sexta-feira, 16 de outubro de 2026

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Oportunismo de Flávio se une ao de Lula contra a 6x1

Por Folha de S. Paulo

PEC tem votação acachapante no Senado sem consenso político; pressa eleitoreira prejudicou debate

Não é segredo que o PL, que ampliou sua bancada no pleito deste ano, articula um projeto alternativo, que permitiria uma jornada flexível

A proposta de emenda constitucional que elimina a escala de trabalho 6x1 foi aprovada pelo Senado com votação acachapante de 75 votos favoráveis e apenas um contrário. O placar, no entanto, está longe de espelhar um consenso político em torno da medida.

O que sobrou no plenário foi oportunismo eleitoreiro —e ao do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), patrocinador da PEC no último ano do mandato presidencial, somou-se o da oposição temerosa de perder apoios, a começar por Flávio Bolsonaro (PL).

Até há pouco um crítico da proposta, o candidato ao Planalto e senador pelo Rio ajudou com seu voto pela internet a derrubar a escala de seis dias de trabalho e a jornada de 44 horas semanais.

Não é segredo que seu partido —que ampliou consideravelmente sua bancada no Congresso no pleito deste ano— articula um projeto alternativo, que permitiria uma jornada flexível baseada em horas trabalhadas.

A PEC aprovada sem dúvida tem apelo popular, e por boas razões. Segundo o Datafolha apurou em março, 71% dos brasileiros aptos a votar a apoiavam, ante 27% contrários. A aspiração por mais tempo livre e qualidade de vida é obviamente legítima, mas os parlamentares se eximiram da tarefa de examinar a fundo a viabilidade e os custos da medida.

Estudos indicam que os impactos podem ser absorvidos pela economia, mas ainda assim deve haver perdas para o crescimento e pressões sobre a inflação, além de riscos de informalidade. Alguns setores, incluindo comércio e construção civil, tendem a sofrer bem mais que outros.

A propaganda governista da proposta —que até então nunca fizera parte da agenda do PT— conseguiu acuar uma oposição de direita carente de conteúdo programático. Flávio Bolsonaro, que também já mudou de opinião sobre o Bolsa Família e o Farmácia Popular, chega à reta final da corrida presidencial sem quase nada revelar de seus planos e convicções sobre temas centrais.

Seus auxiliares econômicos acenam com um ajuste fiscal vigoroso, mas ele desautoriza ideias que afetem as grandes despesas, como benefícios sociais, saúde e educação, além de prometer a redução de impostos. As contas não fecham em nenhuma matemática conhecida.

Uma das funções de uma campanha eleitoral é estabelecer compromissos entre o candidato e os eleitores, de modo que a concessão do mandato não se torne uma aposta no escuro. Nesse quesito, a atual campanha foi bastante prejudicada pela combinação de polarização exacerbada, escândalo do Banco Master, crise no Supremo Tribunal Federal (STF), ausência de debates e medidas eleitoreiras em série.

Em qualquer desfecho da disputa, é incerto o futuro não apenas da jornada de trabalho como das demais benesses distribuídas nos últimos meses, semanas e dias. Além da incógnita política, haverá uma crise orçamentária agravada a enfrentar.

Leão 14 lida com a doença antes de consolidar seu papado

Por Folha de S. Paulo

Cirurgia e diagnóstico de câncer foram tratados com transparência pelo pontífice

Histórico de saúde sugere boa capacidade de recuperação; tratamento potencialmente debilitante coloca dúvida sobre o futuro imediato

Eleito papa em maio de 2025, Robert Prevost trouxe para a Santa Sé uma vitalidade inaudita entre pontífices desde que João Paulo 2º começou seu calvário público, nos anos 1990. Tanto Bento 16, que renunciou devido à idade, quanto Francisco exsudavam fragilidade.

Praticante de tênis, sem histórico de problemas sérios de saúde e com meros 69 anos ao assumir, o primeiro papa americano parecia iniciar uma caminhada longa para consolidar seu trabalho à frente do Vaticano.

A notícia de que precisaria remover um nódulo do pulmão e o subsequente diagnóstico de câncer, assim, causaram consternação entre o 1,4 bilhão de católicos e entre os que veem no agora papa Leão 14 uma força promissora na arena global.

Neste ano e meio, o papa assumiu uma voz firme contra o populismo que grassa em escala planetária e foi crítico das políticas do americano Donald Trump.

Rejeitou o tratamento desumano a imigrantes, a guerra no Irã, a expansão de gastos militares. De forma mais ampla, disse que conceitos da extrema direita são incompatíveis com o cristianismo.

Na doutrina, promove um ajuste no equilíbrio de forças internas na Igreja, evitando o progressismo desabrido do antecessor.

Se não comanda mais divisões, como ironizou Josef Stálin em 1935, Prevost conhece o poder da instituição que lidera, assim como testemunharam sucessores do ditador soviético ante o papel do polonês João Paulo 2º no desmantelamento do comunismo no Leste Europeu.

Para estruturar seu governo, o papa precisa de aliados. Ele ainda não teve a oportunidade de criar cardeais, esperando o número de integrantes do colegiado máximo da Igreja baixar do teto presumido de 120 eleitores com menos de 80 anos.

Cada pontífice busca um Colégio Cardinalício próximo de seu pensamento, e Leão 14 não começou seu desenho. Agora, a necessidade de dedicar-se a um tratamento de saúde potencialmente debilitante coloca uma interrogação sobre o futuro imediato.

Prevost tem 71 anos e é vigoroso. A depender da evolução de seu quadro, algo sujeito a inúmeras variáveis, tudo sugere que ele possa se recuperar plenamente —mas talvez não a ponto de realizar a viagem à América Latina prevista para novembro.

Por ora, o caso deixou uma notável marca: a transparência. Leão 14 divulgou a cirurgia em audiência pública e, logo após a intervenção na terça (13), o boletim do hospital já qualificava o tumor como adenocarcinoma pulmonar, sem eufemismos.

O triunfo do populismo

Por O Estado de S. Paulo

Por 75 votos a 1, Senado aprova o fim da escala de trabalho 6x1, dá uma bandeira eleitoral para Lula e expõe a pusilanimidade da oposição. O País pagará caro por isso

Como até as pedras sabiam, o Senado aprovou com imensa folga a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 no País e que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Estrategicamente pautada para impulsionar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre o primeiro e o segundo turno da eleição, a PEC contraria tudo aquilo de que o País precisa para crescer. Só impressionou mesmo a pusilanimidade da oposição, que embora contasse com uma bancada de cerca de 30 senadores, suficiente para dar um pouco de trabalho ao governo, abriu mão de fazer o mínimo que se esperava dela e defender o setor produtivo.

O momento para aprová-la não poderia ser pior. O desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em agosto, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o menor nível da série. O número de pessoas ocupadas subiu a 103,5 milhões, o maior da série histórica, enquanto o rendimento médio dos trabalhadores atingiu R$ 3.777, ligeiramente menor que o recorde de R$ 3.795 registrado no trimestre encerrado em março.

É o retrato de um mercado de trabalho excessivamente aquecido. Falta mão de obra para todo tipo de ocupação no País. Não é preciso circular muito pelas grandes cidades brasileiras para encontrar inúmeros anúncios de vagas abertas há meses em farmácias, supermercados, bares, restaurantes, construção civil, hospitais e hotéis. É óbvio que todos querem trabalhar menos e ganhar mais, mas é improvável que estejam dispostos a pagar mais caro pelos produtos e serviços que adquirem.

Se o cidadão comum não conseguiu fazer a relação entre uma coisa e outra, as empresas certamente já fizeram os cálculos do impacto do pagamento de horas extras e de novas contratações em seus resultados e já sabem quanto será preciso aumentar seus preços para não afetar os resultados. Uma oposição minimamente responsável teria ao menos tentado discutir essas contradições em plenário e se utilizado das inúmeras manobras que o Regimento do Senado permite para adiar a votação.

Mas o principal adversário de Lula na eleição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nem sequer estava fisicamente no plenário. Após passar os últimos meses manifestando seu repúdio à proposta, Flávio mudou de posição faltando horas para a votação e se limitou a registrar voto favorável a distância durante uma agenda de campanha qualquer em Porto Alegre, como se esse fosse um tema de menor relevância para a sociedade brasileira.

É cômodo culpar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), por ter pautado a PEC e “encurralado” o senador em um momento crucial da disputa presidencial. Mas a aprovação de uma PEC não é algo simples. Entre todas as proposições legislativas, as PECs são as mais difíceis de serem aprovadas: requerem apoio equivalente a três quintos dos parlamentares, o que significa no mínimo 49 senadores em dois turnos de votação.

Sem o apoio de outros partidos, o PT jamais conseguiria acelerar o rito de tramitação e obter maioria qualificada para a PEC. Mas se o candidato da oposição não demonstrou disposição a assumir uma posição por receio de perder votos, não seriam os demais senadores que o fariam – sejam os que acabaram de ser reeleitos, sejam os que terão de deixar a Casa no ano que vem. Defender a aprovação da PEC que estabelece remuneração por hora trabalhada como alternativa depois que o texto já havia sido aprovado não reduz o desgaste com o setor produtivo e ainda sugere incoerência com o eleitor.

O País pagará um preço altíssimo por tamanho populismo coletivo. No curto prazo, o custo do trabalho vai aumentar, a competitividade de nossos produtos vai cair, a inflação vai subir e nossa pífia produtividade vai minguar, derrubando, consequentemente, o crescimento econômico. No médio e longo prazo, as empresas que puderem investirão em tecnologia e automação para substituir trabalhadores de baixa qualificação, ampliando a informalidade que já é bastante elevada. Caberá ao próximo presidente da República lidar com mais esse pepino.

 

 

 

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