sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Lula roda, roda, mas pouco se mexe, por Vera Magalhães

O Globo

Até aqui, pesquisas mostram que aproximação entre petista e Flávio Bolsonaro se dá mais por desgaste do candidato do PL na margem de erro

Os jovens tomaram as ruas, os influenciadores de esquerda tomaram as redes, o presidente e o vice aprenderam a fazer vídeo selfie, a caneta sem tinta foi trocada por um carregamento de outras novinhas em folha do primeiro para o segundo turno, mas Lula pouco ou nada se moveu nas pesquisas.

A aproximação registrada da semana passada para esta se deveu, antes à perda de fôlego de Flávio Bolsonaro, na margem de erro, que a uma lufada de otimismo com o governo e com a perspectiva de um quarto mandato para o petista, e esses são aspectos cruciais para a virada inédita que ele precisa alcançar.

Cientistas políticos e especialistas em destrinchar pesquisas são unânimes em apontar, desde o início desta atribulada corrida eleitoral, a excentricidade de um incumbente conseguir permanecer no cargo se o saldo entre aprovação e rejeição a seu governo for negativo.

Quaest e Datafolha desta semana atestam que, entra medida, sai medida, Lula mantém o ponteiro dessa equação no vermelho, num sinal bastante tangível de cansaço sistêmico e não atacável na base de anúncios cada vez mais aleatórios e claramente eleitoreiros.

A aproximação entre ele e Flávio parece resultar, neste momento, mais do temor com a avalanche de direita que saiu das urnas no dia 4 e com o que ela pode significar em termos de poder nas mãos da família Bolsonaro — com seu conhecido histórico de tentar fazer passar a boiada em áreas como meio ambiente, cultura, direitos civis, liberdade de imprensa e limites democráticos — do que de uma percepção tardia de que o governo é bom, mas a população não sabia valorizar.

Nenhum dos dois levantamentos conseguiu captar a tempo um potencial efeito da aprovação do fim da escala de trabalho de seis dias por um de descanso, conjugado à redução da jornada de trabalho semanal para 40 horas, mas é preciso frisar que outras políticas públicas, mesmo voltadas a um público maior, como a reforma do Imposto de Renda, não foram capazes de produzir efeito duradouro numa aprovação de governo que oscila em patamares abaixo de 50% há mais de um ano.

A rejeição a Lula segue colossal, em patamar de igualdade com a de Flávio, é verdade, mas quem tem a iniciativa da agenda neste momento, justamente por estar na cadeira, é o presidente, e esse excesso de movimentação, além de evidenciar a completa abolição de limites no recurso ao cargo e aos cofres para reverter a desvantagem eleitoral, não parece devolver ao petista aquilo que ele foi perdendo ao longo dos últimos quatro anos: a capacidade de acenar a certos grupos da população com um projeto claro de futuro para o país.

Nada disso significa que a eleição esteja definida, e que a vitória no Senado não possa significar, finalmente, a percepção de que Lula tem mais condições históricas e políticas de promover mudanças incrementais de fundo na vida dos trabalhadores. Isso pode ser facilitado se Lula e o PT souberem contar de forma didática a lamentável desfaçatez de Flávio e seus aliados, que deram um cavalo de pau em tudo o que diziam sobre o fim da escala 6x1 enquanto prometiam ao pé do ouvido dos empregadores que era tudo teatrinho e depois reverteriam a mudança.

Mas, como se sabe, o tempo do segundo turno é curto, e, numa disputa em que o eleitor todo dia tem de fazer uni, duni, tê para escolher quem é o menos pior, qualquer lance pode ser decisivo. As entrevistas iniciadas ontem na TV Globo e os debates da emissora, na antevéspera do pleito, e da Band, domingo agora, tendem a funcionar como tira-teima para que o eleitor faça essa que parece cada vez mais uma escolha de Sofia.

Será a chance de Lula galvanizar a experiência, a lufada de energia que recebeu dos jovens, o legado e o temor com a volta dos Bolsonaros ao poder para sair do lugar em que está estacionado, a despeito de tanta energia despendida, e vencer por pouco, contrariando uma escrita de todas as eleições disputadas em segundo turno desde a redemocratização.

 

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