ao cliente ou a um algoritmo do que trabalhar para um
chefe implicante.
A esquerda sindical atribuiu essa preferência
à difusão da ideologia que produzia uma falsa consciência: os trabalhadores
eram seduzidos por um discurso que os apresentava como microempresários ou
empreendedores, falseando a condição de trabalhadores e bloqueando a conquista
de direitos. Não souberam ouvir a classe trabalhadora que, pragmaticamente,
reivindicava flexibilidade para montar a jornada e diminuir a opressão dos
chefes.
Essa reivindicação poderia ter sido atendida
pela esquerda sindical se, em vez de olhar para o passado, para o modelo dos
direitos ligados ao trabalho subordinado, olhasse para a tradição operária que
enfatizava a opressão do trabalho hierárquico e valorizava o autogoverno e a
redução da jornada.
Em outras palavras, se a esquerda sindical
tivesse escutado os trabalhadores, poderia ter incorporado essa demanda
espontânea se apoiando em correntes dissidentes de sua própria tradição, por
meio de teóricos do trabalho autônomo ou autogerido, como André Gorz na França
ou Paul Singer no Brasil. Em vez disso, preferiu enfrentar os trabalhadores,
acusando-os de alienados, negando a escolha que haviam feito a partir da
vivência concreta nos dois regimes.
O movimento operário nasceu denunciando o
despotismo da fábrica e sonhando com o autogoverno do trabalho. Em algum momento,
a esquerda passou a defender a subordinação como se fosse uma conquista, desde
que viesse acompanhada de direitos.
Essa dificuldade de escuta ficou evidente na
tentativa de regulamentar o trabalho dos motoristas por aplicativo em 2024. Os
sindicalistas que a conduziram ficaram lamentando que a categoria não aceitasse
o sistema de direitos da CLT e, depois de cederem com relutância a um modelo de
flexibilidade com direitos, a rigidez das regras propostas, combinadas à falta
de legitimidade das lideranças, levou a protestos dos motoristas e a um recuo
do governo. A perda de legitimidade junto aos trabalhadores tem impacto
político enorme. Se Uber e 99 fossem empresas convencionais, teriam mais
trabalhadores que as dez maiores empresas brasileiras somadas.
Estabeleceu-se, assim, um falso antagonismo
entre trabalho subordinado com direitos e trabalho flexível sem direitos. Os
trabalhadores não aceitam essa escolha. Na mesma pesquisa Datafolha, dois
terços dizem preferir a carteira assinada, mesmo com salário menor, a um
trabalho sem carteira mais bem remunerado. Querem ao mesmo tempo flexibilidade
e proteção.
Enquanto a esquerda for incapaz de oferecer
uma saída, os trabalhadores continuarão encontrando apoio nos discursos da
direita, que lhes reconhece a autonomia, ainda que não lhes ofereça direito
algum. Entre direitos sem liberdade e um pouco de liberdade sem direitos,
muitos têm escolhido a segunda opção. A esquerda não deve abrir mão da proteção
ao trabalhador, mas precisa defendê-lo de outra maneira: não mais como
contrapartida da subordinação, mas como garantia de mais autonomia.

Um comentário:
Perfeito.
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