Valor Econômico
Os resultados das eleições presidenciais de 2026 vão ser decisivos para ver quem defende o espírito democrático estabelecido pela Constituição de 1988 e quem aposta na destruição de seu legado
Um paradoxo marca a disputa presidencial de
2026: no primeiro turno, predominou um clima de insatisfação e desânimo entre
os eleitores, o que agora é contrabalançado no segundo turno pela enorme mobilização
nas ruas e nas redes sociais. Ambos os sentimentos são expressão dos avanços
democráticos do país e seus limites. O voto e a participação popular continuam
muito relevantes, mas há pontos problemáticos nas instituições e um medo de
retrocesso democrático. O que está em jogo é como fortalecer e melhorar a
democracia brasileira.
O Brasil não tem tradição democrática forte em sua história. Ao contrário, foram predominantes o autoritarismo e formas oligárquicas, com exclusão de muitos atores da participação política plena e acesso privilegiado ao poder para determinadas elites. Somente a partir da redemocratização que depôs o regime militar e, mais ainda, com a promulgação da Constituição de 1988 é que a democracia se tornou o eixo central da política brasileira.
Cerca de quarenta anos depois, dentre os
vários avanços democráticos obtidos, três mais amplos podem ser destacados. O
primeiro é o processo ininterrupto de eleições livres e competitivas, em todos
os níveis da Federação. Houve alternância no governo em várias esferas, a
oportunidade de eleger ou punir os representantes e nunca um partido ou um
líder teve a força para ser dono do eleitor. Grupos conseguem ter maior hegemonia
por um tempo, mas até agora houve pluralismo político e social suficiente para
controlar os excessos do poder.
A existência de governantes de partidos
diferentes nos estados da Federação e em importantes cidades do país constitui
uma das formas de pluralismo. A necessidade de construir coalizões no Congresso
Nacional também evitou um poder desmedido nas mãos do presidente da República.
Como contraponto, criticava-se a necessidade de negociações contínuas e as
formas que elas se realizavam, esse sim um ponto delicado para republicanização
do sistema político. Entretanto, imagine o que pode acontecer se não houver
freios e contrapesos advindos do próprio voto. Esse medo deve nos guiar para
evitarmos formas de autocratização, ao estilo do PRI mexicano ou, pior, da
Rússia de Putin, e ainda na mesma linha de casos como da Nicarágua e El
Salvador contemporâneos.
O combate à concentração do poder não ficou
apenas no pluralismo derivado das eleições. Um segundo avanço democrático
derivado da Constituição de 1988 foi a criação de um sistema institucional
baseado em múltiplos controles. A fiscalização de governantes, agentes
políticos e da burocracia pública aumentou, obrigando-os a responder mais a
critérios de probidade, legalidade e mesmo de qualidade das políticas públicas.
Ministério Público, tribunais de contas, magistratura e órgãos como a Receita
Federal e a Polícia Federal puderam atuar para ampliar a responsabilização
democrática do país.
Nem sempre as instituições de controle agiram
corretamente. No caso da Lava-Jato, obviamente havia casos de corrupção
detectados, porém, a ânsia por poder de parte dos seus protagonistas os levou a
burlar normas legais e direitos básicos de defesa. O STF também tem sido
essencial na defesa da Constituição e da democracia - sem ele, teríamos tido
sim um golpe de Estado no final do governo Jair Bolsonaro. Não obstante, o
excesso de monocratismo dos ministros e a sua entrada direta no jogo político
têm atrapalhado o seu papel constitucional.
Dessa argumentação deriva uma dupla conclusão.
De um lado, é fundamental ter controles institucionais fortes sobre os eleitos,
bem como sobre outros agentes políticos e burocráticos. Se o Supremo Tribunal
Federal, a PF, o Ministério Público e os tribunais de contas forem
enfraquecidos, parte da democracia brasileira vai para o ralo. Mas, por outro
lado, os controladores não devem estar acima da lei e precisam ser contidos
quando ultrapassam os parâmetros constitucionais básicos. A democracia não pode
suportar nenhum tipo de excesso de poder.
O avanço democrático recente ancorou-se
principalmente na expansão e garantia de um conjunto amplo de direitos, com
ênfase para os grupos minoritários e mais vulneráveis. Como terceira grande
conquista, esse ponto é central porque a democracia tem seu ponto de partida na
cidadania. Quanto mais os cidadãos puderem alargar suas possibilidades e
oportunidades, mais democrática será uma nação.
Direitos políticos, civis e sociais foram
ampliados pela nova ordem democrática. Analfabetos ficaram quase um século sem
votar e foram incluídos integralmente na arena eleitoral. Comunidades indígenas
foram exploradas por décadas e ganharam proteções especiais. Infelizmente, os
feminicídios ainda são uma marca horrenda de nossa sociedade, mas também houve
uma ampliação inédita das formas de proteção às mulheres. A lista é longa e
poderiam ser citadas conquistas vinculadas à questão racial ou às pessoas com
deficiência. Desigualdades de tratamento persistem, só que existem agora
mecanismos democráticos para combatê-las.
A ampliação das oportunidades e da igualdade
por meio de políticas sociais foi um campo central na luta por direitos. A
expansão da educação, a universalização da saúde e a garantia de condições
básicas à população mais pobre são conquistas civilizatórias que terão sempre
muita gente para defendê-las no Brasil. A tentativa de extinguir ou reduzir
programas sociais bem-sucedidos leva os governantes a perder a maior parte de
sua popularidade. Essa é uma das heranças da Constituição de 1988 que será
muito difícil de ser suplantada enquanto houver democracia.
A liberdade para se associar, expressar
opiniões e ir às ruas é uma marca dessa era de direitos impulsionada pela
redemocratização. A participação social não substitui o voto, contudo, os
eleitos precisam prestar atenção nas mobilizações populares porque elas podem
retirar a legitimidade e os cargos dos políticos. Em outras palavras, ganhar
eleições é central na democracia, mas não define completamente o jogo
democrático porque o povo brasileiro é livre para cobrar cotidianamente quem
está no poder.
É importante lembrar disso num momento em que
surgem grandes manifestações de massa que, como muitas outras do passado,
apontam que maiorias eleitorais de ocasião não dão direitos a representantes ou
para os possíveis presidentes, seja Bolsonaro ou Lula, fazerem o que bem
entenderem. A sociedade organizada ainda é um limite para a ação dos políticos
eleitos. Por isso, muitos deles preferem a PEC da Blindagem ou mesmo projetos
autocráticos de poder, e nessas horas que a voz das ruas precisa ser acionada -
do contrário, ela poderá ser calada por muitos e muitos anos.
Os limites à democracia brasileira existem e
ficaram mais claros nos últimos tempos. A entrada do crime organizado na
política, a falta de controle sobre os recursos públicos nas mãos de
parlamentares e presidentes de partidos, o debilitamento de um STF politizado e
com membros enrolados com negócios privados tenebrosos, entre outros pontos,
revelam que precisamos continuar numa trilha de reformas democráticas.
Se a maior parte do eleitorado parecia
desanimada e insatisfeita no primeiro turno é porque desejava mais democracia,
e não menos. Do mesmo modo, se houver propostas que reduzam o escopo de
direitos das pessoas e que limitem a possibilidade de controle do poder, há
boas chances de haver reação social contra isso. Uma nova leva de lideranças
jovens mostrou nesta eleição que o espaço para renovação começa a ser ocupado e
as lideranças políticas precisam prestar atenção neste fenômeno.
A potencialidade democrática do país,
sedimentada durante as últimas décadas, não é líquida e certa, todavia.
Discursos e comportamentos autoritários estão presentes não só em lideranças
políticas e movimentos partidários, como também em parte da população. Não se
sabe se um projeto autocrático tem chance de acontecer efetivamente porque ele
depende de muitas variáveis, mas há mais chances de ele ser ativado se duas
coisas estiverem presentes: uma sensação de desordem social, pois a extrema
direita aposta no caos para instalar gradativamente um modelo autoritário, e
uma posição geopolítica que enfraqueça a soberania nacional.
Defender um Brasil soberano, no momento, não
é apenas um nacionalismo vinculado a correntes políticas. A soberania hoje está
atrelada à capacidade de evitar ataques à nossa democracia. Lutar pelo
autogoverno dos brasileiros, e não ser governado por ordens emanadas de fora, é
central para garantir os direitos de cidadania que custaram muitos para serem
conquistados e instalados na Constituição de 1988.
Os resultados das eleições presidenciais de
2026 vão ser decisivos para ver quem defende o espírito democrático
estabelecido pela Constituição de 1988 e reformas que sempre devem atualizá-la,
e quem aposta na destruição do legado da redemocratização, enfraquecendo
direitos de minorias e políticas públicas ampliadoras da cidadania. Se o
segundo lado vencer o jogo, haverá uma disputa dos defensores da liberdade e da
igualdade, com muita movimentação de rua, contra a possibilidade de começarmos
a década seguinte com um regime mais autocrático do que democrático.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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