sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Triunfalismo levou disputa a empate, por César Felício

Valor Econômico

Jamais houve viradas no segundo turno, mas pesquisa se assemelha a virada de Dilma sobre Aécio em 2014

A diminuição do volume de campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na última semana, ocupado em sentar em uma cadeira que ainda não é sua, cobrou seu preço. A candidatura bolsonarista perdeu fôlego de acordo com o levantamento divulgado nesta quinta-feira pelo Datafolha, recuando de 49% para 47%.

Esta oscilação para baixo não migrou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que permaneceu em 45% de intenção de voto, com desaprovação de governo e avaliação negativa da administração em alta de um ponto percentual. Mas ainda não decantou a maré de anúncios impactantes gerados pelo Palácio do Planalto, como a aprovação do fim da escala de trabalho 6x1 e o pacote de bondades para microempreendedores individuais.

O que a pesquisa já reflete em sua plenitude foram as massivas manifestações da esquerda no fim de semana em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Estas manifestações foram importantes do ponto de vista do petismo para mobilizar um eleitor que se sentiu derrotado no primeiro turno, mas talvez tenham assustado o eleitor não alinhado.

Em São Paulo, por exemplo, há uma tradicional aversão do eleitor a campanhas eleitorais de rua. É um lugar comum encontrar um paulistano que se queixe da sujeira dos santinhos no dia da eleição, das alterações no trânsito, das bandeirolas nos cruzamentos, como se a eleição fosse uma micareta irritante a perturbar o cotidiano. Os propagandistas de Flávio foram hábeis em explorar cortes de imagens de militantes esquerdistas promovendo desordem, com boa dose de desinformação. Usaram uma imagem de consumo de drogas que na realidade aconteceu no Chile. No Sudeste, de acordo com a pesquisa, Flávio está com 51%, ante 41% de Lula. Os cruzamentos do Datafolha mostram uma única inversão de tendência: na faixa de 16 a 24 anos Lula agora está na frente por 50% a 43%, quando na semana passada o placar era inverso, a favor de Flávio.

O eleitor jovem costuma se abster mais, mesmo no segmento acima de 18 anos, em que o comparecimento é compulsório. Segundo o cientista político Jairo Nicolau constatou em sua obra “O Brasil dividido”, a presença nas urnas ficou ligeiramente abaixo de 80% nas eleições de 2014, 2018 e 2022, enquanto entre os 30 e 69 anos ficou acima de 80%. Este é um indício de que Lula de alguma forma está motivando um eleitor mais propenso à abstenção.

A hipótese de Lula conseguir ganhos em cima da abstenção, mais do que virando votos do adversário, já havia se desenhado no levantamento divulgado na véspera, da Quaest, em que Flávio ficou com 46% e o petista com 44%. A pesquisa Quaest levantou a intenção de voto entre os que não foram votar e, neste universo, Lula prevalece.

Um dado positivo para o presidente é que ele oscilou um ponto percentual para cima na pesquisa espontânea, sem a apresentação dos nomes, o que indica um voto consolidado. Passou de 44% para 45%, enquanto Flávio permaneceu com 46%.

Jamais houve viradas no segundo turno, mas a pesquisa de hoje guarda similitude com a que o Datafolha divulgou em 15 de outubro de 2014, em que Aécio Neves tinha 45% e Dilma Rousseff 43%. A petista passou à frente no levantamento da semana seguinte.

 

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