Folha de S. Paulo
Efeito de medidas do governo ainda pode se
espalhar; deslize na TV será grave
Candidaturas da extrema direita têm ganhado
votos na reta final desde 2018
Em dez dias, Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
precisa tirar ao menos 1,2 milhão de votos de Flávio
Bolsonaro (PL)
a fim de ter chance de vitória. Essa aritmética elementar leva em conta que a
diferença de Flávio para Lula está em dois pontos percentuais, segundo pesquisa
Datafolha
divulgada
nesta quinta (15). Supõe que a quantidade de brancos, nulos e abstenções
será a mesma do primeiro turno; que Lula não perderá votos.
Qual lance espetacular ou político pode ainda
pesar?
Antes de mais nada, recorde-se que a votação da extrema direita aumentou nas vésperas da eleição e na boca da urna de 2018, 2022 e no primeiro turno de 2026. Não é lei da natureza dos votos, mas aconteceu.
Quanto às medidas de Lula 3 a fim de salvar
votos na bacia das almas, pode ser que ainda não tenham chegado ao eleitor. O fim da
escala 6x1 foi aprovado na noite de quarta (14), assim como
benefícios para MEIs, microempreendedores que são pedra no sapato
luliano. O reajuste do
Bolsa Família começa a pingar no dia 19. Agora vem a promessa
desesperada de transporte grátis. Etc. Não houve ainda tempo para
que aparecessem no Datafolha.
A impressão que o eleitor vai ter dessas
medidas depende de muitos filtros e barreiras. Por exemplo, a rejeição
encarniçada a Lula, o jeitão com que a coisa toda vai aparecer depois da
peneira das mídias sociais e, também, da avaliação crítica do cidadão, mesmo do
suposto beneficiário das providências, que pode reclamar do oportunismo.
Lula perdeu eleitores pobres, do Nordeste, de
cidades pequenas. Terão ficado comovidos com estudantes,
petistas e antibolsonaristas que foram em massa às ruas das cidades
médias e grandes depois do primeiro turno? Lula perdeu ainda parte relevante do
microcentro, essencial em 2022. O que dirá a essas pessoas? A mulher jovem, de
renda miúda e que fez o ensino médio é o indeciso mais típico.
A rejeição a
Lula (46%) é maior do que a de Flávio Bolsonaro (44%). O saldo da
avaliação do governo Lula 3 ainda está no vermelho. É pior do que o
de Jair Bolsonaro em 2022, no mesmo momento da campanha.
Virada nas abstenções é loteria, embora
qualquer sucesso seja relevante em eleição tão apertada. Eleitores registrados
não votam porque já se foram desta vida, porque estão doentes ou de outro modo
incapacitados, não têm recursos para ir até a urna, moram longe do domicílio
eleitoral ou são decididamente contra votar. Sobra pouco.
Haveria dois debates até o dia do juízo
final. Seja lá o que se pense deles e do alcance da TV, um fracasso será
decisivo. Deslizes parecem avalanches ruinosas no telescópio das redes. Mais do
que nunca, mentiras e verdades pouco vão importar, perdidas de resto em
baixarias típicas de polêmicas de redes e lacrações.
Flávio tem trunfos. A atuação de Lula e da
esquerda na segurança é fracasso de crítica e público. Segurança,
saúde e "economia" costumam ser as três preocupações
maiores que os eleitores declaram nas pesquisas. Desta vez, segurança está um
tico na frente. O custo de vida alto tem apelo em particular para aquela parte
do povo miúdo que deixou de votar em Lula.
Acusações de corrupção não vão convencer
convertidos e, no tiroteio, podem parecer ao indeciso apenas o sujo falando do
mal lavado. Mais do que a ficha corrida de Flávio, pode importar seu histórico
de declarações antissociais. Vai se explorar o medo da vitória do outro. Mais do
que tudo, falta um sinal sincero e crível de esperança.
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